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- A estética do sujo
Por Naely Barbosa Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins Colagem feita pela autora. Foto: Reprodução/Internet Costumamos ouvir que a moda é cíclica. Em algum momento, práticas, comportamentos e objetos que pareciam ter sido esquecidos retornam, ganham uma nova roupagem e voltam a ocupar vitrines, passarelas e, principalmente, nossos corpos. Algumas dessas retomadas aparecem como estética dominante de uma temporada; outras, como sinal de uma mudança que ainda está se formando. Por isso, uma pergunta me ocorreu nos últimos dias: em uma época marcada pela proliferação de inúmeras produções no ambiente digital, pela circulação de padrões estéticos nas mídias e pela busca constante por uma aparência cuidadosamente produzida, de que maneira manifestações que desafiam esses códigos conseguem fazer barulho hoje? Afinal, se a contracultura nasce justamente como uma forma de contestar os valores e padrões dominantes, o que acontece quando suas características são incorporadas nos espaços que ajudaram a estabelecer esses padrões? Então, para entendermos melhor essas relações, gostaria de convidá-los para fazer uma viagem ao passado e voltar ao nascimento do movimento punk, quando as roupas, os corpos e os comportamentos passaram a ser usados como uma ferramenta de choque e contestação pelos jovens da época. Vistam suas jaquetas, calcem seus coturnos e apertem os cintos, vamos decolar. A década de 1970 foi marcada pela efervescência do movimento punk. Ele nasceu como uma manifestação juvenil contra o conservadorismo social que regia gradativamente o pós-guerra, sobretudo na Inglaterra. Sua presença se espalhou por clubes, casas de shows, lojas de discos, fanzines e tomou conta da cena cultural independente de Londres. A música foi um de seus principais meios de expressão, mas o punk também construiu uma linguagem visual própria, que aproximava som, comportamento, artes gráficas e vestuário. Foi por meio dessa linguagem que a estética do movimento passou a ganhar espaço e influenciar a moda. “The Clash”, banda de punk rock inglesa da primeira onda do punk britânico. Foto: Reprodução/Internet O visual punk rompia com os padrões comportamentais e corporais que predominavam naquele momento. Para muitos dos que estavam de fora do movimento, seus elementos eram percebidos como uma afronta aos códigos de respeitabilidade e aparência vigentes. Roupas rasgadas, sobreposições inesperadas, uso de materiais desgastados e correntes eram associados ao choque e à provocação. O uso desses materiais rompia não só com os conservadores, mas também os diferenciava de outros movimentos juvenis que os antecederam, criando assim tribos distintas de revolucionários. Pois, por mais que os punks tenham usado a aparência em uma forma de protesto, os hippies durante a década de 1960 e início de 1970 com suas roupas amplas, seus tecidos naturais e estampados também questionavam o sistema e se afastaram da formalidade e dos padrões sociais que consideravam rígidos. Parte dos integrantes do "Fleetwood Mac", na formação da década de 1970. A banda ajudou a levar os elementos da cultura e estética hippie para o mainstream musical. Foto: Reprodução/Internet Nessas tribos a estética não era apenas uma escolha visual, mas uma forma de ocupar o espaço e comunicar os valores que defendiam. E, é nesse lugar que a diferenciação importa, enquanto a estética hippie recorria a referências naturais, artesanais e psicodélicas para expressar seus ideais de liberdade, o punk encontrou no choque, na desconstrução e provocação a sua própria linguagem. Uma das filosofias associadas ao movimento punk era a ideia de que, se você não gosta do que existe, pode fazer você mesmo – o conhecido “do it yourself”, ou DIY. Mais que um lema, essa prática estimulava a criação independente: bandas produziam e divulgavam seus próprios sons, artistas criavam seus materiais gráficos e fanzines, e também produziam, transformavam e customizavam suas próprias roupas. Na moda, o DIY tornou-se uma das bases da estética do punk por permitir que explorassem livremente diferentes referenciais visuais e materiais. Alfinetes de segurança viravam adornos; cadeados e correntes eram incorporados aos looks; lingeries ganharam um novo espaço e viravam sobreposições. Roupas velhas e desgastadas, camisetas recortadas e intervencionadas com pichações eram usadas como um sinal de recusa aos padrões de consumo e acabamento. Jovens punks em 1983. Foto: Reprodução/Internet Essas assinaturas do estilo punk eram um reflexo dos comportamentos que manifestavam a revolução que buscavam realizar. Assim, as roupas criadas tinham o intuito de mostrar para o mundo que estavam contra o sistema, além de ser uma forma alternativa de manifestar a própria identidade. Em Moda: Uma filosofia (2010, Zahar), Lars Syendsen discute sobre a relação entre corpo, roupa e identidade, de acordo com ela “o corpo e a roupa sempre estiveram em diálogo, o modelo do primeiro influenciando a moda e vice-versa”. Nesse sentido, a roupa funciona simultaneamente como expressão individual e como espaço de negociação com as normas que delimitam o que é aceito em determinado contexto. No caso do punk, essa negociação aparece nas escolhas conscientes de elementos que confrontam o socialmente aceitável da época. E, é nesse espaço de negociação e controle de identidade que voltamos da nossa viagem pela década de 1970 e pousamos em 2026. Depois de tantas revoluções e movimentos juvenis, chegamos à Era digital, marcada pela aceleração, filtros, ferramentas de inteligência artificial e referências estéticas polidas. Se antes a contestação podia estar na roupa rasgada ou no cabelo propositalmente desarrumado, hoje também precisamos observar como esses sinais de imperfeição são incorporados e ressignificados dentro da indústria da moda. Detalhes imitando desgaste na peça. Coleção masculina de outono/inverno da Prada, FW26. Foto: Reprodução/Internet No ambiente digital uma das estéticas que ganhou força nas redes foi a chamada estética “clean girl”, marcada por cabelos cuidadosamente arrumados, pele uniforme e uma aparência calculadamente natural. Ao lado dela, porém, cresce no sistema da moda o interesse pelo desgaste, pelas marcas de uso, manchas e acabamentos que simulam aquilo que normalmente tentamos esconder como um recurso de estilo e uma ideia de produto. Na temporada de outono/inverno 2026, por exemplo, Prada, Acne Studios e Diesel exploraram, de formas diferentes roupas amassadas, desgastadas e intencionalmente imperfeitas. Na Prada, a coleção masculina FW26 apresentou punhos e camisas com marcas de uso e manchas; na Acne Studios, a coleção retomou peças com aparência vívida e jeans em lavagem gastas com aspecto de sujas; e, na Diesel, os denins ganharam vincos permanentes. A chegada dessas coleções não mostram exatamente o retorno de uma única estética, mas a capacidade de reinvenção criativa que a moda tem e como ela ainda é capaz de usar a desordem visual em suas criações. O desgaste, o amassado e o rasgo já apareceram em diferentes momentos da história da moda e podem ser compreendidos como um dos elementos dentro do movimento cíclico da indústria da moda que em cada nova apropriação pode ou não ser ressignificado. A “estética do sujo” não é sinônimo de uma sujeira real, mas de uma construção visual que transforma marcas normalmente associadas ao descuido em uma escolha proposital de estilo, que pode ou não ser uma forma de afronta ao sistema organizacional que está em alta, pois em tempos de busca por perfeição estética mostrar as imperfeições é ser contra o sistema. SAIBA MAIS Assista ao documentário Westwood: Punk, Ícone, Ativista (Prime Video, 2018) para conhecer a trajetória da estilista inglesa Vivienne Westwood apelidado de “Mãe do Punk” ela ajudou a moldar a estética do movimento. Assista o documentário Punk: attitude (Prime Video, 2005), de Don Letts, para entender um pouco mais sobre a história do movimento e sua influência na música e cultura. CURIOSIDADES O Fanzine surgiu na década de 1930, nos EUA, com publicações de ficção científica, o termo é um neologismo formado pela contradição dos termos ingleses “fanatic” e “magazine” que significa “magazine do fã”. Alternativo e de baixo custo foi um dos principais meios de divulgação utilizado para difundir as bandas de punk. Em 2013 o tema do MET foi "PUNK: Chaos to Couture", ele realizou uma retrospectiva e análise do impacto da cultura punk na moda.
- Vestir também é um ato de crença
Por Rafaela da Hora Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins Nota da autora: o texto a seguir foi produzido com base em várias pesquisas para não causar nenhum constrangimento, por falta de informação ou informação errônea aos seguidores das religiões. Intolerância religiosa é crime! Pintura a óleo de Djanira da Motta e Silva (1914-1979), conhecida como “Três Orixás”, feita em 1966. Foto: Reprodução/Internet A moda pode se comunicar de diversas formas, inclusive em manifestações religiosas. Tais indumentárias retomam suas raízes históricas, como é o caso das roupas de santo em religiões de matriz africana. Algumas têm origem nas roupas dos escravizados durante o período colonial brasileiro. Estas vestes, cada qual com suas cores e formas, de acordo com cada uma das religiões e dependendo de suas respectivas tradições, possuem diferentes significados que foram repassados de modo geracional. É importante ressaltar que estas vestimentas são utilizadas como marca identitária das religiões, usadas principalmente em festividades, representação das divindades, ou como vestuário simples, como afirma Carla Barros, proprietária da loja de artigos religiosos “Épona Arte e Magia”, de Caruaru. O vestuário simples, isto é, a roupa que se usa em giras, que são as reuniões onde espíritos de uma determinada categoria se manifestam por meio da incorporação nos médiuns, se chama “roupa de ração”. E esta veste é usada para os iniciantes na religião. Ela é composta por uma bata branca e calça da mesma cor, ou, para as mulheres, uma saia rodada. A escolha do branco vem do significado de ser uma cor que transmite paz, e representa o início, como afirma o Padrinho Juraci da Jurema, pai de santo e presidente da Comissão Estadual de Umbanda de Pernambuco. Exemplos de “roupas de ração” feminina e masculina, 2026. Foto: Acervo Pessoal Além das vestes comuns, há os trajes para giras em que celebram as pombas-giras e os exus. Tata N’ganga Musakidí, pai de santo da quimbanda em Garanhuns, afirma que a escolha das vestimentas e o uso das cores nos trabalhos das entidades durante o culto da quimbanda são relacionados à forma de trabalho delas e do reino em que atuam. Cada cor ou combinação de cores é atrelada a um dos sete reinos da quimbanda, que são: Reino das Encruzilhadas, Reino dos Cruzeiros, Reino das Matas, Reino da Calunga Pequena, Reino das Almas, Reino da Lira e Reino da Calunga Grande. A saia da pomba-gira também pode emitir sinais durante o culto. “Quando ela está segurando a saia na altura da cintura, ela expressa receptividade. Quando ela faz um movimento similar a uma varredura, está expressando descontentamento com algo.”, afirma o sacerdote. Acessórios como os chapéus e turbantes, também chamados de ojás (mais precisamente em religiões como candomblé e umbanda), também são elementos muito importantes para as giras, já que eles possuem uma função espiritual: proteger o núcleo da cabeça onde se encontra o portal do chakra coronário, o maior centro de energia do corpo humano, que também pode ser chamado de Orí (“cabeça” em Iiorubá). À esquerda, chapéus de Exu e Maria Navalha, e à direita, roupas de Pomba-gira, 2026. Foto: Acervo Pessoal As guias são elementos de proteção em religiões como o candomblé e a umbanda. Elas atuam como um escudo que absorve energias negativas e densas do ambiente, impedindo que afetem o médium. Caso a guia arrebente, significa que ela absorveu uma sobrecarga de energia pesada. Gabriel Sena, proprietário da loja “Beleza da Rosa”, em Caruaru, diz que cada conta pode representar uma entidade, criando assim, um elo direto: amarelo é para Oxum, azul — dependendo da nação, que é a subdivisão ou ramo específico da mesma religião —, é Oxóssi ou Iemanjá, branco para Oxalá, azul escuro para Ogum, vermelho terracota é de Iansã. Ainda há as combinações de cores, preto e branco para Preto Velho ou Omolu, preto e vermelho para o “povo da rua”, que são as entidades que em vida foram marginalizadas e agora são Exus e Pombas-giras. Por outro lado, a depender do tamanho das contas, podem expressar uma relação hierárquica no culto. Contas maiores e de cor marrom são destinadas aos cargos mais antigos do terreiro, como um pai de santo ou um juremeiro. Fotografia de guias com contas menores, 2026. Foto: Acervo Pessoal Ademais, este conjunto de vestuário para quem cultua as religiões é visto como uma manifestação afetiva de respeito. Relatos de costureiras que trabalham especificamente para os terreiros mostram que a arte da criação de roupas vem para representar a entidade que rege a vida das pessoas que portam os trajes nas manifestações religiosas, mostrando o cuidado que o mundo físico possui com o espiritual. Caso as costureiras tenham que confeccionar uma roupa para elas mesmas, é necessário realizar um momento de reflexão e se concentrar no que a entidade quer. Quando é o caso de criar uma roupa para outro frequentador do terreiro, o processo é quase o mesmo de uma costureira comum: a pessoa faz o pedido da vestimenta e conversa para saber como ela imagina o produto final. Enquanto a costureira pesquisa referências, a ideia que estava na mente do cliente consegue saltar da mente dela. Arara com saias de Ciganas, Baianas e Erês, 2026. Foto: Acervo Pessoal Durante a confecção das roupas, as entidades podem determinar cores específicas para os tecidos. Quando as costureiras não encontram exatamente o tom solicitado, mesmo que seja um tom parecido e com o dinheiro para comprar o tecido, é quase como se um campo magnético estivesse as impedindo de realizar o ato. Contudo, a religião ainda sofre preconceito que em, muitas das vezes, não é velado. Comentários que vêm de pessoas que não conhecem a cultura dos terreiros acabam trazendo uma imagem negativa às religiões. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Pernambuco registrou, em média, 15,3 denúncias ou violações à liberdade de religião ou crença por mês durante o ano de 2025. Fotografia de Thomas de Ritinha, 2026. Foto: Instagram (@thomas_miguel30) “Eu vivencio o respeito de uma forma natural, mostro para o mundo a religião que pratico e tento levar minha fé por onde andar.”, relata Thomas de Ritinha de Caruaru, que se encontrou na umbanda há cinco anos. A religião segue sendo seu maior refúgio, apesar da intolerância religiosa que consegue ver ao seu redor. “Eu jamais abandonarei ou pararei de cultuar! Cada um segue o que se sente bem de verdade.” Thomas comenta que a preservação das indumentárias é algo sagrado, e só pode ser usado em dias de reunião ou eventos, e não se pode consumir bebidas alcoólicas com elas, especialmente as guias e cachimbos porque são ferramentas de trabalho, descarrego e manipulação energética. Em suma, as religiões de matriz africana não só promovem a conexão entre o ser humano, a natureza e as divindades apenas com o culto, mas com a comunicação do vestuário e, ainda, aportam às culturas a preservação da história e da tradição. A pessoa pode não ter nascido na época em que sua entidade viveu, mas consegue ainda preservar seu legado por meio do vestuário que ela usa na gira.
- Como estão os escritores de fanfic?
Por Isadora Ascendino Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins Um novo capítulo começa aqui. Foto: Acervo pessoal Para muitos leitores e escritores, o primeiro contato com o mundo da escrita veio através das famosas “fanfictions”, histórias de ficção baseadas em personagens ou universos que já existem e que são reescritas ou continuadas pelos próprios fãs para, depois, serem postadas na internet. Essa prática possibilita a criação de um universo alternativo no qual as pessoas produzem geralmente com seriedade e criatividade uma nova história criada de fã para fã, a partir da Cultura da Convergência, como diria o estudioso Henry Jenkins. Jenkins tem um conceito que explica esse fenômeno: a Cultura Participativa, cultura em que fãs e/ou consumidores são convidados a participar ativamente da criação e circulação de novos conteúdos de obras já existentes. Onde os telespectadores saem da posição de passividade e se tornam consumidores e produtores, participando e interagindo de acordo com um novo conjunto de regras. É sempre engraçado em uma conversa cotidiana perguntar para alguém que escreve qual foi o primeiro contato dele com a escrita. Muitas são as respostas que já ouvi, e na maioria delas afirma-se ter sido a partir de uma fanfic escrita sobre cantores favoritos, personagens de filme ou desenho e muitos outros temas que representam uma parte constituinte de uma obra “original”. Quem me conhece sabe que eu sou uma das maiores defensoras das fanfictions. Me surpreende como existem histórias realmente criativas, instigantes e profundas dentro da Wattpad, uma das principais plataformas online de leitura e escrita de histórias que conecta autores independentes e leitores do mundo inteiro. Onde, inclusive, eu comecei o meu processo de me apaixonar pelo universo da literatura e da escrita. Livros publicados de Ali Hazelwood. Foto: Acervo pessoal O livro A Hipótese do Amor (Arqueiro, 2021) é o primeiro grande sucesso de vendas que transformou a vida de Ali Hazelwood, visto que essa obra é um fenômeno literário para a Geração Z. Ele foi escrito a partir de uma fanfic concebida pela própria autora, inspirada no famoso casal fictício Rey e Kylo Ren (apelidado Reylo pelos fãs) da trilogia de filmes de Star Wars. Ver fanfictions virarem livros não é uma grande surpresa, uma vez que escrevê-las exige muita dedicação, estudo e um cuidado genuíno em entregar para o universo de fãs a melhor história que o escritor conseguir escrever. Em entrevistas, Hazelwood conta como foi um grande espanto ver sua fanfic virar uma história com potencial para se transformar em livro. Ela revela que começou a escrever de forma amadora em 2018, com sua estreia no mercado editorial em 2021 a partir da publicação de A Hipótese do Amor. Onde, a partir disso, teve a sorte de ser encontrada pelo universo dos leitores do Tiktok – o booktok, onde seu livro ganhou grande repercussão. Depois disso, a autora mergulhou no universo literário das obras ficcionais e escreveu obras inéditas que também foram grandes sucessos em sua carreira, como por exemplo A Razão do Amor (Arqueiro, 2022) e Amor, Teoricamente (Arqueiro, 2023). Eu também tenho uma trajetória parecida com a da escritora. Calma! Não como ela que ficou rica e famosa com mais de 12 livros publicados mundialmente. Me refiro a entrar no mundo da literatura a partir da escrita de fanfictions. Comecei a desbravar minha própria criatividade e o interesse pela escrita a partir de criações independentes sobre casais fictícios das novelas, séries, filmes ou dos cantores que eu gostava. Página de rascunhos da autora na Wattpad. Foto: Acervo pessoal Eu acho engraçado pensar como, enquanto pré-adolescentes, muitos escritores em ascensão começam a fazer parte desse mundo. Sempre quando estou em processo de “Bloqueio Criativo” me recordo que aos 13 anos, eu conseguia imaginar cenários e histórias com as pequenas coisas do dia a dia. Alguma vivência pessoal, alguma música que escutei, alguma história que li. Era fácil e fazia sentido, de alguma forma, nas histórias que eu escrevia. Parecia mágica, o mundo era colorido, vibrante, interessante e empolgante a cada olhar no horizonte. Henry Jenkins traz que a Cultura da Convergência constrói novas mídias a partir da reconstrução das velhas pela interação ativa dos consumidores. Ela se dá, por exemplo, quando pessoas que vivem em locais distintos e lêem e vêem as mesmas coisas começam a interagir, criar ou vender produtos e ideias sobre aquele determinado tema e gosto em comum. O universo das fanfictions nasce também dessa perspectiva, quando os fãs saem das margens invisíveis da cultura popular e não apenas se inserem no centro das reflexões sobre as produções, mas também passam a ser os produtores dessas novas mídias; consumindo e produzindo ao mesmo tempo. Por vezes a mente parece ficar em silêncio mesmo tendo tanto a falar e os dedos têm dificuldade de começar a tocar nas teclas do notebook, me questiono como aquela garota no auge da adolescência conseguia escrever um capítulo de fanfic uma vez por semana ou no máximo a cada quinze dias, numa escrita recorrente e consistente com suas ideias, caminhos e narrativas. Lista de rascunho de obras da autora. Foto: Acervo pessoal Me lembro que recentemente surgiu uma trend no Instagram que brinca com a frase: “Alguns de vocês não leram fanfic aos 13 anos e dá para perceber”. Eu acho engraçado e concordo fielmente com a afirmação, porque muitas vezes o amor pela literatura é despertado quando começamos a ler personagens já conhecidos por nós em diferentes contextos, o que nos dá a sensação de reconhecimento e pertencimento àquele universo. Quando, eventualmente, não apenas lemos como também imaginamos e colocamos em prática os trunfos da nossa imaginação. Escrever fanfics é um evento que deveria acontecer a todos os escritores em ascensão, porque há dedicação, imaginação e esforço para entregar o melhor para seus leitores, sejam eles através de 5, 10 ou 100 visualizações, apenas pelo prazer do ato da escrita. A graça de escrever fanfic se dá não porquê é uma obrigação, mas sim porque usar da sua criatividade para cativar um público leitor que passa a te acompanhar é um incentivo prazeroso. É ter porquê e como usar a própria imaginação para boas obras. Ter a chance de observar o mundo com mais atenção buscando narrativas para contar, se atentando aos pequenos detalhes, tirando horas do seu dia para escrever, escrever e escrever, ansiando pela publicação e pelas interações e comentários que viriam daqueles que acompanhavam as obras. É um processo natural e instigante para os que escrevem ou escreviam na Wattpad. Só de pensar, volto imediatamente para a minha adolescência. Que saudades disso! Com o tempo e o amadurecimento da vida adulta, muitas vezes deixamos de lado a prática da escrita, mesmo que por diversão. Crescer é entender que ser um escritor consiste em momentos bons, mas também em momentos muito ruins. É lidar com bloqueios criativos ou simplesmente não conseguir transformar as ideias em um texto coerente e coeso, visto que a autocrítica excessiva parece fazer parte de quem somos. Eu me questiono, de maneira muito frustrada, o porquê dessa facilidade para desbravar a própria criatividade se perde com a passagem do tempo. Para ilustrar visualmente o que entendo desse processo, penso nele como areia escorrendo pelas mãos, mesmo que você tente a todo custo segurar, ou como uma ampulheta marcando o espaço-tempo onde as preocupações da vida adulta falarão mais alto e tomarão conta dos seus pensamentos. Como toda história na Wattpad começa. Foto: Acervo pessoal Penso que, em um mundo de tanta agitação e uma realidade adulta de tantos desafios, precisamos relembrar do poder e do potencial libertador da escrita em nossas vidas. Mesmo que não sejamos capazes de criar novas histórias e personagens do zero, tenhamos a expertise de utilizar uma mídia já existente e reformulá-la a nossa moda, assim como incentiva o conceito chamado “Inteligência Coletiva” de Pierre Lévy, quando o consumo passa a ser um processo coletivo que alavanca o conhecimento dos membros desse grupo. Que, a partir da inteligência coletiva, voltemos a ter a capacidade que as comunidades a qual fazíamos parte tinham em combinar seus membros para recombinar códigos e produzir novas coisas que vão agregar o coletivo dentro da comunidade ou para ela. Ou seja, voltemos a recombinar os personagens que já conhecemos e criar novas narrativas que agreguem a nossa comunidade de fãs, que nunca para de produzir e consumir. Esta coluna é um desabafo pessoal que espera que faça sentido para você que também um dia começou sendo um escritor de fanfic: mesmo que aos poucos, volte a escrever. Seja constante e volte a desbloquear sua imaginação. Eu sei que nós, escritores de fanfic, estamos aqui! Leia ou escreva fanfics e volte a desbravar a liberdade criativa e as obras com potencial que podem surgir através da sua criatividade. SAIBA MAIS Ali Hazelwood é Italiana, mas morou na Alemanha e no Japão antes de se mudar para os Estados Unidos. Além de escritora, é Ph.D em neurociência, tendo além de romances, muitos artigos científicos publicados. Outros sucessos de Ali Hazelwood são: Odeio te amar (2023); Xeque-mate (2023); Não é amor (2024); No Fundo é Amor (2025) e seu livro mais recente Jogo de amor para dois (2026). Todos publicados no Brasil pela Editora Arqueiro. CURIOSIDADES O livro Cultura da Convergência (Editora Aleph, 2006) de Henry Jenkins, estuda os temas da Cultura da Convergência, Cultura Participativa e Inteligência Coletiva por Pierre Levy e muitos outros conceitos que são temas essenciais na área da comunicação e da midiatização, trazendo as principais transformações culturais que ocorrem à medida que esses meios convergem. O livro A Hipótese do Amor (2021) de Ali Hazelwood já ultrapassou a marca de 750 mil cópias vendidas mundialmente.
- Breve Encontro Intenso chega a Caruaru com programação especial na Clandestina
Evento reúne pesquisadores, escritoras e artistas de diferentes regiões do Brasil para dias de conversas, literatura, psicanálise, oficinas, lançamentos e cultura popular no interior de Pernambuco. Por Venusto Neto Inspirado na ideia de que “a casa ensina a ler”, de Maria Gabriela Llansol, o encontro encontra na Clandestina um espaço que já tem como propósito reunir literatura, psicanálise e outras artes. A programação propõe rodas de conversa, oficinas de escrita e momentos de troca entre pesquisadoras, escritoras e participantes de diferentes partes do país. A casa também aparece como espaço de produção, especialmente a partir da reflexão sobre os trabalhos historicamente realizados por mulheres nesse ambiente. Ao longo do encontro, essa perspectiva se amplia para pensar a própria escrita como uma forma de criação e ocupação da casa. Além das atividades de conversa e escrita, a programação conta ainda com o lançamento de dois livros e será encerrada com um forró, aproximando os participantes de uma das expressões culturais mais marcantes de Pernambuco. Assim, o Breve Encontro Intenso transforma a Clandestina em um espaço de convivência, criação e compartilhamento, fazendo da casa não apenas um lugar para receber o evento, mas também parte fundamental da experiência. Em entrevista, as professoras Lucia Castello Branco e Ayanne Sobral falam sobre a proposta do 4º Breve Encontro Intenso, o significado de “arrumar a casa” e a escolha da Clandestina, em Caruaru, como espaço para receber o encontro. Ayanne Sobral (à esquerda) e Lucia Castello (à direita) Como surgiu a ideia do “Breve encontro intenso” e o que motivou a realização desse encontro em Caruaru, que chega agora à sua 4ª edição? A ideia do “Breve Encontro Intenso” surgiu em 2011, em Belo Horizonte, a partir de uma verba recebida pela UFMG para a realização de um encontro da linha de pesquisa Literatura e Psicanálise. Como havia um grupo expressivo de pesquisadores estudando a obra de Maria Gabriela Llansol, decidiu-se unir os estudos de literatura e psicanálise à produção da autora, dando origem ao primeiro encontro, intitulado “A Cura da Literatura”. A partir daí, o encontro passou a acontecer em outros lugares, sempre tendo como eixo a literatura e a psicanálise, ou a chamada psicanálise literária, com a obra de Maria Gabriela Llansol como centro. A realização em Caruaru surgiu de maneira natural após a terceira edição, realizada em Porto Alegre, quando a temática da “casa” ganhou destaque. Ayanne Sobral, que participava da coordenação dos grupos e havia fundado a Casa Clandestina, além de ter desenvolvido uma pesquisa sobre o tema, esteve diretamente ligada à escolha de Caruaru. Assim, o quarto “Breve Encontro Intenso” foi realizado em Caruaru com o tema “A Casa que Ensina a Ler”, dando continuidade às discussões sobre a obra de Maria Gabriela Lençol e aprofundando a importância da casa em sua literatura. Registro do III Breve encontro intenso, que aconteceu em Porto Alegre/RS, em 2025. Entusiastas da obra de Maria Gabriela Llansol sabem que sua escrita é marcada pela ruptura, pelo não linear e pelo não sequencial. Partindo disso, o que a expressão “É a casa que ensina a ler” significa para vocês e como ela se relaciona com a proposta do encontro? A expressão “É a casa que ensina a ler” vem da própria obra de Maria Gabriela Llansol, do livro O começo de um livro é precioso. A casa, na escrita de Llansol, não é apenas um tema, mas quase uma estrutura do próprio texto. Ela aparece como um espaço que ensina a ler, que provoca o leitor e o convida a continuar. No livro, há 365 começos de livros, e a ideia do começo é justamente chamar para uma continuidade. Nesse sentido, a casa também funciona como um espaço de encontro, de leitura e de criação. A expressão também tem uma relação muito concreta com a nossa experiência. Nós tivemos a Casa Escrever, em Belo Horizonte, um espaço dedicado à literatura e à psicanálise, onde realizávamos cursos, seminários, palestras e oficinas. Essa casa acabou deixando herdeiros em outros espaços, entre eles a Casa Clandestina, que está diretamente ligada a este encontro em Caruaru. Por isso, “A Casa que Ensina a Ler” representa tanto a casa presente na obra de Llansol quanto a ideia de um espaço de convivência, leitura e criação. É uma casa que não apenas abriga o encontro, mas que também produz novas formas de ler, pensar e se relacionar com a literatura e com a psicanálise. Quando vocês falam em “arrumar a casa” para receber o encontro, essa ideia parece ir além da preparação física do espaço. O que significa, para vocês, preparar essa “casa” para receber outras pessoas e experiências? Para nós, “arrumar a casa” significa muito mais do que preparar fisicamente o espaço. É, sobretudo, criar um ambiente em que as pessoas possam se sentir em casa, à vontade para chegar, compartilhar seus pensamentos, suas pesquisas e suas experiências. Receber a quarta edição do Breve Encontro Intenso aqui na Clandestina é uma alegria muito grande, especialmente por ser a primeira vez que o encontro acontece em uma cidade que não é a capital do estado. Depois de passar por Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre, o encontro chega ao interior de Pernambuco, trazendo pessoas de diferentes lugares do Brasil para pensar, escrever e ler juntas. É um encontro acadêmico, mas também poético, que atravessa a psicanálise, a literatura e a textualidade da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol. Então, “arrumar a casa” é justamente preparar a Clandestina e a própria cidade de Caruaru para acolher essas pessoas, pensamentos e experiências. É abrir espaço para que tudo isso possa acontecer e deixar que novos encontros e novas ideias também nos atravessem. Para nós, existe uma força muito especial em receber esse encontro aqui. É algo que ainda não sabemos nomear completamente, mas que já tem deixado marcas na Clandestina e que, certamente, continuará deixando ao longo do evento. A programação do 4º Breve Encontro Intenso acontece nos dias 25 e 26 de setembro, na Clandestina, em Caruaru. Durante os dois dias, o público poderá acompanhar uma programação que reúne literatura, psicanálise, arte, rodas de conversa, oficinas, lançamentos de livros e momentos de troca entre pesquisadoras, escritoras, artistas e participantes de diferentes lugares do Brasil. Com a proposta de transformar a casa em espaço de encontro, criação e pensamento, o evento encerra sua programação celebrando também a cultura popular, com um momento de forró. Confira a programação: Local: Rua Belmiro Pereira, N. 419 - Maurício de Nassau 25 e 26 de setembro, em Caruaru Para conferir a programação completa, horários e outras informações, acompanhe o perfil da Clandestina no Instagram: @umacasaclandestina.
- O que nos resta após a festa?
Por Milena Pontes Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins Estação ferroviária, São João de Caruaru (2023). Foto: Reprodução/Internet Conhecida como “Princesinha do Agreste”, Caruaru ganha uma nova dimensão com a chegada do São João. Das zonas rurais ao centro urbano, a cidade transforma-se em festejos espalhados por diversos polos culturais, enquanto milhares de pessoas abrem espaço nos dias cotidianos para prestigiar e trabalhar em uma das maiores manifestações sociais do município. No entanto, como toda celebração tem seu término, o mesmo acontece na capital do forró. Com o encerramento das festividades juninas, é comum que a população descreva um sentimento de desânimo, cansaço e vazio após este período de grandes e intensas atividades. Esse sentimento, frequentemente associado à chamada “depressão pós-folia”, pode ser observado não apenas na experiência individual, mas também em discussões coletivas que surgem em torno do fim do São João. Nas últimas edições do evento, cresce em parte da comunidade local a percepção de que uma festa tradicionalmente conhecida como feita “do povo e para o povo” é pensada para quem vem de fora, ao mesmo tempo que quem constrói não só a festa mas também a cidade permanece à margem dos fogos de artifício que se vão quando junho termina. Estação ferroviária Caruaru. Foto: Reprodução/Internet “O São João de Caruaru tá perdendo a centralidade e isso dói pra quem é daqui, pra quem nasceu, pra quem cresceu sabendo que Caruaru é a capital do forró. A gente precisa lembrar que São João não é só uma line-up. São João é cultura, é povo, é tradição, é história.” O desabafo é da blogueira caruaruense Kauanny Larissa, que usou as redes sociais para expor seu descontentamento com os rumos da festividade nas últimas edições do São João de Caruaru. Para Kauanny, o problema não está na proporção que evento vem tomando, mas na perda de um sentimento de pertencimento que atravessou décadas marcando a comemoração, assim como também a incomoda a forma como os festejos e a grande festa em si têm sido organizados. O questionamento que surge no imaginário da blogueira e dos seus seguidores é uma dúvida sobre o São João continuar sendo pensado para os moradores da cidade, mas quem realmente se beneficia das movimentações econômicas anunciadas todos os anos? Eles, nós, os turistas? Essa percepção não aparece de maneira isolada. A cantora Solange Almeida, em entrevistas concedidas durante a temporada junina 2026, afirma que a festa vem perdendo parte da sua essência ao priorizar artistas que atraem grandes públicos, enquanto os espaços destinados a artistas como Santanna, que representa enormemente a tradição, têm se tornado cada vez menor. Para ela, sem esses forrozeiros a festa nem existiria. Tanto para Solange, como para Kauanny, fica claro que o São João não pode ser reduzido a lucros e estratégia de mercado. Ele precisa continuar sendo um espaço de valorização da cultura e de quem a mantém viva. Solange Almeida e Santanna na gravação do São João (2026). Foto: Reprodução/Internet A sensação dessa mudança repentina na cidade também é sentida por quem passou a viver Caruaru recentemente. O palmarense e estudante universitário Fausto Paranhos, um bom representante desse grupo, resume essa dualidade em seu relato: “O primeiro São João morando em Caruaru foi uma experiência muito doida. Mas, quando junho acaba, a cidade parece sucumbir a um cotidiano morto.” Se a dualidade para Fausto está nos meses pós-festividades, para a estudante de farmácia e caruaruense Bruna Tenório, ela se manifesta na forma como a cultura é valorizada. Para a jovem, a cultura de Caruaru parece que, em muitos momentos, é lembrada apenas com muito mais força durante a época junina. Depois que a comemoração acaba, deixa de ser dedicada a ela a mesma valorização cultural. “É como se a cultura fosse uma decoração de temporada, quando, na verdade, deveria fazer parte da vida da cidade durante o ano inteiro.”, relata Bruna. São João de Caruaru na Estação Ferroviária (2026). Foto: @fauparanhos Se as manifestações populares só ocupam posições de destaque em períodos de festa, quem a produz também enfrenta as consequências desse movimento. Quando o mês termina, trabalhadores da cultura voltam a lutar por espaços, reconhecimento e remuneração por seus serviços, em uma cidade onde o São João parece assumir, cada vez mais, um caráter comercial. A invisibilidade dos artistas locais não aparece apenas na perda de espaços na programação, mas também nas condições de trabalho e na demora para receber pelos serviços prestados durante a maior festa de Caruaru – e de Pernambuco e, quiçá, do Brasil. Segundo carta divulgada pelo Movimento Levante ProArte, o novo edital, previsto para ser publicado em 14 de setembro de 2026, poderá estabelecer prazo de até 90 dias para o pagamento dos cachês. A controvérsia entre os investimentos destinados às grandes atrações e as condições oferecidas aos artistas da terra pode ser observada em publicação nas redes sociais do candidato a deputado federal Jones Manoel. Ele veio a público questionar os reais beneficiados pelo São João de Caruaru e defender a valorização dos artistas pernambucanos. Na matéria do Diário de Pernambuco, “Contratações para shows do São João de Caruaru estão R$2 milhões acima do teto previsto, diz MPPE” publicada em junho de 2026, o contraste entre os altos investimentos destinados às grandes atrações e as condições oferecidas aos artistas locais fica ainda mais evidente. Se o São João caruaruense movimenta milhões de reais e atrai turistas de todo o país, questiona-se por que quem sustenta essa tradição durante todo o ano ainda enfrenta invisibilidade, demora para receber pelo próprio trabalho e cada vez tem menos espaços dentro da maior celebração da Capital do Forró. Como resume a caruaruense Bruna Tenório: “O São João pode continuar sendo o momento em que a cidade se transforma e fica ainda mais bonita, mas a cultura que dá sentido a essa festa precisa permanecer viva quando as bandeirinhas forem retiradas e o silêncio voltar às ruas. São João de Caruaru (2026). Foto: Reprodução/Internet
- Com palavras, fotografei
Por Eduarda Thainá Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Capa do livro "Grande Sertão: Veredas". Foto: Reprodução/Internet Decidi escrever sobre isso após me deparar com a seguinte frase de Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas: “Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão… Diadorim tomou conta de mim”. Guimarães Rosa, consegue demarcar com essa frase, o momento que os seus personagens viviam. Quando ele fala sobre latifúndio, ele tá falando sobre aquela expansão de lugar e sobre o poder que naquela época, estava no território e nas fazendas. Mesmo que mudemos, o que foi sentido por nós permanece escrito. Assustadoramente ou não, essa realidade é como um documento vivo dos efeitos do amor em nossos corações. Quando nós, escritores, decidimos registrar em palavras os desdobramentos desse sentimento, aquilo que sentimos sobrevive. A obra de Guimarães funciona como um “espelho do tempo”, revelando um sertão antigo no estado de Minas Gerais. Se passa em um período marcado pelo coronelismo e é nele que observamos a história de jagunços: homens que agiam em proteção de coronéis e defendiam fazendas. Quase como um soldado. É através do gênero literário de romance que temos uma percepção do que é a linguagem e a representação do espaço e do tempo, segundo o filósofo e linguista russo Mikhail Bakhtin. No livro Introdução ao pensamento de Bakhtin (Editora Contexto, 2016), o linguista e pesquisador brasileiro José Luiz Fiorin explica a “Teoria do Romance” de Bakhtin. É por meio dos diálogos escritos, que podemos identificar muitas linguagens. Acabamos nos deparando com várias visões de mundo, formas de expressões diversas que nos possibilita o entendimento do outro. O romance é rico em diálogos, prende nossa atenção e com ele ganhamos novos olhos para enxergar o mundo. Assim como o romance, a música nos permite esse diálogo e por muito tempo, foi por meio dela que conseguimos ter contato com outras linguagens. O trovadorismo foi um movimento literário que uniu duas esferas de expressões. A poesia e a música. Nele, os homens elucidam suas paixões, sejam elas correspondidas ou não por meio de cantigas. Da mesma maneira que os trovadores viam na canção um meio de conhecer o mundo, o filósofo enxergava, no romance, essa melodia. Ilustração de trovadores da idade média retirado de entrevista com Professora Marcella Lopes Guimarães (UFPR). Foto: Reprodução/Internet Através das variantes que surgem do romance, podemos ouvir poemas de Vinicius de Moraes sendo cantados. Ele ajunta diversos gêneros. Penso que, graças a isso, as declarações de Riobaldo e Diadorim me encantaram tanto. Grande Sertão: Veredas (1956) é uma verdadeira epopeia, mas que consegue ultrapassar seu tempo. Como o título desta coluna diz: são palavras fotografadas. No romance, acompanhamos a história de Riobaldo, um ex jagunço que narra histórias sobre sua infância, sobre o tempo que vagavam pelo sertão e sua grande paixão, o diadorim. A multiplicidade no texto de Guimarães Rosa surge através das palavras que eram usadas no dia a dia que Rosa observava. Nas conversas comuns da rotina. Ele usa de todo esse contato para construir os diálogos entre seus personagens. Durante o percurso da leitura, o leitor se depara com outro sertão, um dentro do próprio ser. Aquele que sou eu e que também é você. Cada ser com um dialogismo único, afetado por seu próprio tempo e localidade que somente quando lemos a palavra do outro ou ouvimos é que passamos a conhecer. Ao menos neste instante, aqui, diante de vocês, meu tempo pede que eu seja um tanto sonhadora. Se me permito ir além em meu imaginário, eu diria que a forma com que cada pessoa expressa até mesmo um “eu te amo” pode variar até mesmo no silêncio. É um dialeto único criado entre duas pessoas, do qual Bakhtin chamou de “heteroglossia”: diferentes vozes e cosmovisão ecoando juntas numa mesma língua. Mikhail Bakhtin. Foto: Reprodução/Internet Mas claro, isso era o que ele pensava no campo da linguagem. Ele viu que o romance também é um gênero que oferece uma percepção social sobre cada época. E o quanto disso temos registrado em nossas poesias, seja em um poema de Emily Dickinson, ou em uma carta de Clarice Lispector à Fernando Sabino. Pensar que aquele texto que escrevi e publiquei anos atrás, falava sobre os mesmos sentimentos que eu sinto hoje, me faz olhar pela janela do tempo e perceber o quanto a minha Eu de hoje tem tanto daquela que fui. Acho que o que estou tentando dizer é que a literatura é esse registro do “sentir”. É, de certa maneira, uma fotografia, onde tentamos gravar com exatidão o que sentimos naquele momento. Capa do álbum “Memórias Póstumas” do cantor Jão. Foto: Instagram (@jao) Na faixa “literatura” do seu novo álbum, o cantor Jão enxerga a escrita como uma linguagem necessária. O eu lírico da canção ver na escrita, uma fuga de toda dor que está sentindo naquele instante e usa a literatura como um artefato para transformar de algum jeito o que está sentindo. Ele acredita que as palavras têm esse poder. Letra da música “literatura”. Foto: Via story Instagram/@jao Recorrer à literatura transcende o ato de ignorar a realidade para não reduzir uma memória à algo “épico”, especialmente quando queremos que a essência do que já foi permaneça no presente fotografado e guardado, ainda que aquilo já tenha mudado de estado. SAIBA MAIS Na música “O redator” de Zimbra, o eu lírico é uma pessoa, que costumava registrar, na escrita, o que sente. A música é uma representação dele mesmo cantando a si, para voltar a escrever. Na canção, ele fala que os textos costumam ter milhares de informações que nem todo mundo se apega. Já na letra, vemos o quão importante é, para ele, um registro das histórias que ele viveu. No podcast da Rádio Companhia, eles explicam como Grande Sertão: Veredas, resiste à passagem do tempo através da linguagem textual. CURIOSIDADES Fiorin explica que a memória é a grande força criadora da epopéia, enquanto a experiência e conhecimento é o que move o romance. Bakhtin criou o conceito de “cronotopo”, formado com palavras as gregas crónos (tempo) e tópos (espaço) que significa um registro histórico de um tempo vivido. Os textos literários revelam os cronotopos de cada época. Para ele, o romance era uma expressão da consciência galileana da linguagem. Ele rejeita o absolutismo de uma única língua. Isso abre uma abertura para que uma linguagem mais diversa possa existir e dar voz à grupos sociais, como pessoas marginalizadas por sua condição social, cor ou gênero.
- De Edgar Allan Poe a Clarice Lispector: como o Clube do Conto redefine a cena literária em Caruaru
Por Cássio Holanda Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Encontros transformam a leitura em experiência coletiva e formam novos escritores na Capital do Forró. O encontro Ao entrar na biblioteca Álvaro Lins, assinar o registro de visita e adentrar na parte interna do prédio, um visitante desavisado pode esbarrar em um círculo ovalado de cadeiras, com um grupo de pessoas debatendo de forma entusiasmada um texto que pode ser “Feliz Aniversário” de Clarice Lispector, “Venha Ver o Pôr do Sol” de Lygia Fagundes Telles, “Entrelaces” de Carola Saavedra, “A galega da Cadisa” de Leandro Bacamarte ou “O poço e o pêndulo” de Edgar Allan Poe. Este visitante acabou de descobrir o Clube do Conto de Caruaru. Integrantes do Clube do Conto na Biblioteca Álvaro Lins. Ao centro, agachada, Sandra Lima, a idealizadora do projeto. Foto: Acervo do Clube do Conto de Caruaru O Clube é formado por leitores que almejam ou já têm contato com o fazer da escrita. Nos encontros, todos escolhem, por meio de votação, uma narrativa específica para debater e analisar, para que na semana seguinte possam levar novos contos escritos com base no texto analisado. Todo o processo é mediado por Sandra de Lima, escritora, dramaturga e roteirista. Mestre em Multimeios pela Unicamp, Professora na Aeso - Faculdades Integradas Barros Melo (de 2006 a 2016), Coordenadora do curso de Marketing na Unipê - Centro Universitário de João Pessoa (de 2017 a 2019) e uma das vencedoras do 7° e 8° Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia. Além disso, também foi finalista do Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, em 2022, com Piedade, amor e piedade (Editora Urutau, 2022). Sandra de Lima é geralmente acompanhada na mediação por Alyson Monteiro — produtor cultural, revisor, escritor e editor; ele é também sócio-fundador da Editora Arrelique (Caruaru–PE) e vencedor do XI Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, em 2025. Sobre como surgiu a ideia de criar um Clube do Conto em Caruaru, Sandra Lima relata que: “Eu participei de um Clube de contos virtual e percebi que as leituras e discussões contribuíram bastante no meu processo de escrita. Então, conversando com uma amiga, ela me disse que fazia parte de um Clube de conto na Paraíba, com Maria Valéria Rezende, em que eles se reuniam todos os sábado para discutir o conto escrito pelo grupo. Então, eu pensei um pouco com a cabeça de professora, que poderia ser interessante, ler contos de autores consagrados, discutir esses contos, e a partir da discussão, usar as análises para escrever outros contos, e novamente partilhar com o grupo. Foi assim que surgiu o Clube do Conto de Caruaru.” Hoje, o Clube do Conto conta com 25 membros, considerando os mediadores do grupo. Os encontros acontecem tanto presencial como online, quinzenalmente. O formato de conto, com texto mais curto do que um romance — mas muitas vezes tão densos quanto — ajuda na velocidade da leitura, análise e discussões, e em uma produção mais acelerada de textos para serem lidos pelos participantes nos encontros. Além das análises de obras de autores renomados e leituras dos textos escritos pelos participantes, o Clube também oferece encontros com escritores consagrados em âmbito nacional, como foi o caso da conversa online realizada com a escritora Maria Valéria Rezende — escritora brasileira, nascida em Santos-SP e que hoje reside em João Pessoa-PB. Vencedora do Prêmio Jabuti de 2009 na categoria literatura infantil com o livro No risco do caracol (Autêntica, 2008) com desenhos realizados pela ilustradora Marlette Menezes. É uma das idealizadoras do coletivo literário feminista “Mulherio das Letras”. No dia 19 de agosto deste ano (2026). Maria Valéria falou sobre sua experiência na produção textual e abriu escuta para perguntas dos membros do Clube do Conto. Ainda irão ocorrer encontros com outros autores, como Nadezhda Bezerra, escritora e roteirista, integrante do Clube do Conto da Paraíba, escritora do livro Obrigada por vir (Opera Editorial, 2022) e vencedora do prêmio de Melhor Roteiro no 14º Festival Comunicurtas pelo documentário Frei Damião: o Santo do Nordeste (Dirigido pela cineasta Deby Brennand, 2019). Os integrantes do Clube do Conto de Caruaru também experienciaram um encontro com o escritor Mário Rodrigues, vencedor do prêmio Sesc de Literatura (2016), Prêmio Pernambuco de Literatura (2023) e finalista do Prêmio Jabuti (2017). Encontro online com a escritora Maria Valéria Rezende. Foto: Acervo do Clube do Conto de Caruaru É interessante notar que o Clube do Conto estimula a formação de uma nova leva de escritores de um gênero de escrita que possui grandes nomes em Pernambuco, como Marcelino Freire, nascido em Sertânia, e vencedor do prêmio Jabuti (2006) pelo livro de contos Contos Negreiros (Record, 2006), ou então Luzilá Gonçalves Ferreira, imortal da Cadeira nº 38 da Academia Pernambucana de Letras e premiada com o Prêmio Joaquim Nabuco (1996), concedido a biografias, com o livro Os Rios Turvos (Rocco, 1993), que conta a vida romanceada do poeta luso-brasileiro Bento Teixeira. O conto analisado mais recentemente foi o “Em nome do pai” de Bethânia Pires Amaro, pernambucana radicada em São Paulo, que publicou o texto no livro de contos O Ninho (Record, 2023), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2023 na categoria "Conto", e ganhador do Prêmio Jabuti de 2024 na mesma categoria. Muitos aspectos desse conto foram analisados nos encontros do Clube. Sobre os aspectos técnicos — estrutura, construção de personagens, ritmo, diálogos — que costumam ser analisados nos contos lidos para servirem de inspiração nas criações do grupo, Sandra Lima fala que: “No início do Clube, eu trouxe alguns aspectos teóricos do conto e a partir deles começamos a analisar os contos que líamos, tanto do ponto de vista da estrutura quanto do conteúdo, além do estilo do autor(a). Eu acredito que o importante é que cada um se sinta à vontade para escrever, e rever, e reescrever, tentando encontrar a própria voz literária. E isso tem acontecido naturalmente no grupo.” Uma das integrantes do Clube, Marília Pessoa, comunicóloga formada pela UFPE, Mestranda em Comunicação e autora do livro A verdade no abismo (Editora Minimalismos, 2025), explicou como este processo de análise da estrutura dos contos escolhidos auxiliou no destravamento de sua própria escrita: “As leituras e discussões dos contos me trouxeram insights interessantes para a escrita. Observar como o autor ou autora escreve sobre determinado assunto, sentimento ou situação pode ajudar a descobrir formas interessantes de fazer isso na própria história. As conversas em grupo sobre passagens dos contos também me ajudaram a enxergar mais detalhes de cada texto.” Já Romário Gouveia, outro integrante, autor do conto “A felicidade de Gigio” que foi publicado na antologia Corações selvagens (Editora Arrelique, 2026), afirma que: “Analisando um conto que a gente lê, não só do ponto de vista do enredo que ele oferece, mas da estrutura, pensando as escolhas, determinadas estratégias de esconder determinada chave dentro daquele bloco, episódio textual, é com certeza uma maneira muito eficiente de revisar a nossa própria forma de contar a história. E também tira a gente desse lado puramente intuitivo. Todo mundo que lê, com alguma frequência, vai cada vez mais lendo melhor e vai assimilando também certos padrões. Às vezes a gente não consegue nomear esses padrões. E o clube de leitura proporciona isso. Refinar essa intuição desse leitor que sempre está em busca desse texto e vai criando mais e mais intimidade, mas também consegue dialogar com os nomes, com as coisas mais específicas da produção do conto. Embora seja uma grande roda, onde todo mundo consegue se relacionar muito bem, não existe lá um "academiquês", pelo contrário. É tudo muito orgânico e natural. Mas certamente vê o conto por esses viés da análise da sua forma de dizer, compreender o que o autor quis a partir daquela formulação, qual a intenção está escondida por detrás daquele jeito de organizar as palavras ou de suprimir determinado elemento. Isso tudo com certeza ajuda a gente a refinar o modo de escrever, a pensar as formas de revisar o texto depois que a criatividade jorra no papel.” Ser lido "É como alfinetar a vaidade de escrever e querer e não querer ser lido", afirma Romário Gouveia. Um dos momentos mais aguardados pelos participantes é a leitura dos contos produzidos. A dinâmica se dá da seguinte forma: os integrantes leem seus textos e, depois da leitura, os demais membros do grupo fazem comentários dando feedbacks ao contista que realizou a leitura. Este espaço dá oportunidade de troca de experiências entre os integrantes do Clube. Sandra Lima explica como funciona o momento de compartilhar os contos produzidos pelos membros e como é garantido um espaço seguro e construtivo para as críticas: "Eu creio que esse tem sido os melhores momentos do Clube. Nossos compartilhamentos são sempre muito acolhedores e profícuos. E, eu creio que isso se deve ao fato de termos construído um relacionamento de confiança mútua. Nossas observações sobre o trabalho do outro nunca são em tons de crítica, mas de colaboração. É nítido que o grupo vibra quando percebe que estamos crescendo juntos a partir da escrita individual de cada um de nós. Outro aspecto que eu considero importante é que não há hierarquia entre nós. Qualquer um pode contribuir com a escrita do outro, independente dos seus diplomas, títulos, prêmios ou experiência na escrita. Acreditamos que todos têm a contribuir, e muito, para o crescimento do grupo.” Encontro do Clube do Conto na Biblioteca Álvaro Lins. Foto: Acervo do Clube do Conto de Caruaru Marília Pessoa explica a experiência de suas obras lidas quando fala que inicialmente estava nervosa porque nunca tinha lido algo que escreveu para outras pessoas que não faziam parte do seu grupo íntimo de amigos. A escritora relata a tensão inicial ao compartilhar suas produções fora do seu círculo próximo: “Eu não compartilhava meus escritos de ficção de maneira geral, era algo mais solitário. Somado a isso, ainda não tinha o costume de escrever contos, ainda não sabia como fazer isso. Quando li um dos meus primeiros contos e recebi os comentários dos integrantes do Clube, lembro que voltei para casa com um sorriso. Estava animada por ter compartilhado algo que escrevi e, mais ainda, por ter recebido comentários e sugestões interessantes.” Romário Gouveia, fala que quando se tem um texto lido, é como desnudar-se. “Quando se tem um texto lido, é como se... Desnudar, sabe? Você tá em frente a uma multidão... E, de repente, a roupa cai. Essa, pelo menos, é a primeira sensação. Mas que bom que ela passa rápido, porque, ao invés das pessoas incentivarem o embaraço, pelo contrário, elas começam a recuperar as peças, e você começa a se recompor. E elas te dão sugestão de vestuário, você troca uma por outra, e endireita os pés, e arrumar os sapatos, sabe? Lubrifica o couro da alça da bolsa. Esse é o jogo. É gostoso. Você tem ansiedade pela leitura do colega, e também mantém alguma apreensão, mas logo baixa a guarda pelos feedbacks que vêm em seguida. Isso é enriquecedor. É como alfinetar a vaidade de escrever e querer e não querer ser lido. De qualquer forma, há uma bagunça dentro de quem escreve em relação às pessoas que estão lendo. Especialmente nesse contexto onde todos são pretensos escritores, ou, de fato, já o são. Enfim, é uma contradição. Aparente, mas funciona assim.” Consolidação O Clube do Conto de Caruaru chegou pra ficar (...) porque está se tornando um movimento e os movimentos são muito maiores que as pessoas, diz Sandra de Lima. O Clube do Conto foi aprovado na PNAB Caruaru (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura ), o que proporcionou com que se estruturasse melhor o Clube, e abrisse um processo seletivo para novos participantes. A ideia é buscar publicar os contos produzidos no Clube. Sandra Lima aborda que, em relação à publicação, o problema é sempre o custo: revisão, diagramação, impressão e distribuição. Porém, atualmente, existe também a possibilidade da publicação de E-books. O importante é que se possa divulgar o trabalho dos jovens escritores e escritoras, e possibilitar que sejam lidos. Encontro do Clube do Conto na Biblioteca Álvaro Lins. Foto: Acervo do Clube do Conto de Caruaru Todo este movimento acaba sendo um marco na história da literatura do Agreste Pernambucano, mas também apresenta desafios. O maior deles, afirma Sandra Lima, “é tirar as pessoas de casa, depois de um dia intenso de trabalho, de tantas atividades, para um local específico.” Porém, o encontro como lugar seguro de compartilhamento de ideias acaba atravessando todos estes desafios. Sandra Lima explica que: “Quem está sempre ali, sabe que é um espaço de acolhimento para sua escrita, que o grupo pode ajudar a alcançar um nível de maturidade maior no processo, e então, não tem cansaço que mantenha a pessoa em casa. Eu creio que em um mundo onde cada vez mais o individualismo impera, e a oportunidade dos encontros presenciais ficam escassos, alguns de nós escritores, percebemos que os encontros são fundamentais nesse processo de crescimento e avanço das nossas escritas. Eu acredito que escrever não é um ato solitário, e acho que assim como eu, outros também acreditam nisso. Por isso, tenha a certeza que o Clube do Conto de Caruaru chegou pra ficar, mesmo que cada um de nós siga outro rumo. Porque está se tornando um movimento, e os movimentos são muito maiores que as pessoas.” Você pode conhecer melhor o Clube do conto de Caruaru acessando sua conta no Instagram, o endereço é @clubedocontocaruaru. Os encontros do clube acontecem presencialmente na biblioteca Álvaro Lins ou online via meet.
- Antes de vestir tendências, o crochê veste histórias
Por Madu Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Há coisas que não saem de moda porque nunca foram apenas moda. A arte do crochetar, desde o seu surgimento, vem construindo afeto, memórias e momentos únicos entre os indivíduos, mesmo com mudanças emergentes ao longo do tempo. Diante de um mundo no qual as pessoas estão sempre na correria rotineira, o crochê se mostra como uma espécie de fuga da realidade para aqueles que se sentem pressionados com a aceleração da atualidade. Eu poderia dizer que isso me faz imaginar o quanto de histórias os tubos de linhas e as agulhas, de todas as formas e cores, teriam para nos contar. Isso porque saber-fazer crochê transmite muito mais do que uma ação de tecer e desmanchar, mas um fazer que carrega e comunica afeto, tradição, memória e cultura. Pintura a óleo de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), conhecida como “Mulher fazendo crochê”, por volta de 1875. Foto: Reprodução/Internet O crochê é uma arte cuja origem não se sabe ao certo. Existem teorias históricas que remetem a pré-história, do entrelaçamento de fios com os dedos, outras que se referem à China ou à França. Entre tantos nós que os pesquisadores ainda não conseguiram desatar, a escritora dinamarquesa Lis Paludan desenvolveu o livro Crochet: History & Technique (1995), no qual investiga e discute as teorias encontradas. Inicialmente, ela formula três hipóteses sobre o crochê na Europa: 1) ele veio da Arábia e chegou à Espanha pelas rotas comerciais do Mediterrâneo; 2) surgiu em comunidades indígenas da América do Sul que a utilizavam em rituais de puberdade; 3) surgiu na China, onde eram confeccionadas bonecas trabalhadas no crochê, e difundido através da Rota da Seda. Entretanto, constata-se, de maneira mais forte, o seu surgimento a partir de um bordado chinês, uma forma antiga de bordar conhecida também na Túrquia, Índia, Pérsia e norte da África. Além disso, chegou a Europa por volta de 1700, chamada de “tambour” do francês, traduzida no Brasil para tambor. O nome “crochê” tem origem na palavra francesa "croc" que, em português, significa “gancho”. Inevitavelmente a tradução me fez pensar na palavra “relação”. A técnica artesanal atua como um gancho que traz para perto as pessoas e as ligam afetivamente devido ao artefato que possuem em mãos. Até porque os vínculos são como um emaranhado de linhas, todos interligados através do crochê. Posso dizer, ainda, que me sinto inteiramente ligada ao tema que escrevo, sendo uma grande admiradora desta arte. Aprendi a crochetar com minha avó materna, uma mulher habilidosa com as mãos e que deixa no crochê a sua forma de demonstrar amor. Com paciência, fui ensinada sobre a espera no processo de aprendizagem, o carinho transmitido no ato de ensinar e a satisfação e orgulho que mestre e aprendiz compartilham ao final do trabalho. Vários fios de linha de crochê entrelaçados, 2025. Foto: Acervo Pessoal Um dos grandes princípios do crochê é o de transmitir o saber. Faz parte do processo aprender a ensinar o seu ofício. Desde os primórdios, essa ação ocorre por meio das mulheres da família: são mães, avós, tias e até mesmo vizinhas ou amigas próximas. Dessa forma, desde o passado, a figura feminina se faz central na transmissão desse saber, de geração em geração. Muitas vezes, introduzido na educação de meninas como um afazer doméstico. Assim, a questão do afeto mostra-se presente nessas mulheres quando elas ensinam alguém que gostam. É no fazer de uma peça que, com sua bagagem, guarda uma história entre aquelas duas pessoas envolvidas e entre o artesão e o produto final. As peças confeccionadas com crochê carregam não somente um valor econômico – mesmo sendo usado como renda por algumas famílias – mas sobretudo um valor simbólico que vai além do material, e inspira memória, identidade e sentimento. O fator do legado expõe ainda a tradicional associação entre o feminino e o seu desenvolvimento recluso ao âmbito doméstico. Todavia, com a chegada das máquinas na era industrial, durante o século XX, o trabalho manual diminuiu bastante e muitas mulheres saíram de casa para conseguir sustento, e assim, se afastaram dos afazeres tradicionais do lar, até chegarem ao ponto de perder a tradição que antes era característica do contexto familiar. Entretanto, atualmente, o crochê deixou de ser associado somente ao grupo feminino com o interesse progressivo de jovens e homens pela prática. Roupa de crochê produzida pela Sra. Maria Ivaneide, avó da colunista, 2025. Foto: Acervo Pessoal Somente aos meus 20 anos de idade finalmente aprendi a crochetar e sinto que descobri um grande amor. Cada peça produzida tem uma história que me faz lembrar os conselhos de minha avó com toda sua sabedoria, amor e felicidade por eu estar me divertindo e evoluindo na arte. Seu nome é Maria Ivaneide. Ela se tornou aprendiz observando uma amiga da família exercendo a técnica. Assim, ao me ensinar, fazemos e nos sentimos parte de uma herança entre mulheres que sentem carinho pelo que fazem. Hoje, temos uma relação repleta de novos significados, quando compartilhamos linhas, agulhas, ideias e pensamentos acerca de novas criações. Esse laço foi construído através do crochê que, com suas linhas entrelaçadas, também entrelaça a vida das pessoas. Existe um tempo-tecido que, além de ligar aquelas duas pessoas envolvidas, cria uma identidade a cada laçada, da própria peça e de quem a faz. A arte apresentada é praticada com uma agulha em formato de gancho e linhas de diferentes texturas e cores, que conseguem tecer uma quantidade infinita de padrões e peças a partir da aplicação de três pontos básicos: corrente, ponto baixo e ponto alto – com algumas variações: pontos baixíssimo e altíssimo. Suas aplicações não mudaram, mas a técnica adquiriu, ao longo do tempo, uma versatilidade que é revelada nas próprias produções, diante dos avanços tecnológicos e da perpetuação do fazer. Nesse contexto, o crochê foi capaz, também, de se ligar a outras áreas como o design e a moda, tomando passarelas de desfiles e desenvolvendo-se de maneira inteligente para que seus produtos possam ter um maior valor agregado. Todavia, o desafio sempre foi como se inserir em novos ramos, mas não perder sua essência de originalidade e sensibilidade. Crochê confeccionado em foto da sua avó, Maria Ivaneide, 2025. Foto: Acervo Pessoal A moda em si transcende a dimensão do vestir-se, porque também significa. Assim, o indivíduo passa a utilizar esta comunicação para se expressar. Nos últimos anos, frente ao imediatismo do mundo, com tecnologias que diminuem, cada vez mais, o tempo livre das pessoas e ainda a originalidade das artes, houve o surgimento de um querer se distinguir dos demais, por parte principalmente dos jovens. Por causa da crescente necessidade de diferenciação dos aspectos contemporâneos, os artistas buscam estabelecer sua própria identidade ao afastar-se da padronização de produções manufaturadas. Dessa forma, o artesanato transmite a singularidade de quem o produz com detalhes que trazem ao produto cultura e memória, diferente do que é gerado por máquinas em série e sem personalidade. Peças de crochê no São Paulo Fashion Week, 2024. Foto: Reprodução/Internet O feito à mão, com todo o seu investimento, cuidado e, até mesmo, suas imperfeições, resgata a essência do ver beleza no único e no imperfeito, reafirmando a importância dos saberes ancestrais transmitidos. O ato de dedicar-se durante horas à produção de uma peça é um exercício de paciência que faz o praticante desacelerar e dar importância ao processo realizado e à história que será contada através da peça. O crochê também é uma técnica baseada na tentativa, ou seja, o desmanchar faz parte do seu aprendizado, se tornando um fator essencial para gerar a particularidade de sua arte. Nesse contexto, a presença do mestre torna-se ainda mais importante no processo. Em todas as peças que já confeccionei, minha avó sempre desempenhou esse papel primordial, pois esteve comigo, transmitindo não somente sua experiência, mas seu apoio materno de que eu poderia tentar de novo, e que, independentemente de quantas vezes errasse, ela estaria ao meu lado inspirando cada laçada de uma peça, que assim, se tornou única por sua história e erros, importantes para a pessoa que sou hoje. Ao levar em consideração todo o afeto que envolve a prática do crochê, vemos a arte sendo usada como motivo para reunião entre pessoas. Os momentos em conjunto proporcionam uma coesão social entre o grupo, que cria uma relação íntima-afetiva entre pessoas unidas pela mesma finalidade: fazer crochê. Estes encontros facilitam as trocas e adição de saberes, o aperfeiçoamento da prática e toda a conexão emocional que envolve o sentimento de pertencer; e tudo isso contribui para sustentar a tradição deste tipo de artesanato que continua sendo transmitido, mesmo que de formas diferentes. Primeiras peças produzidas pela colunista Madu Santos, 2025. Foto: Acervo Pessoal Além dos resultados econômico-sociais como a independência financeira através da comercialização da arte, existem, também, benefícios emocionais. O conjunto de elementos importantes para fazer o crochê só somam a vida de quem o confecciona. E todas as vantagens, ligadas ao carinho passado, são essenciais para a história da pessoa que o aprendiz virá a se tornar. Assim, a sensação de conquista ao terminar uma peça, por exemplo, pode reduzir o estresse e a ansiedade, causando aumento da autoestima e sensação de relaxamento. Ademais, as peças de crochê carregam consigo um tipo de processo de significação e ressignificação, e com isso são estabelecidas diversas conexões afetivas e expressões de si mesmo no decorrer da vida de um indivíduo. Esse fator atrela-se, ainda, à relação de intimidade que pode ser construída quando o contato com a arte se inicia ainda na infância. O crochê também consegue demonstrar a cultura de um povo e os traços que carregam consigo. A produção de peças traz características da história da comunidade que a produziu, através da maneira como fazem os ponto ou as linhas. Levando em consideração os detalhes no momento de praticar, esse fator cultural se destaca, também, no processo de busca de matéria-prima. Por exemplo, a cidade de Barbosa Ferraz, no Noroeste do Paraná, tem no crochê uma das principais fontes de renda da região. O lugar não possuía material para a produção. Eles criaram agulhas a partir de chapas de alumínio que foram doadas. Um empresário da cidade trouxe uma grande quantidade de fios de algodão para iniciar a confecção. Hoje em dia, além de comercializar o material pronto, ou seja, as próprias peças de crochê, a matéria-prima passou a ser produzida e vendida para outros estados, tornando-se assim, um dos pilares da economia local, e sendo famosa como a “Capital do Crochê no Paraná”. Granny Square ou “Quadradinhos da Vovó”, 2020. Foto: Reprodução/Internet Reconhecido como um “passatempo de vovó”, o crochê recebeu, até mesmo, peças emblemáticas como o granny square (ou, no português, “quadradinhos da vovó”), aplicações em formato de quadrado com linhas coloridas. Mesmo assim, o encontro é tão mais importante do que a esteriotipação da arte, que o surgimento de tecnologias mais avançadas não foi suficiente para barrar o seu crescimento. Assim, esta técnica de artesanato abriu-se para o mundo e incorporou novas mudanças, pois foi dessa forma que a internet se mostrou um excelente meio de encontro virtual entre os praticantes, o que demonstra, novamente, o afetivo e a singularidade necessários para crochetar. Logo, o ambiente digital proporcionou uma difusão dessa cultura entre diferentes pessoas e grupos, superando o espaço doméstico e permitindo novos vínculos emocionais, intelectuais e comerciais. Com isso, o online, meio pelo qual é possível compartilhar, aprender e criar peças, também está presente em muitos momentos do crochê de indivíduos, assim como o meu com minha avó. Professor e crocheteiro Neddy Ghusmam ensinando peça de crochê, 2025. Foto: Reprodução/Internet Outro aspecto a mencionar é que esse encontro virtual impulsionou a criação de canais para vender os produtos, com a oportunidade de espalhar a arte por diversas regiões do Brasil. Dentro desse contexto, a internet é responsável por estabelecer uma nova comunicação que independe de distância e perpetua os critérios da relação de troca características do crochê. Com isso, são criadas redes de solidariedade que promovem a continuidade dessa experiência. Muitos crocheteiros (as), como o professor e artesão Neddy Ghusmam, se utilizam de canais no Youtube onde ensinam sobre a confecção das peças e pontos específicos, facilitando a partilha de conhecimentos em prol desta relação sensível com o crochê e seu legado. Professor Neddy é considerado um dos principais canais e personalidades da área, no Brasil, e é, também, mais uma das partilhas de minha avó comigo. Entre tantas finalidades, o crochê tem um papel comunicativo, pois, além de conectar pessoas, tempos e histórias, ainda funciona de acordo com a mensagem escolhida para ser transmitida, seja ela de apego emocional, ou social, como as intervenções urbanas. Contudo, o primordial torna-se o sentimento gerado pela prática. Todas as peças produzidas por minha avó são objetos que me lembram o cuidado e amor demonstrado por ela, funcionando assim, quase como um santuário de memórias. Além disso, sendo essencial para que, hoje, cada peça que produzo carregue um pouco dela e, consequentemente, um pouco de mim. Portanto, o crochê se expressa de muitas formas na sociedade e, ao longo dos anos, foi se transformando com a ação da contemporaneidade, mas sempre preservando seus princípios mais tradicionais. Ao aprender a técnica com minha avó, percebi que esse fazer crochê passa não só pelas mãos, mas por conversas, pela paciência e afeto expressado por cada ensinamento. Maria Ivaneide não me ensinou somente a crochetar, ela foi capaz, no ato de ensinar, de me fazer entender que errar e desmanchar são processos muito importantes para construção de algo único, responsável por carregar testemunhos de relações e de tempos compartilhados. É dessa forma que a técnica encontra meios de se manter, porque a cada laçada cumpre a sua verdadeira função: a de aproximar. Por fim, o crochê em sua totalidade muda vidas, porém, mais importante, ele conta histórias, assim como a minha. Linhas que formam um coração envolvendo uma pessoa, 2025. Foto: Acervo Pessoal SAIBA MAIS O seguinte vídeo é o desfile do São Paulo Fashion Week, em 2024, com looks do Ateliê Mão de Mãe. Neste vídeo, vemos um pouco do processo do movimento #Ourpinkhouse, criado pela polonesa Olek, que revestiu duas casas de crochê na cor rosa, com o intuito de ilustrar a situação de milhões de refugiados que ficaram sem lar devido a guerra. Um pouco sobre o movimento Yarn Bombing, criado por Magda Syeg, que realiza intervenções nas ruas com o objetivo de trazer afeto e história para objetos ou lugares sem vida do dia a dia. CURIOSIDADES Na antiguidade, as agulhas encontradas eram feitas basicamente de ossos e madeira. Os modelos específicos para o crochê começaram a aparecer só no século XX. A maior colcha de crochê tem mais de 11.148 m². O recorde foi registrado no The Guinness World e foi feito por cerca de 2.500 mulheres da Índia, que participavam de um grupo no Facebook.
- Se o diabo veste Prada, o crime veste chita
Por Sophia Nascimento Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Quando falamos de cinema, literatura, moda ou qualquer outra variação da arte, é quase instintivo estar condicionado ao imaginário ocidental hegemônico e pensar em conjuntos que parecem sinônimos perfeitos e montados um para o outro como: Cinema - O Poderoso Chefão (1972, Francis Ford Coppola), Diário de uma Paixão (2004, Nick Cassavetes), Forrest Gump (1994, Robert Zemeckis), Casablanca (1942, Michael Curtiz); Moda - Prada, Gucci, Louis Vuitton, Versace; Literatura - William Shakespeare, Jane Austen, Agatha Christie, Edgar Allan Poe. Cena do filme "Casablanca" (1942, Michael Curtiz). Foto: Reprodução/Internet Entenda, a culpa não é sua e isso não é necessariamente uma crítica. Afinal, cada uma dessas obras e marcas possuem sua importância e relevância. Logo, meu comentário anterior é, na verdade, a pontuação do que mais parece a necrose de um membro, causada pela famosa “bactéria comedora de cérebro” que vai engolindo quaisquer outras culturas que estejam em sua órbita. E como filha muito bem criada dessa bactéria temos ela: a famosa síndrome do vira-lata. Pense comigo: se até mesmo a ideia figurativa que temos de Deus e do Diabo são ocidentais, faz completo sentido que um deles use Prada. Portanto, haveria melhor trocadilho para falar do Tropical Noir do que as chitas? Imagem de divulgação do filme "Motel Destino" (2024, Karim Aïnouz). Foto: Reprodução/Internet Antes que alguém interprete a frase pelo tom errado, preciso explicar: não estou dizendo que o crime veste chita porque ela é popular, muito menos porque é nordestina. Também não pretendo vestir o Nordeste com o figurino da violência, como tantas narrativas já fizeram ao transformar a região em um cenário refém de um estereótipo permanente de miséria, atraso, seca e brutalidade. Historicamente, de tecido nobre indiano às cortes europeias, a chita foi “empurrada”, no Brasil para as classes menos favorecidas, para a vida cotidiana do ambiente doméstico e para os corpos marginalizados socialmente. Enquanto isso acontecia, sua “prima rica” e bem mais velha, permanecia no topo do universo têxtil da nobreza, sendo associada à riqueza e a vários espaços de poder. Num movimento cíclico característico da moda, aos poucos a chita do dia a dia passou a ser reconhecida de modo positivo nas festas, nos valores que ela agregava aos lares, às roupas e às manifestações populares brasileiras. Mas o que eu quero dizer com tudo isso é que a chita não se tornou brasileira porque renasceu aqui. Tornou-se brasileira por causa daquilo que fizemos com ela. César Augusto posa para um retrato divulgado em seu perfil profissional no Instagram. Foto: Jamille Queiroz (@cesaraugustoautor) É justamente nesse ponto que o tecido encontra o conceito Tropical Noir desenvolvido pelo escritor e roteirista cearense César Augusto. Nascido em Fortaleza, em 1989, e formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará, César transita simultaneamente entre romances, contos, roteiros e outras produções atravessadas por crimes, desaparecimentos, investigações, conflitos familiares, ambição política e personagens que não podem ser identificados facilmente como heróis e vilões – ou ambos. A princípio, os termos escolhidos para definir sua estética parecem contraditórios. Noir significa “negro” ou “escuro” em francês e carrega consigo um imaginário dominado pela noite, próprio dos romances noir. “Tropical”, por outro lado, remete ao calor e à intensidade das cores. Mas, surpreendentemente, a estética criada por César não consiste em colocar coqueiros ao redor de um assassinato importado, trocar o sobretudo por uma camisa estampada, ou acrescentar expressões nordestinas à fala de um detetive. Se fosse apenas isso, continuaríamos diante da mesma história, coberta por uma decoração diferente, mas no Tropical Noir o que muda não é apenas a aparência do crime, mas a estrutura que o torna possível. Capa do romance "Coisas Quebradas e Brilhantes", do escritor e roteirista César Augusto, publicado em 2022. Foto: Reprodução/Internet Em suas narrativas, a violência retratada é atravessada pela desigualdade, pela corrupção, pela ambição política, pelos conflitos e pelas estratégias de sobrevivência construídas dentro de instituições que nem sempre protegem aqueles que deveriam proteger. O crime agora nasce das relações de poder existentes naquela sociedade, e não mais como uma força estrangeira que invade um ambiente naturalmente pacífico. Posteriormente, com a publicação de seu primeiro romance Coisas Quebradas e Brilhantes em 2022 (Editora Flyve), essa estética encontra sua expressão mais ampla. O livro acompanha uma quadrilha de assaltantes de bancos formada exclusivamente por mulheres. Para salvar a vida de sua mentora, mantida sob o domínio de um grupo misterioso, elas precisam executar uma sequência de roubos arriscados, enquanto também são perseguidas por um capitão do BOPE que pretende transformar a captura da quadrilha em oportunidade para impulsionar sua carreira política. No noir clássico, a femme fatale ocupa um lugar central: sedutora, ambígua, perigosa e impossível de ser inteiramente decifrada; ela ameaça tanto o protagonista masculino quanto a ordem que ele representa. As mocinhas do gênero também não costumam ser figuras completamente transparentes, pois carregam seus próprios mistérios e contradições. César, portanto, não abandona essa tradição, ao contrário: parece reunir uma verdadeira quadrilha de femmes fatales. No entanto, a diferença está no lugar a partir do qual essas mulheres são observadas. Rita Hayworth como Elsa Bannister, femme fatale de "The Lady from Shanghai" (1947, Orson Welles). Foto: Reprodução/Internet Mas e aí? Quem, afinal, veste o crime? No romance, a resposta não pode ser encontrada apenas no uniforme ou no código penal porque a lei não aparece automaticamente como sinônimo de justiça, assim como a prática criminosa não elimina toda a humanidade de quem a comete, e é exatamente no espaço instável entre essas classificações que a escrita de César brilha. Suas personagens podem ferir e proteger, amar e trair, agir por necessidade, mas também por ambição… O ponto é: elas não precisam ser inocentes para serem humanas. Em Coisas Quebradas e Brilhantes, as mulheres deixam de existir apenas como enigmas, tentações ou obstáculos na trajetória de um homem e passam a ocupar o centro da narrativa. Planejam, agem, falham, protegem umas às outras e movimentam toda a história. São oficialmente reconhecidas como criminosas, mas agem também por lealdade e pela tentativa de salvar alguém. Do outro lado está um representante da lei disposto a converter perseguição e violência em capital político. Assim, César não elimina a ambiguidade característica do noir: ele a desloca, permitindo que suas mulheres sejam, ao mesmo tempo, perigosas, vulneráveis, leais, ambiciosas e absolutamente femmes fatales. Ilustrações de Anna Göebel/Autêntica Editora. Foto: Reprodução/Internet Assim como a chita, o gênero chegou de fora, foi recebido por uma cultura que não se limitou a reproduzi-lo; e assim como a chita, pôde ganhar outros sentidos quando vestido por novos corpos, personagens, tramas, cenários e paixões. É assim que César Augusto recebe um gênero estrangeiro, reconhece suas influências, desfaz algumas costuras e o ajusta às contradições brasileiras. O resultado não nega o noir tradicional, mas também não aceita permanecer à sua sombra. Então, se como um bom filho do sistema você já conheceu o desfile em que o Diabo veste Prada, não deixe de conferir os desfiles criminosos do Ceará, onde, ao mesmo tempo, tudo aquilo que brilha socialmente (autoridade, prestígio, poder e sucesso) pode esconder fraturas profundas, em uma técnica perfeita que utiliza as ferramentas do noir para observar uma realidade que não precisa pedir licença para ser matéria de literatura, ou para sair da velha e empoeirada prateleira “regional”. SAIBA MAIS Perfil do próprio autor, com publicações sobre livros, roteiros e Tropical Noir. Também achamos o substack de Cesar! Aqui ele reúne sua apresentação, projetos literários, roteiros e informações sobre Coisas Quebradas e Brilhantes. CURIOSIDADES Podemos separar a obra do autor? No caso de César, ele diz que depende! Todas as suas obras são construções e reflexos de grandes referências e repertórios, mas muitas delas também “vêm de vivências vindas” exatamente do lugar que ele retrata: o Ceará. Essa identificação aparece de maneira especialmente intensa nos personagens de Galo de Rinha (2020, Editora Segno Produções), seu primeiro conto publicado. Isso não significa que a narrativa seja autobiográfica ou que autor e personagem devam ser confundidos, no entanto, não deixam de carregar influências de experiências pessoais que, quando atravessados pela ficção, ganham outros corpos, sentidos, mensagens e contextos. O autor criou uma comunidade no WhatsApp para conversar sobre literatura — especificamente sobre o Noir — com as pessoas que acompanham seus conteúdos sobre escritas, processos, jornadas e literatura. Antes de escrever contos e romances, César participou de uma banda que contava, inclusive, com suas composições.
- O sexy nasceu no Sudeste, o vulgar nasceu na periferia pernambucana
Por Lui Cadu Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Nos últimos meses, elementos da cultura da periferia recifense têm ganhado espaço nas redes sociais não apenas em nível nacional, mas mundial. Foi através do “Passinho do Jamal” que a contracultura característica da região explodiu, alcançando públicos das mais diversas idades, culturas e regiões. Grupo de brega funk com o qual o Jamal popularizou sua dança (@jamal_da_capital). Foto: Reprodução/Internet O embate acerca dessa explosão começa a partir do apagamento da origem dessa cultura: à medida que o Passinho do Jamal ganhou espaço, suas raízes na periferia recifense foram sendo escanteadas. Nas redes sociais, ondas de ataque sobre aqueles que tentarem inserir o Jamal no pedestal de criador da sua própria dança passaram a ser cada vez mais frequentes. Em contrapartida, enquanto a moda recifense foi colocada longe dos holofotes ao ponto de gerar debates sobre a autoria da dança mesmo com o nome do autor estampado na criação, o influenciador sudestino Arthur Lima ganhou destaque internacional, passando a frequentar eventos de moda e dança como autor do Passinho do Jamal. Apropriando-se da cultura da periferia recifense sem ao menos dizer “obrigado” ou dar os créditos ao criador, o influenciador do Sudeste já conta com mais de 20 milhões de seguidores, enquanto Jamal possui menos de 200 mil e coleciona comentários ofensivos em suas postagens no TikTok e Instagram. A discussão ganhou ainda mais visibilidade quando o cantor Anderson Neiff veio em suas redes sociais falar sobre o caso, colocando como ponto de partida o racismo estrutural por trás das falas dos seguidores e amigos de Arthur. Ao analisar os comentários das postagens do criador do Passinho, percebe-se a repetição de falas inferiorizando sua arte e enaltecendo a reprodução dela quando realizada pelo “carinha lá de baixo”. Dentre as pautas comentadas em seus vídeos, seguidores reforçam como a onda massiva de ataques escondem as marcas profundas deixadas pelo regime escravocrata e pelo sincretismo por mais de 300 anos. Falar do apagamento midiático da moda periférica pernambucana também é falar de racismo. Também é falar das heranças da escravidão. Comentários dos vídeos do perfil de Jamal onde o mesmo aparece fazendo seu Passinho (jamal_da_capital_Ofc). Foto: Reprodução/Internet É importante dizer que não coloco a necessidade de um agradecimento como ponto central da minha crítica, até porque Pernambuco está longe de necessitar de algo que venha lá de baixo, tampouco coloco o criador de conteúdo como menos merecedor de seu sucesso, mas trago uma reflexão sobre o valor atribuído à moda da periferia pernambucana — seja nas roupas, na dança, na música, nas artes plásticas e nas mais diversas manifestações artísticas — em paralelo ao valor dado à cultura do Sul e do Sudeste brasileiro (mesmo quando essa cultura é, apenas, uma apropriação do Norte e Nordeste). Sabemos que esse processo de apropriação e silenciamento é bem mais antigo do que gostaríamos de admitir. Na obra A Invenção do Nordeste e outras artes (Cortez, 2018) Durval Muniz nos mostra que o modo como a região Nordeste foi construída vai além da divisão territorial. Trata-se de uma percepção criada no início do século XX por discursos políticos, literários e econômicos para fixar estereótipos associados ao atraso tecnológico, estagnação econômica e incapacidade intelectual. Resultados das pesquisas “homem do nordeste” e “mulher do nordeste”. Foto: Reprodução/Internet Enquanto essa imagem de um Nordeste atrasado ganhava força, o Sul e Sudeste passaram a ser “desenhados” como pólos de avanço tecnológico. Enquanto o homem nordestino era visto como caipira e a mulher como bruta e masculina, os homens e mulheres lá de baixo tornavam-se símbolos a serem seguidos no intelecto, na economia, na cultura e na moda. Fiz uma pesquisa na plataforma do Google Chrome para exemplificar como as identidades são representadas midiaticamente. As pesquisas realizadas foram com os termos: “homem nordestino”, “homem do sudeste”, “mulher nordestina” e “mulher do sudeste”. Resultados das pesquisas “homem do sudeste” e “mulher do sudeste”. Foto: Reprodução/Internet Apesar da obra de Muniz discorrer sobre uma identidade forjada por interesses políticos no século XX, percebemos que, midiaticamente, esse processo ainda acontece. Nas primeiras imagens vemos os resultados para as pesquisas “homem nordestino” e “mulher nordestina” Nas fotos, a presença de homens e mulheres seguem o mesmo padrão: pessoas com roupas simples, com elementos que remetem aos cangaceiros e com a seca presente no cenário ao fundo. Em contrapartida, nos resultados para as pesquisas “homem do sudeste” e “mulher do sudeste” vemos pessoas que, embora estejam com roupas simples, ainda assim são roupas modernas, sem elementos estereotipados de suas culturas. O ponto que mais me chamou atenção foi a dualidade entre os resultados sobre as mulheres. Aqui, fica nítido que, para a mídia, a mulher do Nordeste é bruta e “tem sangue de lampião”, enquanto a do Sul cresce profissionalmente e não têm suas identidades limitadas a personagens masculinos. A mídia acredita mesmo que os homens e mulheres das periferias pernambucanas se assemelham à esses “personagens” criados para o Nordeste? O homem da periferia de Pernambuco não é Lampião. A mulher da periferia de Pernambuco não tem sua identidade forjada pelo sangue de Lampião. As pessoas da periferia de Pernambuco não vêem cactos, chão seco e sol escaldante quando olham pela janela. As pessoas da periferia de Pernambuco não têm intelecto, cultura e moda inferior à da galera lá de baixo. Pelo contrário! A periferia pernambucana é espaço de constante mudança, de nascimento de contraculturas, de resistência e de reexistência. Também não estou aqui para dizer que esse Nordeste não existe ou que nunca existiu, estou pontuando que existem muitas outras faces nordestinas que destoam completamente desse estereótipo. Rato sem ser vulgar! Um ponto que chama atenção nos resultados das pesquisas é como a estética — tanto nas roupas como no ambiente — funciona como ferramenta primordial para esse processo de inferiorização do “ser nordestino”. Neste momento, proponho o oposto: iremos analisar como a moda das periferias recifenses (onde Jamal e seu Passinho nasceram) representam resistência, história e cultura no cotidiano. “Ratos de Recife” vão às ruas relatar que não conseguem frequentar espaços de lazer sem serem discriminados e associados à marginalidade. Foto: Reprodução/Internet A cultura ratosa surge em Recife, Pernambuco, e populariza-se a partir da produção sonora, de memes, de estética e de conteúdo midiático, chegando à ascensão com a explosão do brega funk por volta de 2019 e atraindo debates sociais e políticos em 2025 com a popularização do RatosBar (bar localizado dentro de esgotos das comunidades periféricas e do Passinho do Jamal. A cultura que antes era vista como “coisa de maloqueiro” agora passa a revelar estigmas sociais como a falta de saneamento básico, escassez na saúde pública e com a marginalização dos povos dessas comunidades. A música foi o ponto de partida dessa explosão: foi com o brega funk que os jovens da região metropolitana do Recife e de outras regiões do estado ganharam destaque nas redes sociais, criando e reproduzindo passinhos e servindo de referência estética uns aos outros. Nesse ritmo, em 2025 surge o Passinho do Jamal e com ele cresce o debate sobre o valor atribuído às contraculturas das periferias. No mesmo ano, o RatosBar estoura nas redes sociais através de memes e gírias utilizados no cotidiano desse grupo. Contudo, a sua localização chama atenção: um bar em esgoto a céu aberto, onde lixo é descartado, atraindo animais transmissores de doenças letais para seres humanos. Apesar da fama, a dinâmica do local e as diversas modas que surgem para ressignificá-la refletem a história da cidade do Recife que, diga-se de passagem, foi e segue sendo negligente com a periferia. Ratoso cantando brega romântico no RatosBar. Foto: Reprodução/Internet Segundo o Portal Marco Zero, mais da metade (55%) da população residente da Região Metropolitana do Recife não conta com serviços de coleta de esgoto, sendo as periferias as principais afetadas. Historicamente, as comunidades recifenses enfrentam a falta de políticas públicas que invistam na infraestrutura de esgoto e em um padrão de distribuição. Isso acontece devido a uma profunda desigualdade socioespacial perpetuada através das políticas urbanas (ou melhor, da falta delas). Enquanto a periferia da cidade é negligenciada, a prefeitura aproveita para privatizar parques públicos em bairros nobres e de classe média. Nada como varrer para debaixo dos panos, né? O que os olhos não veem, a periferia sente. Outro ponto importante é destacar a presença feminina na construção da contracultura ratosa: entre princesas e ratas, as mulheres das periferias cada dia mais ganham espaço na mídia, como aconteceu com a influenciadora conhecida como Mãe Isa (Isadora Karolina) que ganhou fama com conselhos de empoderamento feminino e sobre relacionamentos, além de utilizar suas contas para denunciar casos de agressão contra a mulher e mostrar que as vítimas nunca estão sozinhas. Assim como Mãe Isa, as ratas constroem identidade própria, independente da figura dos homens. Perfil do Instagram de Mãe Isa (@conselhos_mae_isa). Foto: Reprodução/Internet Por fim, a periferia pernambucana é mais do que um estereótipo e estigma social: é reexistência mesmo quando a mídia lá de baixo tenta apropriar-se ou silenciar sob discursos racistas e excludentes social e economicamente. Por outro lado, mesmo diante da diversidade cultural marcante nessas regiões, as falhas políticas não devem ser esquecidas ou normalizadas, pelo contrário! A moda dos ratos surge como forma de contra-atacar e mostrar que a periferia é vulgar sim, mas é sexy antes de tudo e por isso merece ser valorizada e cuidada! SAIBA MAIS Na produção desta coluna descobri uma criadora de conteúdo incrível e que contribuiu muito para meu entendimento sobre essa contracultura recifense, então fica aqui minha recomendação: conheçam a Preta Letrada (@pretaletrada), lá ela “passa a visão do que há de preto no mundo. O Marco Zero é um portal de notícias recifenses que discute assuntos pouco comentados em pautas produzidas por veículos tradicionais, como a arte na periferia. Aproveite para conhecer outras fontes de jornalismo. Link da matéria “A relação entre desigualdade, periferia e esgoto na metrópole do Recife” utilizada na composição do texto esta disponível aqui. CURIOSIDADES Você sabia que a gíria “clarinho que” e “e vai gerar!” são fruto da cultura ratosa? Pois é! O Qui Qui Qui desse povo é babado! Nem todo rato é ratoso. Nessa cultura, diversas identidades surgiram e aí vieram os mais diversos estilos e definições: temos o rato peso, o rato rei, a ratona, a rata princesa. Veja aqui com qual tipo de rato você se identifica.
- Não vendemos estampa, vendemos história
Por Lara V. Pereira Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Chico Science, considerado um dos líderes do Manguebeat. Foto: Reprodução/Internet O orgulho em ser pernambucano reflete, também, na moda. Marcas pernambucanas vestem a identidade cultural do Estado em estampas autorais, do Manguebeat de Chico Science à Revolução de 1817. Pesquisadora Ana Paula de Miranda. Foto: Acervo pessoal O bairrismo, orgulho e hipervalorização exacerbados pelo lugar de nascimento em detrimento dos outros, é antigo em Pernambuco. Mas a relação entre esse sentimento e a moda autoral, mais especificamente em Recife, ganha destaque a partir dos anos 1990, segundo a professora e pesquisadora de comportamento do consumidor Ana Paula de Miranda. Ela destaca a cena do Manguebeat com Chico Science como um momento de efervescência de usar a moda como expressão, assim como aconteceu em Seattle com o grunge. A pesquisadora ressalta que história da moda não é a sua área de especialização, e que não identifica, a partir de sua área, outro momento com a mesma característica. Além de ter sido um movimento marcante no âmbito da moda, designers pernambucanos, como Eduardo Ferreira, conquistaram visibilidade no Brasil e no mundo ao apresentar, com suas cores, tradições e símbolos, uma moda sobre a cultura do MangueBeat. Ferreira criou alguns figurinos para Chico, que obtiveram grande repercussão, chegando até o New York Times. Osvaldo Bruno, historiador e fundador da marca "Seu Maraca". Foto: Instagram (@seumaraca) A valorização local aparece também na maneira como algumas marcas escolhem construir suas coleções e estampas. É o caso da Seu Maraca, marca olindense criada pelo professor e historiador Osvaldo Bruno, conhecido como "Maraca" por ter tocado no Maracatu por 16 anos. Bruno nunca havia vendido nada até a pandemia e, internado na UTI por causa da falta de vacina para a covid-19, decidiu que, ao sair, voltaria a tocar no Maracatu e passaria a fabricar as próprias camisas. Foi nesse momento que ele entendeu que precisava mudar onde investir o seu tempo: “Eu voltei meio impactado. Ou eu mudo a minha forma de ver meu tempo e tudo, ou eu não aprendi nada” afirma Maraca. Osvaldo Bruno informa que o processo de pesquisa dura aproximadamente um ano. Por ser professor e historiador, a preocupação é ainda maior. Ele passa meses lendo, pesquisando, assistindo reportagens, prestando atenção ao que está acontecendo em sua volta, quais as demandas e o que os seus amigos estão observando. É um processo criativo orgânico: o historiador traz o exemplo de como surgiu a sua coleção do Manguebeat: “Ia fazer 30 anos do Manguebeat, e ninguém falou no carnaval, meio que fizeram um branco dos 30 anos. Eu disse, rapaz, então vai ser uma coleção contando a história do Manguebeat”. Camisa de botões da coleção "Manguebit". Foto: Instagram (@seumaraca/@rafaellcacau) Camisa "Latino Nordestino". Foto: Instagram (@marcopemodantcpe) A primeira coleção "Manguebit", da Seu Maraca, inspirada no Manguebeat, foi a que impulsionou a marca. Para Bruno, a relação com o movimento não está apenas na estética, mas na forma como ele passou a enxergar a cultura local. Ele relata que foi durante o movimento do Mangue que começou a tocar Maracatu e a valorizar mais as referências de Pernambuco. Hoje, afirma que o público da marca é majoritariamente formado por pessoas do próprio estado, e não por turistas. O fato de ser historiador é um diferencial que o próprio reconhece, o cuidado de como vai apresentar, o que vai falar, o ponto de vista que será usado para contar aquela história com respeito. As pessoas que vão se aproximando da marca e consumindo, relatam para Bruno: “Vocês não vendem estampa, vocês vendem história”. Fundador da Estilo Bregoso, Tarcísio Gomes. Foto: Instagram (@estilobregoso) Outra marca que também usa referências culturais para desenvolver uma moda bairrista é a Estilo Bregoso, criada em 2015 durante a faculdade de Design na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Campus Agreste (CAA) pelo empreendedor e designer Tarcísio Gomes. A marca nasce da junção do amor do fundador pelo brega e o seu espírito empreendedor. No início as estampas faziam referências a músicas de brega que estavam em alta e em bordões dos cantores. Tarcísio Gomes conta que tendo nascido no Alto do Pascoal, a sua proximidade com o brega começa ali também, e sucessivamente a ideia da marca. Ao afirmar que “na periferia, o brega reina. Até quem não gosta conhece as músicas, principalmente dos breguinhas raiz. Eu sou apaixonado pelo brega”. Cliente usando a estampa “– Temer + Troinha.” Foto: Instagram (@estilobregoso) A estampa mais importante da história da marca para Tarcísio, foi a “-Temer + Troinha” que fez tanto sucesso que o fez querer investir todo o tempo no projeto. Menciona também a equipe do Mc Elvis que demonstrou apoio a marca, enfatizando como foi importante o apoio que recebia dos artistas. 11 anos depois a marca ainda continua representando o brega na moda — como a estampa do artista Reginaldo Rossi — e expandindo para o sentimento de orgulho pernambucano, com referências ao hino, a bandeira e até mesmo a revolução de 1817. Perguntado sobre o que seria moda bairrista, o empreendedor e designer Tarcísio Gomes definiu como: “Vestir o que temos orgulho e valorizamos”, uma definição que dialoga diretamente com a moda autoral que produz. Seu sonho é que a marca se torne referência na valorização da cultura pernambucana em todo estado. Tendência e pertencimento não precisam estar em lados opostos, afirma a graduanda em Direito, Alícia Muniz: “Acredito que as duas coisas se misturam. O amor e o orgulho de ser pernambucano já são antigos e fazem parte de grande parte da população, mas ultimamente, principalmente com as redes sociais, isso tem ficado muito em alta”. Ela adquiriu uma camisa com a bandeira de Pernambuco estampada, relatando que no início do ano sentiu vontade de comprar a peça por achar bonita e depois de ter visto inúmeras pessoas usando no carnaval. Alícia Muniz usando a camisa de Pernambuco. Foto: Acervo pessoal Ao ser questionada se usaria a camisa bairrista se morasse fora do estado de Pernambuco, sendo pernambucana, Muniz afirma: “Com toda certeza. Não é incomum ver pernambucanos que moram em outras partes do Brasil ou até do mundo demonstrando seu amor à cultura de Pernambuco, acredito que o 'bairrismo' já é inerente ao pernambucano desde sempre, não importa onde esteja”. A afirmação exemplifica a análise da pesquisadora Ana Paula em relação à identidade cultural na moda, em que existem dois grupos: os que consomem por moda, apenas porque alguém disse que agora é moda usar tal tendência, e os que seguem o sistema cultural, os valores e a representatividade de identidade social; para eles a moda será atemporal. Enfatiza Ana Paula: “Então, não é sobre o movimento em si, mas sobre dois tipos diferentes de pessoas, que trabalham essa questão do consumo de moda, da adoção de moda”. Em 1946, ao analisar Sagarana, de Guimarães Rosa, o crítico literário Antonio Candido observou o movimento de valorização do regional na cultura brasileira e escreveu, em tom irônico, que “agora a moda é ser bairrista”. Na época, “moda” se referia à valorização do regional como tendência literária. Hoje, a mesma expressão aparece em outro contexto, o da moda literal.
- Ecos e ruídos na tela em branco: formas de silêncio no processo de escrita
Por Paula Donato Trabalho aprovado por: Nilton Barros e Marcelo Martins Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet O problema do bloqueio criativo é que não dá para fazer nada com ele. Nada desrespeita mais um escritor do que não conseguir escrever sobre algo. Os diálogos inesquecíveis ainda estão ali, junto das batalhas épicas, das mortes comoventes, dos tropos clássicos e do personagem esquecido antes mesmo dos créditos. Eu conheço a jornada e os acontecimentos, sei ordená-los e posso, inclusive, torná-los bonitos. Mas não quero escrever sobre eles, quero escrevê-los, embora nem sempre consiga. O pior conselho que um escritor pode receber é: “Escreva sobre o que você conhece”. Estou cansada do que conheço e, sobretudo, do que conhecem. Pouco me interessa saber de que maneira o herói terminou com a mocinha ou qual provação precisou atravessar antes de chegar até ela. Quero saber como o corpo dele reagiu a isso. Quero saber se um formigamento subiu pelos braços e ele precisou apertar os próprios pulsos para impedir os pequenos choques elétricos de alcançarem as mãos. Quero saber se o coração quase saiu pela boca ou se o pânico nasceu justamente de não conseguir senti-lo. Quero o enjoo, os arranhões involuntários, a fome que embrulha o estômago, a visão turva e a cabeça latejante. Quero páginas inteiras sobre os terrores noturnos e os hematomas indolores que surgem pela pele sem memória de impacto algum; quero acompanhá-lo observando as manchas escurecerem a cada dia e tentando recordar que tipo de violência o corpo sofreu sem que ele estivesse presente para percebê-la. Não apenas me diga que ele está angustiado, isso é tão óbvio! Angústia é uma palavra pequena demais. Captura de tela de cena escrita pela autora da coluna. Foto: Acervo pessoal Me conte da dor que ele sente quando arranca a pele ao redor das unhas até sangrar e só percebe quando o indicador começa a arder em contato com a água. Diga que passa a língua pelo interior da bochecha até encontrar a pequena ferida que abriu com os dentes e retorna a ela durante o dia inteiro, não porque dói, mas pelo porquê dói. Quero saber da inconsequência consciente de quando o herói não desvia da espada do vilão apenas para verificar se ainda é capaz de reagir a alguma coisa. Não me interessa o sangue jorrando pelo ombro, nem o terreno enegrecido pelos corpos sem vida ao redor dos dois. Me conte da apatia. A carne rasga, o sangue jorra e a pele arde, sim, eu sei de tudo isso. Mas a pupila dele dilata em reação a isso? Ele sente medo ou sente alívio? Ele sente? Existe um certo tipo de perversão em precisar viciantemente da dor como confirmação da própria existência, mas talvez haja uma perversão ainda maior em desejar escrever sobre um sentimento que não se consegue encontrar nem dentro do próprio “corpo”: corpo, corpo, e “corpo” do já visto, já lido, já projetado. É fácil escrever sobre o que você conhece quando se evita escrever sobre o que você sente. Existe desconfiança nas palavras que nomeiam emoções e sentidos da e na carne. Todas parecem atalhos oferecidos pela língua para sensações que, quando acontecem de verdade, recusam qualquer espécie de organização. Nenhuma sintaxe é capaz de organizar o vazio. Escreve-se “ele estava angustiado” e a frase permanece perfeitamente compreensível, embora não tenha dito quase nada. Não sei onde a angústia está. Se pulsa nas têmporas, se pesa sobre o peito, se endurece a mandíbula, se percorre a coluna ou se não faz absolutamente nada além de instalar no corpo a suspeita de que deveria haver alguma coisa acontecendo ali. Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet A palavra delimita justamente aquilo que o corpo experimenta sem rodeios e, ainda assim, só tenho a palavra. Talvez seja essa insuficiência que me faça continuar voltando à literatura mesmo quando não consigo escrever. Há sempre um espaço entre aquilo que foi sentido e aquilo que pôde ser dito; outro entre aquilo que foi dito e aquilo que alguém será capaz de compreender. Escrevo tentando atravessá-los, e chamo de precisão os raros momentos em que a distância parece diminuir. Como escrever sobre o indescritível? Como destrinchar o não-sentimento? Como escrever sobre o que conheço quando não sinto nada pelo que conheço e nem sequer consigo definir esse “NADA” como alguma espécie de sentimento? O problema do bloqueio criativo é a incapacidade momentânea de alcançar as histórias por dentro; continuar cercada por coisas sobre as quais se poderia escrever e não encontrar, em nenhuma delas, uma fissura por onde acessar. Como minha imaginação pode virar palavra se minha sensibilidade permanece desligada? Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet Por isso, também, a minha constante recusa quanto a recorrer a uma máquina para escrever por mim. Qualquer um pode me devolver uma frase mais-ou-menos bem construída, uma metáfora que faça mais-ou-menos sentido e um corpo inteiro reagindo mais-ou-menos ao que eu mandei ele reagir. O problema é que dessa maneira o medo não seca a boca e o luto não dobra os joelhos; existe linguagem sem experiência e palavras que conhecem a forma de um sentimento sem nunca tê-lo sentido. E, se meu bloqueio nasce justamente da distância entre aquilo que imagino e aquilo que almejo sentir, terceirizar essa distância seria apenas preenchê-la com mais “NADA”. Se na escrita busco linguagem para aquilo que ainda não sei nomear, não quero que outra coisa encontre essa linguagem antes de mim. A tela em branco, com seus ecos e ruídos, às vezes suporta a falta de uma técnica. Outras vezes, porém, materializa o bloqueio derivado da paralisia do escritor. Nem sempre é vazia de histórias; é, antes, a insuportabilidade ou insustentabilidade da angústia de não se poder nomear o indizível, mesmo que ele já seja conhecido carnalmente – camuflado por palavras que o escondem, o minimizam, o entorpecem, o mascaram e o enclausuram em imagens que borram seus significados mais profundos e viscerais. Escreva sobre o que sente para que quem sente saiba sobre o que escrever. SAIBA MAIS Em 2017, um ex-aluno do curso de Design do CAA, Filipe Artur Honorato Ferreira de Souza, apresentou um TCC em que discutia o “bloqueio criativo”: Reinventando o "Eu": proposta metodológica para agir sobre o bloqueio criativo. O cineasta David Lynch, diretor de Twin Peaks e Mulholland Drive, relacionava seu processo criativo à capacidade de “capturar” ideias. Em uma entrevista à Time Out, ao ser perguntado sobre o que fazia quando se sentia criativamente bloqueado, Lynch respondeu que buscava uma ideia e associou esse processo à prática da meditação transcendental. CURIOSIDADES A expressão "writer’s block" foi cunhada em 1947 pelo psicanalista austríaco Edmund Bergler, radicado nos Estados Unidos. Influenciado pela psicanálise freudiana, Bergler estudava escritores que, mesmo querendo produzir, passavam por períodos em que não conseguiam escrever. Embora artistas já relatassem dificuldades semelhantes muito antes disso, foi a partir da década de 1940 que o fenômeno ganhou um nome e começou a ser tratado como objeto de estudo psicológico. Em uma carta de 1920, enquanto assistia ao avanço da sua tuberculose, Franz Kafka desabafou com um amigo sobre a angústia de não conseguir escrever devido à sua paralisia literária – decorrente das preocupações em torno da doença. O escritor transformou o próprio sufocamento criativo na matéria-prima de mais uma obra-prima que produziu, fazendo da sua agonia a origem, a fonte e o fim de sua escrita. “Não escrevo nada há três anos, o que está sendo publicado agora são velharias, não tenho outro trabalho, nem mesmo um em andamento. Quando as preocupações penetram em uma determinada camada da existência, a escrita e a queixa cessam visivelmente; a minha resistência, aliás, não era muito grande.”
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