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O que nos resta após a festa?

Foto do escritor: Revista Spia
Revista Spia
há 11 minutos
4 min de leitura

Por Milena Pontes

Trabalho aprovado por Paula Donato e Marcelo Martins


Estação ferroviária, São João de Caruaru (2023). Foto: Reprodução/Internet
Estação ferroviária, São João de Caruaru (2023). Foto: Reprodução/Internet

Conhecida como “Princesinha do Agreste”, Caruaru ganha uma nova dimensão com a chegada do São João. Das zonas rurais ao centro urbano, a cidade transforma-se em festejos espalhados por diversos polos culturais, enquanto milhares de pessoas abrem espaço nos dias cotidianos para prestigiar e trabalhar em uma das maiores manifestações sociais do município. No entanto, como toda celebração tem seu término, o mesmo acontece na capital do forró.

Com o encerramento das festividades juninas, é comum que a população descreva um sentimento de desânimo, cansaço e vazio após este período de grandes e intensas atividades. Esse sentimento, frequentemente associado à chamada “depressão pós-folia”, pode ser observado não apenas na experiência individual, mas também em discussões coletivas que surgem em torno do fim do São João. Nas últimas edições do evento, cresce em parte da comunidade local a percepção de que uma festa tradicionalmente conhecida como feita “do povo e para o povo” é pensada para quem vem de fora, ao mesmo tempo que quem constrói não só a festa mas também a cidade permanece à margem dos fogos de artifício que se vão quando junho termina.


Estação ferroviária Caruaru. Foto: Reprodução/Internet
Estação ferroviária Caruaru. Foto: Reprodução/Internet

“O São João de Caruaru tá perdendo a centralidade e isso dói pra quem é daqui, pra quem nasceu, pra quem cresceu sabendo que Caruaru é a capital do forró. A gente precisa lembrar que São João não é só uma line-up. São João é cultura, é povo, é tradição, é história.” O desabafo é da blogueira caruaruense Kauanny Larissa, que usou as redes sociais para expor seu descontentamento com os rumos da festividade nas últimas edições do São João de Caruaru.

Para Kauanny, o problema não está na proporção que evento vem tomando, mas na perda de um sentimento de pertencimento que atravessou décadas marcando a comemoração, assim como também a incomoda a forma como os festejos e a grande festa em si têm sido organizados. O questionamento que surge no imaginário da blogueira e dos seus seguidores é uma dúvida sobre o São João continuar sendo pensado para os moradores da cidade, mas quem realmente se beneficia das movimentações econômicas anunciadas todos os anos? Eles, nós, os turistas?

Essa percepção não aparece de maneira isolada. A cantora Solange Almeida, em entrevistas concedidas durante a temporada junina 2026, afirma que a festa vem perdendo parte da sua essência ao priorizar artistas que atraem grandes públicos, enquanto os espaços destinados a artistas como Santanna, que representa enormemente a tradição, têm se tornado cada vez menor. Para ela, sem esses forrozeiros a festa nem existiria. Tanto para Solange, como para Kauanny, fica claro que o São João não pode ser reduzido a lucros e estratégia de mercado. Ele precisa continuar sendo um espaço de valorização da cultura e de quem a mantém viva.


Solange Almeida e Santanna na gravação do São João (2026). Foto: Reprodução/Internet
Solange Almeida e Santanna na gravação do São João (2026). Foto: Reprodução/Internet

A sensação dessa mudança repentina na cidade também é sentida por quem passou a viver Caruaru recentemente. O palmarense e estudante universitário Fausto Paranhos, um bom representante desse grupo, resume essa dualidade em seu relato: “O primeiro São João morando em Caruaru foi uma experiência muito doida. Mas, quando junho acaba, a cidade parece sucumbir a um cotidiano morto.”

Se a dualidade para Fausto está nos meses pós-festividades, para a estudante de farmácia e caruaruense Bruna Tenório, ela se manifesta na forma como a cultura é valorizada. Para a jovem, a cultura de Caruaru parece que, em muitos momentos, é lembrada apenas com muito mais força durante a época junina. Depois que a comemoração acaba, deixa de ser dedicada a ela a mesma valorização cultural. “É como se a cultura fosse uma decoração de temporada, quando, na verdade, deveria fazer parte da vida da cidade durante o ano inteiro.”, relata Bruna.


São João de Caruaru na Estação Ferroviária (2026). Foto: @fauparanhos
São João de Caruaru na Estação Ferroviária (2026). Foto: @fauparanhos

Se as manifestações populares só ocupam posições de destaque em períodos de festa, quem a produz também enfrenta as consequências desse movimento. Quando o mês termina, trabalhadores da cultura voltam a lutar por espaços, reconhecimento e remuneração por seus serviços, em uma cidade onde o São João parece assumir, cada vez mais, um caráter comercial.

A invisibilidade dos artistas locais não aparece apenas na perda de espaços na programação, mas também nas condições de trabalho e na demora para receber pelos serviços prestados durante a maior festa de Caruaru – e de Pernambuco e, quiçá, do Brasil. Segundo carta divulgada pelo Movimento Levante ProArte, o novo edital, previsto para ser publicado em 14 de setembro de 2026, poderá estabelecer prazo de até 90 dias para o pagamento dos cachês.

A controvérsia entre os investimentos destinados às grandes atrações e as condições oferecidas aos artistas da terra pode ser observada em publicação nas redes sociais do candidato a deputado federal Jones Manoel. Ele veio a público questionar os reais beneficiados pelo São João de Caruaru e defender a valorização dos artistas pernambucanos. Na matéria do Diário de Pernambuco, “Contratações para shows do São João de Caruaru estão R$2 milhões acima do teto previsto, diz MPPE” publicada em junho de 2026, o contraste entre os altos investimentos destinados às grandes atrações e as condições oferecidas aos artistas locais fica ainda mais evidente.

Se o São João caruaruense movimenta milhões de reais e atrai turistas de todo o país, questiona-se por que quem sustenta essa tradição durante todo o ano ainda enfrenta invisibilidade, demora para receber pelo próprio trabalho e cada vez tem menos espaços dentro da maior celebração da Capital do Forró. Como resume a caruaruense Bruna Tenório: “O São João pode continuar sendo o momento em que a cidade se transforma e fica ainda mais bonita, mas a cultura que dá sentido a essa festa precisa permanecer viva quando as bandeirinhas forem retiradas e o silêncio voltar às ruas.


São João de Caruaru (2026). Foto: Reprodução/Internet
São João de Caruaru (2026). Foto: Reprodução/Internet

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