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Com palavras, fotografei

Foto do escritor: Revista Spia
Revista Spia
há 11 minutos
4 min de leitura

Por Eduarda Thainá

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Capa do livro "Grande Sertão: Veredas". Foto: Reprodução/Internet
Capa do livro "Grande Sertão: Veredas". Foto: Reprodução/Internet

Decidi escrever sobre isso após me deparar com a seguinte frase de Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas: “Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão… Diadorim tomou conta de mim”. Guimarães Rosa, consegue demarcar com essa frase, o momento que os seus personagens viviam. Quando ele fala sobre latifúndio, ele tá falando sobre aquela expansão de lugar e sobre o poder que naquela época, estava no território e nas fazendas.

Mesmo que mudemos, o que foi sentido por nós permanece escrito. Assustadoramente ou não, essa realidade é como um documento vivo dos efeitos do amor em nossos corações. Quando nós, escritores, decidimos registrar em palavras os desdobramentos desse sentimento, aquilo que sentimos sobrevive.



A obra de Guimarães funciona como um “espelho do tempo”, revelando um sertão antigo no estado de Minas Gerais. Se passa em um período marcado pelo coronelismo e é nele que observamos a história de jagunços: homens que agiam em proteção de coronéis e defendiam fazendas. Quase como um soldado.

É através do gênero literário de romance que temos uma percepção do que é a linguagem e a representação do espaço e do tempo, segundo o filósofo e linguista russo Mikhail Bakhtin. No livro Introdução ao pensamento de Bakhtin (Editora Contexto, 2016), o linguista e pesquisador brasileiro José Luiz Fiorin explica a “Teoria do Romance” de Bakhtin.

É por meio dos diálogos escritos, que podemos identificar muitas linguagens. Acabamos nos deparando com várias visões de mundo, formas de expressões diversas que nos possibilita o entendimento do outro. O romance é rico em diálogos, prende nossa atenção e com ele ganhamos novos olhos para enxergar o mundo.

Assim como o romance, a música nos permite esse diálogo e por muito tempo, foi por meio dela que conseguimos ter contato com outras linguagens. O trovadorismo foi um movimento literário que uniu duas esferas de expressões. A poesia e a música. Nele, os homens elucidam suas paixões, sejam elas correspondidas ou não por meio de cantigas. Da mesma maneira que os trovadores viam na canção um meio de conhecer o mundo, o filósofo enxergava, no romance, essa melodia.


Ilustração de trovadores da idade média retirado de entrevista com Professora Marcella Lopes Guimarães (UFPR). Foto: Reprodução/Internet
Ilustração de trovadores da idade média retirado de entrevista com Professora Marcella Lopes Guimarães (UFPR). Foto: Reprodução/Internet

Através das variantes que surgem do romance, podemos ouvir poemas de Vinicius de Moraes sendo cantados. Ele ajunta diversos gêneros. Penso que, graças a isso, as declarações de Riobaldo e Diadorim me encantaram tanto. Grande Sertão: Veredas (1956) é uma verdadeira epopeia, mas que consegue ultrapassar seu tempo. Como o título desta coluna diz: são palavras fotografadas. No romance, acompanhamos a história de Riobaldo, um ex jagunço que narra histórias sobre sua infância, sobre o tempo que vagavam pelo sertão e sua grande paixão, o diadorim.

A multiplicidade no texto de Guimarães Rosa surge através das palavras que eram usadas no dia a dia que Rosa observava. Nas conversas comuns da rotina. Ele usa de todo esse contato para construir os diálogos entre seus personagens. Durante o percurso da leitura, o leitor se depara com outro sertão, um dentro do próprio ser. Aquele que sou eu e que também é você. Cada ser com um dialogismo único, afetado por seu próprio tempo e localidade que somente quando lemos a palavra do outro ou ouvimos é que passamos a conhecer.

Ao menos neste instante, aqui, diante de vocês, meu tempo pede que eu seja um tanto sonhadora. Se me permito ir além em meu imaginário, eu diria que a forma com que cada pessoa expressa até mesmo um “eu te amo” pode variar até mesmo no silêncio. É um dialeto único criado entre duas pessoas, do qual Bakhtin chamou de “heteroglossia”: diferentes vozes e cosmovisão ecoando juntas numa mesma língua.


Mikhail Bakhtin. Foto: Reprodução/Internet
Mikhail Bakhtin. Foto: Reprodução/Internet

Mas claro, isso era o que ele pensava no campo da linguagem. Ele viu que o romance também é um gênero que oferece uma percepção social sobre cada época. E o quanto disso temos registrado em nossas poesias, seja em um poema de Emily Dickinson, ou em uma carta de Clarice Lispector à Fernando Sabino. Pensar que aquele texto que escrevi e publiquei anos atrás, falava sobre os mesmos sentimentos que eu sinto hoje, me faz olhar pela janela do tempo e perceber o quanto a minha Eu de hoje tem tanto daquela que fui. Acho que o que estou tentando dizer é que a literatura é esse registro do “sentir”. É, de certa maneira, uma fotografia, onde tentamos gravar com exatidão o que sentimos naquele momento.



Capa do álbum “Memórias Póstumas” do cantor Jão. Foto: Instagram (@jao)
Capa do álbum “Memórias Póstumas” do cantor Jão. Foto: Instagram (@jao)

Na faixa “literatura” do seu novo álbum, o cantor Jão enxerga a escrita como uma linguagem necessária. O eu lírico da canção ver na escrita, uma fuga de toda dor que está sentindo naquele instante e usa a literatura como um artefato para transformar de algum jeito o que está sentindo. Ele acredita que as palavras têm esse poder.


Letra da música “literatura”. Foto: Via story Instagram/@jao
Letra da música “literatura”. Foto: Via story Instagram/@jao

Recorrer à literatura transcende o ato de ignorar a realidade para não reduzir uma memória à algo “épico”, especialmente quando queremos que a essência do que já foi permaneça no presente fotografado e guardado, ainda que aquilo já tenha mudado de estado.



SAIBA MAIS

Na música “O redator” de Zimbra, o eu lírico é uma pessoa, que costumava registrar, na escrita, o que sente. A música é uma representação dele mesmo cantando a si, para voltar a escrever. Na canção, ele fala que os textos costumam ter milhares de informações que nem todo mundo se apega. Já na letra, vemos o quão importante é, para ele, um registro das histórias que ele viveu.

No podcast da Rádio Companhia, eles explicam como Grande Sertão: Veredas, resiste à passagem do tempo através da linguagem textual.

CURIOSIDADES

Fiorin explica que a memória é a grande força criadora da epopéia, enquanto a experiência e conhecimento é o que move o romance.

Bakhtin criou o conceito de “cronotopo”, formado com palavras as gregas crónos (tempo) e tópos (espaço) que significa um registro histórico de um tempo vivido. Os textos literários revelam os cronotopos de cada época. Para ele, o romance era uma expressão da consciência galileana da linguagem. Ele rejeita o absolutismo de uma única língua. Isso abre uma abertura para que uma linguagem mais diversa possa existir e dar voz à grupos sociais, como pessoas marginalizadas por sua condição social, cor ou gênero.


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