Como estão os escritores de fanfic?

Por Isadora Ascendino
Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins

Para muitos leitores e escritores, o primeiro contato com o mundo da escrita veio através das famosas “fanfictions”, histórias de ficção baseadas em personagens ou universos que já existem e que são reescritas ou continuadas pelos próprios fãs para, depois, serem postadas na internet. Essa prática possibilita a criação de um universo alternativo no qual as pessoas produzem geralmente com seriedade e criatividade uma nova história criada de fã para fã, a partir da Cultura da Convergência, como diria o estudioso Henry Jenkins.
Jenkins tem um conceito que explica esse fenômeno: a Cultura Participativa, cultura em que fãs e/ou consumidores são convidados a participar ativamente da criação e circulação de novos conteúdos de obras já existentes. Onde os telespectadores saem da posição de passividade e se tornam consumidores e produtores, participando e interagindo de acordo com um novo conjunto de regras.
É sempre engraçado em uma conversa cotidiana perguntar para alguém que escreve qual foi o primeiro contato dele com a escrita. Muitas são as respostas que já ouvi, e na maioria delas afirma-se ter sido a partir de uma fanfic escrita sobre cantores favoritos, personagens de filme ou desenho e muitos outros temas que representam uma parte constituinte de uma obra “original”.
Quem me conhece sabe que eu sou uma das maiores defensoras das fanfictions. Me surpreende como existem histórias realmente criativas, instigantes e profundas dentro da Wattpad, uma das principais plataformas online de leitura e escrita de histórias que conecta autores independentes e leitores do mundo inteiro. Onde, inclusive, eu comecei o meu processo de me apaixonar pelo universo da literatura e da escrita.

O livro A Hipótese do Amor (Arqueiro, 2021) é o primeiro grande sucesso de vendas que transformou a vida de Ali Hazelwood, visto que essa obra é um fenômeno literário para a Geração Z. Ele foi escrito a partir de uma fanfic concebida pela própria autora, inspirada no famoso casal fictício Rey e Kylo Ren (apelidado Reylo pelos fãs) da trilogia de filmes de Star Wars. Ver fanfictions virarem livros não é uma grande surpresa, uma vez que escrevê-las exige muita dedicação, estudo e um cuidado genuíno em entregar para o universo de fãs a melhor história que o escritor conseguir escrever.
Em entrevistas, Hazelwood conta como foi um grande espanto ver sua fanfic virar uma história com potencial para se transformar em livro. Ela revela que começou a escrever de forma amadora em 2018, com sua estreia no mercado editorial em 2021 a partir da publicação de A Hipótese do Amor. Onde, a partir disso, teve a sorte de ser encontrada pelo universo dos leitores do Tiktok – o booktok, onde seu livro ganhou grande repercussão. Depois disso, a autora mergulhou no universo literário das obras ficcionais e escreveu obras inéditas que também foram grandes sucessos em sua carreira, como por exemplo A Razão do Amor (Arqueiro, 2022) e Amor, Teoricamente (Arqueiro, 2023).
Eu também tenho uma trajetória parecida com a da escritora. Calma! Não como ela que ficou rica e famosa com mais de 12 livros publicados mundialmente. Me refiro a entrar no mundo da literatura a partir da escrita de fanfictions. Comecei a desbravar minha própria criatividade e o interesse pela escrita a partir de criações independentes sobre casais fictícios das novelas, séries, filmes ou dos cantores que eu gostava.

Eu acho engraçado pensar como, enquanto pré-adolescentes, muitos escritores em ascensão começam a fazer parte desse mundo. Sempre quando estou em processo de “Bloqueio Criativo” me recordo que aos 13 anos, eu conseguia imaginar cenários e histórias com as pequenas coisas do dia a dia. Alguma vivência pessoal, alguma música que escutei, alguma história que li. Era fácil e fazia sentido, de alguma forma, nas histórias que eu escrevia. Parecia mágica, o mundo era colorido, vibrante, interessante e empolgante a cada olhar no horizonte.
Henry Jenkins traz que a Cultura da Convergência constrói novas mídias a partir da reconstrução das velhas pela interação ativa dos consumidores. Ela se dá, por exemplo, quando pessoas que vivem em locais distintos e lêem e vêem as mesmas coisas começam a interagir, criar ou vender produtos e ideias sobre aquele determinado tema e gosto em comum.
O universo das fanfictions nasce também dessa perspectiva, quando os fãs saem das margens invisíveis da cultura popular e não apenas se inserem no centro das reflexões sobre as produções, mas também passam a ser os produtores dessas novas mídias; consumindo e produzindo ao mesmo tempo.
Por vezes a mente parece ficar em silêncio mesmo tendo tanto a falar e os dedos têm dificuldade de começar a tocar nas teclas do notebook, me questiono como aquela garota no auge da adolescência conseguia escrever um capítulo de fanfic uma vez por semana ou no máximo a cada quinze dias, numa escrita recorrente e consistente com suas ideias, caminhos e narrativas.

Me lembro que recentemente surgiu uma trend no Instagram que brinca com a frase: “Alguns de vocês não leram fanfic aos 13 anos e dá para perceber”. Eu acho engraçado e concordo fielmente com a afirmação, porque muitas vezes o amor pela literatura é despertado quando começamos a ler personagens já conhecidos por nós em diferentes contextos, o que nos dá a sensação de reconhecimento e pertencimento àquele universo. Quando, eventualmente, não apenas lemos como também imaginamos e colocamos em prática os trunfos da nossa imaginação.
Escrever fanfics é um evento que deveria acontecer a todos os escritores em ascensão, porque há dedicação, imaginação e esforço para entregar o melhor para seus leitores, sejam eles através de 5, 10 ou 100 visualizações, apenas pelo prazer do ato da escrita. A graça de escrever fanfic se dá não porquê é uma obrigação, mas sim porque usar da sua criatividade para cativar um público leitor que passa a te acompanhar é um incentivo prazeroso. É ter porquê e como usar a própria imaginação para boas obras.
Ter a chance de observar o mundo com mais atenção buscando narrativas para contar, se atentando aos pequenos detalhes, tirando horas do seu dia para escrever, escrever e escrever, ansiando pela publicação e pelas interações e comentários que viriam daqueles que acompanhavam as obras. É um processo natural e instigante para os que escrevem ou escreviam na Wattpad. Só de pensar, volto imediatamente para a minha adolescência. Que saudades disso!
Com o tempo e o amadurecimento da vida adulta, muitas vezes deixamos de lado a prática da escrita, mesmo que por diversão. Crescer é entender que ser um escritor consiste em momentos bons, mas também em momentos muito ruins. É lidar com bloqueios criativos ou simplesmente não conseguir transformar as ideias em um texto coerente e coeso, visto que a autocrítica excessiva parece fazer parte de quem somos.
Eu me questiono, de maneira muito frustrada, o porquê dessa facilidade para desbravar a própria criatividade se perde com a passagem do tempo. Para ilustrar visualmente o que entendo desse processo, penso nele como areia escorrendo pelas mãos, mesmo que você tente a todo custo segurar, ou como uma ampulheta marcando o espaço-tempo onde as preocupações da vida adulta falarão mais alto e tomarão conta dos seus pensamentos.

Penso que, em um mundo de tanta agitação e uma realidade adulta de tantos desafios, precisamos relembrar do poder e do potencial libertador da escrita em nossas vidas. Mesmo que não sejamos capazes de criar novas histórias e personagens do zero, tenhamos a expertise de utilizar uma mídia já existente e reformulá-la a nossa moda, assim como incentiva o conceito chamado “Inteligência Coletiva” de Pierre Lévy, quando o consumo passa a ser um processo coletivo que alavanca o conhecimento dos membros desse grupo.
Que, a partir da inteligência coletiva, voltemos a ter a capacidade que as comunidades a qual fazíamos parte tinham em combinar seus membros para recombinar códigos e produzir novas coisas que vão agregar o coletivo dentro da comunidade ou para ela. Ou seja, voltemos a recombinar os personagens que já conhecemos e criar novas narrativas que agreguem a nossa comunidade de fãs, que nunca para de produzir e consumir.
Esta coluna é um desabafo pessoal que espera que faça sentido para você que também um dia começou sendo um escritor de fanfic: mesmo que aos poucos, volte a escrever. Seja constante e volte a desbloquear sua imaginação. Eu sei que nós, escritores de fanfic, estamos aqui! Leia ou escreva fanfics e volte a desbravar a liberdade criativa e as obras com potencial que podem surgir através da sua criatividade.
SAIBA MAIS |
Ali Hazelwood é Italiana, mas morou na Alemanha e no Japão antes de se mudar para os Estados Unidos. Além de escritora, é Ph.D em neurociência, tendo além de romances, muitos artigos científicos publicados. |
Outros sucessos de Ali Hazelwood são: Odeio te amar (2023); Xeque-mate (2023); Não é amor (2024); No Fundo é Amor (2025) e seu livro mais recente Jogo de amor para dois (2026). Todos publicados no Brasil pela Editora Arqueiro. |
CURIOSIDADES |
O livro Cultura da Convergência (Editora Aleph, 2006) de Henry Jenkins, estuda os temas da Cultura da Convergência, Cultura Participativa e Inteligência Coletiva por Pierre Levy e muitos outros conceitos que são temas essenciais na área da comunicação e da midiatização, trazendo as principais transformações culturais que ocorrem à medida que esses meios convergem. |
O livro A Hipótese do Amor (2021) de Ali Hazelwood já ultrapassou a marca de 750 mil cópias vendidas mundialmente. |

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