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Não vendemos estampa, vendemos história

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    Revista Spia
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

Por Lara V. Pereira

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Chico Science, considerado um dos líderes do Manguebeat. Foto: Reprodução/Internet
Chico Science, considerado um dos líderes do Manguebeat. Foto: Reprodução/Internet

O orgulho em ser pernambucano reflete, também, na moda. Marcas pernambucanas vestem a identidade cultural do Estado em estampas autorais, do Manguebeat de Chico Science à Revolução de 1817.

Pesquisadora Ana Paula de Miranda. Foto: Acervo pessoal
Pesquisadora Ana Paula de Miranda. Foto: Acervo pessoal

O bairrismo, orgulho e hipervalorização exacerbados pelo lugar de nascimento em detrimento dos outros, é antigo em Pernambuco. Mas a relação entre esse sentimento e a moda autoral, mais especificamente em Recife, ganha destaque a partir dos anos 1990, segundo a professora e pesquisadora de comportamento do consumidor Ana Paula de Miranda. Ela destaca a cena do Manguebeat com Chico Science como um momento de efervescência de usar a moda como expressão, assim como aconteceu em Seattle com o grunge. A pesquisadora ressalta que história da moda não é a sua área de especialização, e que não identifica, a partir de sua área, outro momento com a mesma característica.



Além de ter sido um movimento marcante no âmbito da moda, designers pernambucanos, como Eduardo Ferreira, conquistaram visibilidade no Brasil e no mundo ao apresentar, com suas cores, tradições e símbolos, uma moda sobre a cultura do MangueBeat. Ferreira criou alguns figurinos para Chico, que obtiveram grande repercussão, chegando até o New York Times.

Osvaldo Bruno, historiador e fundador da marca "Seu Maraca". Foto: Instagram (@seumaraca)
Osvaldo Bruno, historiador e fundador da marca "Seu Maraca". Foto: Instagram (@seumaraca)

A valorização local aparece também na maneira como algumas marcas escolhem construir suas coleções e estampas. É o caso da Seu Maraca, marca olindense criada pelo professor e historiador Osvaldo Bruno, conhecido como "Maraca" por ter tocado no Maracatu por 16 anos. Bruno nunca havia vendido nada até a pandemia e, internado na UTI por causa da falta de vacina para a covid-19, decidiu que, ao sair, voltaria a tocar no Maracatu e passaria a fabricar as próprias camisas. Foi nesse momento que ele entendeu que precisava mudar onde investir o seu tempo: “Eu voltei meio impactado. Ou eu mudo a minha forma de ver meu tempo e tudo, ou eu não aprendi nada” afirma Maraca.

Osvaldo Bruno informa que o processo de pesquisa dura aproximadamente um ano. Por ser professor e historiador, a preocupação é ainda maior. Ele passa meses lendo, pesquisando, assistindo reportagens, prestando atenção ao que está acontecendo em sua volta, quais as demandas e o que os seus amigos estão observando. É um processo criativo orgânico: o historiador traz o exemplo de como surgiu a sua coleção do Manguebeat: “Ia fazer 30 anos do Manguebeat, e ninguém falou no carnaval, meio que fizeram um branco dos 30 anos. Eu disse, rapaz, então vai ser uma coleção contando a história do Manguebeat”.



Camisa de botões da coleção "Manguebit". Foto: Instagram (@seumaraca/@rafaellcacau)
Camisa de botões da coleção "Manguebit". Foto: Instagram (@seumaraca/@rafaellcacau)
Camisa "Latino Nordestino". Foto: Instagram (@marcopemodantcpe)
Camisa "Latino Nordestino". Foto: Instagram (@marcopemodantcpe)

A primeira coleção "Manguebit", da Seu Maraca, inspirada no Manguebeat, foi a que impulsionou a marca. Para Bruno, a relação com o movimento não está apenas na estética, mas na forma como ele passou a enxergar a cultura local. Ele relata que foi durante o movimento do Mangue que começou a tocar Maracatu e a valorizar mais as referências de Pernambuco. Hoje, afirma que o público da marca é majoritariamente formado por pessoas do próprio estado, e não por turistas.

O fato de ser historiador é um diferencial que o próprio reconhece, o cuidado de como vai apresentar, o que vai falar, o ponto de vista que será usado para contar aquela história com respeito. As pessoas que vão se aproximando da marca e consumindo, relatam para Bruno: “Vocês não vendem estampa, vocês vendem história”.

Fundador da Estilo Bregoso, Tarcísio Gomes. Foto: Instagram (@estilobregoso)
Fundador da Estilo Bregoso, Tarcísio Gomes. Foto: Instagram (@estilobregoso)

Outra marca que também usa referências culturais para desenvolver uma moda bairrista é a Estilo Bregoso, criada em 2015 durante a faculdade de Design na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Campus Agreste (CAA) pelo empreendedor e designer Tarcísio Gomes. A marca nasce da junção do amor do fundador pelo brega e o seu espírito empreendedor.

No início as estampas faziam referências a músicas de brega que estavam em alta e em bordões dos cantores. Tarcísio Gomes conta que tendo nascido no Alto do Pascoal, a sua proximidade com o brega começa ali também, e sucessivamente a ideia da marca. Ao afirmar que “na periferia, o brega reina. Até quem não gosta conhece as músicas, principalmente dos breguinhas raiz. Eu sou apaixonado pelo brega”.



Cliente usando a estampa “– Temer + Troinha.” Foto: Instagram (@estilobregoso)
Cliente usando a estampa “– Temer + Troinha.” Foto: Instagram (@estilobregoso)

A estampa mais importante da história da marca para Tarcísio, foi a “-Temer + Troinha” que fez tanto sucesso que o fez querer investir todo o tempo no projeto. Menciona também a equipe do Mc Elvis que demonstrou apoio a marca, enfatizando como foi importante o apoio que recebia dos artistas. 11 anos depois a marca ainda continua representando o brega na moda — como a estampa do artista Reginaldo Rossi — e expandindo para o sentimento de orgulho pernambucano, com referências ao hino, a bandeira e até mesmo a revolução de 1817.

Perguntado sobre o que seria moda bairrista, o empreendedor e designer Tarcísio Gomes definiu como: “Vestir o que temos orgulho e valorizamos”, uma definição que dialoga diretamente com a moda autoral que produz. Seu sonho é que a marca se torne referência na valorização da cultura pernambucana em todo estado.



Tendência e pertencimento não precisam estar em lados opostos, afirma a graduanda em Direito, Alícia Muniz: “Acredito que as duas coisas se misturam. O amor e o orgulho de ser pernambucano já são antigos e fazem parte de grande parte da população, mas ultimamente, principalmente com as redes sociais, isso tem ficado muito em alta”. Ela adquiriu uma camisa com a bandeira de Pernambuco estampada, relatando que no início do ano sentiu vontade de comprar a peça por achar bonita e depois de ter visto inúmeras pessoas usando no carnaval.

Alícia Muniz usando a camisa de Pernambuco. Foto: Acervo pessoal
Alícia Muniz usando a camisa de Pernambuco. Foto: Acervo pessoal

Ao ser questionada se usaria a camisa bairrista se morasse fora do estado de Pernambuco, sendo pernambucana, Muniz afirma: “Com toda certeza. Não é incomum ver pernambucanos que moram em outras partes do Brasil ou até do mundo demonstrando seu amor à cultura de Pernambuco, acredito que o 'bairrismo' já é inerente ao pernambucano desde sempre, não importa onde esteja”. A afirmação exemplifica a análise da pesquisadora Ana Paula em relação à identidade cultural na moda, em que existem dois grupos: os que consomem por moda, apenas porque alguém disse que agora é moda usar tal tendência, e os que seguem o sistema cultural, os valores e a representatividade de identidade social; para eles a moda será atemporal. Enfatiza Ana Paula: “Então, não é sobre o movimento em si, mas sobre dois tipos diferentes de pessoas, que trabalham essa questão do consumo de moda, da adoção de moda”.

Em 1946, ao analisar Sagarana, de Guimarães Rosa, o crítico literário Antonio Candido observou o movimento de valorização do regional na cultura brasileira e escreveu, em tom irônico, que “agora a moda é ser bairrista”. Na época, “moda” se referia à valorização do regional como tendência literária. Hoje, a mesma expressão aparece em outro contexto, o da moda literal.

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