Vestir também é um ato de crença

Por Rafaela da Hora
Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins
Nota da autora: o texto a seguir foi produzido com base em várias pesquisas para não causar nenhum constrangimento, por falta de informação ou informação errônea aos seguidores das religiões. Intolerância religiosa é crime!

A moda pode se comunicar de diversas formas, inclusive em manifestações religiosas. Tais indumentárias retomam suas raízes históricas, como é o caso das roupas de santo em religiões de matriz africana. Algumas têm origem nas roupas dos escravizados durante o período colonial brasileiro. Estas vestes, cada qual com suas cores e formas, de acordo com cada uma das religiões e dependendo de suas respectivas tradições, possuem diferentes significados que foram repassados de modo geracional.
É importante ressaltar que estas vestimentas são utilizadas como marca identitária das religiões, usadas principalmente em festividades, representação das divindades, ou como vestuário simples, como afirma Carla Barros, proprietária da loja de artigos religiosos “Épona Arte e Magia”, de Caruaru. O vestuário simples, isto é, a roupa que se usa em giras, que são as reuniões onde espíritos de uma determinada categoria se manifestam por meio da incorporação nos médiuns, se chama “roupa de ração”. E esta veste é usada para os iniciantes na religião. Ela é composta por uma bata branca e calça da mesma cor, ou, para as mulheres, uma saia rodada. A escolha do branco vem do significado de ser uma cor que transmite paz, e representa o início, como afirma o Padrinho Juraci da Jurema, pai de santo e presidente da Comissão Estadual de Umbanda de Pernambuco.

Além das vestes comuns, há os trajes para giras em que celebram as pombas-giras e os exus. Tata N’ganga Musakidí, pai de santo da quimbanda em Garanhuns, afirma que a escolha das vestimentas e o uso das cores nos trabalhos das entidades durante o culto da quimbanda são relacionados à forma de trabalho delas e do reino em que atuam. Cada cor ou combinação de cores é atrelada a um dos sete reinos da quimbanda, que são: Reino das Encruzilhadas, Reino dos Cruzeiros, Reino das Matas, Reino da Calunga Pequena, Reino das Almas, Reino da Lira e Reino da Calunga Grande.
A saia da pomba-gira também pode emitir sinais durante o culto. “Quando ela está segurando a saia na altura da cintura, ela expressa receptividade. Quando ela faz um movimento similar a uma varredura, está expressando descontentamento com algo.”, afirma o sacerdote.
Acessórios como os chapéus e turbantes, também chamados de ojás (mais precisamente em religiões como candomblé e umbanda), também são elementos muito importantes para as giras, já que eles possuem uma função espiritual: proteger o núcleo da cabeça onde se encontra o portal do chakra coronário, o maior centro de energia do corpo humano, que também pode ser chamado de Orí (“cabeça” em Iiorubá).

As guias são elementos de proteção em religiões como o candomblé e a umbanda. Elas atuam como um escudo que absorve energias negativas e densas do ambiente, impedindo que afetem o médium. Caso a guia arrebente, significa que ela absorveu uma sobrecarga de energia pesada. Gabriel Sena, proprietário da loja “Beleza da Rosa”, em Caruaru, diz que cada conta pode representar uma entidade, criando assim, um elo direto: amarelo é para Oxum, azul — dependendo da nação, que é a subdivisão ou ramo específico da mesma religião —, é Oxóssi ou Iemanjá, branco para Oxalá, azul escuro para Ogum, vermelho terracota é de Iansã.
Ainda há as combinações de cores, preto e branco para Preto Velho ou Omolu, preto e vermelho para o “povo da rua”, que são as entidades que em vida foram marginalizadas e agora são Exus e Pombas-giras. Por outro lado, a depender do tamanho das contas, podem expressar uma relação hierárquica no culto. Contas maiores e de cor marrom são destinadas aos cargos mais antigos do terreiro, como um pai de santo ou um juremeiro.

Ademais, este conjunto de vestuário para quem cultua as religiões é visto como uma manifestação afetiva de respeito. Relatos de costureiras que trabalham especificamente para os terreiros mostram que a arte da criação de roupas vem para representar a entidade que rege a vida das pessoas que portam os trajes nas manifestações religiosas, mostrando o cuidado que o mundo físico possui com o espiritual.
Caso as costureiras tenham que confeccionar uma roupa para elas mesmas, é necessário realizar um momento de reflexão e se concentrar no que a entidade quer. Quando é o caso de criar uma roupa para outro frequentador do terreiro, o processo é quase o mesmo de uma costureira comum: a pessoa faz o pedido da vestimenta e conversa para saber como ela imagina o produto final. Enquanto a costureira pesquisa referências, a ideia que estava na mente do cliente consegue saltar da mente dela.

Durante a confecção das roupas, as entidades podem determinar cores específicas para os tecidos. Quando as costureiras não encontram exatamente o tom solicitado, mesmo que seja um tom parecido e com o dinheiro para comprar o tecido, é quase como se um campo magnético estivesse as impedindo de realizar o ato.
Contudo, a religião ainda sofre preconceito que em, muitas das vezes, não é velado. Comentários que vêm de pessoas que não conhecem a cultura dos terreiros acabam trazendo uma imagem negativa às religiões. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Pernambuco registrou, em média, 15,3 denúncias ou violações à liberdade de religião ou crença por mês durante o ano de 2025.

“Eu vivencio o respeito de uma forma natural, mostro para o mundo a religião que pratico e tento levar minha fé por onde andar.”, relata Thomas de Ritinha de Caruaru, que se encontrou na umbanda há cinco anos. A religião segue sendo seu maior refúgio, apesar da intolerância religiosa que consegue ver ao seu redor. “Eu jamais abandonarei ou pararei de cultuar! Cada um segue o que se sente bem de verdade.”
Thomas comenta que a preservação das indumentárias é algo sagrado, e só pode ser usado em dias de reunião ou eventos, e não se pode consumir bebidas alcoólicas com elas, especialmente as guias e cachimbos porque são ferramentas de trabalho, descarrego e manipulação energética.
Em suma, as religiões de matriz africana não só promovem a conexão entre o ser humano, a natureza e as divindades apenas com o culto, mas com a comunicação do vestuário e, ainda, aportam às culturas a preservação da história e da tradição. A pessoa pode não ter nascido na época em que sua entidade viveu, mas consegue ainda preservar seu legado por meio do vestuário que ela usa na gira.

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