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Antes de vestir tendências, o crochê veste histórias

Foto do escritor: Revista Spia
Revista Spia
há 11 minutos
10 min de leitura

Por Madu Santos

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Há coisas que não saem de moda porque nunca foram apenas moda. A arte do crochetar, desde o seu surgimento, vem construindo afeto, memórias e momentos únicos entre os indivíduos, mesmo com mudanças emergentes ao longo do tempo. Diante de um mundo no qual as pessoas estão sempre na correria rotineira, o crochê se mostra como uma espécie de fuga da realidade para aqueles que se sentem pressionados com a aceleração da atualidade. Eu poderia dizer que isso me faz imaginar o quanto de histórias os tubos de linhas e as agulhas, de todas as formas e cores, teriam para nos contar. Isso porque saber-fazer crochê transmite muito mais do que uma ação de tecer e desmanchar, mas um fazer que carrega e comunica afeto, tradição, memória e cultura.

Pintura a óleo de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), conhecida como “Mulher fazendo crochê”, por volta de 1875. Foto: Reprodução/Internet
Pintura a óleo de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), conhecida como “Mulher fazendo crochê”, por volta de 1875. Foto: Reprodução/Internet

O crochê é uma arte cuja origem não se sabe ao certo. Existem teorias históricas que remetem a pré-história, do entrelaçamento de fios com os dedos, outras que se referem à China ou à França. Entre tantos nós que os pesquisadores ainda não conseguiram desatar, a escritora dinamarquesa Lis Paludan desenvolveu o livro Crochet: History & Technique (1995), no qual investiga e discute as teorias encontradas.

Inicialmente, ela formula três hipóteses sobre o crochê na Europa: 1) ele veio da Arábia e chegou à Espanha pelas rotas comerciais do Mediterrâneo; 2) surgiu em comunidades indígenas da América do Sul que a utilizavam em rituais de puberdade; 3) surgiu na China, onde eram confeccionadas bonecas trabalhadas no crochê, e difundido através da Rota da Seda. Entretanto, constata-se, de maneira mais forte, o seu surgimento a partir de um bordado chinês, uma forma antiga de bordar conhecida também na Túrquia, Índia, Pérsia e norte da África. Além disso, chegou a Europa por volta de 1700, chamada de “tambour” do francês, traduzida no Brasil para tambor.



O nome “crochê” tem origem na palavra francesa "croc" que, em português, significa “gancho”. Inevitavelmente a tradução me fez pensar na palavra “relação”. A técnica artesanal atua como um gancho que traz para perto as pessoas e as ligam afetivamente devido ao artefato que possuem em mãos. Até porque os vínculos são como um emaranhado de linhas, todos interligados através do crochê. Posso dizer, ainda, que me sinto inteiramente ligada ao tema que escrevo, sendo uma grande admiradora desta arte. Aprendi a crochetar com minha avó materna, uma mulher habilidosa com as mãos e que deixa no crochê a sua forma de demonstrar amor. Com paciência, fui ensinada sobre a espera no processo de aprendizagem, o carinho transmitido no ato de ensinar e a satisfação e orgulho que mestre e aprendiz compartilham ao final do trabalho.

Vários fios de linha de crochê entrelaçados, 2025. Foto: Acervo Pessoal
Vários fios de linha de crochê entrelaçados, 2025. Foto: Acervo Pessoal

Um dos grandes princípios do crochê é o de transmitir o saber. Faz parte do processo aprender a ensinar o seu ofício. Desde os primórdios, essa ação ocorre por meio das mulheres da família: são mães, avós, tias e até mesmo vizinhas ou amigas próximas. Dessa forma, desde o passado, a figura feminina se faz central na transmissão desse saber, de geração em geração. Muitas vezes, introduzido na educação de meninas como um afazer doméstico. Assim, a questão do afeto mostra-se presente nessas mulheres quando elas ensinam alguém que gostam. É no fazer de uma peça que, com sua bagagem, guarda uma história entre aquelas duas pessoas envolvidas e entre o artesão e o produto final. As peças confeccionadas com crochê carregam não somente um valor econômico – mesmo sendo usado como renda por algumas famílias – mas sobretudo um valor simbólico que vai além do material, e inspira memória, identidade e sentimento.

O fator do legado expõe ainda a tradicional associação entre o feminino e o seu desenvolvimento recluso ao âmbito doméstico. Todavia, com a chegada das máquinas na era industrial, durante o século XX, o trabalho manual diminuiu bastante e muitas mulheres saíram de casa para conseguir sustento, e assim, se afastaram dos afazeres tradicionais do lar, até chegarem ao ponto de perder a tradição que antes era característica do contexto familiar. Entretanto, atualmente, o crochê deixou de ser associado somente ao grupo feminino com o interesse progressivo de jovens e homens pela prática.

Roupa de crochê produzida pela Sra. Maria Ivaneide, avó da colunista, 2025. Foto: Acervo Pessoal
Roupa de crochê produzida pela Sra. Maria Ivaneide, avó da colunista, 2025. Foto: Acervo Pessoal

Somente aos meus 20 anos de idade finalmente aprendi a crochetar e sinto que descobri um grande amor. Cada peça produzida tem uma história que me faz lembrar os conselhos de minha avó com toda sua sabedoria, amor e felicidade por eu estar me divertindo e evoluindo na arte. Seu nome é Maria Ivaneide. Ela se tornou aprendiz observando uma amiga da família exercendo a técnica. Assim, ao me ensinar, fazemos e nos sentimos parte de uma herança entre mulheres que sentem carinho pelo que fazem. Hoje, temos uma relação repleta de novos significados, quando compartilhamos linhas, agulhas, ideias e pensamentos acerca de novas criações. Esse laço foi construído através do crochê que, com suas linhas entrelaçadas, também entrelaça a vida das pessoas. Existe um tempo-tecido que, além de ligar aquelas duas pessoas envolvidas, cria uma identidade a cada laçada, da própria peça e de quem a faz.



A arte apresentada é praticada com uma agulha em formato de gancho e linhas de diferentes texturas e cores, que conseguem tecer uma quantidade infinita de padrões e peças a partir da aplicação de três pontos básicos: corrente, ponto baixo e ponto alto – com algumas variações: pontos baixíssimo e altíssimo. Suas aplicações não mudaram, mas a técnica adquiriu, ao longo do tempo, uma versatilidade que é revelada nas próprias produções, diante dos avanços tecnológicos e da perpetuação do fazer. Nesse contexto, o crochê foi capaz, também, de se ligar a outras áreas como o design e a moda, tomando passarelas de desfiles e desenvolvendo-se de maneira inteligente para que seus produtos possam ter um maior valor agregado. Todavia, o desafio sempre foi como se inserir em novos ramos, mas não perder sua essência de originalidade e sensibilidade.


Crochê confeccionado em foto da sua avó, Maria Ivaneide, 2025. Foto: Acervo Pessoal
Crochê confeccionado em foto da sua avó, Maria Ivaneide, 2025. Foto: Acervo Pessoal

A moda em si transcende a dimensão do vestir-se, porque também significa. Assim, o indivíduo passa a utilizar esta comunicação para se expressar. Nos últimos anos, frente ao imediatismo do mundo, com tecnologias que diminuem, cada vez mais, o tempo livre das pessoas e ainda a originalidade das artes, houve o surgimento de um querer se distinguir dos demais, por parte principalmente dos jovens. Por causa da crescente necessidade de diferenciação dos aspectos contemporâneos, os artistas buscam estabelecer sua própria identidade ao afastar-se da padronização de produções manufaturadas. Dessa forma, o artesanato transmite a singularidade de quem o produz com detalhes que trazem ao produto cultura e memória, diferente do que é gerado por máquinas em série e sem personalidade.

Peças de crochê no São Paulo Fashion Week, 2024. Foto: Reprodução/Internet
Peças de crochê no São Paulo Fashion Week, 2024. Foto: Reprodução/Internet

O feito à mão, com todo o seu investimento, cuidado e, até mesmo, suas imperfeições, resgata a essência do ver beleza no único e no imperfeito, reafirmando a importância dos saberes ancestrais transmitidos. O ato de dedicar-se durante horas à produção de uma peça é um exercício de paciência que faz o praticante desacelerar e dar importância ao processo realizado e à história que será contada através da peça. O crochê também é uma técnica baseada na tentativa, ou seja, o desmanchar faz parte do seu aprendizado, se tornando um fator essencial para gerar a particularidade de sua arte. Nesse contexto, a presença do mestre torna-se ainda mais importante no processo. Em todas as peças que já confeccionei, minha avó sempre desempenhou esse papel primordial, pois esteve comigo, transmitindo não somente sua experiência, mas seu apoio materno de que eu poderia tentar de novo, e que, independentemente de quantas vezes errasse, ela estaria ao meu lado inspirando cada laçada de uma peça, que assim, se tornou única por sua história e erros, importantes para a pessoa que sou hoje.



Ao levar em consideração todo o afeto que envolve a prática do crochê, vemos a arte sendo usada como motivo para reunião entre pessoas. Os momentos em conjunto proporcionam uma coesão social entre o grupo, que cria uma relação íntima-afetiva entre pessoas unidas pela mesma finalidade: fazer crochê. Estes encontros facilitam as trocas e adição de saberes, o aperfeiçoamento da prática e toda a conexão emocional que envolve o sentimento de pertencer; e tudo isso contribui para sustentar a tradição deste tipo de artesanato que continua sendo transmitido, mesmo que de formas diferentes.

Primeiras peças produzidas pela colunista Madu Santos, 2025. Foto: Acervo Pessoal
Primeiras peças produzidas pela colunista Madu Santos, 2025. Foto: Acervo Pessoal

Além dos resultados econômico-sociais como a independência financeira através da comercialização da arte, existem, também, benefícios emocionais. O conjunto de elementos importantes para fazer o crochê só somam a vida de quem o confecciona. E todas as vantagens, ligadas ao carinho passado, são essenciais para a história da pessoa que o aprendiz virá a se tornar. Assim, a sensação de conquista ao terminar uma peça, por exemplo, pode reduzir o estresse e a ansiedade, causando aumento da autoestima e sensação de relaxamento. Ademais, as peças de crochê carregam consigo um tipo de processo de significação e ressignificação, e com isso são estabelecidas diversas conexões afetivas e expressões de si mesmo no decorrer da vida de um indivíduo. Esse fator atrela-se, ainda, à relação de intimidade que pode ser construída quando o contato com a arte se inicia ainda na infância.

O crochê também consegue demonstrar a cultura de um povo e os traços que carregam consigo. A produção de peças traz características da história da comunidade que a produziu, através da maneira como fazem os ponto ou as linhas. Levando em consideração os detalhes no momento de praticar, esse fator cultural se destaca, também, no processo de busca de matéria-prima. Por exemplo, a cidade de Barbosa Ferraz, no Noroeste do Paraná, tem no crochê uma das principais fontes de renda da região. O lugar não possuía material para a produção. Eles criaram agulhas a partir de chapas de alumínio que foram doadas. Um empresário da cidade trouxe uma grande quantidade de fios de algodão para iniciar a confecção. Hoje em dia, além de comercializar o material pronto, ou seja, as próprias peças de crochê, a matéria-prima passou a ser produzida e vendida para outros estados, tornando-se assim, um dos pilares da economia local, e sendo famosa como a “Capital do Crochê no Paraná”.

Granny Square ou “Quadradinhos da Vovó”, 2020. Foto: Reprodução/Internet
Granny Square ou “Quadradinhos da Vovó”, 2020. Foto: Reprodução/Internet

Reconhecido como um “passatempo de vovó”, o crochê recebeu, até mesmo, peças emblemáticas como o granny square (ou, no português, “quadradinhos da vovó”), aplicações em formato de quadrado com linhas coloridas. Mesmo assim, o encontro é tão mais importante do que a esteriotipação da arte, que o surgimento de tecnologias mais avançadas não foi suficiente para barrar o seu crescimento. Assim, esta técnica de artesanato abriu-se para o mundo e incorporou novas mudanças, pois foi dessa forma que a internet se mostrou um excelente meio de encontro virtual entre os praticantes, o que demonstra, novamente, o afetivo e a singularidade necessários para crochetar. Logo, o ambiente digital proporcionou uma difusão dessa cultura entre diferentes pessoas e grupos, superando o espaço doméstico e permitindo novos vínculos emocionais, intelectuais e comerciais. Com isso, o online, meio pelo qual é possível compartilhar, aprender e criar peças, também está presente em muitos momentos do crochê de indivíduos, assim como o meu com minha avó.



Professor e crocheteiro Neddy Ghusmam ensinando peça de crochê, 2025. Foto: Reprodução/Internet
Professor e crocheteiro Neddy Ghusmam ensinando peça de crochê, 2025. Foto: Reprodução/Internet

Outro aspecto a mencionar é que esse encontro virtual impulsionou a criação de canais para vender os produtos, com a oportunidade de espalhar a arte por diversas regiões do Brasil. Dentro desse contexto, a internet é responsável por estabelecer uma nova comunicação que independe de distância e perpetua os critérios da relação de troca características do crochê. Com isso, são criadas redes de solidariedade que promovem a continuidade dessa experiência. Muitos crocheteiros (as), como o professor e artesão Neddy Ghusmam, se utilizam de canais no Youtube onde ensinam sobre a confecção das peças e pontos específicos, facilitando a partilha de conhecimentos em prol desta relação sensível com o crochê e seu legado. Professor Neddy é considerado um dos principais canais e personalidades da área, no Brasil, e é, também, mais uma das partilhas de minha avó comigo.

Entre tantas finalidades, o crochê tem um papel comunicativo, pois, além de conectar pessoas, tempos e histórias, ainda funciona de acordo com a mensagem escolhida para ser transmitida, seja ela de apego emocional, ou social, como as intervenções urbanas. Contudo, o primordial torna-se o sentimento gerado pela prática. Todas as peças produzidas por minha avó são objetos que me lembram o cuidado e amor demonstrado por ela, funcionando assim, quase como um santuário de memórias. Além disso, sendo essencial para que, hoje, cada peça que produzo carregue um pouco dela e, consequentemente, um pouco de mim.

Portanto, o crochê se expressa de muitas formas na sociedade e, ao longo dos anos, foi se transformando com a ação da contemporaneidade, mas sempre preservando seus princípios mais tradicionais. Ao aprender a técnica com minha avó, percebi que esse fazer crochê passa não só pelas mãos, mas por conversas, pela paciência e afeto expressado por cada ensinamento. Maria Ivaneide não me ensinou somente a crochetar, ela foi capaz, no ato de ensinar, de me fazer entender que errar e desmanchar são processos muito importantes para construção de algo único, responsável por carregar testemunhos de relações e de tempos compartilhados. É dessa forma que a técnica encontra meios de se manter, porque a cada laçada cumpre a sua verdadeira função: a de aproximar. Por fim, o crochê em sua totalidade muda vidas, porém, mais importante, ele conta histórias, assim como a minha.

Linhas que formam um coração envolvendo uma pessoa, 2025. Foto: Acervo Pessoal
Linhas que formam um coração envolvendo uma pessoa, 2025. Foto: Acervo Pessoal

SAIBA MAIS

O seguinte vídeo é o desfile do São Paulo Fashion Week, em 2024, com looks do Ateliê Mão de Mãe.

Neste vídeo, vemos um pouco do processo do movimento #Ourpinkhouse, criado pela polonesa Olek, que revestiu duas casas de crochê na cor rosa, com o intuito de ilustrar a situação de milhões de refugiados que ficaram sem lar devido a guerra.

Um pouco sobre o movimento Yarn Bombing, criado por Magda Syeg, que realiza intervenções nas ruas com o objetivo de trazer afeto e história para objetos ou lugares sem vida do dia a dia.

CURIOSIDADES

Na antiguidade, as agulhas encontradas eram feitas basicamente de ossos e madeira. Os modelos específicos para o crochê começaram a aparecer só no século XX.

A maior colcha de crochê tem mais de 11.148 m². O recorde foi registrado no The Guinness World e foi feito por cerca de 2.500 mulheres da Índia, que participavam de um grupo no Facebook.


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