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  • Circuito Literário de Pernambuco em 2026 teve como tema “Educação para a Cidadania Digital e Midiática: formando cidadãs e cidadãos críticos e responsáveis”

    Por Isadora Ascendino Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins CLIPE 2026 conta com mais de 38 estandes e 600 editoras no Polo Caruaru. Foto: Paula Donato Ter o hábito da leitura gera impactos positivos na saúde mental e cognitiva do ser humano. Estudos científicos sugerem que aquele que lê um livro regularmente tem níveis mais baixos de estresse, proteção contra o declínio cognitivo e pode, inclusive, ampliar sua expectativa de vida. Estar em uma sociedade com constantes avanços tecnológicos influencia o consumo acelerado de conteúdos digitais de fácil acesso e compreensão. Atualmente, o hábito de ler livros no país está em um preocupante alerta: segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil 2024”, análise mais recente do Instituto Pró-Livro, 53% da população brasileira não possuem o hábito da leitura. Por mais que a tecnologia possa ser utilizada como aliada no processo educacional, é necessário o incentivo ao contato com os livros desde a infância, uma vez que os estímulos rápidos presentes no dia a dia têm impactado cada vez mais a concentração e o interesse por leituras mais longas e densas. Estudante da ETE Edson Mororó Moura, Ana Laila Barros, em entrevista à Revista SPIA. Foto: Isadora Ascendino A estudante do terceiro ano do ensino médio, Ana Laila Barros, da ETE Edson Mororó Moura, em Belo Jardim, afirma que o hábito da leitura se dá por prazer. Ela acredita que através da literatura é possível desbravar e imaginar outras realidades. Participante do CLIPE há três anos, ela reflete: “Hoje em dia é tudo automatizado. Há os ebooks, o kindle, mas, para mim, ler livros físicos é uma outra experiência”. Ainda de acordo com o estudo "Retratos da Leitura no Brasil 2024”, a proporção de leitores em Pernambuco acompanha a média do Nordeste, que gira em torno de 43% a 47% da população. Isso porque a definição de “leitor” para a coleta é toda pessoa que leu ao menos um livro nos últimos três meses, seja por inteiro ou em partes. Desta forma, em 2024, o Governo do Estado de Pernambuco criou o Circuito Literário de Pernambuco (CLIPE), projeto idealizado pela Secretaria de Educação e Esportes do Estado (SEE) que busca ampliar e debater o acesso à literatura promovendo feiras de livros, atividades culturais e educativas em várias regiões do estado. Ambiente para rodas de conversas propostas pelo evento. Foto: Isadora Ascendino A edição de 2026 foi dividida em quatro etapas, abrangendo as cidades de Serra Talhada, Sertão do Pajeú (24 a 29 de março), Petrolina (07 a 12 de abril), Recife (22 a 28 de abril) e, por fim, Caruaru (25 a 3 de maio), no Polo Caruaru, permitindo o acesso às políticas públicas de leitura e fortalecendo o vínculo entre leitura, literatura e comunidade. Expositor da distribuidora “Toque Mágico Livros”, Júlio César da Costa, em entrevista à Revista SPIA. Foto: Isadora Ascendino O expositor da distribuidora “Toque Mágico Livros”, Júlio César da Costa, afirmou a importância da leitura no desenvolvimento humano. “Eu trabalho com livros há mais de 15 anos e incentivo cada vez mais a leitura, principalmente nos dias de hoje”, comenta. Ele citou a importância de projetos como o CLIPE, um circuito completo que busca acessar as mais diversas comunidades presentes no estado. Para ele, iniciativas assim propagam cultura e informação e promovem acessibilidade à comunidade. O tema do CLIPE está sempre vinculado ao tema proposto pelo Estado ao ano letivo, este ano sendo “Educação para a Cidadania Digital e Midiática: Formando Cidadãs e Cidadãos Críticos e Responsáveis”. O projeto tem como objetivo incentivar a leitura, instrumento essencial para o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia e da formação cidadã, prevendo debates sobre o uso ético das tecnologias, direitos humanos no ambiente virtual e combate à desinformação. Professor da ETE Edson Mororó Moura, Edson Nogueira, em entrevista à Revista SPIA. Foto: Isadora Ascendino O professor de Educação Física, Edson Nogueira, também da ETE Edson Mororó Moura, considera o evento como totalmente necessário. Ele afirmou que, sendo da área da educação, entende na prática como a leitura auxilia os jovens na melhora do vocabulário, aportando ao estudante mais conhecimento e o aproximando da sociedade. “Hoje, eu procurei livros não somente da minha área, mas também livros que dialogam com o pensamento antirracista, por exemplo, para um projeto que eu elaboro dentro da escola sobre o Dia da Consciência Negra.”. O educador frisou também a importância de tentar se adaptar aos interesses da juventude, para que possa conduzi-la de forma interessante para assuntos que precisam ser discutidos com uma maior seriedade. “Eu troco muito com os alunos, tento me inteirar no universo deles e assim trago para sala de aula temas que devem ser debatidos e refletidos por nós como cidadãos”. Edição do CLIPE 2026 encerra o circuito no Polo Caruaru. Foto: Isadora Ascendino Aberto ao público, o evento fortaleceu o acesso à cultura e ao livro na região. A programação contou com 38 estandes e mais de 600 editoras, montados para a comercialização de livros para todas as idades e gostos. Além de palestras, oficinas, rodas de conversa e intervenções artísticas, com nomes de destaque nacional nas áreas de educação e da literatura. Por isso, o CLIPE celebra a literatura e ajuda a construir um futuro mais justo e acessível. Além da compra de livros pela internet por sites, sebos ou até pela Amazon, é importante manter o hábito de procurar livros em locais como feiras de livros, como é o caso do CLIPE. Para que, desta forma, haja também a interação daquele indivíduo na sociedade. Observar com atenção os livros expostos e desbravar de maneira curiosa aquele que lhe interessou – seja pela capa, pelo título ou pela textura da folha na mão – é uma experiência que o ambiente digital não consegue permitir viver. Uma vivência que apenas a humanidade e a interação pessoalmente podem proporcionar.

  • Do croqui ao “arraiá”: os bastidores da criação dos figurinos de quadrilhas juninas

    Por Clara Orange A abertura do São João de Caruaru, realizada em 30 de maio, marca oficialmente o início de um dos períodos culturais mais significativos do Nordeste brasileiro, dando espaço à uma ampla programação de festejos, apresentações artísticas e manifestações tradicionais. Dentre essas expressões culturais, destacam-se as quadrilhas juninas, importantes patrimônios populares que mobilizam comunidades inteiras em torno da dança, da música e da preservação das tradições nordestinas. Muito além de uma simples apresentação festiva, as quadrilhas juninas constituem um fenômeno sociocultural de grande relevância, promovendo o fortalecimento dos laços comunitários, a valorização da identidade regional e a transmissão de saberes entre gerações. Durante os meses anteriores aos festejos, integrantes dedicam-se a intensas rotinas de ensaios, preparação cênica e desenvolvimento de narrativas temáticas que culminam nas grandes competições e festivais realizados principalmente em estados nordestinos como, Pernambuco, Paraíba e Ceára ao longo do período junino. Nesse contexto, um dos aspectos fundamentais para a construção do espetáculo é a elaboração dos figurinos. Desde a concepção criativa e pesquisa estética até a modelagem, confecção e finalização das peças, o vestuário desempenha um papel essencial na narrativa visual apresentada em cena, contribuindo para a identidade e a expressividade de cada quadrilha. Como os figurinistas, designers e costureiras responsáveis por essas produções se preparam para uma temporada tão intensa e ansiosamente aguardada? Para compreender melhor os processos criativos e técnicos envolvidos nessa área, convidei para esta entrevista o desenhista e ilustrador Wallison Costa (@wallisoncosta76) da cidade de Mamanguape na Paraíba. Especializado em figurinos de quadrilha junina, o profissional atua há anos no segmento e, na temporada de 2026, desenvolveu projetos para mais de dez grupos juninos de cidades como Caruaru, João Pessoa e Fortaleza, consolidando-se como uma importante referência para o norte e nordeste nesse universo artístico e cultural. Entrevista Quais referências e cuidados orientam a criação dos seus figurinos juninos? Minha criação começa a partir da temática proposta. Costumo buscar referências na dança, nos folguedos populares, na literatura e na música. A escolha das cores, materiais e detalhes depende muito do tema trabalhado. Quando a proposta envolve o Sertão, por exemplo, utilizo tons mais terrosos e materiais rústicos, como couro, palha e flores de tecido. Já em temas mais lúdicos ou ligados a manifestações culturais e personalidades nordestinas, trabalho com cores mais vibrantes e materiais variados. Também utilizo elementos tradicionais como xadrez, chita, fitas de cetim, rendas, fuxicos e pedrarias, além de tecidos sublimados e pinturas à mão. Durante o processo de criação, considero a realidade financeira do grupo ou da pessoa que irá utilizar o figurino. Procuro desenvolver peças que se encaixem no orçamento disponível e, quando necessário, penso em materiais alternativos para substituir aqueles que possam ser difíceis de encontrar. Para mim, o figurino é muito importante porque ajuda a contar a história apresentada pela quadrilha e dá vida ao espetáculo. Figurino de quadrilha “Junina JuaPb” de Porto Velho - Rondônia idealizado por Wallison Costa. Foto: Larissa Izel Figurino de noivos da quadrilha junina "Flor de Caruá" de Caruaru idealizado por Wallison Costa. Foto: @jonmaker_ Como você vê a valorização do trabalho dos figurinistas e o que considera importante para quem deseja atuar nessa área? A valorização do trabalho dos figurinistas varia bastante. Existem grupos e clientes que reconhecem e valorizam nosso trabalho, principalmente aqueles com quem mantemos uma parceria de muitos anos. Por outro lado, também existem situações de desvalorização. Algumas pessoas exigem muito, não querem pagar o valor cobrado pelo serviço ou deixam de dar retorno após a realização do trabalho, o que pode gerar prejuízos financeiros e desgaste emocional. Para quem deseja trabalhar nessa área, acredito que o principal é gostar do que faz. Também é importante conhecer tecidos, materiais e técnicas de produção. Saber desenhar ajuda, mas não é necessário ter um desenho perfeito desde o início, pois essa habilidade pode ser desenvolvida com o tempo. Além disso, estudar e buscar conhecimento é fundamental. Meu conselho para estudantes de moda é que procurem conhecer e participar do universo junino, pois se trata de uma manifestação cultural muito rica e importante em nosso país. Croqui dos brincantes da quadrilha junina "Maranguape" do Ceára feito por Walisson Costa. Quais trabalhos marcaram sua trajetória e o que o público pode esperar dos figurinos desta temporada de 2026? Tenho vários trabalhos pelos quais tenho carinho, mas a temporada de 2026 é especialmente marcante porque tive a oportunidade de criar sozinho os figurinos da "Quadrilha Junina Joia Rara" da Paraíba. Em anos anteriores, o processo contava com a participação de outras pessoas, então essa experiência tem sido muito especial para mim. Neste São João, estou trabalhando com diversas quadrilhas das regiões Nordeste, Norte e Sudeste, dentre elas “Joia Rara”, “Fogueirinha” (João Pessoa - PB), “Lageiro Seco” (João Pessoa - PB), “Flor de Caruá”(Caruaru - PE), “Junina Cearense” (Horizonte - CE), “Paixão Junina” (Fortaleza - CE), “Xotear”, “Mistura da Terra”, “Fazenda Lampião” (João Pessoa - PB) e “Rei do Cangaço” (Parnaíba - PI). As temáticas envolvem o Nordeste, o sertão, referências africanas, Santo Antônio, os três santos juninos e manifestações culturais nordestinas. Entre os desafios criativos que enfrentei, destaco um projeto inspirado no conceito de Yin Yang, que buscava unir as cores preto e branco à estética junina sem perder os elementos característicos da tradição. Também considero marcantes os trabalhos relacionados aos povos originários e um projeto para a Fazenda Lampião, no qual voltei a realizar pinturas manuais em tecido. O público pode esperar figurinos com muitas cores e formas. Se eu tivesse que definir este momento em três palavras, escolheria: gratidão, alegria e emoção, sentimentos que representam tanto minha trajetória profissional quanto a experiência de viver os festejos juninos. Croqui do figurino de casal de brincantes para quadrilha junina "Porto Velho" de Rondônia feito por Wallison Costa.

  • A bola ao sol e à sombra sobre o olhar de Eduardo Galeano

    Por Cássio Holanda Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Em agosto de 1995, nos EUA, a Microsoft lançava o Windows 95 e revolucionava o mercado de computadores domésticos apresentando a internet a milhões de lares no mundo. Antes, também nos EUA, em abril, ocorreu o até então considerado maior atentado terrorista doméstico do país, quando dois supremacistas brancos e militantes de extrema direita resolveram explodir um caminhão-bomba em frente a um prédio do governo em Oklahoma City, matando 168 pessoas e deixando mais de 680 feridos. Em Kobe, no Japão, em janeiro daquele mesmo ano, as terras se abriram por causa de tremores que deixaram mais de 6.400 mortos. A guerra da Bósnia continuava a jogar irmãos contra irmãos em uma conflito sem sentido com massacres como o de Srebrenica. Fontes bem informadas de Miami anunciavam a queda iminente de Fidel Castro, que ia despencar em questão de horas. O Mercosul se consolidava e se expandia pela união de países sul-americanos, mas dois destes entravam em uma disputa armada: Equador e Peru lutavam em um embate fratricida na Cordilheira do Condor. No futebol, a seleção Uruguaia se sagrava campeã da Copa América, e via um de seus mais ilustres filhos escrever um clássico maior sobre a religião pagã mais cultuada no mundo, nascia a obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM Pocket, [1995] 2010), de Eduardo Galeano. Agora você deve estar pensando que é no mínimo inusitado abrir um texto sobre um livro de futebol desta forma, certo? Porém, para começar um texto que discute a obra de Eduardo Galeano, era preciso um pontapé inicial um pouco diferente, pois aqui, falaremos de um escritor que transita entre gêneros literários de forma fluida e original, e que comete, sem remorsos, a quebra de fronteiras da linguagem. Eduardo Hughes Galeano (1940 – 2015), nascido em Montevideo, no Uruguai, foi um jornalista e escritor com mais de 40 livros publicados e traduzidos para diversas línguas. Dentre suas obras, destacam-se O livro dos abraços (L&PM Pocket, [1989] 2005), o livro abordado neste texto, Futebol ao sol e à sombra, e o clássico maior As Veias abertas da América Latina (Paz e Terra, [1971] 2000). Eduardo Galeano. Foto: Reprodução/Internet Quando criança, o autor sonhou em ser padre e jogador de futebol, mas o cinismo crescente na adolescência e a falta de habilidade com a bola nos pés o distanciou destes dois caminhos profissionais, fazendo com que ele seguisse outro amor, o da escrita. Foi perseguido pela ditadura uruguaia, tendo que se refugiar em 1973 primeiro na Argentina e depois na Catalunha, Espanha. Só retornando para o Uruguai em 1985, quando a ditadura uruguaia chegava ao fim. Em Futebol ao sol e à sombra, obra na qual Galeano cria uma verdadeira epopeia sobre o futebol. Ele o apresenta desde o início do esporte, com um jogo similar jogado por chineses e outro, por povos da América anterior à invasão europeia. O texto prossegue até o início do futebol, criado pelos ingleses, com regras similares às que temos hoje. O livro é estruturado em formato de crônicas, à moda de Galeano, unindo fatos jornalísticos a um texto lírico, de certa forma até poético. As crônicas não são longas, o que transforma a leitura em uma atividade ágil e prazerosa, mas advirto, tem que ser consumida aos poucos, para que os textos sejam digeridos da forma cadenciada e produtora de um prazer que beira o estético. A leitura segue uma ordem cronológica na apresentação das figuras e contextos, sempre envolvendo o principal tema, o futebol. Livro "Futebol ao sol e à sombra". Foto: Acervo do autor Em temas solares, além de jogadores que se destacaram no jogo – como Obdulio Varela, capitão do Uruguai na vitória sobre o Brasil, na final da copa do mundo de 1950 –, o conhecido Maracanazo, Barbosa, goleiro brasileiro que entrou para a história por levar o gol da virada na final de 1950 e que, no dia de sua morte, foi manchete de jornais que faziam referência à referida derrota: “Brasil assiste a segundo enterro de Barbosa” (Folha de São Paulo, 2000). Também são apresentados Pelé, Maradona, Didi, Cruyff, Gullit, Puskas, Di Stefano, e outros jogadores fundamentais no futebol. Além disso, são abordados grandes esquadrões da história, como La Máquina, a equipe histórica do River Plate, O Santos de Pelé, O Carrossel Holandês encabeçado por Cruyff, e a divertida Colômbia de Valderrama e companhia. Em uma das mais belas crônicas do livro, Galeano relata um momento em que outro jornalista, Osvaldo Soriano, narra uma visita a um carrefour, construído em cima do antigo estádio do San Lorenzo, quando ele é acompanhado por um dos goleadores do time homônimo naquele estádio, então, inexistente. Em pleno carrefour, recriam um gol emblemático. José Sanfilippo, reproduz novamente um gol fantástico em meio às prateleiras do supermercado. Gol do Uruguai no Maracanazo. Foto: Reprodução/Internet O livro também aborda o lado sombrio do futebol, sobre o quanto ele é usado por ditaduras no mundo todo, exemplificando a tese com casos relacionados ao Real Madrid de Franco, ao uso da seleção brasileira por Médici, Videla e a seleção Argentina campeã em solo Portenho no ano de 1978. Além disso, aborda a transformação do esporte em produto, com a FIFA surgindo como uma superpotência geopolítica, tendo mais membros do que a ONU até os dias de hoje. As principais crônicas do livro, que acabam unindo os aspectos solares com seus heróis e derrotados e aspectos sombrios, com o uso do futebol para controle, são as que abordam as Copas do Mundo, nas quais Galeano une com maestria seu apurado jornalismo com afiada forma de escrever literatura. Nessas crônicas, temos um apanhado de fatos que ocorreram no ano da Copa (te lembra algo?), e a narrativa do que aconteceu no evento em si. Na publicação original, tínhamos textos desde a primeira Copa do Mundo organizada em 1930, no Uruguai, até a Copa dos EUA em 1994; em uma versão posterior lançada no Brasil pela editora L&PM, foram adicionados textos sobre as Copas de 1998 à 2014. De certa forma, Galeano usa de sua literatura como ferramenta de análise histórica, partindo muitas vezes do indivíduo rumo a um entendimento geral, quase como metodologia da micro-história. Aborda narrativas de personagens, gols, torneios, como mote para desenvolver temas relacionados à sociedade, como racismo, capitalismo e guerras. Videla, ditador da Argentina, recebendo a taça do mundo (1978). Foto: Reprodução/Internet Futebol ao sol e à sombra continua sendo uma leitura indispensável atualmente, inclusive porque estando às portas de uma nova Copa do Mundo (que se inicia dia 11 de junho deste ano). Podemos observar que o sol ainda brilha neste esporte tão popular no mundo inteiro, mas também que há sombras que o cercam tanto nos gramados como no seu entorno. Talvez o Irã não jogue a Copa de 2026 mesmo conseguindo a vaga de forma justa, já que um dos anfitriões do torneio, os EUA, é também quem o ataca. É interessante notar o quanto a FIFA continua com sua hipocrisia de costume, quando entrega o “Prêmio da Paz da FIFA – O Futebol Une o Mundo” (2025) ao presidente estadunidense D. Trump, este que, meses depois do reconhecimento, invadiu a Venezuela e raptou seu presidente. Por outro lado, a mesma FIFA, baniu a Rússia de eventos do futebol mundial por conta de sua invasão armada a terras Ucranianas. Trump recebe o Prêmio da Paz da FIFA. Foto: Reprodução/Internet Por tudo isso, é indicado que o leitor, leia esta obra do excepcional Eduardo Galeano (Futebol ao sol e à sombra), e se deixe ser banhado pelos raios solares que só esta religião pagã pode acalentar, mas também deve lembrar que toda luz projeta uma sombra, e se faz necessário estar atento para que não seja engolido por ela. SAIBA MAIS Podcast Fronteiras invisíveis do futebol: https://open.spotify.com/show/1h36wN4mUh7J4eyzaNoQ2o?si=7de3dc43e6364e77 História do futebol em Galeano. Trabalho de conclusão de curso do Andrei Adornes Monteiro: https://pt.scribd.com/document/746711386/Futebol-a-Sol-e-Sombra-1 Livro póstumo do autor: Fechado por Motivo de Futebol (Porto Alegre: L&PM, 2018). CURIOSIDADES Eduardo Galeano, um convicto militante de esquerda, tinha uma crítica em tom de brincadeira a Che Guevara: ele o chamava de “traidor” por ter trocado o futebol pelo beisebol na ilha de Cuba. Galeano fala que no início da copa do mundo de 2010, ele pendurou na porta de sua casa um aviso com os dizeres: “Fechado por motivo de futebol”. Isso, para que pudesse acompanhar todos os jogos daquele mundial, podendo ver sua seleção, o Uruguai, chegar ao quarto lugar naquela copa, sem ser incomodado. Além de muitos prêmios, Eduardo Galeano foi o primeiro a receber o título de Cidadão Ilustre do Mercosul, entregue em 3 de julho de 2008, em Montevidéu.

  • Para onde vamos com a desesperança?

    Por Gabriel Assis Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Guerras, nostalgia, insegurança econômica, pós-pandemia, comodismo, dentre outros eventos compõem o cenário global em que nos encontramos — social e politicamente. Seus reflexos ou desdobramentos podem ser apreendidos nas práticas de como estamos nos vestindo e produzindo moda. Como plano de fundo, talvez conseguíssemos ainda ler no emaranhado de materiais, texturas, cores e formas, em letras minúsculas, uma frase como: “Talvez não haja futuro!”. Quando tratamos de tendências, sabemos que elas têm seus ápices em algum momento da história e que, depois, são deixadas de lado, podendo retornar em períodos posteriores. As tendências estão para os movimentos de uma grande e divertida montanha-russa, como as modas estão para os movimentos cíclicos de abandono e retorno ao (antigo) novo e o (novo) novo — perdoem-nos pelo trocadilho tão necessário. Ambas, tendências e moda, por caracterizarem os movimentos próprios do campo, constituem o universo de continuidade e de descontinuidade nos modos de o ser humano expressar-se por meio de suas vestes (roupas e acessórios). Foto: Reprodução/Internet Considerando os eventos apontados na introdução deste artigo, e os pensando da perspectiva da comunicação, podemos considerar que as novas tendências (ou não tão novas assim), trazem em seu bojo um aspecto disfórico das sociedades contemporâneas: a de que a humanidade transita atualmente por um espaço global em que não há lugar para a esperança. Assim como nada é por acaso na indústria, poderíamos conjecturar que paira nos ares do tempo uma onda de nostalgia que nos acompanha desde o começo da década de 2020 — sintoma de algo muito maior que está assolando a mente dos indivíduos consumidores e ditando seus comportamentos. Ao mesmo tempo em que vivemos imersos na criação e na manutenção de muitos avanços tecnológicos, moldamos novos modos de existência e de inteligência, mas não estamos vestidos a caráter para essas mudanças. Em um passado recente, ao longo das décadas, as novidades relativas à difusão de informação e dos artefatos dos meios de comunicação eram acompanhadas naturalmente com o surgimento de tendências que traduziam em cores, materiais, texturas, formas etc., o momento do então. No conjunto, tínhamos novos moldes corporais, estéticos, utilitários e simbólicos, acompanhados com novas formas de ser o comportamento humano — sobretudo da perspectiva do consumo. Como práticas em disputa, havia a transformação da ordem e, ao mesmo tempo, havia uma reação a ela, realizada por pessoas que queriam manter o então “atual” estado das coisas — por medo, por preferência, por apego, dentre outras paixões. Mas as transformações das sociedades são cada vez mais visíveis e sensíveis, este é o fato; e um grupo as aceita e, outro, ao contrário, as rejeita, preferindo manter um apego ao lugar mais seguro, o passado. Grosso modo, há que veja nas transformações o prenúncio de uma esperança no futuro, e há os que não o veem. De uma perspectiva bastante empírica, arriscamos a dizer que a grande massa, embora usufrua das tecnologias do momento, ancora-se na segurança do passado, pois, para ela, as novidades que ganham “forma e função” não convencem que o “futuro” (presente) seja um lugar melhor e que de fato aporte aos seres humanos uma esperança de uma vida mais justa, digna, igualitária, humanizada etc. Esses posicionamentos reverberam na produção e no consumo de moda: não há promessas amigáveis e apaziguadoras de um futuro que sustente as novas formas de fazer e de consumir moda. Entra nesse jogo facto-existencial, a volta de tendências. Elas não trazem consigo apenas uma homenagem ou referência histórica, mas escancaram uma dificuldade coletiva de produzir novos horizontes e simbologias. Com efeito, como dissemos, o retorno ao passado acaba sendo um “porto seguro” para o sujeito manter-se ao menos “firme e forte” diante e nas mazelas do mundo contemporâneo. Pensando no papel do consumo na manutenção e, em parte, da formação identitária do indivíduo inserido no contexto social médio e com acesso fácil à informação fornecida sobretudo pela internet; há uma busca incessável pelo novo — o que é próprio dos discursos da moda —, mas sendo esse atrelado ao passado, criando-se o caso das micro-trends. O que antes vinha de uma subcultura — um movimento cultural, parte de uma rebeldia ao sistema —, hoje volta como tendências passageiras e esvaziadas de seu âmago social e significado. Em plataformas de multimídia como o TikTok, é muito fácil encontrar pessoas que querem se fazer presentes no mundo, inclusive no virtual. Esses palcos, substituindo funções próprias de instituições como família e escola, tornaram-se palco e espelho por meio dos quais muitos de gerações inteiras tiveram seu letramento social e o seu entendimento de o que é e como é ser um “sujeito individual”. Foto: Reprodução/Internet Podemos compreender esse e outros processos que vêm ocorrendo como sintomas da subjetividade esgotada pela aceleração contínua da informação. Isso porque as pessoas se cansam muito mais rápido das coisas do mundo e buscam o novo a todo instante, criando um desgaste geral, uma alienação pela informação. É nesse mal-estar que se tem um ambiente muito propício para a criação de uma outra subcultura que de pouco tem em comum às outras, mas consiste em uma abjeção ao novo, um submovimento cultural da internet que busca, infrutiferamente, sair dela. Como consequência, práticas relacionadas ao uso de câmeras digitais analógicas, livros físicos, cadernos, discos de vinil e idas constantes a brechós são populares nesse nicho cada vez maior que busca estar vivo para além do mundo cibernético. Essas pessoas utilizam da saudade do que não foi vivido para essa libertação, uma união entre presente e passado que vem numa tentativa de acalentar os corações submergidos pela angústia da hipervigilância virtual. No passado, havia uma experiência de tempo menos fragmentada, um vínculo mais forte entre objeto, memória e uso, e uma sensação de profundidade que hoje parece rarear na economia da atenção e da automostração. Isso não significa que o passado tenha sido melhor em si, mas sim que ele é mobilizado como um antídoto simbólico contra a saturação do presente digital. Foto: Reprodução/Internet Ao assistir essas cenas em que pessoas interagem e se compõem com esses objetos utilitários (com seus componentes estéticos e simbólicos também ressignificados), parece-nos uma aspiração para algo que vai muito além do lugar comum, do já conhecido e do já visto, pois muitas pessoas que aderem ao submovimento mencionado sequer viveram ou estavam presentes no momento em que estes objetos e práticas primordialmente eram utilizados na forma que foram pensados. A conclusão desse fato é óbvia: não trata de saudade vivida, mas de um conforto ou acalento que o sentimento de saudade propõe. Esse ato de conjunção entre sujeito e objetos não acontece apenas por gosto pessoal ou estilo, mas como reflexo de uma reação a um presente que cansa rápido demais e parece sempre exigir uma nova forma de existir; de um presente angustiante que nos faz querer gritar, expulsar suas pressões e nossos demônios. A contínua busca por desempenho com excelência, a exposição e a circulação de informações produzem um sujeito exausto, que passa a buscar no passado uma espécie de abrigo contra a velocidade do agora — inclusive porque, em meio a tantos eventos disfóricos do mundo, ele descrê na esperança de um futuro melhor. Assim, talvez esse retorno ao passado signifique ainda mais sobre o presente do que sobre o próprio passado. Se ele conforta, é porque o futuro já não consegue sustentar as promessas que eram vistas em outros tempos. O que antes poderia ser imaginado como um avanço, mudança ou melhora, agora parece apenas repetição de um mundo cansado, veloz e instável. Por isso, voltar ao antigo não é apenas olhar para trás: é também um modo encontrado para lidar com a falta de perspectiva do que vem adiante. Nesse sentido, o passado deixa de ser apenas lembrança e passa a funcionar como uma tentativa de suportar um tempo em que as promessas de futuro parecem cada vez mais frágeis e mesmo ilusórias. Assim, o antigo volta não como simples repetição, mas como resposta afetiva à ausência de promessas convincentes. Quando o presente cansa e o futuro não convence, voltar ao passado pode ser menos um gesto de fuga e mais uma tentativa de reencontrar alguma forma de permanecer, existir e expressar. E nessa volta ao passado, inclusive, toques e abraços, lágrimas e sorrisos voltam a unir pessoas e grupos afins, mesmo quando são registros que, por si, tornam-se automaticamente nostálgicos e funcionam como marcas de um tempo menos fragmentado, mais coeso e com mais traços de felicidade, porque envoltos por uma esperança, então, bastante crível. Alunos da turma de “Teoria da Comunicação” em Design, UFPE-CAA. Fotos: Gabriel Assis

  • Entrevista com Rosberg Adonay e Vanderson Santos - Dupla multiartista, idealizadores de um monólogo e livro que recebem o mesmo nome: Poeta Preto

    Por M.E. Rodrigues Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Palavras iniciais O Poeta Preto, antes de se tornar livro, foi monólogo, e antes de se tornar monólogo, foi ideia, diálogo e vivência. Lançado pela editora Arrelique em maio de 2026, a obra abarca um discurso poético sobre um eu lírico sensível. O Poeta, nosso protagonista, fala das dores de uma solidão, explorando seus traumas e frustrações, sendo assumidamente um ser em declínio. A concepção desse personagem e a maneira como ele chega no livro nascem de poemas escritos por Vanderson Santos e da voz e do corpo “emprestados” por Rosberg Adonay, artista que o interpreta nos tablados de teatro. E, apesar de Vanderson receber o título de autor na capa do livro, a dupla de multiartistas ressalta que o trajeto dessa produção foi realizado em conjunto. Como dito antes, o livro já foi monólogo e, o monólogo, já foi diálogo e desabafo de ambos os colegas diante de cenários proporcionados pela vida, pela cultura e pela sociedade. Durante a entrevista, Rosberg Adonay e Vanderson Santos falam como surgiu o Poeta Preto e a forma com que ele foi crescendo e amadurecendo através dos anos, assim como nos explicam os primeiros contatos com a arte e a íntima necessidade de querer mergulhar em ser artista. Com a palavra, Vanderson e Rosberg, e nossa colunista, M.E. Rodrigues [MARIA] Quero que vocês falem um pouco sobre vocês e como chegaram na arte. A trajetória, o que trabalham além da literatura e, inclusive, a literatura também. [VANDERSON SANTOS] Meu nome é Vanderson dos Santos, costumo assinar como Vanderson Santos. A arte esteve presente na minha vida desde pequeno. Sempre desenhei, depois comecei a escrever, comecei a frequentar a biblioteca, inclusive aqui, a Álvaro Lins, quando era na estação. Depois, comecei a comprar livros e perdi um pouco esse hábito de estar nas bibliotecas. Mas a arte sempre esteve para mim num lugar muito interno, sou muito introvertido, e era onde eu me sentia mais acolhido. Sempre desenhei, escrevo também, e foi assim desde que eu me lembro. Sou psicólogo de formação, trabalho na psicologia social, no Programa Atitude, que é um programa do governo do estado que atende pessoas em situação de vulnerabilidade. Mas, em paralelo, sempre esteve a arte. Já fiz roteiros de cinema, dramaturgia de teatro, contos, e estou elaborando um livro de contos agora. Pretendo um romance também, futuramente. [MARIA] E você, sempre foi mais voltado para a escrita, tanto no cinema quanto na literatura em geral? Você já atuou, como num monólogo, ou prefere ficar nos bastidores? [VANDERSON] Já, o pessoal do Teatro Nelson Berger já me propôs, mas sou muito tímido. Não me sinto confortável nisso. Cheguei a fazer uma participação uma vez, mas era uma entrada, era uma passada, sem falas. Vanderson em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva [MARIA] E você, Rosberg? [ROSBERG] Sou Rosberg Dunari, multiartista, produtor e produtor cultural de Caruaru. Trabalho com algumas linguagens artísticas, mas venho do teatro, minha formação foi no teatro. Assim como o Vanderson, comecei desde pequeno. Era muito influenciado pelo aspecto artístico, pela energia artística da vida. Sempre tive muita sensibilidade voltada para isso. Fazia teatro na escola, fui para o TEA (Teatro Experimental de Arte), depois entrei no grupo de teatro do Sesc, passei por alguns grupos de Caruaru. Hoje a gente trabalha na Trupe Veja Bem Meu Bem, que é uma trupe de teatro criada para o teatro alternativo, para chegar em qualquer espaço e realizar uma apresentação em lugares que não têm tanta vivência artística. Fora a Trupe, tenho um trabalho individual de escrita, alguns poemas e projetos publicados pela Arrelique. No livro do Poeta também tem o meu depoimento, falando um pouco dessa história, como surgiu, o processo de apresentação, a circulação nacional... Tenho um trabalho também voltado para a música, mas costumo dizer que o poema vem antes dela: primeiro escrevo a poesia e depois a música vem. Quase todas as canções, antes de serem canções, foram poemas. Solitário Solitário Condição de viver Quem jamais conseguirá entrar pelos meus olhos devassar minhas entranhas e descobrir a verdade? Verdade Sersó Uno A menos que costurássemos a alma uma na outra O coração um no outro Que nos misturássemos até sermos uma massa igual Um líquido incolor Uma pessoa indolor Aguada Cega Muda Morta A solidão é fogo Marca escarlate Ferro em brasa e cheiro de carne queimada Quem jamais deglutirá a minha calma? Amará a minha solidão até matá-la? Solidão Mentira Falácia Como posso ser solitário se cada poro do meu corpo é um indivíduo que fala? Se cada átomo é uma alma que dispara? A cada minuto sou outro Outro outro O estranho desconhecido familiar Que busca no fundo do abismo do olhar Por um solitário eco perdido Rosberg em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva [MARIA] Como vocês se conheceram e começaram a trabalhar juntos? [ROSBERG] Faz um tempo. Foi na casa de um amigo nosso. Eram dois amigos nossos que moravam juntos, e a gente frequentava e acabou se conhecendo. [MARIA] E desde então vocês começaram a trabalhar juntos no campo artístico ou demorou um pouco? [VANDERSON] Demorou um pouco. [ROSBERG] O Poeta Preto foi o primeiro trabalho. A gente deve ter se conhecido em 2014, 2015, por aí. Estreamos em 2017. A concepção do Poeta Preto [MARIA] Agora adentrando um pouco mais no projeto, como foi a concepção do monólogo, antes mesmo de existir como livro? Como foi criar, quais versões tiveram, o que foi modificado ao longo do tempo? São quase 10 anos, então imagino que tenha passado por revisões e reinterpretações. Fale também sobre a sinopse, para a gente entender um pouco. [ROSBERG] A gente trabalhava no TEA, que é um grupo que existe desde 1962, o segundo grupo de teatro em atividades ininterruptas do país. Ele forma atores vindos de comunidades, com oficinas gratuitas, um público amplo e diverso. Muitos atores que hoje trabalham no ramo, em Caruaru, no Brasil e no mundo, o TEA teve esse papel de formação. Eu me formei lá e a gente frequentava muito o espaço. O espetáculo foi construído dentro de uma sala de lá, um quartinho reservado do teatro, por ser um espetáculo intimista. O Fábio Pascoal, que hoje é o idealizador do TEA, ia produzir o FETEAG (Festival de Teatro do Agreste) de 2017 com a temática de ancestralidade, trazendo grupos do Brasil e de fora. Ele propôs para a gente montar um trabalho voltado à temática negra e racial. Aí a gente sentou, começou a discutir as possibilidades, definimos o monólogo. Chamamos Pedro Henrique, que é ator e produtor de teatro, para dirigir o espetáculo com a gente. O Vanderson trouxe a poesia dele, mas a gente criou com muito diálogo. No começo, a gente tinha caixa de som e microfone. Eu gostava muito da ideia de potencializar essa voz, porque o Poeta vem para bater um papo real com a galera. Teve muita corporalidade, construída através de referências da capoeira, da musicalidade. Teve um experimento antes, que foi o "Macaco Morto", que era mais uma performance, sem texto, mais curtinho. Foi a gênese do Poeta, como uma dança, uma experimentação em público. Depois entrou o texto. [VANDERSON] O texto é meu, mas a ideia do personagem surgiu através dos diálogos: Quem é esse personagem? Quem é essa consciência? Quem é esse Poeta? Eu tinha poesias antigas e fui fazendo partes novas, trazendo e encaixando. [MARIA] Então, basicamente, eles iam bebendo de você e você ia bebendo deles? [VANDERSON] Isso. [MARIA] E esse texto de 2017 para cá mudou muito? [ROSBERG] Não mudou muito, mas termos e pequenas observações feitas em apresentações, a gente mudou. A encenação também foi amadurecendo pela vivência e pela repetição. Em 2022, a gente fez a circulação por quatro estados do Brasil, foram cerca de 10 apresentações. [MARIA] Você se lembra de quais foram os estados? [ROSBERG] Pernambuco, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro. Foram seis pessoas da trupe. [MARIA] E aqui, em Caruaru, vocês ainda apresentaram bastante? [ROSBERG] Sim, em muitos lugares. Já fomos no Festival de Inverno. E, na pandemia, a gente conseguiu circular bastante. Participamos de um festival virtual de São Paulo chamado Felino Preta. O Vanderson tem experiência em cinema, então a gente também fez uma versão gravada, aprovamos um edital para ir para um lugar reservado e gravar uma narrativa audiovisual do Poeta Preto. Foto: Higor da Silva O Livro [MARIA] Como surgiu o livro? [ROSBERG] O pessoal da Arrelique tinha visto o Poeta em várias apresentações, gostado muito do texto e quis fazer uma versão para livro. [VANDERSON] Teve uma adaptação para a versão do livro, mas que não mudou muita coisa. Mudou mais a poesia final, porque no espetáculo tem uma possessão dessa consciência que é o Poeta por um racista, e ele diz coisas muito pesadas que têm o propósito de criar um choque, um embate, e no espetáculo funciona. Mas eu não queria deixar isso escrito. Então, teve essa modificação. São nove poemas, é bem curtinho. [MARIA] Como foi a concepção da ilustração e o processo de edição? [VANDERSON] O processo todo — gráfico, diagramação — foi com o pessoal da Arrelique. A parte da ilustração da capa, eles que entraram em contato com o ilustrador. A gente recebia o material, dava uma olhada, dava sugestões, mas foi mais eles mesmo. A ilustração a gente gostou muito, logo de cara. A fonte foi que a gente pediu para modificar um pouco. Eu também fiz as entrevistas com o Rosberg, com o Pedro e com o Dionísio, o iluminador e transcrevi essas entrevistas para o livro. Foi mais ou menos um ano de processo de editoração. Então, além dos poemas, o livro fala do processo do próprio espetáculo. Tem entrevistas e fotos do espetáculo também. [MARIA] Como foi para vocês a experiência de transformar o monólogo em livro? [VANDERSON] Algumas poesias já existiam como poesia antes do Poeta. Eu coloquei títulos nas que não tinham e pensei na sonoridade, na estrutura, uma poesia mais livre. Eu não me considero muito "poeta", me considero um escritor que às vezes encontra uma voz, um eu lírico. Tive que pensar na poesia, na estrutura, suprimir a questão do poema final, acrescentar e mudar algumas coisas, mas pouquíssimo. Por exemplo, a poesia de abertura, a "Recepção", foi construída para o Poeta. Quando fui fazer a versão para o livro, refiz a métrica dela baseada em como o Rosberg fala o texto. Antes era um texto mais narrado, um bloco, um parágrafo. Quando fui para a versão do livro, escrevi na métrica em que o Rosberg o declama. [ROSBERG] Eu vi como uma extensão de todo esse processo que a gente construiu nesses anos. É como se o Poeta estivesse tomando outros caminhos que a gente não imaginava. Para um espetáculo, acho que é uma consagração ter um livro direcionado à dramaturgia. É uma outra forma de se comunicar com o público, de mostrar o texto e o personagem. É viver esse personagem no livro, é estranho, mas é engraçado. Foto: Higor da Silva A atuação e a construção do personagem [MARIA] Rosberg, como foi construir e carregar esse personagem por quase 10 anos? O que você colocou de si mesmo nele? [ROSBERG] É muito complexo. Para você conseguir traçar uma forma de interpretação, você tem que descobrir a intenção em você primeiro. O personagem tem muito de mim, tem muito do Vanderson, tem muito do Pedro. Essa dramaturgia surge através do diálogo, e esse diálogo tem muita revolta, tem muita dor, através das nossas experiências enquanto homens negros. A minha, principalmente, enquanto homem negro e periférico. Lidar com essa realidade na cena é trazer essa percepção e essa revolta para a cena. Quando eu passava por um baculejo da polícia, por exemplo, eu chegava no ensaio e os meninos falavam para eu colocar essa revolta na cena. Foi um ano de processo até trazer o Poeta, descobrir essa personalidade, falar de forma completamente seca, bruta, sem rodeios. Ele é muito preciso, muito direto nas palavras e na interpretação. Ele é irônico de uma forma violenta. Ele é violento com a plateia, no olhar e nas palavras. Ele traz um aspecto predador que sequestra a plateia. Tem apresentações em que ninguém se mexe, ninguém vai ao banheiro. Nos primeiros momentos do espetáculo, ele toca as pessoas, puxa alguém para a cadeira dele; uma cadeira sofisticada que simboliza um trono. Ele representa uma consciência frenética, traumatizada pelo peso de ser, pelo ódio. Ele vomita o texto, grita com a pessoa e manda a pessoa sair. Durante o espetáculo inteiro, ele é possuído por um alter ego racista que vai o matando aos poucos. Por isso, no final, ironicamente, ele se apaga com a própria voz. Acontece também uma cena de nudez, que representa de forma subjetiva o renascimento e a fragilidade. A gente termina o espetáculo com a crítica ao White Face, o Poeta é morto pelo branqueamento ideológico, porque a gente ainda enfrenta essas coisas. A escrita dos poemas [MARIA]: Vanderson, como suas vivências se respaldam nos poemas e como foi receber as experiências deles para escrever? [VANDERSON] O Poeta tem algumas poesias mais antigas, da época de jovem adulto, que já tinham uma energia um pouco mais agressiva, mais violenta. Eu gosto de temáticas mais pesadas, e já tinha um pouco do Poeta nessa forma como eu escrevia, foi isso que os meninos viram quando me chamaram. A parte das conversas, dos roteiros que a gente via, de documentários, de pensar em como seria a peça, porque a peça tem a característica de quebrar a quarta parede e mexer com a plateia. Isso tudo influenciou muito. Tinha algumas poesias que eu já tinha, e fui construindo outras. A primeira poesia, a recepção, foi construída para o Poeta. O final também foi construído para o Poeta. Algumas do meio eu fui encaixando. Foto: Higor da Silva Reações do público [MARIA]: Vocês se lembram de alguma reação do público que foi marcante, que tocou em algo que vocês não esperavam? [ROSBERG] Muitas coisas. Teve umas que sempre a gente comenta. A gente foi apresentar na Alvará, teve uma vivência com um curso de artes cênicas de lá. Um menino, quando eu o coloquei na cadeira e comecei a dizer o texto, se levantou e abraçou o Poeta. Foi uma reação muito inesperada. O Poeta tirou tranquilamente a mão dele e apontou para a cadeira. Ele sentou, e eu continuei o texto normalmente. Já teve um menino que, no momento em que eu viro, ele se virou e sentou em cima da cadeira, entrou na cena. No final, foi o primeiro a ir embora, porque não podia sair antes: o portão estava fechado durante o espetáculo, e quando subiu, ele foi embora sem ficar para conversar. Planos futuros [MARIA] Para onde vão vocês e o Poeta Preto agora? [ROSBERG] Com o Poeta Preto, a gente não tem nada planejado ainda, mas o livro a gente vai continuar vendendo. No segundo semestre, a gente vai começar um projeto enquanto Trupe, uma nova montagem com um novo texto do Vanderson para o teatro, com temática mais local, direcionada para Caruaru, a feira, outros aspectos. A gente conseguiu recurso para esse projeto, aprovamos a PENAB. E estou dirigindo uma montagem do Auto da Compadecida, com estreia prevista para setembro. Últimas palavras O Poeta Preto continuará levando seus versos, seja no livro ou no teatro. Tal qual seus idealizadores, o Poeta é multiartista, se expandindo dentro das inúmeras formas que a arte o permite estar. Além disso, quando pensamos nos relatos que ele traz e nos sentimentos que reproduz, não podemos imaginar um lugar mais seguro que ele possa iniciar seu desabafo, afinal, tudo começa e termina na arte.

  • Pode avisar que não conseguiram matar ela!

    Por Lui Cadu Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins A Sulanca, em nome e sobrenome, continua vivíssima e a exposição Geração Sulanca, retratou sua vitalidade, resistência e identidade. Abertura da exposição “Geração Sulanca”. Foto por: Rebeca Rezende "João, que sonhava morar em Santa Cruz... Maria, que morava em Santa Cruz e sonhava morar em Caruaru... Carlos, que morava em Caruaru e sonhava morar em Recife... Clarice, que morava em Recife e sonhava morar em São Paulo… Pedro, que morava em São Paulo e sonhava morar em Nova Iorque… E Antônia, que morava em Nova Iorque e sonhava morar na cidade de João.” Foi assim, parafraseando as palavras de “Cidade”, poema escrito por Ascenso Ferreira, poeta pernambucano, que encerrei minha conversa com outra artista pernambucana: Agda. Ela, que é uma das artistas que deu vida à Geração Sulanca, fez questão de referenciar alguém importante que, em memória, formou sua identidade como sulanqueira: sua avó, uma mulher que, segundo a artista, já vivia na Sulanca quando “Santa Cruz do Capibaribe não passava de quatro ruas”. Agda, poeta responsável pelo painel poético com falas da feira. Foto por: Rebeca Rezende Assim como Agda, outros filhos, netos, bisnetos e tataranetos de sulanqueiros e sulanqueiras de Santa Cruz do Capibaribe, do Agreste pernambucano, se reuniram no dia 26 de março para a estreia de Geração Sulanca, uma exposição que une memória, resistência e identidade como quem diz “Ei, respeita a nossa herança! Aqui a moda é Sulanca!”. Afrontando, na cara e na coragem, quem um dia associou o nome e a produção à má qualidade e que, agora, tenta desesperadamente mudar seu nome para barganhar em cima da sua força. S-U-L-A-N-C-A! Elas também vestem Sulanca! A exposição reuniu quatro produtos: o painel poético com falas da feira, feito por Agda, a peça sonora com sons e ruídos da Sulanca, Eu Queria Ser Artista/Eu Faço Sulanca/Eu Sou, feito por Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, o documentário Iluminação 7.0, também resultado da parceria de Virgínia e Mayara e, por último, mas pioneiro desta iniciativa, Eles/Elas Também Vestem Sulanca, ensaio fotográfico feito por Marcelo Taulbert e Gil Vicente, em 1996. Cada produto revela um lado da feira, mostrando como esse comércio pulsa em diversos espaços da cidade de Santa Cruz do Capibaribe mesmo que você não enxergue a feira propriamente dita. Pensando nessa perspectiva, há 30 anos, Marcelo Taulbert, motivado pela ironia de filhos e filhas da classe média usarem os resultados da Sulanca financeiramente e não em suas vestes, cria um ensaio fotográfico com esses personagens usando as peças desse comércio, totalizando 150 imagens (sem contar aquelas que ficaram de fora da exposição). O que Taulbert não imaginava é que 30 anos depois a exposição iria reunir aquela mesma ironia ali, no Museu da Sulanca, ao lado de outros três produtos que dão destaque a outras faces da feira. Uma das peças do ensaio fotográfico "Eles/Elas Também Vestem Sulanca". Foto por: Rebeca Rezende A fera se mistura! Painel poético com falas da feira. Foto por: Rebeca Rezende “De mão em mão a feira se levanta, a fera se mistura” é uma das primeiras frases que você consegue ler ao mergulhar na primeira obra da exposição, O Painel poético com falas da feira feito por Agda. A obra, segundo a artista, revela a profunda simplicidade do cotidiano, pois traz pedaços de lona (comumente utilizadas para embalar peças de roupa e escrever informações sobre transporte e produção) com frases da feira. Durante a inauguração, não vi apenas um conjunto de resultados artísticos, vi histórias, das mais antigas até as que estavam surgindo ali (como a poeta responsável pelo painel mencionou “eu faço parte dessa história”) e são elas que formam a fera. “A gente tava parecendo duas quenga”, foi o que Flávia, uma das estrelas da exposição Eles/Elas Também Vestem Sulanca disse para sua amiga, Mônica (outra estrela do ensaio fotográfico encabeçado e produzido por Marcelo Taulbert, em 1996) ao relembrar que, durante a produção das fotos, fizeram as sobrancelhas (algo que não era comum naquela época). Um momento de descontração capaz de revelar o contexto social e cultural de 30 anos atrás, marcado por cobranças estéticas sobre o corpo feminino. A peça sonora com sons e ruídos da Sulanca, Eu Queria Ser Artista/Eu Faço Sulanca/Eu Sou, feito por Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, propõe uma imersão sonora ao dia a dia da feira, com áudio gravado na própria Sulanca. Além dessa obra, o documentário Iluminação 7.0, outro resultado da parceria de Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, também insere o telespectador no cotidiano desse comércio, trazendo uma breve introdução ao contexto histórico e econômico da cidade de Santa Cruz do Capibaribe e sua relação visceral com a feira, além de relatos e reflexões de sulanqueiros e sulanqueiras. Documentário “Iluminação 7.0”. Foto por: Rebeca Rezende Geração Sulanca! Em entrevista com Virgínia Guimarães, artista visual responsável por duas das obras expostas, conversamos sobre como a Geração Sulanca surge em contrapartida às repreensões sofridas pela feira, indo desde a associação do nome “Sulanca” à má qualidade até a mudança de nome por interesses políticos. “Quando se fala de mudar o nome se fala muito sobre modernizar porque os tempos mudaram, mas esse discurso também é contra colonial, porque associa a sulanca a algo antigo e a má qualidade, enquanto na verdade sulanca é inteligência, é verbo, é pajubá, se você quiser… Você está sulancando e isso é moda, cultura e política da atualidade”, diz a artista. A exposição foi resultado da memória afetiva para quem vive ou já viveu na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, mas também foi história, política e cultura. De geração em geração, memórias foram costuradas para revitalizar a feira e mostrar a cultura que pulsa naquele espaço. Por fim, a Geração Sulanca chegará ao fim no dia 29 de maio, mas permanecerá sempre costurada nos corações de quem a prestigiou. Retomando as palavras de Agda, que relembrou as palavras de Ascenso Ferreira, deixo aqui as minhas: no fim, nós somos da Sulanca e sonhamos em sempre ser dela. Responsáveis pela produção de “Geração Sulanca”. Foto por: Rebeca Rezende

  • Natureza Urbana: o processo criativo da moda autoral de Dan Cavalcante para o Festival do Jeans de Toritama/2026

    Por Laura Lima Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo M. Martins PALAVRAS INICIAIS O Festival do Jeans de Toritama teve sua edição de 2026 concluída no dia 26 de abril e demonstrou, mais uma vez, a força criativa da moda em Pernambuco ao reunir marcas, criadores e diversos olhares em torno do denim e da força de produção do nosso Estado. Dentre os estilistas presentes na edição, Dan Cavalcante se destacou ao apresentar peças inspiradas no cotidiano urbano que combinaram conhecimentos sobre arquitetura, design de moda e identidade visual incorporados às suas experiências no interior. Formado em Design pela Universidade Federal de Pernambuco (CAA), o designer – que foi recentemente entrevistado pela SPIA, em alusão aos 20 anos do curso de Design do CAA – reúne experiências em styling, direção criativa, campanhas e desenvolvimento de coleções que estabelecem um trabalho marcado pela pesquisa, pela experimentação e pela construção de uma identidade própria para a sua marca autoral de activewear. Durante a entrevista, Dan Cavalcante fala sobre o seu processo criativo por trás dos looks apresentados no Festival do Jeans de Toritama/2026, as referências que guiaram seu trabalho, a influência das vivências pessoais em seu estilo e os próximos passos para a ascensão de sua carreira. COM A PALAVRA, DAN CAVALCANTE Pensando nos looks que você apresentou no Festival do Jeans de Toritama/2026 (FJT), qual foi o conceito central das peças, quais referências orientaram sua criação e que tipo de reflexão ou emoção você buscou provocar no público ao levá-las para a passarela? Look em denim cinza estonado que combina estrutura e movimento. A Peça foi apresentada no FJT/2026 e criada por Dan Cavalcante, designer que referencia as grandes cidades em suas cores, formas e sobreposição de volumes, criando uma composição dinâmica que traduz a ideia de caos e espontaneidade dentro da “selva de pedra”. D: Para desenvolver esses looks, mergulhei profundamente no tema “Natureza Urbana” proposto pela Santana Textiles para a abertura do FJT 2026. Meu conceito central partiu da ideia da nossa “selva de pedra” – o ambiente metropolitano onde a rigidez da cidade se torna o nosso habitat natural. A escolha do denim em tons de cinza estonado foi o ponto de partida para representar a predominância do concreto, do asfalto e das texturas brutas do nosso dia a dia urbano. Minhas referências vieram diretamente da arquitetura e da geometria das grandes cidades. Traduzi as linhas dos edifícios e a estrutura das ruas para a modelagem: isso fica evidente nas pregas marcadas e rigorosas do vestido, que lembram as grades e as linhas retas da arquitetura, e na silhueta ampla e escultural do casaco oversized, que remete à imponência e ao volume das grandes construções. Ao mesmo tempo, deixei alguns acabamentos com fios soltos e desfiados para representar o lado orgânico – a forma como a natureza e o tempo interagem, desgastam e sobrevivem no meio do concreto. Ao levar essas peças para a passarela, minha intenção foi provocar uma reflexão sobre a força, a resistência e a beleza estética que existem no caos urbano. Eu queria que o público sentisse o peso e a proteção dessa “armadura” de concreto, mas também percebesse a fluidez e a atitude de quem veste. A emoção que busquei transmitir é a de imponência e adaptação: mostrar que, mesmo cercados pelo cinza e por formas geométricas rígidas, existe uma harmonia visual poderosa e uma beleza crua na selva urbana que habitamos. Como funcionou, na prática, o seu processo criativo desde o primeiro rascunho até a finalização das peças, e de que forma suas vivências no interior de Pernambuco moldam as escolhas estéticas, cores, texturas e narrativas presentes nos seus designs até este momento? D: Meu processo criativo para essa coleção uniu a visão artística a um rigoroso planejamento técnico. Além da imersão na proposta do tema, fiz uma análise técnica detalhada das bases de denim da Santana Textiles que eu tinha à disposição. A partir da matéria-prima, iniciei uma pesquisa visual profunda focada na estética das grandes metrópoles: estudei as linhas geométricas, a paleta de cores frias das cidades e a arquitetura urbana. O passo seguinte foi aterrissar essas ideias, desenvolvendo croquis até alcançar as formas e os volumes exatos que eu imaginava para as peças — silhuetas que remetessem à estrutura dos edifícios. A segunda grande fase, e talvez a mais transformadora, aconteceu na lavanderia. Para garantir que o conceito não se perdesse, elaborei um briefing detalhado explicando exatamente como os tons de cinza, o desgaste e as texturas pós-lavagem deveriam se comportar no jeans. Outro look feito por Dan com forte presença de volume e geometria. A composição remete à imponência das grandes metrópoles em relação à resiliência e formas de sobrevivência no interior pernambucano e faz da peça um instrumento de proteção e rigidez para a modelo, mas que ao mesmo tempo proporciona uma grande fluidez visual. O objetivo era alcançar aquele aspecto estonado, cru e denso, traduzindo o asfalto e o concreto para o tecido. “A Identidade Pernambucana na Selva de Pedra” era o tema, e embora ele aborde as metrópoles, meu olhar sobre essa “Natureza Urbana” é inevitavelmente moldado por minhas vivências no interior de Pernambuco. Viver, produzir e empreender no nosso Estado, especialmente em um polo de confecções tão pulsante, me ensina diariamente sobre resiliência — uma característica que a natureza local e a cidade grande têm em comum. Essa bagagem influencia diretamente minhas escolhas estéticas. As texturas desgastadas, os estonados marcantes e os acabamentos desfiados que uso não representam apenas o desgaste do concreto urbano, mas conversam com a força, a resistência e a aridez do nosso próprio ambiente. A narrativa das minhas peças nasce desse contraste: a capacidade de encontrar beleza e poesia na dureza e rudeza das formas, unindo a força de quem produz moda no interior de Pernambuco com a imponência visual da selva de pedra. Olhando para os próximos anos, quais são seus planos de crescimento como marca e criador, e como você observa o papel da moda autoral pernambucana e do FJT no cenário atual? D: Olhando para os próximos anos, meu foco principal é a consolidação de uma marca forte e genuinamente autoral. Meu maior objetivo como criador é refinar minha visão estética e meu rigor técnico a ponto de estabelecer uma assinatura artística inconfundível. Quero que a arquitetura das minhas peças, a precisão da modelagem e a forma como trabalho os materiais falem por si. O ápice do meu planejamento é chegar no momento em que as pessoas reconheçam o meu design e a minha identidade apenas batendo o olho na roupa, sem nem mesmo precisarem procurar por uma etiqueta ou logo. Nessa jornada de construção, não posso deixar de destacar a parceria de sucesso que mantenho há quatro anos com a Santana Textiles. Eles desempenham um papel crucial no fomento da moda nacional, oferecendo oportunidades reais para designers que estão despontando no mercado. Ter o apoio deles para desenvolver e desfilar criações em um dos palcos mais importantes do Nordeste é um divisor de águas na carreira de qualquer profissional. Dan Cavalcante assistindo aos desfiles no Festival de Jeans de Toritama/2026. A cada ano, vejo o Festival do Jeans de Toritama (FJT), em sinergia com a Santana, crescer e expandir seu alcance. O festival se tornou uma plataforma indispensável para que o público e o mercado conheçam a força do design feito em Pernambuco. Acredito que esse espaço é fundamental para a formação, o amadurecimento e a valorização dos nossos criadores locais. Além de dar holofote aos novos talentos, o impacto do FJT no cenário atual é monumental. O festival movimenta toda a engrenagem da nossa indústria: desde as grandes empresas que lançam coleções comerciais completas até a produção de campanhas e o networking de negócios. O valor econômico e cultural que esse evento agrega à cidade de Toritama, às marcas do nosso Polo de Confecções a todos os profissionais da cadeia produtiva é imensurável. Ele reafirma, a cada edição, que a moda pernambucana tem potência criativa, capacidade industrial e uma identidade única para mostrar ao Brasil e ao mundo.

  • Onde estão nossas mulheres?

    Por Sophia Nascimento Trabalho aprovado por: Marcelo Martins e Paula Donato “São mais de 50 ganhadores homens para 5 mulheres em todo o histórico desse prêmio…”. O comentário da escritora Raiza Hanna na publicação da Secult-PE não foi apenas um desabafo, mas um apontamento certeiro que roubou a cena na publicação do anúncio dos vencedores da décima primeira edição do Prêmio Hermilo Borba Filho em 2025 – que, em mais de uma década, premiou apenas 5 mulheres. Instituído pelo Governo de Pernambuco para democratizar o acesso à cultura e valorizar a produção literária do Estado, do Sertão à Região Metropolitana do Recife (RMR), o concurso se tornou um pilar para a valorização da literatura pernambucana. No entanto, o resultado da sua 11ª. edição (na qual, mais uma vez, todos os premiados eram homens) transformou a celebração em um grande vácuo, gerador de um pertinente e importante ponto de interrogação sobre representatividade. Embora a qualidade das obras vencedoras seja inquestionável, a ausência total de mulheres entre os laureados fez com que perguntas como “Cadê as mulheres?” e “Onde estão as escritoras?” aparecessem nas redes sociais, evidenciando uma disparidade que Raiza Hanna acertou em cheio: em onze edições, o pódio feminino é uma exceção estatística, tendo como premiadas: (2015) Rejane Paschoal, escritora da Zona da Mata, com a obra Manuscritos em grafite – na III edição da premiação; (2017) Ezter Liu, escritora da RMR, com a obra Das tripas coração – na V edição; (2018) Jussara Salazar, escritora do Agreste, com a obra O dia em que fui Santa Joana do matadouro – na VI edição; (2021) Renata Santana, escritora da RMR, com a obra A mulher do tempo – na VIII edição; (2024) Carla Montanha, escritora de Garanhuns, com a obra Almas, sóis e viadutos caindo – na X edição. Olhando para o histórico de toda a premiação, a conta que fecha com apenas cinco mulheres vencedoras expõe o abismo entre a efervescência da produção feminina atual e o reconhecimento oficial. Quando apontamos essa discrepância numérica, sempre surge aquela dúvida (ou desculpa) clássica: "Será que as mulheres não estão se inscrevendo?". Ou pior: "será que falta qualidade?". Vamos ser diretas: não falta talento, falta espaço, e o nome disso é: misoginia editorial. A pesquisadora Regina Dalcastagnè (UnB) já mostrou que o perfil do autor publicado pelas grandes editoras brasileiras é quase um padrão de fábrica: 72,7% são homens. Sabe qual é o detalhe irônico? As mulheres são quem mais leem e compram livros no Brasil, sendo 49% contra 44% dos homens. O problema é que o mercado ainda funciona como um “clube do Bolinha”, em que os homens ocupam a maior parte das cadeiras nas grandes editoras, nos júris e nos tabloides. Enquanto isso, nossas escritoras produzem verdadeiras obras-primas, muitas vezes à margem dos holofotes e resistindo ao silenciamento histórico. Diante disso, a pergunta continua ecoando: onde estão as nossas mulheres? A resposta é quase cômica de tão óbvia: elas estão escrevendo e publicando. Cabe aos júris, editores e críticos finalmente abrirem os olhos – e as páginas – para elas. É diante disso que apresentamos cinco indicações de obras por autoras que você precisa conhecer hoje: Solo para Vialejo (Cepe Editora, 2019), por Cida Pedrosa – Poeta, advogada e ativista política Tendo sua obra como vencedora do Prêmio Jabuti 2020 (Livro do Ano e Poesia), Cida consolidou sua posição como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira com Solo para Vialejo. A produção é de um poema épico-lírico que mergulha nas raízes da autora, em Bodocó, no Sertão do Araripe (PE). Pedrosa tece uma narrativa que entrelaça memórias pessoais com a história coletiva, abordando a diáspora de negros, indígenas, mulheres e homens oprimidos. O vialejo, uma gaita de boca, simboliza, nesta narrativa, a música e a alma sertaneja, enquanto a estrutura fragmentada do poema evoca vozes silenciadas e a resistência cultural de um povo, como um convite à reflexão sobre identidade e pertencimento. Caminhando com os mortos (Companhia das Letras, 2024), por Micheliny Verunschk – Mestre em literatura, crítica literária e Doutora em comunicação e semiótica pela PUC. Sendo uma autora recifense de renome nacional e vencedora do Jabuti 2022 – com O som do rugido da onça –, Micheliny apresenta em Caminhando com os mortos um romance visceral e impactante. Ambientada em um vilarejo marcado pela produção de algodão e pelo fundamentalismo religioso, a trama se desenrola a partir de um crime brutal: uma mulher que é queimada viva em um ritual. A obra explora o horror, a violência contra a mulher, o fanatismo e as feridas abertas de um Brasil profundo e arcaico, construindo uma narrativa densa que aborda a memória e o trauma, levando cada um dos seus leitores a confrontar as sombras de uma sociedade que ainda lida com a barbárie. Enquanto Deus não está olhando (Editora Record, 2014), por Débora Ferraz – Escritora, jornalista, professora e Doutora em escrita criativa. Natural de Serra Talhada, vencedora do Prêmio SESC e do Prêmio São Paulo de Literatura, Débora oferece em Enquanto Deus não está olhando um romance de profunda sensibilidade e introspecção. A história acompanha uma jovem em busca de seu pai desaparecido, em uma narrativa carregada de agonia e reflexão. A obra explora temas como a ausência, a reconstrução da identidade, o luto e a busca por respostas em um universo de incertezas. É um mergulho nas complexidades das relações familiares e na dificuldade de lidar com o vazio deixado por quem se foi, ressoando com a experiência humana de perda e resiliência. À Mente que Sabe (Editora Letramento, 2024) e Lutar é crime (Editora Letramento, 2019), por Bell Puã – Poeta, slammer e historiadora. Bell, também uma escritora do Recife, é uma das mulheres que representa a potência da nova geração e da poesia falada. Em uma de suas obras mais recentes, À Mente que Sabe, apresenta uma coleção de poesias que conecta a força feminina à natureza, tratando a presença da mulher como uma força cotidiana e essencial. Enquanto isso, sua obra Lutar é crime – finalista do Prêmio Jabuti 2020 – aborda questões sociais urgentes como racismo, desigualdade e a resistência das minorias, usando seus versos diretos que focam na realidade urbana e periférica, utilizando a poesia falada como uma poderosa ferramenta de transformação social e empoderamento. Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco (Funcultura [apoio] 2025), por Danielle Romani – Jornalista e escritora. Em sua obra Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco, Danielle retrata um trabalho de biografia e historiografia ilustradas que resgata e celebra as histórias de mulheres pioneiras em Pernambuco, sendo ela própria uma mulher recifense. Fruto de uma extensa pesquisa financiada pelo Funcultura, o livro resgata a trajetória de 40 mulheres fundamentais para a história do Estado que foram apagadas ou silenciadas pela história oficial, mas ela também inclui nomes conhecidos — como Branca Dias, as Heroínas de Tejucupapo, Dandara e Lia de Itamaracá. Diante de tantos nomes e talentos femininos como estes, o questionamento à ausência de mulheres no Prêmio Hermilo Borba Filho passa longe de ser um ataque ao concurso, mas sim uma reivindicação. Afinal de contas, o futuro da literatura pernambucana já está sendo escrito por mulheres há muito tempo. Basta agora que o mundo pare de apagar suas assinaturas. SAIBA MAIS Prêmio Hermilo Borba Filho Mulheres lideram ranking de leitura no Brasil 70% dos escritores brasileiros são homens e 90% deles são brancos CURIOSIDADES • Além de escrever, Danielle Romani também ilustrou manualmente sua obra Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco. • Quando Cida Pedrosa venceu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2020 com Solo para Vialejo, ela fez história em dose dupla. Além de ser a primeira mulher pernambucana a conquistar o prêmio máximo da literatura brasileira, ela recebeu a notícia exatamente no dia em que comemora o aniversário de seu filho.

  • Cantautores e produção colaborativa na mostra Reverbo (PE): agregando para reverberar

    Divulgação cientifica por Amilcar Almeida Bezerra, Amanda Mansur Nogueira, Vinícius Barros de Oliveira. O coletivo de Cantautores “Reverbo” nasceu em 2016, em casas, terraços e apartamentos no Recife com músicos criando junto e separadamente. No estudo desenvolvido por Amilcar Almeida, Amanda Mansur e Vinícius Barros, o conceito de “cantautor” está na base de uma cena musical que propõe novas formas de circulação sustentável para a canção autoral, centradas na produção colaborativa, na performance individual e em mostras coletivas. Resumo do artigo O termo “cantautor” vem sendo utilizado na mídia pernambucana para designar um tipo de artista independente que compõe e performa a canção para um nicho do público local em bares, cafés e teatros. Neste estudo desenvolvido com o coletivo de Cantautores “Reverbo”, sugerimos que este conceito de “cantautor” está na base de uma cena musical que propõe novas formas de circulação sustentável para a canção autoral, centradas na produção colaborativa, na performance individual e em mostras coletivas. Publicado na Revista Terceira Margem, idealizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o artigo pode ser acessado no link abaixo: Cantautores e produção colaborativa na mostra Reverbo (PE): agregando para reverberar

  • Exposição Animação Pernambucana - 5 Décadas de História

    Por Ana Carolina Silva Duarte. O ano de 2022 marcou a celebração de 50 anos de animação pernambucana, iniciada com o pioneiro e mestre animador Lula Gonzaga. Para comemorar essa grande jornada de produção cultural da cinematografia, o Museu de Cinema de Animação Lula Gonzaga (MUCA), através do projeto do SESC, o ANIMASESC, elaborou uma exposição para contar a história de 5 décadas da animação em Pernambuco. Visitamos a exposição e a Spia conversou com Rafael Buda, produtor e realizador audiovisual, e coordenador na área de programação do MUCA. Carolina Duarte (CD): Como membro do MUCA, como foi idealizar e participar da exposição do ANIMASESC? Rafaela Buda (RB): O MUCA no ano passado completou 5 anos de vida, e a gente completou 50 anos de animação em Pernambuco, então são histórias que se entrelaçam. O MUCA inicialmente foi um projeto vocacionado para cuidar da preservação e memória da obra do mestre e patrimônio vivo Lula Gonzaga, mas que ao longo do seu tempo, da sua trajetória, expandiu para que a gente pudesse dialogar com outros artistas, não só de Pernambuco, como também do Brasil e internacionalmente. O MUCA hoje, funciona a 80 quilômetros do Recife, no agreste de Pernambuco, na cidade de Gravatá, é um espaço físico com cerca de 90 metros quadrados, onde a gente pode ir lá não só revisitar toda essa trajetória do mestre Lula, como também realizamos cineclubes, oficinas, eventos, e já recebemos inúmeras visitas, tanto de estudantes da Universidade Federal, quanto de animadores aqui do Estado e de outros países, posso destacar, por exemplo, a Alemanha, França, Argentina. Na nossa parte de formação, realizamos cerca de 6 oficinas por ano, formando uma média de 120 jovens do Agreste neste ciclo básico de animação, possibilitando que o Agreste possa ser hoje um grande polo de referência da produção de cinema de animação aqui do estado. Pensar a exposição foi um desafio enorme porque não foi fácil conceber o caminho que a gente ia desenvolver para poder apresentar isso para os visitantes, mas fizemos um recorte muito bacana. Queríamos não fazer uma exposição apenas historiográfica, digamos assim, mas trazer o que a animação tem de diferente das outras linguagens audiovisuais, que é a possibilidade de poder trazer cenários, objetos, matérias de jornais e experiências interativas, como por exemplo, a maioria dos filmes que nós jogamos luz aqui, trouxemos para que os visitantes pudessem apreciar, que foram cerca de 60 obras durante essas cinco décadas, elas também estão linkadas via QR Code, onde o visitante pode não só ver uma foto, ver o boneco, ver o cenário, como assistir o filme ao mesmo tempo. Então é possível ver, principalmente, a transformação tecnológica de animações com pouca ou quase nenhuma estrutura para serem produzidas, seja de recorte, seja com câmeras analógicas, seja com o processo digital até chegar hoje na possibilidade de trabalhar com 3D. Então acredito que foi uma exposição bem pensada, com a curadoria muito legal do Tiago Delácio, com a montagem muito bacana do Bruno Cabús e toda uma equipe que se envolveu e se dedicou intensamente para que a gente pudesse entregar o melhor que a animação pernambucana tem nessas últimas 5 décadas. (CD): Como foi que se iniciou a sua relação com a animação, esse interesse começou na infância ou veio depois? (RB): Desde criança eu gosto muito de desenhar, de ler revistas em quadrinhos, HQs, fui muito estimulado por isso através da minha mãe principalmente. Em 2005 eu tive a oportunidade de participar de um projeto na Casa da Cultura, por meio do Mestre Lula Gonzaga, que era um projeto chamado Células Culturais: Desenhando culturas, então a partir disso eu comecei a emergir mais no mundo da animação. Minha primeira formação é Ciência da Computação, então a gente acaba interagindo também com essa parte de design, games e de animação. Então, desde 2005, eu sou ligado à área de cinema de animação e desde 2013 eu me dedico integralmente a esse universo, ou seja, fazem 10 anos esse ano. O ano de 2013 foi quando a gente realizou o primeiro Animacine, que é o festival de animação do Agreste, com a coordenação artística do Mestre Lula Gonzaga, a coordenação do festival pelo Tiago Delácio e eu faço a produção. Nesse ano vamos realizar a quinta edição do projeto. Além disso, eu costumo dizer que o mais legal que o MUCA vem propiciando é a gente hoje poder trabalhar com o que eu chamo de ecossistema do cinema de animação aqui no estado. Nós trabalhamos com formação, através das oficinas do OCA, o Cinema de Animação do Mestre Lula Gonzaga, a gente trabalha com difusão através do nosso festival de animação, chamado de Animacine, trabalhamos com a preservação e memória, através do MUCA, onde a gente salvaguarda a memória de Lula e de outros animadores. E também, trabalhamos com realização, desenvolvendo não só os filmes das oficinas, mas as séries que vamos desenvolvendo ao longo dos anos. (CD): Rafael, a Spia quer perguntar se você tem algum conselho para dar para jovens estudantes e animadores ainda emergentes. (RB): Eu acho que o primeiro conselho é persistam. Trabalhar com animação não é fácil, apesar de ser hoje um mercado muito emergente, porque a animação atua em diversos espaços do audiovisual. Se você entrar hoje na TV aberta, uma propaganda daquelas, por exemplo, de loja de móveis tem animação, saldão, liquidação, e aí vem aquelas animações apresentando o produto, seja na internet, em sites de notícias ou em sites de vendas. Além disso, hoje existe um mercado muito grande de animação, principalmente de marketing digital, e também hoje no universo das redes sociais. Então a animação permeia tudo isso e é um dos mercados que mais cresce para além do cinema autoral e do cinema artístico, é o mundo dos games, que de fato os jogos digitais em geral, cerca de 30% a 40% da equipe também são formados por animadores. Então é possível entender a dinâmica desse universo para poder entender esse leque de mercado. A gente sempre trabalhou com a questão voltada para o cinema, que é o nosso foco de atuação, então para quem quer trabalhar especificamente com o cinema de animação, eu acho que a primeira coisa é persistir, porque não é fácil. Nós produzimos um filme de 8 minutos, que demoramos 3 anos e meio para produzir. Ou seja, é preciso muita resiliência, muita dedicação, uma galera com uma sinergia muito boa, muito envolvida no projeto para que ele possa concluir o seu ciclo. Hoje, mesmo na universidade, você fazendo filmes mais estudantis ou que não sejam para o universo comercial, existe uma gama de festivais que aceitam filmes nessa categoria, filmes de iniciantes, filmes estudantis. Inclusive, existem festivais específicos para isso, tem a Mostra Estudantil aqui de Pernambuco também, que é um espaço bem bacana para que você possa apresentar o seu primeiro trabalho. O Brasil tem sido uma grande vitrine não só de profissionais, inclusive, eu vi um paper esses dias de que devido, infelizmente, à pandemia, mas ao trabalho de home office, hoje muitos profissionais brasileiros pela sua qualidade, pelo seu traço, pela dinâmica do trabalhador, do animador brasileiro, digamos assim, pela perspectiva do trabalho home office, muitos animadores desenvolvem diversos trabalhos para fora do país, principalmente para o mercado do Canadá e para o mercado asiático. Então, assim, depende de onde você se posiciona, se você vai ser um animador, se você vai ser um roteirista ou um produtor. Eu penso que a gente não deve cair nesse desestímulo que muitas vezes é jogado para nós, tendo em vista que, quando vamos pesquisar e analisar o mercado, existe uma potencialidade enorme, então acho que é muito mais de como que a gente pensa a nossa inserção no mercado de trabalho. (CD): E nesse aspecto, como você interpreta a importância de um evento cultural como esse? (RB): Eu e Tiago, que foi o curador da exposição, pensamos muito hoje como o cinema e o audiovisual podem ocupar outros espaços, não só as salas de cinema e não só os streamings. Então, ano passado, 2022, foi um ano muito simbólico, nós realizamos uma exposição audiovisual no Rio de Janeiro sobre o Bicentenário da Independência do Brasil. Já no FIG, que é o Festival de Inverno de Garanhuns, a gente realizou projeções e vídeo mappings sobre a Semana de 22, que no ano passado foi o 100 anos da Semana de Arte Moderna, porém, focamos nos modernistas pernambucanos, que muitas vezes, quando se fala dos modernistas do país, só focam na turma do Expo Rio São Paulo. Foi muito bacana poder desenvolver esses dois projetos. E foi muito legal, porque a gente pegou as obras desses modernistas, animamos elas e projetamos nos prédios públicos de Garanhuns. Já esse lance da exposição era uma coisa que a gente já tinha feito no MUCA, não sobre esse tema, porque o MUCA, que eu inclusive convido todo mundo desde já a ir lá conhecer, a professora Amanda, o professor Buccini, eles sempre levam anualmente estudantes lá para conhecer o museu, então independente disso, é um espaço que está sempre de portas abertas para receber pessoas interessadas na área. Mas lá foi muito legal, porque quando a gente concebeu a expografia do museu, a gente fez uma trilha animada, que é um pouco do que vocês podem ver aqui, que são esses brinquedos óticos, os objetos, para conhecer a história do pré-cinema. Fizemos um espaço dedicado ao mestre Lula, um espaço de formação, uma videoteca com livros e filmes que a gente em breve deve estar consolidando o nosso sistema para empréstimo, para pesquisa e tal, fizemos também um espaço para exposição. Por quê? Porque a animação permite que você também tenha produtos físicos, seja 2D, 3D, que aí você pode imprimir aquele objeto, seja stop motion, recorte, ou outras técnicas que permitem que você tenha um objeto ali para poder apresentar. Então quando inauguramos MUCA em 2017, lançamos a nossa primeira exposição, que foi a exposição de um filme que nós fizemos abordando a comemoração dos 20 anos da banda Devotos, que é uma banda de punk rock daqui, inclusive aqui de Casa Amarela, e que na época, também em 2017, eles estavam completando 20 anos de trajetória, a gente fez uma experiência muito interessante, onde a gente juntou 100 animadores do Brasil todo para poder fazer esse trabalho. E aí eu fiquei muito nessa ideia de que a gente deveria fazer uma exposição e trazer esse universo para o público, já que o primeiro filme de animação foi em 1972, então em 2022 a gente estava completando 50 anos de animação em Pernambuco. (CD): E por último, que recomendações você tem, tanto de conteúdo, como de artistas, para dar aos animadores iniciantes na área. (RB): Ah, enfim, tem muitos livros legais, né? Tem um livro, inclusive, daqui do nosso professor, parceiro e amigo Marcos Buccini, que conta a história do cinema de animação de Pernambuco. Tem um livro do professor Antônio Moreno chamado "Experiência Brasileira no Cinema de Animação" . Antônio Moreno foi muito amigo nosso, parceiro, e amigo de Lula, que inclusive, foi para Zagreb com ele nessa época, né? A Embrafilme enviou três animadores do Brasil para poderem estudar fora, e o livro dele também é sobre animação. Tem um livro do professor lá da Unicamp, Wilson Lazaretti, que também é um livro muito legal, que trata sobre essa história da animação, como funciona a história do pré-cinema, o livro se chama "Manual do Pequeno Animador", da editora Komedi. Tem uma pessoa que eu recomendo muito, que hoje ele é professor lá em Minas, a gente já teve a oportunidade de lançar o livro dele aqui em 2015, no segundo Animacine que é o Sávio Leite, ele é professor lá da UNA, mas que hoje ele é um dos principais expoentes nosso da animação do ponto de vista de literatura, porque ele já lançou, se eu não me engano, cerca de 3 a 4 livros do universo da animação, livros inclusive de artistas, de pesquisadores americanos, onde ele a faz tradução. Mas esse livro é muito legal dele, chamado “A Maldita História da Animação Brasileira", onde ele faz entrevistas com os principais animadores do Brasil. Tem um livro que foi lançado recentemente pela editora Martins, se eu não me engano, que é também de um grande produtor e um grande animador brasileiro, o Otto Guerra, onde ele lançou sua autobiografia e é um livro muito legal. O livro "Nem Doeu (Autopornografia)", da editora MMARTE, conta toda a trajetória dele, que é muito engraçada, e ele tem trabalhos muito interessantes, que é possível comprar pela internet. Inclusive, a gente também trouxe ele para o Animacine, no último Animacine ele foi um dos nossos homenageados. SERVIÇO EXPOSIÇÃO ANIMAÇÃO PERNAMBUCANA - 5 DÉCADAS DE HISTÓRIA Onde: Galeria de Artes SESC Casa Amarela Av. Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490 Horário: 09h às 19h de segunda à sexta

  • Resenha Crítica da obra "Sombra Severa" de Raimundo Carrero

    Critica Literária por Ceres Maria. "Sombra Severa" de Raimundo Carrero O autor Raimundo Carrero, é um importante escritor pernambucano que possui inúmeras obras publicadas e premiadas, muitas abordando temas de cunho social. O livro Sombra Severa tem como enredo a história de dois irmãos, Judas e Abel, que vivem em harmonia desde que seus pais faleceram. No entanto, tudo muda na relação dos dois quando Abel resolve trazer Dina, a mulher por quem se apaixonara para a sua casa com o objetivo de se casarem e serem felizes. Um dos pontos mais interessantes em sua obra é como o autor consegue abordar de maneira profunda o sentimento dos personagens e seus laços afetivos dos mais diversos tipos, como o amor, a felicidade, a lealdade, a determinação, a traição, o medo, a tristeza, o ódio e a inveja. Todos os sentimentos citados são importantes para o desenvolvimento dos personagens e para mostrar como esses indivíduos são humanos. Abel, o irmão mais novo que amava tanto Dina, estava disposto a batalhar com os seus irmãos, os Florêncio, pela a sua mão e buscava contar com o seu irmão mais velho, Judas, para lhe ajudar a escondê-la. Este estava disposto a apoiar Abel em seu plano, mas com tamanha dor, pois amava a mesma mulher que seu irmão. Seria o sangue o motivo de tanta devoção e zelo para a construção do laço afetivo entre ambos? ou esse mesmo sangue poderia dar início ao sentimento mais devastador e sombrio inerte ao ser humano, o ódio? Mas e se for os dois? É esse conflito de sentimentos que Raimundo aborda em sua obra. Judas ao que parece se dá bem com o seu irmão, mas quando descobre que Abel trouxe Dina para a sua casa, fica muito surpreso e amargurado, alegando apenas em seus pensamentos que o seu ato imprudente jamais deveria ter acontecido. Judas diz estar disposto a lutar com os Florêncio para ajudar Abel, mas a palavra luta que é tanto dita no começo da obra também haveria de ser um combate interno para o irmão mais velho, pois como Abel pôde trazer aquela mulher intocável para dentro de casa? Ainda mais com alguém que estava se segurando tanto para não desejá-la. É interessante observar como a escrita de Carrero é dramática. Na obra são trabalhados com imenso fervor os sentimentos proibidos e pecaminosos dos personagens, como o desejo, que lhes trazem culpa, ocasionando em atos insensatos, mas a primeira vista admiráveis devido ao amor tal qual fugir com a amante para viver a felicidade que almejam, conforme Abel. Ou cometer atos imorais e um tanto macabros como o abuso sexual ou assassinato por inveja, ódio e ciúme de um mesmo amor. A dramaticidade em sua obra está presente nos conflitos internos envolvendo as emoções dos dois irmãos. Abel percebia a raiva de Judas consigo por causa dos atos maldosos que realizava para atingi-lo, mas ainda assim o amava e não se revoltava contra o irmão. Abel sentia raiva de sua traição, mas não podia se afastar, pois se importava com Judas. Já este não compreendia de maneira clara os sentimentos que nutria pelo irmão, era inveja ou ódio? Judas buscava a resposta de sua indagação, relembrando o seu passado com Abel desde a infância, percebendo que sempre foi a sua antítese, sendo o mais novo a Luz e o mais velho a sombra. O autor faz inúmeras analogias envolvendo o cristianismo, sendo a obra uma alegoria à Bíblia. Exemplificando os nomes dos protagonistas, Judas e Abel que durante a estória percebe-se uma semelhança com a passagem bíblica das figuras de mesmo nome. Sendo os personagens, no livro, simples moradores de uma cidade do interior, mas com personalidades e essência similar as figuras da Bíblia, com o irmão mais velho sendo o traidor e o mais novo sendo morto pela inveja de Judas. A maneira em que Judas se vê refletindo acerca da origem de sua inveja sobre seu irmão e associa esse sentimento com a cobra do jardim do Éden é mais uma analogia que o autor faz ao cristianismo, ou quando Judas resolve matar o carneiro de Abel, referindo-se a história bíblica de Caim e Abel. O regionalismo está presente no livro de acordo com a cultura e costumes dos personagens, as práticas religiosas e o conservadorismo são bastante notáveis na estória. Exemplificando, a virgindade das mulheres, sendo representadas por Dina, que não pode conviver num mesmo ambiente com outro homem até que se case. Outro exemplo é a aparição e importância da religião, em que os personagens, como Judas, buscam amparo emocional na igreja da cidade, para confessarem os atos e pedir por perdão, como suplicar por proteção. Por fim, o seu livro assemelha-se ao segundo movimento do romantismo no Brasil, a geração do ultra romantismo, que é acentuado no sentimentalismo e pessimismo dos personagens. Judas é antagônico a Abel em personalidade e essência, se enxergando como a escuridão, o sombrio, algo que detestava em si e por esse motivo nutria um sentimento rancoroso por seu irmão, o considerando a luz. O autor ao expressar esse sentimento do personagem utiliza de uma escrita bastante dramática e excessivamente pessimista para mostrar que as emoções negativas do mais velho eram em demasia. Exemplificando o jogo de cartas que acontece num bar, em que Judas faz uma analogia dos naipes das cartas com o seu amor proibido por Dina e o quanto a moça era inalcançável. O ultra romantismo também trabalha o conceito de morte, em virtude dos personagens terem sentimentos pungentes em exorbitância, morrer seria o ápice para exprimirem as suas emoções. Assim como Judas que não queria viver pelo o que fez ao seu irmão, alegando que morrer seria a punição perfeita pelo seus atos. Desse modo, é de extrema importância ler a obra "Sombra Severa" de Raimundo Carrero quando se fala de literatura pernambucana, pois a maneira como conduz suas histórias fazendo analogias ao meio social em que vivemos/convivemos e como isso afeta a mente de seus personagens, aproximando-os de nós, mostra que somos um poucos loucos, perfeitos dramaturgos, e que buscamos lidar, do nosso modo, com a loucura. No entanto, os seus heróis diferem de nós, pois em sombra severa estão prestes a sofrerem um colapso mental por causa das muitas emoções que experienciam, e por esse motivo não conseguem suportar a realidade em que vivem, buscando soluções extremas para os seus impasses. Por essa razão, é espetacular o modo como o autor faz com que o leitor se encante com a complexidade dos seus personagens e com o seu mundo criado. Judas e Adão são figuras existentes na história bíblica, carregados de morais divinas, mas acima de tudo são humanos. Em sombra severa, os heróis sentem amor, inveja, tristeza e ódio por um mesmo alguém, podendo ser um irmão ou um amor, assim como nós. A complexidade de emoções que temos sobre o outro é o que nos torna ilógicos e por isso somos encantadores e enigmáticos, sendo Raimundo Carrero cirúrgico em alinhar esses pontos na sua estória.

  • Capibaribe in Rock: há 25 anos Betto Skin, traça caminhos para cultura local

    Eu não tô sozinho, eu tô dando o sangue, mas sem tantos parceiros não teria conseguido, porque o apoio financeiro é importante também, mas não adiante fomentar se não tiver o artista, se não tiver o louco lá mostrando sua arte. Entrevista por João Rocha e Nayara Nascimento. Foto: arquivo de Betto Skin Roberto José dos Santos Oliveira, nasceu na cidade de Limoeiro, em 31 de janeiro de 1972, sua memória fantástica se mostra presente já no início de nossa conversa quando ele lembra do horário e local que nasceu, às 08:15 da noite, em casa, recentemente completou seu quinquagésimo primeiro aniversário e nesta entrevista que você acompanhará a seguir, nos contou sobre detalhes que fazem do Capibaribe in Rock um dos eventos de maior resistência cultural de nossa cidade. Saindo de Limoeiro aos 17 anos, fugindo do alistamento militar, encontrou refúgio e aconchego na terra seca e árida que é a nossa Santa Cruz do Capibaribe, em 18 de junho de 1990 se instala nessa cidade banhada pelo rio capibaribe, por onde vive há mais de trinta anos. Mal sabia ele, naquela época, que vinte cinco anos depois estaríamos celebrando seu grande feito, movido por um coração valente, um corpo político e uma cabeça musical, o Capibaribe in Rock VIVE, trazendo músicas, cinema, artes, oficinas, desfiles, brechós, tudo que for de expressão artística, como o mesmo afirma. Quando tinha ainda pouca idade Betto já tinha uma paixão pela música, seja através de sua origem em Limoeiro que lhe apresenta o coco de roda, o maracatu e o frevo, seja pelas músicas que sua mãe ouvia, o popular brega do Odair José, seja pelo samba-canção entoado pelo Nelson Gonçalves, que seu pai tanto escutava, ou ainda pela amizade dele enquanto adolescente com Seu Zuzu, o dono da loja de discos de Limoeiro, onde adquiriu muitos de sua coleção de vinis, e onde também descobriu um universos de artistas nacionais e internacionais. Betto traz consigo nessa vinda para Santa Cruz um bisaco cheio de cultura/arte e uma vontade de movimentar, uma vez em Santa Cruz do Capibaribe agitou a cena cultural da cidade e hoje é um dos nomes na produção de arte e cultura de nossa região, ele abre seu baú de memórias para compartilhar conosco um pouco desse percurso enquanto agitador cultural, veja a entrevista a seguir: Betto, primeiramente gostaríamos que você nos contasse um pouco sobre a sua história e relação com a música. Sempre gostei de música, que da região que venho, em Limoeiro, sempre convivi com todos esses foguetes populares: coco de roda, caboclinho, ciranda, maracatu, frevo… Tenho uma proximidade com Recife também, então eu cresci absorvendo e conhecendo todas essas demonstrações culturais de nosso estado, sempre tive um apreço muito grande pelo teatro, através dos colegas do ensino médio. Inicialmente eu vim pra Santa Cruz, em janeiro, porque em Limoeiro tem tiro de guerra e eu não queria servir o exército, aí eu vim para cá e me alistei, como se já trabalhasse aqui, e morasse aqui, mas já tinha esse plano, como eu completei 18 anos em janeiro eu tinha que vim logo; No começo, comecei a trabalhar numa loja de moda praia e no ano seguinte comecei nesta empresa que trabalho até hoje. Eu tive uma boa adolescência e infância, peguei boas informações para ir montando essa construção de ser humano, em conhecimento e na parte pedagógica, e a parte da música entra através de minha mãe, de ser uma pessoa muito musical, ela gostava muito da linha popular do brega dos anos 70, Odair José, e do forró pé de serra; meu pai gostava muito de música de seresta, de cantores mais tradicionais, Celestino, Nelson Gonçalves, Silvinho, ele gostava muito de samba carioca e de Luiz Gonzaga e Quinteto Violado…Então eu cresci dentro dessa mistura de estilos, mas tudo música legal, de qualidade, tanto que se perdura até hoje, o que eu escutava, hoje em dia ainda se toca no rádio. Tem uma música que marcou minha infância, que é Sonhos de Peninha. Porque começou a me lembrar da década de 70, eu morava em Limoeiro, tocava muito na rádio, é uma lembrança que eu tenho de ouvir muito: “mas não tem revolta não…”. É uma música que perdura, porque Caetano regravou no final da década de 90 e virou sucesso de novo, provando que essas músicas perduram por muito tempo. Além da infância musical que eu tive em casa, na década de 1980, meu pai comprou uma mercearia lá em Limoeiro e tive a felicidade de morar na rua do cara que era dono da loja de disco da cidade, o nome era Primor Som, eu ia lá para comprar revistas que vendia também e comecei a olhar os discos, comentava com os amigos na escola, se eles falavam de alguma banda, eu ia lá na Primor Som procurar se tinha. E eu tive também a sorte de ouvir a rádio transamérica, a rádio cidade, a universitária de recife, que só tocava música clássica, era massa, a antena um que só tocava MPB, Jazz, Blues, ai eu anotava o nome das músicas, era Zuzu o nome do cara, ele fez parte da minha construção musical, eu pedia a ele: Zuzu traz esse disco pra mim, tenho um disco do Queens, the works, eu tenho até hoje, comprei com treze anos. Em 2022 o Capibaribe in Rock fez 25 anos de existência, um movimento já tradicional no calendário municipal, como você enxerga essa trajetória até aqui? Resistência, a primeira palavra que me vem na cabeça é resistência, é um movimento de resistência, de eu querer persistir em fazer isso, por amor mesmo, por ter continuado, conseguido manter alguns parceiros, instituições privadas ou públicas, como a UESCC (União dos Estudantes de Santa Cruz do Capibaribe), o CDL, que percebem muito a importância do evento, e eu tive a sorte de desde que criei o capibaribe encontrar com essas pessoas com sensibilidade cultural. A satisfação pessoal é grande, e por também contar com diversos amigos que sempre toparam participar do evento, seja de qualquer área que fosse, e esse foi um dos motivos que consegui manter o evento, por esse contato com esses artistas de outras áreas culturais. Aí tinha Pio e Nego que faziam os sombras, era mudo né; no teatro tinha aquela galera com Marcio Nunes, Professora Evani, com a saudosa Bethânia, com Lourdes, Ana e Márcia. Tinha também Maria Lu na fotografia, Gilberto Geraldo nas artes plásticas, tinha Edvan, Fábio Xavier, Cândido Freire… eram esses loucos que topavam a minha ideia, a gente ia se ajudando um ao outro e fazia acontecer. É a minha satisfação de tá com a galera que queria expor, que não tinha vergonha e ia lá, eu achava massa ver a arte deles sendo reconhecida. Quando eu convidava uma banda nova, ou que já tinha história na cidade, para participar do Capibaribe, eu via a satisfação, eles achavam massa demais. Acho que são um conjunto de fatores que me faz continuar resistindo, saber que eu tenho essa ideia louca de fazer e tem um bocado de doido comigo, seja participando como músico, como expositor, ou dando um apoio na produção. Acho que resumo em força de vontade e resistência mesmo, e eu sou satisfeito com o resultado que tenho, se der para fazer de determinado tamanho, eu faço, em tantos dias, eu faço, se for três bandas, eu faço, vendo que alguém quer fazer, eu faço, enquanto eu tiver convidando e a galera tiver topando, comprando a ideia, eu faço. Na década de 1990, quando inicia sua carreira artística enquanto DJ, e posteriormente na articulação do Capibaribe in Rock a partir de 1996, com participação que envolvia alguns nomes como Charles Leopoldino, Ailton e Gilberto Geraldo, estreando o festival em 1998… Gostaria que você nos contasse como foi o processo imersivo e criativo desse movimento cultural? Quando eu cheguei aqui em 1990 uma das primeiras pessoas que eu tive contato foi Carlos Felix, hoje em dia Carlos Mosca, que mora em Campina Grande, a primeira coisa que a gente se identificou é que ele gostava de The Smiths também, a gente tava conversando, não sei se era eu que tava escutando uma fita ou se foi ele que chegou ouvindo no carro e através desse papo a gente se identificou de cara pela questão musical. Carlos trabalhava com parte gráfica, e me convidou para fazer uma festa com ele: “tu vai discotecar?” - “vou sim”. A gente fez até um cartaz inspirado em uma capa do rolling stones, voodoo lounge. As primeiras festas com som mecânico foram no bar do copo sujo, que era como a gente chamava, lá na rua grande, quando a feira de mangaio era por lá, era um barzinho da parede meia suja, onde o pessoal da feira comia por lá. Foi nesse evento que surgiu o nome Betto Skin, Carlos me perguntou qual nome colocaria no encarte. A brincadeira com o Skin surgiu em um show de Zé Ramalho que eu tinha ido em São Bento do Una, e na volta a gente passou em Belo Jardim, foi quando eu comecei a usar o cabelo raspado, eu tinha um fusca com a placa de Santo André, uma triste coincidência, porque na época tava tendo os carecas da mercedes em Santo André, que metiam o pau nos nordestinos, nos gays, nos pretos, em todo mundo. Aí paramos para tomar um refrigerante, chegou um cara bêbado e veio até a minha mesa: “Você é um daqueles carecas da mercedes, que tá matando os nordestinos em São Paulo, você é um skinhead, repara na placa do carro…”, depois chegou alguém e levou o rapaz, e ficou por isso. Aí foi quando alguém sugeriu colocar no cartaz, Betto Skinhead, ai eu disse que não né, skinhead é muito pesado, mas bota Betto Skin, que é pele e a gente pode fazer uma referência a minha careca, ai ficou skin. O evento era eu tocando, a gente comprava as biritas, e lá a gente comprava um caldeirão de xerém com galinha, alugava o espaço e fazia a festa. Por isso que o Capibaribe sempre teve esse conceito de trazer a galera do rock e também o pessoal da diversidade, no primeiro Capibaribe in Rock teve Fabricio França com o grupo Sulancar, teve um desfile de Adriano Morotó, foi totalmente chocante. Eu vim conseguir fazer exposição no Capibaribe in Rock a partir de 1999, que foi no novo club, teve exposição de Carlos Felix, de Ronaldo Neves com telas, teve performance de Fabrício França, foi bem massa. Agora, hoje, eu sinto falta da renovação nas outras linguagens, a gente consegue sempre trazer novas bandas e grupos musicais, mas eu sinto falta dessa juventude participativa nas outras linguagens. Eu tentei fazer o Capibaribe por dois anos seguidos sem sucesso, eu conheci Ailton que morava uma rua depois da minha, e a gente tentava apoio nas lojas e nada, em 1996 e em 1997. Ai em 1998 eu já conhecia Charles de vista, e conheci o pessoal da Carcinose, tinha o pessoal que fazia um movimento em Surubim, também, e em maio de 1998, eles me convidaram para fazer um som lá, ai rolou essa empatia, essa conexão por identificação. E aí em juntei a Carcinose, o pessoal de surubim, uma banda de Ailton, e quando vi tinha seis bandas pra tocar na primeira edição do Capibaribe, que aconteceu na Estação do Som, onde é a farmácia Nataly, na avenida 29 de dezembro, Braz que era o dono me confiou o espaço e ai eu consegui fazer dois ou três eventos lá, até hoje Braz tem um carinho imenso por mim. Foi o que eu construí ao longo do tempo, o pouco que eu construí de respeito foram nos pontos essenciais, eu tenho uma casa que é a UESCC para fazer um evento, tenho contato de um pessoal que aluga som. O primeiro Capibaribe in Rock, aconteceu na data do aniversário da minha mãe, eu fiz involuntariamente, sem saber, depois foi que eu me toquei, em 08 de agosto de 1998, no mesmo ano, nós fizemos o halloween, em 31 de outubro e no final do ano fizemos a Zueira Natalina, então no primeiro ano foram três eventos. Tiveram pessoas essenciais para esse começo, todo o pessoal da UESCC, Gilberto Geraldo ajudou também muito, o primeiro cartaz quem fez foi Iron, e Charles foi uma pessoa essencial também, chegou junto e topou. A gente só conseguiu fazer porque deu um público da porra, deu umas 600 pessoas, tanto que a grana que deu, a gente ajudou a comprar os instrumentos da Carcinose, fui em Recife com eles comprar bateria, guitarra… Já passaram pelo palco do Capibaribe in Rock, gêneros musicais como a MPB, a música eletrônica, Indie, o Batuque e Maracatu, a voz e violão… Quando o festival foi pensado era para ser um evento direcionado ao Rock? Era para ser direcionado a todas as formas de linguagens artísticas e culturais, o rock no nome é algo ilustrativo, me lembra da raiz, porque eu sempre curti rock, mas a ideia foi espelhada no Abril pro Rock, que tinha uma feira pop, o mercado pop, tinha a galera do mangue beat, tinha expositores, e aí eu vi e queria fazer algo desse mesmo modelo, com bem muita diversidade, algo muito massa, no início, em 1994, o evento acontecia no maluco beleza e lá rolava de tudo, tatuagem, brechó, de tudo…eu pensei né, eu não vou fazer algo voltado só ao rock se o que eu quero é mesclar, tanto que a partir de 2001 eu comecei a fazer parceria com a UESCC, eles ofertavam oficinas de percussão e de DJ’s. A partir de 2000 eu comecei a fazer sozinho com a produção executiva do festival, de captar recursos, sozinho, assim, sozinho entre aspas, porque Charles sempre esteve comigo na captação de recursos, ele foi muito essencial, foi ele quem abriu as portas para o CDL, e também para outras três ou quatro empresas. Exposição Artística na UESCC. Foto: arquivo de Betto Skin Atualmente quem compõe a equipe de gestão do Capibaribe in Rock? Eu tenho como parceiros hoje em dia, na produção, Naldo Budega na parte gráfica, Jorge Luiz cuida das redes sociais, a divulgação, e apresenta o festival e a UESCC, que tá sempre como pedra fundamental, eu tô sempre contando com a UESCC, sempre é a casa, e eu. Mas assim, eu digo eu porque é quem tá correndo atrás, mas se eu não tiver banda para convidar, um segmento, um movimento para convidar, eu não consigo fazer. Esses que eu falei são os pilares mas todo ano a galera que aceita participar fazem o festival comigo também. Enquanto produtores culturais sabemos que o apoio financeiro público ou privado é bem escasso para produções artísticas, e se tratando de uma região do interior isso se torna ainda mais agravante. Dito isto, acreditar na (re)existência do evento foi difícil? E como aconteciam esses apoios no início? Muito, a questão do apoio é o seguinte, sem o fomento institucional, no caso, via pública, seja a prefeitura, a secretaria de educação e cultura, é impossível de se fazer o evento, porque a maior despesa do evento está na parte de som e de iluminação, de estrutura. Todas as bandas que se predispõem a tocar, sejam de Santa Cruz ou de fora, das cidades circunvizinhas, ou seja, que tenham o interesse em tocar no festival, mesmo sabendo que não tem cachê, por o evento ser um evento aberto, público, no máximo eu consigo dar uma ajuda de custo, hospedagem e a alimentação, alimentação sempre, é o essencial. Quando a gente consegue trazer uma banda de fora que vem tocar na irmandade, muita gente que vem me diz: arruma um lugar pra ficar aí que a gente vai por nossa conta, eu escuto muito “a gente quer tocar”. aí vem se diverte… Já teve banda que veio tocar de Mossoró, mais de 700km pra cá, eu disse que disponibilizava a hospedagem, mas o combustível não tinha como, eles disseram, não pow a gente vai por nossa conta, 30 de outubro o nome da banda, se eu não me engano vieram tocar na edição de 2013, eu acho bem legal isso ai. Mas o que eu consigo captar junto à iniciativa privada é justamente o básico para poder suprir essas necessidades. É um evento totalmente apolítico, mas sem o apoio da prefeitura eu não consigo fazer, quando eu chego em cima do palco eu não vou agradecer ao prefeito fulano de tal, mas sim a instituição, porque eu enquanto produtor cultural, eu faço um evento gratuito, tomando muitas vezes o lugar e a obrigação da iniciativa pública que é de fomentar a cultura, e trazer ao jovem e a sociedade o lazer gratuito e eu trago isso, mas ai a visão das prefeituras, das gestões, no meu ponto de vista é uma visão limitada, mínima, com relação ao evento, de interesse, apesar de eu ter esse apoio ai, mas eu sou daquele que se levar um não eu não vou para a rádio criticar, não vou perder meu tempo com isso não. E aí, eu sempre busquei ficar distante dessa disputa política que existe aqui. Mas era para se ter um direcionamento mais adequado para eu oferecer um evento melhor, com uma estrutura maior para o público, pro cidadão santacruzense que é obrigação do município, do estado, da união o que quer que seja, que é fomentar culturas públicas, e eu faço o papel da iniciativa pública. Do mesmo jeito que tem a visão limitada da iniciativa privada também, que às vezes dá o valor da cota mínima, que para o festival, não chega nem a 10% das cotas de grandes eventos ai. Outra porta que abriu nessa última edição do Capibaribe in rock foi uma parceria massa com a Rádio Polo, que cedeu espaço para divulgação, me convidou pra o programa dele, e eu conheci Silvio José pegando carona pra ir pra Surubim, ele era locutor de uma rádio de Surubim, em 1994 quando eu tava voltando para visitar Limoeiro, sempre tive esse carinho com Silvio, essa aproximação, já fez gravação pra mim, gravação de mídia sonora, sempre cedeu o espaço pra divulgação do Capibaribe, eu num sabia a rádio que Silvio tava, mas ele sempre se mostrou aberto a divulgar o festival, isso é outra coisa que eu achei massa, é outra porta que se abre, porque eu também nunca fui de forçar muito não, sempre se apresentaram pessoas sensíveis e permanecem parceiros. Eu só não tive apoio da gestão municipal nos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008, a gestão me procura em 2009 e a gente consegue destravar e eles também conseguiram compreender que o que eu faço é um festival apolítico, eu sou apolítico, o evento é direcionado pra música. Agora vê o que é um festival com o suporte de um edital, em 2009, rolou um edital para microprojetos do semiárido, que envolvia todo o semiárido do nordeste, pegou o agreste, uma parte da Bahia e de Minas Gerais, tudo que era considerado como semiárido, aí o Capibaribe foi contemplado, saiu o resultado no final de 2009, e eu executei justamente no Capibaribe de 2010. Nessa edição eu fiz um evento do jeito que eu queria, três dias, na sexta feira, primeira noite teve maracatu, chorinho, MPB e regional, na segunda noite rock, metal, indie, folk, no domingo teve grupo percussivo, três dias, todo mundo recebendo um cachê legal, um dos parceiros que sempre agregava era Alexandre Soares do Curta Taquary, esse ano de 2010 a gente colocou o projetor na calçada, na parede branca da frente da UESCC e ficou exibindo os filmes na calçada, Luciana fez as exposições dela, teve oficina de confecção de máscara, de percussão, tocou o maracatu chamado Brasilidades que tinha Rubinaldo Catanha e tinha outro Catanha, eram dois Castanhas, que os Catanha é uma etnia em Santa cruz né uma família não, uma musicalidade da porra, Santa Cruz é muito rica por isso. Aí eu digo porra como é massa uma estrutura pra um festival, foi, foi…(não conseguiu achar a palavra que descrevesse). Beto, saindo um pouco do protocolo, gostaria aqui de reverenciar a sua garra, persistência e resistência para comandar um evento que tomou essa dimensão que tomou, como ele está entalhado na história cultural e política de Santa Cruz do Capibaribe, e evidenciar o produtor cultural porret@ que você é, além de ser o vocalista de uma das bandas que mais passou no palco do festival, a banda Le Freak, que este ano completa 19 anos de carreira. Como você vê a relação entre o Capibaribe in Rock com a Banda Le Freak? Eu sou feito o dono da bola. O dono da bola era o jogador mais ruim da rua, mas ele jogava em todos os times sempre. A Projétil Lisérgico surgiu em 1998, e em 2003 fizemos um show lá na rua grande num palco bem grandão, o palco disputou espaço com os bancos da feira e os ônibus de excursão que vinha da Bahia, nessa edição veio dois amigos meus que eram do exército, mas gente boa, colocaram o rapel, montaram lá, Gilberto Geraldo desceu, quem tinha coragem desceu. Foi o último show da Projétil Lisérgico que foi em 2003, e aí em 2004 a gente já começou como Le Freak, aí tivemos um intervalo que foi o período que eu perdi meu pai, em 2005, em 2006 eu pensei em remontar a banda, mas eu vou cantar dessa vez, remontei a banda com Charles na Guitarra, eu no baixo, Beto Moura e Robson. O show de retorno foi no Capibaribe de 2006, que foi em frente ao Tibúrcio, foi na rua. Eu sempre compunha com Charles. A gente tem um EP gravado em 2014, gravado no Recife, com Charles, Renato, Lamarques, Leitão e Eu, e tem um agora que a gente gravou em 2021, gravamos em Surubim, no studio de Surubim, via Lei Aldir Blanc, que tá lá na nossa página no bandcamp (https://lefreakpe.bandcamp.com/), Adventures em Lo-FI, Aventuras de Baixa Fidelidade. No prédio de Arthur Clemente, que é pai de Lula Clemente que é um cineasta aqui de Santa Cruz que tem um filme muito cult que é a Galega da Moto. Na edição do Capibaribe in Rock de 2005, a gente tocou lá no prédio de Arthur, no térreo, chamava a garagem e em seguida teve a exibição do curta da Galega da Moto e a gente fez a trilha sonora ao vivo, eu no baixo, Carlos Mosca na Voz, Charles na Guitarra, a gente fez um bregão ficou do caralho! Projétil Lisérgico. Foto: arquivo de Betto Skin Banda Le Freak. Foto: arquivo de Betto Skin Para finalizar, trago um comentário que o Euzébio fez sobre você em uma entrevista para um blog da cidade, ele disse “Betto além de ser o criador do evento é o que ‘dá mais sangue’ para sua realização”. Diante desse fragmento e de tudo que conversamos aqui, o que seria, para você, o principal ingrediente para se criar e resistir um festival dessa proporção? Ter quem acredite, é como eu disse, eu não tô sozinho, eu tô dando o sangue, mas se eu não tiver banda pra tocar, se eu num tiver ninguém pra expor, se eu não tiver uma casa pra fazer, ninguém faz nada sozinho não. Se eu não tivesse todo esse apoio que eu tive e tenho…o mais massa é quando eu ligo pra alguém convido pro evento e eles dizem na hora “quero”, porque o apoio financeiro é importante também, mas não adiante fomentar se não tiver o artista, se não tiver o louco lá mostrando sua arte. Em toda história do Capibaribe tem muita gente que participou que fez esse movimento acontecer, num foi eu sozinho, eu catalizo, eu vou organizando por aqui, e sempre esperando uma ajuda maior, um reconhecimento maior, por ai.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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