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A estética do sujo

Foto do escritor: Revista Spia
Revista Spia
há 11 minutos
5 min de leitura

Por Naely Barbosa

Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins


Colagem feita pela autora. Foto: Reprodução/Internet
Colagem feita pela autora. Foto: Reprodução/Internet

Costumamos ouvir que a moda é cíclica. Em algum momento, práticas, comportamentos e objetos que pareciam ter sido esquecidos retornam, ganham uma nova roupagem e voltam a ocupar vitrines, passarelas e, principalmente, nossos corpos. Algumas dessas retomadas aparecem como estética dominante de uma temporada; outras, como sinal de uma mudança que ainda está se formando.

Por isso, uma pergunta me ocorreu nos últimos dias: em uma época marcada pela proliferação de inúmeras produções no ambiente digital, pela circulação de padrões estéticos nas mídias e pela busca constante por uma aparência cuidadosamente produzida, de que maneira manifestações que desafiam esses códigos conseguem fazer barulho hoje? Afinal, se a contracultura nasce justamente como uma forma de contestar os valores e padrões dominantes, o que acontece quando suas características são incorporadas nos espaços que ajudaram a estabelecer esses padrões?

Então, para entendermos melhor essas relações, gostaria de convidá-los para fazer uma viagem ao passado e voltar ao nascimento do movimento punk, quando as roupas, os corpos e os comportamentos passaram a ser usados como uma ferramenta de choque e contestação pelos jovens da época. Vistam suas jaquetas, calcem seus coturnos e apertem os cintos, vamos decolar.



A década de 1970 foi marcada pela efervescência do movimento punk. Ele nasceu como uma manifestação juvenil contra o conservadorismo social que regia gradativamente o pós-guerra, sobretudo na Inglaterra. Sua presença se espalhou por clubes, casas de shows, lojas de discos, fanzines e tomou conta da cena cultural independente de Londres. A música foi um de seus principais meios de expressão, mas o punk também construiu uma linguagem visual própria, que aproximava som, comportamento, artes gráficas e vestuário. Foi por meio dessa linguagem que a estética do movimento passou a ganhar espaço e influenciar a moda.


“The Clash”, banda de punk rock inglesa da primeira onda do punk britânico. Foto: Reprodução/Internet
“The Clash”, banda de punk rock inglesa da primeira onda do punk britânico. Foto: Reprodução/Internet

O visual punk rompia com os padrões comportamentais e corporais que predominavam naquele momento. Para muitos dos que estavam de fora do movimento, seus elementos eram percebidos como uma afronta aos códigos de respeitabilidade e aparência vigentes. Roupas rasgadas, sobreposições inesperadas, uso de materiais desgastados e correntes eram associados ao choque e à provocação. O uso desses materiais rompia não só com os conservadores, mas também os diferenciava de outros movimentos juvenis que os antecederam, criando assim tribos distintas de revolucionários. Pois, por mais que os punks tenham usado a aparência em uma forma de protesto, os hippies durante a década de 1960 e início de 1970 com suas roupas amplas, seus tecidos naturais e estampados também questionavam o sistema e se afastaram da formalidade e dos padrões sociais que consideravam rígidos.

Parte dos integrantes do "Fleetwood Mac", na formação da década de 1970. A banda ajudou a levar os elementos da cultura e estética hippie para o mainstream musical. Foto: Reprodução/Internet
Parte dos integrantes do "Fleetwood Mac", na formação da década de 1970. A banda ajudou a levar os elementos da cultura e estética hippie para o mainstream musical. Foto: Reprodução/Internet

Nessas tribos a estética não era apenas uma escolha visual, mas uma forma de ocupar o espaço e comunicar os valores que defendiam. E, é nesse lugar que a diferenciação importa, enquanto a estética hippie recorria a referências naturais, artesanais e psicodélicas para expressar seus ideais de liberdade, o punk encontrou no choque, na desconstrução e provocação a sua própria linguagem.

Uma das filosofias associadas ao movimento punk era a ideia de que, se você não gosta do que existe, pode fazer você mesmo – o conhecido “do it yourself”, ou DIY. Mais que um lema, essa prática estimulava a criação independente: bandas produziam e divulgavam seus próprios sons, artistas criavam seus materiais gráficos e fanzines, e também produziam, transformavam e customizavam suas próprias roupas. Na moda, o DIY tornou-se uma das bases da estética do punk por permitir que explorassem livremente diferentes referenciais visuais e materiais. Alfinetes de segurança viravam adornos; cadeados e correntes eram incorporados aos looks; lingeries ganharam um novo espaço e viravam sobreposições. Roupas velhas e desgastadas, camisetas recortadas e intervencionadas com pichações eram usadas como um sinal de recusa aos padrões de consumo e acabamento.



Jovens punks em 1983. Foto: Reprodução/Internet
Jovens punks em 1983. Foto: Reprodução/Internet

Essas assinaturas do estilo punk eram um reflexo dos comportamentos que manifestavam a revolução que buscavam realizar. Assim, as roupas criadas tinham o intuito de mostrar para o mundo que estavam contra o sistema, além de ser uma forma alternativa de manifestar a própria identidade. Em Moda: Uma filosofia (2010, Zahar), Lars Syendsen discute sobre a relação entre corpo, roupa e identidade, de acordo com ela “o corpo e a roupa sempre estiveram em diálogo, o modelo do primeiro influenciando a moda e vice-versa”. Nesse sentido, a roupa funciona simultaneamente como expressão individual e como espaço de negociação com as normas que delimitam o que é aceito em determinado contexto. No caso do punk, essa negociação aparece nas escolhas conscientes de elementos que confrontam o socialmente aceitável da época.

E, é nesse espaço de negociação e controle de identidade que voltamos da nossa viagem pela década de 1970 e pousamos em 2026. Depois de tantas revoluções e movimentos juvenis, chegamos à Era digital, marcada pela aceleração, filtros, ferramentas de inteligência artificial e referências estéticas polidas. Se antes a contestação podia estar na roupa rasgada ou no cabelo propositalmente desarrumado, hoje também precisamos observar como esses sinais de imperfeição são incorporados e ressignificados dentro da indústria da moda.

Detalhes imitando desgaste na peça. Coleção masculina de outono/inverno da Prada, FW26. Foto: Reprodução/Internet
Detalhes imitando desgaste na peça. Coleção masculina de outono/inverno da Prada, FW26. Foto: Reprodução/Internet

No ambiente digital uma das estéticas que ganhou força nas redes foi a chamada estética “clean girl”, marcada por cabelos cuidadosamente arrumados, pele uniforme e uma aparência calculadamente natural. Ao lado dela, porém, cresce no sistema da moda o interesse pelo desgaste, pelas marcas de uso, manchas e acabamentos que simulam aquilo que normalmente tentamos esconder como um recurso de estilo e uma ideia de produto. Na temporada de outono/inverno 2026, por exemplo, Prada, Acne Studios e Diesel exploraram, de formas diferentes roupas amassadas, desgastadas e intencionalmente imperfeitas. Na Prada, a coleção masculina FW26 apresentou punhos e camisas com marcas de uso e manchas; na Acne Studios, a coleção retomou peças com aparência vívida e jeans em lavagem gastas com aspecto de sujas; e, na Diesel, os denins ganharam vincos permanentes.

A chegada dessas coleções não mostram exatamente o retorno de uma única estética, mas a capacidade de reinvenção criativa que a moda tem e como ela ainda é capaz de usar a desordem visual em suas criações. O desgaste, o amassado e o rasgo já apareceram em diferentes momentos da história da moda e podem ser compreendidos como um dos elementos dentro do movimento cíclico da indústria da moda que em cada nova apropriação pode ou não ser ressignificado. A “estética do sujo” não é sinônimo de uma sujeira real, mas de uma construção visual que transforma marcas normalmente associadas ao descuido em uma escolha proposital de estilo, que pode ou não ser uma forma de afronta ao sistema organizacional que está em alta, pois em tempos de busca por perfeição estética mostrar as imperfeições é ser contra o sistema.



SAIBA MAIS

Assista ao documentário Westwood: Punk, Ícone, Ativista (Prime Video, 2018) para conhecer a trajetória da estilista inglesa Vivienne Westwood apelidado de “Mãe do Punk” ela ajudou a moldar a estética do movimento.

Assista o documentário Punk: attitude (Prime Video, 2005), de Don Letts, para entender um pouco mais sobre a história do movimento e sua influência na música e cultura.

CURIOSIDADES

O Fanzine surgiu na década de 1930, nos EUA, com publicações de ficção científica, o termo é um neologismo formado pela contradição dos termos ingleses “fanatic” e “magazine” que significa “magazine do fã”. Alternativo e de baixo custo foi um dos principais meios de divulgação utilizado para difundir as bandas de punk.

Em 2013 o tema do MET foi "PUNK: Chaos to Couture", ele realizou uma retrospectiva e análise do impacto da cultura punk na moda.


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