top of page

Se o diabo veste Prada, o crime veste chita

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 33 minutos
  • 6 min de leitura

Por Sophia Nascimento

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Quando falamos de cinema, literatura, moda ou qualquer outra variação da arte, é quase instintivo estar condicionado ao imaginário ocidental hegemônico e pensar em conjuntos que parecem sinônimos perfeitos e montados um para o outro como:

  • Cinema - O Poderoso Chefão (1972, Francis Ford Coppola), Diário de uma Paixão (2004, Nick Cassavetes), Forrest Gump (1994, Robert Zemeckis), Casablanca (1942, Michael Curtiz);

  • Moda - Prada, Gucci, Louis Vuitton, Versace;

  • Literatura - William Shakespeare, Jane Austen, Agatha Christie, Edgar Allan Poe.

Cena do filme "Casablanca" (1942, Michael Curtiz). Foto: Reprodução/Internet
Cena do filme "Casablanca" (1942, Michael Curtiz). Foto: Reprodução/Internet

Entenda, a culpa não é sua e isso não é necessariamente uma crítica. Afinal, cada uma dessas obras e marcas possuem sua importância e relevância. Logo, meu comentário anterior é, na verdade, a pontuação do que mais parece a necrose de um membro, causada pela famosa “bactéria comedora de cérebro” que vai engolindo quaisquer outras culturas que estejam em sua órbita. E como filha muito bem criada dessa bactéria temos ela: a famosa síndrome do vira-lata.



Pense comigo: se até mesmo a ideia figurativa que temos de Deus e do Diabo são ocidentais, faz completo sentido que um deles use Prada. Portanto, haveria melhor trocadilho para falar do Tropical Noir do que as chitas?


Imagem de divulgação do filme "Motel Destino" (2024, Karim Aïnouz). Foto: Reprodução/Internet
Imagem de divulgação do filme "Motel Destino" (2024, Karim Aïnouz). Foto: Reprodução/Internet

Antes que alguém interprete a frase pelo tom errado, preciso explicar: não estou dizendo que o crime veste chita porque ela é popular, muito menos porque é nordestina. Também não pretendo vestir o Nordeste com o figurino da violência, como tantas narrativas já fizeram ao transformar a região em um cenário refém de um estereótipo permanente de miséria, atraso, seca e brutalidade.

Historicamente, de tecido nobre indiano às cortes europeias, a chita foi “empurrada”, no Brasil para as classes menos favorecidas, para a vida cotidiana do ambiente doméstico e para os corpos marginalizados socialmente. Enquanto isso acontecia, sua “prima rica” e bem mais velha, permanecia no topo do universo têxtil da nobreza, sendo associada à riqueza e a vários espaços de poder. Num movimento cíclico característico da moda, aos poucos a chita do dia a dia passou a ser reconhecida de modo positivo nas festas, nos valores que ela agregava aos lares, às roupas e às manifestações populares brasileiras.

Mas o que eu quero dizer com tudo isso é que a chita não se tornou brasileira porque renasceu aqui. Tornou-se brasileira por causa daquilo que fizemos com ela.



César Augusto posa para um retrato divulgado em seu perfil profissional no Instagram.  Foto: Jamille Queiroz (@cesaraugustoautor)
César Augusto posa para um retrato divulgado em seu perfil profissional no Instagram. Foto: Jamille Queiroz (@cesaraugustoautor)

É justamente nesse ponto que o tecido encontra o conceito Tropical Noir desenvolvido pelo escritor e roteirista cearense César Augusto. Nascido em Fortaleza, em 1989, e formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará, César transita simultaneamente entre romances, contos, roteiros e outras produções atravessadas por crimes, desaparecimentos, investigações, conflitos familiares, ambição política e personagens que não podem ser identificados facilmente como heróis e vilões – ou ambos.

A princípio, os termos escolhidos para definir sua estética parecem contraditórios. Noir significa “negro” ou “escuro” em francês e carrega consigo um imaginário dominado pela noite, próprio dos romances noir. “Tropical”, por outro lado, remete ao calor e à intensidade das cores. Mas, surpreendentemente, a estética criada por César não consiste em colocar coqueiros ao redor de um assassinato importado, trocar o sobretudo por uma camisa estampada, ou acrescentar expressões nordestinas à fala de um detetive. Se fosse apenas isso, continuaríamos diante da mesma história, coberta por uma decoração diferente, mas no Tropical Noir o que muda não é apenas a aparência do crime, mas a estrutura que o torna possível.

Capa do romance "Coisas Quebradas e Brilhantes", do escritor e roteirista César Augusto, publicado em 2022. Foto: Reprodução/Internet
Capa do romance "Coisas Quebradas e Brilhantes", do escritor e roteirista César Augusto, publicado em 2022. Foto: Reprodução/Internet

Em suas narrativas, a violência retratada é atravessada pela desigualdade, pela corrupção, pela ambição política, pelos conflitos e pelas estratégias de sobrevivência construídas dentro de instituições que nem sempre protegem aqueles que deveriam proteger. O crime agora nasce das relações de poder existentes naquela sociedade, e não mais como uma força estrangeira que invade um ambiente naturalmente pacífico.

Posteriormente, com a publicação de seu primeiro romance Coisas Quebradas e Brilhantes em 2022 (Editora Flyve), essa estética encontra sua expressão mais ampla. O livro acompanha uma quadrilha de assaltantes de bancos formada exclusivamente por mulheres. Para salvar a vida de sua mentora, mantida sob o domínio de um grupo misterioso, elas precisam executar uma sequência de roubos arriscados, enquanto também são perseguidas por um capitão do BOPE que pretende transformar a captura da quadrilha em oportunidade para impulsionar sua carreira política.


No noir clássico, a femme fatale ocupa um lugar central: sedutora, ambígua, perigosa e impossível de ser inteiramente decifrada; ela ameaça tanto o protagonista masculino quanto a ordem que ele representa. As mocinhas do gênero também não costumam ser figuras completamente transparentes, pois carregam seus próprios mistérios e contradições. César, portanto, não abandona essa tradição, ao contrário: parece reunir uma verdadeira quadrilha de femmes fatales. No entanto, a diferença está no lugar a partir do qual essas mulheres são observadas.


Rita Hayworth como Elsa Bannister, femme fatale de "The Lady from Shanghai" (1947, Orson Welles). Foto: Reprodução/Internet
Rita Hayworth como Elsa Bannister, femme fatale de "The Lady from Shanghai" (1947, Orson Welles). Foto: Reprodução/Internet

Mas e aí? Quem, afinal, veste o crime?

No romance, a resposta não pode ser encontrada apenas no uniforme ou no código penal porque a lei não aparece automaticamente como sinônimo de justiça, assim como a prática criminosa não elimina toda a humanidade de quem a comete, e é exatamente no espaço instável entre essas classificações que a escrita de César brilha. Suas personagens podem ferir e proteger, amar e trair, agir por necessidade, mas também por ambição… O ponto é: elas não precisam ser inocentes para serem humanas.

Em Coisas Quebradas e Brilhantes, as mulheres deixam de existir apenas como enigmas, tentações ou obstáculos na trajetória de um homem e passam a ocupar o centro da narrativa. Planejam, agem, falham, protegem umas às outras e movimentam toda a história. São oficialmente reconhecidas como criminosas, mas agem também por lealdade e pela tentativa de salvar alguém. Do outro lado está um representante da lei disposto a converter perseguição e violência em capital político. Assim, César não elimina a ambiguidade característica do noir: ele a desloca, permitindo que suas mulheres sejam, ao mesmo tempo, perigosas, vulneráveis, leais, ambiciosas e absolutamente femmes fatales.



Ilustrações de Anna Göebel/Autêntica Editora. Foto: Reprodução/Internet
Ilustrações de Anna Göebel/Autêntica Editora. Foto: Reprodução/Internet

Assim como a chita, o gênero chegou de fora, foi recebido por uma cultura que não se limitou a reproduzi-lo; e assim como a chita, pôde ganhar outros sentidos quando vestido por novos corpos, personagens, tramas, cenários e paixões. É assim que César Augusto recebe um gênero estrangeiro, reconhece suas influências, desfaz algumas costuras e o ajusta às contradições brasileiras. O resultado não nega o noir tradicional, mas também não aceita permanecer à sua sombra. Então, se como um bom filho do sistema você já conheceu o desfile em que o Diabo veste Prada, não deixe de conferir os desfiles criminosos do Ceará, onde, ao mesmo tempo, tudo aquilo que brilha socialmente (autoridade, prestígio, poder e sucesso) pode esconder fraturas profundas, em uma técnica perfeita que utiliza as ferramentas do noir para observar uma realidade que não precisa pedir licença para ser matéria de literatura, ou para sair da velha e empoeirada prateleira “regional”.



SAIBA MAIS

Perfil do próprio autor, com publicações sobre livros, roteiros e Tropical Noir.

Também achamos o substack de Cesar! Aqui ele reúne sua apresentação, projetos literários, roteiros e informações sobre Coisas Quebradas e Brilhantes.

CURIOSIDADES

Podemos separar a obra do autor? No caso de César, ele diz que depende! Todas as suas obras são construções e reflexos de grandes referências e repertórios, mas muitas delas também “vêm de vivências vindas” exatamente do lugar que ele retrata: o Ceará. Essa identificação aparece de maneira especialmente intensa nos personagens de Galo de Rinha (2020, Editora Segno Produções), seu primeiro conto publicado. Isso não significa que a narrativa seja autobiográfica ou que autor e personagem devam ser confundidos, no entanto, não deixam de carregar influências de experiências pessoais que, quando atravessados pela ficção, ganham outros corpos, sentidos, mensagens e contextos.

O autor criou uma comunidade no WhatsApp para conversar sobre literatura — especificamente sobre o Noir — com as pessoas que acompanham seus conteúdos sobre escritas, processos, jornadas e literatura.

Antes de escrever contos e romances, César participou de uma banda que contava, inclusive, com suas composições.


Comentários


MIX.png

A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

  • TikTok
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Spotify
bottom of page