O sexy nasceu no Sudeste, o vulgar nasceu na periferia pernambucana
- Revista Spia

- há 31 minutos
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Por Lui Cadu
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
Nos últimos meses, elementos da cultura da periferia recifense têm ganhado espaço nas redes sociais não apenas em nível nacional, mas mundial. Foi através do “Passinho do Jamal” que a contracultura característica da região explodiu, alcançando públicos das mais diversas idades, culturas e regiões.

O embate acerca dessa explosão começa a partir do apagamento da origem dessa cultura: à medida que o Passinho do Jamal ganhou espaço, suas raízes na periferia recifense foram sendo escanteadas. Nas redes sociais, ondas de ataque sobre aqueles que tentarem inserir o Jamal no pedestal de criador da sua própria dança passaram a ser cada vez mais frequentes. Em contrapartida, enquanto a moda recifense foi colocada longe dos holofotes ao ponto de gerar debates sobre a autoria da dança mesmo com o nome do autor estampado na criação, o influenciador sudestino Arthur Lima ganhou destaque internacional, passando a frequentar eventos de moda e dança como autor do Passinho do Jamal. Apropriando-se da cultura da periferia recifense sem ao menos dizer “obrigado” ou dar os créditos ao criador, o influenciador do Sudeste já conta com mais de 20 milhões de seguidores, enquanto Jamal possui menos de 200 mil e coleciona comentários ofensivos em suas postagens no TikTok e Instagram.
A discussão ganhou ainda mais visibilidade quando o cantor Anderson Neiff veio em suas redes sociais falar sobre o caso, colocando como ponto de partida o racismo estrutural por trás das falas dos seguidores e amigos de Arthur. Ao analisar os comentários das postagens do criador do Passinho, percebe-se a repetição de falas inferiorizando sua arte e enaltecendo a reprodução dela quando realizada pelo “carinha lá de baixo”. Dentre as pautas comentadas em seus vídeos, seguidores reforçam como a onda massiva de ataques escondem as marcas profundas deixadas pelo regime escravocrata e pelo sincretismo por mais de 300 anos. Falar do apagamento midiático da moda periférica pernambucana também é falar de racismo. Também é falar das heranças da escravidão.


É importante dizer que não coloco a necessidade de um agradecimento como ponto central da minha crítica, até porque Pernambuco está longe de necessitar de algo que venha lá de baixo, tampouco coloco o criador de conteúdo como menos merecedor de seu sucesso, mas trago uma reflexão sobre o valor atribuído à moda da periferia pernambucana — seja nas roupas, na dança, na música, nas artes plásticas e nas mais diversas manifestações artísticas — em paralelo ao valor dado à cultura do Sul e do Sudeste brasileiro (mesmo quando essa cultura é, apenas, uma apropriação do Norte e Nordeste).
Sabemos que esse processo de apropriação e silenciamento é bem mais antigo do que gostaríamos de admitir. Na obra A Invenção do Nordeste e outras artes (Cortez, 2018) Durval Muniz nos mostra que o modo como a região Nordeste foi construída vai além da divisão territorial. Trata-se de uma percepção criada no início do século XX por discursos políticos, literários e econômicos para fixar estereótipos associados ao atraso tecnológico, estagnação econômica e incapacidade intelectual.

Enquanto essa imagem de um Nordeste atrasado ganhava força, o Sul e Sudeste passaram a ser “desenhados” como pólos de avanço tecnológico. Enquanto o homem nordestino era visto como caipira e a mulher como bruta e masculina, os homens e mulheres lá de baixo tornavam-se símbolos a serem seguidos no intelecto, na economia, na cultura e na moda. Fiz uma pesquisa na plataforma do Google Chrome para exemplificar como as identidades são representadas midiaticamente. As pesquisas realizadas foram com os termos: “homem nordestino”, “homem do sudeste”, “mulher nordestina” e “mulher do sudeste”.

Apesar da obra de Muniz discorrer sobre uma identidade forjada por interesses políticos no século XX, percebemos que, midiaticamente, esse processo ainda acontece. Nas primeiras imagens vemos os resultados para as pesquisas “homem nordestino” e “mulher nordestina” Nas fotos, a presença de homens e mulheres seguem o mesmo padrão: pessoas com roupas simples, com elementos que remetem aos cangaceiros e com a seca presente no cenário ao fundo. Em contrapartida, nos resultados para as pesquisas “homem do sudeste” e “mulher do sudeste” vemos pessoas que, embora estejam com roupas simples, ainda assim são roupas modernas, sem elementos estereotipados de suas culturas. O ponto que mais me chamou atenção foi a dualidade entre os resultados sobre as mulheres. Aqui, fica nítido que, para a mídia, a mulher do Nordeste é bruta e “tem sangue de lampião”, enquanto a do Sul cresce profissionalmente e não têm suas identidades limitadas a personagens masculinos.
A mídia acredita mesmo que os homens e mulheres das periferias pernambucanas se assemelham à esses “personagens” criados para o Nordeste?
O homem da periferia de Pernambuco não é Lampião. A mulher da periferia de Pernambuco não tem sua identidade forjada pelo sangue de Lampião. As pessoas da periferia de Pernambuco não vêem cactos, chão seco e sol escaldante quando olham pela janela. As pessoas da periferia de Pernambuco não têm intelecto, cultura e moda inferior à da galera lá de baixo. Pelo contrário! A periferia pernambucana é espaço de constante mudança, de nascimento de contraculturas, de resistência e de reexistência. Também não estou aqui para dizer que esse Nordeste não existe ou que nunca existiu, estou pontuando que existem muitas outras faces nordestinas que destoam completamente desse estereótipo.
Rato sem ser vulgar!
Um ponto que chama atenção nos resultados das pesquisas é como a estética — tanto nas roupas como no ambiente — funciona como ferramenta primordial para esse processo de inferiorização do “ser nordestino”. Neste momento, proponho o oposto: iremos analisar como a moda das periferias recifenses (onde Jamal e seu Passinho nasceram) representam resistência, história e cultura no cotidiano.

A cultura ratosa surge em Recife, Pernambuco, e populariza-se a partir da produção sonora, de memes, de estética e de conteúdo midiático, chegando à ascensão com a explosão do brega funk por volta de 2019 e atraindo debates sociais e políticos em 2025 com a popularização do RatosBar (bar localizado dentro de esgotos das comunidades periféricas e do Passinho do Jamal. A cultura que antes era vista como “coisa de maloqueiro” agora passa a revelar estigmas sociais como a falta de saneamento básico, escassez na saúde pública e com a marginalização dos povos dessas comunidades.
A música foi o ponto de partida dessa explosão: foi com o brega funk que os jovens da região metropolitana do Recife e de outras regiões do estado ganharam destaque nas redes sociais, criando e reproduzindo passinhos e servindo de referência estética uns aos outros.
Nesse ritmo, em 2025 surge o Passinho do Jamal e com ele cresce o debate sobre o valor atribuído às contraculturas das periferias. No mesmo ano, o RatosBar estoura nas redes sociais através de memes e gírias utilizados no cotidiano desse grupo. Contudo, a sua localização chama atenção: um bar em esgoto a céu aberto, onde lixo é descartado, atraindo animais transmissores de doenças letais para seres humanos. Apesar da fama, a dinâmica do local e as diversas modas que surgem para ressignificá-la refletem a história da cidade do Recife que, diga-se de passagem, foi e segue sendo negligente com a periferia.

Segundo o Portal Marco Zero, mais da metade (55%) da população residente da Região Metropolitana do Recife não conta com serviços de coleta de esgoto, sendo as periferias as principais afetadas. Historicamente, as comunidades recifenses enfrentam a falta de políticas públicas que invistam na infraestrutura de esgoto e em um padrão de distribuição. Isso acontece devido a uma profunda desigualdade socioespacial perpetuada através das políticas urbanas (ou melhor, da falta delas). Enquanto a periferia da cidade é negligenciada, a prefeitura aproveita para privatizar parques públicos em bairros nobres e de classe média. Nada como varrer para debaixo dos panos, né? O que os olhos não veem, a periferia sente.
Outro ponto importante é destacar a presença feminina na construção da contracultura ratosa: entre princesas e ratas, as mulheres das periferias cada dia mais ganham espaço na mídia, como aconteceu com a influenciadora conhecida como Mãe Isa (Isadora Karolina) que ganhou fama com conselhos de empoderamento feminino e sobre relacionamentos, além de utilizar suas contas para denunciar casos de agressão contra a mulher e mostrar que as vítimas nunca estão sozinhas. Assim como Mãe Isa, as ratas constroem identidade própria, independente da figura dos homens.

Por fim, a periferia pernambucana é mais do que um estereótipo e estigma social: é reexistência mesmo quando a mídia lá de baixo tenta apropriar-se ou silenciar sob discursos racistas e excludentes social e economicamente. Por outro lado, mesmo diante da diversidade cultural marcante nessas regiões, as falhas políticas não devem ser esquecidas ou normalizadas, pelo contrário! A moda dos ratos surge como forma de contra-atacar e mostrar que a periferia é vulgar sim, mas é sexy antes de tudo e por isso merece ser valorizada e cuidada!
SAIBA MAIS |
Na produção desta coluna descobri uma criadora de conteúdo incrível e que contribuiu muito para meu entendimento sobre essa contracultura recifense, então fica aqui minha recomendação: conheçam a Preta Letrada (@pretaletrada), lá ela “passa a visão do que há de preto no mundo. |
O Marco Zero é um portal de notícias recifenses que discute assuntos pouco comentados em pautas produzidas por veículos tradicionais, como a arte na periferia. Aproveite para conhecer outras fontes de jornalismo. Link da matéria “A relação entre desigualdade, periferia e esgoto na metrópole do Recife” utilizada na composição do texto esta disponível aqui. |
CURIOSIDADES |
Você sabia que a gíria “clarinho que” e “e vai gerar!” são fruto da cultura ratosa? Pois é! O Qui Qui Qui desse povo é babado! |
Nem todo rato é ratoso. Nessa cultura, diversas identidades surgiram e aí vieram os mais diversos estilos e definições: temos o rato peso, o rato rei, a ratona, a rata princesa. Veja aqui com qual tipo de rato você se identifica. |

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