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Ecos e ruídos na tela em branco: formas de silêncio no processo de escrita

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Por Paula Donato

Trabalho aprovado por: Nilton Barros e Marcelo Martins


Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet
Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet

O problema do bloqueio criativo é que não dá para fazer nada com ele. Nada desrespeita mais um escritor do que não conseguir escrever sobre algo. Os diálogos inesquecíveis ainda estão ali, junto das batalhas épicas, das mortes comoventes, dos tropos clássicos e do personagem esquecido antes mesmo dos créditos. Eu conheço a jornada e os acontecimentos, sei ordená-los e posso, inclusive, torná-los bonitos. Mas não quero escrever sobre eles, quero escrevê-los, embora nem sempre consiga.



O pior conselho que um escritor pode receber é: “Escreva sobre o que você conhece”. Estou cansada do que conheço e, sobretudo, do que conhecem. Pouco me interessa saber de que maneira o herói terminou com a mocinha ou qual provação precisou atravessar antes de chegar até ela. Quero saber como o corpo dele reagiu a isso.

Quero saber se um formigamento subiu pelos braços e ele precisou apertar os próprios pulsos para impedir os pequenos choques elétricos de alcançarem as mãos. Quero saber se o coração quase saiu pela boca ou se o pânico nasceu justamente de não conseguir senti-lo. Quero o enjoo, os arranhões involuntários, a fome que embrulha o estômago, a visão turva e a cabeça latejante. Quero páginas inteiras sobre os terrores noturnos e os hematomas indolores que surgem pela pele sem memória de impacto algum; quero acompanhá-lo observando as manchas escurecerem a cada dia e tentando recordar que tipo de violência o corpo sofreu sem que ele estivesse presente para percebê-la.

Não apenas me diga que ele está angustiado, isso é tão óbvio! Angústia é uma palavra pequena demais.

Captura de tela de cena escrita pela autora da coluna. Foto: Acervo pessoal
Captura de tela de cena escrita pela autora da coluna. Foto: Acervo pessoal

Me conte da dor que ele sente quando arranca a pele ao redor das unhas até sangrar e só percebe quando o indicador começa a arder em contato com a água. Diga que passa a língua pelo interior da bochecha até encontrar a pequena ferida que abriu com os dentes e retorna a ela durante o dia inteiro, não porque dói, mas pelo porquê dói.

Quero saber da inconsequência consciente de quando o herói não desvia da espada do vilão apenas para verificar se ainda é capaz de reagir a alguma coisa. Não me interessa o sangue jorrando pelo ombro, nem o terreno enegrecido pelos corpos sem vida ao redor dos dois. Me conte da apatia.

A carne rasga, o sangue jorra e a pele arde, sim, eu sei de tudo isso. Mas a pupila dele dilata em reação a isso? Ele sente medo ou sente alívio? Ele sente? Existe um certo tipo de perversão em precisar viciantemente da dor como confirmação da própria existência, mas talvez haja uma perversão ainda maior em desejar escrever sobre um sentimento que não se consegue encontrar nem dentro do próprio “corpo”: corpo, corpo, e “corpo” do já visto, já lido, já projetado. É fácil escrever sobre o que você conhece quando se evita escrever sobre o que você sente.

Existe desconfiança nas palavras que nomeiam emoções e sentidos da e na carne. Todas parecem atalhos oferecidos pela língua para sensações que, quando acontecem de verdade, recusam qualquer espécie de organização. Nenhuma sintaxe é capaz de organizar o vazio. Escreve-se “ele estava angustiado” e a frase permanece perfeitamente compreensível, embora não tenha dito quase nada. Não sei onde a angústia está. Se pulsa nas têmporas, se pesa sobre o peito, se endurece a mandíbula, se percorre a coluna ou se não faz absolutamente nada além de instalar no corpo a suspeita de que deveria haver alguma coisa acontecendo ali.



Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet
Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet

A palavra delimita justamente aquilo que o corpo experimenta sem rodeios e, ainda assim, só tenho a palavra. Talvez seja essa insuficiência que me faça continuar voltando à literatura mesmo quando não consigo escrever. Há sempre um espaço entre aquilo que foi sentido e aquilo que pôde ser dito; outro entre aquilo que foi dito e aquilo que alguém será capaz de compreender. Escrevo tentando atravessá-los, e chamo de precisão os raros momentos em que a distância parece diminuir.

Como escrever sobre o indescritível? Como destrinchar o não-sentimento? Como escrever sobre o que conheço quando não sinto nada pelo que conheço e nem sequer consigo definir esse “NADA” como alguma espécie de sentimento? O problema do bloqueio criativo é a incapacidade momentânea de alcançar as histórias por dentro; continuar cercada por coisas sobre as quais se poderia escrever e não encontrar, em nenhuma delas, uma fissura por onde acessar. Como minha imaginação pode virar palavra se minha sensibilidade permanece desligada?


Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet
Cena do filme "Adaptação" (2002, Spike Jonze). Foto: Reprodução/Internet

Por isso, também, a minha constante recusa quanto a recorrer a uma máquina para escrever por mim. Qualquer um pode me devolver uma frase mais-ou-menos bem construída, uma metáfora que faça mais-ou-menos sentido e um corpo inteiro reagindo mais-ou-menos ao que eu mandei ele reagir. O problema é que dessa maneira o medo não seca a boca e o luto não dobra os joelhos; existe linguagem sem experiência e palavras que conhecem a forma de um sentimento sem nunca tê-lo sentido. E, se meu bloqueio nasce justamente da distância entre aquilo que imagino e aquilo que almejo sentir, terceirizar essa distância seria apenas preenchê-la com mais “NADA”. Se na escrita busco linguagem para aquilo que ainda não sei nomear, não quero que outra coisa encontre essa linguagem antes de mim.

A tela em branco, com seus ecos e ruídos, às vezes suporta a falta de uma técnica. Outras vezes, porém, materializa o bloqueio derivado da paralisia do escritor. Nem sempre é vazia de histórias; é, antes, a insuportabilidade ou insustentabilidade da angústia de não se poder nomear o indizível, mesmo que ele já seja conhecido carnalmente – camuflado por palavras que o escondem, o minimizam, o entorpecem, o mascaram e o enclausuram em imagens que borram seus significados mais profundos e viscerais.


Escreva sobre o que sente para que quem sente saiba sobre o que escrever.



SAIBA MAIS

Em 2017, um ex-aluno do curso de Design do CAA, Filipe Artur Honorato Ferreira de Souza, apresentou um TCC em que discutia o “bloqueio criativo”: Reinventando o "Eu": proposta metodológica para agir sobre o bloqueio criativo.

O cineasta David Lynch, diretor de Twin Peaks e Mulholland Drive, relacionava seu processo criativo à capacidade de “capturar” ideias. Em uma entrevista à Time Out, ao ser perguntado sobre o que fazia quando se sentia criativamente bloqueado, Lynch respondeu que buscava uma ideia e associou esse processo à prática da meditação transcendental.

CURIOSIDADES

A expressão "writer’s block" foi cunhada em 1947 pelo psicanalista austríaco Edmund Bergler, radicado nos Estados Unidos. Influenciado pela psicanálise freudiana, Bergler estudava escritores que, mesmo querendo produzir, passavam por períodos em que não conseguiam escrever. Embora artistas já relatassem dificuldades semelhantes muito antes disso, foi a partir da década de 1940 que o fenômeno ganhou um nome e começou a ser tratado como objeto de estudo psicológico.

Em uma carta de 1920, enquanto assistia ao avanço da sua tuberculose, Franz Kafka desabafou com um amigo sobre a angústia de não conseguir escrever devido à sua paralisia literária – decorrente das preocupações em torno da doença. O escritor transformou o próprio sufocamento criativo na matéria-prima de mais uma obra-prima que produziu, fazendo da sua agonia a origem, a fonte e o fim de sua escrita. “Não escrevo nada há três anos, o que está sendo publicado agora são velharias, não tenho outro trabalho, nem mesmo um em andamento. Quando as preocupações penetram em uma determinada camada da existência, a escrita e a queixa cessam visivelmente; a minha resistência, aliás, não era muito grande.”


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