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  • Se o diabo veste Prada, o crime veste chita

    Por Sophia Nascimento Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Quando falamos de cinema, literatura, moda ou qualquer outra variação da arte, é quase instintivo estar condicionado ao imaginário ocidental hegemônico e pensar em conjuntos que parecem sinônimos perfeitos e montados um para o outro como: Cinema - O Poderoso Chefão (1972, Francis Ford Coppola), Diário de uma Paixão (2004, Nick Cassavetes), Forrest Gump (1994, Robert Zemeckis), Casablanca (1942, Michael Curtiz); Moda - Prada, Gucci, Louis Vuitton, Versace; Literatura - William Shakespeare, Jane Austen, Agatha Christie, Edgar Allan Poe. Cena do filme "Casablanca" (1942, Michael Curtiz). Foto: Reprodução/Internet Entenda, a culpa não é sua e isso não é necessariamente uma crítica. Afinal, cada uma dessas obras e marcas possuem sua importância e relevância. Logo, meu comentário anterior é, na verdade, a pontuação do que mais parece a necrose de um membro, causada pela famosa “bactéria comedora de cérebro” que vai engolindo quaisquer outras culturas que estejam em sua órbita. E como filha muito bem criada dessa bactéria temos ela: a famosa síndrome do vira-lata. Pense comigo: se até mesmo a ideia figurativa que temos de Deus e do Diabo são ocidentais, faz completo sentido que um deles use Prada. Portanto, haveria melhor trocadilho para falar do Tropical Noir do que as chitas? Imagem de divulgação do filme "Motel Destino" (2024, Karim Aïnouz). Foto: Reprodução/Internet Antes que alguém interprete a frase pelo tom errado, preciso explicar: não estou dizendo que o crime veste chita porque ela é popular, muito menos porque é nordestina. Também não pretendo vestir o Nordeste com o figurino da violência, como tantas narrativas já fizeram ao transformar a região em um cenário refém de um estereótipo permanente de miséria, atraso, seca e brutalidade. Historicamente, de tecido nobre indiano às cortes europeias, a chita foi “empurrada”, no Brasil para as classes menos favorecidas, para a vida cotidiana do ambiente doméstico e para os corpos marginalizados socialmente. Enquanto isso acontecia, sua “prima rica” e bem mais velha, permanecia no topo do universo têxtil da nobreza, sendo associada à riqueza e a vários espaços de poder. Num movimento cíclico característico da moda, aos poucos a chita do dia a dia passou a ser reconhecida de modo positivo nas festas, nos valores que ela agregava aos lares, às roupas e às manifestações populares brasileiras. Mas o que eu quero dizer com tudo isso é que a chita não se tornou brasileira porque renasceu aqui. Tornou-se brasileira por causa daquilo que fizemos com ela. César Augusto posa para um retrato divulgado em seu perfil profissional no Instagram. Foto: Jamille Queiroz (@cesaraugustoautor) É justamente nesse ponto que o tecido encontra o conceito Tropical Noir desenvolvido pelo escritor e roteirista cearense César Augusto. Nascido em Fortaleza, em 1989, e formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará, César transita simultaneamente entre romances, contos, roteiros e outras produções atravessadas por crimes, desaparecimentos, investigações, conflitos familiares, ambição política e personagens que não podem ser identificados facilmente como heróis e vilões – ou ambos. A princípio, os termos escolhidos para definir sua estética parecem contraditórios. Noir significa “negro” ou “escuro” em francês e carrega consigo um imaginário dominado pela noite, próprio dos romances noir. “Tropical”, por outro lado, remete ao calor e à intensidade das cores. Mas, surpreendentemente, a estética criada por César não consiste em colocar coqueiros ao redor de um assassinato importado, trocar o sobretudo por uma camisa estampada, ou acrescentar expressões nordestinas à fala de um detetive. Se fosse apenas isso, continuaríamos diante da mesma história, coberta por uma decoração diferente, mas no Tropical Noir o que muda não é apenas a aparência do crime, mas a estrutura que o torna possível. Capa do romance "Coisas Quebradas e Brilhantes", do escritor e roteirista César Augusto, publicado em 2022. Foto: Reprodução/Internet Em suas narrativas, a violência retratada é atravessada pela desigualdade, pela corrupção, pela ambição política, pelos conflitos e pelas estratégias de sobrevivência construídas dentro de instituições que nem sempre protegem aqueles que deveriam proteger. O crime agora nasce das relações de poder existentes naquela sociedade, e não mais como uma força estrangeira que invade um ambiente naturalmente pacífico. Posteriormente, com a publicação de seu primeiro romance Coisas Quebradas e Brilhantes em 2022 (Editora Flyve), essa estética encontra sua expressão mais ampla. O livro acompanha uma quadrilha de assaltantes de bancos formada exclusivamente por mulheres. Para salvar a vida de sua mentora, mantida sob o domínio de um grupo misterioso, elas precisam executar uma sequência de roubos arriscados, enquanto também são perseguidas por um capitão do BOPE que pretende transformar a captura da quadrilha em oportunidade para impulsionar sua carreira política. No noir clássico, a femme fatale ocupa um lugar central: sedutora, ambígua, perigosa e impossível de ser inteiramente decifrada; ela ameaça tanto o protagonista masculino quanto a ordem que ele representa. As mocinhas do gênero também não costumam ser figuras completamente transparentes, pois carregam seus próprios mistérios e contradições. César, portanto, não abandona essa tradição, ao contrário: parece reunir uma verdadeira quadrilha de femmes fatales. No entanto, a diferença está no lugar a partir do qual essas mulheres são observadas. Rita Hayworth como Elsa Bannister, femme fatale de "The Lady from Shanghai" (1947, Orson Welles). Foto: Reprodução/Internet Mas e aí? Quem, afinal, veste o crime? No romance, a resposta não pode ser encontrada apenas no uniforme ou no código penal porque a lei não aparece automaticamente como sinônimo de justiça, assim como a prática criminosa não elimina toda a humanidade de quem a comete, e é exatamente no espaço instável entre essas classificações que a escrita de César brilha. Suas personagens podem ferir e proteger, amar e trair, agir por necessidade, mas também por ambição… O ponto é: elas não precisam ser inocentes para serem humanas. Em Coisas Quebradas e Brilhantes, as mulheres deixam de existir apenas como enigmas, tentações ou obstáculos na trajetória de um homem e passam a ocupar o centro da narrativa. Planejam, agem, falham, protegem umas às outras e movimentam toda a história. São oficialmente reconhecidas como criminosas, mas agem também por lealdade e pela tentativa de salvar alguém. Do outro lado está um representante da lei disposto a converter perseguição e violência em capital político. Assim, César não elimina a ambiguidade característica do noir: ele a desloca, permitindo que suas mulheres sejam, ao mesmo tempo, perigosas, vulneráveis, leais, ambiciosas e absolutamente femmes fatales. Ilustrações de Anna Göebel/Autêntica Editora. Foto: Reprodução/Internet Assim como a chita, o gênero chegou de fora, foi recebido por uma cultura que não se limitou a reproduzi-lo; e assim como a chita, pôde ganhar outros sentidos quando vestido por novos corpos, personagens, tramas, cenários e paixões. É assim que César Augusto recebe um gênero estrangeiro, reconhece suas influências, desfaz algumas costuras e o ajusta às contradições brasileiras. O resultado não nega o noir tradicional, mas também não aceita permanecer à sua sombra. Então, se como um bom filho do sistema você já conheceu o desfile em que o Diabo veste Prada, não deixe de conferir os desfiles criminosos do Ceará, onde, ao mesmo tempo, tudo aquilo que brilha socialmente (autoridade, prestígio, poder e sucesso) pode esconder fraturas profundas, em uma técnica perfeita que utiliza as ferramentas do noir para observar uma realidade que não precisa pedir licença para ser matéria de literatura, ou para sair da velha e empoeirada prateleira “regional”. SAIBA MAIS Perfil do próprio autor, com publicações sobre livros, roteiros e Tropical Noir. Também achamos o substack de Cesar! Aqui ele reúne sua apresentação, projetos literários, roteiros e informações sobre Coisas Quebradas e Brilhantes. CURIOSIDADES Podemos separar a obra do autor? No caso de César, ele diz que depende! Todas as suas obras são construções e reflexos de grandes referências e repertórios, mas muitas delas também “vêm de vivências vindas” exatamente do lugar que ele retrata: o Ceará. Essa identificação aparece de maneira especialmente intensa nos personagens de Galo de Rinha (2020, Editora Segno Produções), seu primeiro conto publicado. Isso não significa que a narrativa seja autobiográfica ou que autor e personagem devam ser confundidos, no entanto, não deixam de carregar influências de experiências pessoais que, quando atravessados pela ficção, ganham outros corpos, sentidos, mensagens e contextos. O autor criou uma comunidade no WhatsApp para conversar sobre literatura — especificamente sobre o Noir — com as pessoas que acompanham seus conteúdos sobre escritas, processos, jornadas e literatura. Antes de escrever contos e romances, César participou de uma banda que contava, inclusive, com suas composições.

  • O sexy nasceu no Sudeste, o vulgar nasceu na periferia pernambucana

    Por Lui Cadu Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Nos últimos meses, elementos da cultura da periferia recifense têm ganhado espaço nas redes sociais não apenas em nível nacional, mas mundial. Foi através do “Passinho do Jamal” que a contracultura característica da região explodiu, alcançando públicos das mais diversas idades, culturas e regiões. Grupo de brega funk com o qual o Jamal popularizou sua dança (@jamal_da_capital). Foto: Reprodução/Internet O embate acerca dessa explosão começa a partir do apagamento da origem dessa cultura: à medida que o Passinho do Jamal ganhou espaço, suas raízes na periferia recifense foram sendo escanteadas. Nas redes sociais, ondas de ataque sobre aqueles que tentarem inserir o Jamal no pedestal de criador da sua própria dança passaram a ser cada vez mais frequentes. Em contrapartida, enquanto a moda recifense foi colocada longe dos holofotes ao ponto de gerar debates sobre a autoria da dança mesmo com o nome do autor estampado na criação, o influenciador sudestino Arthur Lima ganhou destaque internacional, passando a frequentar eventos de moda e dança como autor do Passinho do Jamal. Apropriando-se da cultura da periferia recifense sem ao menos dizer “obrigado” ou dar os créditos ao criador, o influenciador do Sudeste já conta com mais de 20 milhões de seguidores, enquanto Jamal possui menos de 200 mil e coleciona comentários ofensivos em suas postagens no TikTok e Instagram. A discussão ganhou ainda mais visibilidade quando o cantor Anderson Neiff veio em suas redes sociais falar sobre o caso, colocando como ponto de partida o racismo estrutural por trás das falas dos seguidores e amigos de Arthur. Ao analisar os comentários das postagens do criador do Passinho, percebe-se a repetição de falas inferiorizando sua arte e enaltecendo a reprodução dela quando realizada pelo “carinha lá de baixo”. Dentre as pautas comentadas em seus vídeos, seguidores reforçam como a onda massiva de ataques escondem as marcas profundas deixadas pelo regime escravocrata e pelo sincretismo por mais de 300 anos. Falar do apagamento midiático da moda periférica pernambucana também é falar de racismo. Também é falar das heranças da escravidão. Comentários dos vídeos do perfil de Jamal onde o mesmo aparece fazendo seu Passinho (jamal_da_capital_Ofc). Foto: Reprodução/Internet É importante dizer que não coloco a necessidade de um agradecimento como ponto central da minha crítica, até porque Pernambuco está longe de necessitar de algo que venha lá de baixo, tampouco coloco o criador de conteúdo como menos merecedor de seu sucesso, mas trago uma reflexão sobre o valor atribuído à moda da periferia pernambucana — seja nas roupas, na dança, na música, nas artes plásticas e nas mais diversas manifestações artísticas — em paralelo ao valor dado à cultura do Sul e do Sudeste brasileiro (mesmo quando essa cultura é, apenas, uma apropriação do Norte e Nordeste). Sabemos que esse processo de apropriação e silenciamento é bem mais antigo do que gostaríamos de admitir. Na obra A Invenção do Nordeste e outras artes (Cortez, 2018) Durval Muniz nos mostra que o modo como a região Nordeste foi construída vai além da divisão territorial. Trata-se de uma percepção criada no início do século XX por discursos políticos, literários e econômicos para fixar estereótipos associados ao atraso tecnológico, estagnação econômica e incapacidade intelectual. Resultados das pesquisas “homem do nordeste” e “mulher do nordeste”. Foto: Reprodução/Internet Enquanto essa imagem de um Nordeste atrasado ganhava força, o Sul e Sudeste passaram a ser “desenhados” como pólos de avanço tecnológico. Enquanto o homem nordestino era visto como caipira e a mulher como bruta e masculina, os homens e mulheres lá de baixo tornavam-se símbolos a serem seguidos no intelecto, na economia, na cultura e na moda. Fiz uma pesquisa na plataforma do Google Chrome para exemplificar como as identidades são representadas midiaticamente. As pesquisas realizadas foram com os termos: “homem nordestino”, “homem do sudeste”, “mulher nordestina” e “mulher do sudeste”. Resultados das pesquisas “homem do sudeste” e “mulher do sudeste”. Foto: Reprodução/Internet Apesar da obra de Muniz discorrer sobre uma identidade forjada por interesses políticos no século XX, percebemos que, midiaticamente, esse processo ainda acontece. Nas primeiras imagens vemos os resultados para as pesquisas “homem nordestino” e “mulher nordestina” Nas fotos, a presença de homens e mulheres seguem o mesmo padrão: pessoas com roupas simples, com elementos que remetem aos cangaceiros e com a seca presente no cenário ao fundo. Em contrapartida, nos resultados para as pesquisas “homem do sudeste” e “mulher do sudeste” vemos pessoas que, embora estejam com roupas simples, ainda assim são roupas modernas, sem elementos estereotipados de suas culturas. O ponto que mais me chamou atenção foi a dualidade entre os resultados sobre as mulheres. Aqui, fica nítido que, para a mídia, a mulher do Nordeste é bruta e “tem sangue de lampião”, enquanto a do Sul cresce profissionalmente e não têm suas identidades limitadas a personagens masculinos. A mídia acredita mesmo que os homens e mulheres das periferias pernambucanas se assemelham à esses “personagens” criados para o Nordeste? O homem da periferia de Pernambuco não é Lampião. A mulher da periferia de Pernambuco não tem sua identidade forjada pelo sangue de Lampião. As pessoas da periferia de Pernambuco não vêem cactos, chão seco e sol escaldante quando olham pela janela. As pessoas da periferia de Pernambuco não têm intelecto, cultura e moda inferior à da galera lá de baixo. Pelo contrário! A periferia pernambucana é espaço de constante mudança, de nascimento de contraculturas, de resistência e de reexistência. Também não estou aqui para dizer que esse Nordeste não existe ou que nunca existiu, estou pontuando que existem muitas outras faces nordestinas que destoam completamente desse estereótipo. Rato sem ser vulgar! Um ponto que chama atenção nos resultados das pesquisas é como a estética — tanto nas roupas como no ambiente — funciona como ferramenta primordial para esse processo de inferiorização do “ser nordestino”. Neste momento, proponho o oposto: iremos analisar como a moda das periferias recifenses (onde Jamal e seu Passinho nasceram) representam resistência, história e cultura no cotidiano. “Ratos de Recife” vão às ruas relatar que não conseguem frequentar espaços de lazer sem serem discriminados e associados à marginalidade. Foto: Reprodução/Internet A cultura ratosa surge em Recife, Pernambuco, e populariza-se a partir da produção sonora, de memes, de estética e de conteúdo midiático, chegando à ascensão com a explosão do brega funk por volta de 2019 e atraindo debates sociais e políticos em 2025 com a popularização do RatosBar (bar localizado dentro de esgotos das comunidades periféricas e do Passinho do Jamal. A cultura que antes era vista como “coisa de maloqueiro” agora passa a revelar estigmas sociais como a falta de saneamento básico, escassez na saúde pública e com a marginalização dos povos dessas comunidades. A música foi o ponto de partida dessa explosão: foi com o brega funk que os jovens da região metropolitana do Recife e de outras regiões do estado ganharam destaque nas redes sociais, criando e reproduzindo passinhos e servindo de referência estética uns aos outros. Nesse ritmo, em 2025 surge o Passinho do Jamal e com ele cresce o debate sobre o valor atribuído às contraculturas das periferias. No mesmo ano, o RatosBar estoura nas redes sociais através de memes e gírias utilizados no cotidiano desse grupo. Contudo, a sua localização chama atenção: um bar em esgoto a céu aberto, onde lixo é descartado, atraindo animais transmissores de doenças letais para seres humanos. Apesar da fama, a dinâmica do local e as diversas modas que surgem para ressignificá-la refletem a história da cidade do Recife que, diga-se de passagem, foi e segue sendo negligente com a periferia. Ratoso cantando brega romântico no RatosBar. Foto: Reprodução/Internet Segundo o Portal Marco Zero, mais da metade (55%) da população residente da Região Metropolitana do Recife não conta com serviços de coleta de esgoto, sendo as periferias as principais afetadas. Historicamente, as comunidades recifenses enfrentam a falta de políticas públicas que invistam na infraestrutura de esgoto e em um padrão de distribuição. Isso acontece devido a uma profunda desigualdade socioespacial perpetuada através das políticas urbanas (ou melhor, da falta delas). Enquanto a periferia da cidade é negligenciada, a prefeitura aproveita para privatizar parques públicos em bairros nobres e de classe média. Nada como varrer para debaixo dos panos, né? O que os olhos não veem, a periferia sente. Outro ponto importante é destacar a presença feminina na construção da contracultura ratosa: entre princesas e ratas, as mulheres das periferias cada dia mais ganham espaço na mídia, como aconteceu com a influenciadora conhecida como Mãe Isa (Isadora Karolina) que ganhou fama com conselhos de empoderamento feminino e sobre relacionamentos, além de utilizar suas contas para denunciar casos de agressão contra a mulher e mostrar que as vítimas nunca estão sozinhas. Assim como Mãe Isa, as ratas constroem identidade própria, independente da figura dos homens. Perfil do Instagram de Mãe Isa (@conselhos_mae_isa). Foto: Reprodução/Internet Por fim, a periferia pernambucana é mais do que um estereótipo e estigma social: é reexistência mesmo quando a mídia lá de baixo tenta apropriar-se ou silenciar sob discursos racistas e excludentes social e economicamente. Por outro lado, mesmo diante da diversidade cultural marcante nessas regiões, as falhas políticas não devem ser esquecidas ou normalizadas, pelo contrário! A moda dos ratos surge como forma de contra-atacar e mostrar que a periferia é vulgar sim, mas é sexy antes de tudo e por isso merece ser valorizada e cuidada! SAIBA MAIS Na produção desta coluna descobri uma criadora de conteúdo incrível e que contribuiu muito para meu entendimento sobre essa contracultura recifense, então fica aqui minha recomendação: conheçam a Preta Letrada (@pretaletrada), lá ela “passa a visão do que há de preto no mundo. O Marco Zero é um portal de notícias recifenses que discute assuntos pouco comentados em pautas produzidas por veículos tradicionais, como a arte na periferia. Aproveite para conhecer outras fontes de jornalismo. Link da matéria “A relação entre desigualdade, periferia e esgoto na metrópole do Recife” utilizada na composição do texto esta disponível aqui. CURIOSIDADES Você sabia que a gíria “clarinho que” e “e vai gerar!” são fruto da cultura ratosa? Pois é! O Qui Qui Qui desse povo é babado! Nem todo rato é ratoso. Nessa cultura, diversas identidades surgiram e aí vieram os mais diversos estilos e definições: temos o rato peso, o rato rei, a ratona, a rata princesa. Veja aqui com qual tipo de rato você se identifica.

  • Não vendemos estampa, vendemos história

    Por Lara V. Pereira Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Chico Science, considerado um dos líderes do Manguebeat. Foto: Reprodução/Internet O orgulho em ser pernambucano reflete, também, na moda. Marcas pernambucanas vestem a identidade cultural do Estado em estampas autorais, do Manguebeat de Chico Science à Revolução de 1817. Pesquisadora Ana Paula de Miranda. Foto: Acervo pessoal O bairrismo, orgulho e hipervalorização exacerbados pelo lugar de nascimento em detrimento dos outros, é antigo em Pernambuco. Mas a relação entre esse sentimento e a moda autoral, mais especificamente em Recife, ganha destaque a partir dos anos 1990, segundo a professora e pesquisadora de comportamento do consumidor Ana Paula de Miranda. Ela destaca a cena do Manguebeat com Chico Science como um momento de efervescência de usar a moda como expressão, assim como aconteceu em Seattle com o grunge. A pesquisadora ressalta que história da moda não é a sua área de especialização, e que não identifica, a partir de sua área, outro momento com a mesma característica. Além de ter sido um movimento marcante no âmbito da moda, designers pernambucanos, como Eduardo Ferreira, conquistaram visibilidade no Brasil e no mundo ao apresentar, com suas cores, tradições e símbolos, uma moda sobre a cultura do MangueBeat. Ferreira criou alguns figurinos para Chico, que obtiveram grande repercussão, chegando até o New York Times. Osvaldo Bruno, historiador e fundador da marca "Seu Maraca". Foto: Instagram (@seumaraca) A valorização local aparece também na maneira como algumas marcas escolhem construir suas coleções e estampas. É o caso da Seu Maraca, marca olindense criada pelo professor e historiador Osvaldo Bruno, conhecido como "Maraca" por ter tocado no Maracatu por 16 anos. Bruno nunca havia vendido nada até a pandemia e, internado na UTI por causa da falta de vacina para a covid-19, decidiu que, ao sair, voltaria a tocar no Maracatu e passaria a fabricar as próprias camisas. Foi nesse momento que ele entendeu que precisava mudar onde investir o seu tempo: “Eu voltei meio impactado. Ou eu mudo a minha forma de ver meu tempo e tudo, ou eu não aprendi nada” afirma Maraca. Osvaldo Bruno informa que o processo de pesquisa dura aproximadamente um ano. Por ser professor e historiador, a preocupação é ainda maior. Ele passa meses lendo, pesquisando, assistindo reportagens, prestando atenção ao que está acontecendo em sua volta, quais as demandas e o que os seus amigos estão observando. É um processo criativo orgânico: o historiador traz o exemplo de como surgiu a sua coleção do Manguebeat: “Ia fazer 30 anos do Manguebeat, e ninguém falou no carnaval, meio que fizeram um branco dos 30 anos. Eu disse, rapaz, então vai ser uma coleção contando a história do Manguebeat”. Camisa de botões da coleção "Manguebit". Foto: Instagram (@seumaraca/@rafaellcacau) Camisa "Latino Nordestino". Foto: Instagram (@marcopemodantcpe) A primeira coleção "Manguebit", da Seu Maraca, inspirada no Manguebeat, foi a que impulsionou a marca. Para Bruno, a relação com o movimento não está apenas na estética, mas na forma como ele passou a enxergar a cultura local. Ele relata que foi durante o movimento do Mangue que começou a tocar Maracatu e a valorizar mais as referências de Pernambuco. Hoje, afirma que o público da marca é majoritariamente formado por pessoas do próprio estado, e não por turistas. O fato de ser historiador é um diferencial que o próprio reconhece, o cuidado de como vai apresentar, o que vai falar, o ponto de vista que será usado para contar aquela história com respeito. As pessoas que vão se aproximando da marca e consumindo, relatam para Bruno: “Vocês não vendem estampa, vocês vendem história”. Fundador da Estilo Bregoso, Tarcísio Gomes. Foto: Instagram (@estilobregoso) Outra marca que também usa referências culturais para desenvolver uma moda bairrista é a Estilo Bregoso, criada em 2015 durante a faculdade de Design na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Campus Agreste (CAA) pelo empreendedor e designer Tarcísio Gomes. A marca nasce da junção do amor do fundador pelo brega e o seu espírito empreendedor. No início as estampas faziam referências a músicas de brega que estavam em alta e em bordões dos cantores. Tarcísio Gomes conta que tendo nascido no Alto do Pascoal, a sua proximidade com o brega começa ali também, e sucessivamente a ideia da marca. Ao afirmar que “na periferia, o brega reina. Até quem não gosta conhece as músicas, principalmente dos breguinhas raiz. Eu sou apaixonado pelo brega”. Cliente usando a estampa “– Temer + Troinha.” Foto: Instagram (@estilobregoso) A estampa mais importante da história da marca para Tarcísio, foi a “-Temer + Troinha” que fez tanto sucesso que o fez querer investir todo o tempo no projeto. Menciona também a equipe do Mc Elvis que demonstrou apoio a marca, enfatizando como foi importante o apoio que recebia dos artistas. 11 anos depois a marca ainda continua representando o brega na moda — como a estampa do artista Reginaldo Rossi — e expandindo para o sentimento de orgulho pernambucano, com referências ao hino, a bandeira e até mesmo a revolução de 1817. Perguntado sobre o que seria moda bairrista, o empreendedor e designer Tarcísio Gomes definiu como: “Vestir o que temos orgulho e valorizamos”, uma definição que dialoga diretamente com a moda autoral que produz. Seu sonho é que a marca se torne referência na valorização da cultura pernambucana em todo estado. Tendência e pertencimento não precisam estar em lados opostos, afirma a graduanda em Direito, Alícia Muniz: “Acredito que as duas coisas se misturam. O amor e o orgulho de ser pernambucano já são antigos e fazem parte de grande parte da população, mas ultimamente, principalmente com as redes sociais, isso tem ficado muito em alta”. Ela adquiriu uma camisa com a bandeira de Pernambuco estampada, relatando que no início do ano sentiu vontade de comprar a peça por achar bonita e depois de ter visto inúmeras pessoas usando no carnaval. Alícia Muniz usando a camisa de Pernambuco. Foto: Acervo pessoal Ao ser questionada se usaria a camisa bairrista se morasse fora do estado de Pernambuco, sendo pernambucana, Muniz afirma: “Com toda certeza. Não é incomum ver pernambucanos que moram em outras partes do Brasil ou até do mundo demonstrando seu amor à cultura de Pernambuco, acredito que o 'bairrismo' já é inerente ao pernambucano desde sempre, não importa onde esteja”. A afirmação exemplifica a análise da pesquisadora Ana Paula em relação à identidade cultural na moda, em que existem dois grupos: os que consomem por moda, apenas porque alguém disse que agora é moda usar tal tendência, e os que seguem o sistema cultural, os valores e a representatividade de identidade social; para eles a moda será atemporal. Enfatiza Ana Paula: “Então, não é sobre o movimento em si, mas sobre dois tipos diferentes de pessoas, que trabalham essa questão do consumo de moda, da adoção de moda”. Em 1946, ao analisar Sagarana, de Guimarães Rosa, o crítico literário Antonio Candido observou o movimento de valorização do regional na cultura brasileira e escreveu, em tom irônico, que “agora a moda é ser bairrista”. Na época, “moda” se referia à valorização do regional como tendência literária. Hoje, a mesma expressão aparece em outro contexto, o da moda literal.

  • Ecos e ruídos na tela em branco: formas de silêncio no processo de escrita

    Por Paula Donato Trabalho aprovado por: Nilton Barros e Marcelo Martins Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet O problema do bloqueio criativo é que não dá para fazer nada com ele. Nada desrespeita mais um escritor do que não conseguir escrever sobre algo. Os diálogos inesquecíveis ainda estão ali, junto das batalhas épicas, das mortes comoventes, dos tropos clássicos e do personagem esquecido antes mesmo dos créditos. Eu conheço a jornada e os acontecimentos, sei ordená-los e posso, inclusive, torná-los bonitos. Mas não quero escrever sobre eles, quero escrevê-los, embora nem sempre consiga. O pior conselho que um escritor pode receber é: “Escreva sobre o que você conhece”. Estou cansada do que conheço e, sobretudo, do que conhecem. Pouco me interessa saber de que maneira o herói terminou com a mocinha ou qual provação precisou atravessar antes de chegar até ela. Quero saber como o corpo dele reagiu a isso. Quero saber se um formigamento subiu pelos braços e ele precisou apertar os próprios pulsos para impedir os pequenos choques elétricos de alcançarem as mãos. Quero saber se o coração quase saiu pela boca ou se o pânico nasceu justamente de não conseguir senti-lo. Quero o enjoo, os arranhões involuntários, a fome que embrulha o estômago, a visão turva e a cabeça latejante. Quero páginas inteiras sobre os terrores noturnos e os hematomas indolores que surgem pela pele sem memória de impacto algum; quero acompanhá-lo observando as manchas escurecerem a cada dia e tentando recordar que tipo de violência o corpo sofreu sem que ele estivesse presente para percebê-la. Não apenas me diga que ele está angustiado, isso é tão óbvio! Angústia é uma palavra pequena demais. Captura de tela de cena escrita pela autora da coluna. Foto: Acervo pessoal Me conte da dor que ele sente quando arranca a pele ao redor das unhas até sangrar e só percebe quando o indicador começa a arder em contato com a água. Diga que passa a língua pelo interior da bochecha até encontrar a pequena ferida que abriu com os dentes e retorna a ela durante o dia inteiro, não porque dói, mas pelo porquê dói. Quero saber da inconsequência consciente de quando o herói não desvia da espada do vilão apenas para verificar se ainda é capaz de reagir a alguma coisa. Não me interessa o sangue jorrando pelo ombro, nem o terreno enegrecido pelos corpos sem vida ao redor dos dois. Me conte da apatia. A carne rasga, o sangue jorra e a pele arde, sim, eu sei de tudo isso. Mas a pupila dele dilata em reação a isso? Ele sente medo ou sente alívio? Ele sente? Existe um certo tipo de perversão em precisar viciantemente da dor como confirmação da própria existência, mas talvez haja uma perversão ainda maior em desejar escrever sobre um sentimento que não se consegue encontrar nem dentro do próprio “corpo”: corpo, corpo, e “corpo” do já visto, já lido, já projetado. É fácil escrever sobre o que você conhece quando se evita escrever sobre o que você sente. Existe desconfiança nas palavras que nomeiam emoções e sentidos da e na carne. Todas parecem atalhos oferecidos pela língua para sensações que, quando acontecem de verdade, recusam qualquer espécie de organização. Nenhuma sintaxe é capaz de organizar o vazio. Escreve-se “ele estava angustiado” e a frase permanece perfeitamente compreensível, embora não tenha dito quase nada. Não sei onde a angústia está. Se pulsa nas têmporas, se pesa sobre o peito, se endurece a mandíbula, se percorre a coluna ou se não faz absolutamente nada além de instalar no corpo a suspeita de que deveria haver alguma coisa acontecendo ali. Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet A palavra delimita justamente aquilo que o corpo experimenta sem rodeios e, ainda assim, só tenho a palavra. Talvez seja essa insuficiência que me faça continuar voltando à literatura mesmo quando não consigo escrever. Há sempre um espaço entre aquilo que foi sentido e aquilo que pôde ser dito; outro entre aquilo que foi dito e aquilo que alguém será capaz de compreender. Escrevo tentando atravessá-los, e chamo de precisão os raros momentos em que a distância parece diminuir. Como escrever sobre o indescritível? Como destrinchar o não-sentimento? Como escrever sobre o que conheço quando não sinto nada pelo que conheço e nem sequer consigo definir esse “NADA” como alguma espécie de sentimento? O problema do bloqueio criativo é a incapacidade momentânea de alcançar as histórias por dentro; continuar cercada por coisas sobre as quais se poderia escrever e não encontrar, em nenhuma delas, uma fissura por onde acessar. Como minha imaginação pode virar palavra se minha sensibilidade permanece desligada? Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet Por isso, também, a minha constante recusa quanto a recorrer a uma máquina para escrever por mim. Qualquer um pode me devolver uma frase mais-ou-menos bem construída, uma metáfora que faça mais-ou-menos sentido e um corpo inteiro reagindo mais-ou-menos ao que eu mandei ele reagir. O problema é que dessa maneira o medo não seca a boca e o luto não dobra os joelhos; existe linguagem sem experiência e palavras que conhecem a forma de um sentimento sem nunca tê-lo sentido. E, se meu bloqueio nasce justamente da distância entre aquilo que imagino e aquilo que almejo sentir, terceirizar essa distância seria apenas preenchê-la com mais “NADA”. Se na escrita busco linguagem para aquilo que ainda não sei nomear, não quero que outra coisa encontre essa linguagem antes de mim. A tela em branco, com seus ecos e ruídos, às vezes suporta a falta de uma técnica. Outras vezes, porém, materializa o bloqueio derivado da paralisia do escritor. Nem sempre é vazia de histórias; é, antes, a insuportabilidade ou insustentabilidade da angústia de não se poder nomear o indizível, mesmo que ele já seja conhecido carnalmente – camuflado por palavras que o escondem, o minimizam, o entorpecem, o mascaram e o enclausuram em imagens que borram seus significados mais profundos e viscerais. Escreva sobre o que sente para que quem sente saiba sobre o que escrever. SAIBA MAIS Em 2017, um ex-aluno do curso de Design do CAA, Filipe Artur Honorato Ferreira de Souza, apresentou um TCC em que discutia o “bloqueio criativo”: Reinventando o "Eu": proposta metodológica para agir sobre o bloqueio criativo. O cineasta David Lynch, diretor de Twin Peaks e Mulholland Drive, relacionava seu processo criativo à capacidade de “capturar” ideias. Em uma entrevista à Time Out, ao ser perguntado sobre o que fazia quando se sentia criativamente bloqueado, Lynch respondeu que buscava uma ideia e associou esse processo à prática da meditação transcendental. CURIOSIDADES A expressão "writer’s block" foi cunhada em 1947 pelo psicanalista austríaco Edmund Bergler, radicado nos Estados Unidos. Influenciado pela psicanálise freudiana, Bergler estudava escritores que, mesmo querendo produzir, passavam por períodos em que não conseguiam escrever. Embora artistas já relatassem dificuldades semelhantes muito antes disso, foi a partir da década de 1940 que o fenômeno ganhou um nome e começou a ser tratado como objeto de estudo psicológico. Em uma carta de 1920, enquanto assistia ao avanço da sua tuberculose, Franz Kafka desabafou com um amigo sobre a angústia de não conseguir escrever devido à sua paralisia literária – decorrente das preocupações em torno da doença. O escritor transformou o próprio sufocamento criativo na matéria-prima de mais uma obra-prima que produziu, fazendo da sua agonia a origem, a fonte e o fim de sua escrita. “Não escrevo nada há três anos, o que está sendo publicado agora são velharias, não tenho outro trabalho, nem mesmo um em andamento. Quando as preocupações penetram em uma determinada camada da existência, a escrita e a queixa cessam visivelmente; a minha resistência, aliás, não era muito grande.”

  • Antes, agora e depois: a nostalgia se camufla de novidade?

    Por Louise Farias Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet Nas últimas semanas, tenho assistido e lido conteúdos que me fizeram pensar sobre a nostalgia. Você sabia que a nostalgia já foi considerada uma doença grave? O conceito surgiu em 1688, quando o médico suíço Johannes Hofer estudou, em sua dissertação, soldados suíços que estavam em combate longe da sua terra natal. Nostalgia vem da junção de duas palavras gregas: nóstos (retorno para casa) + álgos (sofrimento). Sendo assim, a nostalgia seria uma saudade física e arrebatadora de casa, que provocava dor e melancolia. Com o tempo, a nostalgia deixou de ser vista como doença física e passou a ser vista como uma lembrança melancólica do passado que não volta mais. Sentir saudades do passado pode provocar diferentes sensações nas pessoas. Alguns afirmam não ter nostalgia de coisas, pessoas ou situações vividas, porque hoje tudo parece “melhor”; outros buscam memórias antigas e tentam, de certa forma, replicar no cotidiano o que já foi vivido. E ainda há aqueles que dizem ter “nascido na época errada”, pois sentem saudade de um período que nem viveram. É inegável que estamos imersos em um mar de novas tecnologias, informações e tendências, mas será que estamos vendo e vivendo novidades de fato? Ou será que as pessoas, consciente ou inconscientemente, estão buscando cada vez mais encontrar prazer, conforto e bem-estar num retorno ao analógico? Acredito que um dos maiores fundamentos da moda é seu caráter cíclico, como demonstra a literatura especializada. Por muito tempo, estudiosos afirmavam que as tendências levavam cerca de 20 anos para retornarem ao mercado. Tempo suficiente para que uma geração crescesse e sentisse saudade da época pretérita. No início de 2026, houve uma trend nas redes sociais do ano ser o "novo 2016". Por meio dela e para participar da tendência, diversas pessoas resgataram fotos pessoais antigas e entraram na onda nostálgica. A magia da nostalgia está nas sensações que ela provoca nas pessoas, estimulando lembranças, conforto e a segurança de tempos que, agora, talvez parecessem mais fáceis, mas não é mais assim. Foto: Reprodução/Internet. Com o avanço da tecnologia, o excesso de informações, a velocidade das redes sociais e a inteligência artificial, a lógica dos 20 anos foi sendo aos poucos derrubada. Hoje, não há mais uma precisão exata do que estará nas vitrines semana que vem, ou mesmo amanhã. Há um livro intitulado A Vingança dos Analógicos (Anfiteatro, 2016), do jornalista David Sax, no qual ele comenta sobre esse movimento de transformação digital. Sax afirma que os discos de vinil foram sendo substituídos pelo mp3 e por plataformas de streaming. No entanto, tempos depois, o público foi “redescobrindo” o vinil e conferindo valor a ele, não se tratando apenas de um surto nostálgico, mas de uma resposta a um profundo desejo por experiências sensoriais e que nos conectam ao real. Na moda, esse movimento se manifesta, em certa medida, a partir das tendências e do acelerado mercado contemporâneo. Não se trata mais de esperar 20 anos para reviver uma tendência, mas de revisitá-la constantemente. O mercado já percebeu esse desejo e, cada vez mais, se utiliza da economia da nostalgia para proporcionar experiências de conforto em um mundo caótico. As referências sempre existiram não só na indústria da moda, mas em todas as artes. Em 1937, a estilista Elsa Schiaparelli se inspirou nas obras do artista Salvador Dalí, seu contemporâneo, que incluía lagostas em suas obras. Já na década de 1960, o vestido tubinho colorido de Yves Saint Laurent teve influência na obra de Piet Mondrian, dos anos 1930. Essas referências surgem com frequência na moda, na música e no audiovisual. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet No cinema, filmes ganharam sequência lançada décadas depois do original, como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025), com uma história que se passa anos depois do original de 1997. Séries de streaming dedicaram episódios para fazer referências diretas a outras obras, como a série da Prime Video Elle (2026), que na primeira temporada faz uma homenagem ao filme Clube dos Cinco, dos anos 1985. O próprio Met Gala é um espaço para ver e compreender esse resgate de referências. Em 2026, o tema foi “Fashion is Art” (Moda é Arte), ampliando possibilidades de interpretação e busca por inspiração na pintura, escultura, cinema e outras fontes e linguagens. Quando eu era mais nova, gostava de fazer referências a filmes e artistas de que gostava. Minhas roupas de aniversário foram, por muito tempo, fantasias de personagens. Aos 12 anos fiz mechas vermelhas no cabelo graças à atriz Josie Pessôa na telenovela Império. Nós sempre fazemos referência a algo ou alguém — por admiração, identificação, sentimento de pertencimento ou para materializar um sentimento, revivendo-o. O que mudou, hoje, é a velocidade e intensidade com que essas referências são acumuladas. Se pegarmos o celular e pesquisar “anos 90” ou “anos 2000” no Pinterest ou TikTok, podemos perceber que a linha entre uma imagem original da época e algo produzido atualmente para parecer da época é muito tênue. Às vezes nem dá para diferenciar de imediato. Looks inspirados em Friends — sitcom que terminou há mais de 20 anos — continuam aparecendo como referência para a Geração Z. O corte de cabelo da Rachel, os looks do Chandler, ou o batom usado pela Mônica, ainda hoje rendem conteúdos nas redes sociais para serem replicados. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet A marca de maquiagem Quem Disse, Berenice? lançou no mês de junho, inclusive, uma linha inspirada na série, que traz itens com embalagens com cheiro que remete ao café Central Park e ícones dos personagens. A atriz que interpreta a Janice (Maggie Wheeler) veio ao Brasil para a campanha, deixando muitos fãs da série emocionados. Nostalgia pura! Quase fui rendida para essa linha. Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet Essa campanha mostra o quanto o apelo nostálgico vende. Ainda no mundo da maquiagem, diversas marcas resgataram o batom mágico verde, conhecido como “batom da vovó”, e lançaram produtos com proposta semelhante. O algoritmo e as marcas perceberam que a forma mais segura de rentabilizar e reduzir riscos é recorrendo ao passado que já é aceito, levando até o fast fashion a produzirem peças “vintage”. O que vemos é uma busca constante por identidade através do que já foi vivido — ou idealizado — por outras gerações. Por um lado, esse movimento homenageia e nos conecta a um passado que, de certa forma, nos moldou. Parte da Geração Z, por exemplo, que não viveu os anos 1990 ou 2000, tem buscado e encontrado nessas referências uma forma de pertencimento. Isso reflete na atual produção e busca massiva de conteúdos de “tendência Y2K”, “estilo Y2K”, que é, basicamente, o resgate do visual dos anos 2000, inspirado na cultura pop da época. Essa tendência de comportamento revela uma procura por identidade própria em um mundo que muda rápido demais. Por isso, a busca pelo analógico não é, necessariamente, pela nostalgia, mas pela necessidade humana de experiências que nos lembrem que somos pessoas feitas de carne, osso e memórias. Mas, também há um lado negativo nisso. Quando a indústria passa a utilizar o apelo ao passado como estratégia comercial segura, corremos o perigo de não fazer mais questão de criar algo novo e aceitar os riscos que isso traz. A nostalgia vira um atalho fácil. Mais uma hamburgueria com temática anos 1960. Um ovo de Páscoa comum que custa o dobro por trazer dentro dele um brinquedo clássico. Lojas que vendem roupas, calçados e acessórios “vintages” e possuem um alto custo. Compramos memórias. Compramos as partes boas de uma época – ou que são vendidas como tal. Experiências pautadas no passado trazem conforto e segurança em tempos de incertezas. Crises políticas, econômicas e climáticas. O futuro soa como algo muito instável. O passado, ainda que idealizado, esteticamente moldado, oferece um refúgio para nos sentirmos acolhidos. Afinal, estamos mesmo vendo novidades ou apenas revisitando o passado? Talvez a moda esteja deixando um pouco de lado a essência da inovação, e buscando mais a ressignificação. A nostalgia está para a moda como aquela camisa desbotada e confortável está para nós no final de um dia exaustivo. SAIBA MAIS Assista a este vídeo da Mina Lee no YouTube para entender melhor a indústria da nostalgia: Does originality still exist anymore?. Nele, ela desenvolve uma análise crítica sobre como o medo do novo tem alimentado o ciclo infinito de remakes e resgates culturais. Assista ao filme Clube dos Cinco (1985) e a série Elle (2026) para entender as referências diretas. Preste atenção nos figurinos e na construção dos arquétipos dos personagens: a patricinha, o atleta, o rebelde. A série resgata a memória coletiva de uma das cenas mais clássicas do cinema. CURIOSIDADES Os brechós e a moda circular passam por um crescimento exponencial desde 2025. De acordo com o ThredUp Report, em 2025 o mercado de moda de segunda mão cresceu cerca de 18% e possui estimativa de crescimento de US$367 bilhões até 2030. Isso reflete que o consumo consciente, a sustentabilidade e o slow fashion tornaram-se valores importantes para consumidores, o que também explica o boom de peças artesanais em 2026. A estampa poá, tendência em 2026, surgiu no século XIX na Europa. Era conhecida como “polka dot” por causa da famosa dança da época. A palavra “poá” vem da abreviação do termo em francês “petit-pois”, que significa “ervilha pequena”. Seu auge foi nos anos 1950, mas em 2026 voltou com tudo.

  • “Na mesa da minha alma, sentam-se muitas”: Mariana Carvalho e a arte de ser

    Por Pedro Gomes Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Mariana Carvalho. Foto: Acervo pessoal Aos 28 anos, a caruaruense Mariana Carvalho, conhecida artisticamente como Marisflora, transita entre a arte, a psicologia, a massoterapia, a maternidade e diferentes formas de cuidado, sem aceitar que precise escolher apenas uma maneira de existir. Culturalmente, há na sociedade específicos artistas que se especializam em determinados ramos: cinema, música, dança ou escrita. Todavia, na contramão das especificidades, Mariana Carvalho parece preferir os cruzamentos. Nascida no Agreste pernambucano, Marisflora reúne experiências que, à primeira vista, poderiam parecer distantes: é atriz, dançarina, escritora, psicóloga, massoterapeuta, doula, educadora e mãe. Na prática, porém, Mariana não enxerga essas atividades como compartimentos isolados. Para ela, existe um fio que atravessa todas essas experiências: o cuidado. “O que eu vejo mais em comum entre essas Marianas, é o cuidado”, afirma. É a partir dessa perspectiva que sua trajetória começa a fazer sentido. O corpo, a escuta, a maternidade e a criação aparecem como diferentes portas de entrada para uma mesma investigação: compreender o ser humano e encontrar maneiras de transformar aquilo que é vivido em experiências compartilhadas. Entre o corpo e aquilo que não se vê O interesse de Mariana pelo corpo surgiu antes mesmo da escolha profissional. Ao estudar massoterapia, ela conta que passou a enxergar o corpo para além daquilo que está imediatamente visível. “Quando comecei a estudar sobre massoterapia e comecei a enxergar o corpo por dentro, não apenas a casca que vemos aqui fora, descobri um universo gigantesco que se conecta com a psiquê.” A percepção de que corpo e mente não poderiam ser compreendidos separadamente também atravessou sua formação em Psicologia. Durante a trajetória estudantil, Mariana começou a observar como tensões físicas, inquietações mentais, fugas e até processos de automedicação poderiam aparecer inscritos no corpo. Não se tratava, segundo ela, de uma escolha profissional planejada desde cedo. Antes da academia, havia uma inquietação anterior: a curiosidade pela própria existência humana. “Só fui seguindo o faro dos meus sentidos”, resume. Esse “faro” parece ser uma das palavras-chave de sua trajetória. Em vez de considerar suas formações como interferências umas nas outras, Mariana prefere compreendê-las como campos que se atravessam. “Jamais acreditarei que essas formações e atuação profissional contaminam uma à outra. [...] esses estudos estão muito entrelaçados, cada um na sua área de pesquisa sobre nosso corpo-memória.” A maternidade como movimento Se o corpo já era território de investigação, a maternidade o ampliou. Mãe há oito anos, Mariana não descreve a experiência a partir de uma narrativa idealizada. Para ela, ser mãe significou movimento, adaptação e também renúncias. Houve trabalhos e estudos que precisaram ser recusados para que outras necessidades fossem atendidas. “Eu TIVE que me movimentar ainda mais, eu me senti instigada a me mover”, conta. A maternidade também modificou sua percepção sobre as relações. Mariana diz que a gestação foi como a abertura de um “portal com uma realidade paralela”, a partir do qual seus sentidos ficaram mais atentos aos perigos e às possibilidades da vida. Ser mãe de um menino também a levou a refletir sobre masculinidade e patriarcado a partir de uma perspectiva íntima: a de quem precisa educar uma criança enquanto revisita as próprias construções pessoais. Na arte, essa experiência encontra outro caminho. Mariana entende que a criação também pode ser uma forma de apresentar ao filho outras maneiras de perceber o mundo. “A arte será sempre algo que me incentiva a mostrar a ele como forma de poetizar nossa existência, apesar de tudo.” Ela faz questão, entretanto, de reconhecer que essa trajetória não seria possível sem uma rede de apoio. A maternidade, para Mariana, não é uma experiência individual isolada, mas também uma construção coletiva. Escutar antes de criar Mariana Carvalho. Foto: Acervo pessoal Há uma relação direta entre escuta, corpo e criação no trabalho de Marisflora. Ela recorre à escritora estadunidense Clarissa Pinkola Estés para explicar sua percepção de que corpo e alma estão profundamente entrelaçados. Mais do que uma ideia abstrata, essa relação aparece concretamente em suas experiências artísticas. Mariana já realizou monólogos em intervenções urbanas construídos a partir de histórias de mulheres. As experiências foram compartilhadas com autorização e preservação das pessoas envolvidas e, segundo ela, só puderam ganhar aquela forma graças à escuta desenvolvida em sua trajetória na Psicologia. “A escuta ativa com a Psicologia” possibilitou acessar essas histórias; as pesquisas com terapias ajudaram a corporificá-las; e a arte transformou tudo isso em performance. É justamente nesse ponto que suas diferentes experiências deixam de parecer profissões independentes e passam a funcionar como ferramentas de uma mesma investigação. Quando o caos também organiza Conciliar tantos papéis, entretanto, está longe de significar uma rotina perfeitamente organizada. Mariana reconhece que existem períodos em que trabalha de domingo a domingo. Em outros, consegue reduzir as demandas e se afastar um pouco das redes sociais para dedicar tempo à família. Atualmente, sua rotina profissional também é construída em diálogo com os cuidados do filho e com a disponibilidade da rede de apoio. Mas há uma ressalva importante: ser multifacetada não significa ser permanentemente organizada. “Há períodos de sobrecarga e muita pressão interna e externa”, admite. Sua maneira de lidar com isso passa por um diálogo interno desenvolvido desde a infância. E talvez nenhuma frase traduza melhor sua relação com a própria rotina do que esta: “Em alguns momentos consigo manter a ordem mesmo perante o caos. Às vezes deixo o caos criar a ordem.” A frase poderia servir também como síntese de sua trajetória. O incômodo de caber em uma única definição A multiplicidade, contudo, tem um preço: a cobrança para escolher. Mariana conta que ainda escuta questionamentos sobre por que não se dedica exclusivamente à Psicologia, especialmente depois de tantos anos de estudo. “Por que você não dá preferência apenas à Psicologia? Você passou tanto tempo estudando, tem que dar retorno.” A resposta vem acompanhada de humor: “Não consigo estar em vários lugares ao mesmo tempo. Infelizmente esse dom do clone das sombras ainda não desenvolvi — quem assistiu Naruto vai entender.” Por trás da brincadeira existe uma questão mais profunda. Mariana reconhece que sustentar suas escolhas ainda provoca conflitos internos e externos, mas afirma estar vencendo, aos poucos, o medo de corresponder ao padrão esperado. O que a mantém nesse caminho é justamente a possibilidade de experimentar diferentes formas de encontro. Ela fala com entusiasmo sobre acompanhar nascimentos como doula, proporcionar bem-estar por meio das terapias, contar histórias através da dança, do teatro e do canto, trabalhar com grupos de mulheres, facilitar dinâmicas com adolescentes e jovens, fortalecer a cultura hip-hop pela arte-educação e participar de palestras, cursos e oficinas. “Eu até posso abrir mão de tudo isso, focar em uma coisa só e seguir o percurso da vida, mas sinto que se fizer, partes de mim serão assassinadas.” A multiplicidade, portanto, não aparece apenas como característica profissional. Para Mariana, ela também é uma forma de preservação de si. Antes de Marisflora, havia uma menina inventando histórias Muito antes das formações acadêmicas e das experiências profissionais, havia uma criança inventando mundos. Mariana lembra das brincadeiras com as amigas, quando criavam bandas imaginárias e distribuíam entre si funções de dançarinas, cantoras, compositoras e apresentadoras. Criavam coreografias, enredos e personagens. Outra lembrança permanece especialmente viva: o quadro “Lendas Urbanas”, do programa do Gugu, e a história da Bloody Mary. O impacto foi imediato. Mariana pegou um caderno escolar e escreveu um roteiro de ficção inspirado na história. “Se eles conseguiram gravar essa história para contar pra gente, eu consigo gravar um filme sobre isso.” O filme nunca saiu do papel. Mas a ideia permaneceu. E ela mesma brinca com a própria memória: “Será que aqui já estava com sinais da Mari multifacetas e só agora tô me dando conta?!”. Talvez estivesse. Criar a partir da ferida (e também da esperança) Hoje, quando pensa em sua produção artística, Mariana não consegue apontar uma única provocação. Ela fala em reflexão, imaginário, resiliência, resistência política, afeto e possibilidade de enxergar outros horizontes. Seu interesse está na transformação de experiências históricas, sociais e pessoais em algo capaz de produzir sentido e coragem. Mas existe uma particularidade em seu processo criativo: a dor e a raiva ocupam um lugar importante. Mariana conta que já se comparou com artistas que diziam criar principalmente pelo prazer e pela alegria. Depois de refletir sobre seu próprio processo, percebeu que suas criações mais marcantes frequentemente nascem de lugares menos confortáveis. “Eu construo muito mais através da dor e da raiva.” Isso não significa, porém, abandonar a esperança. Sua arte pode ser crua e provocar choque, mas também pode assumir uma dimensão poética. “Às vezes gosto de ser crua, causar choque de realidade. Às vezes gosto de ser poética e espalhar o esperançar no público.” Talvez seja justamente nessa tensão que sua produção encontre força: entre confronto e acolhimento, incômodo e afeto, realidade e imaginação. E quem é Mariana quando ninguém pergunta o que ela faz? Se todas as profissões fossem retiradas da pergunta, quem restaria? Mariana responde começando pela origem: filha de Maria Beatriz de Andrade e Messias Oliveira de Carvalho, de uma mãe pernambucana com descendência indígena e de um pai piauiense negro. Depois, deixa de lado os títulos e fala de desejos. É alguém que busca ser cada vez mais “desejosa pela vida”, curiosa diante do desconhecido, simultaneamente corajosa e medrosa. Alguém que sonha em viajar pelo mundo e fazer tudo, mas que também imagina abandonar temporariamente tudo para viver em um “cafofo”, cercada pelo filho, plantas e bichos, e sem boletos. É alguém que demonstra afeto pela presença e pelos atos de serviço. Que gosta de luz amarela, ambientes aconchegantes, música, dança, canto, comida que nutre o corpo e a alma, SPA caseiro e de receber pessoas em casa. A definição mais precisa, entretanto, não veio dela mesma. Veio de uma cliente, numa frase que Mariana guarda como uma espécie de espelho: “Na mesa da minha alma sentam-se muitas e eu sou todas elas.”

  • A nova etiqueta dos brechós

    Por Laura Lima Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins De alguns anos para cá, comprar peças de segunda mão deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a representar um estilo de vida. Entre os discursos sobre sustentabilidade e consumo consciente, os brechós conquistaram um espaço que antes parecia reservado às grandes marcas, ganhando vitrines bem produzidas, perfis no Instagram, clientes fiéis e novas comunidades de consumidores interessados na moda circular. E isso, por si só, é uma ótima notícia, principalmente quando significa substituir parte das compras de roupas novas pela circulação de peças que já existem. Quanto mais pessoas escolhem reutilizar roupas, menor tende a ser o lucro de uma indústria conhecida pelo desperdício de recursos naturais e mão de obra desvalorizada. No cenário atual dominado pelo fast fashion (modelo de produção acelerada de roupas de baixo custo), prolongar a vida útil de uma peça é um gesto ambientalmente importante. Além disso, os brechós democratizaram o acesso a roupas de boa qualidade, permitiram que pequenos empreendedores encontrassem uma fonte de renda e transformaram o garimpo em uma experiência quase afetiva. Encontrar uma peça única de fato tem um certo encanto, mas talvez seja justamente aí que more uma mistura de valores. Foto: Reprodução/Internet O encanto do garimpo dá lugar, em muitos casos, ao fascínio por exclusividade: A roupa usada deixou de valer apenas pela sua história ou pela sua durabilidade e passou a valer também pela narrativa construída ao seu redor ou contexto impulsionada pelas redes sociais. Uma camiseta comum vira "achado vintage", uma calça jeans dos anos 1990 torna-se "oportunidade raríssima" e peças de marca viram símbolo de status e sorte. Aos poucos, a sensação é de que nem toda peça está sendo vendida pelo que é, mas por seus simbolismos e pelo imaginário que conseguem despertar. Os brechós existem há muito mais tempo do que a estética vintage das redes sociais faz parecer. No século XIX, a venda de roupas usadas atendia principalmente às populações que não podiam comprar peças novas, e depois das grandes guerras, reutilizar roupas era uma necessidade econômica. Décadas mais tarde, movimentos culturais como o hippie da década de 1960 e o grunge nos anos 1990 passaram a enxergar nesses espaços uma forma de romper com a lógica do consumo em massa, valorizando identidade acima da superficialidade. “Loja Belchior”. Da figura de Belchior, comerciante de objetos usados, teria surgido o termo “brechó” no Brasil do século XIX. Foto: Joy Alano Hoje muitos brechós ocupam o lugar oposto daquele de onde partiram, e o que nasceu como alternativa ao mercado acabou sendo absorvido por ele. Apesar da curadoria de moda continuar sendo um trabalho que exige tempo e investimento na seleção, restauração e processo de divulgação de cada peça, o problema aparece quando a palavra "curadoria" parece justificar qualquer valor alto na etiqueta de preço e passa a representar capital cultural para lojas e influencers, aonde quem tem ou sabe reconhecer uma peça “exclusiva” passa a demonstrar conhecimento, repertório e pertencimento a determinado universo da moda. Nesse momento, a discussão deixa de ser sobre sustentabilidade e passa a ser sobre valor simbólico. Isso ajuda a entender por que os brechós vêm se tornando cada vez mais desejados. As roupas que usamos também comunicam quem somos, de onde viemos e a quais grupos queremos pertencer. Comprar uma peça de segunda mão para muitos já não significa apenas economizar ou evitar desperdícios, mas sim demonstrar bom gosto e consciência ambiental em forma de performance na internet. Além disso, o medo de perder uma oportunidade tornou-se muito presente em comunidades de garimpo, e onde há valorização excessiva, também surgem problemas. O aumento da procura abriu espaço para vendedores responsáveis e apaixonados por moda, mas também para oportunistas. Cresceram os relatos de golpes em lojas on-line, peças falsificadas anunciadas como originais, descrições enganosas e perfis que desaparecem depois do pagamento. Um modelo de vendas construído ao longo dos anos sobre confiança, hoje em dia carece de mecanismos de proteção para quem compra e para quem vende corretamente. Matéria jornalística sobre golpe por brechó, 26/01/2025. Foto: Reprodução/Internet Talvez o maior desafio dos brechós atualmente seja equilibrar essas duas realidades: de um lado, representam uma das alternativas mais inteligentes para reduzir desperdícios e incentivar a economia circular. Do outro, começam a transformar sustentabilidade em símbolo de status e a ideia de que consumir, mesmo de forma consciente, ainda precisa ser um marcador de distinção. Dessa forma é necessário aproveitar da visibilidade que a tendência trás para o negócio sem prejudicar o consumidor. Mas essa reflexão não diminui a importância dos brechós, apenas nos convida a olhar para eles com menos romantização e mais atenção aos aspectos do consumo não-saudável. No fim, a essência dos brechós nunca esteve somente em vender roupas raras, mas sim em provar que uma roupa não precisa ser nova para ter valor. Preservar essa ideia talvez seja o verdadeiro desafio de um mercado que cresce rapidamente e que ainda precisa decidir se quer ser uma alternativa à indústria degradante da moda atual ou um modelo de curadoria com vitrines glamourizadas. SAIBA MAIS A prática de consumir produtos para além da sua utilidade mas também exibir valor simbólico e/ou status também é chamada de Consumo Conspícuo, conceito idealizado pelo sociólogo Thorstein Veblen. Enquanto o fast fashion aposta na produção rápida e na renovação constante das tendências, o mercado de segunda mão trabalha com peças que já existem, embora a revenda também possa estimular novos ciclos de consumo. CURIOSIDADES “Vintage” não significa simplesmente “velho” ou “usado”. O termo costuma ser empregado para peças de décadas anteriores que possuem relevância estética, histórica ou simbólica. A origem da palavra “brechó” é associada a Belchior, nome pelo qual ficou conhecido um comerciante que teria mantido, no Rio de Janeiro, uma loja de objetos usados e quinquilharias no século XIX. Na época a palavra já ganhava espaço na literatura brasileira como em textos de Machado de Assis.

  • Entrevista com Marie Salles: há 30 anos vestindo personagens que marcaram a televisão brasileira

    Por Claudison Morais Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Marie Salles. Foto: Instagram (@mariesalles) Você pode não conhecer o rosto de Marie Salles, mas com certeza conhece o trabalho dela, afinal ele já impactou a estética e o consumo de milhões de brasileiros. Há mais de três décadas trabalhando na projeção, produção e seleção de trajes para o audiovisual, e há cerca de vinte anos como figurinista titular, ela é responsável pela construção visual de vários personagens muito marcantes da dramaturgia brasileira. De Carminha, em Avenida Brasil (2012), à nova versão de Odete Roitman, em Vale Tudo (2025), seus figurinos ajudam a contar histórias, revelar personalidades e construir universos que permanecem na memória do público muito depois do último capítulo. Formada em Indumentária pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marie iniciou sua trajetória no cinema. Ao chegar à TV Globo, ainda como estagiária, passou aproximadamente dez anos como assistente de profissionais como Emília Duncan, Beth Filipecki e Yurika Yamasaki, três dos principais nomes do figurino no audiovisual brasileiro. Em 2006, estreou como figurinista titular e, desde então, assinou novelas como Pé na Jaca (2006), Cordel Encantado (2011), Avenida Brasil (2012), Pantanal (2022), Renascer (2024) e a nova versão de Vale Tudo (2025). Em entrevista concedida ao colunista de moda e repórter Claudison Morais, da Revista Spia, Marie falou sobre sua trajetória, explicou como nasce o figurino de uma novela, revelou curiosidades sobre os bastidores das produções e contou como a pesquisa de campo é fundamental para criar uma segunda pele convincente para os personagens. “Amo ser figurinista!” ...diz Marie ao ser questionada sobre o que ela sente em relação à sua profissão. Após isso, ela nos conta que seu amor vai muito além das roupas, pois o que a motiva é participar da construção completa dos personagens. “Quando recebo qualquer projeto, seja uma série, um filme ou uma novela, primeiro recebo o material da obra. Nas séries e nos filmes, recebemos todos os episódios ou o roteiro completo. Já nas novelas, recebemos uma sinopse que conta a história até, mais ou menos, o capítulo 100, além de um briefing dos personagens. Com esse material, conseguimos entender quem são esses personagens. Depois converso com o autor, para entender melhor a intenção da narrativa e a proposta dos personagens e também com o diretor. O diretor explica o gênero da obra, se é uma comédia, um romance, uma história realista ou uma fábula, e fala sobre a época e o contexto em que ela acontece. A partir disso, vou para casa, começo a pesquisar e desenvolver esses personagens junto com a minha equipe.” Uma novela nunca está totalmente pronta. Ao contrário do cinema, ela é uma obra aberta e pode mudar conforme a resposta do público. Isso faz com que nem sempre toda a equipe conheça os rumos da história desde o início. Marie lembra de um episódio de A Favorita (2008) que ilustra bem essa dinâmica: “Eu só descobri que a Flora era a verdadeira vilã quando começaram as gravações das cenas da revelação. O diretor ficou com medo de que, se eu soubesse antes, pudesse colocar alguma pista no figurino, mesmo de forma inconsciente. Então isso depende muito de cada produção.” Já em Vale Tudo (2025), a situação foi diferente. Como uma reviravolta importante exigia um planejamento muito específico do figurino, Marie precisou conhecer o desfecho antecipadamente: “Apesar de ser um remake, eu sabia que nesta versão, ela [Odete Roitman] continuaria viva, porque precisei fazer uma roupa dupla. Como isso fazia parte da produção do figurino, eu precisava saber. Mas eram pouquíssimas pessoas que tinham essa informação. Acho que apenas quatro pessoas sabiam.” Marie afirma que quando assiste a produções das quais não participa, não consegue nunca “desligar” o olhar profissional, pois acaba pensado sobre as escolhas feitas, as relações delas com a história, com o corpo da pessoa que atua, o contexto etc. Assim como para mim e para você – e para ela também –, sempre há um personagem que nos encanta profundamente: pela atuação, pelo figurino, pelos modos de ser, pelas paixões que sente e transmite de modo verossímil, dentre outros tantos motivos. Para nossa grande figurinista, entre todos os trabalhos e produções que realizou, Carminha (Avenida Brasil, 2012), conquistou um lugar de destaque no seu coração, estando no topo de suas preferências e a preenchendo de grande satisfação: “Para mim, a Carminha ocupa um lugar muito especial. Ela foi uma personagem que parou o Brasil. As pessoas se vestiam de branco, faziam festas temáticas, usavam fantasias de Carnaval inspiradas nela. Muita gente queria ter a bolsa da Carminha, que era uma bolsa que eu tinha comprado em um outlet em Miami. Quando o figurino ultrapassa a novela e passa a fazer parte da vida das pessoas, isso é muito marcante, e foi isso que aconteceu com a Carminha.” Para quem acompanha novelas apenas pela televisão, é comum imaginar que o trabalho do figurinista se resume a escolher as roupas que os personagens irão vestir. Marie, no entanto, explica que essa é apenas uma pequena parte de uma função que envolve muita pesquisa, cuidado na gestão e rigor no planejamento. “Acho que as pessoas não conhecem o tamanho do trabalho que existe por trás das nossas atividades. Muita gente imagina que a minha vida é um glamour, que eu passo o dia andando pelo shopping escolhendo roupa, mas não é assim. Além da criação, eu gerencio uma equipe grande, que varia de acordo com o tamanho da produção. Também trabalho com orçamento, planejamento e organização. Em uma novela, principalmente, a criação é muito intensa. Estamos falando de mais de cinquenta personagens, todos com personalidades, gostos e histórias diferentes. Eu amo meu trabalho, mas ele envolve muito mais do que simplesmente escolher uma roupa.” Grande parte da carreira de Marie foi construída em novelas de época, como Boogie Oogie (2014), Joia Rara (2013) e Cordel Encantado (2011). Para ela, a fidelidade histórica não significa reproduzir exatamente o que existia no período retratado, mas sim compreender o contexto dele para construir personagens visualmente consistentes. De acordo com sua perspectiva altamente didática sobre todo o processo, entende e aceita a necessidade de algum arranjo ter que ser realizado em função da narrativa, do corpo que veste o figurino, do material da peça etc.: “Sempre fazemos uma adaptação”, até porque a pesquisa costuma ir além do período retratado pela obra. “Quando trabalho com uma determinada época, amplio a pesquisa. Se a novela se passa nos anos 1920, por exemplo, pesquiso um período maior, indo alguns anos antes e alguns anos depois. Isso me permite ter mais referências para a composição dos personagens, que pode variar de décadas mais antigas e outras que estão à frente do tempo. Essa variação enriquece a construção visual da novela e ajuda a diferenciar os personagens.” Esse cuidado, que podemos entender como uma das grandes marcas de estilo de Marie, também aparece na representação das classes sociais de seus personagens. Em produções como Cordel Encantado (2011) e Novo Mundo (2017), reis, aristocratas, trabalhadores e personagens populares têm identidades visuais bastante distintas. “Isso vem da pesquisa e da observação. A gente olha para o mundo em que vivemos e entende como cada grupo se veste. As pessoas da classe mais alta têm determinados hábitos, enquanto as classes mais baixas têm outros. É essa pesquisa, feita tanto historicamente quanto no nosso dia a dia, que ajuda a construir essas diferenças.” Questionada sobre as diferenças entre Carminha, de Avenida Brasil (2012), uma rica emergente, e Odete Roitman, de Vale Tudo (2025), uma rica “de berço”, a resposta foi direta: “Tudo parte da personalidade. Cada personagem pede uma construção diferente.” Marie também explica que nem sempre o figurino entrega ao público as intenções do personagem logo no primeiro olhar. “Nem sempre queremos mostrar tudo de uma vez. O figurino acompanha a personalidade do personagem e também o momento da narrativa. Muitas vezes ele ajuda a construir uma imagem que a história quer apresentar naquele momento. O figurino acompanha essa construção. Ele não entrega tudo de imediato.” Quando a novela retrata um lugar específico do Brasil, Marie procura conhecer esse universo antes mesmo do início das gravações. A pesquisa de campo, segundo ela, é uma etapa indispensável para construir personagens convincentes. “Eu faço a visita de locação logo no início. Fico alguns dias no lugar, tirando fotos, observando as pessoas e conhecendo aquele ambiente. Essa pesquisa é muito importante para o desenvolvimento do figurino.” Foi esse processo que a ajudou bastante na construção estética de, por exemplo, Pantanal (2022). Tecidos, couro, outras texturas, estampas, acessórios, marcas de uso da época, locais e formas de vestir foram observados diretamente na região. Desse modo, o figurino transmitiu autenticidade daquele universo em particular e credibilidade com relação às pessoas que o vestiam. “As pessoas se vestem de maneira diferente no Pantanal, no Pará, nas cidades do Nordeste… Cada lugar tem características próprias. Quando vou até lá, observo tudo isso para que o figurino realmente pertença àquele ambiente.” Mais do que evitar erros de caracterização, essa vivência evita que a representação da cultura popular se transforme em mera caricatura. “É justamente por isso que faço essa pesquisa. Eu tiro muitas fotos, observo as pessoas, passo alguns dias no lugar. A referência vem da vida real. É dessa forma que consigo construir personagens que pertencem àquele ambiente. É por isso que a pesquisa de campo faz toda a diferença. É ela que dá verdade ao figurino.” Falar sobre figurino com Marie Salles é perceber que, para ela, os detalhes nunca são apenas detalhes. Uma curiosidade de bastidores: enquanto a entrevista acontecia, algumas pausas eram inevitáveis – uma ligação, um recado da família, um compromisso rápido. Ainda assim, ela sempre voltava ao assunto com o mesmo entusiasmo, retomando exatamente de onde havia parado e fazendo questão de responder a cada pergunta com riqueza de pormenores. Ao detalhar mais suas pesquisas de campo, suas imersões, ela contou que uma das maiores lições que aprendeu ao longo da carreira foi observar aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. No Pantanal, por exemplo, não bastava reproduzir uma roupa bonita ou encontrar uma peça parecida. Foi preciso entender como o calor intenso, o suor, o sol e a poeira modificam as cores, o tecido e a aparência das roupas ao longo do tempo. O figurino precisa carregar as marcas de quem vive naquele lugar. “A roupa vai sendo recolorida pela vida”, resumiu ela, poeticamente. Esse olhar atento se repete em cada pesquisa. Antes de compor o figurino de qualquer personagem, Marie percorre ruas, observa pessoas, registra fotografias, conversa com moradores locais e tenta compreender os hábitos de cada região. Para ela, o figurino só funciona quando deixa de parecer um figurino e passa a ser parte da vida do personagem. Diante de tudo o que foi dito, Marie Salles mostra que o figurino vai muito além da estética. Cada personagem nasce de um processo que reúne pesquisa histórica, observação do cotidiano, visitas de campo e os “sentidos” atentos para a narrativa. Em uma profissão que costuma permanecer nos bastidores, seu trabalho revela que roupas também contam histórias, ajudam a construir identidades e se tornam parte da memória afetiva do público. Depois de mais de três décadas dedicadas à construção de figurinos, a carioca segue dando forma a personagens que marcaram e continuam marcando a dramaturgia brasileira. A Revista SPIA agradece ao Prof.° Fausto a intermediação do contato que possibilitou esta entrevista tão informativa e bonita. No fim do semestre, a Marie baterá um papo com as turmas de "Tópicos Especiais em Audiovisual" (Comunicação Social) e "Moda e Cinema" (Design), da UFPE-CAA.

  • Violência, trauma e masculinidade em "Os Olhos de Fernando", de Johany Medeiros

    Por Nilton Barros Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Ela nutre uma paixão avassaladora por ele, daquelas que suam as mãos só de estar na presença do seu amado. Avistar aqueles olhos verdes é como se sentir em plena primavera, a sua estação favorita. Ela está ali por uma razão: declarar o seu amor. Nessa hora, o coração bate incerto, a boca treme ao falar, ela gagueja, se sente tola. De repente, os olhos dele mudam para um tom âmbar, como mel aquecido ao sol. Ele, ao perceber a tentativa dela a toma em seus braços e a puxa para um beijo intenso, cheio de vontade, surpreendendo-a com a sua reciprocidade. A intensidade desse romance primaveril vai longe: os dois começam a namorar, vão ao cinema juntos, dedicam músicas um para o outro, planejam o futuro; pensam até em se casar. Eles trocam votos no dia do casamento, têm dois filhos, formam uma linda família e são testemunhas de uma narrativa feliz, como deve ser. Mas nem sempre é. Capa do livro "Os Olhos de Fernando". Foto: Reprodução/Internet Sinto muito, caro leitor, mas este resumo não faz parte do livro que compõe esta crítica. Tampouco lhe tiro a razão de querer viver um amor idealizado, desses que você encontra em filmes de comédia romântica ou nos romances de época que você lê. Entretanto, como crítico, não pretendo trazer reflexões acerca de mais uma história que evoca um amor puro, singelo e convencional. Pelo contrário, irei tratar de um amor que não te beija ao mudar o tom dos olhos, mas que te devora, te machuca, corrompe o seu ser e te faz duvidar de si mesmo. Com um único olhar, ele é capaz de mudar a sua vida em questão de segundos, de maneira trágica. Estou me referindo a’Os Olhos de Fernando (Arrelique, 2025), obra de Johany Medeiros. Johany Medeiros no lançamento do seu primeiro livro. Foto: Reprodução/Internet Johany é conterrânea da minha cidade, Caruaru, Pernambuco, e além de escritora, é produtora cultural, cineasta, pesquisadora, comunicóloga e apaixonada por livros. Já fomos colegas de turma na disciplina de “Direção de Fotografia Documental", ministrada por Adelina Pontual, diretora de cinema, no curso de Comunicação Social da UFPE, Centro Acadêmico do Agreste. Em um intervalo específico dessa aula, no qual sentamos no banco do pátio de nosso bloco e começamos a trocar ideias, pude conhecer Johany como escritora. Foi nesse momento que descobri que ela começou a escrever contos e poesias com apenas 16 anos, bem como começou a publicá-los na internet. E agora tive a oportunidade de contemplar o seu primeiro romance, que aborda um tema tão delicado e visceral. “Alguma coisa está diferente. Não apenas uma desconformidade, mas um pequeno conjunto delas. A primeira que percebe é que o verde claro e intenso perderam espaço para um verde musgo amarronzado, meio sem brilho.” Os Olhos de Fernando (p. 11) A protagonista sobre a qual o narrador comenta tem nome e se chama Juliana, uma ex-advogada que se encontra sozinha no apartamento em que mora, angustiada pela morte de seu marido, Fernando. Em meio a pensamentos inquietantes, Juliana enfrenta um pós-morte tenebroso, cujo sentimento principal é o medo de ainda estar sendo observada por ele, como se fosse uma figura onipresente acompanhando cada passo seu. Mais tarde, com o auxílio de uma psicóloga, Juliana começa a entender que os olhos de Fernando, os quais acreditava ser o seu refúgio, representam a alegoria de um longo relacionamento abusivo e violento que a fez se tornar o que toda mulher teme ser um dia: um corpo esquecido na própria história. Sob o ponto de vista narrativo, acompanhamos, em 3ª pessoa, um enredo não-linear que alterna entre um passado traumático e abusivo, e um presente que busca levar a protagonista a uma melhor compreensão dos fatos. O narrador nos mostra a história a partir das percepções, sensações e memórias de Juliana, as quais remetem à violência física, sexual e psicológica vividas por ela em seu relacionamento. Essa alternância temporal se classifica não apenas como um recurso de suspense, mas também como uma estratégia usada para evidenciar o modo pelo qual a memória desses abusos surgem em pequenos fragmentos e gatilhos. Com relação ao espaço, a prosa possui poucas ambientações externas, oscilando entre ambientes domésticos (apartamento) e coletivos (consultório de psicologia). Isso tende a causar um efeito claustrofóbico ao leitor, contudo, é mais um recurso narrativo usado para enfatizar o enclausuramento psíquico — e também físico — de Juliana em um recinto de muito controle e tensão, no qual ela mesma não consegue sair e nem chamar o lugar de casa, embora tenha vivido nela por bastante tempo; ao passo que as sessões de terapia funcionam, aos poucos, como zonas de respiro e tentativas de recomeços. A redução da presença de personagens secundários, por sua vez, inicialmente reforça o distanciamento da protagonista com pessoas próximas (amigos e sua mãe, por exemplo), intensificando o seu isolamento, em decorrência da depressão que a cerca e que a toma. Elementos como bebida alcóolica e remédios são evidenciados em pequenos trechos narrados, a fim de retratar o estado mental instável da protagonista. É nesse momento que vemos a singularidade nas características da personagem feminina de Johany: uma mulher com traumas até então desconhecidos, com uma identidade inteiramente colapsada, que necessita de ajuda profissional, mas se demonstra relutante em expressar o seu sofrimento à psicóloga disposta a ajudá-la. Na terapia, a instabilidade de Juliana é expressada de modo mais empírico, em meio ao humor irritadiço, falas proferidas na defensiva, gritos e risos que funcionam como uma válvula de escape para equilibrar a dor que a desola. Os diálogos mostram uma paciente distante e anestesiada, que só começa a se desvencilhar de seus estados amordaçantes à medida que a relação terapêutica se estabiliza e ela consegue decifrar os seus tormentos. Com isso, a personagem não só começa a compreender a gênese da sua angústia e de todas as suas cicatrizes, como também inicia uma reaproximação com seus entes queridos, sinalizando uma mudança em suas relações e o processo subjetivo de sua reconstrução. Movimento Red Pill. Foto: Google Imagens. Em contrapartida, Fernando, que não é mostrado em presença material e sim memorial, não se configura somente como o vilão da prosa, mas também em um retrato fiel da masculinidade hegemônica, que transforma o controle e a possessividade do homem como uma forma diferente de amor, e isso faz da obra de Johany um meio de pensar sobre as múltiplas maneiras de violência dentro das relações amorosas, bem como nas consequências desastrosas que esses atos violentos podem deixar nas mulheres que se tornam vítimas. Podemos, ainda, comparar as atitudes de Fernando, aos do movimento masculinista de nome Red Pill, desenvolvido na internet nos anos 2000, o qual defende o discurso de que homens deveriam recuperar uma posição de autoridade nas relações, ou que as mulheres seriam naturalmente manipuladoras, interesseiras ou infiéis, sendo impossível, para eles, se relacionarem com elas. Esses ideais implicam em uma série de prejuízos ao público feminino, colocando a mulher em papéis sociais inferiores ou submissos e os homens em suprema autoridade, além de normalizar qualquer tipo de violência, seja ela psicológica, sexual, moral, patrimonial, física ou verbal. No aspecto linguístico, a autora adota uma linguagem direta e sensível para descrever, de modo elucidativo, a realização dessas violências, em suas inúmeras camadas por vezes escondidas de realização. O objetivo do livro não é, em hipótese alguma, estetizar ou romantizar a brutalidade do ato ou o sofrimento, mas sim tornar visíveis os meios de como o abuso sexual, psicológico ou físico ocorrem nos relacionamentos, assim como os seus efeitos; ajudando o leitor a reconhecer certos padrões semelhantes em experiências reais e pessoais. Uma observação importante de se destacar é que, uma vez que a narrativa não dispõe de muitas ambientações, a trama acaba não situando o leitor sobre a localidade da história. No entanto, o uso de expressões populares nordestinas como “oxe”, “bocado de coisa” e “lonjura”, entre outras, determina o cenário onde o enredo se passa, que pode ser no estado de Pernambuco em qualquer outro estado nordestino. É nesse momento que a linguagem também atua como um meio de expressão do indivíduo personagem, bem como ajuda a construir as suas características identitárias. O que nos faz compreender a espacialidade da história é justamente um programa de TV, quando a personagem principal assiste ao programa ABTV segunda edição, um programa da TV Asa Branca gerado diretamente na sede de Caruaru. Com isso, ao incluir um telejornal caruaruense no dia a dia de Juliana, a autora busca não somente criar uma conexão direta e cúmplice com o público local do contexto de produção da obra, que identifica prontamente o elemento cultural, mas também dá a entender que a narrativa se passa em Caruaru. “— Juliana, algumas violências deixam marcas que a gente não consegue ver, nem enxergar como uma violência. Mas o medo existe, e continua ali.” Olhos de Fernando (p. 95) Enquanto um leitor homem, essa frase me fez refletir sobre os desdobramentos da masculinidade, sobretudo hegemônica, e o quão significativa é a sua relação com a violência. Logo, considero impossível estudar gênero sem ao menos compreender como se dão as dinâmicas masculinas na sociedade, as quais tendem a ser bastante complexas quando se tratam da questão “o que é ser homem?”. Por isso, Raewyn Connell, em seu livro Masculinities (Polity Press, 1995), responde a essa pergunta partindo do princípio de que ser homem não está, unicamente, relacionado com o quesito biológico ou individual, mas também trata de relações de poder, bem como de uma construção social baseada em expectativas criadas previamente para ditar comportamentos tidos como “masculinos”. Raewyn Connell. Foto: Reprodução/Internet Ou seja, a masculinidade hegemônica se configura como o modelo ideal de um homem: hétero, dominante, forte, corajoso, autoritário e emocionalmente controlado. Connell destaca que esse tipo de masculinidade não é a mais comum, mas faz parte de uma noção mais valorizada de “ser homem”. É dessa forma que o homem, cujo gênero faz parte do grupo esmagadoramente dominante, detém e usa os meios de violência perante o grupo dominado, que, nesse caso, são as mulheres. A cientista social salienta que existem dois padrões pelos quais essa violência ocorre. Inicialmente, o grupo privilegiado usa da violência para manter seu domínio; e isso pode acontecer por meio de intimidação contra as mulheres, seja por assobios na rua, assédio sexual, estupro, agressão e até mesmo assassinatos, conhecidos como “feminicídio”. Muitos homens cometem tais atrocidades contra o público feminino e dificilmente retiram sua culpa: eles sentem que exercem um direito, o que é ainda mais preocupante – tanto quanto o fato de os homens assumirem também como pressuposto que a mulher está sempre errada e, por isso, vasculham submundos da crueldade para encontrar algum motivo para culpá-la e, numa sequência lógica, puni-la por eles mesmos. Em segunda instância, a violência também pode decorrer de uma política de gênero entre os homens, ou seja, eles usam do terror como uma forma de reivindicar ou reafirmar a masculinidade. Igor Cabral, agressor de Juliana Garcia. Foto: Reprodução/Internet A exemplo de algumas violências, temos o caso de Igor Cabral, que desferiu 61 socos contra a sua namorada, Juliana Garcia, dentro do elevador de um condomínio em Natal, no Rio Grande do Norte, em julho de 2025. Juliana sofreu graves fraturas no rosto e o ocorrido foi investigado como tentativa de feminicídio. Outra violência registrada no Brasil diz respeito à agente comunitária de saúde Amanda Loureiro da Silva Mendes, morta a tiros pelo ex-companheiro, Wagner Araújo, em fevereiro deste ano, ao chegar para trabalhar em uma clínica da sua família, no Rio de Janeiro. De acordo com a polícia, os dois estavam separados havia quatro meses, entretanto, Wagner não aceitava o término do relacionamento e a perseguia, mesmo com uma medida protetiva contra ele. Wagner Araújo, assassino de Amanda Loureiro. Juliana, nossa protagonista do livro em questão, é uma sobrevivente atormentada pelas sombras de seu passado, aqui intitulado de Fernando. Ela é um exemplo ficcional que funciona como reflexo de como a violência contra as mulheres é estrutural: trata-se de um conjunto de padrões masculinos dentro de uma cultura opressora que naturaliza esse tipo de atitude. Cabe aqui, então, um chamado para nós, homens, refletirmos sobre essas violências e mudarmos padrões comportamentais; bem como às mulheres, uma vez que elas constituem o principal grupo atingido por esse fenômeno. É importante enfatizar que a violência de gênero pode acontecer com qualquer uma e várias demoram para sair desse ciclo, se submetendo, muitas vezes, a humilhações, controle, isolamentos e entre outras situações. O enredo não é leve e Johany, sabendo disso, dedica uma nota para alertar os seus leitores sobre possíveis gatilhos que a história pode lhes causar. Isso porque, durante a leitura, vamos lidar com temáticas associadas à violência psicológica, relacionamento abusivo, estupro, ansiedade, depressão e menção ao suicídio. Ou seja, se sua vida é marcada por algumas dessas questões, recomendo que, pelo bem da sua saúde mental, tenha cautela. Por outro lado, embora trate de um tema doloroso, é uma obra que merece ser lida e apreciada. Ela contribui para que, não só nesse Agosto Lilás, mas em todos que vierem daqui em diante, o leitor, seja homem ou mulher — mas principalmente o homem — saiba como a violência contra a mulher pode ser reproduzida e/ou legitimada no nosso cotidiano, mesmo com as leis vigentes em nosso país. É um livro altamente recomendado para quem deseja entrar em contato com as relações de gênero, que são marcadas pelo poder nos relacionamentos e pela responsabilidade social. CURIOSIDADES O Agosto Lilás é uma campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. O mês foi escolhido porque marca o aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. A ação busca alertar a sociedade sobre a importância de prevenir e combater o abuso de gênero. Raewyn Connell é socióloga, educadora e cientista social australiana. Ela é mundialmente famosa por criar o conceito de “masculinidade hegemônica” e por ajudar a fundar o campo dos estudos sobre os gêneros e as masculinidades. “Feminicídio” é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, ou seja, motivado pelo gênero, misoginia ou pelo contexto de violência doméstica e familiar. É a forma mais extrema de violência machista e estrutural contra a mulher. Ligue 180: Para denúncias de violência, orientações sobre direitos das mulheres, localização de redes de apoio ou relatos que não sejam de risco imediato. Ligue 190: o número de telefone de emergência da Polícia Militar no Brasil, usado para acionar socorro imediato em casos de crimes em andamento ou perigo iminente. SAIBA MAIS https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/04/mulher-baleada-em-quintino.ghtml https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/tipos-de-violencia.html https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-08/61-socos-caso-no-rn-retrata-escalada-da-violencia-contra-mulheres https://forumseguranca.org.br/publicacoes/atlas-da-violencia/ https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/mapadaviolencia

  • 7º FestCine Itaúna leva cinema, arte e cultura para comunidades rurais de Caruaru

    Festival Internacional de Cinema de Itaúna realiza edição gratuita entre 10 e 16 de agosto, com 140 filmes, ações formativas, apresentações artísticas e protagonismo de crianças e adolescentes da zona rural Por Venusto Neto Entre os dias 10 e 16 de agosto, a zona rural de Caruaru se transforma em uma grande sala de cinema. É nesse período que acontece a 7ª edição do FestCine Itaúna – Festival Internacional de Cinema de Itaúna, levando gratuitamente produções brasileiras e internacionais para comunidades do campo, escolas públicas e espaços comunitários do município. Ao todo, serão 140 filmes exibidos, selecionados entre mais de mil obras inscritas do Brasil e do exterior. Mais do que uma mostra cinematográfica, o festival aposta em uma programação que aproxima o audiovisual de outras linguagens artísticas e das próprias comunidades, reunindo cinema, música, formação, sustentabilidade, acessibilidade e ações de fortalecimento comunitário. O FestCine Itaúna transforma espaços das comunidades em locais de encontro, celebração e exibição cinematográfica. Cinema onde o cinema nem sempre chega Com caráter itinerante, o festival percorre diferentes localidades da zona rural de Caruaru, passando por Vila Itaúna, Riacho Doce, Vila Murici, Vila do Juá, Sítio Carneirinho, Vila Rafael, Dois Riachos, Craibeiras, Carapotós e Cachoeira Seca. A iniciativa também chega a escolas estaduais, em parceria com a Secretaria Executiva de Políticas sobre Drogas (SEPOD) do Governo de Pernambuco e a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome de Caruaru. As ações contam ainda com o apoio do Cineclube Cuca Livre. A proposta faz do território parte fundamental da experiência. Em vez de concentrar as atividades em um único espaço, o FestCine leva as produções diretamente para onde vivem e estudam os moradores das comunidades. O público das comunidades participa ativamente das atividades do festival, que tem entre seus objetivos ampliar o acesso ao cinema. Um festival feito para e com a comunidade Um dos grandes diferenciais desta edição é o Júri Jovem, formado integralmente por crianças e adolescentes da própria zona rural de Caruaru. O grupo participa da avaliação das obras e da escolha dos filmes vencedores, colocando jovens do território no centro das decisões do festival. As produções premiadas recebem o Troféu Cururu de Ouro, uma peça exclusiva moldada em barro pelo mestre artesão Horácio Rodrigues, do Alto do Moura. Os vencedores também concorrem ao Prêmio do Júri da ACCiRN – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte – e a um total de R$ 36 mil em locação de equipamentos audiovisuais, oferecidos pela NAYMOVIE – Infraestrutura Audiovisual. “O festival nasceu no coração da zona rural e está se ampliando para cada vez mais localidades. É uma forma de descentralizar o cinema, democratizar o acesso e fazer com que comunidades que nunca tiveram contato com essa produção cultural possam não apenas assistir, mas também produzir e trocar experiências com realizadores de diferentes lugares.” — Túlio Beat, produtor executivo do FestCine Itaúna Uma celebração do cinema pernambucano Nesta edição, o FestCine Itaúna também inaugura uma nova tradição: a homenagem a nomes fundamentais do cinema brasileiro. O primeiro homenageado é o cineasta e produtor caruaruense Leo Tabosa, conhecido por sua atuação na produção audiovisual pernambucana e idealizador do Cine Jardim, em Belo Jardim, e da Mostra Curta Vazantes, no Ceará. Tabosa também dirigiu filmes como Gravidade (2015), Nova Iorque (2018), Marie (2019) e Cavalo Marinho (2024). O audiovisual pernambucano também ganha destaque com a homenagem ao cineasta e produtor caruaruense Leo Tabosa. Muito além da tela A programação do festival não se limita às sessões de cinema. Durante a semana, o público também poderá participar de oficinas de produção audiovisual, produção cultural e plantio de sementes crioulas, além do Fórum Agrestino de Cinema, realizado em conjunto com o Núcleo Audiovisual de Caruaru (NAC). A proposta reforça o caráter multicultural do evento e amplia o cinema como ferramenta de formação, encontro e transformação social. Com crianças, jovens, educadores, artistas e moradores, o festival constrói uma experiência coletiva de acesso à cultura. Encerramento com homenagem e premiação O encerramento acontece no domingo, 16 de agosto, em Riacho Doce, a partir das 18h. Além da exibição de filmes, a noite contará com a homenagem a Leo Tabosa e a cerimônia de premiação do festival. Em Carapotós, comunidade quilombola, também haverá uma sessão especial no mesmo dia, a partir das 19h. Idealizado pelo cineasta Paulo Conceição e com produção executiva de Túlio Beat, o FestCine Itaúna reúne uma equipe formada por Camila Haydee, Óscar Araújo, Bruno Adrian, Leo Hick, Daniel Ferreira, Lucas Carvalho, Deusdete Maria e Candido Rafael. O festival é realizado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Fundação de Cultura de Caruaru e da Prefeitura de Caruaru. SERVIÇO 7º FestCine Itaúna – Festival Internacional de Cinema de Itaúna Quando? 10 a 16 de agosto Onde? Comunidades rurais e escolas públicas estaduais de Caruaru/PE Quanto? Entrada gratuita Para mais informações acesse: @festcineitauna

  • O frágil ceticismo de "A Cabeça do Santo"

    Por M.E. Rodrigues Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Capa do livro editada por M.E. Rodrigues. Foto: Acervo pessoal Nas primeiras páginas de A Cabeça do Santo (Cia. das Letras, 2014), Socorro Acioli nos apresenta um dia de sol latente no Sertão do Ceará, que arde, que queima e castiga. Ofegante, suado e contrariado, Samuel, protagonista da história, surge neste cenário andando pelas estradas da região. Regido por um último pedido de sua mãe, em seu leito de morte, sai em busca da avó e do pai que nunca conheceu. Samuel não tinha nada além de suas roupas, a falta de fé e fome, muita fome. Não sabia ao certo há quanto tempo caminhava por aquelas vias, em busca de uma cidade que já estava começando a duvidar que existia. Sem dinheiro para pegar uma lotação e sem carisma para pedir uma carona, lá estava ele, com o sol quente sobre sua cabeça, delirando de fome, e aí que começa o brilhantismo de Socorro Acioli neste livro. É comum que personagens descrentes em seres superiores ou em episódios sobrenaturais, passem por aprovações e dúvidas para que, no fim, acabem saindo mais crentes do que no começo da história. Ilustração feita por Gustave Doré de Dom Quixote e Sancho Pança. Foto: Reprodução/Internet Na bíblia, em fábulas e romances de formação, essa trajetória já foi bastante utilizada. Aqui, a autora não vai muito distante dessas narrativas, mas é a forma com que ela faz que muda tudo. Se utilizando de uma bem escrita narração em terceira pessoa — que segue até o final do livro — Acioli expande o delírio de Samuel e o coloca de frente a estranhas criaturas e cavaleiros, nos fazendo lembrar e o comparar com um certo paladino do século XVII, conhecido por Dom Quixote. O protagonista os observa, os escuta e reflete sobre seus alertas. É notório que aquelas figuras não apareceriam se o calor e a fome não estivessem o sugando tanto, mas a maneira como elas são inseridas faz com que nós, juntamente com o Samuel, duvidemos se esses seres não são figuras enviadas por um Ser maior, uma entidade, o alertando do que possa vir acontecer. Então, neste momento, temos o primeiro teste, uma quase crença. Mas aí, o protagonista acorda em sobressalto. Os cavaleiros não estão mais lá. E tudo aquilo era o que, racionalmente, é: um delírio. Samuel é um homem que quase acredita. Cresceu com uma mãe fervorosa e otimista, que não acreditava apenas em Deus, mas nas pessoas. Na bondade do mundo. Já Samuel acreditava nela, tinha fé em sua mãe e quando ela se foi, o mesmo não sabia onde depositar suas esperanças. “As esperanças nunca foram suas, eram de Marinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito.” (p. 13) E com esse ceticismo enraizado, Samuel chegou na cidade de sua avó, Candeia. Após ser expulso de uma bodega por pedir um pedaço de pão, o narrador nos apresenta o porquê de Samuel ser tão descrente com o mundo. O personagem não precisa discursar sobre suas amarguras, mas os personagens em torno, tratando da forma como o tratam, mostram isso. É desesperançoso. Nessa situação, vai se formando no leitor uma esperança de que, no momento em que Samuel encontrar sua avó, ela vai se mostrar diferente das pessoas que foram a porta de entrada de Candeia. Não sei se pela palavra “avó” trazer uma conotação de cuidado e afeto já bem consolidada no senso comum, ou pela mãe de Samuel tê-lo dito — e ele ter “dito” para nós — que sua avó era uma mulher justa e gentil, mas há essa expectativa, essa construção de crença, quebrada rapidamente nas páginas seguintes. Essa brincadeira de crença, mas não-crença. Mas, veja: essa expectativa é quebrada para nós, não para Samuel. Cético. Ele, enxotado também pela avó, não demonstra surpresa. Raiva, sim; pela fome, por sentir que não deveria ter ido lá e que estava certo, no fim. Acioli parece dar mais pano para esse olhar mais acinzentado para vida, conduzindo o personagem para lugares que justificam sua visão de mundo. Após isso, toda cidade parece inóspita. A autora, que se utiliza de muitas prosas para então descrever os espaços e ambientes da cidade, só nos dá mais detalhes do que Candeia é na introdução de personagens mais próximos ao protagonista. Até lá, nós só conhecemos a bodega, a frente da casa da avó de Samuel e claro, a cabeça de Santo Antônio. Cabeça da estátua de Santo Antônio, no bairro Conjunto Habitacional, no município de Caridade, Ceará. Foto: Reprodução/Internet Samuel precisava de um abrigo. Como sua avó não abriu as portas da casa para ele e não deu nenhum paradeiro de seu pai, ele se viu perdido em uma cidade que não conhecia, mas que já não gostava. Queria ir embora, quase foi. Mas, por não conseguir, foi buscar abrigo em um local incomum: a cabeça da estátua de Santo Antônio, que, anos atrás e misteriosamente, se soltou do corpo e desceu morro abaixo. Como ele chegou na cabeça é uma sequência de cenas rápidas — estilo de escrita adotado por Acioli em diversos trechos — que envolvem chuva e cachorros raivosos. Quando Samuel é mordido por um, a dor o cega e faz com que ele se esconda nos escombros. O protagonista se vê em um eterno estado de má sorte, a falta de crença vira pessimismo e com o ferimento e a fome, para Samuel, sua sobrevivência seria um milagre. E o milagre acontece. No dia seguinte, quando ele acorda após uma noita mal dormida, nosso protagonista já fica agoniado com a quantidade de vozes pairando sobre sua cabeça. Não são vozes inaudíveis. Há, desde o começo, uma clara definição delas. São vozes de mulheres, falando de suas lamúrias e desejos para o Santo Casamenteiro, o dono da cabeça em que Samuel dormiu. “Já perto do fim da tarde adormeceu novamente, e só despertou às cinco horas em ponto, com as mesmas vozes de mulheres atormentando o que restava de seu juízo.” (p. 34) Ilustração de Santo Antônio. Foto: Reprodução/Internet É nesse momento que Socorro Acioli nos traz, mais uma vez, a ironia do destino. Imaginem uma pessoa que não acredita nos milagres dos Santos, de que há situações que acontecem sem explicação — mas acontecem —, e que, de repente, essa pessoa recebe o dom — ou a maldição — de escutar as súplicas de pessoas que acreditam não só no Santo, mas em seus milagres. Com o tempo, nos é explicado como essas vozes chegam até Samuel e nós ficamos responsáveis por interpretar se é, ou não, algum tipo de misticismo. A meu ver, não é a prova ou a falta dela que faz o livro girar e ser interessante, mas essas pequenas provas que alcançam um protagonista tão distante delas em corpo e espírito. O livro ganha outra direção quando o protagonista acorda com esses dons. É a partir dele que Samuel tem contato com outras pessoas de Candeia e, consequentemente, com outros espaços da cidade. Nesse momento, outros personagens são introduzidos na história. Um deles é Francisco, um moço que nunca saiu de Candeia e desde cedo sofre com a inércia, com a mesmice, com a falta de movimentação na cidade e o mau-humor generalizado de seus moradores. Aproveito este ensejo para pontuar a maneira como Candeia vai se revelado um local muito parecido com o nosso protagonista. Nesta história, Acioli constrói figurativa e tematicamente um quadro, uma tela de espelhamento de protagonista e espaço. Ambos são descritos como amargurados, de semblante fechado e nada receptivos. Os dois tiveram decepções, seja com pessoas reais ou entidades, tão marcantes, que a maneira como seguiram na vida se voltou para uma falta de crença a quaisquer fatores externos de círculo íntimo. Acho perspicaz como as mudanças que surgem após Samuel começar a escutar as vozes, afetam tanto nosso protagonista quanto o local onde se passa quase toda a história. Com o passar da trama, Francisco se torna amigo de Samuel e o ajuda a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. E antes parada no tempo, Candeia vai voltando à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder de Samuel. Assim o livro segue mostrando mais um milagre, feito pelo personagem mais cético de todo livro. Com o dom de Samuel, a cidade volta a ter fé. E, em meio a esse tumulto, o protagonista vive o seu próprio milagre, o maior teste de sua falta de fé. Mas essa parte da história, recomendo que seja lida na íntegra no restante do livro. Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Internet Como precisamos finalizar, em A Cabeça do Santo é construída uma narrativa original, mesclando realismo mágico e crítica social com uma prosa fluida e cheia de imagens vívidas. Acioli tem um talento nítido para criar personagens memoráveis, especialmente as figuras secundárias, que dão densidade ao enredo. A obra aborda temas importantes, como tradição, solidão e redenção. Assim, Socorro Acioli nos mostra, no decorrer do livro, que estamos sempre a um passo de ter, ou não, fé. Sendo necessária muita coragem para acreditar em algo. E eu, que comecei o livro com pouquíssimas crenças, terminei acreditando um pouco mais em tudo. Ficha técnica Título: A Cabeça do Santo Autora: Socorro Acioli Gênero: Romance/Ficção Contemporânea (com elementos de realismo mágico) Editora: Companhia das Letras Ano de Publicação (primeira edição): 2014 Sinopse: A obra narra a história de Samuel, um jovem que, após ser a morte de sua mãe, percorre o interior do Ceará com o objetivo de realizar seu último desejo. Lá, ele se abriga dentro da cabeça oca de uma estátua de Santo Antônio e descobre que consegue ouvir as orações das mulheres da cidade — incluindo segredos e desejos íntimos. A trama mistura humor, crítica social e elementos de realismo mágico, explorando temas como religiosidade, solidão e identidade. SAIBA MAIS Livros que trabalham com realismo mágico e todos deveriam ler: A Casa dos Espíritos (1982, Isabel Allende) Pedro Páramo (1955, Juan Rulfo) Cem Anos de Solidão (1982, Gabriel García Márquez) CURIOSIDADES A “cabeça do santo” realmente existe. Em uma cidade do interior do Ceará, a estátua de Santo Antôntio ficou sem cabeça por anos, devido a problemas em sua construção. A história de Samuel foi pensada por Socorro Acioli em uma oficina ministrada por Gabriel García Marquez, autor mundialmente conhecido por ser influenciar grande parte do gênero Realismo Mágico.

  • O amor vivo em versos: entrevista com Ana Júlia Pereira Carneiro, autora de Luiza.

    Por Fausto Paranhos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Autora em foto para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Não sei se você já ouviu alguém falar que “quanto menor o muro, mais segura é a casa”, mas neste conceito, à primeira vista paradoxal, que sustento minha leitura de Luiza (2023, Editora Novos Ases), publicação inaugural da escritora e poetisa pernambucana, da cidade de Palmares, Ana Júlia Pereira Carneiro. O livro é uma coletânea de suas confissões e pensamentos íntimos, registrados em versos que traduzem seus sentimentos em relação a quem empresta o nome ao livro, sua falecida irmã. Por meio de desabafos, apelos e fantasias, vemos em Luiza a sinceridade crua que as emoções causam na vivência cotidiana e como a autora lida com suas culpas e confortos ao viver o luto. É assim, despida de suas armaduras, e expondo o seu lado mais vulnerável que Ana Júlia encontra sua força e a expressa em seus versos que sintetizam, em poesia, o amor — nas suas mais diversas formas. Com a palavra, Ana Júlia Me chamo Ana Júlia Pereira Carneiro, tenho 21 anos, sou de Palmares, considerada a “Terra dos Poetas”. Sou estudante de psicologia e tenho uma loja online de cookies (@sunsetcookies__). Me encontrei no mundo da literatura, como escritora, em abril de 2023. Mês de aniversário da minha Luiza. [FAUSTO]: Sua primeira publicação já é envolta em forças e vulnerabilidades, como você entendeu e concebeu a ideia de partilhar sentimentos tão íntimos quanto os relatados em Luiza? [ANA JÚLIA]: “Quando eu vi, virou livro”, disse isso uma vez e repito até hoje. Eu nunca escrevi pensando que um dia isso aconteceria. Escrevia porque precisava disso para sobreviver à tudo, era algo muito natural quando eu era mais nova, antes mesmo de tomar consciência de que eu escrevia como uma forma de existência. Antes do livro, quando sentia a necessidade de compartilhar algum verso que tinha escrito — fosse em algum diário ou no bloco de notas do celular — eu apenas publicava o texto nos stories, por exemplo; as respostas à essas publicações me fizeram perceber que talvez as pessoas quisessem ouvir o que eu tinha de falar. Como normalmente funciona seu processo de escrita? E como foi em Luiza? Minha escrita sempre surge naturalmente, de uma forma que não consigo conter; ela só vem e toma conta. Sempre foi assim! Primeiro eu sentia, vivia e, quando me dava conta, estava dizendo e escrevendo sobre o “indizível”. Lembro de uma palestra da Ana Suy, ela diz que a escrita é como um espirro: ele só vem, e a gente não consegue contê-lo. Quais desafios você enfrentou para a publicação, em especial num gênero como o poema? A literatura já tem resistido muito diante de todas as dificuldades, mas a poesia é como uma flor sobrevivendo no meio do deserto. Sinto falta de uma propagação da literatura de modo geral, com lugares acessíveis a todos para o incentivo à leitura. Faz alguns anos que implantaram uma feira literária em minha cidade, antes disso não tinha nada. Mesmo com a feira, os preços dos livros são muito altos, sendo a maioria dos compradores, professores e outros funcionários públicos que recebem o voucher de incentivo. No fim, o acesso ainda é pouco democrático. Mas, para a publicação, passei na chamada de uma editora, onde eles custeavam metade da produção, o resto do valor foi pago por mim, com ajuda de familiares e amigos. Com o tempo descobri que poderia ter produzido tudo de modo independente, ou contado com auxílios públicos à produção cultural, como a Lei Paulo Gustavo, entre outros editais. Autora em evento para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Falar das consequências do luto é sempre um tópico sensível, em especial quando vivenciando isso de modo tão precoce. Qual foi a parte mais difícil ao tratar de um momento tão delicado de sua vida? Acredito que escrever permite que a gente reviva alguns momentos e reflita sobre sentimentos que estavam adormecidos. Vivo em um processo de análise para a elaboração do meu luto e acho que minha escrita foi uma consequência disso. Uma das coisas que percebi durante todo o processo do livro, foi o receio das pessoas em falar sobre a morte. O receio e o silêncio da minha família — e de todos os conhecidos e desconhecidos — sobre a dor [desses processos], dói muito mais do que falar sobre ela. Passei a escrever para lidar com a ausência da vida da minha irmã. Em todo o livro você comenta sobre sua decisão de transmitir a vida de sua irmã por meio da sua. Você considera Luiza como uma materialização desse sentimento? Sim, com certeza! É meio louco saber que, hoje em dia, se eu falar o nome “Luiza”, as pessoas sabem sobre quem estou falando. Eu sempre disse que o livro não é apenas sobre ela e a sua morte, mas como se eu contasse a Luiza tudo que vivi depois que ela partiu. Como você interpreta esse relacionamento do público com o seu texto? Qual o sentimento envolto ao ver essa relação sendo construída? É uma surpresa. Eu acho muito curioso quando um leitor dá sentidos a um texto, que eu ainda não tinha atribuído ou pensado sobre. É, de fato, ele tomar o texto para si e fazer o que quiser dele. Algo que me marcou na leitura do seu livro é o modo como não somos apresentados aos relatos e seus personagens. Isso acrescenta ao intimismo, que o próprio teor da obra aponta, de uma maneira que nos conecta com seus sentimentos, como se fôssemos parte de sua consciência. Esse artifício de conexão foi proposital durante seu processo de escrita? Essa é a primeira vez que penso sob essa ótica! Não foi algo planejado, naturalmente aconteceu. Algo que sempre fiz foi manter uma certa “distância” dos personagens, tanto para preservar quem eram — já que a maioria deles são inspirados em pessoas com quem convivo, mesmo que com traços da fantasia — quanto para que fosse algo em que o leitor pudesse identificar a sua própria história e se enxergar nas minhas palavras. Em um dos textos do livro, você descreve um cenário cotidiano em que você tem uma filha, até revelar que se trata de uma fantasia de uma vida futura. Mesmo a conhecendo e sabendo que nada daquilo era possível, estava tão convencido e conectado àquela estória que até duvidei de minha memória [risos]. Qual foi a sua intenção, como poetisa, ao escrevê-lo? Existem textos que são inteiramente reais, outros são histórias de amigos e alguns são fantasias pessoais. Uma vez me escreveram uma resposta à esse texto, contando como se vissem de fora o desenrolar dessa cena. Logo no lançamento, eu costumava dizer que o livro era uma conversa que eu iniciava com o leitor, e receber essas respostas era a prova desse diálogo. Retomando o tópico conexão, a partir de um certo ponto do texto o pertencimento passa a ser um tópico central, você fala de sua cidade, de suas relações — a quem você chama de “minhas pessoas” — e daquilo que lhe foi habitual durante toda a vida, justamente em um momento narrativo sobre amadurecimento. Você diria que o momento narrativo se relaciona com esse sentimento de falta e quebra de hábitos? Sim! Acho que amadurecer e “sentir falta” caminham juntos em dado momento da vida. Sentir falta de casa foi o que me fez enxergar o que realmente importava para mim, as coisas das quais não posso abrir mão de ter perto, por me fazer ser quem sou. Falar sobre minha família, minha cidade e minhas pessoas, de certa forma, é falar sobre quem me tornei. O amadurecimento que cito no livro nasceu das ausências e das mudanças. Pertencimento, para mim, é carregar aquilo que nos formou, mesmo quando tudo ao redor muda. Ainda sobre conexão, e acrescento pertencimento, você é de Palmares, cidade do interior de Pernambuco que recebe a condecoração de “Terra dos Poetas” — título que, inclusive, aparece em um momento mais descontraído do livro. Qual sua relação como escritora, poetisa, artista das letras, à realidade interiorana, em especial no contexto de Palmares? Palmares é a minha casa, a cidade onde meu coração mora. Estão aqui as minhas pessoas, que me ensinaram o que é amor e como amar, me fizeram ser quem sou. A Terra dos Poetas é onde mora o coração da poeta. O livro foi publicado em 2023, quando você tinha 18 anos, e é interessante reparar nas referências que nos lembram que aquelas palavras advêm de uma adolescente. Hoje, sob uma ótica mais adulta, como você enxerga essa relação da poesia com a sua vivência de juventude? Eu precisava da poesia para sobreviver à adolescência e hoje preciso dela para sobreviver à vida adulta. Provavelmente continuarei precisando dela pelo resto da vida. A vida mudou e o repertório, por consequência, também. Não é como deixar a juventude para trás, mas assumir a vida adulta e entender que o que escuto e o conteúdo que consumo hoje é somado a tudo isso. Você diria que houve mudanças na sua escrita desde então? Com certeza! Acho que todo escritor com quem conversei me relatou sobre o amadurecimento da escrita. Acho que é possível sentir esse processo dentro de Luiza. Os textos iniciais são diferentes dos textos do meio, que são diferentes dos que estão no final dele; alguns são de quando eu tinha 13 anos, outros foram escritos quando o livro já estava em processo de produção. Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods) Para finalizar, onde podemos encontrar Luiza e como Luiza vai nos encontrar? Você pode encontrar em sites on-line ou comprar diretamente comigo pelo Instagram (@anajcarneiro), que é onde a maioria prefere. Envio pelos correios, com dedicatória e brindes! PALAVRAS FINAIS Luiza é um livro que vai colocar luz onde há sombra. Nele, eu falo sobre o processo de luto, pertencimento e amadurecimento que precisou continuar mesmo depois da partida da minha irmã. Acima de tudo, falo sobre o amor que nos sustenta depois da dor da partida. Se você acha que as palavras podem ser abrigo, esse livro é para você. Transforme meu livro em casa para seu coração.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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