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- Antes, agora e depois: a nostalgia se camufla de novidade?
Por Louise Farias Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet Nas últimas semanas, tenho assistido e lido conteúdos que me fizeram pensar sobre a nostalgia. Você sabia que a nostalgia já foi considerada uma doença grave? O conceito surgiu em 1688, quando o médico suíço Johannes Hofer estudou, em sua dissertação, soldados suíços que estavam em combate longe da sua terra natal. Nostalgia vem da junção de duas palavras gregas: nóstos (retorno para casa) + álgos (sofrimento). Sendo assim, a nostalgia seria uma saudade física e arrebatadora de casa, que provocava dor e melancolia. Com o tempo, a nostalgia deixou de ser vista como doença física e passou a ser vista como uma lembrança melancólica do passado que não volta mais. Sentir saudades do passado pode provocar diferentes sensações nas pessoas. Alguns afirmam não ter nostalgia de coisas, pessoas ou situações vividas, porque hoje tudo parece “melhor”; outros buscam memórias antigas e tentam, de certa forma, replicar no cotidiano o que já foi vivido. E ainda há aqueles que dizem ter “nascido na época errada”, pois sentem saudade de um período que nem viveram. É inegável que estamos imersos em um mar de novas tecnologias, informações e tendências, mas será que estamos vendo e vivendo novidades de fato? Ou será que as pessoas, consciente ou inconscientemente, estão buscando cada vez mais encontrar prazer, conforto e bem-estar num retorno ao analógico? Acredito que um dos maiores fundamentos da moda é seu caráter cíclico, como demonstra a literatura especializada. Por muito tempo, estudiosos afirmavam que as tendências levavam cerca de 20 anos para retornarem ao mercado. Tempo suficiente para que uma geração crescesse e sentisse saudade da época pretérita. No início de 2026, houve uma trend nas redes sociais do ano ser o "novo 2016". Por meio dela e para participar da tendência, diversas pessoas resgataram fotos pessoais antigas e entraram na onda nostálgica. A magia da nostalgia está nas sensações que ela provoca nas pessoas, estimulando lembranças, conforto e a segurança de tempos que, agora, talvez parecessem mais fáceis, mas não é mais assim. Foto: Reprodução/Internet. Com o avanço da tecnologia, o excesso de informações, a velocidade das redes sociais e a inteligência artificial, a lógica dos 20 anos foi sendo aos poucos derrubada. Hoje, não há mais uma precisão exata do que estará nas vitrines semana que vem, ou mesmo amanhã. Há um livro intitulado A Vingança dos Analógicos (Anfiteatro, 2016), do jornalista David Sax, no qual ele comenta sobre esse movimento de transformação digital. Sax afirma que os discos de vinil foram sendo substituídos pelo mp3 e por plataformas de streaming. No entanto, tempos depois, o público foi “redescobrindo” o vinil e conferindo valor a ele, não se tratando apenas de um surto nostálgico, mas de uma resposta a um profundo desejo por experiências sensoriais e que nos conectam ao real. Na moda, esse movimento se manifesta, em certa medida, a partir das tendências e do acelerado mercado contemporâneo. Não se trata mais de esperar 20 anos para reviver uma tendência, mas de revisitá-la constantemente. O mercado já percebeu esse desejo e, cada vez mais, se utiliza da economia da nostalgia para proporcionar experiências de conforto em um mundo caótico. As referências sempre existiram não só na indústria da moda, mas em todas as artes. Em 1937, a estilista Elsa Schiaparelli se inspirou nas obras do artista Salvador Dalí, seu contemporâneo, que incluía lagostas em suas obras. Já na década de 1960, o vestido tubinho colorido de Yves Saint Laurent teve influência na obra de Piet Mondrian, dos anos 1930. Essas referências surgem com frequência na moda, na música e no audiovisual. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet No cinema, filmes ganharam sequência lançada décadas depois do original, como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025), com uma história que se passa anos depois do original de 1997. Séries de streaming dedicaram episódios para fazer referências diretas a outras obras, como a série da Prime Video Elle (2026), que na primeira temporada faz uma homenagem ao filme Clube dos Cinco, dos anos 1985. O próprio Met Gala é um espaço para ver e compreender esse resgate de referências. Em 2026, o tema foi “Fashion is Art” (Moda é Arte), ampliando possibilidades de interpretação e busca por inspiração na pintura, escultura, cinema e outras fontes e linguagens. Quando eu era mais nova, gostava de fazer referências a filmes e artistas de que gostava. Minhas roupas de aniversário foram, por muito tempo, fantasias de personagens. Aos 12 anos fiz mechas vermelhas no cabelo graças à atriz Josie Pessôa na telenovela Império. Nós sempre fazemos referência a algo ou alguém — por admiração, identificação, sentimento de pertencimento ou para materializar um sentimento, revivendo-o. O que mudou, hoje, é a velocidade e intensidade com que essas referências são acumuladas. Se pegarmos o celular e pesquisar “anos 90” ou “anos 2000” no Pinterest ou TikTok, podemos perceber que a linha entre uma imagem original da época e algo produzido atualmente para parecer da época é muito tênue. Às vezes nem dá para diferenciar de imediato. Looks inspirados em Friends — sitcom que terminou há mais de 20 anos — continuam aparecendo como referência para a Geração Z. O corte de cabelo da Rachel, os looks do Chandler, ou o batom usado pela Mônica, ainda hoje rendem conteúdos nas redes sociais para serem replicados. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet A marca de maquiagem Quem Disse, Berenice? lançou no mês de junho, inclusive, uma linha inspirada na série, que traz itens com embalagens com cheiro que remete ao café Central Park e ícones dos personagens. A atriz que interpreta a Janice (Maggie Wheeler) veio ao Brasil para a campanha, deixando muitos fãs da série emocionados. Nostalgia pura! Quase fui rendida para essa linha. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet Essa campanha mostra o quanto o apelo nostálgico vende. Ainda no mundo da maquiagem, diversas marcas resgataram o batom mágico verde, conhecido como “batom da vovó”, e lançaram produtos com proposta semelhante. O algoritmo e as marcas perceberam que a forma mais segura de rentabilizar e reduzir riscos é recorrendo ao passado que já é aceito, levando até o fast fashion a produzirem peças “vintage”. O que vemos é uma busca constante por identidade através do que já foi vivido — ou idealizado — por outras gerações. Por um lado, esse movimento homenageia e nos conecta a um passado que, de certa forma, nos moldou. Parte da Geração Z, por exemplo, que não viveu os anos 1990 ou 2000, tem buscado e encontrado nessas referências uma forma de pertencimento. Isso reflete na atual produção e busca massiva de conteúdos de “tendência Y2K”, “estilo Y2K”, que é, basicamente, o resgate do visual dos anos 2000, inspirado na cultura pop da época. Essa tendência de comportamento revela uma procura por identidade própria em um mundo que muda rápido demais. Por isso, a busca pelo analógico não é, necessariamente, pela nostalgia, mas pela necessidade humana de experiências que nos lembrem que somos pessoas feitas de carne, osso e memórias. Mas, também há um lado negativo nisso. Quando a indústria passa a utilizar o apelo ao passado como estratégia comercial segura, corremos o perigo de não fazer mais questão de criar algo novo e aceitar os riscos que isso traz. A nostalgia vira um atalho fácil. Mais uma hamburgueria com temática anos 1960. Um ovo de Páscoa comum que custa o dobro por trazer dentro dele um brinquedo clássico. Lojas que vendem roupas, calçados e acessórios “vintages” e possuem um alto custo. Compramos memórias. Compramos as partes boas de uma época – ou que são vendidas como tal. Experiências pautadas no passado trazem conforto e segurança em tempos de incertezas. Crises políticas, econômicas e climáticas. O futuro soa como algo muito instável. O passado, ainda que idealizado, esteticamente moldado, oferece um refúgio para nos sentirmos acolhidos. Afinal, estamos mesmo vendo novidades ou apenas revisitando o passado? Talvez a moda esteja deixando um pouco de lado a essência da inovação, e buscando mais a ressignificação. A nostalgia está para a moda como aquela camisa desbotada e confortável está para nós no final de um dia exaustivo. SAIBA MAIS Assista a este vídeo da Mina Lee no YouTube para entender melhor a indústria da nostalgia: Does originality still exist anymore?. Nele, ela desenvolve uma análise crítica sobre como o medo do novo tem alimentado o ciclo infinito de remakes e resgates culturais. Assista ao filme Clube dos Cinco (1985) e a série Elle (2026) para entender as referências diretas. Preste atenção nos figurinos e na construção dos arquétipos dos personagens: a patricinha, o atleta, o rebelde. A série resgata a memória coletiva de uma das cenas mais clássicas do cinema. CURIOSIDADES Os brechós e a moda circular passam por um crescimento exponencial desde 2025. De acordo com o ThredUp Report, em 2025 o mercado de moda de segunda mão cresceu cerca de 18% e possui estimativa de crescimento de US$367 bilhões até 2030. Isso reflete que o consumo consciente, a sustentabilidade e o slow fashion tornaram-se valores importantes para consumidores, o que também explica o boom de peças artesanais em 2026. A estampa poá, tendência em 2026, surgiu no século XIX na Europa. Era conhecida como “polka dot” por causa da famosa dança da época. A palavra “poá” vem da abreviação do termo em francês “petit-pois”, que significa “ervilha pequena”. Seu auge foi nos anos 1950, mas em 2026 voltou com tudo.
- “Na mesa da minha alma, sentam-se muitas”: Mariana Carvalho e a arte de ser
Por Pedro Gomes Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Mariana Carvalho. Foto: Acervo pessoal Aos 28 anos, a caruaruense Mariana Carvalho, conhecida artisticamente como Marisflora, transita entre a arte, a psicologia, a massoterapia, a maternidade e diferentes formas de cuidado, sem aceitar que precise escolher apenas uma maneira de existir. Culturalmente, há na sociedade específicos artistas que se especializam em determinados ramos: cinema, música, dança ou escrita. Todavia, na contramão das especificidades, Mariana Carvalho parece preferir os cruzamentos. Nascida no Agreste pernambucano, Marisflora reúne experiências que, à primeira vista, poderiam parecer distantes: é atriz, dançarina, escritora, psicóloga, massoterapeuta, doula, educadora e mãe. Na prática, porém, Mariana não enxerga essas atividades como compartimentos isolados. Para ela, existe um fio que atravessa todas essas experiências: o cuidado. “O que eu vejo mais em comum entre essas Marianas, é o cuidado”, afirma. É a partir dessa perspectiva que sua trajetória começa a fazer sentido. O corpo, a escuta, a maternidade e a criação aparecem como diferentes portas de entrada para uma mesma investigação: compreender o ser humano e encontrar maneiras de transformar aquilo que é vivido em experiências compartilhadas. Entre o corpo e aquilo que não se vê O interesse de Mariana pelo corpo surgiu antes mesmo da escolha profissional. Ao estudar massoterapia, ela conta que passou a enxergar o corpo para além daquilo que está imediatamente visível. “Quando comecei a estudar sobre massoterapia e comecei a enxergar o corpo por dentro, não apenas a casca que vemos aqui fora, descobri um universo gigantesco que se conecta com a psiquê.” A percepção de que corpo e mente não poderiam ser compreendidos separadamente também atravessou sua formação em Psicologia. Durante a trajetória estudantil, Mariana começou a observar como tensões físicas, inquietações mentais, fugas e até processos de automedicação poderiam aparecer inscritos no corpo. Não se tratava, segundo ela, de uma escolha profissional planejada desde cedo. Antes da academia, havia uma inquietação anterior: a curiosidade pela própria existência humana. “Só fui seguindo o faro dos meus sentidos”, resume. Esse “faro” parece ser uma das palavras-chave de sua trajetória. Em vez de considerar suas formações como interferências umas nas outras, Mariana prefere compreendê-las como campos que se atravessam. “Jamais acreditarei que essas formações e atuação profissional contaminam uma à outra. [...] esses estudos estão muito entrelaçados, cada um na sua área de pesquisa sobre nosso corpo-memória.” A maternidade como movimento Se o corpo já era território de investigação, a maternidade o ampliou. Mãe há oito anos, Mariana não descreve a experiência a partir de uma narrativa idealizada. Para ela, ser mãe significou movimento, adaptação e também renúncias. Houve trabalhos e estudos que precisaram ser recusados para que outras necessidades fossem atendidas. “Eu TIVE que me movimentar ainda mais, eu me senti instigada a me mover”, conta. A maternidade também modificou sua percepção sobre as relações. Mariana diz que a gestação foi como a abertura de um “portal com uma realidade paralela”, a partir do qual seus sentidos ficaram mais atentos aos perigos e às possibilidades da vida. Ser mãe de um menino também a levou a refletir sobre masculinidade e patriarcado a partir de uma perspectiva íntima: a de quem precisa educar uma criança enquanto revisita as próprias construções pessoais. Na arte, essa experiência encontra outro caminho. Mariana entende que a criação também pode ser uma forma de apresentar ao filho outras maneiras de perceber o mundo. “A arte será sempre algo que me incentiva a mostrar a ele como forma de poetizar nossa existência, apesar de tudo.” Ela faz questão, entretanto, de reconhecer que essa trajetória não seria possível sem uma rede de apoio. A maternidade, para Mariana, não é uma experiência individual isolada, mas também uma construção coletiva. Escutar antes de criar Mariana Carvalho. Foto: Acervo pessoal Há uma relação direta entre escuta, corpo e criação no trabalho de Marisflora. Ela recorre à escritora estadunidense Clarissa Pinkola Estés para explicar sua percepção de que corpo e alma estão profundamente entrelaçados. Mais do que uma ideia abstrata, essa relação aparece concretamente em suas experiências artísticas. Mariana já realizou monólogos em intervenções urbanas construídos a partir de histórias de mulheres. As experiências foram compartilhadas com autorização e preservação das pessoas envolvidas e, segundo ela, só puderam ganhar aquela forma graças à escuta desenvolvida em sua trajetória na Psicologia. “A escuta ativa com a Psicologia” possibilitou acessar essas histórias; as pesquisas com terapias ajudaram a corporificá-las; e a arte transformou tudo isso em performance. É justamente nesse ponto que suas diferentes experiências deixam de parecer profissões independentes e passam a funcionar como ferramentas de uma mesma investigação. Quando o caos também organiza Conciliar tantos papéis, entretanto, está longe de significar uma rotina perfeitamente organizada. Mariana reconhece que existem períodos em que trabalha de domingo a domingo. Em outros, consegue reduzir as demandas e se afastar um pouco das redes sociais para dedicar tempo à família. Atualmente, sua rotina profissional também é construída em diálogo com os cuidados do filho e com a disponibilidade da rede de apoio. Mas há uma ressalva importante: ser multifacetada não significa ser permanentemente organizada. “Há períodos de sobrecarga e muita pressão interna e externa”, admite. Sua maneira de lidar com isso passa por um diálogo interno desenvolvido desde a infância. E talvez nenhuma frase traduza melhor sua relação com a própria rotina do que esta: “Em alguns momentos consigo manter a ordem mesmo perante o caos. Às vezes deixo o caos criar a ordem.” A frase poderia servir também como síntese de sua trajetória. O incômodo de caber em uma única definição A multiplicidade, contudo, tem um preço: a cobrança para escolher. Mariana conta que ainda escuta questionamentos sobre por que não se dedica exclusivamente à Psicologia, especialmente depois de tantos anos de estudo. “Por que você não dá preferência apenas à Psicologia? Você passou tanto tempo estudando, tem que dar retorno.” A resposta vem acompanhada de humor: “Não consigo estar em vários lugares ao mesmo tempo. Infelizmente esse dom do clone das sombras ainda não desenvolvi — quem assistiu Naruto vai entender.” Por trás da brincadeira existe uma questão mais profunda. Mariana reconhece que sustentar suas escolhas ainda provoca conflitos internos e externos, mas afirma estar vencendo, aos poucos, o medo de corresponder ao padrão esperado. O que a mantém nesse caminho é justamente a possibilidade de experimentar diferentes formas de encontro. Ela fala com entusiasmo sobre acompanhar nascimentos como doula, proporcionar bem-estar por meio das terapias, contar histórias através da dança, do teatro e do canto, trabalhar com grupos de mulheres, facilitar dinâmicas com adolescentes e jovens, fortalecer a cultura hip-hop pela arte-educação e participar de palestras, cursos e oficinas. “Eu até posso abrir mão de tudo isso, focar em uma coisa só e seguir o percurso da vida, mas sinto que se fizer, partes de mim serão assassinadas.” A multiplicidade, portanto, não aparece apenas como característica profissional. Para Mariana, ela também é uma forma de preservação de si. Antes de Marisflora, havia uma menina inventando histórias Muito antes das formações acadêmicas e das experiências profissionais, havia uma criança inventando mundos. Mariana lembra das brincadeiras com as amigas, quando criavam bandas imaginárias e distribuíam entre si funções de dançarinas, cantoras, compositoras e apresentadoras. Criavam coreografias, enredos e personagens. Outra lembrança permanece especialmente viva: o quadro “Lendas Urbanas”, do programa do Gugu, e a história da Bloody Mary. O impacto foi imediato. Mariana pegou um caderno escolar e escreveu um roteiro de ficção inspirado na história. “Se eles conseguiram gravar essa história para contar pra gente, eu consigo gravar um filme sobre isso.” O filme nunca saiu do papel. Mas a ideia permaneceu. E ela mesma brinca com a própria memória: “Será que aqui já estava com sinais da Mari multifacetas e só agora tô me dando conta?!”. Talvez estivesse. Criar a partir da ferida (e também da esperança) Hoje, quando pensa em sua produção artística, Mariana não consegue apontar uma única provocação. Ela fala em reflexão, imaginário, resiliência, resistência política, afeto e possibilidade de enxergar outros horizontes. Seu interesse está na transformação de experiências históricas, sociais e pessoais em algo capaz de produzir sentido e coragem. Mas existe uma particularidade em seu processo criativo: a dor e a raiva ocupam um lugar importante. Mariana conta que já se comparou com artistas que diziam criar principalmente pelo prazer e pela alegria. Depois de refletir sobre seu próprio processo, percebeu que suas criações mais marcantes frequentemente nascem de lugares menos confortáveis. “Eu construo muito mais através da dor e da raiva.” Isso não significa, porém, abandonar a esperança. Sua arte pode ser crua e provocar choque, mas também pode assumir uma dimensão poética. “Às vezes gosto de ser crua, causar choque de realidade. Às vezes gosto de ser poética e espalhar o esperançar no público.” Talvez seja justamente nessa tensão que sua produção encontre força: entre confronto e acolhimento, incômodo e afeto, realidade e imaginação. E quem é Mariana quando ninguém pergunta o que ela faz? Se todas as profissões fossem retiradas da pergunta, quem restaria? Mariana responde começando pela origem: filha de Maria Beatriz de Andrade e Messias Oliveira de Carvalho, de uma mãe pernambucana com descendência indígena e de um pai piauiense negro. Depois, deixa de lado os títulos e fala de desejos. É alguém que busca ser cada vez mais “desejosa pela vida”, curiosa diante do desconhecido, simultaneamente corajosa e medrosa. Alguém que sonha em viajar pelo mundo e fazer tudo, mas que também imagina abandonar temporariamente tudo para viver em um “cafofo”, cercada pelo filho, plantas e bichos, e sem boletos. É alguém que demonstra afeto pela presença e pelos atos de serviço. Que gosta de luz amarela, ambientes aconchegantes, música, dança, canto, comida que nutre o corpo e a alma, SPA caseiro e de receber pessoas em casa. A definição mais precisa, entretanto, não veio dela mesma. Veio de uma cliente, numa frase que Mariana guarda como uma espécie de espelho: “Na mesa da minha alma sentam-se muitas e eu sou todas elas.”
- A nova etiqueta dos brechós
Por Laura Lima Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins De alguns anos para cá, comprar peças de segunda mão deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a representar um estilo de vida. Entre os discursos sobre sustentabilidade e consumo consciente, os brechós conquistaram um espaço que antes parecia reservado às grandes marcas, ganhando vitrines bem produzidas, perfis no Instagram, clientes fiéis e novas comunidades de consumidores interessados na moda circular. E isso, por si só, é uma ótima notícia, principalmente quando significa substituir parte das compras de roupas novas pela circulação de peças que já existem. Quanto mais pessoas escolhem reutilizar roupas, menor tende a ser o lucro de uma indústria conhecida pelo desperdício de recursos naturais e mão de obra desvalorizada. No cenário atual dominado pelo fast fashion (modelo de produção acelerada de roupas de baixo custo), prolongar a vida útil de uma peça é um gesto ambientalmente importante. Além disso, os brechós democratizaram o acesso a roupas de boa qualidade, permitiram que pequenos empreendedores encontrassem uma fonte de renda e transformaram o garimpo em uma experiência quase afetiva. Encontrar uma peça única de fato tem um certo encanto, mas talvez seja justamente aí que more uma mistura de valores. Foto: Reprodução/Internet O encanto do garimpo dá lugar, em muitos casos, ao fascínio por exclusividade: A roupa usada deixou de valer apenas pela sua história ou pela sua durabilidade e passou a valer também pela narrativa construída ao seu redor ou contexto impulsionada pelas redes sociais. Uma camiseta comum vira "achado vintage", uma calça jeans dos anos 1990 torna-se "oportunidade raríssima" e peças de marca viram símbolo de status e sorte. Aos poucos, a sensação é de que nem toda peça está sendo vendida pelo que é, mas por seus simbolismos e pelo imaginário que conseguem despertar. Os brechós existem há muito mais tempo do que a estética vintage das redes sociais faz parecer. No século XIX, a venda de roupas usadas atendia principalmente às populações que não podiam comprar peças novas, e depois das grandes guerras, reutilizar roupas era uma necessidade econômica. Décadas mais tarde, movimentos culturais como o hippie da década de 1960 e o grunge nos anos 1990 passaram a enxergar nesses espaços uma forma de romper com a lógica do consumo em massa, valorizando identidade acima da superficialidade. “Loja Belchior”. Da figura de Belchior, comerciante de objetos usados, teria surgido o termo “brechó” no Brasil do século XIX. Foto: Joy Alano Hoje muitos brechós ocupam o lugar oposto daquele de onde partiram, e o que nasceu como alternativa ao mercado acabou sendo absorvido por ele. Apesar da curadoria de moda continuar sendo um trabalho que exige tempo e investimento na seleção, restauração e processo de divulgação de cada peça, o problema aparece quando a palavra "curadoria" parece justificar qualquer valor alto na etiqueta de preço e passa a representar capital cultural para lojas e influencers, aonde quem tem ou sabe reconhecer uma peça “exclusiva” passa a demonstrar conhecimento, repertório e pertencimento a determinado universo da moda. Nesse momento, a discussão deixa de ser sobre sustentabilidade e passa a ser sobre valor simbólico. Isso ajuda a entender por que os brechós vêm se tornando cada vez mais desejados. As roupas que usamos também comunicam quem somos, de onde viemos e a quais grupos queremos pertencer. Comprar uma peça de segunda mão para muitos já não significa apenas economizar ou evitar desperdícios, mas sim demonstrar bom gosto e consciência ambiental em forma de performance na internet. Além disso, o medo de perder uma oportunidade tornou-se muito presente em comunidades de garimpo, e onde há valorização excessiva, também surgem problemas. O aumento da procura abriu espaço para vendedores responsáveis e apaixonados por moda, mas também para oportunistas. Cresceram os relatos de golpes em lojas on-line, peças falsificadas anunciadas como originais, descrições enganosas e perfis que desaparecem depois do pagamento. Um modelo de vendas construído ao longo dos anos sobre confiança, hoje em dia carece de mecanismos de proteção para quem compra e para quem vende corretamente. Matéria jornalística sobre golpe por brechó, 26/01/2025. Foto: Reprodução/Internet Talvez o maior desafio dos brechós atualmente seja equilibrar essas duas realidades: de um lado, representam uma das alternativas mais inteligentes para reduzir desperdícios e incentivar a economia circular. Do outro, começam a transformar sustentabilidade em símbolo de status e a ideia de que consumir, mesmo de forma consciente, ainda precisa ser um marcador de distinção. Dessa forma é necessário aproveitar da visibilidade que a tendência trás para o negócio sem prejudicar o consumidor. Mas essa reflexão não diminui a importância dos brechós, apenas nos convida a olhar para eles com menos romantização e mais atenção aos aspectos do consumo não-saudável. No fim, a essência dos brechós nunca esteve somente em vender roupas raras, mas sim em provar que uma roupa não precisa ser nova para ter valor. Preservar essa ideia talvez seja o verdadeiro desafio de um mercado que cresce rapidamente e que ainda precisa decidir se quer ser uma alternativa à indústria degradante da moda atual ou um modelo de curadoria com vitrines glamourizadas. SAIBA MAIS A prática de consumir produtos para além da sua utilidade mas também exibir valor simbólico e/ou status também é chamada de Consumo Conspícuo, conceito idealizado pelo sociólogo Thorstein Veblen. Enquanto o fast fashion aposta na produção rápida e na renovação constante das tendências, o mercado de segunda mão trabalha com peças que já existem, embora a revenda também possa estimular novos ciclos de consumo. CURIOSIDADES “Vintage” não significa simplesmente “velho” ou “usado”. O termo costuma ser empregado para peças de décadas anteriores que possuem relevância estética, histórica ou simbólica. A origem da palavra “brechó” é associada a Belchior, nome pelo qual ficou conhecido um comerciante que teria mantido, no Rio de Janeiro, uma loja de objetos usados e quinquilharias no século XIX. Na época a palavra já ganhava espaço na literatura brasileira como em textos de Machado de Assis.
- Entrevista com Marie Salles: há 30 anos vestindo personagens que marcaram a televisão brasileira
Por Claudison Morais Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Marie Salles. Foto: Instagram (@mariesalles) Você pode não conhecer o rosto de Marie Salles, mas com certeza conhece o trabalho dela, afinal ele já impactou a estética e o consumo de milhões de brasileiros. Há mais de três décadas trabalhando na projeção, produção e seleção de trajes para o audiovisual, e há cerca de vinte anos como figurinista titular, ela é responsável pela construção visual de vários personagens muito marcantes da dramaturgia brasileira. De Carminha, em Avenida Brasil (2012), à nova versão de Odete Roitman, em Vale Tudo (2025), seus figurinos ajudam a contar histórias, revelar personalidades e construir universos que permanecem na memória do público muito depois do último capítulo. Formada em Indumentária pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marie iniciou sua trajetória no cinema. Ao chegar à TV Globo, ainda como estagiária, passou aproximadamente dez anos como assistente de profissionais como Emília Duncan, Beth Filipecki e Yurika Yamasaki, três dos principais nomes do figurino no audiovisual brasileiro. Em 2006, estreou como figurinista titular e, desde então, assinou novelas como Pé na Jaca (2006), Cordel Encantado (2011), Avenida Brasil (2012), Pantanal (2022), Renascer (2024) e a nova versão de Vale Tudo (2025). Em entrevista concedida ao colunista de moda e repórter Claudison Morais, da Revista Spia, Marie falou sobre sua trajetória, explicou como nasce o figurino de uma novela, revelou curiosidades sobre os bastidores das produções e contou como a pesquisa de campo é fundamental para criar uma segunda pele convincente para os personagens. “Amo ser figurinista!” ...diz Marie ao ser questionada sobre o que ela sente em relação à sua profissão. Após isso, ela nos conta que seu amor vai muito além das roupas, pois o que a motiva é participar da construção completa dos personagens. “Quando recebo qualquer projeto, seja uma série, um filme ou uma novela, primeiro recebo o material da obra. Nas séries e nos filmes, recebemos todos os episódios ou o roteiro completo. Já nas novelas, recebemos uma sinopse que conta a história até, mais ou menos, o capítulo 100, além de um briefing dos personagens. Com esse material, conseguimos entender quem são esses personagens. Depois converso com o autor, para entender melhor a intenção da narrativa e a proposta dos personagens e também com o diretor. O diretor explica o gênero da obra, se é uma comédia, um romance, uma história realista ou uma fábula, e fala sobre a época e o contexto em que ela acontece. A partir disso, vou para casa, começo a pesquisar e desenvolver esses personagens junto com a minha equipe.” Uma novela nunca está totalmente pronta. Ao contrário do cinema, ela é uma obra aberta e pode mudar conforme a resposta do público. Isso faz com que nem sempre toda a equipe conheça os rumos da história desde o início. Marie lembra de um episódio de A Favorita (2008) que ilustra bem essa dinâmica: “Eu só descobri que a Flora era a verdadeira vilã quando começaram as gravações das cenas da revelação. O diretor ficou com medo de que, se eu soubesse antes, pudesse colocar alguma pista no figurino, mesmo de forma inconsciente. Então isso depende muito de cada produção.” Já em Vale Tudo (2025), a situação foi diferente. Como uma reviravolta importante exigia um planejamento muito específico do figurino, Marie precisou conhecer o desfecho antecipadamente: “Apesar de ser um remake, eu sabia que nesta versão, ela [Odete Roitman] continuaria viva, porque precisei fazer uma roupa dupla. Como isso fazia parte da produção do figurino, eu precisava saber. Mas eram pouquíssimas pessoas que tinham essa informação. Acho que apenas quatro pessoas sabiam.” Marie afirma que quando assiste a produções das quais não participa, não consegue nunca “desligar” o olhar profissional, pois acaba pensado sobre as escolhas feitas, as relações delas com a história, com o corpo da pessoa que atua, o contexto etc. Assim como para mim e para você – e para ela também –, sempre há um personagem que nos encanta profundamente: pela atuação, pelo figurino, pelos modos de ser, pelas paixões que sente e transmite de modo verossímil, dentre outros tantos motivos. Para nossa grande figurinista, entre todos os trabalhos e produções que realizou, Carminha (Avenida Brasil, 2012), conquistou um lugar de destaque no seu coração, estando no topo de suas preferências e a preenchendo de grande satisfação: “Para mim, a Carminha ocupa um lugar muito especial. Ela foi uma personagem que parou o Brasil. As pessoas se vestiam de branco, faziam festas temáticas, usavam fantasias de Carnaval inspiradas nela. Muita gente queria ter a bolsa da Carminha, que era uma bolsa que eu tinha comprado em um outlet em Miami. Quando o figurino ultrapassa a novela e passa a fazer parte da vida das pessoas, isso é muito marcante, e foi isso que aconteceu com a Carminha.” Para quem acompanha novelas apenas pela televisão, é comum imaginar que o trabalho do figurinista se resume a escolher as roupas que os personagens irão vestir. Marie, no entanto, explica que essa é apenas uma pequena parte de uma função que envolve muita pesquisa, cuidado na gestão e rigor no planejamento. “Acho que as pessoas não conhecem o tamanho do trabalho que existe por trás das nossas atividades. Muita gente imagina que a minha vida é um glamour, que eu passo o dia andando pelo shopping escolhendo roupa, mas não é assim. Além da criação, eu gerencio uma equipe grande, que varia de acordo com o tamanho da produção. Também trabalho com orçamento, planejamento e organização. Em uma novela, principalmente, a criação é muito intensa. Estamos falando de mais de cinquenta personagens, todos com personalidades, gostos e histórias diferentes. Eu amo meu trabalho, mas ele envolve muito mais do que simplesmente escolher uma roupa.” Grande parte da carreira de Marie foi construída em novelas de época, como Boogie Oogie (2014), Joia Rara (2013) e Cordel Encantado (2011). Para ela, a fidelidade histórica não significa reproduzir exatamente o que existia no período retratado, mas sim compreender o contexto dele para construir personagens visualmente consistentes. De acordo com sua perspectiva altamente didática sobre todo o processo, entende e aceita a necessidade de algum arranjo ter que ser realizado em função da narrativa, do corpo que veste o figurino, do material da peça etc.: “Sempre fazemos uma adaptação”, até porque a pesquisa costuma ir além do período retratado pela obra. “Quando trabalho com uma determinada época, amplio a pesquisa. Se a novela se passa nos anos 1920, por exemplo, pesquiso um período maior, indo alguns anos antes e alguns anos depois. Isso me permite ter mais referências para a composição dos personagens, que pode variar de décadas mais antigas e outras que estão à frente do tempo. Essa variação enriquece a construção visual da novela e ajuda a diferenciar os personagens.” Esse cuidado, que podemos entender como uma das grandes marcas de estilo de Marie, também aparece na representação das classes sociais de seus personagens. Em produções como Cordel Encantado (2011) e Novo Mundo (2017), reis, aristocratas, trabalhadores e personagens populares têm identidades visuais bastante distintas. “Isso vem da pesquisa e da observação. A gente olha para o mundo em que vivemos e entende como cada grupo se veste. As pessoas da classe mais alta têm determinados hábitos, enquanto as classes mais baixas têm outros. É essa pesquisa, feita tanto historicamente quanto no nosso dia a dia, que ajuda a construir essas diferenças.” Questionada sobre as diferenças entre Carminha, de Avenida Brasil (2012), uma rica emergente, e Odete Roitman, de Vale Tudo (2025), uma rica “de berço”, a resposta foi direta: “Tudo parte da personalidade. Cada personagem pede uma construção diferente.” Marie também explica que nem sempre o figurino entrega ao público as intenções do personagem logo no primeiro olhar. “Nem sempre queremos mostrar tudo de uma vez. O figurino acompanha a personalidade do personagem e também o momento da narrativa. Muitas vezes ele ajuda a construir uma imagem que a história quer apresentar naquele momento. O figurino acompanha essa construção. Ele não entrega tudo de imediato.” Quando a novela retrata um lugar específico do Brasil, Marie procura conhecer esse universo antes mesmo do início das gravações. A pesquisa de campo, segundo ela, é uma etapa indispensável para construir personagens convincentes. “Eu faço a visita de locação logo no início. Fico alguns dias no lugar, tirando fotos, observando as pessoas e conhecendo aquele ambiente. Essa pesquisa é muito importante para o desenvolvimento do figurino.” Foi esse processo que a ajudou bastante na construção estética de, por exemplo, Pantanal (2022). Tecidos, couro, outras texturas, estampas, acessórios, marcas de uso da época, locais e formas de vestir foram observados diretamente na região. Desse modo, o figurino transmitiu autenticidade daquele universo em particular e credibilidade com relação às pessoas que o vestiam. “As pessoas se vestem de maneira diferente no Pantanal, no Pará, nas cidades do Nordeste… Cada lugar tem características próprias. Quando vou até lá, observo tudo isso para que o figurino realmente pertença àquele ambiente.” Mais do que evitar erros de caracterização, essa vivência evita que a representação da cultura popular se transforme em mera caricatura. “É justamente por isso que faço essa pesquisa. Eu tiro muitas fotos, observo as pessoas, passo alguns dias no lugar. A referência vem da vida real. É dessa forma que consigo construir personagens que pertencem àquele ambiente. É por isso que a pesquisa de campo faz toda a diferença. É ela que dá verdade ao figurino.” Falar sobre figurino com Marie Salles é perceber que, para ela, os detalhes nunca são apenas detalhes. Uma curiosidade de bastidores: enquanto a entrevista acontecia, algumas pausas eram inevitáveis – uma ligação, um recado da família, um compromisso rápido. Ainda assim, ela sempre voltava ao assunto com o mesmo entusiasmo, retomando exatamente de onde havia parado e fazendo questão de responder a cada pergunta com riqueza de pormenores. Ao detalhar mais suas pesquisas de campo, suas imersões, ela contou que uma das maiores lições que aprendeu ao longo da carreira foi observar aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. No Pantanal, por exemplo, não bastava reproduzir uma roupa bonita ou encontrar uma peça parecida. Foi preciso entender como o calor intenso, o suor, o sol e a poeira modificam as cores, o tecido e a aparência das roupas ao longo do tempo. O figurino precisa carregar as marcas de quem vive naquele lugar. “A roupa vai sendo recolorida pela vida”, resumiu ela, poeticamente. Esse olhar atento se repete em cada pesquisa. Antes de compor o figurino de qualquer personagem, Marie percorre ruas, observa pessoas, registra fotografias, conversa com moradores locais e tenta compreender os hábitos de cada região. Para ela, o figurino só funciona quando deixa de parecer um figurino e passa a ser parte da vida do personagem. Diante de tudo o que foi dito, Marie Salles mostra que o figurino vai muito além da estética. Cada personagem nasce de um processo que reúne pesquisa histórica, observação do cotidiano, visitas de campo e os “sentidos” atentos para a narrativa. Em uma profissão que costuma permanecer nos bastidores, seu trabalho revela que roupas também contam histórias, ajudam a construir identidades e se tornam parte da memória afetiva do público. Depois de mais de três décadas dedicadas à construção de figurinos, a carioca segue dando forma a personagens que marcaram e continuam marcando a dramaturgia brasileira. A Revista SPIA agradece ao Prof.° Fausto a intermediação do contato que possibilitou esta entrevista tão informativa e bonita. No fim do semestre, a Marie baterá um papo com as turmas de "Tópicos Especiais em Audiovisual" (Comunicação Social) e "Moda e Cinema" (Design), da UFPE-CAA.
- Violência, trauma e masculinidade em "Os Olhos de Fernando", de Johany Medeiros
Por Nilton Barros Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Ela nutre uma paixão avassaladora por ele, daquelas que suam as mãos só de estar na presença do seu amado. Avistar aqueles olhos verdes é como se sentir em plena primavera, a sua estação favorita. Ela está ali por uma razão: declarar o seu amor. Nessa hora, o coração bate incerto, a boca treme ao falar, ela gagueja, se sente tola. De repente, os olhos dele mudam para um tom âmbar, como mel aquecido ao sol. Ele, ao perceber a tentativa dela a toma em seus braços e a puxa para um beijo intenso, cheio de vontade, surpreendendo-a com a sua reciprocidade. A intensidade desse romance primaveril vai longe: os dois começam a namorar, vão ao cinema juntos, dedicam músicas um para o outro, planejam o futuro; pensam até em se casar. Eles trocam votos no dia do casamento, têm dois filhos, formam uma linda família e são testemunhas de uma narrativa feliz, como deve ser. Mas nem sempre é. Capa do livro "Os Olhos de Fernando". Foto: Reprodução/Internet Sinto muito, caro leitor, mas este resumo não faz parte do livro que compõe esta crítica. Tampouco lhe tiro a razão de querer viver um amor idealizado, desses que você encontra em filmes de comédia romântica ou nos romances de época que você lê. Entretanto, como crítico, não pretendo trazer reflexões acerca de mais uma história que evoca um amor puro, singelo e convencional. Pelo contrário, irei tratar de um amor que não te beija ao mudar o tom dos olhos, mas que te devora, te machuca, corrompe o seu ser e te faz duvidar de si mesmo. Com um único olhar, ele é capaz de mudar a sua vida em questão de segundos, de maneira trágica. Estou me referindo a’Os Olhos de Fernando (Arrelique, 2025), obra de Johany Medeiros. Johany Medeiros no lançamento do seu primeiro livro. Foto: Reprodução/Internet Johany é conterrânea da minha cidade, Caruaru, Pernambuco, e além de escritora, é produtora cultural, cineasta, pesquisadora, comunicóloga e apaixonada por livros. Já fomos colegas de turma na disciplina de “Direção de Fotografia Documental", ministrada por Adelina Pontual, diretora de cinema, no curso de Comunicação Social da UFPE, Centro Acadêmico do Agreste. Em um intervalo específico dessa aula, no qual sentamos no banco do pátio de nosso bloco e começamos a trocar ideias, pude conhecer Johany como escritora. Foi nesse momento que descobri que ela começou a escrever contos e poesias com apenas 16 anos, bem como começou a publicá-los na internet. E agora tive a oportunidade de contemplar o seu primeiro romance, que aborda um tema tão delicado e visceral. “Alguma coisa está diferente. Não apenas uma desconformidade, mas um pequeno conjunto delas. A primeira que percebe é que o verde claro e intenso perderam espaço para um verde musgo amarronzado, meio sem brilho.” Os Olhos de Fernando (p. 11) A protagonista sobre a qual o narrador comenta tem nome e se chama Juliana, uma ex-advogada que se encontra sozinha no apartamento em que mora, angustiada pela morte de seu marido, Fernando. Em meio a pensamentos inquietantes, Juliana enfrenta um pós-morte tenebroso, cujo sentimento principal é o medo de ainda estar sendo observada por ele, como se fosse uma figura onipresente acompanhando cada passo seu. Mais tarde, com o auxílio de uma psicóloga, Juliana começa a entender que os olhos de Fernando, os quais acreditava ser o seu refúgio, representam a alegoria de um longo relacionamento abusivo e violento que a fez se tornar o que toda mulher teme ser um dia: um corpo esquecido na própria história. Sob o ponto de vista narrativo, acompanhamos, em 3ª pessoa, um enredo não-linear que alterna entre um passado traumático e abusivo, e um presente que busca levar a protagonista a uma melhor compreensão dos fatos. O narrador nos mostra a história a partir das percepções, sensações e memórias de Juliana, as quais remetem à violência física, sexual e psicológica vividas por ela em seu relacionamento. Essa alternância temporal se classifica não apenas como um recurso de suspense, mas também como uma estratégia usada para evidenciar o modo pelo qual a memória desses abusos surgem em pequenos fragmentos e gatilhos. Com relação ao espaço, a prosa possui poucas ambientações externas, oscilando entre ambientes domésticos (apartamento) e coletivos (consultório de psicologia). Isso tende a causar um efeito claustrofóbico ao leitor, contudo, é mais um recurso narrativo usado para enfatizar o enclausuramento psíquico — e também físico — de Juliana em um recinto de muito controle e tensão, no qual ela mesma não consegue sair e nem chamar o lugar de casa, embora tenha vivido nela por bastante tempo; ao passo que as sessões de terapia funcionam, aos poucos, como zonas de respiro e tentativas de recomeços. A redução da presença de personagens secundários, por sua vez, inicialmente reforça o distanciamento da protagonista com pessoas próximas (amigos e sua mãe, por exemplo), intensificando o seu isolamento, em decorrência da depressão que a cerca e que a toma. Elementos como bebida alcóolica e remédios são evidenciados em pequenos trechos narrados, a fim de retratar o estado mental instável da protagonista. É nesse momento que vemos a singularidade nas características da personagem feminina de Johany: uma mulher com traumas até então desconhecidos, com uma identidade inteiramente colapsada, que necessita de ajuda profissional, mas se demonstra relutante em expressar o seu sofrimento à psicóloga disposta a ajudá-la. Na terapia, a instabilidade de Juliana é expressada de modo mais empírico, em meio ao humor irritadiço, falas proferidas na defensiva, gritos e risos que funcionam como uma válvula de escape para equilibrar a dor que a desola. Os diálogos mostram uma paciente distante e anestesiada, que só começa a se desvencilhar de seus estados amordaçantes à medida que a relação terapêutica se estabiliza e ela consegue decifrar os seus tormentos. Com isso, a personagem não só começa a compreender a gênese da sua angústia e de todas as suas cicatrizes, como também inicia uma reaproximação com seus entes queridos, sinalizando uma mudança em suas relações e o processo subjetivo de sua reconstrução. Movimento Red Pill. Foto: Google Imagens. Em contrapartida, Fernando, que não é mostrado em presença material e sim memorial, não se configura somente como o vilão da prosa, mas também em um retrato fiel da masculinidade hegemônica, que transforma o controle e a possessividade do homem como uma forma diferente de amor, e isso faz da obra de Johany um meio de pensar sobre as múltiplas maneiras de violência dentro das relações amorosas, bem como nas consequências desastrosas que esses atos violentos podem deixar nas mulheres que se tornam vítimas. Podemos, ainda, comparar as atitudes de Fernando, aos do movimento masculinista de nome Red Pill, desenvolvido na internet nos anos 2000, o qual defende o discurso de que homens deveriam recuperar uma posição de autoridade nas relações, ou que as mulheres seriam naturalmente manipuladoras, interesseiras ou infiéis, sendo impossível, para eles, se relacionarem com elas. Esses ideais implicam em uma série de prejuízos ao público feminino, colocando a mulher em papéis sociais inferiores ou submissos e os homens em suprema autoridade, além de normalizar qualquer tipo de violência, seja ela psicológica, sexual, moral, patrimonial, física ou verbal. No aspecto linguístico, a autora adota uma linguagem direta e sensível para descrever, de modo elucidativo, a realização dessas violências, em suas inúmeras camadas por vezes escondidas de realização. O objetivo do livro não é, em hipótese alguma, estetizar ou romantizar a brutalidade do ato ou o sofrimento, mas sim tornar visíveis os meios de como o abuso sexual, psicológico ou físico ocorrem nos relacionamentos, assim como os seus efeitos; ajudando o leitor a reconhecer certos padrões semelhantes em experiências reais e pessoais. Uma observação importante de se destacar é que, uma vez que a narrativa não dispõe de muitas ambientações, a trama acaba não situando o leitor sobre a localidade da história. No entanto, o uso de expressões populares nordestinas como “oxe”, “bocado de coisa” e “lonjura”, entre outras, determina o cenário onde o enredo se passa, que pode ser no estado de Pernambuco em qualquer outro estado nordestino. É nesse momento que a linguagem também atua como um meio de expressão do indivíduo personagem, bem como ajuda a construir as suas características identitárias. O que nos faz compreender a espacialidade da história é justamente um programa de TV, quando a personagem principal assiste ao programa ABTV segunda edição, um programa da TV Asa Branca gerado diretamente na sede de Caruaru. Com isso, ao incluir um telejornal caruaruense no dia a dia de Juliana, a autora busca não somente criar uma conexão direta e cúmplice com o público local do contexto de produção da obra, que identifica prontamente o elemento cultural, mas também dá a entender que a narrativa se passa em Caruaru. “— Juliana, algumas violências deixam marcas que a gente não consegue ver, nem enxergar como uma violência. Mas o medo existe, e continua ali.” Olhos de Fernando (p. 95) Enquanto um leitor homem, essa frase me fez refletir sobre os desdobramentos da masculinidade, sobretudo hegemônica, e o quão significativa é a sua relação com a violência. Logo, considero impossível estudar gênero sem ao menos compreender como se dão as dinâmicas masculinas na sociedade, as quais tendem a ser bastante complexas quando se tratam da questão “o que é ser homem?”. Por isso, Raewyn Connell, em seu livro Masculinities (Polity Press, 1995), responde a essa pergunta partindo do princípio de que ser homem não está, unicamente, relacionado com o quesito biológico ou individual, mas também trata de relações de poder, bem como de uma construção social baseada em expectativas criadas previamente para ditar comportamentos tidos como “masculinos”. Raewyn Connell. Foto: Reprodução/Internet Ou seja, a masculinidade hegemônica se configura como o modelo ideal de um homem: hétero, dominante, forte, corajoso, autoritário e emocionalmente controlado. Connell destaca que esse tipo de masculinidade não é a mais comum, mas faz parte de uma noção mais valorizada de “ser homem”. É dessa forma que o homem, cujo gênero faz parte do grupo esmagadoramente dominante, detém e usa os meios de violência perante o grupo dominado, que, nesse caso, são as mulheres. A cientista social salienta que existem dois padrões pelos quais essa violência ocorre. Inicialmente, o grupo privilegiado usa da violência para manter seu domínio; e isso pode acontecer por meio de intimidação contra as mulheres, seja por assobios na rua, assédio sexual, estupro, agressão e até mesmo assassinatos, conhecidos como “feminicídio”. Muitos homens cometem tais atrocidades contra o público feminino e dificilmente retiram sua culpa: eles sentem que exercem um direito, o que é ainda mais preocupante – tanto quanto o fato de os homens assumirem também como pressuposto que a mulher está sempre errada e, por isso, vasculham submundos da crueldade para encontrar algum motivo para culpá-la e, numa sequência lógica, puni-la por eles mesmos. Em segunda instância, a violência também pode decorrer de uma política de gênero entre os homens, ou seja, eles usam do terror como uma forma de reivindicar ou reafirmar a masculinidade. Igor Cabral, agressor de Juliana Garcia. Foto: Reprodução/Internet A exemplo de algumas violências, temos o caso de Igor Cabral, que desferiu 61 socos contra a sua namorada, Juliana Garcia, dentro do elevador de um condomínio em Natal, no Rio Grande do Norte, em julho de 2025. Juliana sofreu graves fraturas no rosto e o ocorrido foi investigado como tentativa de feminicídio. Outra violência registrada no Brasil diz respeito à agente comunitária de saúde Amanda Loureiro da Silva Mendes, morta a tiros pelo ex-companheiro, Wagner Araújo, em fevereiro deste ano, ao chegar para trabalhar em uma clínica da sua família, no Rio de Janeiro. De acordo com a polícia, os dois estavam separados havia quatro meses, entretanto, Wagner não aceitava o término do relacionamento e a perseguia, mesmo com uma medida protetiva contra ele. Wagner Araújo, assassino de Amanda Loureiro. Juliana, nossa protagonista do livro em questão, é uma sobrevivente atormentada pelas sombras de seu passado, aqui intitulado de Fernando. Ela é um exemplo ficcional que funciona como reflexo de como a violência contra as mulheres é estrutural: trata-se de um conjunto de padrões masculinos dentro de uma cultura opressora que naturaliza esse tipo de atitude. Cabe aqui, então, um chamado para nós, homens, refletirmos sobre essas violências e mudarmos padrões comportamentais; bem como às mulheres, uma vez que elas constituem o principal grupo atingido por esse fenômeno. É importante enfatizar que a violência de gênero pode acontecer com qualquer uma e várias demoram para sair desse ciclo, se submetendo, muitas vezes, a humilhações, controle, isolamentos e entre outras situações. O enredo não é leve e Johany, sabendo disso, dedica uma nota para alertar os seus leitores sobre possíveis gatilhos que a história pode lhes causar. Isso porque, durante a leitura, vamos lidar com temáticas associadas à violência psicológica, relacionamento abusivo, estupro, ansiedade, depressão e menção ao suicídio. Ou seja, se sua vida é marcada por algumas dessas questões, recomendo que, pelo bem da sua saúde mental, tenha cautela. Por outro lado, embora trate de um tema doloroso, é uma obra que merece ser lida e apreciada. Ela contribui para que, não só nesse Agosto Lilás, mas em todos que vierem daqui em diante, o leitor, seja homem ou mulher — mas principalmente o homem — saiba como a violência contra a mulher pode ser reproduzida e/ou legitimada no nosso cotidiano, mesmo com as leis vigentes em nosso país. É um livro altamente recomendado para quem deseja entrar em contato com as relações de gênero, que são marcadas pelo poder nos relacionamentos e pela responsabilidade social. CURIOSIDADES O Agosto Lilás é uma campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. O mês foi escolhido porque marca o aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. A ação busca alertar a sociedade sobre a importância de prevenir e combater o abuso de gênero. Raewyn Connell é socióloga, educadora e cientista social australiana. Ela é mundialmente famosa por criar o conceito de “masculinidade hegemônica” e por ajudar a fundar o campo dos estudos sobre os gêneros e as masculinidades. “Feminicídio” é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, ou seja, motivado pelo gênero, misoginia ou pelo contexto de violência doméstica e familiar. É a forma mais extrema de violência machista e estrutural contra a mulher. Ligue 180: Para denúncias de violência, orientações sobre direitos das mulheres, localização de redes de apoio ou relatos que não sejam de risco imediato. Ligue 190: o número de telefone de emergência da Polícia Militar no Brasil, usado para acionar socorro imediato em casos de crimes em andamento ou perigo iminente. SAIBA MAIS https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/04/mulher-baleada-em-quintino.ghtml https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/tipos-de-violencia.html https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-08/61-socos-caso-no-rn-retrata-escalada-da-violencia-contra-mulheres https://forumseguranca.org.br/publicacoes/atlas-da-violencia/ https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/mapadaviolencia
- 7º FestCine Itaúna leva cinema, arte e cultura para comunidades rurais de Caruaru
Festival Internacional de Cinema de Itaúna realiza edição gratuita entre 10 e 16 de agosto, com 140 filmes, ações formativas, apresentações artísticas e protagonismo de crianças e adolescentes da zona rural Por Venusto Neto Entre os dias 10 e 16 de agosto, a zona rural de Caruaru se transforma em uma grande sala de cinema. É nesse período que acontece a 7ª edição do FestCine Itaúna – Festival Internacional de Cinema de Itaúna, levando gratuitamente produções brasileiras e internacionais para comunidades do campo, escolas públicas e espaços comunitários do município. Ao todo, serão 140 filmes exibidos, selecionados entre mais de mil obras inscritas do Brasil e do exterior. Mais do que uma mostra cinematográfica, o festival aposta em uma programação que aproxima o audiovisual de outras linguagens artísticas e das próprias comunidades, reunindo cinema, música, formação, sustentabilidade, acessibilidade e ações de fortalecimento comunitário. O FestCine Itaúna transforma espaços das comunidades em locais de encontro, celebração e exibição cinematográfica. Cinema onde o cinema nem sempre chega Com caráter itinerante, o festival percorre diferentes localidades da zona rural de Caruaru, passando por Vila Itaúna, Riacho Doce, Vila Murici, Vila do Juá, Sítio Carneirinho, Vila Rafael, Dois Riachos, Craibeiras, Carapotós e Cachoeira Seca. A iniciativa também chega a escolas estaduais, em parceria com a Secretaria Executiva de Políticas sobre Drogas (SEPOD) do Governo de Pernambuco e a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome de Caruaru. As ações contam ainda com o apoio do Cineclube Cuca Livre. A proposta faz do território parte fundamental da experiência. Em vez de concentrar as atividades em um único espaço, o FestCine leva as produções diretamente para onde vivem e estudam os moradores das comunidades. O público das comunidades participa ativamente das atividades do festival, que tem entre seus objetivos ampliar o acesso ao cinema. Um festival feito para e com a comunidade Um dos grandes diferenciais desta edição é o Júri Jovem, formado integralmente por crianças e adolescentes da própria zona rural de Caruaru. O grupo participa da avaliação das obras e da escolha dos filmes vencedores, colocando jovens do território no centro das decisões do festival. As produções premiadas recebem o Troféu Cururu de Ouro, uma peça exclusiva moldada em barro pelo mestre artesão Horácio Rodrigues, do Alto do Moura. Os vencedores também concorrem ao Prêmio do Júri da ACCiRN – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte – e a um total de R$ 36 mil em locação de equipamentos audiovisuais, oferecidos pela NAYMOVIE – Infraestrutura Audiovisual. “O festival nasceu no coração da zona rural e está se ampliando para cada vez mais localidades. É uma forma de descentralizar o cinema, democratizar o acesso e fazer com que comunidades que nunca tiveram contato com essa produção cultural possam não apenas assistir, mas também produzir e trocar experiências com realizadores de diferentes lugares.” — Túlio Beat, produtor executivo do FestCine Itaúna Uma celebração do cinema pernambucano Nesta edição, o FestCine Itaúna também inaugura uma nova tradição: a homenagem a nomes fundamentais do cinema brasileiro. O primeiro homenageado é o cineasta e produtor caruaruense Leo Tabosa, conhecido por sua atuação na produção audiovisual pernambucana e idealizador do Cine Jardim, em Belo Jardim, e da Mostra Curta Vazantes, no Ceará. Tabosa também dirigiu filmes como Gravidade (2015), Nova Iorque (2018), Marie (2019) e Cavalo Marinho (2024). O audiovisual pernambucano também ganha destaque com a homenagem ao cineasta e produtor caruaruense Leo Tabosa. Muito além da tela A programação do festival não se limita às sessões de cinema. Durante a semana, o público também poderá participar de oficinas de produção audiovisual, produção cultural e plantio de sementes crioulas, além do Fórum Agrestino de Cinema, realizado em conjunto com o Núcleo Audiovisual de Caruaru (NAC). A proposta reforça o caráter multicultural do evento e amplia o cinema como ferramenta de formação, encontro e transformação social. Com crianças, jovens, educadores, artistas e moradores, o festival constrói uma experiência coletiva de acesso à cultura. Encerramento com homenagem e premiação O encerramento acontece no domingo, 16 de agosto, em Riacho Doce, a partir das 18h. Além da exibição de filmes, a noite contará com a homenagem a Leo Tabosa e a cerimônia de premiação do festival. Em Carapotós, comunidade quilombola, também haverá uma sessão especial no mesmo dia, a partir das 19h. Idealizado pelo cineasta Paulo Conceição e com produção executiva de Túlio Beat, o FestCine Itaúna reúne uma equipe formada por Camila Haydee, Óscar Araújo, Bruno Adrian, Leo Hick, Daniel Ferreira, Lucas Carvalho, Deusdete Maria e Candido Rafael. O festival é realizado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Fundação de Cultura de Caruaru e da Prefeitura de Caruaru. SERVIÇO 7º FestCine Itaúna – Festival Internacional de Cinema de Itaúna Quando? 10 a 16 de agosto Onde? Comunidades rurais e escolas públicas estaduais de Caruaru/PE Quanto? Entrada gratuita Para mais informações acesse: @festcineitauna
- O frágil ceticismo de "A Cabeça do Santo"
Por M.E. Rodrigues Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Capa do livro editada por M.E. Rodrigues. Foto: Acervo pessoal Nas primeiras páginas de A Cabeça do Santo (Cia. das Letras, 2014), Socorro Acioli nos apresenta um dia de sol latente no Sertão do Ceará, que arde, que queima e castiga. Ofegante, suado e contrariado, Samuel, protagonista da história, surge neste cenário andando pelas estradas da região. Regido por um último pedido de sua mãe, em seu leito de morte, sai em busca da avó e do pai que nunca conheceu. Samuel não tinha nada além de suas roupas, a falta de fé e fome, muita fome. Não sabia ao certo há quanto tempo caminhava por aquelas vias, em busca de uma cidade que já estava começando a duvidar que existia. Sem dinheiro para pegar uma lotação e sem carisma para pedir uma carona, lá estava ele, com o sol quente sobre sua cabeça, delirando de fome, e aí que começa o brilhantismo de Socorro Acioli neste livro. É comum que personagens descrentes em seres superiores ou em episódios sobrenaturais, passem por aprovações e dúvidas para que, no fim, acabem saindo mais crentes do que no começo da história. Ilustração feita por Gustave Doré de Dom Quixote e Sancho Pança. Foto: Reprodução/Internet Na bíblia, em fábulas e romances de formação, essa trajetória já foi bastante utilizada. Aqui, a autora não vai muito distante dessas narrativas, mas é a forma com que ela faz que muda tudo. Se utilizando de uma bem escrita narração em terceira pessoa — que segue até o final do livro — Acioli expande o delírio de Samuel e o coloca de frente a estranhas criaturas e cavaleiros, nos fazendo lembrar e o comparar com um certo paladino do século XVII, conhecido por Dom Quixote. O protagonista os observa, os escuta e reflete sobre seus alertas. É notório que aquelas figuras não apareceriam se o calor e a fome não estivessem o sugando tanto, mas a maneira como elas são inseridas faz com que nós, juntamente com o Samuel, duvidemos se esses seres não são figuras enviadas por um Ser maior, uma entidade, o alertando do que possa vir acontecer. Então, neste momento, temos o primeiro teste, uma quase crença. Mas aí, o protagonista acorda em sobressalto. Os cavaleiros não estão mais lá. E tudo aquilo era o que, racionalmente, é: um delírio. Samuel é um homem que quase acredita. Cresceu com uma mãe fervorosa e otimista, que não acreditava apenas em Deus, mas nas pessoas. Na bondade do mundo. Já Samuel acreditava nela, tinha fé em sua mãe e quando ela se foi, o mesmo não sabia onde depositar suas esperanças. “As esperanças nunca foram suas, eram de Marinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito.” (p. 13) E com esse ceticismo enraizado, Samuel chegou na cidade de sua avó, Candeia. Após ser expulso de uma bodega por pedir um pedaço de pão, o narrador nos apresenta o porquê de Samuel ser tão descrente com o mundo. O personagem não precisa discursar sobre suas amarguras, mas os personagens em torno, tratando da forma como o tratam, mostram isso. É desesperançoso. Nessa situação, vai se formando no leitor uma esperança de que, no momento em que Samuel encontrar sua avó, ela vai se mostrar diferente das pessoas que foram a porta de entrada de Candeia. Não sei se pela palavra “avó” trazer uma conotação de cuidado e afeto já bem consolidada no senso comum, ou pela mãe de Samuel tê-lo dito — e ele ter “dito” para nós — que sua avó era uma mulher justa e gentil, mas há essa expectativa, essa construção de crença, quebrada rapidamente nas páginas seguintes. Essa brincadeira de crença, mas não-crença. Mas, veja: essa expectativa é quebrada para nós, não para Samuel. Cético. Ele, enxotado também pela avó, não demonstra surpresa. Raiva, sim; pela fome, por sentir que não deveria ter ido lá e que estava certo, no fim. Acioli parece dar mais pano para esse olhar mais acinzentado para vida, conduzindo o personagem para lugares que justificam sua visão de mundo. Após isso, toda cidade parece inóspita. A autora, que se utiliza de muitas prosas para então descrever os espaços e ambientes da cidade, só nos dá mais detalhes do que Candeia é na introdução de personagens mais próximos ao protagonista. Até lá, nós só conhecemos a bodega, a frente da casa da avó de Samuel e claro, a cabeça de Santo Antônio. Cabeça da estátua de Santo Antônio, no bairro Conjunto Habitacional, no município de Caridade, Ceará. Foto: Reprodução/Internet Samuel precisava de um abrigo. Como sua avó não abriu as portas da casa para ele e não deu nenhum paradeiro de seu pai, ele se viu perdido em uma cidade que não conhecia, mas que já não gostava. Queria ir embora, quase foi. Mas, por não conseguir, foi buscar abrigo em um local incomum: a cabeça da estátua de Santo Antônio, que, anos atrás e misteriosamente, se soltou do corpo e desceu morro abaixo. Como ele chegou na cabeça é uma sequência de cenas rápidas — estilo de escrita adotado por Acioli em diversos trechos — que envolvem chuva e cachorros raivosos. Quando Samuel é mordido por um, a dor o cega e faz com que ele se esconda nos escombros. O protagonista se vê em um eterno estado de má sorte, a falta de crença vira pessimismo e com o ferimento e a fome, para Samuel, sua sobrevivência seria um milagre. E o milagre acontece. No dia seguinte, quando ele acorda após uma noita mal dormida, nosso protagonista já fica agoniado com a quantidade de vozes pairando sobre sua cabeça. Não são vozes inaudíveis. Há, desde o começo, uma clara definição delas. São vozes de mulheres, falando de suas lamúrias e desejos para o Santo Casamenteiro, o dono da cabeça em que Samuel dormiu. “Já perto do fim da tarde adormeceu novamente, e só despertou às cinco horas em ponto, com as mesmas vozes de mulheres atormentando o que restava de seu juízo.” (p. 34) Ilustração de Santo Antônio. Foto: Reprodução/Internet É nesse momento que Socorro Acioli nos traz, mais uma vez, a ironia do destino. Imaginem uma pessoa que não acredita nos milagres dos Santos, de que há situações que acontecem sem explicação — mas acontecem —, e que, de repente, essa pessoa recebe o dom — ou a maldição — de escutar as súplicas de pessoas que acreditam não só no Santo, mas em seus milagres. Com o tempo, nos é explicado como essas vozes chegam até Samuel e nós ficamos responsáveis por interpretar se é, ou não, algum tipo de misticismo. A meu ver, não é a prova ou a falta dela que faz o livro girar e ser interessante, mas essas pequenas provas que alcançam um protagonista tão distante delas em corpo e espírito. O livro ganha outra direção quando o protagonista acorda com esses dons. É a partir dele que Samuel tem contato com outras pessoas de Candeia e, consequentemente, com outros espaços da cidade. Nesse momento, outros personagens são introduzidos na história. Um deles é Francisco, um moço que nunca saiu de Candeia e desde cedo sofre com a inércia, com a mesmice, com a falta de movimentação na cidade e o mau-humor generalizado de seus moradores. Aproveito este ensejo para pontuar a maneira como Candeia vai se revelado um local muito parecido com o nosso protagonista. Nesta história, Acioli constrói figurativa e tematicamente um quadro, uma tela de espelhamento de protagonista e espaço. Ambos são descritos como amargurados, de semblante fechado e nada receptivos. Os dois tiveram decepções, seja com pessoas reais ou entidades, tão marcantes, que a maneira como seguiram na vida se voltou para uma falta de crença a quaisquer fatores externos de círculo íntimo. Acho perspicaz como as mudanças que surgem após Samuel começar a escutar as vozes, afetam tanto nosso protagonista quanto o local onde se passa quase toda a história. Com o passar da trama, Francisco se torna amigo de Samuel e o ajuda a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. E antes parada no tempo, Candeia vai voltando à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder de Samuel. Assim o livro segue mostrando mais um milagre, feito pelo personagem mais cético de todo livro. Com o dom de Samuel, a cidade volta a ter fé. E, em meio a esse tumulto, o protagonista vive o seu próprio milagre, o maior teste de sua falta de fé. Mas essa parte da história, recomendo que seja lida na íntegra no restante do livro. Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Internet Como precisamos finalizar, em A Cabeça do Santo é construída uma narrativa original, mesclando realismo mágico e crítica social com uma prosa fluida e cheia de imagens vívidas. Acioli tem um talento nítido para criar personagens memoráveis, especialmente as figuras secundárias, que dão densidade ao enredo. A obra aborda temas importantes, como tradição, solidão e redenção. Assim, Socorro Acioli nos mostra, no decorrer do livro, que estamos sempre a um passo de ter, ou não, fé. Sendo necessária muita coragem para acreditar em algo. E eu, que comecei o livro com pouquíssimas crenças, terminei acreditando um pouco mais em tudo. Ficha técnica Título: A Cabeça do Santo Autora: Socorro Acioli Gênero: Romance/Ficção Contemporânea (com elementos de realismo mágico) Editora: Companhia das Letras Ano de Publicação (primeira edição): 2014 Sinopse: A obra narra a história de Samuel, um jovem que, após ser a morte de sua mãe, percorre o interior do Ceará com o objetivo de realizar seu último desejo. Lá, ele se abriga dentro da cabeça oca de uma estátua de Santo Antônio e descobre que consegue ouvir as orações das mulheres da cidade — incluindo segredos e desejos íntimos. A trama mistura humor, crítica social e elementos de realismo mágico, explorando temas como religiosidade, solidão e identidade. SAIBA MAIS Livros que trabalham com realismo mágico e todos deveriam ler: A Casa dos Espíritos (1982, Isabel Allende) Pedro Páramo (1955, Juan Rulfo) Cem Anos de Solidão (1982, Gabriel García Márquez) CURIOSIDADES A “cabeça do santo” realmente existe. Em uma cidade do interior do Ceará, a estátua de Santo Antôntio ficou sem cabeça por anos, devido a problemas em sua construção. A história de Samuel foi pensada por Socorro Acioli em uma oficina ministrada por Gabriel García Marquez, autor mundialmente conhecido por ser influenciar grande parte do gênero Realismo Mágico.
- O amor vivo em versos: entrevista com Ana Júlia Pereira Carneiro, autora de Luiza.
Por Fausto Paranhos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Autora em foto para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Não sei se você já ouviu alguém falar que “quanto menor o muro, mais segura é a casa”, mas neste conceito, à primeira vista paradoxal, que sustento minha leitura de Luiza (2023, Editora Novos Ases), publicação inaugural da escritora e poetisa pernambucana, da cidade de Palmares, Ana Júlia Pereira Carneiro. O livro é uma coletânea de suas confissões e pensamentos íntimos, registrados em versos que traduzem seus sentimentos em relação a quem empresta o nome ao livro, sua falecida irmã. Por meio de desabafos, apelos e fantasias, vemos em Luiza a sinceridade crua que as emoções causam na vivência cotidiana e como a autora lida com suas culpas e confortos ao viver o luto. É assim, despida de suas armaduras, e expondo o seu lado mais vulnerável que Ana Júlia encontra sua força e a expressa em seus versos que sintetizam, em poesia, o amor — nas suas mais diversas formas. Com a palavra, Ana Júlia Me chamo Ana Júlia Pereira Carneiro, tenho 21 anos, sou de Palmares, considerada a “Terra dos Poetas”. Sou estudante de psicologia e tenho uma loja online de cookies (@sunsetcookies__). Me encontrei no mundo da literatura, como escritora, em abril de 2023. Mês de aniversário da minha Luiza. [FAUSTO]: Sua primeira publicação já é envolta em forças e vulnerabilidades, como você entendeu e concebeu a ideia de partilhar sentimentos tão íntimos quanto os relatados em Luiza? [ANA JÚLIA]: “Quando eu vi, virou livro”, disse isso uma vez e repito até hoje. Eu nunca escrevi pensando que um dia isso aconteceria. Escrevia porque precisava disso para sobreviver à tudo, era algo muito natural quando eu era mais nova, antes mesmo de tomar consciência de que eu escrevia como uma forma de existência. Antes do livro, quando sentia a necessidade de compartilhar algum verso que tinha escrito — fosse em algum diário ou no bloco de notas do celular — eu apenas publicava o texto nos stories, por exemplo; as respostas à essas publicações me fizeram perceber que talvez as pessoas quisessem ouvir o que eu tinha de falar. Como normalmente funciona seu processo de escrita? E como foi em Luiza? Minha escrita sempre surge naturalmente, de uma forma que não consigo conter; ela só vem e toma conta. Sempre foi assim! Primeiro eu sentia, vivia e, quando me dava conta, estava dizendo e escrevendo sobre o “indizível”. Lembro de uma palestra da Ana Suy, ela diz que a escrita é como um espirro: ele só vem, e a gente não consegue contê-lo. Quais desafios você enfrentou para a publicação, em especial num gênero como o poema? A literatura já tem resistido muito diante de todas as dificuldades, mas a poesia é como uma flor sobrevivendo no meio do deserto. Sinto falta de uma propagação da literatura de modo geral, com lugares acessíveis a todos para o incentivo à leitura. Faz alguns anos que implantaram uma feira literária em minha cidade, antes disso não tinha nada. Mesmo com a feira, os preços dos livros são muito altos, sendo a maioria dos compradores, professores e outros funcionários públicos que recebem o voucher de incentivo. No fim, o acesso ainda é pouco democrático. Mas, para a publicação, passei na chamada de uma editora, onde eles custeavam metade da produção, o resto do valor foi pago por mim, com ajuda de familiares e amigos. Com o tempo descobri que poderia ter produzido tudo de modo independente, ou contado com auxílios públicos à produção cultural, como a Lei Paulo Gustavo, entre outros editais. Autora em evento para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Falar das consequências do luto é sempre um tópico sensível, em especial quando vivenciando isso de modo tão precoce. Qual foi a parte mais difícil ao tratar de um momento tão delicado de sua vida? Acredito que escrever permite que a gente reviva alguns momentos e reflita sobre sentimentos que estavam adormecidos. Vivo em um processo de análise para a elaboração do meu luto e acho que minha escrita foi uma consequência disso. Uma das coisas que percebi durante todo o processo do livro, foi o receio das pessoas em falar sobre a morte. O receio e o silêncio da minha família — e de todos os conhecidos e desconhecidos — sobre a dor [desses processos], dói muito mais do que falar sobre ela. Passei a escrever para lidar com a ausência da vida da minha irmã. Em todo o livro você comenta sobre sua decisão de transmitir a vida de sua irmã por meio da sua. Você considera Luiza como uma materialização desse sentimento? Sim, com certeza! É meio louco saber que, hoje em dia, se eu falar o nome “Luiza”, as pessoas sabem sobre quem estou falando. Eu sempre disse que o livro não é apenas sobre ela e a sua morte, mas como se eu contasse a Luiza tudo que vivi depois que ela partiu. Como você interpreta esse relacionamento do público com o seu texto? Qual o sentimento envolto ao ver essa relação sendo construída? É uma surpresa. Eu acho muito curioso quando um leitor dá sentidos a um texto, que eu ainda não tinha atribuído ou pensado sobre. É, de fato, ele tomar o texto para si e fazer o que quiser dele. Algo que me marcou na leitura do seu livro é o modo como não somos apresentados aos relatos e seus personagens. Isso acrescenta ao intimismo, que o próprio teor da obra aponta, de uma maneira que nos conecta com seus sentimentos, como se fôssemos parte de sua consciência. Esse artifício de conexão foi proposital durante seu processo de escrita? Essa é a primeira vez que penso sob essa ótica! Não foi algo planejado, naturalmente aconteceu. Algo que sempre fiz foi manter uma certa “distância” dos personagens, tanto para preservar quem eram — já que a maioria deles são inspirados em pessoas com quem convivo, mesmo que com traços da fantasia — quanto para que fosse algo em que o leitor pudesse identificar a sua própria história e se enxergar nas minhas palavras. Em um dos textos do livro, você descreve um cenário cotidiano em que você tem uma filha, até revelar que se trata de uma fantasia de uma vida futura. Mesmo a conhecendo e sabendo que nada daquilo era possível, estava tão convencido e conectado àquela estória que até duvidei de minha memória [risos]. Qual foi a sua intenção, como poetisa, ao escrevê-lo? Existem textos que são inteiramente reais, outros são histórias de amigos e alguns são fantasias pessoais. Uma vez me escreveram uma resposta à esse texto, contando como se vissem de fora o desenrolar dessa cena. Logo no lançamento, eu costumava dizer que o livro era uma conversa que eu iniciava com o leitor, e receber essas respostas era a prova desse diálogo. Retomando o tópico conexão, a partir de um certo ponto do texto o pertencimento passa a ser um tópico central, você fala de sua cidade, de suas relações — a quem você chama de “minhas pessoas” — e daquilo que lhe foi habitual durante toda a vida, justamente em um momento narrativo sobre amadurecimento. Você diria que o momento narrativo se relaciona com esse sentimento de falta e quebra de hábitos? Sim! Acho que amadurecer e “sentir falta” caminham juntos em dado momento da vida. Sentir falta de casa foi o que me fez enxergar o que realmente importava para mim, as coisas das quais não posso abrir mão de ter perto, por me fazer ser quem sou. Falar sobre minha família, minha cidade e minhas pessoas, de certa forma, é falar sobre quem me tornei. O amadurecimento que cito no livro nasceu das ausências e das mudanças. Pertencimento, para mim, é carregar aquilo que nos formou, mesmo quando tudo ao redor muda. Ainda sobre conexão, e acrescento pertencimento, você é de Palmares, cidade do interior de Pernambuco que recebe a condecoração de “Terra dos Poetas” — título que, inclusive, aparece em um momento mais descontraído do livro. Qual sua relação como escritora, poetisa, artista das letras, à realidade interiorana, em especial no contexto de Palmares? Palmares é a minha casa, a cidade onde meu coração mora. Estão aqui as minhas pessoas, que me ensinaram o que é amor e como amar, me fizeram ser quem sou. A Terra dos Poetas é onde mora o coração da poeta. O livro foi publicado em 2023, quando você tinha 18 anos, e é interessante reparar nas referências que nos lembram que aquelas palavras advêm de uma adolescente. Hoje, sob uma ótica mais adulta, como você enxerga essa relação da poesia com a sua vivência de juventude? Eu precisava da poesia para sobreviver à adolescência e hoje preciso dela para sobreviver à vida adulta. Provavelmente continuarei precisando dela pelo resto da vida. A vida mudou e o repertório, por consequência, também. Não é como deixar a juventude para trás, mas assumir a vida adulta e entender que o que escuto e o conteúdo que consumo hoje é somado a tudo isso. Você diria que houve mudanças na sua escrita desde então? Com certeza! Acho que todo escritor com quem conversei me relatou sobre o amadurecimento da escrita. Acho que é possível sentir esse processo dentro de Luiza. Os textos iniciais são diferentes dos textos do meio, que são diferentes dos que estão no final dele; alguns são de quando eu tinha 13 anos, outros foram escritos quando o livro já estava em processo de produção. Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Para finalizar, onde podemos encontrar Luiza e como Luiza vai nos encontrar? Você pode encontrar em sites on-line ou comprar diretamente comigo pelo Instagram (@anajcarneiro), que é onde a maioria prefere. Envio pelos correios, com dedicatória e brindes! PALAVRAS FINAIS Luiza é um livro que vai colocar luz onde há sombra. Nele, eu falo sobre o processo de luto, pertencimento e amadurecimento que precisou continuar mesmo depois da partida da minha irmã. Acima de tudo, falo sobre o amor que nos sustenta depois da dor da partida. Se você acha que as palavras podem ser abrigo, esse livro é para você. Transforme meu livro em casa para seu coração.
- Espetáculo da fragilidade: o retorno da tendência da magreza extrema
Por Vitória Alves de Sá Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Treinos mirabolantes, dietas do momento e, agora, as famosas “canetinhas mágicas” para acelerar o processo de emagrecimento. Há quantas gerações novos métodos extraordinários continuam sendo criados apenas para que possamos nos adequar a um determinado padrão físico? O retorno da magreza extrema se deu por conta de uma pressão estética que, mais uma vez, se reinventou de maneira “sofisticada”. Foto: Reprodução/Internet Nos últimos meses, tornou-se cada vez mais evidente a hipervalorização de silhuetas extremamente pequenas e frágeis em tapetes vermelhos, capas de revistas e perfis de influenciadores, onde os braços excessivamente finos e clavículas bastante aparentes ganharam destaque. No entanto, é importante destacar que esse fenômeno não é novidade no ambiente digital: ele retorna a movimentos mais antigos da internet, como as comunidades "pró-ana" e "pró-mia”, que tinham como objetivo normalizar transtornos alimentares e ganharam muita força na época do Tumblr como uma visão de "estilo de vida”. Ariana Grande na 16ª edição do “Governor's Award” em 2025. Foto: Reprodução/Internet Uma tendência não surge da noite para o dia, mas aparece de forma sorrateira a partir da disseminação de comportamentos das celebridades e influenciadores em redes sociais. A lógica é simples: os famosos iniciam o comportamento, os seguidores reproduzem e rapidamente se espalha para terceiros. Assim, sendo impulsionado por algoritmos que criam microtendências a todo instante, essa estética atinge até quem não acompanha ativamente esses famosos por meio do FOMO ("Fear Of Missing Out" ou o "medo de ficar de fora"). É o receio constante de não pertencer e de estar obsoleto que impulsiona a rápida reprodução estética pelo público geral. Um fato é: o bem-estar real foi substituído pela performance do bem-estar nas redes sociais, transformando a magreza em um espetáculo de engajamento e consumo rápido. Sem nenhuma surpresa, as mulheres são o público mais afetado por esse cenário, já que enfrentam uma cobrança estética historicamente muito mais severa e opressiva em comparação àquela imposta aos homens. Por mais que a mídia mostre esses corpos como o ideal de perfeição e beleza, a realidade por trás deles envolve uma profunda fragilidade da saúde física e mental. O mais bizarro é que, mesmo vivenciando complicações que colocam em risco a estabilidade hormonal, a imunidade, a saúde dos ossos, da massa muscular, da energia do dia a dia e, consequentemente, abrindo mão do próprio bem-estar, é importante pontuar que o sofrimento dessas mulheres vai muito além de uma simples "insatisfação"; muitas perdem a autoconsciência da própria imagem e desenvolvem quadros severos de disforia tornando-se vítimas de um maquinário que destrói a percepção visual do próprio corpo. Quando a saúde feminina entra em colapso, a cultura do consumo vende novos produtos para "resolver" esses danos, o sistema cria a insegurança e a patologia, para logo em seguida vender a solução embalada em formato de suplementos milagrosos, vitaminas e terapias capilares de recuperação. A indústria lucra duas vezes com o mesmo corpo, primeiro a imposição de uma dieta, depois com os danos causados por ela. Na saúde mental, também há estragos: o movimento desencadeia condições psicológicas graves, persistentes, e que alteram o humor e até mesmo a cognição. Vale ressaltar que emagrecer não é algo que deve ser julgado de modo negativo, mas é necessário identificar quando a busca pelo emagrecimento se torna um sintoma. O valor de uma pessoa jamais pode ser medido por um número na balança, o fundamental é o corpo estar saudável e não condicionado a se moldar a réguas estéticas que estão constantemente se reinventando para gerar novas demandas de mercado. Cena de "O Mínimo para Viver" de Marti Noxon, Netflix (2017). Foto: Reprodução/Internet Essas "réguas” cobram um físico seco, onde alterar o corpo por meio de exercícios físicos não parece dar mais conta dessa necessidade de mudar, criando uma busca cada vez maior pelas intervenções estéticas. Historicamente, no entanto, é impossível ignorar de onde elas surgiram. A cultura da constante alteração corporal tem raízes profundas que vão além das redes: desde as fitas cassete de Jane Fonda, que popularizaram a cultura da dieta na TV na década de 1980, até chegar à raiz matriz de tudo isso, que é o padrão eurocêntrico. No Brasil por exemplo, desde o período colonial características como pele clara, cabelos lisos e traços finos foram priorizadas, enquanto feições indígenas e africanas foram marginalizadas. Ao longo das décadas, o modelo estético se transformou, mas manteve a predominância desses traços, adaptando-se à tendências como a valorização do corpo curvilíneo — porém, sempre dentro de limites "aceitáveis". A mídia e a publicidade reforçaram essa padronização e excluíram corpos fora desse ideal. Apesar dos avanços na representatividade e na aceitação da diversidade, a pressão estética ainda reflete a influência colonial, evidenciada por práticas como alisamento capilar e cirurgias estéticas. Tentar impor esse molde a corpos de mulheres, que alternam numa diversidade imensa de biotipos, é promover uma opressão estética. O corpo que foge dessa norma europeia passa a ser tratado como um erro, um desleixo, ausência de disciplina e inferioridade a ser consertado por clínicas, dietas e outras práticas que, do mesmo modo, chegam ao extremismo. Por isso, desconstruir a cultura da magreza extrema também é um ato de romper a pressão social que frequentemente é imposta na autoimagem das mulheres, de alguns homens, crianças e idosos que também acabam sendo afetados. Em uma cultura pautada pela lógica do espetáculo, na qual a nossa insatisfação é a mercadoria mais rentável do mercado, fica o questionamento: até que ponto o desejo de transformar o próprio corpo é genuinamente nosso? Será que estamos, de fato, buscando a "melhor versão" de nós mesmos, ou apenas tentando desesperadamente caber na mais nova e lucrativa vitrine da indústria que se sustenta ao nos convencer de que nunca seremos o suficiente?
- Escrita e narração: entrevista com Ilca Vilela
Por Eduarda Santana Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins PALAVRAS INICIAIS Carolina Maria de Jesus, fez da escrita um instrumento para sobreviver ao próprio cotidiano. Jarid Arraes, em seu livro Corpo desfeito (2022), abordou sobre infância e sexualidade com uma escrita visceral ao falar sobre sua realidade. Conceição Evaristo, com sua prosa poética, criou o termo "Escrevivência" e deu ênfase no poder em contar experiências vividas por mulheres pretas dentro da literatura. Amanda Lovelace, Maria Luiza Martins, Igor Pires, Akapoeta e tantos outros artistas utilizam da palavra para narrar emoções humanas e conduzir os leitores a buscar uma poesia revelada só por meio da travessia na literatura. Através de escritos como os dessas autoras e muitos outros, podemos observar nossas próprias vivências narradas. O impacto cultural que surge a partir do uso da linguagem na vida é, além de tudo, um direito. Um direito de conhecer a própria história e a própria dor. É o direito à Literatura acima de tudo, assim como defendia o crítico literário Antônio Candido. Nesta entrevista, a linguista Ilca Vilela, de Garanhuns (UFRPE:UAG e atual UFAPE), fala um pouco sobre a sua trajetória acadêmica e sua relação com a linguagem escrita. Ela reflete também sobre os efeitos da literatura na sociedade e em nossa identidade cultural. [EDUARDA] Primeiramente, gostaria de dizer que é uma honra lhe entrevistar e poder falar um pouco sobre meu tipo de linguagem favorito, que é a escrita. Mais precisamente, a escrita literária com foco na narração. O que você aponta como narração e o que ela tem a ver com a narratividade que estudamos em semiótica? [ILCA] Assim como você, Eduarda, também tenho preferência pela escrita. A honra é minha por ter a oportunidade de dialogar com você sobre um tema que tanto nos aproxima. O conceito de narração está tradicionalmente associado aos estudos da Narratologia, tendo como principal objeto de investigação os textos literários e as diferentes formas de construção das histórias. Já o conceito de narratividade, na perspectiva da Semiótica Greimasiana, possui um alcance mais amplo. Trata-se de uma estrutura constitutiva de todo e qualquer texto, independentemente de sua linguagem ou suporte. Nessa concepção, seja em um anime, em um romance, em uma reportagem, em uma propaganda ou até mesmo em uma postagem no Instagram, é possível reconhecer uma organização narrativa mínima: uma cena em que um sujeito se relaciona com um objeto de valor, buscando conquistá-lo, preservá-lo, perdê-lo ou transformá-lo. É justamente essa dinâmica entre sujeitos, objetos, valores e transformações que constitui a narratividade como princípio organizador da produção de sentidos. As histórias contadas — assim como suas transformações e personagens — são um simulacro do real e constroem um modo de ser o real. Essa organização de narrativa acontece por quem a conta, a quem chamaremos de “sujeito da enunciação”. Esse sujeito, então, constrói um simulacro do mundo e estrutura a história. Ilca, você acredita que esses simulacros influenciam de fato a maneira como vemos o mundo? Ou, de outro modo: ele tem o poder de fazer a gente ver o “social” de uma outra perspectiva que não necessariamente a nossa? Os simulacros constituem poderosas ferramentas de construção de imagens discursivas que se manifestam nos textos. Por meio das estratégias linguísticas que seleciona, um determinado veículo de comunicação pode construir a imagem de um político como competente e honesto ou, em sentido oposto, elaborar o simulacro de um político desonesto e incompetente. Embora os simulacros não se refiram à pessoa em sua existência concreta, mas a construções produzidas pela linguagem, a ampla circulação dessas imagens pode influenciar significativamente a forma como os sujeitos interpretam a realidade e orientam seus julgamentos no cotidiano. Livro "Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han (2015, Editora Vozes). Foto: Reprodução/Internet Como você acha que isso nos afeta em nossa identidade, sobretudo devido à sociedade do cansaço que o filósofo e ensaísta Byung-Chul Han reflete em que estamos? No contexto da sociedade do cansaço, conceito desenvolvido pelo filósofo Byung-Chul Han, os indivíduos procuram responder a um número cada vez maior de demandas, na tentativa de maximizar seu desempenho. Como consequência, tornam-se exaustos e progressivamente incapazes de usufruir do tempo livre de maneira desinteressada, em razão do excesso de estímulos promovido pelas mais diversas tecnologias. Nesse cenário, os simulacros desempenham um papel relevante na conformação de valores, crenças e escolhas, uma vez que moldam percepções e influenciam os processos de interpretação da realidade. Ilca, vejo que a literatura sempre esteve presente em sua vida, você sempre gostou da área de letras? Você saiu da sua cidade natal e foi para a Universidade de São Paulo (USP). Como foi esse processo? Desde a infância, encontrei na literatura um espaço de refúgio, descoberta e criação. Foi esse interesse que me conduziu aos estudos da linguagem e, posteriormente à oportunidade de ingressar na Universidade de São Paulo (USP), para realizar a pós- graduação stricto sensu em Linguística. Durante esse período, desenvolvi estágio de docência nos cursos de graduação em Letras. Além dos plantões de dúvidas para graduandos, acompanhamos integralmente as aulas do professor supervisor, o que me permitiu conhecer de perto o elevado nível de exigência acadêmica da USP desde os primeiros períodos da graduação. Lembro, por exemplo, que na primeira semana de aulas de uma das turmas, já eram solicitadas leituras de trabalhos de um linguista francês sobre a teoria desenvolvida por Hjelmslev. Isso significava que os estudantes precisavam enfrentar, simultaneamente, a complexidade da metalinguagem linguística e o desafio da leitura de bibliografia especializada em outros idiomas. Na pós-graduação, o rigor acadêmico era bastante elevado. Além das disciplinas aprofundadas em Linguística e Semiótica, participávamos de seminários ministrados por pesquisadores estrangeiros, especialmente de Paris, da Bélgica e da Itália, que apresentavam suas conferências em seus idiomas de origem. Esses encontros ampliavam o diálogo entre os estudos da linguagem e áreas afins, proporcionando uma formação intelectualmente desafiadora e enriquecedora. Essa experiência me mostrou um ambiente acadêmico de excelência, marcado por elevados padrões de ensino, pesquisa e extensão. Não por acaso, a USP é reconhecida como a principal universidade do Brasil e uma das mais prestigiadas da América Latina, reunindo condições institucionais e investimentos que favorecem a produção científica e a formação de pesquisadores. Ilca na UFAPE. Foto: Instagram (@ilca.suzana) Em Garanhuns, sua cidade natal, existe o curso de letras da UFAPE, antiga UAG. Você sente muita diferença no ensino? No contexto da UFAPE, encontro uma realidade igualmente significativa, embora com características distintas. O curso de Letras desempenha um papel fundamental na formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com a Educação Básica, especialmente no desenvolvimento das competências de leitura, escrita e uso social da linguagem. Essa qualidade foi reconhecida pelo Ministério da Educação, que atribuiu ao curso a nota máxima (5) na avaliação realizada em 2024, reafirmando seu compromisso com a excelência na formação docente. O que é linguagem para você e o que ela representa em sua vida? Parafraseando Clarice Lispector, posso afirmar que a linguagem constitui o nosso domínio sobre o mundo. É por meio dela que interpretamos a realidade, construímos conhecimentos, expressamos pensamentos, compartilhamos experiências e estabelecemos vínculos com os outros. Muito além de um simples instrumento de comunicação, a linguagem é o fundamento da vida em sociedade, pois possibilita a produção, a circulação e a transformação de sentidos. Nosso acesso à significação e à atribuição de sentidos aos diferentes sistemas semióticos — sejam eles verbais, não verbais ou sincréticos, como ocorre nas histórias em quadrinhos, nos infográficos, no cinema e em outras manifestações que articulam múltiplas linguagens — é mediado pela linguagem. É ela que torna possível interpretar signos, compreender contextos e produzir respostas adequadas às diferentes situações comunicativas. Nessa perspectiva, a linguagem desempenha um papel constitutivo na formação dos sujeitos e nas práticas sociais, uma vez que organiza o pensamento, orienta as interações humanas e permite a construção coletiva de conhecimentos, valores e identidades. Ao interagir com diferentes textos, discursos e gêneros, os indivíduos desenvolvem competências para participar de maneira ativa e crítica da vida social. Você tem uma pesquisa sobre a afirmação da identidade e o discurso quilombola. Este é um tema bastante importante, principalmente colocado para pensar juntamente a literatura e seu poder de dar dimensão a um discurso. Você poderia falar um pouco sobre o tema e, especificamente, sobre as bonecas pretas de Conceição das Crioulas que você cita? Estudei os processos de afirmação das identidades quilombolas através da prática artesanal desenvolvida pelas mulheres quilombolas de Conceição das Crioulas, especificamente, tendo como objeto de análise as bonecas pretas deste Quilombo. Nessa pesquisa, pude perceber que mais do que uma atividade econômica ou artística, o artesanato produzido nesse território constitui uma poderosa manifestação de memória, identidade e resistência histórica, revelando a profundidade dos vínculos entre cultura, ancestralidade e luta coletiva. Ao contemplarmos os saberes e fazeres dessas mulheres, emergem sentidos múltiplos que atravessam a valorização da negritude, a preservação das tradições afro-brasileiras, a sustentabilidade comunitária, a autonomia política e econômica e a reafirmação contínua da identidade quilombola. Para a produção da tese, estabeleci três grande movimentos reflexivos: 1) No primeiro, discuti o conceito de quilombo, destacando a pluralidade de sentidos que o envolve e problematizando perspectivas fixas e homogêneas sobre essas comunidades na contemporaneidade. Em seguida, voltando o olhar especificamente para o Quilombo de Conceição das Crioulas, situado no sertão pernambucano, apresentando aspectos de sua história, de seu território e das práticas artesanais que constituem importante expressão de sua identidade cultural; 2) No segundo, articulei os discursos de identidade às Bonecas Pretas produzidas artesanalmente em Conceição das Crioulas, tomando como base conceitos da semiótica greimasiana, como isotopia, triagem e mistura. Investiguei como esses mecanismos discursivos produzem efeitos de sentido relacionados à inclusão, à participação social, à valorização da ancestralidade africana e à afirmação da identidade negra e quilombola. As Bonecas Pretas foram analisadas como objetos simbólicos que condensam memórias, afetos e narrativas de resistência, constituindo-se como importantes instrumentos de representação cultural e política e 3) Por fim, no terceiro e último movimento de análises, observei os elementos semióticos presentes nas Bonecas Pretas que contribuem para a construção de uma discursividade esteticamente sedutora e eticamente engajada. Analisei como tais elementos influenciam o olhar e o envolvimento do público consumidor, especialmente daqueles que se identificam com os valores, as lutas e a estética quilombola. Dessa forma, busquei demonstrar que o artesanato produzido em Conceição das Crioulas não apenas comunica identidades, mas também mobiliza sensibilidades, promove reconhecimento social e fortalece práticas de resistência cultural profundamente enraizadas na experiência histórica dos quilombos brasileiros. Bonecas Pretas produzidas em Conceição das Crioulas. Foto: Reprodução/Internet Quais são as obras que, ao ler, você sentiu uma transmutação de sentimentos muito forte na narratividade? O que isso revela sobre o sensível e o inteligível dentro da narração? Edição comemorativa de "A Paixão segundo G.H." (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet As obras de Clarice Lispector são uma fonte de profundo trabalho com a graduação dos afetos na palavra literária. Em suas narrativas é recorrente o assomo de uma forte carga de sentimentos diante de um acontecimento geralmente banal. Assim, uma mulher é completamente impactada ao se deparar com um cego em um momento qualquer de seu cotidiano. Outra é tão absorvida e tomada pela presença de uma barata que, por consequência, todo o edifício de sua vida vai então desestruturar-se. Em comum nessas personagens, e em tantas outras criaturas ficcionais clariceanas, é a saída de um cotidiano inteligível e ordeiro e, de repente, a ruptura dele por uma intensidade forte de afetos provocada por um instante, a partir do qual toda a inteligibilidade que deu base às ações do dia a dia vida anteriormente passam a ser questionadas. Mesmo estando na era digital, onde mais se consome conteúdos de vídeos rápidos, como você pensa os modos de narrar literatura na atualidade? A literatura pode incorporar, em seus textos, elementos característicos da cultura digital, como os efeitos de sentido de celeridade e de dissolução, além de tematizar questões como a superficialidade das relações interpessoais, as diferentes formas de violência produzidas no ciberespaço, entre outros aspectos. No que se refere à representação da era digital na literatura, O Círculo, de Dave Eggers, constitui um exemplo significativo. Por meio do gênero distópico, o autor norte-americano constrói uma crítica contundente às contradições da sociedade em rede. A promessa de conectividade, transparência e compartilhamento é gradualmente desvelada como um mecanismo de vigilância crescente e de enfraquecimento da privacidade, evidenciando as ambiguidades do mundo digital contemporâneo. Em outra perspectiva, a de crítica literária, Katherine Hayles propõe o conceito de "literatura eletrônica", que desloca a atenção para o próprio suporte de produção da obra literária. Trata-se de uma literatura concebida especificamente para meios digitais e, por isso, impossível de ser plenamente transposta para o suporte impresso. Essas obras exploram recursos próprios das tecnologias digitais, como animações, multimodalidade, hipertextualidade e processos de criação colaborativa, fazendo do meio parte constitutiva da experiência estética. Em síntese, o que se pretende destacar é que cada projeto literário pode se apropriar das características de seu tempo histórico em favor da invenção estética. Essa apropriação pode ocorrer por meio de uma reflexão metalinguística sobre as condições de produção da literatura, pela construção de dispositivos de crítica ao presente ou de diversas outras formas. Em última instância, a maneira como os elementos literários serão mobilizados dependerá dos efeitos estéticos e éticos que a obra pretende produzir. Dentre tantas obras, quais você deixa de indicação para os leitores da revista? Indico o romance Um sopro de vida de Clarice Lispector tanto pelas oscilações entre sensível inteligível quanto pela magistral criação de uma prosa poética. Capa do livro "Um sopro de vida" (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet PALAVRAS FINAIS Através das palavras de Ilca, é possível perceber o quanto a linguagem é sensível, mas ao mesmo tempo poderosa. Seu poder de ruptura e de transformação nos alcança enquanto lemos e, então, nos deixamos ser afetados de forma mais profunda. Ilca nos ajuda a perceber que até mesmo por meio do artesanato isso ocorre. A arte tem o poder de nos mobilizar internamente. É por meio da palavra que entendemos o mundo: ela revela nossos gestos como uma tradutora.
- Diáspora-entrevista: Conversa com Sidney Gabriel sobre o processo de criação da coleção AFROESTIMA
Por Gabriel Assis Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Sidney Gabriel para divulgação do projeto AFROESTIMA, 2025. Foto: Acervo pessoal PALAVRAS INICIAIS O jovem multiartista independente, periférico, negro e gay, Sidney Gabriel, trilha um percurso de busca em espaços artísticos no Agreste pernambucano. Nessa entrevista concedida gentilmente por ele, Sidney nos apresenta uma variedade de traços que constituem sua identidade como sujeito “do mundo e no mundo”: empatia, empoderamento, argumentos histórico-culturais, memória e futuro ancestral e reversão de hierarquias sociais voltadas à racialidade. Desde o início de sua formação em Design (Centre Acadêmico do Agreste: UFPE), ele se propôs investigar a gênese da criação e quais elementos influenciam em cada ponto da costura e do ser humano por trás e na frente de sua produção. Os anseios e pensamentos criativos acerca das criações do multiartista foram constitutivos de sua personalidade, porque decorrentes de suas vivências e como elas lhe impactaram na construção da noção de mundo. Eles são traduzidos em sua forma peculiar de fazer arte-moda, moda-arte. Mais que relatos pessoais, a entrevista objetivou fazê-lo chegar ao cerne da produção de moda que produz, quais dificuldades, vontades, caminhos e para quais lados a sua produção de corre dentro das veias da juventude pernambucana. Os projetos experimentais de Sidney são um dos aspectos basilares para a construção de uma ampla fronte de produção, pois abrem margens para novas concepções criativas, modelos, narrativas, pesquisas e estéticas, que, por sua vez, trazem força para o mercado independente. Assim descentralizando o comércio de roupas e apostando em formas divergentes de produção, mas também valorizando o mercado local e contribuindo o seu fortalecimento, ele acreditar estar contribuindo também para o crescimento da identidade coletiva e expressividade de seus consumidores. [GABRIEL] Gostaria que você falasse um pouco de si, como foi o processo de chegada até quem você é hoje? Como multiartista, como você se encontrou em cada área que você atua hoje? [SIDNEY] Eu sempre fui uma criança muito ligada à arte, mesmo não tendo diretamente nenhuma influência na família. Iniciei com o desenho; eu era aquele aluno na escola que sempre se destacava nas aulas de artes, e que levava a pasta de desenhos para mostrar para os meus amigos. Essa paixão se fortificava pela minha paixão por animações, inclusive por muito tempo da minha infância eu dizia que queria ser um mangaká e ter minha própria história. Passei grande parte da minha infância aperfeiçoando minhas técnicas de desenho e pintura: desenhar era como eu respirava. Meus caminhos me trouxeram ao curso de Design, pois devido a uma visita no “falecido” laboratório de animação da UFPE, decidi que queria entrar no curso por causa daquela área em especifico — que era minha paixão. Porém, quando finalmente entrei na faculdade, me frustrei ao descobrir que o laboratório de animação teria sido fechado. Foi logo no início da pandemia que iniciei minha carreira acadêmica. Em decorrência do lockdown, por muito tempo me senti perdido no curso; por se mostrar totalmente diferente do que eu esperava e, assim, eu não conseguia me conectar. É neste ponto que entra minha ligação com a moda: grande parte da minha família trabalha com confecção, e eu, por muito tempo, trabalhei com eles. Inicialmente, foi um universo pelo qual eu não tinha o menor interesse, mas conforme fui conhecendo mais o mundo da moda, conforme fui avançando dentro do curso, as matérias voltadas à moda me estimularam interesse, e os meus conhecimentos sobre costura foram muito úteis. Assim, o que era apenas conveniente na faculdade — uma obrigação por causa do trabalho com a família —, veio a se tornar algo pelo qual me apaixonei com o passar do tempo. Com a dança, eu tenho uma relação muito mais íntima e sentimental, pois ela não está ligada apenas ao que eu gosto de fazer, mas sim ao que me fez poder ser quem eu sou. Eu era uma criança muito tímida e por isso me isolava em meu próprio mundo, envolto de minhas histórias e meus desenhos. A dança, porém, sempre esteve escondida e reprimida devido aos valores da minha família, relacionados à ideia de como um futuro homem deveria se portar. Por muitos anos, essa parte de mim ficou adormecida, mas nunca se foi de fato. Tivemos um reencontro apenas no final da minha adolescência, que foi quando eu descobri a música popular coreana ou K-pop. Muitos ao meu redor enxergavam aquilo apenas um gosto musical infantil ou fútil, mas, para mim, era um mundo inteiro de novas possibilidades de ser e de me expressar. Ao longo do tempo, eu me dedicava não apenas a ouvir, mas a aprender as coreografias, que são muito comuns no universo do K-pop. No começo, eu me sentia constrangido de mostrar; também comecei a não me sentir mais satisfeito com meu desempenho e, a fim de desenvolver mais habilidades, entrei em um estúdio de dança. Sidney em apresentação no Teatro SESC. Foto: Instagram (@sid_gbrl) A partir dali eu conheci muito mais sobre mim: melhorei minha autoestima, comecei a gostar de me ver, gostar de receber os elogios, ver minha evolução, e principalmente, poder mostrar para meus pais quem eu sou. Na minha primeira apresentação, dancei uma coreografia em grupo da música "Girl Gone Wild", da cantora Madonna. Seria ali a primeira vez que eu me mostraria caracterizado para os meus pais; ali seria o início de muita coisa. Após a apresentação, meu pai deixou a plateia, e minha mãe ficou tão chocada que não conseguiu nem me aplaudir; logo depois disso eu fui chorar no backstage. Eu estava devastado, porém orgulhoso de minha coragem: foi a primeira vez que encontrei uma forma de me afirmar com uma pessoa LGBTQ+ na frente da minha família, sem vergonha, sem me disfarçar e sem tentar esconder. Eles estavam ali vendo a mim sem nenhum filtro. É... foi devido àquela apresentação e à dança, que hoje tenho tanta certeza de mim, de quem eu sou e que nunca mais abrirei mão disso. Quem trouxe a moda até você? Quais pessoas foram uma inspiração na sua vida e como ela chegou ao seu trabalho? [S] Como mencionei anteriormente, meu primeiro contato com a moda veio da minha família; minha vó, minha mãe e minhas tias: todas eram costureiras. Na adolescência, eu comecei a trabalhar com elas para ter mais independência, porém nunca enxerguei a moda como uma possível carreira. Devido à minha experiência, sempre encarei o ato de costurar como algo do qual eu queria fugir, para nunca ter que trabalhar com. Mas precisei trabalhar desde muito cedo, perdi parte de grandes experiências da adolescência por conta disso e esse período me afastou da moda. Somente na faculdade eu tive a oportunidade de ver esse mundo com outros olhos, e fui percebendo que, na verdade, era algo muito maior que a pequena dimensão que tive com meu trabalho, então minha habilidades passaram a ganhar outros significados. Acredito que na vida temos diversos tipos de inspiração. Para mim, não tenho dúvidas de que as mulheres da minha família foram uma grande inspiração, inclusive por serem figuras fortes, que sempre trabalharam duro para conseguir as coisas que queriam, mesmo com todas adversidades e dificuldades. Principalmente minha mãe, e tenho, em mim, muita coisa que ela me ensinou para a vida e para o trabalho que exerço hoje. No lugar de referências, sem dúvidas, as pessoas com quem convivi no âmbito acadêmico foram muito importantes para meu desempenho como profissional hoje em dia, desde o corpo docente até os universitários. Eu sempre admirei todos eles, principalmente os que me faziam querer me tornar um profissional melhor, aquele tipo de competição saudável que temos consigo mesmos: evoluimos pois almejamos aquele nível de excelência no que fazemos. Eu acredito que nós — do Nordeste num geral, e particularmente do Agreste de Pernambuco — temos artistas incríveis em lugares como o Alto do Moura, a UFPE, a Fenearte: todos nós temos muito a dizer pela arte com nosso talento e referências que corre pelas veias. Eu acredito que a real inspiração são as experiências que tiramos de cada vivência individual e coletiva, porque todas elas moldam desde a menor à maior ideia que temos —além da nossa visão de mundo — que impactam no nosso trabalho final. Se eu pudesse dizer uma inspiração clara e direta, eu diria a marca baiana Dendezeiro. Essa foi a primeira marca pela qual eu me apaixonei de verdade. Comecei a acompanhá-la na sua coleção de 2022, “Cor de pele”, que foi um dos pontapés iniciais para a idealização do meu projeto AFROESTIMA. Você cria conteúdos para meios digitais, é dançarino, é designer gráfico, além de criador de moda. Você pode nos dizer como essas áreas se entrelaçam e como essa junção reflete na sua vida – corpo ou espírito? [S] Aquela criança LGBT+ tímida e reprimida, que ouvia, desde cedo, que precisava se conter para caber em um ideal, achou sua liberdade na arte de se mover durante as batidas da música. A criação de conteúdo para as redes sociais sempre foi algo que considerei divertido. Eu era uma criança que consumia muito YouTube, e também, como muitas, já tive um pequeno canal. Para ele, eu gravava, editava, fazia as capas e divulgava, então sempre tive essa chama dentro de mim. Na pandemia, usei as redes sociais como um diário de dança e um parâmetro de evolução, mas também me arrisquei em alguns vídeos mais descontraídos e trends daquele momento. Uma parte de mim tinha medo e não desejava viralizar e conseguir muitos seguidores, porém, hoje em dia, é algo que eu faço pela diversão de postar; desde vídeos de dança, trends com meu namorado, esquetes de humor e até vídeos de produção com maquiagem ou composições de roupas. Sou uma pessoa que tem muito a dizer, por isso gosto de estar sempre postando algo. Não sou nada low profile, e sinto falta de quando as pessoas não tinham tanta vergonha para postar um simples vídeo engraçado se divertindo genuinamente. Minha situação como designer gráfico é engraçada. Entrei na universidade, inicialmente, para seguir esta área de interesse, porém acabei não me encontrando nela inicialmente — e isso acabou ajudando para que eu me direcionasse para a moda. Porém, percebo nessa área uma dificuldade que acredito ser de muitos, que é a falta de oportunidades na região. É irônico isso, visto que estamos no Polo de Confecção do Agreste. Contudo, eu achei uma oportunidade em uma marca de moda infantil, e foi nela que eu me vi focado em aprender muitas coisas da área gráfica, coisas que eu não tinha tanta noção por não ter buscado tantas matérias com esta ênfase. Foi assim, então, que eu comecei a me apaixonar por gráfico e voltei a buscar muito mais conteúdos sobre. Uma coisa puxa a outra: sabendo mais, quis aprender mais, e usei meu tempo restante na faculdade para compensar o tempo perdido. Foi uma experiência incrível, pois eu estava meio frustrado e senti que apenas reencontrei meu “eu” que sempre existiu, só estava meio adormecido. Sidney em ensaio para sua coleção de moda "AFROESTIMA". Foto: Instagram (@sid_gbrl) Busco me aprimorar, melhorar, evoluir minha formação e me aperfeiçoar em todas as áreas em que atuo. Tudo nos traz conhecimentos muito distintos que, porém, se interseccionam em alguns pontos. E eu gosto do fato de eu não precisar ter apenas uma área de interesse na minha carreira. Antes, até achava que tinha que ser assim: trabalhar com a mesma coisa para sempre. Hoje, por outro lado, vejo que há fragmentos de Sidney Gabriel em cada uma dessas áreas, cada uma tem um pouco do que fui e de quem sou. Eu agradeço por ter tido a oportunidade de experimentar de tudo que o curso pode oferecer; isso fez com que eu montasse uma base sólida e firmasse uma grande convicção de quem eu sou, e de como eu quero que a sociedade me veja através da moda, da música, da dança e da minha arte no geral. Nos fale um pouco sobre seu processo de criação, como uma ideia nasce na sua cabeça? Como suas vivências impactam no desenvolvimento e chegam até a peça final? [S] Sempre digo que minhas melhores ideias surgem quando eu não estou tentando ter ideias. Seja às 3h da manhã jogando, ou enquanto divago na janela de um ônibus, enquanto estou no banho, ou apenas contemplando os abismos da vida. Porém, muitas vezes, a autossabotagem me impede de trazê-las à vida, mas mesmo assim eu perduro e crio. As minhas vivências impactam na forma que eu vejo o mundo e como eu quero representá-lo na minha arte no geral. Usando o exemplo do meu projeto AFROESTIMA, a ideia surgiu após um conjunto de insights, desde a coleção da Dendezeiro ao álbum “QVVJFA” do cantor baiano Baco Exu do Blues, que contém músicas sobre autoestima, com letras incríveis sobre masculinidade, sensibilidade e vivências do homem negro em uma sociedade que o vê apenas como um ser bruto, unicamente para trabalho braçal, ou como um objeto sexual. Além disso, também contribuíram situações e acontecimentos da minha vida pessoal como um rapaz negro, LGBT+ e periférico, que acabaram levando à reflexão e ao desejo traduzir as minhas concepções de mundo até no que produzo como artista, já que cada parte de mim está ali presente naquelas peças. Estreia da marca Dendezeiro na São Paulo Fashion Week com a coleção “Tabuleiro”. Foto: Reprodução/Internet Quando você cria uma peça, quem é o consumidor que você idealiza usando suas criações? Quais aspectos das roupas você pode atribuir a um determinado público? [S] Eu sempre me imagino usando as peças, porém meus croquis são de pessoas negras. Direciono muito do que crio a essa comunidade, pois foi onde encontrei a mim mesmo e é para onde quero mirar. Acredito que meu estilo é uma junção do streetwear alinhado à estética de dançarino e da cultura Hip Hop, com muitos elementos da cultura LGBT+. Porém, adoro contrastar com peças clássicas. Acho que essa mistura traz uma manifestação por si só, por exemplo: a roupa com retalhos e partes largas, que são colocadas junto com uma camisa de botão, um corset, um sapato social. Dessa forma, posso comunicar que nós, pessoas negras, sempre atreladas ao estereótipo social de favelados, desleixados, bagunçados; podemos sim ocupar o espaço que queremos e que merecemos, porém sem perder nossas raízes e nosso estilo. Eu posso mostrar que, para ser elegante e estiloso, não preciso seguir uma norma, um padrão de regras, e isso está totalmente atrelado à minha visão de mundo e de como levo a minha vida. Falando sobre sua coleção AFROESTIMA, até onde tem Sidney Gabriel até onde as roupas da sua coleção tem voz própria como criação artística? [S]. AFROESTIMA iniciou como um grito de socorro da persona Sidney Gabriel, quando eu tinha 17 anos. Nesse período, sofri uma situação traumática que prejudicou muito a minha visão de mim mesmo e de como percebia o meu próprio corpo. Acredito que essa parte de mim está presente em toda a pesquisa que desenvolvo, pois houve uma busca incessante por conhecimento, informações e referências sobre as áreas relacionadas à raça, gênero e sexualidade. Nessa coleção, eu quis entregar uma mensagem e mostrar algo que muita gente não vê. Eu mergulhei de cabeça em artigos, livros e vídeos, pois o que eu mais queria era entender cada detalhe do porquê e como tudo aquilo acontecia. Com esse conhecimento, afinal, eu posso traduzir e concretizar o meu projeto de forma que qualquer um possa ver, ler e entender. Já nas roupas, eu trouxe muito do que Sidney Gabriel vê como a sendo dele. O patchwork, por exemplo, é algo que descobri como paixão, e desde então virou minha marca no meu ciclo social. Eu quis traduzir o mundo utópico de Sidney nas roupas, porém precisava representar o que a pesquisa abordava. Acredito que é aqui que desenhamos a linha do que era 100% Sidney e o que eu precisava fazer para incorporar na coleção. Vemos isso na presença de elementos da cultura africana tradicional, que não é algo que faz parte do meu dia a dia, mas é algo que eu admiro muito e que corre no meu sangue em diáspora. Por isso, busquei abordar com o maior respeito o projeto inteiro, porque eu quis unir a minha visão de estilo abordada anteriormente, com a liberdade artística que só um mundo utópico que a arte consegue nos produzir. Sidney Gabriel na produção da coleção AFROESTIMA, no LabModa da UFPE-CAA. Foto: Acervo pessoal De onde surgiu a necessidade artística que serviu de impulso para a criação desta coleção? [S] Como eu disse anteriormente, surgiu a partir de uma junção de reflexões das minhas vivências, que me fizeram desenvolver a necessidade de abordar temas como raça, gênero e sexualidade na coleção. E de como esses temas podem ser traduzidos na moda através de intersecção de culturas, estéticas e histórias, valorizando a ancestralidade e o senso de coletivo da comunidade negra. Você sente que essa necessidade passa por quais vivências que te formam como pessoa? Em quais outros âmbitos você pode ver ressoando nas pessoas que tem acesso às peças de sua coleção? [S] A coleção me faz passar por experiências que foram marcantes para o meu desenvolvimento pessoal. Como uma pessoa negra, por exemplo, nós passamos muito tempo da nossa vida nos achando inferiores aos outros, e questionando o porquê sermos assim. Todos nós já quisemos ter cabelo liso e a pele mais clara, para podermos nos sentir amados, bonitos e vistos como algo a mais do que a cor a nossa pele. A maior pergunta que fiz para desenvolver esse projeto foi: "Por que só nos é destinado o desejo sexual, mas nunca o amor romântico?". Quem nunca ouviu a famosa frase: "negona da cor do pecado" ou "negão dotado"? Essas são frases que estão enraizadas no imaginário coletivo da nossa sociedade e que são base para ideias permanentes até hoje. Padrões como esses se repetem em diversos âmbitos, e reforçam ideais de que no final nunca somos escolhidos de verdade; somos sempre uma aventura, um desejo passageiro, um fetiche, uma experiência, algo exótico, mas nunca uma pessoa a ser amada e vista de verdade. Eu acredito que a coleção possa ressoar diferentemente para cada um, porém a mensagem principal é mantida. Para algumas pessoas, é apenas um conjunto de peças bonitas; pra outras, nem isso. A coleção, porém, afeta significativamente pessoas que compreendem o que é a vivência representada ali naquelas roupas. Quando temos referências e nos abrimos para entender diversas visões e expressões de mundo, percebemos que o mundo é muito mais do que nossa pequena bolha. No entanto, a maior intenção é a de retratar um empoderamento gerado a partir do resgate ancestral. Quando você abraça suas raízes, e se arma daquilo que te pertence; é aí que você se torna a versão mais bonita de si mesmo, e não quando tenta vestir uma ideia que não lhe cabe. Desse modo, seja a partir do momento que pessoas negras se entendem, aceitam e abraçam seus traços, a ancestralidade e a si mesmas, elas transcendem e se tornam as donas da própria autoestima. Elas passam a não depender mais da aprovação de terceiros. Elas fazem sua aprovação. Este processo foi algo que aconteceu comigo, e foi uma das minhas inspirações para retratar nessa coleção. Baco Exu do Blues em divulgação para o álbum "QVCJFA" em 2022. Foto: Wilmore O. Há curiosidades sobre o processo de criação da AFROESTIMA que você gostaria de compartilhar conosco? [S] O nome “AFROESTIMA’’ foi dado por uma amiga minha da época. Após explicar o conceito do meu projeto para ela, eu disse que estava em dúvida de como chamar. Disse também que eu estava pensando em “autoestima’’, até que ela chega e fala: “Amigo, e se chamar: AFROESTIMA?” — e nisso surgiu o nome dado à coleção. Toda a coleção foi produzida com reaproveitamento de tecido, tanto de peças descartadas, quanto de retalhos de jeans comprados em brechó de retalho. Além disso, também trago um pouco da personalidade do streetwear com um caráter de sustentabilidade pra coleção. Em certo ponto, eu tinha todo o conceito e a parte teórica do projeto, porém eu não conseguia chegar em um consenso de como colocar isso no papel. Precisei revisitar um croqui de três anos atrás — que fiz para um concurso e estava esquecido na minha paste de desenhos — para entender como representar com cores, estética e texturas. Usei aquela estética de base com o patchwork, e os trançados com jeans que remetem as famosas tranças braids da cultura afro. O que podemos esperar de futuras criações na área da moda? [S] Bem, eu continuo criando. Recentemente me inscrevi para alguns concursos de moda e estou focando muito na minha evolução profissional. Estou para cursar uma pós-graduação no SENAC em produção de moda e styling. Quero me especializar nessa área e explorar outros meios da moda além do projetual e estudos no design em geral. Com certeza, vocês podem esperar muito mais criações minhas em todas as áreas, e pretendo postar todas nos meu Instagram: @sid_gbrl. E, quem sabe, vem aí o projeto de um estúdio criativo no futuro.
- Contação de histórias: um mundo onde a infância aprende a sonhar
Por Nilton Barros Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins PALAVRAS INICIAIS Era uma vez uma mulher chamada Beatriz Teixeira Barboza, que além de ser pedagoga formada pela UFPE, no Centro Acadêmico do Agreste, instrutora de atividades recreativas do SESC Caruaru, animadora e cosplayer, também contava histórias para crianças. Todo sábado, ainda nos dias de hoje, às 16h, ela coloca sua melhor fantasia e vai para a Cultural Livraria e Cafeteria. Em meio às páginas de livros ilustrados, Beatriz transforma o espaço da Sala das Árvores em um mundo encantado: os pequenos ouvem sobre brinquedos falantes, animais que contam estrelas, gravetos que viram varinhas de condão e princesas que vivem aventuras ao lado de um dragão. Um dia, Beatriz concedeu uma entrevista à Revista SPIA e relatou as suas experiências com a contação de histórias e sobre quais caminhos a levaram a essa prática. Beatriz, no decorrer do seu relato, salientou que o seu intuito não é apenas incentivar a leitura, como também é convocar as crianças a pensarem no livro como um portal mágico, pelo qual elas podem se teletransportar para um lugar onde tudo é possível. COM A PALAVRA, BEATRIZ BARBOZA Beatriz Barboza fantasiada de Branca de Neve para a "Superliga de Heróis". Foto: Instagram (@beah_cosplayer) Eu iniciei no mundo da literatura infantil ainda adolescente. Trabalhei na “Superliga dos Heróis” como personagem vivo, que é, basicamente, atuar como um personagem, como fazer a Branca de Neve, por exemplo. Mas é diferente de um cosplayer, que é a pessoa vestida. Você tem que realmente ser a Branca de Neve, como normalmente é na Disney e em outros lugares assim. E aí eu fui escalando as profissões e os trabalhos de personagem vivo. Comecei a fazer animação em festa infantil. Então, de personagem vivo, comecei a ser animadora — que é ficar mais ou menos na locução — para instruir as crianças nas atividades. Depois, comecei com recreação e, a partir daí, me interessei por Pedagogia e entrei na UFPE para iniciar o curso. Foi na UFPE que tivemos uma aula, em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa, que aprendemos a contação de histórias. Como contar a história para a criança, porque não é só ler: temos que questioná-las, perguntar o que estão achando, para fazer todo aquele suspense — principalmente na fase que não sabem ler —, que vai ser o momento introdutório que elas vão ter com os livros; as primeiras experiências, para ser algo interessante e motivá-las a ler. Então foi assim, a gente acabou aprendendo. E, nesse contato com as crianças, eu comecei a trabalhar como professora de jogos teatrais. Nesses jogos, eu sempre gostava de basear minhas aulas em um livro, em uma história; para eu fazer um jogo que tivesse uma ligação com a narrativa: uma música. Eu sempre trazia uma história. Terminei a faculdade. Quando terminei a faculdade, a primeira oportunidade que apareceu para mim foi na Cultural Livraria e Cafeteria. Adoro lá, é perfeito. Comecei a fazer contação de histórias por lá todo sábado. Depois, comecei a atrelar também o origami junto da contação de histórias. E aí, todo sábado, eu faço essa imersão com as crianças independentemente da idade. Eu sempre digo que é para todas as faixas etárias, porque eu adapto. Pergunto o que elas sabem, o que elas não sabem. Se elas conseguem ler palavras, se não. Então fazemos toda uma imersão das crianças nesses primeiros contatos que elas têm com os livros infantis. E, depois disso, que elas todas já estão familiarizadas com a leitura, com o local e com os personagens, a gente faz a oficina de origamis, que normalmente tem a ver com o livro ou com algum elemento específico dele: seja o cenário ou os personagens da história. Sempre fazemos isso para realmente entrar no conto. Ultimamente, quanto aos livros, eu estou sendo bem criteriosa. Gosto de livros que tenham bastante imagens. Eu amo muito muita imagem. Fico julgando aqueles livros infantis que são só texto escrito, texto escrito, texto escrito, e uma “imagenzinha”. Dependendo da idade, até rola: quando a criança já está se habituando à leitura, e isso faz todo o sentido. Mas, às vezes, são livros que têm uma história para a primeira infância, até os seis anos, só que com muitos detalhes específicos. Aí, eu não gosto. Gosto, realmente, de uma leitura que a criança tenha que parar, pensar e olhar a imagem para entender o que ela quer dizer. Isso ajuda bastante na contação de histórias: a gente lê e fala “o que será que isso quer dizer na imagem?”. Isso instiga as crianças a entenderem o que está acontecendo na história. Não é só ler. Não está falando a resposta na cara. Elas param, veem o que o contador de histórias falou, assimilam com a imagem para deduzir e falar “É isso que está acontecendo, tia!”. Cada um tem um pensamento. Eu falo: “Vamos ver o que é que vai acontecer!” e, assim, a gente vai fazendo a contação. Eu acho bem mais interessante livros que são assim. Beatriz Barboza na Sala das Árvores, na Cultural Livraria e Cafeteria. Foto: Nilton Barros Normalmente, eu já começo a contação de histórias falando o nome do ilustrador. Eu pergunto: “Vocês sabem o que é ilustrador e ilustração?”. A resposta é sempre um “Não”; só quando é uma criança mais velha, com seus 10 anos, que já tem uma memória prévia e diz que sabe. Mas, em geral, a faixa etária das crianças para quem eu faço contação de histórias não sabe. Então, eu falo que são as figuras, os desenhos, fotografias; depende muito de cada livro. Com isso, a gente faz primeiro essa introdução a elas, e falo: “E aí, vocês gostaram das ilustrações?”. Além delas ajudarem em todo o percurso do livro, eu também gosto de mencionar a história do ilustrador: “Olha, essa pessoa que fez o livro é fulano”. Às vezes é muito longo, então eu dou uma resumida, porque são crianças pequenas. Assim, eles já têm esse contato com o autor e com o ilustrador do livro. Depois, eu imagino elas realmente assim: pensando no que é que está acontecendo, a ação passando na mente delas. Porque no livro a gente só vê a imagem lá, parada. Por isso que utilizo muitas onomatopeias, faço muito suspense para fazer elas pensarem: “Aconteceu tal coisa, o personagem gritou, o personagem tá calmo”. Por isso é tão importante a forma como a gente conta as histórias. Numa passagem em que as coisas estão mais agitadas, por exemplo, a gente lê mais rápido, agilizando; quando mais calma, a gente fala devagar, e assim vai, justamente para elas conseguirem imaginar o que está acontecendo. Às vezes, noto que uma criança está folheando outro livro, olhando para o outro lado, mas mesmo assim eu continuo. Às vezes achamos que essa criança está no “mundo da lua”, focada ali no livro, olhando para outro canto… Mas não, ela está escutando a história. Aí, quando faço uma pergunta, ela responde. Ela pode não olhar para mim, mas ela está centrada no que está acontecendo. No caso de crianças autistas, por exemplo, isso acontece com frequência. E às vezes as crianças interrompem. A gente está contando a história de um livro sobre um sapo, por exemplo, e uma criança chega e diz: “Olha tia, eu vou para o shopping!”, e eu respondo: “Que legal, mas vamos voltar aqui para a história?”. Sempre faço isso: eu valido o que a criança falou para não silenciá-la, e então, a convido de volta para a história e funciona. Fantasias de Beatriz Barboza no SESC. Foto: Nilton Barros As telas fazem um mal muito grande às crianças, principalmente em sala de aula. Eu, como pedagoga e recreadora, percebo isso. Em colônia de férias do SESC, durante a organização das turmas ou das atividades, percebemos o quanto elas ficam em abstinência, porque não utilizamos telas; de forma alguma. Então, sentimos que elas ficam com uma abstinência tenebrosa; com crianças pequenas chorando porque não têm um celular, não têm a TV. Elas também ficam agitadas, e só depois de um tempo na colônia de férias que realmente conseguem se acalmar. Um dos recursos que eu utilizo é justamente a contação de histórias. Depois do almoço, para não voltarmos ao agito imediatamente e termos uma atividade mais calma, eu sempre as levo para a biblioteca do SESC. É lá que fazemos esse momento de contação de histórias com elas, para elas terem essa imersão. Não só nesse caso, mas acho que em tudo — na escola, na livraria, com os pais antes de dormir — é muito importante para elas darem essa desacelerada. Ao mesmo tempo, também é importante ter esse contato com o livro, com o lúdico, e não ser algo tão focado nas telas, porque realmente prejudica muito em todos os aspectos sociais das crianças. Sempre conversamos com os pais também, principalmente na livraria. Normalmente, os pais que levam as crianças para a livraria já têm essa iniciativa. Quando eu comento, é algo mais voltado para uma troca de experiências, mas eles já percebem isso também. Na colônia de férias, às vezes temos que falar com os pais, porque realmente a criança chega sofrendo com essa abstinência. Têm pais que nos procuram porque a criança não quer fazer outra coisa além de ficar numa tela e é muito difícil de tirar. Muitas pessoas julgam os pais, mas às vezes é a solução que eles têm. Não ter o que fazer com a criança faz com que eles as direcionem para a tela e quando veem já é tarde demais: a criança não faz outra coisa além de ficar na tela. Então, o nosso papel não é julgar, mas ensinar e incentivar as crianças a fazerem outra coisa. Origami feito durante a contação de histórias. Foto: Nilton Barros Um desafio que eu enfrento na contação de histórias é que, às vezes, não é uma alternativa tão procurada. Quando tem alguma opção mais atrativa, o pessoal tende a escolher isso, mas eu acho a contação de histórias fundamental. Muitas vezes nem mesmo os pais nem levam as crianças para a contação, para evitar o deslocamento. É mais cômodo deixar em casa, deixar na frente de uma TV, de um celular. Então, acho que é isso. É realmente a participação dos pais em trazer os filhos que dá o pontapé inicial para o incentivo delas. Eu disse que o meu papel não é julgar, e não é mesmo. O que eu sei é que são várias realidades, mas por isso que incentivamos tanto as crianças a irem à livraria, a irem à biblioteca e ter esse momento. Às vezes elas não param quietas. É outro desafio por causa do vício de telas, mas, incentivando, conseguimos superar isso. Tem um livro que eu achei tenebroso de ler. Ele fez parte dos livros que eu julgo: livros que, depois de ler muitos, percebemos algumas falhas graves, como ter muitos detalhes. Acredito que livro infantil não precisa ter tanto detalhe, como sair nomeando todo mundo ou contar cada ação que está acontecendo; acho essas coisas desnecessárias. Então, tem um livro que li bem à pulso, e achei tenebroso de ruim, mas eu li. Houve partes que li no resumo, e falava sobre o abandono de brinquedos. A mensagem que ele trazia era muito boa, mas foi a forma como ele abordava o assunto que não me agradou. Era uma mensagem muito bonita: temos que cuidar dos brinquedos; as crianças têm que cuidar, preservar. E se não estiver mais brincando, pode doar o brinquedo. Essa era a mensagem do livro. Uma criança simplesmente se encantou, até mesmo eu, com todos os meus julgamentos internos. É uma criança que eu sempre acompanho e que os pais realmente incentivam à leitura. Toda semana está conosco na contação de histórias, e ela nunca tinha se interessado em um livro tanto quanto se interessou nesse. Foi algo que me surpreendeu bastante. Capa do livro "A Pior Princesa do Mundo". Foto: Reprodução/Internet Particularmente, sempre indico os livros da Anna Kemp, com ilustração da Sarah Ogilvie. Elas têm títulos como A Pior Princesa do Mundo (2012, Editora Paz & Terra), e é um livro fantástico. Sempre que vejo alguma criança, recomendo esse livro, porque ele quebra muitos estereótipos de que “a menina tem que ser uma princesinha, toda vaidosa”, e não, não tem! Esse livro mostra uma princesa que gosta de viajar, gosta de aventuras, e o plot twist da história é ela se tornar amiga do dragão e fugir com ele — apesar de ser salva por um príncipe. A história é mais ou menos assim: ela passa muito tempo esperando o príncipe chegar e quando finalmente o príncipe chega, ela é presa em outro castelo — o dele. Enquanto ele ia para as aventuras, ela ficava trancada dentro do castelo. Então, ela se revolta e foge com o dragão. É um livro sensacional, rimado. Eu adoro rimas. Adoro, adoro, adoro. Dá para fazer uma super contação de histórias quando tem rimas. Então, eu acho um livro bem enriquecedor, que as crianças param, filosofam sobre o que é que está acontecendo. Aí eu pergunto: “E aí, minha gente, vocês iam preferir estar no castelo ou sair em uma aventura com o dragão?”, e a opinião sempre divide. Metade diz: “Eu preferiria ficar no castelo!”, e a outra metade diz: “Não, eu preferiria ir com o dragão!”, e esse diálogo eu acho muito interessante. Então, acho que A Pior Princesa do Mundo é um título que me marcou bastante. Não só eles, na verdade, como todos os livros dessas autoras. Todos os livros dela são fantásticos. Todos. Não tem um que não valha a pena. No lugar em que eu faço as maioria das contações, onde estou toda semana é a Cultural Livraria e Cafeteria, e todos os livros de lá já têm essa perspectiva social. Então, qualquer livro que eu vá escolher, tem uma filosofia por trás. Nesse sentido, é bem mais fácil e interessante, porque não tenho grandes dificuldades em encontrar. Existem lugares que, quando vou procurar um livro para fazer contação de histórias, realmente acaba sendo um pouco mais difícil, já que faço contação de histórias em outros locais também. Então, às vezes, é um pouquinho complicado para encontrar nessa perspectiva. Mas, lá na Cultural, não. Beatriz Barboza na contação de histórias. Foto: Instagram (@cultural_livraria_cafeteria) O início de tudo isso foi através do cosplay, mas como eu fazia essa atividade por hobby, preferi responder logo “personagem vivo”. Antes mesmo do personagem vivo, eu comecei com cosplay. Gosto muito de me caracterizar. E tenho muitos itens em casa, como vestidos diferentes; alguns na brinquedoteca do SESC também. Lá, nós recebemos algumas roupas e acessórios diferenciados para fomentar o lúdico das crianças, então eu utilizo isso junto da contação de histórias. Às vezes, quando é um livro sobre safári, sobre savana, por exemplo, vou com uma roupa mais de trilha; um chapéu, um binóculo, para entrar no clima e fazer as crianças entrarem nesse lúdico. Quando é princesa, como A Pior Princesa do Mundo, eu vou de vestido e coroa. Tem vez que é sobre a Mata Atlântica, e eu coloco um brinco de arara. Eu sempre faço isso, já que tenho uma coleção de brincos diferenciados. Brincos de Natal, brincos de Páscoa e Halloween. Gosto de estar bem caracterizada para ajudar na inserção da criança na história. PALAVRAS FINAIS No fim, Beatriz percebeu que a contação de histórias, além de um entretenimento, é um meio útil de fazer com que a criança entre em contato com a literatura, bem como de estimular a sua curiosidade e deixar que ela participe ativamente do que ouve. Pessoas como ela, que mantêm essa atividade adiante, se dedicam a narrar a história de um livro infantil — priorizando a articulação entre a imagem e o texto verbal — de modo que o afeto prevalece, com o auxílio de diferentes tons de voz, gestos e vestimentas a fim de instigar a imaginação. É por isso que, para ela, há histórias que nunca terminam: elas continuam residindo dentro dos pequenos que as escutam. Desde então, sempre que uma criança abre um livro na Sala das Árvores, ela pode ouvir a doce voz de Beatriz dizendo: “Os livros são como sementes, que a gente rega acordado e elas nascem em nossos sonhos ao dormirmos. Leiam, meus pequenos, e se permitam sonhar”.
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