De Edgar Allan Poe a Clarice Lispector: como o Clube do Conto redefine a cena literária em Caruaru

Por Cássio Holanda
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
Encontros transformam a leitura em experiência coletiva e formam novos escritores na Capital do Forró.
O encontro
Ao entrar na biblioteca Álvaro Lins, assinar o registro de visita e adentrar na parte interna do prédio, um visitante desavisado pode esbarrar em um círculo ovalado de cadeiras, com um grupo de pessoas debatendo de forma entusiasmada um texto que pode ser “Feliz Aniversário” de Clarice Lispector, “Venha Ver o Pôr do Sol” de Lygia Fagundes Telles, “Entrelaces” de Carola Saavedra, “A galega da Cadisa” de Leandro Bacamarte ou “O poço e o pêndulo” de Edgar Allan Poe. Este visitante acabou de descobrir o Clube do Conto de Caruaru.

O Clube é formado por leitores que almejam ou já têm contato com o fazer da escrita. Nos encontros, todos escolhem, por meio de votação, uma narrativa específica para debater e analisar, para que na semana seguinte possam levar novos contos escritos com base no texto analisado. Todo o processo é mediado por Sandra de Lima, escritora, dramaturga e roteirista. Mestre em Multimeios pela Unicamp, Professora na Aeso - Faculdades Integradas Barros Melo (de 2006 a 2016), Coordenadora do curso de Marketing na Unipê - Centro Universitário de João Pessoa (de 2017 a 2019) e uma das vencedoras do 7° e 8° Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia. Além disso, também foi finalista do Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, em 2022, com Piedade, amor e piedade (Editora Urutau, 2022). Sandra de Lima é geralmente acompanhada na mediação por Alyson Monteiro — produtor cultural, revisor, escritor e editor; ele é também sócio-fundador da Editora Arrelique (Caruaru–PE) e vencedor do XI Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, em 2025.
Sobre como surgiu a ideia de criar um Clube do Conto em Caruaru, Sandra Lima relata que: “Eu participei de um Clube de contos virtual e percebi que as leituras e discussões contribuíram bastante no meu processo de escrita. Então, conversando com uma amiga, ela me disse que fazia parte de um Clube de conto na Paraíba, com Maria Valéria Rezende, em que eles se reuniam todos os sábado para discutir o conto escrito pelo grupo. Então, eu pensei um pouco com a cabeça de professora, que poderia ser interessante, ler contos de autores consagrados, discutir esses contos, e a partir da discussão, usar as análises para escrever outros contos, e novamente partilhar com o grupo. Foi assim que surgiu o Clube do Conto de Caruaru.”
Hoje, o Clube do Conto conta com 25 membros, considerando os mediadores do grupo. Os encontros acontecem tanto presencial como online, quinzenalmente. O formato de conto, com texto mais curto do que um romance — mas muitas vezes tão densos quanto — ajuda na velocidade da leitura, análise e discussões, e em uma produção mais acelerada de textos para serem lidos pelos participantes nos encontros.
Além das análises de obras de autores renomados e leituras dos textos escritos pelos participantes, o Clube também oferece encontros com escritores consagrados em âmbito nacional, como foi o caso da conversa online realizada com a escritora Maria Valéria Rezende — escritora brasileira, nascida em Santos-SP e que hoje reside em João Pessoa-PB. Vencedora do Prêmio Jabuti de 2009 na categoria literatura infantil com o livro No risco do caracol (Autêntica, 2008) com desenhos realizados pela ilustradora Marlette Menezes. É uma das idealizadoras do coletivo literário feminista “Mulherio das Letras”. No dia 19 de agosto deste ano (2026). Maria Valéria falou sobre sua experiência na produção textual e abriu escuta para perguntas dos membros do Clube do Conto. Ainda irão ocorrer encontros com outros autores, como Nadezhda Bezerra, escritora e roteirista, integrante do Clube do Conto da Paraíba, escritora do livro Obrigada por vir (Opera Editorial, 2022) e vencedora do prêmio de Melhor Roteiro no 14º Festival Comunicurtas pelo documentário Frei Damião: o Santo do Nordeste (Dirigido pela cineasta Deby Brennand, 2019). Os integrantes do Clube do Conto de Caruaru também experienciaram um encontro com o escritor Mário Rodrigues, vencedor do prêmio Sesc de Literatura (2016), Prêmio Pernambuco de Literatura (2023) e finalista do Prêmio Jabuti (2017).

É interessante notar que o Clube do Conto estimula a formação de uma nova leva de escritores de um gênero de escrita que possui grandes nomes em Pernambuco, como Marcelino Freire, nascido em Sertânia, e vencedor do prêmio Jabuti (2006) pelo livro de contos Contos Negreiros (Record, 2006), ou então Luzilá Gonçalves Ferreira, imortal da Cadeira nº 38 da Academia Pernambucana de Letras e premiada com o Prêmio Joaquim Nabuco (1996), concedido a biografias, com o livro Os Rios Turvos (Rocco, 1993), que conta a vida romanceada do poeta luso-brasileiro Bento Teixeira.
O conto analisado mais recentemente foi o “Em nome do pai” de Bethânia Pires Amaro, pernambucana radicada em São Paulo, que publicou o texto no livro de contos O Ninho (Record, 2023), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2023 na categoria "Conto", e ganhador do Prêmio Jabuti de 2024 na mesma categoria. Muitos aspectos desse conto foram analisados nos encontros do Clube. Sobre os aspectos técnicos — estrutura, construção de personagens, ritmo, diálogos — que costumam ser analisados nos contos lidos para servirem de inspiração nas criações do grupo, Sandra Lima fala que: “No início do Clube, eu trouxe alguns aspectos teóricos do conto e a partir deles começamos a analisar os contos que líamos, tanto do ponto de vista da estrutura quanto do conteúdo, além do estilo do autor(a). Eu acredito que o importante é que cada um se sinta à vontade para escrever, e rever, e reescrever, tentando encontrar a própria voz literária. E isso tem acontecido naturalmente no grupo.”
Uma das integrantes do Clube, Marília Pessoa, comunicóloga formada pela UFPE, Mestranda em Comunicação e autora do livro A verdade no abismo (Editora Minimalismos, 2025), explicou como este processo de análise da estrutura dos contos escolhidos auxiliou no destravamento de sua própria escrita: “As leituras e discussões dos contos me trouxeram insights interessantes para a escrita. Observar como o autor ou autora escreve sobre determinado assunto, sentimento ou situação pode ajudar a descobrir formas interessantes de fazer isso na própria história. As conversas em grupo sobre passagens dos contos também me ajudaram a enxergar mais detalhes de cada texto.”
Já Romário Gouveia, outro integrante, autor do conto “A felicidade de Gigio” que foi publicado na antologia Corações selvagens (Editora Arrelique, 2026), afirma que: “Analisando um conto que a gente lê, não só do ponto de vista do enredo que ele oferece, mas da estrutura, pensando as escolhas, determinadas estratégias de esconder determinada chave dentro daquele bloco, episódio textual, é com certeza uma maneira muito eficiente de revisar a nossa própria forma de contar a história. E também tira a gente desse lado puramente intuitivo. Todo mundo que lê, com alguma frequência, vai cada vez mais lendo melhor e vai assimilando também certos padrões. Às vezes a gente não consegue nomear esses padrões. E o clube de leitura proporciona isso. Refinar essa intuição desse leitor que sempre está em busca desse texto e vai criando mais e mais intimidade, mas também consegue dialogar com os nomes, com as coisas mais específicas da produção do conto. Embora seja uma grande roda, onde todo mundo consegue se relacionar muito bem, não existe lá um "academiquês", pelo contrário. É tudo muito orgânico e natural. Mas certamente vê o conto por esses viés da análise da sua forma de dizer, compreender o que o autor quis a partir daquela formulação, qual a intenção está escondida por detrás daquele jeito de organizar as palavras ou de suprimir determinado elemento. Isso tudo com certeza ajuda a gente a refinar o modo de escrever, a pensar as formas de revisar o texto depois que a criatividade jorra no papel.”
Ser lido
"É como alfinetar a vaidade de escrever e querer e não querer ser lido", afirma Romário Gouveia.
Um dos momentos mais aguardados pelos participantes é a leitura dos contos produzidos. A dinâmica se dá da seguinte forma: os integrantes leem seus textos e, depois da leitura, os demais membros do grupo fazem comentários dando feedbacks ao contista que realizou a leitura. Este espaço dá oportunidade de troca de experiências entre os integrantes do Clube. Sandra Lima explica como funciona o momento de compartilhar os contos produzidos pelos membros e como é garantido um espaço seguro e construtivo para as críticas: "Eu creio que esse tem sido os melhores momentos do Clube. Nossos compartilhamentos são sempre muito acolhedores e profícuos. E, eu creio que isso se deve ao fato de termos construído um relacionamento de confiança mútua. Nossas observações sobre o trabalho do outro nunca são em tons de crítica, mas de colaboração. É nítido que o grupo vibra quando percebe que estamos crescendo juntos a partir da escrita individual de cada um de nós. Outro aspecto que eu considero importante é que não há hierarquia entre nós. Qualquer um pode contribuir com a escrita do outro, independente dos seus diplomas, títulos, prêmios ou experiência na escrita. Acreditamos que todos têm a contribuir, e muito, para o crescimento do grupo.”

Marília Pessoa explica a experiência de suas obras lidas quando fala que inicialmente estava nervosa porque nunca tinha lido algo que escreveu para outras pessoas que não faziam parte do seu grupo íntimo de amigos. A escritora relata a tensão inicial ao compartilhar suas produções fora do seu círculo próximo: “Eu não compartilhava meus escritos de ficção de maneira geral, era algo mais solitário. Somado a isso, ainda não tinha o costume de escrever contos, ainda não sabia como fazer isso. Quando li um dos meus primeiros contos e recebi os comentários dos integrantes do Clube, lembro que voltei para casa com um sorriso. Estava animada por ter compartilhado algo que escrevi e, mais ainda, por ter recebido comentários e sugestões interessantes.”
Romário Gouveia, fala que quando se tem um texto lido, é como desnudar-se. “Quando se tem um texto lido, é como se... Desnudar, sabe? Você tá em frente a uma multidão... E, de repente, a roupa cai. Essa, pelo menos, é a primeira sensação. Mas que bom que ela passa rápido, porque, ao invés das pessoas incentivarem o embaraço, pelo contrário, elas começam a recuperar as peças, e você começa a se recompor. E elas te dão sugestão de vestuário, você troca uma por outra, e endireita os pés, e arrumar os sapatos, sabe? Lubrifica o couro da alça da bolsa. Esse é o jogo. É gostoso. Você tem ansiedade pela leitura do colega, e também mantém alguma apreensão, mas logo baixa a guarda pelos feedbacks que vêm em seguida. Isso é enriquecedor. É como alfinetar a vaidade de escrever e querer e não querer ser lido. De qualquer forma, há uma bagunça dentro de quem escreve em relação às pessoas que estão lendo. Especialmente nesse contexto onde todos são pretensos escritores, ou, de fato, já o são. Enfim, é uma contradição. Aparente, mas funciona assim.”
Consolidação
O Clube do Conto de Caruaru chegou pra ficar (...) porque está se tornando um movimento e os movimentos são muito maiores que as pessoas, diz Sandra de Lima.
O Clube do Conto foi aprovado na PNAB Caruaru (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura ), o que proporcionou com que se estruturasse melhor o Clube, e abrisse um processo seletivo para novos participantes. A ideia é buscar publicar os contos produzidos no Clube. Sandra Lima aborda que, em relação à publicação, o problema é sempre o custo: revisão, diagramação, impressão e distribuição. Porém, atualmente, existe também a possibilidade da publicação de E-books. O importante é que se possa divulgar o trabalho dos jovens escritores e escritoras, e possibilitar que sejam lidos.

Todo este movimento acaba sendo um marco na história da literatura do Agreste Pernambucano, mas também apresenta desafios. O maior deles, afirma Sandra Lima, “é tirar as pessoas de casa, depois de um dia intenso de trabalho, de tantas atividades, para um local específico.” Porém, o encontro como lugar seguro de compartilhamento de ideias acaba atravessando todos estes desafios. Sandra Lima explica que: “Quem está sempre ali, sabe que é um espaço de acolhimento para sua escrita, que o grupo pode ajudar a alcançar um nível de maturidade maior no processo, e então, não tem cansaço que mantenha a pessoa em casa. Eu creio que em um mundo onde cada vez mais o individualismo impera, e a oportunidade dos encontros presenciais ficam escassos, alguns de nós escritores, percebemos que os encontros são fundamentais nesse processo de crescimento e avanço das nossas escritas. Eu acredito que escrever não é um ato solitário, e acho que assim como eu, outros também acreditam nisso. Por isso, tenha a certeza que o Clube do Conto de Caruaru chegou pra ficar, mesmo que cada um de nós siga outro rumo. Porque está se tornando um movimento, e os movimentos são muito maiores que as pessoas.”
Você pode conhecer melhor o Clube do conto de Caruaru acessando sua conta no Instagram, o endereço é @clubedocontocaruaru. Os encontros do clube acontecem presencialmente na biblioteca Álvaro Lins ou online via meet.

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