FACE DE QUEM PERCO: o amor que abraça as faltas
- Revista Spia

- 13 de mai.
- 17 min de leitura
Por Nilton Barros
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo M. Martins
PALAVRAS INICIAIS
NATURAL DE ARCOVERDE, SERTÃO DE PERNAMBUCO, E TENDO MORADO EM PESQUEIRA POR BOA PARTE DE SUA VIDA, Vinícius Galindo Farias é escritor, poeta e estudante do curso de Design, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA) e emerge como uma voz singular na poesia contemporânea brasileira, com o seu primeiro livro: Face de quem perco, publicado em 2025 pela editora Mondru. Em busca de dar vazão aos conflitos internos, o autor, em sua obra, navega pelas sombras do afeto humano, transformando silêncios e vazios em versos pulsantes; além de capturar essa essência com delicadeza intensidade, ele convida o leitor a conhecer e aprender a lidar com espaços onde a perda, a falta, o amor, o desejo, a emancipação e o erotismo são protagonistas.
NESTA CONVERSA, mergulhamos no universo criativo do autor, explorando o que o impulsiona a escolher a poesia, também, como forma de expressão criativa. Abordamos temas recorrentes em seu trabalho, como o confronto com ausências que, paradoxalmente, geram laços profundos – um amor nascido das faltas, ecoando em metáforas íntimas e familiares. Além disso, Farias compartilha reflexões sobre o ritual de escrita, o nascimento orgânico de um livro e as parcerias que amplificam vozes semelhantes, como afinidades temáticas com outros criadores.
O livro terá o seu lançamento oficial em Caruaru, no dia 15 de maio, às 16h, na Cultural Livraria e Cafeteria, com mediação de Maria Eduarda Alexandre Rodrigues, estudante do curso de Comunicação Social e colunista da revista SPIA, também da UFPE.
No texto que segue, com fotos de Vinícius Galindo Farias, organizamos o conteúdo da entrevista que realizamos com o autor, registrando apenas suas reflexões e respostas, na tentativa de compreender melhor como ele entrelaça o pessoal no universal, celebrando o que está ausente para amar o que permanece.
COM A PALAVRA, VINÍCIUS GALINDO FARIAS
EU TRABALHO COM OUTROS TIPOS DE ESCRITA TAMBÉM. O que acontece é que, independentemente do rumo que eu tomasse, todas as minhas decisões criativas se voltariam para a poesia em algum momento. Quando eu comecei a escrever, antes mesmo de me considerar escritor, quando tinha 6-7 anos, escrevia textos que hoje eu sei que eram poemas, ou inícios de poemas. Alguns eu nunca finalizava e outros sim – e eu sei que não eram bons, mas tudo isso foi uma preparação para que quando eu publicasse Face de quem perco eu soubesse que era um caminho a se seguir.

OS MEUS POEMAS, GERALMENTE, ABORDAM A QUESTÃO DE AMOR. E assim como todo o resto da minha literatura – até o presente momento – lida muito com a questão da falta e da perda. Tanto que, este primeiro livro acaba sendo um monumento de toda a minha temática na escrita e na literatura. Eu gosto muito de fazer uma investigação das ausências, tanto no indivíduo quanto no sistema; ou então em determinadas situações. Então, escrever sobre isso, dar vazão a isso, me dá cada vez mais clareza, mais certeza do que pode me comover e comover o outro, e de como eu posso me conectar com outra pessoa por meio desses versos, por meio desse tema em si, porque a perda é inevitável e universal.
EU CREDITO MUITO DA MINHA ESCRITA À MINHA FAMÍLIA. Eu venho de uma família em que a matriarca é minha avó e é uma professora aposentada do Estado. Na época em que eu nasci e quando era novo, fui criado por ela e ela ainda estava em atuação. Ela sempre levava livros da escola para mim, me incentivava bastante a ler histórias em quadrinhos, tanto ela quanto a minha mãe e o meu tio. Histórias em quadrinhos, livros, textos diversos que me moldaram, querendo ou não, independentemente do teor deles. Além disso, eu credito bastante da minha escrita poética à Cecília Meireles, que eu comecei a ler no 9º ano do Ensino Fundamental. Hilda Hilst, também, – que curiosamente morreu no mesmo dia que eu nasci – a minha literatura funde bastante à dela em alguns pontos. Quando eu descobri a nossa data de nascimento e a data de morte dela, eu descobri como a nossa literatura se cruzava e achei muito interessante traçar esse paralelo.

Clarice Lispector é uma escritora indispensável de se falar, especialmente no meu caso, como é poesia, a linguagem de Clarice acaba sendo muito poética. Tenho também algumas amigas e amigos escritores que me inspiram bastante, como Maíra Dal’Maz, que é do Rio Grande do Norte. Ela escreveu a orelha do meu livro há muitos anos atrás. Renata DeCastro, também poetisa, que fez o texto da orelha para essa versão de agora (2025). Tem Fellipe Fernandes Cardoso, que escreveu o prefácio. Ele é romancista, mas a escrita dele é muito sentimental, muito versada quando a gente para para analisar bem. Débora Gil Pantaleão, minha antiga editora, também é poetisa e trabalha com a questão da negritude e do ser mulher bissexual no Brasil e no Nordeste. Conhecer o trabalho dela na minha adolescência foi muito importante. John Green também foi muito importante no meu desenvolvimento como leitor e escritor na pré-adolescência e adolescência.
Eu lembro que os textos dele me deixavam pensativo e estimularam bastante a minha criatividade com relação ao desenvolvimento de personagens, porque ele usa muito bem o diálogo como uma forma de desenvolvimento, assim como o monólogo interno também; essa junção ele consegue fazer muito bem, a meu ver. Eu lembro bastante de outra referência, que é a Aline Bey, escritora de O Peso do Pássaro Morto. Lembro que em 2021, li A Pequena Coreografia do Adeus e, mesmo não sendo um livro com uma grande história, ele consegue captar a pessoa pela linguagem, pelo uso das palavras e da estruturação do texto, e como ela vai reformulando a linguagem do jeito dela, estilisticamente falando, conseguindo deixar aquilo original, mesmo sendo estranho à primeira vista.
EU ACHO QUE TEM IMPORTÂNCIA, COMO ESCRITOR, DA GENTE CONSEGUIR CANALIZAR tudo aquilo que a gente quer naquele momento, com aquele contexto controlado. Mas em ambientes livres eu também consigo, eu gosto. Eu costumo escrever num bloco de notas antes de dormir ou na rua, por exemplo. Em cadernos, quando estou em aula. Não costumo me colocar em regras para como escrever. Meu processo de escrita acaba sendo bem diverso para cada projeto e para cada dia também por causa disso, mas eu sinto que quando o ambiente está mais controlado e que eu consigo controlar aquelas circunstâncias, o processo acaba sendo bem mais fluido, especialmente para escrita de prosa. É muito melhor você ter um ritual de escrita mais aprimorado porque, para a poesia, consigo ser bem mais aleatório do que com prosa, porque a prosa exige planejamento e mais estudo – já a poesia, querendo ou não, não exige anos de pesquisa para conseguir desenvolver. Não tem um personagem por si só na poesia, tem um eu lírico, que acaba sendo, simultaneamente, bem mais complexo e mais simples de desenvolver, para mim.
EU COMECEI A ESCREVER, COMO FALEI, MUITO NOVO. Lembro que uma semana antes dos meus 11 anos, decidi que queria ser escritor, só não sabia como exatamente. Mas eu sabia que um dia iria conseguir escrever e publicar os meus livros. Na época, eu ainda não me reconhecia como poeta, apenas como romancista. E naquela época, algum tempo depois, o primeiro texto de Face de quem perco surgiu. Você vai encontrar a versão mais recente dele no poema "Terra Morta", que está presente na versão final do livro. A primeira versão foi o texto mais antigo do livro, e é de 2016, então são dez anos de lá para cá. Decidi que deveria ser um livro – e que eu queria publicar esse livro – depois de muitos anos escrevendo textos soltos, e de perceber que esses textos poderiam se juntar em uma coletânea.
Na época, comecei a ler muitos poetas e a ter acesso a várias antologias; li livros solos de autores e percebi como eles faziam muito bem o seu trabalho, de um jeito que não é tão convencional a gente ler um livro de poesia hoje em dia, porque o romance acaba sendo o gênero mais vendido nas listas da revista Veja, por exemplo, junto com os de não ficção e os de espiritualidade, por algum motivo. Mas eu vi naquilo a chance que eu tinha de, talvez, começar alguma coisa, seja um projeto que fosse finalizado, seja um renome para a crítica e para o mercado literário. Encontrei na poesia uma porta de entrada, além de ser, também, uma porta de entrada dos outros para mim. Há muito de mim no eu lírico, e estes se confundem bastante entre si, em certos pontos.
Então, apenas quem me conhece muito vai saber quais partes são verdade e quais partes não são, porque é justa e ironicamente a liberdade poética que trata disso. Em 2021, Face de quem perco iria ser publicado por outra editora independente, a Escaleras, fundada por Débora Gil Pantaleão, que eu falei anteriormente. No mesmo ano foi aceito, e em março de 2022 a editora fecha as portas. Assim, eu me vi sem editora e sem perspectiva de publicar esse livro. Foi um desafio, porque com 17-18 anos eu precisava entender que o livro ainda não estava pronto. Eu achei que ele estava.
Tive que desenvolver maturidade de desenvoltura na escrita, porque o livro não tinha conceito nenhum antes; eram apenas textos soltos que tinham temas muitos similares ou tangentes entre si, mas que você não via uma conversa entre eles. A partir do momento que eu comecei a enviar para algumas editoras e eu não via resposta alguma, comecei a pensar: “Tem alguma coisa que eu preciso melhorar”. Aí eu ouvi de um editor que o texto ainda estava muito verde, e isso foi o “clique” que eu precisava. Percebi que o livro poderia ter um efeito mais coesivo, poderia ter uma condução ao longo dos textos. Foi apenas no ano seguinte, em 2023, que eu comecei a trabalhar melhor no livro, quando eu também trouxe o poema que dá título à obra, que é o Face de quem perco.

Criei esse poema em junho de 2023 e fui construindo isso. Lembro que eu via algumas resenhas e impressões online em periódicos e jornais, sobre o livro Na Casa dos Sonhos, de Carmem Maria Machado, e achei muito interessante o projeto gráfico, tanto nas edições originais quanto no Brasil: essa pessoa que está enjaulada dentro de uma casa, e essa casa é pequena demais para ela, ao mesmo tempo também que é a casa naquela figura, porque você não consegue mais dividir qual é ela e qual é a casa, qual é a narradora e qual é a casa. Quando vi aquelas ilustrações, fiquei muito intrigado. Então, foi um processo até eu descobrir que queria ser publicado, foi um processo também para eu conseguir ser publicado e para eu conseguir desenvolver esses textos de um jeito que eu pudesse me orgulhar deles quando saísse e caso alguma editora lesse.
EU SABIA, DESDE O COMEÇO, DESDE QUANDO O LIVRO VEIO PARA MIM COMO UM LIVRO, QUE EU PRECISARIA FAZER ALGO CÍCLICO, que mostrasse esse início, meio e fim, numa estrutura de três atos para os poemas e para a minha própria realização pessoal também: ver aquilo e conseguir compreender, delimitar a interpretação à minha maneira. Então, juntei a inspiração de Na Casa dos Sonhos, e decidi ficar com essa metáfora e aprofundar nela. Querendo ou não, a poesia, por mais difícil que sua linguagem seja, te traz mais vantagem quando você consegue trazer referências que aproximam o leitor, o crítico ou qualquer outra pessoa que for consumir o seu trabalho. Você tem muito mais chances de ser lido. Você tem muito mais chances de que haja uma conexão ali.

Então, a casa é algo universal – todo mundo sabe o que é uma casa, todo mundo sabe a sensação de se sentir em casa. E eu queria justamente trazer isso: o que é não se sentir em casa em algum momento, quando as luzes se apagam, quando você volta com aquela pessoa de uma festa e se pergunta quem é você quando a casa fecha os olhos, quem você é no escuro das pálpebras dela, que é algo relacionado ao livro. Como é não se sentir em casa ao mesmo tempo que você já está na casa? Como é você ter que reconstruir a casa mesmo já tendo construído tantas outras vezes? Como é ter que começar ou recomeçar?
Então, isso acabou batendo muito forte em mim pela questão da simplicidade com que isso pode ser conduzido. Sei que talvez eu tenha sido muito sofisticado, em algum ponto ou outro. Acho que é até por ser meu primeiro trabalho finalizado, de fato, mas essa questão da familiaridade, da identificação, foi o motivo principal para eu ter me atido a essa metáfora. Fico muito feliz também por ter me atido a ela, porque não teria funcionado de nenhum outro jeito.
EU JÁ TINHA COMEÇADO A ESCREVER OUTRA HISTÓRIA, OUTRO LIVRO, QUE ERA UM ROMANCE, EM 2015. Uma parte dele veio a ser finalizada em 2016, e aí anos depois é que eu reconheci como um romance finalizado propriamente. Eu achava que era apenas um prólogo da história, mas acabou sendo um romance inteiro. Naquela época, eu lembro que escutava bastante indie pop. Lembro de escutar The Sweeplings, que é um grupo dos Estados Unidos; "Fluerie" e "Ruel" são músicas de trilha sonora das séries adolescentes da época, só que sempre tinha um clima mais sombrio nas nelas. E também nas próprias histórias que eu lia como fantasia e alguns romances adultos que eu não deveria estar lendo, mas que eu lia.
Me inspirei bastante naquela época, na música e na literatura que eu consumia. E quanto ao meu gosto, o meu consumo cultural foi se aprimorando e se nivelando ao longo dos anos. A minha escrita também foi acompanhando esse ritmo, mas acho que o cerne sempre tem essa questão do amor, da desilusão, da juventude, da perda ou do ganho, dependendo da perspectiva. Sempre estou construindo uma casa diferente – só variam o ano e o projeto também, mas acaba sendo, sempre, uma construção. Creio que de 2015 para cá, que é quando eu tomei aquela primeira decisão de ser escritor, aprendi a me organizar melhor com relação aos conceitos de cada projeto, o que cabe e o que não cabe em cada um.
Também aprendi a saber quando um projeto não vai engrenar ou quando merece ser levado com mais a atenção, como ter elementos coesivos mesmo entre os textos do livro ou entre os personagens, dependendo do gênero. E na poesia, claro, aprendi muito sobre justamente criar esse contexto e esse conceito para o livro, para os textos, para que eles combinem entre si. Eu gosto de histórias, não só de poemas. Sou um ávido fã de romances e contos. Então, eu gosto de trazer essa questão para a minha escrita poética. Tanto que o meu segundo trabalho, que eu pretendo lançar ainda esse ano, também vai ter esse olhar, esse prisma.
EU ACHO QUE COM A POESIA ACABA SENDO MAIS DIFÍCIL DE DELIMITAR UM PÚBLICO-ALVO, porque, ao contrário da literatura mais comercial, diga-se de passagem, como romances jovens adultos – os YA (Young Adult) – e os romances policiais etc., costumam ter a classificação indicativa nas livrarias, pelas editoras, às vezes pelos próprios autores. A poesia acaba sendo algo tão abstrato no próprio conceito que a comercialização dela é contraditória. Você nunca sabe para qual público aquilo é exatamente, até que aquele público a sinta. Então, acredito que definitivamente não é uma música da Xuxa, mas também não é algo que apenas determinada classe ou determinado tipo de gente vai ler. Tem adolescentes interessados no meu livro, tem idosos interessados no meu livro que compraram, que adquiriram, gente que comprou para a mãe, gente que comprou para a tia. Acredito que, no final das contas, quem é amante de poesia de verdade, quem gosta de verdade do gênero e de se colocar à prova, colocar sob as lentes de uma reflexão mais profunda, consegue desfrutar desse trabalho sem precisar pensar muito. E se pensar, que pense em como ele foi bem executado, eu espero. O livro não é dedicado a alguém em particular, talvez apenas alguns poemas. "Três à mesa", por exemplo, é um poema bem específico, de algo muito específico que já aconteceu.

Alguns poemas como "Um mar ou uma poça, ou melhor, um laguinho", e "Abacaxi ao vinho", como eu falo na minha própria divulgação do livro, é uma narrativa que justamente trata do eu lírico se munir das próprias faltas dele, passadas e presentes, para continuar escrevendo. As musas dele são as perdas, e é por isso que o livro carrega esse título Face de quem perco: ele está ali, face a face com àquelas perdas diárias, passadas e presentes, para continuar se instigando a escrever, a fazer os versos. Essas pVerdas não são só do eu lírico, são perdas minhas também. Tenho dois poemas específicos que são dedicados a pessoas reais. Uma delas é Nalva, a outra é Lelê. Foram duas pessoas reais na minha vida, as duas já falecidas. Tem outros que são para amizades e para relacionamentos que poderiam ter acontecido e nunca aconteceram porque estavam só na minha cabeça mesmo. Algumas pessoas que eu gostei por bastante tempo, com quem eu convivi por bastante tempo. Tem um poema chamado "Cinco anos", que fala exatamente sobre uma dessas pessoas, e que era a mesma pessoa de "Três à mesa", então, quando você ler, pode associar que será a mesma pessoa.
No universo criado por Face de quem perco, é só um ser amado a quem o eu lírico se refere, mas sempre escrevi pensando em várias pessoas. Às vezes nem mesmo em alguma em específico, só por escrever; para ter aquele sentimento canalizado, aquela reflexão escrita e finalizada no papel. Eu diria que é justamente igual ao eu lírico: uma miríade, uma junção de vários fatores, contextos, ambientes e pontos finais que já houve.
QUANDO EU FIQUEI SEM A EDITORA ESCALERAS, foi quase um ano de hiato na escrita, apenas fazendo alguns textos soltos que não entraram no livro propriamente. No entanto, durante esse período passei pelo processo de saída do Ensino Médio para ingressar na UFPE, o que acabou sendo, também, um luto que eu estava vivenciando em paralelo com os lutos que descrevo no próprio livro. Nesse contexto todo, conheci a Mondru, que é uma editora independente de Goiânia. Eles foram inaugurados em 2020, durante a pandemia. Ela já tinha certo burburinho, com alguns autores finalistas e semifinalistas de Jabuti, alguns prêmios assim. E eu gostei. Como ilustrador e como designer, a primeira coisa de que gostei, não vou negar, foi o projeto gráfico deles. Cada projeto é personalizado e traz muito dos trabalhos dos próprios profissionais envolvidos. No caso, o principal é Jefferson Barbosa, que é o editor e designer-chefe. Me interessei bastante pelo projeto gráfico deles.
Entrei em contato na época só para saber como funcionava o processo de avaliação. Depois continuei acompanhando as publicações, assim, esporadicamente, até que em 2024, quando eu já tinha o título novo do livro – o título antigo era Saudade Qualquer – tive a primeira versão finalizada e fiz algumas conexões para ter leitores de teste, para que me falassem o que eu precisava melhorar, o que deveria ser retirado ou não, o que já estava bom e não precisava ser mexido; enviei, após alguns meses nesse processo de ajustar os textos, para a Mondru em outubro de 2024. E aí, em meados de janeiro, a Mondru me respondeu já com a proposta de publicação. Não foi um bicho de sete cabeças.

O processo deles, na época, foi bem transparente. Editoras independentes, na verdade, são bem mais acessíveis do que as tradicionais, porque, ao contrário das tradicionais, os autores não precisam de intermédio de agentes literários para falar com elas. Elas geralmente têm um contato direto com os autores e com os leitores, então foi algo bem fácil pra mim nessa época. Foi gratificante também ver, tanto por parte da minha editora assistente quanto por parte do editor-chefe, a satisfação deles em estarem trabalhando no meu texto. Também foi um pouco cansativo, devido à demora em algumas etapas. Depois, passei pelas avaliações das leituras iniciais. Pela editora, tive leitura crítica, revisão, diagramação e teve toda a questão do projeto gráfico, sobre o qual eu também pude dar um aval.
Eles me passaram algumas perguntas sobre o que eu imaginava, sobre poemas que eu queria que fossem ilustrados para o miolo do livro. Então, todas essas questões foram acatadas desde a paleta de cores até a tipografia para a capa. A ideia da capa surgiu relacionada a um poema, que é o último poema da primeira parte, o "Sístole". Nele, o eu lírico fala como se estivesse falando das paredes do coração do par romântico dele. Então, aqui é como se fosse dentro de um coração: na contracapa interna são as veias e as artérias; e na própria ilustração do "Sístole", eles trouxeram essa ideia.
Eu falo que a pessoa está pintando uma réplica do ser amado no próprio coração. Ela está dentro do coração pintando, fazendo uma réplica fidedigna. Esse coração que é um ofertório vibrante, escuro e podre, então creio que eles se aproveitaram dessa descrição para justamente fazer essa nuance de cores. Eu também trago como palavras “fogo”, “face pálida”, “sensualidade do fruto da derme ao âmago”, “alma desbotada”, “doença”, “altar”, “choro”. O projeto gráfico traz muito dessa questão do coração, do cenário criado a partir da leitura desse poema. Esse conjunto de visualidades reflete o eu lírico fragmentado, confuso, com muitas emoções ao mesmo tempo. Acho que eles souberam traduzir muito bem toda a linguagem do livro; me sinto, de fato, muito lisonjeado por terem feito esse tipo de trabalho para a minha estreia.
Fico muito honrado em ter sido escolhido por eles, que investiram muito tempo, energia e trabalho no meu livro. Isso só reforça o que eu falo nos agradecimentos do livro: tanto na área da escrita como na do Design, não se faz um trabalho desse sozinho. Mesmo quando você está escrevendo algo, você está trazendo consigo o repertório que você tem. Por mais que o trabalho da escrita seja muitas vezes solitário – já que temos que estar a sós com os nossos próprios pensamentos, teorias e reflexões –, a gente nunca está realmente sozinho.

RENATA [DeCastro, já citada] FOI PUBLICADA PELA ESCALERAS, ENTÃO A GENTE SE CONHECEU POR CAUSA DISSO. Nossos temas, se entrelaçam na questão do amor, do erotismo e do sexo. Da emancipação, enquanto a dela é feminina, a minha talvez seja a do pensamento homoafetivo no geral, porque apesar de eu escrever sobre diversos outros gêneros, nesse trabalho eu foco justamente em uma relação homoafetiva. É importante eu trazer esse paralelo entre a minha escrita e a dela, para dizer que não somos os mesmos, mas a gente se encosta, e quando a gente se encosta, é muito bom ver essa similaridade.
Eu me inspiro nela também e ela sabe que é uma grande inspiração para mim. Acho a escrita dela muito especial, muito única, até porque ela é professora de língua portuguesa, pelo o que eu lembre. Ela é formada em Letras, então estuda bastante os conceitos de poesia, métrica, históricos etc. Eu acompanho um pouco desse processo e é, num geral, muito lindo ter uma parceria como essa no mundo da escrita. O que só reforça o que eu já falei, que não dá pra fazer nenhum trabalho ou projeto sozinho, mesmo que às vezes a gente esteja lá solitário.
EU JÁ LI EDGAR ALLAN POE, ALGUNS POEMAS SOLTOS E UNS TRECHOS DE CONTOS. Gosto muito de “Annabel Lee”, por exemplo. É um texto muito especial para mim porque me lembra muito a minha adolescência e eu meio que “gravitaciono” ao redor da escrita dele (Edgar Allan Poe) por temas que também são bem comuns como a sombriedade, essa tenebrosidade, o macabro, o gótico; gosto bastante da escrita dele, do visual gótico. São coisas que me influenciam mesmo que eu não tenha tanto contato com a escrita dele, mas é um escritor que conheço e consumo indiretamente desde os meus muito cedo. É alguém muito querido para mim.

Sobre a transpiração e a inspiração, eu acredito que seja uma mistura dos dois, porque já existiram várias vertentes da poesia por movimentos de contracultura e movimentos históricos específicos. Hoje em dia, o que a gente mais vê é a poesia livre. A poesia de versos livres, que não tem rima, não tem estrutura apropriada para uma poesia tradicional, mas que a gente reconhece como poesia devido à linguagem também. Mas sempre que a gente escreve, independentemente do gênero de escrita, acho importante a gente se ater ao fato de que estudo é necessário – inclusive quanto à estrutura, por mais desorganizado que o texto possa parecer. Para quem não conhece, às vezes ele vai ter, sim, uma estrutura que fica invisível ali nas entrelinhas. Então, meu processo de escrita mesmo costuma ser muito solto, mas posteriormente sempre tem uma revisão; sempre tem a questão da métrica, que precisa estar envolvida, dependendo da complexidade do poema. Se eu quero que o meu leitor passe por aquele texto com muita celeridade, com muita rapidez, com muito ânimo; o verso tem que ser curto, ou então com sílabas que acabem se juntando umas nas outras. O cuidado com a linguagem, nesse caso, é crucial, imprescindível.
Se você quer fazer com que o seu leitor se arraste pelo segundo de uma vida, pelo poema e pelo verso, e que ele sinta a angústia que você está sentindo enquanto escreve aquilo, você tem que usar palavras mais longas, sílabas mais pontudas, por assim dizer; versos mais brutos. Então, sim, existe a inspiração, mas é uma inspiração transpirada. Depois é algo que, se não vier no processo inicial, nas primeiras ideias, vai vir depois uma edição, quando você lembrar daquele texto e quiser mudar. Quando você vir que aquele texto precisa de uma rima e aí você só precisa descobrir qual é a estrutura dele, quando vai rimar e quando não vai, ou, então, como cortar isso ou aquilo e como deixar mais curto porque o efeito que eu quero causar é outro. No final das contas, ele, Edgar Allan Poe, sempre esteve certo.

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