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- FACE DE QUEM PERCO: o amor que abraça as faltas
Por Nilton Barros Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo M. Martins PALAVRAS INICIAIS NATURAL DE ARCOVERDE, SERTÃO DE PERNAMBUCO, E TENDO MORADO EM PESQUEIRA POR BOA PARTE DE SUA VIDA, Vinícius Galindo Farias é escritor, poeta e estudante do curso de Design, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA) e emerge como uma voz singular na poesia contemporânea brasileira, com o seu primeiro livro: Face de quem perco, publicado em 2025 pela editora Mondru. Em busca de dar vazão aos conflitos internos, o autor, em sua obra, navega pelas sombras do afeto humano, transformando silêncios e vazios em versos pulsantes; além de capturar essa essência com delicadeza intensidade, ele convida o leitor a conhecer e aprender a lidar com espaços onde a perda, a falta, o amor, o desejo, a emancipação e o erotismo são protagonistas. NESTA CONVERSA, mergulhamos no universo criativo do autor, explorando o que o impulsiona a escolher a poesia, também, como forma de expressão criativa. Abordamos temas recorrentes em seu trabalho, como o confronto com ausências que, paradoxalmente, geram laços profundos – um amor nascido das faltas, ecoando em metáforas íntimas e familiares. Além disso, Farias compartilha reflexões sobre o ritual de escrita, o nascimento orgânico de um livro e as parcerias que amplificam vozes semelhantes, como afinidades temáticas com outros criadores. O livro terá o seu lançamento oficial em Caruaru, no dia 15 de maio, às 16h, na Cultural Livraria e Cafeteria, com mediação de Maria Eduarda Alexandre Rodrigues, estudante do curso de Comunicação Social e colunista da revista SPIA, também da UFPE. No texto que segue, com fotos de Vinícius Galindo Farias, organizamos o conteúdo da entrevista que realizamos com o autor, registrando apenas suas reflexões e respostas, na tentativa de compreender melhor como ele entrelaça o pessoal no universal, celebrando o que está ausente para amar o que permanece. COM A PALAVRA, VINÍCIUS GALINDO FARIAS EU TRABALHO COM OUTROS TIPOS DE ESCRITA TAMBÉM. O que acontece é que, independentemente do rumo que eu tomasse, todas as minhas decisões criativas se voltariam para a poesia em algum momento. Quando eu comecei a escrever, antes mesmo de me considerar escritor, quando tinha 6-7 anos, escrevia textos que hoje eu sei que eram poemas, ou inícios de poemas. Alguns eu nunca finalizava e outros sim – e eu sei que não eram bons, mas tudo isso foi uma preparação para que quando eu publicasse Face de quem perco eu soubesse que era um caminho a se seguir. Foto autoral de Vinicius, 2023. Fonte: Instagram. OS MEUS POEMAS, GERALMENTE, ABORDAM A QUESTÃO DE AMOR. E assim como todo o resto da minha literatura – até o presente momento – lida muito com a questão da falta e da perda. Tanto que, este primeiro livro acaba sendo um monumento de toda a minha temática na escrita e na literatura. Eu gosto muito de fazer uma investigação das ausências, tanto no indivíduo quanto no sistema; ou então em determinadas situações. Então, escrever sobre isso, dar vazão a isso, me dá cada vez mais clareza, mais certeza do que pode me comover e comover o outro, e de como eu posso me conectar com outra pessoa por meio desses versos, por meio desse tema em si, porque a perda é inevitável e universal. EU CREDITO MUITO DA MINHA ESCRITA À MINHA FAMÍLIA. Eu venho de uma família em que a matriarca é minha avó e é uma professora aposentada do Estado. Na época em que eu nasci e quando era novo, fui criado por ela e ela ainda estava em atuação. Ela sempre levava livros da escola para mim, me incentivava bastante a ler histórias em quadrinhos, tanto ela quanto a minha mãe e o meu tio. Histórias em quadrinhos, livros, textos diversos que me moldaram, querendo ou não, independentemente do teor deles. Além disso, eu credito bastante da minha escrita poética à Cecília Meireles, que eu comecei a ler no 9º ano do Ensino Fundamental. Hilda Hilst, também, – que curiosamente morreu no mesmo dia que eu nasci – a minha literatura funde bastante à dela em alguns pontos. Quando eu descobri a nossa data de nascimento e a data de morte dela, eu descobri como a nossa literatura se cruzava e achei muito interessante traçar esse paralelo. Foto autoral de Vinicius, 2025. Fonte: Instagram. Clarice Lispector é uma escritora indispensável de se falar, especialmente no meu caso, como é poesia, a linguagem de Clarice acaba sendo muito poética. Tenho também algumas amigas e amigos escritores que me inspiram bastante, como Maíra Dal’Maz, que é do Rio Grande do Norte. Ela escreveu a orelha do meu livro há muitos anos atrás. Renata DeCastro, também poetisa, que fez o texto da orelha para essa versão de agora (2025). Tem Fellipe Fernandes Cardoso, que escreveu o prefácio. Ele é romancista, mas a escrita dele é muito sentimental, muito versada quando a gente para para analisar bem. Débora Gil Pantaleão, minha antiga editora, também é poetisa e trabalha com a questão da negritude e do ser mulher bissexual no Brasil e no Nordeste. Conhecer o trabalho dela na minha adolescência foi muito importante. John Green também foi muito importante no meu desenvolvimento como leitor e escritor na pré-adolescência e adolescência. Eu lembro que os textos dele me deixavam pensativo e estimularam bastante a minha criatividade com relação ao desenvolvimento de personagens, porque ele usa muito bem o diálogo como uma forma de desenvolvimento, assim como o monólogo interno também; essa junção ele consegue fazer muito bem, a meu ver. Eu lembro bastante de outra referência, que é a Aline Bey, escritora de O Peso do Pássaro Morto. Lembro que em 2021, li A Pequena Coreografia do Adeus e, mesmo não sendo um livro com uma grande história, ele consegue captar a pessoa pela linguagem, pelo uso das palavras e da estruturação do texto, e como ela vai reformulando a linguagem do jeito dela, estilisticamente falando, conseguindo deixar aquilo original, mesmo sendo estranho à primeira vista. EU ACHO QUE TEM IMPORTÂNCIA, COMO ESCRITOR, DA GENTE CONSEGUIR CANALIZAR tudo aquilo que a gente quer naquele momento, com aquele contexto controlado. Mas em ambientes livres eu também consigo, eu gosto. Eu costumo escrever num bloco de notas antes de dormir ou na rua, por exemplo. Em cadernos, quando estou em aula. Não costumo me colocar em regras para como escrever. Meu processo de escrita acaba sendo bem diverso para cada projeto e para cada dia também por causa disso, mas eu sinto que quando o ambiente está mais controlado e que eu consigo controlar aquelas circunstâncias, o processo acaba sendo bem mais fluido, especialmente para escrita de prosa. É muito melhor você ter um ritual de escrita mais aprimorado porque, para a poesia, consigo ser bem mais aleatório do que com prosa, porque a prosa exige planejamento e mais estudo – já a poesia, querendo ou não, não exige anos de pesquisa para conseguir desenvolver. Não tem um personagem por si só na poesia, tem um eu lírico, que acaba sendo, simultaneamente, bem mais complexo e mais simples de desenvolver, para mim. EU COMECEI A ESCREVER, COMO FALEI, MUITO NOVO. Lembro que uma semana antes dos meus 11 anos, decidi que queria ser escritor, só não sabia como exatamente. Mas eu sabia que um dia iria conseguir escrever e publicar os meus livros. Na época, eu ainda não me reconhecia como poeta, apenas como romancista. E naquela época, algum tempo depois, o primeiro texto de Face de quem perco surgiu. Você vai encontrar a versão mais recente dele no poema "Terra Morta", que está presente na versão final do livro. A primeira versão foi o texto mais antigo do livro, e é de 2016, então são dez anos de lá para cá. Decidi que deveria ser um livro – e que eu queria publicar esse livro – depois de muitos anos escrevendo textos soltos, e de perceber que esses textos poderiam se juntar em uma coletânea. Na época, comecei a ler muitos poetas e a ter acesso a várias antologias; li livros solos de autores e percebi como eles faziam muito bem o seu trabalho, de um jeito que não é tão convencional a gente ler um livro de poesia hoje em dia, porque o romance acaba sendo o gênero mais vendido nas listas da revista Veja, por exemplo, junto com os de não ficção e os de espiritualidade, por algum motivo. Mas eu vi naquilo a chance que eu tinha de, talvez, começar alguma coisa, seja um projeto que fosse finalizado, seja um renome para a crítica e para o mercado literário. Encontrei na poesia uma porta de entrada, além de ser, também, uma porta de entrada dos outros para mim. Há muito de mim no eu lírico, e estes se confundem bastante entre si, em certos pontos. Então, apenas quem me conhece muito vai saber quais partes são verdade e quais partes não são, porque é justa e ironicamente a liberdade poética que trata disso. Em 2021, Face de quem perco iria ser publicado por outra editora independente, a Escaleras, fundada por Débora Gil Pantaleão, que eu falei anteriormente. No mesmo ano foi aceito, e em março de 2022 a editora fecha as portas. Assim, eu me vi sem editora e sem perspectiva de publicar esse livro. Foi um desafio, porque com 17-18 anos eu precisava entender que o livro ainda não estava pronto. Eu achei que ele estava. Tive que desenvolver maturidade de desenvoltura na escrita, porque o livro não tinha conceito nenhum antes; eram apenas textos soltos que tinham temas muitos similares ou tangentes entre si, mas que você não via uma conversa entre eles. A partir do momento que eu comecei a enviar para algumas editoras e eu não via resposta alguma, comecei a pensar: “Tem alguma coisa que eu preciso melhorar”. Aí eu ouvi de um editor que o texto ainda estava muito verde, e isso foi o “clique” que eu precisava. Percebi que o livro poderia ter um efeito mais coesivo, poderia ter uma condução ao longo dos textos. Foi apenas no ano seguinte, em 2023, que eu comecei a trabalhar melhor no livro, quando eu também trouxe o poema que dá título à obra, que é o Face de quem perco. Na Casa dos Sonhos, de Carmem Maria Machado, 2021. Fonte: Google. Criei esse poema em junho de 2023 e fui construindo isso. Lembro que eu via algumas resenhas e impressões online em periódicos e jornais, sobre o livro Na Casa dos Sonhos, de Carmem Maria Machado, e achei muito interessante o projeto gráfico, tanto nas edições originais quanto no Brasil: essa pessoa que está enjaulada dentro de uma casa, e essa casa é pequena demais para ela, ao mesmo tempo também que é a casa naquela figura, porque você não consegue mais dividir qual é ela e qual é a casa, qual é a narradora e qual é a casa. Quando vi aquelas ilustrações, fiquei muito intrigado. Então, foi um processo até eu descobrir que queria ser publicado, foi um processo também para eu conseguir ser publicado e para eu conseguir desenvolver esses textos de um jeito que eu pudesse me orgulhar deles quando saísse e caso alguma editora lesse. EU SABIA, DESDE O COMEÇO, DESDE QUANDO O LIVRO VEIO PARA MIM COMO UM LIVRO, QUE EU PRECISARIA FAZER ALGO CÍCLICO, que mostrasse esse início, meio e fim, numa estrutura de três atos para os poemas e para a minha própria realização pessoal também: ver aquilo e conseguir compreender, delimitar a interpretação à minha maneira. Então, juntei a inspiração de Na Casa dos Sonhos, e decidi ficar com essa metáfora e aprofundar nela. Querendo ou não, a poesia, por mais difícil que sua linguagem seja, te traz mais vantagem quando você consegue trazer referências que aproximam o leitor, o crítico ou qualquer outra pessoa que for consumir o seu trabalho. Você tem muito mais chances de ser lido. Você tem muito mais chances de que haja uma conexão ali. Vinicius Galindo, autor da obra Faces de quem perco, 2026. Fonte: Nilton Barros. Então, a casa é algo universal – todo mundo sabe o que é uma casa, todo mundo sabe a sensação de se sentir em casa. E eu queria justamente trazer isso: o que é não se sentir em casa em algum momento, quando as luzes se apagam, quando você volta com aquela pessoa de uma festa e se pergunta quem é você quando a casa fecha os olhos, quem você é no escuro das pálpebras dela, que é algo relacionado ao livro. Como é não se sentir em casa ao mesmo tempo que você já está na casa? Como é você ter que reconstruir a casa mesmo já tendo construído tantas outras vezes? Como é ter que começar ou recomeçar? Então, isso acabou batendo muito forte em mim pela questão da simplicidade com que isso pode ser conduzido. Sei que talvez eu tenha sido muito sofisticado, em algum ponto ou outro. Acho que é até por ser meu primeiro trabalho finalizado, de fato, mas essa questão da familiaridade, da identificação, foi o motivo principal para eu ter me atido a essa metáfora. Fico muito feliz também por ter me atido a ela, porque não teria funcionado de nenhum outro jeito. EU JÁ TINHA COMEÇADO A ESCREVER OUTRA HISTÓRIA, OUTRO LIVRO, QUE ERA UM ROMANCE, EM 2015. Uma parte dele veio a ser finalizada em 2016, e aí anos depois é que eu reconheci como um romance finalizado propriamente. Eu achava que era apenas um prólogo da história, mas acabou sendo um romance inteiro. Naquela época, eu lembro que escutava bastante indie pop. Lembro de escutar The Sweeplings, que é um grupo dos Estados Unidos; "Fluerie" e "Ruel" são músicas de trilha sonora das séries adolescentes da época, só que sempre tinha um clima mais sombrio nas nelas. E também nas próprias histórias que eu lia como fantasia e alguns romances adultos que eu não deveria estar lendo, mas que eu lia. Me inspirei bastante naquela época, na música e na literatura que eu consumia. E quanto ao meu gosto, o meu consumo cultural foi se aprimorando e se nivelando ao longo dos anos. A minha escrita também foi acompanhando esse ritmo, mas acho que o cerne sempre tem essa questão do amor, da desilusão, da juventude, da perda ou do ganho, dependendo da perspectiva. Sempre estou construindo uma casa diferente – só variam o ano e o projeto também, mas acaba sendo, sempre, uma construção. Creio que de 2015 para cá, que é quando eu tomei aquela primeira decisão de ser escritor, aprendi a me organizar melhor com relação aos conceitos de cada projeto, o que cabe e o que não cabe em cada um. Também aprendi a saber quando um projeto não vai engrenar ou quando merece ser levado com mais a atenção, como ter elementos coesivos mesmo entre os textos do livro ou entre os personagens, dependendo do gênero. E na poesia, claro, aprendi muito sobre justamente criar esse contexto e esse conceito para o livro, para os textos, para que eles combinem entre si. Eu gosto de histórias, não só de poemas. Sou um ávido fã de romances e contos. Então, eu gosto de trazer essa questão para a minha escrita poética. Tanto que o meu segundo trabalho, que eu pretendo lançar ainda esse ano, também vai ter esse olhar, esse prisma. EU ACHO QUE COM A POESIA ACABA SENDO MAIS DIFÍCIL DE DELIMITAR UM PÚBLICO-ALVO, porque, ao contrário da literatura mais comercial, diga-se de passagem, como romances jovens adultos – os YA (Young Adult) – e os romances policiais etc., costumam ter a classificação indicativa nas livrarias, pelas editoras, às vezes pelos próprios autores. A poesia acaba sendo algo tão abstrato no próprio conceito que a comercialização dela é contraditória. Você nunca sabe para qual público aquilo é exatamente, até que aquele público a sinta. Então, acredito que definitivamente não é uma música da Xuxa, mas também não é algo que apenas determinada classe ou determinado tipo de gente vai ler. Tem adolescentes interessados no meu livro, tem idosos interessados no meu livro que compraram, que adquiriram, gente que comprou para a mãe, gente que comprou para a tia. Acredito que, no final das contas, quem é amante de poesia de verdade, quem gosta de verdade do gênero e de se colocar à prova, colocar sob as lentes de uma reflexão mais profunda, consegue desfrutar desse trabalho sem precisar pensar muito. E se pensar, que pense em como ele foi bem executado, eu espero. O livro não é dedicado a alguém em particular, talvez apenas alguns poemas. "Três à mesa", por exemplo, é um poema bem específico, de algo muito específico que já aconteceu. Vinicius Galindo com sua obra Faces de quem perco, 2026. Fonte: Nilton Barros. Alguns poemas como "Um mar ou uma poça, ou melhor, um laguinho", e "Abacaxi ao vinho", como eu falo na minha própria divulgação do livro, é uma narrativa que justamente trata do eu lírico se munir das próprias faltas dele, passadas e presentes, para continuar escrevendo. As musas dele são as perdas, e é por isso que o livro carrega esse título Face de quem perco: ele está ali, face a face com àquelas perdas diárias, passadas e presentes, para continuar se instigando a escrever, a fazer os versos. Essas pVerdas não são só do eu lírico, são perdas minhas também. Tenho dois poemas específicos que são dedicados a pessoas reais. Uma delas é Nalva, a outra é Lelê. Foram duas pessoas reais na minha vida, as duas já falecidas. Tem outros que são para amizades e para relacionamentos que poderiam ter acontecido e nunca aconteceram porque estavam só na minha cabeça mesmo. Algumas pessoas que eu gostei por bastante tempo, com quem eu convivi por bastante tempo. Tem um poema chamado "Cinco anos", que fala exatamente sobre uma dessas pessoas, e que era a mesma pessoa de "Três à mesa", então, quando você ler, pode associar que será a mesma pessoa. No universo criado por Face de quem perco, é só um ser amado a quem o eu lírico se refere, mas sempre escrevi pensando em várias pessoas. Às vezes nem mesmo em alguma em específico, só por escrever; para ter aquele sentimento canalizado, aquela reflexão escrita e finalizada no papel. Eu diria que é justamente igual ao eu lírico: uma miríade, uma junção de vários fatores, contextos, ambientes e pontos finais que já houve. QUANDO EU FIQUEI SEM A EDITORA ESCALERAS, foi quase um ano de hiato na escrita, apenas fazendo alguns textos soltos que não entraram no livro propriamente. No entanto, durante esse período passei pelo processo de saída do Ensino Médio para ingressar na UFPE, o que acabou sendo, também, um luto que eu estava vivenciando em paralelo com os lutos que descrevo no próprio livro. Nesse contexto todo, conheci a Mondru, que é uma editora independente de Goiânia. Eles foram inaugurados em 2020, durante a pandemia. Ela já tinha certo burburinho, com alguns autores finalistas e semifinalistas de Jabuti, alguns prêmios assim. E eu gostei. Como ilustrador e como designer, a primeira coisa de que gostei, não vou negar, foi o projeto gráfico deles. Cada projeto é personalizado e traz muito dos trabalhos dos próprios profissionais envolvidos. No caso, o principal é Jefferson Barbosa, que é o editor e designer-chefe. Me interessei bastante pelo projeto gráfico deles. Entrei em contato na época só para saber como funcionava o processo de avaliação. Depois continuei acompanhando as publicações, assim, esporadicamente, até que em 2024, quando eu já tinha o título novo do livro – o título antigo era Saudade Qualquer – tive a primeira versão finalizada e fiz algumas conexões para ter leitores de teste, para que me falassem o que eu precisava melhorar, o que deveria ser retirado ou não, o que já estava bom e não precisava ser mexido; enviei, após alguns meses nesse processo de ajustar os textos, para a Mondru em outubro de 2024. E aí, em meados de janeiro, a Mondru me respondeu já com a proposta de publicação. Não foi um bicho de sete cabeças. Ilustração do livro Face de quem perco, editado por Jeferson Barbosa, 2025. Fonte: Editora Mondru. O processo deles, na época, foi bem transparente. Editoras independentes, na verdade, são bem mais acessíveis do que as tradicionais, porque, ao contrário das tradicionais, os autores não precisam de intermédio de agentes literários para falar com elas. Elas geralmente têm um contato direto com os autores e com os leitores, então foi algo bem fácil pra mim nessa época. Foi gratificante também ver, tanto por parte da minha editora assistente quanto por parte do editor-chefe, a satisfação deles em estarem trabalhando no meu texto. Também foi um pouco cansativo, devido à demora em algumas etapas. Depois, passei pelas avaliações das leituras iniciais. Pela editora, tive leitura crítica, revisão, diagramação e teve toda a questão do projeto gráfico, sobre o qual eu também pude dar um aval. Eles me passaram algumas perguntas sobre o que eu imaginava, sobre poemas que eu queria que fossem ilustrados para o miolo do livro. Então, todas essas questões foram acatadas desde a paleta de cores até a tipografia para a capa. A ideia da capa surgiu relacionada a um poema, que é o último poema da primeira parte, o "Sístole". Nele, o eu lírico fala como se estivesse falando das paredes do coração do par romântico dele. Então, aqui é como se fosse dentro de um coração: na contracapa interna são as veias e as artérias; e na própria ilustração do "Sístole", eles trouxeram essa ideia. Eu falo que a pessoa está pintando uma réplica do ser amado no próprio coração. Ela está dentro do coração pintando, fazendo uma réplica fidedigna. Esse coração que é um ofertório vibrante, escuro e podre, então creio que eles se aproveitaram dessa descrição para justamente fazer essa nuance de cores. Eu também trago como palavras “fogo”, “face pálida”, “sensualidade do fruto da derme ao âmago”, “alma desbotada”, “doença”, “altar”, “choro”. O projeto gráfico traz muito dessa questão do coração, do cenário criado a partir da leitura desse poema. Esse conjunto de visualidades reflete o eu lírico fragmentado, confuso, com muitas emoções ao mesmo tempo. Acho que eles souberam traduzir muito bem toda a linguagem do livro; me sinto, de fato, muito lisonjeado por terem feito esse tipo de trabalho para a minha estreia. Fico muito honrado em ter sido escolhido por eles, que investiram muito tempo, energia e trabalho no meu livro. Isso só reforça o que eu falo nos agradecimentos do livro: tanto na área da escrita como na do Design, não se faz um trabalho desse sozinho. Mesmo quando você está escrevendo algo, você está trazendo consigo o repertório que você tem. Por mais que o trabalho da escrita seja muitas vezes solitário – já que temos que estar a sós com os nossos próprios pensamentos, teorias e reflexões –, a gente nunca está realmente sozinho. Renata de Castro e seu livro De quando estive em alto-mar, 2023. Fonte: Instagram. RENATA [DeCastro, já citada] FOI PUBLICADA PELA ESCALERAS, ENTÃO A GENTE SE CONHECEU POR CAUSA DISSO. Nossos temas, se entrelaçam na questão do amor, do erotismo e do sexo. Da emancipação, enquanto a dela é feminina, a minha talvez seja a do pensamento homoafetivo no geral, porque apesar de eu escrever sobre diversos outros gêneros, nesse trabalho eu foco justamente em uma relação homoafetiva. É importante eu trazer esse paralelo entre a minha escrita e a dela, para dizer que não somos os mesmos, mas a gente se encosta, e quando a gente se encosta, é muito bom ver essa similaridade. Eu me inspiro nela também e ela sabe que é uma grande inspiração para mim. Acho a escrita dela muito especial, muito única, até porque ela é professora de língua portuguesa, pelo o que eu lembre. Ela é formada em Letras, então estuda bastante os conceitos de poesia, métrica, históricos etc. Eu acompanho um pouco desse processo e é, num geral, muito lindo ter uma parceria como essa no mundo da escrita. O que só reforça o que eu já falei, que não dá pra fazer nenhum trabalho ou projeto sozinho, mesmo que às vezes a gente esteja lá solitário. EU JÁ LI EDGAR ALLAN POE, ALGUNS POEMAS SOLTOS E UNS TRECHOS DE CONTOS. Gosto muito de “Annabel Lee”, por exemplo. É um texto muito especial para mim porque me lembra muito a minha adolescência e eu meio que “gravitaciono” ao redor da escrita dele (Edgar Allan Poe) por temas que também são bem comuns como a sombriedade, essa tenebrosidade, o macabro, o gótico; gosto bastante da escrita dele, do visual gótico. São coisas que me influenciam mesmo que eu não tenha tanto contato com a escrita dele, mas é um escritor que conheço e consumo indiretamente desde os meus muito cedo. É alguém muito querido para mim. Fonte: Nilton Barros. Sobre a transpiração e a inspiração, eu acredito que seja uma mistura dos dois, porque já existiram várias vertentes da poesia por movimentos de contracultura e movimentos históricos específicos. Hoje em dia, o que a gente mais vê é a poesia livre. A poesia de versos livres, que não tem rima, não tem estrutura apropriada para uma poesia tradicional, mas que a gente reconhece como poesia devido à linguagem também. Mas sempre que a gente escreve, independentemente do gênero de escrita, acho importante a gente se ater ao fato de que estudo é necessário – inclusive quanto à estrutura, por mais desorganizado que o texto possa parecer. Para quem não conhece, às vezes ele vai ter, sim, uma estrutura que fica invisível ali nas entrelinhas. Então, meu processo de escrita mesmo costuma ser muito solto, mas posteriormente sempre tem uma revisão; sempre tem a questão da métrica, que precisa estar envolvida, dependendo da complexidade do poema. Se eu quero que o meu leitor passe por aquele texto com muita celeridade, com muita rapidez, com muito ânimo; o verso tem que ser curto, ou então com sílabas que acabem se juntando umas nas outras. O cuidado com a linguagem, nesse caso, é crucial, imprescindível. Se você quer fazer com que o seu leitor se arraste pelo segundo de uma vida, pelo poema e pelo verso, e que ele sinta a angústia que você está sentindo enquanto escreve aquilo, você tem que usar palavras mais longas, sílabas mais pontudas, por assim dizer; versos mais brutos. Então, sim, existe a inspiração, mas é uma inspiração transpirada. Depois é algo que, se não vier no processo inicial, nas primeiras ideias, vai vir depois uma edição, quando você lembrar daquele texto e quiser mudar. Quando você vir que aquele texto precisa de uma rima e aí você só precisa descobrir qual é a estrutura dele, quando vai rimar e quando não vai, ou, então, como cortar isso ou aquilo e como deixar mais curto porque o efeito que eu quero causar é outro. No final das contas, ele, Edgar Allan Poe, sempre esteve certo.
- Entrevista com Marcel Pereira – egresso do Design, profissional da área de Moda: "A liberdade na criação e a criação na liberdade"
Por Marcelo M. Martins e Miguel Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur PALAVRAS INICIAIS MARCEL PEREIRA: no início foram os desenhos incentivados pelos familiares, os trabalhos em torno da Produção de Moda e os estágios – sempre acompanhados com a vontade de cursar uma universidade, mas a Federal. No Design do CAA, foi monitor de várias disciplinas, e depois mentoria de profissionais como Mário Queiroz e Ronaldo Fraga. Ele pensa o design a partir de suas origens, na indústria – e isso o molda como profissional do mercado que executa muitas vezes mais de uma coleção por período, atendendo ao ritmo das empresas com as quais trabalha. Marcel defende a liberdade criativa, mas entende as limitações (auto)impostas, e reconhece a importância da busca constante pelo conhecimento – tanto na universidade como fora dela. Marcel abordou esses e outros assuntos, inclusive listando alguns conselhos para jovens designers, com Miguel Santos e Marcelo Martins, que organizaram os resultados do “bate-papo” no texto em 1ª. pessoa que segue. COM A PALAVRA, MARCEL PEREIRA SOU DE PESQUEIRA, PERNAMBUCO, mas me mudei muito cedo para Santa Cruz do Marcel, em setembro de 2016, já próximo à conclusão do curso. Capibaribe, com apenas sete anos. A minha descoberta do curso de Design está muito ligada a essa mudança regional. Eu sempre achei que faria Biologia, que seguiria carreira como ornitólogo, mas tudo começou a mudar no Ensino Médio. Na época, fiz um curso técnico em Administração pelo Senai, integrado ao Ensino Médio. Como venho de uma família de desenhistas e sempre desenhei bem, as professoras do curso de Produção de Moda começaram a me incentivar a seguir o caminho do Design. NO SEGUNDO ANO, acabei entrando no curso de Produção de Moda e, no terceiro, já estava estagiando e trabalhando na área. Desde pequeno eu tinha um objetivo muito claro: cursar uma Universidade Federal. Quando descobri que havia o curso de Design na UFPE, no campus de Caruaru, esse caminho se tornou natural ainda que inesperadamente, de certa forma. Entrei na turma de 2011.1 e me formei em 2016. QUANDO COMECEI A FACULDADE, eu já atuava na área há um ano. Como o curso era em período integral, eu passava o tempo todo dividido entre faculdade e trabalho. Não consegui fazer cursos paralelos porque, basicamente, o dia inteiro estava tomado e à noite eu nunca rendi muito, sempre dormi cedo. Então, tudo o que eu poderia fazer como extra, eu fazia dentro da própria faculdade. FUI MONITOR DE PRATICAMENTE TODAS AS DISCIPLINAS LIGADAS À MODA. Durante uns três anos, três anos e meio, fui monitor da professora Flávia Zimmerle. Também fui monitor das professoras Nara Rocha, Andréa Camargo e Tati Leite. Foi um período muito voltado à monitoria e aos projetos de extensão. EM 2026, COMPLETO 16 ANOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL. Literalmente, trabalho há metade da minha vida. Ao longo desse tempo, passei por muitas áreas diferentes. Trabalhei com alfaiataria durante vários anos, já atuei com moda fitness e praia, fui modelista, trabalhei como ilustrador e tive a oportunidade de participar de projetos como o Senai Brasil Fashion, onde fui mentorado pelo estilista Ronaldo Fraga. TAMBÉM PARTICIPEI DE UMA MENTORIA com o professor Mário Queiroz durante a pandemia. Hoje atuo no segmento de moda masculina, aqui em Recife, numa empresa chamada Broomer, que está há mais de 30 anos no mercado de varejo masculino. ACHO QUE NENHUM DESIGNER VAI DIZER QUE tem carta branca pra fazer o que quiser, né? A gente está sempre condicionado a algo — e isso faz parte da profissão, o que, de certa forma, é até saudável. O design, especialmente quando ligado à moda, está naturalmente muito sujeito aos movimentos do mercado, às mudanças sociais, ao comportamento de um público-alvo que tem seus desejos, referências e limites. Desenho autoral, intitulado "Casaco mondrogo 2: o retorno do Diabo", 2022. ENTÃO, MESMO QUANDO A GENTE TRABALHA POR CONTA PRÓPRIA, com a nossa própria marca, dentro do sistema em que vivemos, chega uma hora em que a gente precisa se adaptar e entender que essa carta branca total não existe se a gente quer tornar o trabalho sustentável. DIZER QUE TENHO LIBERDADE TOTAL para criar tudo o que quero? Não tenho. E, sinceramente, nem acho que deveria ter. O que eu tenho é liberdade pra criar dentro dos parâmetros que a empresa em que estou define — parâmetros de público, de foco, de objetivo. DENTRO DISSO, SIM, TENHO LIBERDADE TOTAL. Mas se percebo que estou saindo um pouco, eu mesmo dou um passo atrás. É como se existisse uma cerca que eu mesmo me imponho, e eu não ultrapasso. O DESIGNER DE MODA PRECISA DESENVOLVER duas frentes principais. A primeira é a parte técnica. Um bom designer tem, sim, que saber modelar, entender de costura, ter conhecimento sobre tecidos, fibras, acabamentos. Precisa olhar uma peça e saber se ela está mal cortada, se está bem finalizada. E mais do que isso: precisa conseguir expressar tudo isso de forma clara, para que o que ele desenvolve seja compreendido por toda a cadeia de produção. Esse é o lado técnico, que é fundamental. MAS TAMBÉM EXISTE O LADO SUBJETIVO — aquele que, à primeira vista, pode parecer meio hermético, mas não é. É o campo do repertório: é preciso ter um repertório visual consistente, ter contato com diferentes formas de arte, de cultura, de expressão. Pode vir de literatura, música, cinema, manifestações populares... tanto faz se é Troinha ou Mozart. O que importa é que isso alimente sua visão de mundo. Viagem a Recife para participar de um evento na área de Design (UFPE), 2015. O QUE DIFERENCIA UM DESIGNER COM ESTILO PRÓPRIO é justamente o quanto ele se apropria desse repertório. Ele entende aquilo como seu e transforma em linguagem pessoal. Então, na minha visão, um bom designer é aquele que consegue unir técnica e subjetividade. Juntar essas duas narrativas: domínio técnico e um repertório verdadeiro, construído com autenticidade. É desse conjunto que nasce a personalidade do trabalho. ACHO QUE MINHA GRANDE FONTE DE INSPIRAÇÃO são as histórias. Histórias que vivi, que amigos e familiares viveram, que me foram contadas, que li em livros, ouvi em músicas ou vi em filmes. É o desdobramento dessas narrativas que me inspira, que eu tento transformar de forma pictórica, e essa é, sem dúvida, a minha principal fonte criativa. CONFESSO QUE NÃO TENHO GRANDES REFERÊNCIAS na cultura pop ou nas inspirações mais modernas. O que realmente me move é o processo de criar um storytelling, o desafio de pesquisar e mergulhar fundo no coração daquela história. É isso que me encanta e que mais me inspira como criador. EU ACREDITO QUE, PARA SER UM BOM CRIADOR — seja de moda ou de qualquer outra coisa — é preciso praticar o ato de criar. É ter o hábito de criar. Isso não está, necessariamente, ligado a um diploma ou a uma certificação. No caso da moda, especificamente, é o fato de criar e de colocar a mão na massa, de ter a prática do fazer. SE VOCÊ PARAR PRA PENSAR, é algo que se constrói na base de tentativa, erro e acerto, ao longo do tempo. A faculdade, uma certificação ou um curso técnico encurtam esse caminho. Eles ensinam de forma mais focada, mais concisa, algo que talvez você levasse muito mais anos pra aprender por conta própria. Croqui de estudo sobre mangas, vazados e estampas (2018), idealizado através de IA. POR ISSO, NÃO ME INCOMODA VER PESSOAS SEM BACHARELADO, sem curso superior ou técnico, se destacando como grandes criadores. Acho totalmente plausível que isso aconteça. O QUE REALMENTE ME INCOMODA É quando alguém com algum tipo de capital — seja financeiro ou social — se apropria do trabalho de uma equipe de designers e sai como se fosse o grande criador. Aquela pessoa que fundou uma marca e entra no final do desfile como se tudo tivesse saído da cabeça dela, quando, na verdade, o trabalho foi feito por uma equipe. Ou então um influencer que diz "gosto disso, disso e daquilo", a equipe desenvolve tudo e, no final, ele sai com a fama de bom designer. Isso me irrita: ver alguém recebendo os créditos por uma criação que não é sua. Agora, dizer que só quem tem um diploma pode ser um bom criador? Acho um pensamento muito anacrônico. DESDE QUE ME FORMEI, muita coisa mudou no currículo do curso. Na minha época, o que eu mais sentia falta era de uma maior integração entre a faculdade e o mercado. Faltavam visitas técnicas a empresas, faltavam oportunidades de apresentar aquele corpo discente tão efervescente e criativo ao mercado de trabalho. A GENTE JÁ ESTAVA, GEOGRAFICAMENTE, distante das grandes empresas — e além da distância física, existia também uma barreira de acesso. Não havia esse contato direto, essa ponte. E isso, para mim, era uma grande lacuna. Acompanhando a produção dos blazers. NÃO SEI SE ISSO AINDA ACONTECE HOJE, mas naquela época também se falava muito que o nosso curso era “de licenciatura”. Eu achava isso um absurdo, mas era uma fala recorrente. E, muitas vezes, vinha de pessoas que não tinham tido nenhum contato com o mercado. ÀS VEZES A GENTE ESQUECE QUE O CURSO DE DESIGN tem uma origem industrial, e às vezes isso se perde de vista. O contato com a indústria, com a cadeia produtiva, com o mercado como um todo, era algo que faltava — pelo menos na minha vivência. EU DETESTO QUANDO VOCÊS ME PERGUNTAM como me defino; detesto com todas as minhas forças. Muito mesmo. O que posso dizer é que sou um designer que acredita ter seus méritos — até porque, se não tivesse, não teria conseguido me manter tanto tempo no mercado, nem teria participado dos projetos que participei ou conquistado os trabalhos que conquistei. ACHO QUE SOU UM DESIGNER MADURO, com bagagem, que consegue desenvolver um trabalho consistente. É isso. Essa pergunta sempre me parece capciosa, difícil de responder. Pra mim, é o máximo que dá pra dizer. O PROCESSO CRIATIVO, pra mim, é o caminho de elaboração e de organização de uma loucura mental que dá origem a uma criatura final. É um caminho que começa com uma pesquisa ou um insight, passa pela etapa de execução, esbarra na frustração extrema… e, no fim, sai alguma coisa. Pode ser um projeto, uma roupa, um desenho, uma música — o que for. É sobre organizar esse caos que acontece dentro da cabeça da gente. APLICANDO ISSO À MODA, ao design de moda especificamente, é pegar essa bagunça interna, confrontar com o espírito do tempo, com o que está sendo proposto no momento, e moldar tudo isso dentro dos parâmetros que precisam ser seguidos. NO FIM DAS CONTAS, é um processo muito subjetivo, na minha visão. E pra mim, moda nada mais é do que a mais sincera expressão do espírito do tempo de uma população, de um nicho, de uma pessoa. O MUNDO DA MODA HOJE É RÁPIDO. Desumanamente rápido. Tão rápido que não dá pra acompanhar — nem quem consome, nem quem cria. Sempre que encontro meus amigos que também trabalham com moda, a pauta é sempre a mesma: o cansaço. “Como é que você tá?” “Tô muito cansado. Tô exausto.” E ESSA EXAUSTÃO APARECE NAS CRIAÇÕES. Até nas grandes marcas: tudo pasteurizado, sem graça, entediante, sem emoção. Porque não há tempo. Não tem tempo para maturar uma ideia, para desenvolver com calma. Eu sei que é uma resposta comum, até batida, mas é real: não tem tempo para criar de verdade. Não tem tempo para respirar. É UMA COLEÇÃO EM CIMA DA OUTRA — eu falo por mim. No final do ano passado e no começo deste ano, eu estava com quatro coleções ao mesmo tempo. Pensando no passado, no presente, no futuro… e até no futuro do futuro. A GENTE TÁ NUMA VELOCIDADE que está colapsando tudo. Quem cria, quem compra, e o planeta. E o pior: a gente tá levando o meio ambiente para o colapso com criações ruins. Peças que nem deveriam existir. Coisa chata mesmo, sem alma. MAS, APESAR DISSO, EU AINDA VEJO uma luz no fim do túnel. Ela aparece nos criadores autorais, naqueles que estão conectados com pequenas comunidades, trabalhando de forma mais sustentável, com mais sentido. Infelizmente, hoje não estou envolvido diretamente com esse tipo de projeto, mas tenho amigos que estão — e vejo coisas muito bonitas, e com sentido para existir, nascendo disso. E é aí que eu coloco uma esperança: na possibilidade de que esse tipo de criação e de consumo se torne cada vez mais viável. NA MINHA ÉPOCA, A GENTE IA SE DESCOBRINDO não sendo da moda ao longo da graduação. Engraçado como as coisas mudam, né? Mas, se eu pudesse dar um conselho — na verdade, dois — seriam esses: PRIMEIRO: LEIA. LEIA MUITO. O CAA tem uma biblioteca incrível. Na minha época, ela já era ótima — imagino que hoje esteja ainda melhor. Ler vai te dar repertório, vai te ajudar a construir argumentos, a defender suas ideias, seus produtos. É fundamental. E não é só leitura técnica, não. É ter um repertório cultural, de verdade. Pode Lygia, Jorge Amado ou qualquer coisa. Mas tenha algo que alimente sua visão de mundo. SEGUNDO: DESENVOLVA SEU ESTILO. Isso é muito importante. Estilo de trabalho, assinatura visual. Algo que permita que alguém olhe para uma peça e diga “isso tem a cara de fulano”, mesmo sem ver seu nome ali. Isso é força criativa. Criação para o SENAI Brasil Fashion, orientado por Ronaldo Fraga. E CLARO, TEM A PARTE TÉCNICA. Aprenda a modelar. Um bom designer de moda precisa saber modelar. Isso não é opcional, é obrigatório. Costurar também ajuda muito. Se não souber costurar, ao menos entenda o processo — já faz toda a diferença. E DESENHE! POR FAVOR, DESENHEM! Virou meio hábito dizer que designer não precisa desenhar, mas essa é uma das partes mais prazerosas do processo. É colocar a mão na massa. Às vezes, é justamente desenhando que a criatividade flui de um jeito que o computador, o Photoshop ou o Illustrator, não conseguem proporcionar. E OUTRO CONSELHO: procure entrar no mercado, ter vivência na indústria. E, quando entrar, crie boas relações. Relacionamento, principalmente no chão de fábrica, é essencial. Seja amigo da modelista, das costureiras, do pessoal do acabamento, do corte. Você vai aprender demais com essas pessoas. Vai sair dali diferente — mais maduro, mais completo. PORQUE MUITAS VEZES, É NO DIA A DIA DA INDÚSTRIA que você vai conseguir confrontar o que aprendeu na faculdade com o que realmente acontece na prática. E isso, pra mim, é um dos aprendizados mais importantes. MARCEL (em outras imagens)
- Diário de um Banana: A porta de entrada para outras leituras
Por Everton Antonio Silva Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Diário de um Banana (2007). Fonte: Google. É comum ouvir por aí que algumas escolhas na juventude funcionam como “portas de entrada para outras drogas mais pesadas”. Na literatura, essa expressão cabe perfeitamente à obra do norte-americano Jeff Kinney. O livro, que conta a história do pré-adolescente Greg Heffley e seus desafios nessa nova fase da vida, foi lançado originalmente em 2007 e traduzido para o Brasil logo em seguida. Para quem nasceu em tempos tão modernos e de tantos estímulos, Diário de um Banana é uma ótima opção para iniciar o hábito de leitura. Com sua estética e fluidez, suas obras abrem os olhos para a “leitura à moda antiga”. Admito que nunca fui um grande leitor, nem entusiasta dos clássicos. Mas, um dia, aquele livro que imitava um caderno escrito à mão, com desenhos de bonecos de palito e uma sequência de capas coloridas, chamou minha atenção e me fez escolher meu presente de aniversário de 9 anos: “Eu quero o livro do Diário de um Banana!” E se você me perguntar hoje, com quase 20 anos da série já com 21 livros, eu ainda quero. Jeff Kinney, cartunista e autor do livro. Fonte: Amazon. Como profissional em formação da área de Comunicação, não posso deixar de observar que a obra carrega uma engenharia poderosa: seu hibridismo funcional. Kinney não usa ilustrações como meros enfeites: os cartuns de traços simples e expressivos agregam novos sentidos ao texto verbal. Muitas vezes, o narrador e protagonista Greg Heffley nos conta uma versão dos fatos em primeira pessoa, mas o desenho ao lado o desmente, revelando a ironia da situação. Essa alternância rápida entre blocos curtos de texto, compostos por pequenos parágrafos e o apoio visual, mantém o cérebro do leitor engajado sem o peso de páginas densas. É um sutil treinamento de interpretação e associação. Ilustração do personagem Greg Heffley, feita pelo autor Jeff Kinney. Fonte: WimpyKid. Alguns críticos não levam em consideração a importância da obra para o mundo literário, porque a julgam como inferior em relação aos demais livros que tratam de assuntos mais sérios e mesmo filosóficos. No entanto, vejo o ato de ler o trabalho de Kinney como algo valioso, observando principalmente o público infanto-juvenil, que é seu maior alvo, fazendo da saga um grande treinamento para a vida, que cada vez mais exige de nós desde cedo preparação intelectual, agilidade em leitura e interpretação, e um vasto repertório sobre diversos assuntos. Uma leitura como essa funciona como um ótimo “entorpecente literário”, que diverte e imerge o leitor em uma narrativa leve e acolhedora, e que, além disso, oferece uma experiência que pode ser um start para as leituras mais pesadas que a vida pode (e vai) lhe oferecer. Tudo isso, porque uma sequência de livros com linguagem e desenhos simples nos mostrou que ler pode ser, acima de tudo, um prazer.
- Vestir é pertencer, mas a que custo?
Por Lara V. Pereira Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Cena de "O Diabo Veste Prada 2" (2026). Créditos: Google. Após a sessão de O Diabo Veste Prada 2 (2026), a palavra “identidade”, no contexto da moda, ficou gravada na minha cabeça. A história me levou a pensar no consumo de fast fashion e no de slow fashion, porque, tanto num caso como no outro, somos levados a acreditar na ideia de que o sujeito é o que veste. Nessa construção social de imagens edificadas por meio de roupas e acessórios – nem sempre “verdadeiras” –, performamos o que, por exemplo, pessoas pertencentes a classes diferentes da nossa performam: assunto tratado inúmeras vezes pela sétima arte, como o que acontece na história da personagem Becky Bloom do filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2009). Se no primeiro filme, o uso de Prada reitera traços da identidade e do contexto da protagonista que circulam num universo de “iguais”, no outro a marca é usada para construir uma encenação social de certa identidade, calcada nos símbolos em torno dela, da marca. Ainda: no primeiro, Prada não é um produto em particular, mas uma totalidade criada no contexto do slow fashion – diferentemente do segundo, no qual Prada é apenas um produto; uma peça solta de um quebra-cabeça e, como tal, poderia ser qualquer outra marca. Poderia, até, ser as peças do universo do fast fashion, que, num movimento ascendente, imitam o slow fashion, que, para não ser imitado, propõe novas criações e instaura a ideia de ciclicidade da moda. Cena de "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom". Créditos: Pinterest. Em Delírios de Consumo de Becky Bloom, nem mesmo a marca precisa “ter marca”, mas ser construída discursivamente como mediadora de luxo, exclusividade e desejo. Na história, Bloom é uma jornalista financeira que orienta pessoas a não se endividarem enquanto, paradoxalmente, ela passa a desenvolver hábitos de consumo que a endividam, pois ela se tornou uma compradora compulsiva de produtos relacionados à moda e à beleza, mesmo não precisando deles. Se o sujeito não tem muito dinheiro, ele se vira com produtos de baixa qualidade, falsificados e companhia, produzidos em grande escala etc., movimento que faz crescer o consumo (a oferta, a procura, o lixo, o próprio consumo e mesmo os negócios em torno do fast fashion.) Ao fazer isso, a protagonista – como nós, consumidores do lado de cá da tela – responde a duas motivações: a primeira diz respeito ao mero prazer relativo à aquisição de “coisas” que, de algum modo, a satisfazem – não pelo produto em si, mas pelo que o ato aporta de valor a ela; a segunda, por sua vez, refere-se à construção de uma identidade centrada em um status que não possui – e sim as peças, que são lidas pelo outro da perspectiva de seus simbolismos e rituais de consumo. Moradora da cidade mais cosmopolita do mundo e uma das sedes da capital da moda, Nova Iorque, a jovem ingressante no mundo adulto do trabalho, Becky Bloom, é o retrato do hedonismo do consumo, exatamente estimulada e capacitada pelo que o fast fashion cria como uma galáxia de possibilidades: respostas imediatas à necessidade de o sujeito estar sempre usando as tendências que mudam de modo constante, afinal, a indústria precisa gerar lucro. Nesse modelo de produção e consumo, essas roupas caem facilmente em desuso, pois sempre parecem já estar fora de moda por seus materiais de baixa qualidade, já que foram feitas para durar menos. Duas outras oposições categóricas e autoexplicativas são apreendidas nessa proposta: de um lado, a quantidade; do outro, a qualidade, e ambas reverberam tanto no descarte como em novos ciclos de produção e consumo. Para compreender um dos caminhos para que os produtos do modelo fast fashion sejam vendidos mais baratos, é preciso considerar desde o início do processo: quanto à produção e escolha de matéria-prima, o custo também é reduzido. Muitas vezes, as fibras naturais são substituídas por fibras químicas, como o poliéster. Esse material tem vida útil de, aproximadamente, 200 anos, e ao ser descartado em lugares impróprios, causa um forte impacto ambiental – assunto já abordado por diversas mídias e órgãos internacionais. Como um todo, a produção de fast fashion causa transformações negativas no meio ambiente, quer pela poluição massiva, quer pelo uso excessivo de água, ou ainda, pelo emprego recorrente de produtos químicos que trazem em suas composições poluentes naturais. Além disso, não se pode deixar de mencionar outro aspecto a ser considerado na equação ser humano-moda-planeta: o descarte das roupas e o lixo que ele obrigatoriamente faz acumular em várias partes do mundo, a exemplo do “depósito a céu aberto” que virou o Deserto do Atacama, no Chile. Cena de Imagem: Descarte massivo no deserto do Atacama, Chile. Créditos: AFP. Para além dos impactos ambientais e do crescente acúmulo de lixo, ainda existem as consequências sociais: a exploração humana por trás de muitas indústrias do fast fashion. Para obterem mão de obra barata – reduzindo custos trabalhistas e tributários –, muitas empresas optam por terceirizar etapas de produção em países em desenvolvimento. Pela ausência de acompanhamento dos órgãos trabalhistas e por causa de práticas clandestinas de exploração, as condições de trabalho ainda operam com salários abaixo do que deveriam, quando esses existem, e sempre em ambientes insalubres com jornadas de trabalho diário inimagináveis. Situações como essas estão acontecendo, infelizmente, neste exato momento em algum país em desenvolvimento. A roupa e os acessórios com os valores de proteção, pudor e adorno são uma parte intrínseca da história da humanidade. Em diferentes períodos, eles passaram a receber outros valores culturalmente definidos e se tornaram objeto de circulação nas sociedades, sendo um atrativo extremamente simbólico na indicação de posições sociais, traços identitários, marcas de subjetividades do sujeito etc., sendo um elemento de comunicação não verbal na relação do “eu” com o “outro”. Como produto da cultura, eles são tomados pelas engrenagens do sistema e, constantemente, ressignificados. Por exemplo, a produção de roupas em larga escala existe há muito tempo, e ela se sobrepôs à produção particular, antes realizada por costureiras e alfaiates. Esses dois modos de produção, então, coexistem, conforme atesta a história do ser humano. Nos anos 1990, porém, a indústria nomeou a produção contínua e ininterrupta de fast fashion, cujos traços de sentido já apresentamos ao longo do texto. Em contrapartida, como contradiscurso e prática ao fast fashion, a mesma indústria nomeou e enfatizou outra prática, então, “concorrente”, a do slow fashion, em meados dos anos 2000. Ou seja, os termos são novos e recebem sobredeterminações de sentidos expandidos, mas, como práticas, as ações decorrentes deles já existiam. Assim, o slow fashion, que se diz uma produção mais particularizada, mais individualizada e mais orientada para as especificidades exclusivas do consumidor, se contrapõe às mazelas decorrentes da produção do fast fashion, criado como “novidade” (portanto, moda), a partir da percepção de que os varejistas podiam reproduzir as tendências com rapidez, de maneira massificada e com baixo custo. Imagem: Reprodução/Internet. Créditos: Teen Vogue. Ao contrário, o slow fashion se apresenta como uma resposta a essa rapidez e impacto negativo socioambiental sobre o qual já discorremos. O slow fashion busca durabilidade, ética e transparência durante as etapas de produção, valorização ao artesanal e local e reutilização de peças, pensando no lado mais “humano”, o de respeito ao tempo de quem produz, e às filiações ideológicas de quem o veste. Para exemplificar, temos a Feira da Sulanca e a Feira de Artesanato dividindo o mesmo espaço, na cidade de Caruaru (PE). Enquanto a primeira é referência para quem procura preços baixos, tendências, e opta pela quantidade (fast fashion); a segunda oferece produtos “feitos à mão”, com promessa de maior durabilidade, com melhor qualidade dos materiais, com ares de “exclusividades”, dentre outros atributos (slow fashion). Esses dois mecanismos de produção e consumo são replicados em lojas do centro da cidade, ateliês, shoppings, supermercados, no Polo de Moda etc. Feira da Sulanca – Caruru (PE). Créditos: Metropolitana FM. Toda discussão que se refere ao fast fashion na contemporaneidade inclui questões de marketing e produção em larga escala vendidas em grandes lojas varejistas – não apenas em feiras. Marcas renomadas também aderiram e ajudam a propagar esse modelo de produção e consumo, porque, como dissemos, a produção visa sempre ao lucro. A Shein, varejista chinesa de alcance global, que, inclusive, abriu sob protestos sua primeira loja física na capital da moda, no l'Hôtel de Ville, em Paris, em novembro de 2005, prometeu continuar entregando seus produtos de “moda” a preços acessíveis e lançando tendências, como fez na sua inauguração, em 2012. Aproveitando o espírito do tempo do hiperconsumo, a empresa se dirige a pessoas que querem se sentir, de alguma forma, parte integrante da trend do momento. Ou seja, a Shein e empresas similares captam as movimentações do mercado e respondem de modo positivo aos desejos e necessidades do consumidor ávido por novidades que contribuem para a sua construção identitária social. Com um marketing assertivo, inclusive trabalhado por influencers no Tiktok, a empresa consegue alcançar e dialogar com a geração Z, que usa a própria plataforma para pesquisar produtos de interesse, oferecendo para ela uma moda atual e jovem – e em grande quantidade, apagando, obviamente, uma parte importante da cadeia da produção das peças. Feira do Artesanato – Caruaru (PE). Créditos: Neylma Melo. Como nas feiras de Caruaru, coexistem “sheins” e outros modos de produção e consumo. Em contrapartida ao caso da Shein, temos o consumo dito consciente, quem vem de autoquestionamentos, antes de o sujeito comprar, como: “Eu realmente preciso disso?”. A resposta a ele geralmente se volta para a real necessidade, para a escolha de produtos pela qualidade, ao invés de quantidade, e pela tomada de consciência do saber que uma peça pode ser versátil e estar presente por muito tempo no dia a dia, não levando em conta, primeira e exclusivamente, apenas se ela faz parte de uma tendência. É uma nova forma de educação do e para o consumidor: se uma roupa não faz parte do estilo pessoal dele, é possível que o consumidor esteja sendo feito apenas como massa de manobra, seduzido pelo consumismo e, assim, usando a peça uma única vez para depois ser perdida e descartada. No caso do slow fashion, instauram-se propostas de solução para casos como o descrito e mesmo outros desdobramentos das práticas do consumo exacerbado: refazimento de peças, doações, reciclagem, são alguns exemplos, com destaque para o upcycling, que consiste em reaproveitar o material e criar uma peça nova, reduzindo o desperdício e prolongando a vida útil do material utilizado. Desfile com peças recicladas, Australian Fashion Week, 2021. Créditos: Jessica Hromas Além dessas propostas de ressignificação das peças, outras ações ganham destaque, como o caso da compra de peças vintage e de segunda mão, facilmente encontradas em brechós e sites de revenda. Esse tipo de consumo se alia ao slow fashion, por promover esses movimentos contra o desperdício, o excesso, a quantidade e o próprio fast fashion. Essas práticas são, sem dúvida, mais sustentáveis, apoiando, inclusive, a produção e o comércio locais. No caso das roupas, que são sempre cheias de histórias, elas estão lá, esperando novos começos para seus próprios recomeços. Contudo, como insistimos ao longo deste artigo, a base de qualquer negócio é o lucro do produtor, do comerciante ou de qualquer outro agente na ponta do processo. E isso se aplica também à produção do slow fashion: quanto custa ao consumidor o produto artesanal? Ele é de fato acessível? Por questões de sobrevivência no mercado, os produtores têm que elevar o preço de suas peças, muitas vezes encarecendo-as muito mais do que o fast fashion. Matéria-prima de qualidade, produto direcionado ao cliente, promessa de maior durabilidade encarecem o produto. Ou seja, mesmo com as melhores intenções, o slow fashion não é para todos, até porque as pessoas vivem realidades diferentes. O trabalhador comum costuma optar pelo fast fashion por ter um custo-benefício melhor e por se encaixar na realidade econômica dele. Com o dinheiro que pode ser economizado para comprar uma peça duradoura, ele consegue comprar três com menos durabilidade, e que ainda têm a chancela de “estarem na moda”. E moda é identidade e pertencimento, distinção e imitação. De alguma maneira, suscitamos aqui a ideia de que a moda e o consumo se distinguem, grosso modo, de duas perspectivas: a de O Diabo Veste Prada 2, e a de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. No primeiro caso, tem-se o slow fashion, a exclusividade; no segundo, o excesso, o lugar-comum. De um modo ou de outro, as pessoas consomem o que podem pagar para performar socialmente como querem, e a moda aporta a elas signos que direcionam uma interpretação de quem elas são ou almejam ser. Umas ainda se revestem dos discursos dos brechós, upcycling e afins; outras, das quantidades semanais que são despejadas em bancas, araras e vitrinas. Outras ainda, seguindo uma certa tradição europeia, preferem economizar para comprar peças de qualidade e montar um guarda-roupa inteligente. No fim das contas, todas essas pessoas só querem expressar sua identidade através da moda. Todas querem ser vistas e reconhecidas, e a moda é, então, um cartão de visita para elas, um primeiro contato carregado de mensagens. A questão é: a que custo?
- O agente Secreto: um filme profundo em tempos de leitura rasa
Por: Rita Valença de Castro Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins O Agente Secreto, 2025 Apesar de uma trajetória consagrada, com mais de 60 prêmios internacionais, incluindo Cannes e Globo de Ouro, O Agente Secreto chegou ao Oscar 2026 com indicações importantes, como Melhor Filme e Melhor Ator. Ainda assim, não levou a estatueta. O que talvez revele menos sobre o filme e mais sobre a limitação de quem o julgou — já que há obras que não se oferecem à leitura superficial. Trata-se de um filme que exige travessia: cada camada precisa ser lida com atenção, repertório e disposição para compreender o que não se entrega de imediato. Do meu ponto de vista, vivenciamos uma repetição de procedimentos na premiação: em 2025, o reconhecimento também escapou de uma obra brasileira densa e necessária como Ainda Estou Aqui, que traz à tona a memória real da repressão militar no Brasil. Em seu lugar, premiou-se Anora — um filme que, para muitos, se acomoda com facilidade na lógica do entretenimento leve, quase uma “sessão da tarde”. No fim, talvez, não seja o cinema brasileiro insuficiente, mas a superficialidade da própria Academia. O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça e protagonizado por Wagner Moura, é um filme extraordinário, profundamente inteligente, simbólico e politicamente contundente. Nada ali está posto por acaso. Tudo é linguagem, tudo é mensagem. A obra apresenta, de forma lúdica e crítica, aspectos duríssimos da história brasileira — especialmente os efeitos da ditadura militar de 1964 sobre a educação, as instituições e a própria formação do povo. É um filme que abarca, com consistência, conhecimentos de história (do Brasil), de sociologia e de filosofia. Não foi à toa a escolha do personagem principal: um professor e pesquisador universitário (pernambucano). Ele representa o professor brasileiro — sobretudo o da escola e universidade públicas — comprometido com o pensamento, com a pesquisa e com a produção do conhecimento científico. E é justamente por isso que é perseguido. Porque regimes autoritários temem quem pensa. O filme também mobiliza o imaginário popular — como a Perna Cabeluda — mostrando que o medo, o mito e a memória coletiva são formas de linguagem, além de funcionar como uma representação simbólica do repressivo daquele período. O tubarão é outro símbolo central; ele não representa apenas o animal que rondava as praias do Recife já naquela década, mas uma força oculta, silenciosa e feroz —metáfora da repressão ditatorial militar, da violência institucional, da polícia corrupta que fazia corpos desaparecerem e apagava identidades. O filme também escancara a corrupção e a atuação das forças policiais dentro dessa lógica autoritária, revelando algo ainda mais grave: a ausência de formação humanística e de compromisso com direitos humanos. E isso tudo é mostrado com uma precisão impressionante. Eu, como delegada especial de Polícia Civil, hoje aposentada, reconheço ali muitos traços extremamente fiéis à realidade da época — nas estruturas, nas condutas, nos ambientes e nas mentalidades que são reveladas na intensidade de atuação dos personagens. Essa representação não é caricata. Ela incomoda — porque é verdadeira. Dentre as várias cenas e sequências marcantes, há a de um político vindo de Brasília que desmonta uma equipe de pesquisa dentro da universidade. Nela, revela-se um projeto, não apenas de repressão, mas da destruição do pensamento crítico e enfraquecimento das instituições nacionais. E mais: um processo que dialoga com interesses maiores, inclusive internacionais, comprometendo a própria soberania do país. Em outro momento, ganha destaque cena extremamente simbólica: o jornal, com a matéria sobre os mortos do Carnaval, que é colocado sobre o corpo de uma personagem executora. Nela, o filme explicita que a violência não é unilateral — ela circula, retorna e atinge a todos, mesmo em momentos de festejos coletivos. Em seu movimento circular, não escolhe destino: pode recair sobre qualquer um, instaurando um cotidiano atravessado pela vigilância, pela desconfiança e pelo medo. A pessoa que defende a violência muitas vezes não imagina que a violência, numa situação de semelhança, pode acontecer com ela. Há ainda um elemento central que atravessa o filme: a memória. O filho do protagonista, já adulto, não compreende plenamente o que viveu — porque lhe foi negado o direito de saber. Seus pais foram mortos. Seus avós silenciaram. E assim se constrói um sujeito sem memória — um povo sem memória é um povo mais vulnerável à repetição da violência. Nas artimanhas do enredo, dissemina-se uma camada profundamente sensível e socialmente reveladora. Ela se constrói discursivamente quando o professor investiga sua própria origem a partir da história de sua mãe, empregada doméstica na casa da família paterna. Essa relação expõe uma dinâmica histórica marcada pela desigualdade, em que a mulher trabalhadora, muitas vezes invisibilizada, tem sua maternidade perfurada e interrompida por relações de poder. O filho lhe é retirado, rompendo vínculos afetivos, evidenciando uma violência que não é apenas individual, mas estrutural. Em outro momento, o filme apresenta uma cena emblemática: a patroa — mulher rica — que, por negligência, permite que a filha da empregada atravesse o portão, culminando na morte da criança. Mais grave ainda é o tratamento deferente que recebe das autoridades durante o inquérito, revelando como o poder público operava na proteção das classes mais favorecidas, em detrimento dos pobres e trabalhadores. Esse fragmento da história retoma em referência a acontecimentos funestos de um Recife bem atual, mostrando mais um dos aspectos do engajamento político e social promovido pelo filme. Essa cena é extremamente impactante porque escancara como vidas eram tratadas de forma desigual dentro de uma mesma estrutura social. O filme também valoriza o papel do jornalismo investigativo — e feminino —na busca pela verdade, representado por duas jovens jornalistas que investigam os fatos por meio de antigas fitas cassete. Nesse sentido, a cena que apresenta o Instituto do Sangue no local onde antes funcionava um cinema reforça a ideia de transformação da cidade — evidenciando como os espaços se modificam e, com eles, são apagadas histórias, memórias e significados.
- BEZERRENSE ZÉ BARRETO DE ASSIS LANÇA NOVA MÚSICA
A faixa reúne referências da natureza, colaboração entre artistas de Pernambuco e São Paulo e reforça a circulação cultural entre cidades do interior pernambucano Por: Madu Rodrigues Zé Barreto de Assis | Foto: Cecília Távora O cantor e compositor Zé Barreto de Assis lançou nas plataformas digitais a canção “Pássaro e Pedreira”, novo trabalho de sua trajetória na música autoral. Natural de Bezerros, o artista tem desenvolvido uma produção conectada ao Agreste de Pernambuco, com referências da cantoria nordestina e de paisagens culturais do interior do Estado. Na nova faixa, imagens ligadas à natureza conduzem a narrativa. Terra, lua e mar aparecem como símbolos recorrentes ao longo da letra, em versos que tratam de pertencimento, deslocamento e identidade. Em trechos como “Sou filho da terra, amante da lua” e “Voo sobre o mar, parente de tudo, pássaro e pedreira”, a composição aproxima elementos do cotidiano rural e de dimensões mais subjetivas. O lançamento também evidencia a articulação entre artistas de diferentes regiões. Participam do projeto Hugo Linns e Pedro Iaco, em uma colaboração que conecta produções de Pernambuco e São Paulo. A reunião de nomes de Estados distintos acompanha um movimento frequente da música independente brasileira, que tem ampliado parcerias fora dos grandes centros tradicionais. Outro aspecto presente no trabalho é a valorização da cena cultural do interior pernambucano. Parte dos profissionais envolvidos no lançamento tem ligação com cidades do Agreste, especialmente Caruaru e Bezerros, municípios vizinhos e historicamente reconhecidos por sua produção artística. A circulação entre essas cidades ajuda a consolidar redes criativas e mantém ativa uma produção cultural descentralizada. Zé Barreto de Assis vem construindo sua presença no ambiente digital desde 2021, quando lançou o álbum “Os Passarinho”, trabalho de estreia. Desde então, tem apostado em lançamentos pontuais e na continuidade de uma obra marcada por referências regionais e composições próprias. Capa da canção “Pássaro e Pedreira” Com “Pássaro e Pedreira”, o artista dá sequência a esse percurso e amplia o repertório autoral que vem desenvolvendo nos últimos anos. O lançamento também terá desdobramento em audiovisual: a canção ganhará clipe no dia 08 de maio, com direção de Davi Batista e Paulo Lira.
- Entrevista com Dan Cavalcante – egresso do Design, profissional da área de Moda: "Linguagem cifrada do corpo no tempo"
Por Marcelo Martins e Miguel Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur PALAVRAS INICIAIS JANIELSON CAVALCANTE DE ALMEIDA ou o popularmente conhecido “Dan Cavalcante”, hoje trabalha no desenvolvimento de sua marca autoral com o estilo de roupas activewear. Ele diz valorizar a liberdade criativa e busca inspirações em lugares até bastante díspares. Para o criador, o “processo criativo é [como] navegar em arquipélagos invisíveis”. É grato pelo que a Universidade lhe aportou, mas entende que é preciso que o profissional seja autodidata também, se deseja de fato crescer no mercado de trabalho. A busca do conhecimento deve ser constante, sempre (re-)atualizando, porque é ele que conduz uma prática significativa na produção de uma peça, que é um discurso, uma “revolução” na composição vestimentar do indivíduo. A Marcelo Martins e Miguel Santos coube o exercício de dar voz a Dan, em 1ª. pessoa, às questões previamente estabelecidas. COM A PALAVRA, DAN CAVALCANTE Feira do CAA, em 2019, quando Dan começou sua marca autoral. SOU NATURAL DE CHÃ GRANDE, Pernambuco. Quando eu era adolescente, minha família se mudou para Santa Cruz do Capibaribe, que, sabemos, é uma cidade que concentra um dos maiores polos de confecção do Brasil. Foi nessa cidade que fiz o meu primeiro curso na área de Criação, a partir do qual, então, decidi que cursaria Design. Estou formado há três anos. ANTES DE INICIAR O DESIGN NO CAA, já tinha feito mais de um curso profissionalizante, além de ter finalizado um curso técnico de Produção de Vestuário. Processo criativo: busca de representante de elástico para a criação de produto personalizado. Santa Cruz do Capibaribe, 2026. COMO EU DISSE, MESMO ANTES DE INGRESSAR NA UNIVERSIDADE FEDERAL, eu já atuava na área. Passei por diversas frentes, desempenhando funções variadas como styling, direção criativa, desenvolvimento de campanhas e de coleções. Durante toda essa trajetória, sempre tive muita convicção e pulso firme para guiar os projetos de acordo com a minha visão, sempre direcionado àquilo que eu considerava o caminho mais assertivo. Essa clareza sobre o meu trabalho me conduziu, de forma muito natural, ao meu momento atual: o início da minha própria marca de moda activewear. Hoje, vivo a verdadeira “carta branca”! Ter autonomia total para construir um negócio do zero traz desafios imensos, pois estou na fase de estruturar todos os alicerces. No entanto, é exatamente esse cenário que me permite direcionar toda a minha energia para criar algo que seja 100% fiel ao meu perfil, assumindo a responsabilidade e a liberdade de guiar a minha própria trajetória. No CAA, em 2019, vestido para a apresentação de um trabalho sobre desenvolvimento de coleção. Tema: carranca; peça desenvolvida: moletom, com pintura manual. A VELOCIDADE DA INTERNET ACELERA BRUTALMENTE A SATURAÇÃO DAS IDEIAS, o que torna o desafio de criar algo original ainda maior – e mais fascinante – agora que estou estruturando os alicerces do meu próprio negócio. Para fugir do óbvio, acredito que quem detém maior repertório leva vantagem na hora de inovar. É por isso que minhas inspirações raramente vêm apenas da moda: mergulho intensamente em cinema, música, jogos online e no estudo do comportamento das massas. Como estou no início de uma jornada empreendedora, onde tenho a liberdade e a responsabilidade de guiar todas as frentes, compreender o que move as pessoas se torna uma ferramenta estratégica. Essa análise multidisciplinar me permite combinar referências inusitadas, antever cenários e direcionar a construção da minha marca para um caminho que soe genuinamente novo e alinhado com a minha essência. Dan marcando presença no Desfile da Santana, no Festival do Jeans de Toritama, em abril e 2026. APÓS MINHA FORMAÇÃO E, PRINCIPALMENTE AGORA, vivenciando o desafio de construir minha própria marca do zero, entendo bem e com muita clareza que a ausência de formação acadêmica não é um impedimento absoluto para o surgimento de talentos autodidatas; o mercado é dinâmico e muitas vezes absorve visões frescas e desinibidas. Contudo, observo também que a falta de uma base sólida frequentemente leva a trabalhos rasos, precarização ou cópias sem contexto. A ACADEMIA, DO MEU PONTO DE VISTA, não é estritamente imprescindível para começar, mas é indiscutivelmente transformadora para quem deseja consistência. No meu caso, ela forneceu a estrutura conceitual, metodológica e crítica que hoje me dá segurança para tomar as decisões estratégicas da minha marca. O GRANDE DIFERENCIAL, POR FIM, ESTÁ NO AUTODESENVOLVIMENTO CONTÍNUO. A vivência prática de empreender – transformando erros em insights e desbravando além do óbvio – é o que dita o ritmo hoje. No fim, o que define um bom criador não é apenas o diploma, mas a sua capacidade de síntese (unir repertório e contexto), sua integridade intelectual e a vontade genuína de evoluir. Dan, na sua colação de grau, em 2023, ao lado de seu padrinho de formatura e amigo, professor Marcelo Martins. MINHA TRAJETÓRIA ACADÊMICA FOI CONSTRUÍDA COM MUITO PROPÓSITO. Fui estratégico: selecionei disciplinas não apenas pela grade obrigatória, mas para alicerçar minha visão criativa, buscando o repertório e as ferramentas que eu sabia que precisaria. Por ter tido esse cuidado, considero minha base teórica muito sólida. O que senti “na pele” no mercado – e sinto com ainda mais intensidade hoje, ao estruturar a minha própria marca do zero – é a distância entre o projeto acadêmico e a realidade de viabilizar um negócio. A academia me preparou para criar com profundidade e embasamento, o que é fundamental. No entanto, a “prática” de sustentar essa criação, enfrentar as incertezas de desbravar o mercado e dar vida a uma marca real são lacunas que apenas a vivência preenche. Não vejo isso como um erro da formação, mas como o passo prático que eu precisava dar para assumir o controle da minha trajetória. No CAA, registro orgulhoso de um Dia do Orgulho (s/d.) DEFINO-ME COMO UM PROFISSIONAL DE INTEGRIDADE INQUEBRANTÁVEL e clareza objetiva. Minhas convicções são pilares, não preferências – quando acredito em um conceito ou direção estratégica, assumo uma posição firme e sustentada por pesquisa profunda e experiência prática. Essa postura raramente me faz recuar, pois cada decisão é um reflexo do meu compromisso com a excelência. Não se trata de teimosia, mas de uma confiança estruturada: estudo, experimento e internalizo cada etapa do processo. Hoje, à frente da criação da minha própria marca, essa característica é o meu maior ativo. Essa firmeza deixou de ser apenas a defesa de um projeto para se tornar o próprio código de ética e o DNA da empresa que estou construindo, garantindo que tudo o que eu entregue ao mercado tenha valor e propósito reais. Andando pelo CAA, com uma máscara produzida para a disciplina Estética e Plástica, do professor Mário de Faria, em 2019. DO MEU PONTO DE VISTA, PROCESSO CRIATIVO É navegar em arquipélagos invisíveis. Imergir em conceitos até que eles revelem fissuras de luz – aquilo que escapa ao olhar comum. É coletar achados em fontes improváveis (um verso esquecido, a textura de um muro rachado, o ritmo de uma conversa de bar) e tecê-los em experimentações radicais. Não é “ter ideias”, mas permitir que as ideias o atravessem e o levem a territórios incômodos, onde o óbvio se desfaz. É risco calculado: mergulho profundo com bússola crítica. MODA, PARA MIM, É “LINGUAGEM CIFRADA DO CORPO NO TEMPO”, mas também é consumo (não apenas de produtos, e sim de signos, desejos, identidades); é comportamento (a roupa como ato político, mapa social, armadura ou bandeira). E hoje, materializando minha própria marca, percebo que essa “armadura” ganha um sentido prático e literal: é o design e a engenharia a serviço do corpo em movimento. Moda também é revolução (porque redesenha normas, perturba hierarquias e faz o mundo coçar onde não deveria). Em essência, é o ponto de tensão entre quem você é e quem o mundo espera que você vista – e é explorando exatamente esse gap, onde mora o genial, que encontro o propósito e o diferencial do negócio que estou construindo. Aulas de teatro no TEA (Caruaru), em 2025, buscando elementos de inspiração. Ida à feira: CEACA (Caruaru), em 2025, buscando inspiração em cores e outros elementos visuais de frutas. VEJO O CENÁRIO ATUAL COM UMA LENTE PREDOMINANTEMENTE APOCALÍPTICA, dominada por ciclos de consumo que alimentam uma verdadeira bomba-relógio. A lógica perversa do fast fashion gera volumes absurdos de roupas descartáveis e sem identidade. No Brasil, enfrentamos ainda o agravante do “complexo de vira-lata”, que faz o consumidor financiar cópias estrangeiras mal executadas enquanto ignora o potencial dos designers locais. Precisamos urgentemente resgatar o orgulho da produção nacional e o consumo crítico. É exatamente por não aceitar ver nosso potencial enterrado no lixo do imediatismo que decidi empreender. A criação da minha marca de moda fitness nasce desse inconformismo. É a materialização da minha exigência por qualidade: entregar um produto com engenharia, durabilidade e design autoral, mostrando na prática que a moda brasileira tem força para combater a cultura do vazio e do descartável. AOS INGRESSANTES NO DESIGN DO CAA, eu diria o seguinte: Sempre que surgirem dúvidas, questionem seus professores – sem medo. Essa não é uma atitude de desafio, mas de busca por clareza e profundidade. A sala de aula é um laboratório de ideias, e cada pergunta é um experimento que pode desmontar certezas prontas ou, no mínimo, fazer com que reflitamos sobre o assunto de outra perspectiva. Paralelamente, consumam conteúdos de forma voraz e sem fronteiras. Leiam tratados técnicos, mas também mergulhem em documentários sobre culturas distantes. Analisem coleções de Haute Couture, mas também observem a gramática visual das ruas. Estudem algoritmos de tendências, mas escutem as narrativas dos artesãos. Cada livro, filme, texto ou conversa é um tijolo invisível no alicerce do seu repertório. Por fim, lembrem-se: conhecimento não se limita a disciplinas formais – nunca! A moda dialoga com sociologia, semiótica, psicologia, antropologia, ecologia, gaming etc., e até com o ritmo das periferias. Seu diferencial como criador ou criadora virá dessa capacidade de conectar pontos aparentemente desconexos – como transformar a textura de um muro rachado em um padrão têxtil, ou traduzir o caos de um funk carioca em uma silhueta revolucionária. DAN (em outras imagens)
- Entrevista com Miguel Santos - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Colhendo futuros"
Por Marcelo Martins Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur PALAVRAS INICIAIS NOS ÚLTIMOS MESES DE 2025, o professor Marcelo Martins e o profissional de Design, Miguel Santos, formado pelo curso de Design do Centro Acadêmico do Agreste (CAA: UFPE), fizeram uma busca para encontrar egressos do Design do CAA para convidá-los para uma entrevista, retomando suas histórias durante o período de formação e suas respectivas inserções no mercado de trabalho, especificamente no vasto campo da Moda. DEPOIS DE VÁRIAS CONVERSAS, algumas negativas, algumas ignoradas, alguns desencontros, mas também de alguns gestos contagiantes de enorme entusiasmo por parte dos que foram contactados, Marcelo e Miguel conseguiram reunir um conjunto de profissionais atuantes no mercado que se dispuseram a participar deste projeto que, em princípio, objetiva: 1) dar visibilidade aos trabalhos “com moda” que eles desenvolvem em diferentes cantos deste país e, 2) prestar uma homenagem ao curso do Design do CAA, neste ano em que ele comemora seus primeiros vinte anos, tendo o curso Design participado da implantação do campus da Federal no Agreste Central pernambucano, nos anos idos de 2006. A PARTIR DESTA SEMANA, as entrevistas gentil e entusiasticamente concedidas aos coordenadores do projeto, realizadas por meio de um questionário, serão publicadas no site da Spia. A PRIMEIRA ENTREVISTA, de um total de 8, será justamente a do Miguel Santos, que, junto com o professor Marcelo e a professora Amanda Mansur, embarcou na empreitada de “juntar” os egressos do Design e dar a oportunidade a cada uma dessas pessoas contarem suas histórias e mostrarem seus trabalhos com moda. Os professores Amanda e Marcelo, juntamente com o Miguel e mais uma estudante de Comunicação Social, Un Hee Martha de Oliveira Mbaki, chamarão as pessoas que aceitaram participar deste projeto para um desdobramento dele, em parceria com a Cultural Livraria e Cafeteria e com o Galo da Redação, nos próximos meses. Mas essa é uma outra história, inclusive porque os envolvidos não foram informados sobre ela até então. Valdir Miguel, em 2017, em férias, entre os períodos de uma monitoria que realizou com o prof. Marcelo, no Design do CAA. AINDA SOBRE O MIGUEL, nosso primeiro entrevistado, o professor Marcelo diz: “O Miguel foi um aluno brilhante, um trabalhador incansável na monitoria. Ele era muito engraçado e às vezes bravo – inclusive comigo! Aos poucos, ele se tornou um grande amigo para mim. Tenho muito carinho por ele. Ele acha que eu o adotei, mas foi ele que me adotou assim que cheguei no CAA, em 2016. Fico muito feliz de a gente manter contato até hoje, e de ele, com seu coração enorme, aceitar a participar de alguns projetos comigo, mesmo estando em São Paulo. Então, para mim, o projeto homenageia o Design do CAA, o CAA, os alunos – egressos do Design –, e a primeira entrevista publicada nesta seção da Spia, para mim, homenageia também o Miguel: só para ela nunca se esquecer de quão grandioso e querido ele é; de como ele foi acolhedor comigo recém-chegado no Design. Quem faz, até pode esquecer; quem recebe o feito, nunca esquece!”. As demais entrevistas seguirão a ordem alfabética dos entrevistados. COM A PALAVRA, MIGUEL SANTOS Miguel no seu 1º. dia no CAA, em 2016. SOU NATURAL DE SUZANO, em São Paulo, mas me mudei para Pernambuco, terra dos meus pais, aos seis anos, e cresci em Moreno. Cheguei ao CAA depois de ter cursado o tecnólogo em Gestão de Turismo no IFPE, em Recife, em 2011, quando a área era vista como a “profissão do futuro” no Brasil pré-Copa. Gostei muito do que aprendi, mas nunca senti uma identificação real com o curso. Nesse período, também fui aprovado em vestibulares para Letras, Agronomia, Arquitetura, Educação Física e até Direito, mas não cheguei a cursar nenhum desses cursos. Consegui ainda uma bolsa integral para Design de Moda em uma faculdade do Recife, mas, por um erro da instituição, não pude iniciar o curso, o que acabou me gerando uma grande frustração. Depois disso, fiz um curso técnico em Administração no Senac e comecei a trabalhar na área de administração hospitalar. Em 2015, fiz meu último ENEM e consegui uma vaga em Design no CAA. Não conhecia a cidade, nem o campus, nem mesmo o curso, mas tudo acabou se encaixando. Entrei em agosto de 2016 e me formei no final de 2021. Miguel ministrando aula durante uma oficina promovida pelo Fashion Revolution de 2019. DURANTE A GRADUAÇÃO, eu trabalhava com representação comercial. Como não tinha a mesma base nem os equipamentos que muitos colegas já possuíam, não consegui atuar em nada ligado ao design que me ajudasse a me manter morando sozinho em Caruaru. Por isso, também não conseguia fazer cursos na área, já que trabalhava em escala de shopping e tinha pouco tempo disponível. Por outro lado, abracei todas as oportunidades que o curso ou os professores me ofereceram: de participação em projetos ao oferecimento de cursos aos alunos e alunas do Design. NOS ÚLTIMOS ANOS DA GRADUAÇÃO, consegui um emprego em uma instituição mista, de iniciativa público-privada, voltada para a área de moda, embora atuasse no setor administrativo. Lá, tive contato com diversos empresários locais, conheci de perto o funcionamento das consultorias de moda e acompanhei os bastidores de projetos de fomento do Governo do Estado voltados para o Agreste. Tentei, sem sucesso, migrar para a área de consultoria e, após um ano, mudei de emprego. Miguel, em 2023, na fábrica de Toritama. DEPOIS DISSO, fui contratado como designer de moda em uma das maiores fábricas de jeans de Toritama. Foi uma experiência formadora. Viver o dia a dia do chão de fábrica, entender a complexidade de um material que até então me parecia simples e lidar com os desafios constantes da profissão, especialmente na relação com a classe patronal da região, transformaram completamente minha visão sobre o setor. Foi nesse contexto que percebi que, ali, pouco se cria. Esse entendimento foi um choque, pois desmontou a ideia que eu tinha sobre o universo da moda como um espaço essencialmente criativo. O ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DO AGRESTE PERNAMBUCANO É, sem dúvida, uma grande força da economia do Estado, mas também carrega o peso de uma cultura fortemente baseada na cópia. Em maior ou menor grau, muitos empresários se acostumaram a reproduzir referências, seja do que veem em grandes grupos internacionais, seja dentro do próprio contexto local, com marcas menores replicando as maiores. ASSIM, depois do impacto inicial, entendi que precisava me qualificar no que era, de fato, exigido. Passei a me dedicar ao conhecimento técnico, estudando desenho técnico, sequência de produção, maquinário e o denim como matéria-prima. Descobri a complexidade da lavanderia industrial, o uso do laser nos processos de beneficiamento e os limites que a modelagem impõe ao jeans. Era, na prática, uma imersão na Engenharia de Produto. Miguel e colegas, em 2024, nos bastidores do concurso do Brasil Fashion Designers. EM 2022, venci meu primeiro concurso como estilista de jeans e tive a oportunidade de viajar para São Paulo para conhecer o Denim City, um hub de soluções voltado para a indústria do jeans. Em 2023, fui convidado por uma tecelagem para uma parceria e apresentei minhas primeiras peças autorais no Festival do Jeans de Toritama. Em 2024, conquistei o primeiro lugar no concurso Brasil Fashion Designers, da Febratex. Tudo isso aconteceu em paralelo ao meu trabalho na fábrica. Parte da coleção criada para o concurso Brasil Fashion Designers, de 2024. Miguel o venceu em 1º lugar. NESSE PONTO DA MINHA CAMINHADA, já me entendia como profissional e tinha uma visão mais ampla e ao mesmo tempo bastante pormenorizada sobre o mercado. Decidi, então, dar um novo passo: deixei a segurança de uma das posições mais desejadas, ao menos na percepção dos jovens estilistas de Caruaru e região, e me mudei para São Paulo, em busca de outras oportunidades de trabalho, com o currículo que eu até então eu tinha formado. NO MOMENTO ATUAL, trabalho especificamente com desenvolvimento de produto em uma das empresas mais consolidadas do Estado. Não atuo diretamente com criação, o que ainda me frustra em certa medida, mas entendo que faço parte de um caminho mais longo do que aquele que Toritama poderia me oferecer. Hoje, tenho um nome reconhecido na indústria do jeans e muitos planos para o futuro. MEU TRABALHO ATUAL exige um domínio técnico amplo, que atravessa diferentes áreas, como tecidos, modelagem, costura, precificação, materiais, insumos e, por mais surpreendente que possa parecer, comunicação. Nesse contexto, a ética muitas vezes fica em segundo plano: diariamente, preciso analisar, reproduzir e decifrar como estilistas ao redor do mundo desenvolveram determinadas peças, para então traduzir essas informações de forma estratégica para clientes que irão se beneficiar desse processo. JÁ NO MEU TRABALHO AUTORAL, como criador, minhas principais referências passam pelas técnicas de modelagem japonesas e pela brasilidade. Busco construir uma leitura de expressões nacionais que sejam, ao mesmo tempo, teatrais e pouco óbvias. Os trabalhos manuais e a artesania também aparecem como elementos centrais na minha linguagem criativa, funcionando quase como uma assinatura das peças. ACREDITO QUE HÁ ESPAÇO PARA TODOS E TODAS no vasto campo de trabalho em que se encontra a área em que atuo. Existem profissionais e Profissionais, assim como há trabalhos e Trabalhos. Ainda considero a Academia fundamental na formação de um bom profissional. Um trend setter sem conhecimento sobre sociedade, política, história, economia e outras áreas com as quais tive contato no CAA tende a ser um profissional limitado. O pensamento crítico é, nesse sentido, muito mais desenvolvido e estimulado nos ambientes acadêmicos do que em outros. O QUE ME INCOMODA MAIS É a substituição de profissionais por influenciadores e por pessoas que chegam a posições de criação com base apenas na quantidade de seguidores nas redes sociais ou por serem filhas de “X”. Nesse caso, vejo um movimento que acaba prestando um desserviço à profissão. Miguel diz ter ficado muito decepcionado com o fato de a sua colação de grau ter acontecido durante o lockdown da pandemia da Covid-19, em 2021. SENTI FALTA, principalmente, de mais práticas durante a minha formação. Apesar de existirem vários laboratórios no CAA, no meu período muitos eram subutilizados ou acabavam “pertencendo” a determinados professores, o que transformava o acesso em um jogo de preferências e afinidades. Além disso, havia dificuldades recorrentes, como problemas com licenças de software, falta de manutenção e ausência de peças para as máquinas de costura. Lembro, inclusive, de um conselho marcante de um professor: “Se você quiser aprender a usar esse programa, é melhor fazer um curso ou procurar aulas no YouTube, porque a universidade não ensina.”. MUITAS VEZES ME PERGUNTEI SE, em algum momento, ao se tornar professor, o ex-aluno atravessa uma espécie de ruptura e passa a esquecer tudo o que viveu, adotando uma postura mais centrada no próprio ego. Essa percepção nunca chegou a me intimidar diretamente, mas vi colegas profundamente afetados por esse tipo de conduta. Alguns chegaram ao ponto de desistir do curso, outros mudaram de profissão como consequência dessas experiências, que são sempre, em maior ou menor grau, devastadora. NÃO SEI COMO ESTÁ O CAMPUS HOJE, mas, no período em que estive lá no CAA, o ambiente, em certos aspectos, era psicologicamente insalubre, muitas vezes sob a justificativa de que aquilo seria uma preparação para o mundo profissional. ME DEFINO COMO UM PROFISSIONAL ABERTO. Durante muito tempo, me questionei se tinha um estilo ou uma assinatura própria e cheguei a acreditar que não. Com o tempo, porém, consegui ler meu próprio trabalho como um texto coerente, com conexões e recorrências. SOU EXTREMAMENTE TÉCNICO E ORGANIZADO NO QUE FAÇO, mas associo essa estrutura a um modo mais atravessador de criar, em que diferentes referências, processos e ideias se cruzam para construir o resultado. Aproveito este momento reflexão, esta oportunidade de expressar meus pensamentos sobre esse assunto, para fazer uma menção honrosa e deixar meu agradecimento à professora Flávia Zimmerle da Nóbrega Costa, ao professor Mário de Faria Carvalho e a Marcelo Martins, que foram fundamentais na construção do meu processo. FLÁVIA ME MOSTROU como o básico pode ser mais complexo do que aquilo que, à primeira vista, parece elaborado. Foi com ela que aprendi que a base é o caminho para a sofisticação. Já Mário despertou em mim o hábito de questionar o belo; desde então, passei a refletir constantemente se estou, de fato, pensando por conta própria ou apenas reproduzindo um discurso. Marcelo me despertou a necessidade de equilibrar a justa medida entre o a falar e a calar. O PROCESSO CRIATIVO É, para mim, uma linguagem individual construída aos poucos. No meu caso, ele acontece de forma bastante sinestésica. Quando sou provocado a criar, começo a visualizar imagens e a fazer associações com o tema. A partir daí, penso em cores, cheiros, formas e sons que se conectem com essas ideias. Em seguida, desconstruo essas associações e as reorganizo a partir das sensações, para só então tentar traduzir, de forma mais lógica, qual é o sentido da criação para quem observa. Miguel durante a seleção dos materiais do concurso de 2022, o primeiro que ele venceu. PODE PARECER UM PROCESSO COMPLEXO, mas ele acontece de maneira quase instantânea, em um curto espaço de tempo, até que o resultado se materialize. Por isso, gosto de pensar nele como uma linguagem própria. Tenho interesse em cursos, aulas e masterclasses sobre processo criativo, mas vejo esses espaços mais como estímulos ou gatilhos do que como definições rígidas de um método. JÁ A MODA, para mim, funciona como um agente aglutinador. Quem está neste universo da moda, de alguma forma, busca pertencer a um grupo, comunicar uma ideia ou expressar algo. Mesmo quando há uma tentativa de ruptura ou de originalidade, sempre se parte de referências anteriores, e isso não é um problema. Pelo contrário, é justamente o que torna esse jogo mais interessante. VEJO A MODA COMO UM ECOSSISTEMA INTEGRADO CHEIO DE APOCALÍPTICOS. Desde que comecei a trabalhar na área, tornou-se quase regra ouvir reclamações sobre as dificuldades do mercado, a competitividade entre os pares, a deslealdade e outros desafios. Ainda assim, fala-se pouco em soluções; muitas vezes, a queixa parece mais um hábito do que um ponto de partida para mudança. A DISCUSSÃO MAIS RECENTE no nosso métier gira em torno do uso da inteligência artificial. Nesse ponto, faço uma leitura um pouco diferente. Parte dos profissionais, especialmente em um campo historicamente associado à vanguarda, encara a IA como uma ameaça, quando poderia considerá-la como mais uma ferramenta de trabalho. A inteligência artificial não cria “no sentido humano”, ela organiza. Produz a partir do que já foi feito, dito e disponibilizado por nós. Todo conteúdo gerado é uma recombinação orientada do passado. COM A VELOCIDADE VERTIGINOSA com que a informação é gerada por essas ferramentas, nos aproximamos do ponto de autofagia, em que a própria IA passa a se alimentar de conteúdos derivados dela mesma. É aí que pode surgir uma ruptura. A criatividade humana, por outro lado, é expansiva e autorregenerativa, o que a coloca em uma posição diferente. Talvez ainda levemos alguns anos até que essa preocupação perca força e seja substituída por uma nova. MINHA DICA PARA QUEM ESTÁ CURSANDO DESIGN AGORA É SIMPLES: busquem conhecimento técnico! A Academia forma ótimos pensadores, e aprender os porquês, cultivar a inquietação e desenvolver um olhar crítico são, para mim, verdadeiros tesouros. Mas o mercado, hoje, exige cada vez mais domínio prático. Por isso, aproveitem ao máximo a formação para fazer cursos de costura, modelagem, estamparia, fotografia, softwares gráficos e tudo o que puder somar como bagagem. A combinação entre pensamento crítico e conhecimento técnico é o que forma profissionais realmente diferenciados. TAMBÉM VALE AMPLIAR O OLHAR SOBRE O QUE É A MODA. Ela não se resume a desenhar, costurar ou criar coleções. Existe um universo de possibilidades que envolve imagem, branding, gestão de marca, eventos e produção. Em todas essas áreas, ter uma base sólida em moda pode ser um grande diferencial. MIGUEL (em outras imagens)
- Entrevista com Augusto Ribas - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Entre a transpiração e a inspiração"
Por Marcelo Martins e Miguel Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur PALAVRAS INICIAIS “UM BONITENSE OU, COMO DIZIAM ALGUNS, UM BONITO DE BONITO”: José Augusto Ribas fez parte daquela grande leva de universitários brasileiros que conseguiram uma bolsa para desenvolver parte de seus estudos no exterior, por meio do saudoso programa do governo federal intitulado Ciência sem Fronteiras (CsF). Levou para a América do Norte nosso jeitinho de estudar e trabalhar, e trouxe o deles para a sua prática e para o término da sua formação no Design do CAA. Uma mente criativa, hoje atua em São Paulo, completamente interconectado com feiras, cursos, internet, mercado, e muitas pessoas – tanto para desopilar do estresse do mundo do trabalho e de sobrevida da maior capital do país como também, ao mesmo tempo, para buscar referências ao que vai desenvolver como projeto, inclusive porque precisa de argumentos e referências consistentes para coordenar sua equipe. Augusto Ribas, com muita presteza e com sua habitual simpatia e sorriso, atendeu ao pedido de Miguel Santos e Marcelo Martins, que reorganizaram a experiência de suas respostas no texto em 1ª. pessoa que segue. COM A PALAVRA, AUGUSTO RIBAS No Laboratório de Moda do CAA, numa aula de moulage (Profa. Flávia), com Denise Silva, em 2013. SOU NATURAL DE BONITO, PERNAMBUCO. Antes de chegar ao curso de Design do CAA, me formei em Sistemas de Informação e atuei por um ano na área, mas percebi que não era o que eu queria para minha vida. O Design sempre foi minha primeira opção, ainda quando o curso funcionava no Polo Comercial de Caruaru, mas acabei optando por TI inicialmente, influenciado pela visão dos meus pais e pela falta de conhecimento geral sobre a profissão. Esse meu primeiro desejo, porém, nunca foi embora, e em 2012 fiz vestibular e ingressei na UFPE. Concluí a graduação em Design em agosto de 2017. DURANTE A GRADUAÇÃO, fiz um curso de Desenvolvimento de Coleções pelo Senai, em Caruaru, que me aportou uma base prática importante para minha atuação profissional. Paralelamente, fiz diversos cursos online focados em ferramentas específicas, como o pacote Adobe, e também em costura e modelagem básica. Participação no Silhouettes Fashion Show, da University of Wisconsin, em 2014. Augusto foi um dos brasileiros que conseguiram uma bolsa de estudos pelo antigo CsF. MAS O GRANDE “DIVISOR DE ÁGUAS” NA MINHA FORMAÇÃO E NA PROJEÇÃO DE MINHA ATUAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO foi mesmo o intercâmbio que fiz numa universidade dos Estados Unidos, pelo programa Ciência sem Fronteiras. Por meio desse projeto de governo, tive a oportunidade de cursar várias disciplinas no programa de Design do Vestuário da Universidade de Wisconsin. Essa experiência ampliou minha visão global do Design de Moda e me trouxe um entendimento mais profundo do varejo. Lá, participei de desfiles estudantis, como o Silhouettes Fashion Show, onde os alunos mostravam seus trabalhos para a comunidade local, colocando em prática algumas das habilidades que desenvolvemos ao longo do curso. COMECEI MINHA CARREIRA COMO ASSISTENTE DE ESTILO em uma empresa que produzia uniformes de alto padrão, onde depois assumi o cargo de Estilista. Participei de projetos importantes para grandes marcas, mas o início foi desafiador: baixos salários, mão de obra explorada e um ritmo de trabalho que me levou a desenvolver ansiedade. Após alguns anos, decidi sair da empresa e enfrentei dificuldades para me recolocar, já que o mercado exigia especialização em segmentos específicos (masculino ou feminino, tecido plano ou malharia etc.). Trabalhando com uniformes, eu havia feito de tudo um pouco, mas isso não era visto como suficiente. Augusto no Departamento de marketing da Lofty Style, em São Paulo, onde atuou como Coordenador de Design, de 2022 a 2024. Foto: 2023. POR CANSAÇO E FRUSTRAÇÃO, acabei migrando para o Design Gráfico e Social Media de moda em uma marca no Bom Retiro, atuando dentro do departamento de marketing. Era algo que eu fazia paralelamente como freelancer e decidi investir. Essa experiência me permitiu ampliar habilidades, criar uma rede de contatos e, posteriormente a isso, fui convidado para atuar em outras empresas. Foi assim que evoluí para Designer Especialista em Branding e Storytelling e, mais tarde, para Coordenador de Design, liderando estratégias criativas que unem design, comunicação e propósito. HOJE, TENHO CERTA AUTONOMIA PARA DESENVOLVER PROJETOS CRIATIVOS E ESTRATÉGICOS, mas sempre atento aos movimentos do mercado e às diretrizes da empresa, garantindo que cada entrega esteja alinhada aos objetivos e ao posicionamento da marca. Atualmente, aceitei um novo desafio para atuar no mercado de luxo de joias, um segmento diferente do das roupas, mas que segue um fluxo de tendências semelhante. MEU TRABALHO EXIGE QUE EU ESTEJA CONSTANTEMENTE ANTENADO às tendências, aos movimentos de consumo tanto massivo quanto os de luxo e às mudanças culturais em geral. Para isso, utilizo com frequência plataformas como WGSN, Pinterest e Behance, além de acompanhar de perto as redes sociais, que funcionam como um termômetro imediato de comportamento. Não é exatamente uma escolha: o ritmo pode ser intenso, por vezes cansativo, e até gerar ansiedade. Para equilibrar, crio espaços de inspiração em outras áreas, como nas artes e na espiritualidade. Já fiz cursos de escultura, pintura e desenho, que me ajudam a ampliar o olhar criativo e a manter uma relação mais saudável com o processo de criação. Apresentação de uma das peças que Augusto produziu, em 2021, como trabalho final do curso de Modelagem e Escultura, no Studio Rick Fernandes, em São Paulo. DO MEU PONTO DE VISTA, DESIGN NÃO É ARTE; É CIÊNCIA. É criar com método, embasamento e estratégia de mercado. Por isso, acredito que o treinamento acadêmico é imprescindível para um desenvolvimento sólido no mercado de trabalho. Dito isso, e ao contrário disso, posso dizer que a realidade é um pouco diferente: ao longo da minha trajetória, já deparei com pessoas em posições importantes sem qualquer preparo formal, mas que estavam ali por relações familiares, poder aquisitivo, capital social ou simplesmente por terem bom gosto para consumir moda. Isso é algo que acontece, e o mercado, muitas vezes, reforça essas distorções. NO MEU CASO, VINDO DE UMA REALIDADE SIMPLES e chegando a São Paulo, que é uma verdadeira selva de pedra, a minha formação foi minha armadura. Foi ela que me deu as ferramentas para enfrentar as dificuldades e, com o tempo, me estabelecer. Ter concluído a graduação na UFPE trouxe respeito ao meu currículo e abriu portas que talvez não se abrissem de outra forma. No ateliê Única Smart Clothes, em São Paulo. Nele, Augusto foi estilista e desenvolveu uniformes para diversas marcas, dentre as quais podem ser citadas a Vivara, o Boticário, o CET, a Coca Cola. Foto: 2021. A UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO é, da minha perspectiva, uma verdadeira fortaleza quando trata de formar um pensamento crítico, estratégico e de entendimento mais amplo sobre o mundo da moda. Esse foi um diferencial importante na minha trajetória. Por outro lado, quando se fala em vivência prática de mercado, seja no varejo ou no atacado, muitas lacunas ficaram evidentes na própria formação. Aspectos mais técnicos, como o domínio de ferramentas e a execução prática do trabalho, eu só consegui preencher de fato com a experiência do dia a dia. Durante a formação, o estudante precisa ter o bom senso de buscar esse aprendizado de forma paralela, porque o que a universidade entrega nesse sentido ainda é bastante básico e introdutório, não sendo suficiente para as exigências do mercado. Então, o estudante precisa ser sempre lembrado disso e estimulado a procurar complementar a sua formação ainda durante o curso. Produção de um trabalho realizado para a aula de Collection Development and Market Research, na University of Wisconsin, em 2014. DEFINIR-ME COMO PROFISSIONAL É SEMPRE uma pergunta difícil de responder... Acredito que a palavra que mais me define é “obstinação”. Durante a graduação, me dediquei ao máximo para ser um bom aluno e absorver todo o conhecimento possível. Quando cheguei a São Paulo, trazia apenas um sonho de ser um adulto independente, e minha bagagem mais preciosa era, sem dúvida, o conhecimento que carregava. COMO PROFISSIONAL, me defino como alguém interessado, resiliente, direto, mas gentil, com um senso forte de autopreservação e de liberdade. Minimalista, moderno e, hoje, Especialista em Marketing de Moda, Branding e Storytelling. Já atuei em diversas frentes: estilista, designer gráfico, produção de moda e marketing, dentre outras. Essa experiência me deu um olhar 360º sobre os negócios, algo que valorizo muito e que enriquece minha presença em cada empresa por onde passo. PARA MIM, A MODA ESTÁ EM TODO LUGAR. Ela acompanha, quase de forma irritante, nosso modo de consumir e, inclusive, de pensar. Mesmo após anos no mercado, ainda me impressiona ver como o resultado do trabalho de um time criativo é capaz de instigar desejo e necessidade no coração das pessoas. Odeio admitir, mas a moda é cruel: ela serve a um grande deus chamado capitalismo. Tem beleza, dor, arte e suor. Sustenta e destrói. JÁ O PROCESSO CRIATIVO, para mim, está justamente em captar e estudar todas essas nuances, traduzindo-as em narrativas e produtos que alimentem esse desejo. Ou, se você é um desses gênios visionários, ele, o processo criativo, faz parte dos ingredientes que acompanham a coragem de criar algo totalmente fora da curva. NUM PRIMEIRO MOMENTO, EU COMPREENDO O MUNDO DA MODA DIVIDIDO EM DUAS TRIBOS. De um lado, os apocalípticos: grandes varejistas, como a Shein, que representam o consumo em massa e acelerado. De outro, uma moda mais integrada, que busca um consumo consciente e se afirma como expressão artística, de identidade, de cultura e de gênero. ESSAS DUAS VISÕES COEXISTEM E SE MANIFESTAM DE FORMAS DIFERENTES, mas ambas fazem parte da moda como expressão humana: seja no desejo de status, seja na necessidade simples de se proteger do frio ou do calor, sempre atravessada pelas questões morais que a moda inevitavelmente carrega – até porque ela integra um universo de complexidades que condicionam e ao mesmo tempo estruturam seu sistema. EU GOSTARIA DE TER TIDO, DURANTE A GRADUAÇÃO, uma visão mais realista sobre a atuação no mercado e sobre processos. As disciplinas teóricas são extremamente importantes, mas é fundamental que o estudante escolha um segmento de atuação (seja produto, moda ou gráfico), e se aprofunde tecnicamente em como desenvolver um produto. Participação no 16º. VTEX DAY, em 2025, em São Paulo. Ecommerce e tecnologia digital são os temas discutidos nesse megaevento de negócio e tecnologia, um dos maiores do mundo, atingindo um público de aproximadamente 25.000 pessoas por dia. NO FIM DO DIA, O DESIGNER É UM PROFISSIONAL que cria e desenvolve soluções, olhando para um nicho de mercado, mas também preservando a identidade e a essência da marca. Já vi muitos ex-colegas saírem da universidade sem conseguir performar no mercado justamente por terem focado apenas nas disciplinas teóricas, porque eram as que mais gostavam de estudar. Essa liberdade de escolha, se não for equilibrada, pode se tornar um risco. Mas é importante lembrar que cada pessoa tem um processo e uma vivência única. Apesar de parecer clichê, se a pessoa se mantém interessada, faz bem o que gosta e é consistente, as coisas acontecem sim. O caminho pode não ser linear, mas a constância e a paixão sempre encontram espaço na sinuosidade dele. AUGUSTO (em outras imagens)
- Entrevista com Alex Santos - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Vivendo e aprendendo"
Por Marcelo Martins e Miguel Santos Trabalho aprovado por: Amanda Mansur e Paula Donato PALAVRAS INICIAIS AUTODIDATA E CURIOSO INSACIÁVEL, Alex Santos ficou radiante quando seu artigo científico foi selecionado para ser apresentado e publicado no maior evento de divulgação de pesquisas e estudos de Moda do país, promovido pela ABEPEM (Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda), em 2024, quando já tinha se formado. Primeiro vestido produzido por Alex, no Laboratório de Moda do CAA, onde ele trabalhava por ainda não possuir os instrumentos para realizar as peças em seu ateliê. Ano: 2018. O trabalho em questão, intitulado “Retratos do Feminino: análise da imagem parada”, anos antes, havia sido submetido ao evento, mas, por questões de inaptidão técnica no momento da inscrição, ele sequer chegou a ser avaliado. SEU ATELIÊ EM CARUARU divide o espaço com a sua casa. Nesse aconchegante oásis urbano, de trabalho e de moradia, tudo transpira produção de moda: tecidos, brilhos, manequins, chapéus, cores, linhas, botões, fitas métricas em volta do pescoço e nas mãos do artista, tule e mais tule, fantasias acabadas, prancheta, folhas de desenho, lápis e canetas diversas, dentre tantos outros “instrumentos de trabalho”, atravessam os sentidos dos corpos dos clientes que vão lá para buscar ou para fazer uma encomenda, ou vão para pedir para que ele desenhe no ao vivo e em cores a ideia inicial de um modelo, que, dias depois, ganha fisicalidade de formas, cores, acabamentos e movimentos – botões, brilho e volume. Vestido de formatura, traje de festa, 2023. Cliente: Aurora Balbi. AURORA BALBI, uma de suas clientes, relembra da primeira vez que foi ao ateliê: “Entrar lá foi como ser transportada para um outro mundo, uma mágica aconteceu. Para a minha formatura, eu vi várias possibilidades, mas optei por ele, porque alguma coisa no traçado dele me atraiu bastante. Era a minha formatura, um momento único, e esse vestido teve, então, um significado ainda mais especial. Foi feito por um aluno do meu pai, o que já tornava tudo bem emocionante — e quando eu o vi pela primeira vez, não consegui segurar as lágrimas e chorei na frente do Alex mesmo. Ao vestir, foi simplesmente inesquecível: ficou perfeito, deslumbrante, como se tivesse sido feito exatamente para mim em todos os sentidos. Tudo o que o Alex falava durante a criação e nos momentos de prova transformou-se linda e confortavelmente no meu corpo.”. ALEX ABRE SUAS PORTAS para “quase todo mundo” e acredita, de certo modo, estar contribuindo, mesmo assim, com uma espécie de democratização da moda, da beleza, do sentir-se bem e do bom-gosto. Pesquisador voraz do que faz, encontra-se constantemente envolvido também com pesquisas autodidatas sobre aquilo que está por trás de tudo aquilo que produz. Assim, sua cabeça de universitário nunca parou de funcionar, pois ele se dedica também a projetos paralelos para, no fundo, entender melhor como os discursos e expressões de moda moldam os corpos, as sociedades, e as relações interpessoais. Conhecedor profundo de momentos da história da moda, discute projetualmente as roupas que constroem os gêneros, as sexualidades, os grupos, os movimentos sociais; enfim, a vida como ela é – e como poderia ser. COM A PALAVRA, ALEX SANTOS EU NASCI E FUI CRIADO NO INTERIOR DE PERNAMBUCO, em Bezerros. Sou fruto de educação pública e de escola integral. Durante o Ensino Médio, fui incentivado a entrar no mundo da criação e acabei optando por Design, inclusive por causa das minhas habilidades com desenho e pelo meu enorme interesse por moda. O fato de o Centro Acadêmico do Agreste ficar perto de casa também foi um facilitador que conduziu a esta escolha, uma vez que, quando terminei o Ensino Médio e entrei na faculdade, tinha 16 anos. Era muito jovem e tinha receio de ir para longe. Entrei na faculdade em 2015 e concluí em 2021. Laboratório de Moda, antes da aula de moulage da Professora Flávia Zimmerle, em 2018. Processo na produção do traje da personagem Rainha Má (espetáculo de ballet), em 2025. DURANTE O PERÍODO DA MINHA FORMAÇÃO, eu já atuava “amadoramente”. Quando entrei na faculdade, já desenhava figurinos e trajes de festa. Mas foi só no decorrer do curso que tive o primeiro contato com modelagem e costura, o que me ajudou a conseguir aliar a minha experiência de criar ao poder de executar. Ainda durante o curso, comprei minha primeira máquina de costura e comecei a atender clientes fazendo roupas sob medida. Acima: Alex, ao centro do corpo do ballet trajando suas criações de figurino, em 2022. Ao lado: Blazer sob medida, peça finalizada em 2026. POSSO DIZER, ENTÃO, QUE MINHA TRAJETÓRIA COMEÇOU com um certo “admiradorismo”, porque eu era um admirador! Meu primeiro ato no mundo da moda foi como desenhista. Aos poucos, porém, fui me construindo e me lapidando como profissional. Passei pela faculdade, por ateliê e por indústria, onde assumi cargos de chefia de produção, modelista, pilotista e costureiro. Atualmente, não dependo de demandas de mercado, porque ao longo do tempo construí uma clientela fixa. No cenário atual, além de trabalhar como instrutor de corte e costura, mantenho meu ateliê e escolho meus clientes, que geralmente são indicados por outros clientes. E os escolho de acordo com a indicação e o quão interessante é o tipo de trabalho que desejam. Não produzo qualquer tipo de roupa nem para todas as pessoas, eu escolho os trabalhos de acordo com a relevância que trará para a minha carreira a longo prazo. Nesse exato momento, estou me preparando para seguir no rumo da alfaiataria tradicional masculina. NO MEU DIA A DIA, meu trabalho depende de muitas habilidades técnicas para muitas atividades. Como eu trabalho sozinho, preciso executar todas as etapas dos processos, desde a pesquisa até as demais fases: desenho, modelagem plana, moulage, corte, passadoria, montagem etc.; além disso, preciso estar atento ao meu repertório técnico com relação aos tipos de tecidos, aviamentos, estruturação e acabamentos, operação e manutenção de maquinário; por fim, não escapam dessa cadeia os entendimentos de gestão empresarial – e até mesmo marco presença em determinados eventos ou junto a determinadas marcas. APESAR DE TRABALHAR COM O NICHO DE “SOB MEDIDA”, é necessário manter-me informado das questões de tendência e demais fatores que influenciam a informação de moda. A roupa sob medida carrega a égide do estilo, mas, no fim, as pessoas ainda querem pertencer a determinados grupos, identificar-se e comunicar-se através do vestuário. Em 2023, Alex sentiu-se preparado para começar os trabalhos com a alfaiataria. É NATURAL PARA O CRIADOR, contudo, espelhar em suas criações suas inspirações. Apesar de ater-me às satisfações dos clientes, tudo o que é criado para ele transmite a essência das coisas que me inspiram. Eu sou muito inspirado pelo Barroco, por exemplo. Gosto de volumes, sombras, luzes e formas dramáticas e sinuosas. Em contrapartida, também faz parte desse arsenal inspirador o lugar onde nasci, o Nordeste brasileiro e o Estado de Pernambuco. As cores, os elementos do barro e do couro, trajes de vaqueiros e cangaceiros estão sempre no meu radar. Os livros de historia, ilustrações infantis, música, pintura… toda a arte, arquitetura e antiguidades me são fonte de inspiração. Figurino desenvolvido para o quinteto violado, em parceria com Lucy Celestino, em 2025. Pinacoteca de São Paulo, em 2023. Viagens e idas constantes a museus e igrejas alimentam a veia barroca do artista-criador. Look desfilado no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024. ACREDITO QUE A FORMAÇÃO ACADÊMICA É ESSENCIAL para forjar um bom profissional que também pretende atuar no mercado, pois, como em todas as profissões, existem partes necessárias ao ofício que só a Academia proporciona. Como exemplo, é possível citar os estudos das metodologias, dos teóricos e da própria história. A noção científica só se aprende com profissionais. Mas, por outro lado, é importante sublinhar que somente a Academia não nos forma por completo: é necessário haver as experiências e as práticas das vivências de mercado. Portanto, um bom designer se faz a partir das duas experiências, a teoria aplicada à prática. Assim como em todas as outras profissões, existem os que sabem fazer e os que gostam de fazer. Nem todos que gostam, sabem fazer; nem todos que fazem, deveriam estar fazendo. Em plena Rua Augusta, entre uma bebida e outra, uma pausa para rabiscar umas ideias oriundas desse contexto. Ano: 2023. Alex se apresentando na passarela no final do desfile do Festival do Jeans de Toritama (PE, em 2025. COM RELAÇÃO AO MEU CURSO NO CAA, eu diria que eu senti falta, nele, de praticar mais a escrita. Como eu entrei muito jovem na universidade (aos 16), havia saído recentemente do Ensino Médio, onde a preparação era direcionada para a escrita do Enem e vestibular. O curso de Design, na época, oferecia uma cadeira de Metodologia Cientifica no segundo semestre, sendo essa uma disciplina obrigatória, e uma cadeira de Produção Textual e uma de Pesquisa Científica, que eram eletivas. Essas duas últimas foram muito problemáticas, por diversos fatores, inclusive devido às conduções nelas realizadas, naquele momento. Ou seja, saí com a Metodologia Científica do segundo período para produzir uma monografia no final do curso, porque as duas outras disciplinas citadas não contribuíram – como poderiam ter feito – com a minha formação. Como consequência de uma história como essa, muitas pessoas acabaram ficando estacionadas no TCC justamente pela dificuldade de escrever. Desse modo, acredito que a oferta de cadeiras obrigatórias de escrita e leitura acadêmicas seriam muito úteis nessa formação. Já com relação à aproximação com o mercado, senti falta de vivenciar práticas laboratoriais e de laboratórios mais bem equipados na universidade. Na minha época de graduando, o Laboratório de Moda, por exemplo, contava com mais da metade das máquinas inutilizáveis e ultrapassadas. Faltavam, por exemplo, máquina de corte e o estudo do funcionamento das produções industriais. Pela minha experiência de hoje, acredito que aulas de campo em que visitas fossem realizadas em fábricas e ateliês teriam sido muito valiosas nessa fase da formação de acadêmico em Design. Em 2023, período decisivo para a entrada do Alex na alfaiataria: “um profissional completo!”, “Eu faço Moda!”. “UM PROFISSIONAL COMPLETO”: é assim que me defino. Tenho muito orgulho em dominar todas as etapas da produção de uma roupa, desde o croqui até o corte, montagem e finalização. Não sou somente o criador, eu vou para a máquina e executo – trabalho que, inclusive, me encanta. Gosto de pensar que posso pegar um pedaço de nada e transformar em alguma coisa útil e bela. Isso tem me moldado nesses últimos 10 anos, e eu gosto muito, mas muito mesmo, do que faço. Looks desfilados no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024. ENTENDO O “PROCESSO CRIA-TIVO” COMO UM NOME que se dá ao conjun-to de etapas que antecedem a criação de algum artefato. Para mim, funciona como um banco de dados de referências. Eu gosto muito de ler, assistir e ver imagens. Isso me ajuda a construir um acervo como um “Pinterest” interno. Quando recebo uma proposta para desenvolver algo, já tenho um gancho na mente com alguma referência e, a partir daí, começo a fazer os testes e filtrar as possibilidades. Muitas vezes acontecem os insights, aí preciso colocar rápido em algum papel (ando sempre com um lápis e um caderno), para não esquecer. A partir dos insights escritos ou desenhados, realizo colagens e as utilizo como painéis de inspiração. Para mim, Moda é um sistema que se fortalece pelo culto às novidades que gera o ciclo do consumo e descarte dos produtos. Eu faço Moda! Figurinos desenvolvidos para o espetáculo Branca de Neve, realizado pelo Ballet Corpo, em 2025, em Bezerros, Pernambuco JÁ HÁ ALGUM TEMPO, o sistema de moda caminha para como ele está hoje: multifacetado. Podemos experienciar inúmeros nichos de expressão de moda que surgem e desaparecem muito rapidamente. Eu percebo que ainda há o ciclo tradicional da moda elitista, onde os hábitos de consumo dos ricos tornam-se símbolos de desejo das massas menos favorecidas. O sentido contrário também pode ser percebido; nele, elementos da cultura popular são aceitos nos círculos da elite e passam por processos brutais de precificação – distanciando-se, por isso, como objeto de consumo, da sua própria origem. Terno sob medida para Perpétua Dantas, uma das clientes de Alex. Caruaru, 2026 Por outro lado, não é possível desconsiderar que, apesar das cúpulas mais altas da moda permanecerem elitistas, abriram-se portas para outros corpos, culturas e cores, e isso representa um avanço. Além disso, as formas de produção também estão sendo adaptadas conforme as necessidades que giram em torno da sustentabilidade. É possível notar uma busca pela moda consciente, durável e circular. Como exemplo, citam-se a busca pela alfaiataria e a busca por peças bem feitas que têm aumentado consideravelmente, e o consumo de roupas de segunda mão que abriu espaço para os brechós serem percebidos como alternativas viáveis e mais ideais. DESSA PERSPECTIVA, então, entendo que há um certo caminhar para uma integração, e o fato de estarmos no meio desse constructo de um novo comportamento e mesmo modo de vida deixa tudo meio nebuloso, meio caótico. Figurino sob medida desenvolvido para Jonatas, professor responsável pelo Ballet Corpo, em 2026 (Bezerros). O CURSO DE DESIGN DO CAA É muito bom por deixar o aluno livre para escolher os caminhos, contudo, devido à inexperiência da maioria que entra no primeiro período e como primeira faculdade e, também, dando o primeiro passo para decidir a vida; aquele que não tem foco certeiro ou um mínimo de conhecimento na área perde muito tempo diante do leque de possibilidades. E isso faz com que o estudante acabe cursando disciplinas avulsas até encontrar um eixo de identificação. Seria bom, por parte da universidade, proporcionar encontros, palestras, aulas de campo direcionadas para as três áreas já no início do curso; isso, sem dúvida, daria aos estudantes a oportunidade de vivenciarem um pouco da profissão que pretendem seguir. Não nos enganemos: muitos entram sem ter ainda desenvolvido qualquer aptidão ou habilidade para uma das três áreas: gráfico, moda e produto. Por fim, o conselho que eu daria para os ingressantes é o mesmo que eu segui: aproveitar ao máximo, da forma que for possível, todas as aulas, todos os eventos e todos os professores. Os quem vieram antes sempre têm muito a ensinar. ALEX (em outras imagens)
- Cinebrilha Pernambucos: O Brilho do Cinema Pernambucano em Santa Cruz do Capibaribe
Cartaz de Divulgação A Mostra CINEBRILHA Pernambucos, é um circuito de exibição de filmes pernambucanos no formato de cineclube que chegou com tudo para movimentar a cena cultural de Santa Cruz do Capibaribe. Idealizada por Rafa Montteiro, a iniciativa foca em levar o cinema para as comunidades periféricas, promovendo debates e reflexões especialmente para a garotada da rede municipal de ensino. As sessões aconteceu nos dias 13, 14 e 15 de abril, ocupando a Escola Lindalva Aragão de Lira, no bairro Santo Agostinho, e o Ponto de Cultura Chocalho no bairro da Palestina. A curadoria, assinada por Marlon Meirelles, fez uma seleção caprichada de 13 obras pernambucanas, entre ficções, documentários e animações, que mostram a cara e a diversidade do nosso estado. A programação foi dividida em três momentos especiais: a sessão Asulancarte, que mergulha na nossa força cultural e industrial com filmes sobre a cultura da Sulanca; a sessão Agreste-se, que conecta tradições e memórias do nosso povo e a sessão Pernambuco Total, trazendo o vigor criativo e a potência de realizadores de todo o Estado. Em todas as sessões os filmes contam com pelo menos uma ferramenta de acessibilidade, a presença do intérprete libras, e locais com rampas de acesso, banheiros adaptados, corrimãos e iluminação adequada, garantindo conforto e autonomia para o público. A ideia da Mostra Cinebrilha Pernambucos é oferecer uma experiência leve, educativa e transformadora para os adolescentes e amantes do cinema, mostrando que o audiovisual tem um poder incrível de representar nossas histórias e emocionar. É uma oportunidade única para o público conhecer novos filmes e filmes emblemáticos feitos pelos nossos realizadores, do sertão ao litoral e ainda abrir espaço para novos talentos da região compartilharem suas vivências, oferecendo uma experiência leve, educativa e inclusiva tanto para adolescentes quanto para todos os amantes do cinema. Entrevista com Rafa Montteiro Função no projeto: Idealizadora, Comunicação e Direção. - Como foi a experiência da Mostra Cinebrilha? Recepção do público, surpresas, etc. Surpreendente, desde o primeiro momento a “Escola Lindalva Aragão de Lira” em Santa Cruz do Capibaribe recebeu maravilhosamente este projeto, e durante as sessões realizadas em suas dependências tivemos recorde de público. Alunos participativos nos debates. E presença representativa de pessoas com deficiência durante as atividades. - Qual a importância dessa mostra pra Santa Cruz e para o interior do estado? O CINEBRILHA é uma iniciativa financiada pelo Funcultura Audiovisual no Agreste setentrional, uma das regiões que recebe poucos recursos na área audiovisual, e principalmente na área de difusão. Executar essa Mostra em Santa Cruz do Capibaribe é avançar na construção e manutenção desse Cinema feito no interior e reafirmar a potência do Cinema Pernambucano. - Como foi, pra você, realizar esse projeto dos bastidores até o dia de exibições? Essa execução foi e é um grande desafio por ser meu primeiro projeto Funcultura, onde estou aprendendo a lidar com as burocracias na prática. Porém é particularmente realização de um grande sonho. E uma confirmação que é possível fazer arte e cultura no Agreste e seguir acreditando. Realização: Murall Prod / @murallprod Parceria: Coletivo Chocalho / @coletivochocalho Fotos do acervo Murall - Fotógrafa Adriana Araújo Apoio: Casa das Caiporas e Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Capibaribe / @casadascaiporas e @prefsantacruz Incentivo: FUNDARPE / 18° Funcultura Audiovisual - Governo de Pernambuco / @fundarpe Equipe Realizadora: Direção Geral, Produção Executiva e Comunicação: Rafa Montteiro Coordenação Técnica e Comunicação: João Rocha Curadoria: Marlon Meirelles Instrutora arte-educativa: Laís Neves Designer: Mandy Coordenação de acessibilidade: Rhaynara Janaína Para mais informações e novidades, acompanhe a Murall Prod no Instagram: https://www.instagram.com/murallprod/ Contato para Imprensa: E-mail: muraalscc@gmail.com Telefone: 81 9 99525.4276 (Rafa Montteiro) / 81 9 99525.2380 (João Rocha)
- Exposição Geração Sulanca
De 26 de março ao dia 29 de maio, o Museu da Sulanca recebe pela primeira vez a exposição "Geração Sulanca". Exposição Geração Sulanca. Foto por: Rebeca Rezende A exposição propõe um apelo ao olhar sobre memória, identidade e transformação a partir da história da Sulanca em Santa Cruz do Capibaribe (PE) através da fotografia, cinema, instalação sonora e poética. A exposição iniciou-se com o ensaio fotográfico realizado por Gil Vicente, composto por 17 fotografias que retratam os jovens da década de 1990, filhos de comerciantes e empresários locais, ainda que eles tivessem acesso a outras roupas, aparecem usando sulanca, revelando como toda a dinâmica econômica e social da cidade já estava estruturada a partir dela. A sulanca, nesse sentido, não se restringe ao que se veste, mas a base que sustenta o território. Resgatado 30 anos depois pela curadoria de Marcelo Taubelt, a programação também inclui, além das fotografias expostas, a exibição contínua do documentário Iluminação Especial 7.0, dirigido por Mayara Bezerra. Além da instalação sonora de Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, é apresentada a instalação poética assinada por Agda. Exposição Geração Sulanca. Foto por: Rebeca Rezende "A Geração Sulanca não é tão somente sobre um produto feito com retalhos: ela multiplica essa feitura. Ela é a ponta de cá do fio que conduz a história de um saber-fazer, que começou a ser costurado por meio de um conhecimento popular, coletivo e feminino, impulsionado pela subsistência." — frase do texto curatorial assinado por Jorge Feitosa, designer e pesquisador de Santa Cruz. Jorge propõe uma visão sobre a Sulanca para além dos produtos ou atividades econômicas, mas para um fenômeno cultural complexo. Sendo assim, Sulanca como território, modos de vida, saberes populares e estruturas sociais, sendo sustentada, em grande parte, por conhecimentos coletivos. Exposição Geração Sulanca. Foto por: Rebeca Rezende A exposição "Geração Sulanca" é sobre memória, trabalho e identidade em movimento. Esse projeto atravessa tempos e linguagens para revelar como a Sulanca moldou e continua moldando vidas, afetos e imaginários em Santa Cruz do Capibaribe. Trazendo uma reflexão sobre o Ser Sulanca e sua visão estigmatizada, a mostra preserva a história da Sulanca para podermos reconhecer as pessoas que fazem parte dela, pois vulgarizar para o agrado popular com o termo "Moda" é descartar toda a identidade de uma geração. Exposição Geração Sulanca. Foto por: Rebeca Rezende O projeto é realizado pela BASE/MAIS (@basemais), com apoio do Museu da Sulanca, do Moda Center Santa Cruz, Evinho Stamp, Blog do Ney Lima, Rádio Polo e oficina Embuá, patrocínio da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (ADEPE) e incentivo da Lei Paulo Gustavo, por meio do Governo de Pernambuco, Ministério da Cultura e Governo Federal. Serviço Geração Sulanca Visitação: até 29 de maio de 2026, das 8h às 12h - 13:30h às 18h de segunda a sexta Local: Museu da Sulanca – Moda Center Endereço: BR-104, Km 54 – Centro de Eventos Cidade: Santa Cruz do Capibaribe (PE) Entrada gratuita Exposição Geração Sulanca. Foto por: Rebeca Rezende
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