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Entrevista com Dan Cavalcante – egresso do Design, profissional da área de Moda: "Linguagem cifrada do corpo no tempo"

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Por Marcelo Martins e Miguel Santos

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur


PALAVRAS INICIAIS


JANIELSON CAVALCANTE DE ALMEIDA ou o popularmente conhecido “Dan Cavalcante”, hoje trabalha no desenvolvimento de sua marca autoral com o estilo de roupas activewear. Ele diz valorizar a liberdade criativa e busca inspirações em lugares até bastante díspares. Para o criador, o “processo criativo é [como] navegar em arquipélagos invisíveis”. É grato pelo que a Universidade lhe aportou, mas entende que é preciso que o profissional seja autodidata também, se deseja de fato crescer no mercado de trabalho. A busca do conhecimento deve ser constante, sempre (re-)atualizando, porque é ele que conduz uma prática significativa na produção de uma peça, que é um discurso, uma “revolução” na composição vestimentar do indivíduo. A Marcelo Martins e Miguel Santos coube o exercício de dar voz a Dan, em 1ª. pessoa, às questões previamente estabelecidas.


COM A PALAVRA, DAN CAVALCANTE


Feira do CAA, em 2019, quando Dan começou sua marca autoral.
Feira do CAA, em 2019, quando Dan começou sua marca autoral.

SOU NATURAL DE CHÃ GRANDE, Pernambuco. Quando eu era adolescente, minha família se mudou para Santa Cruz do Capibaribe, que, sabemos, é uma cidade que concentra um dos maiores polos de confecção do Brasil. Foi nessa cidade que fiz o meu primeiro curso na área de Criação, a partir do qual, então, decidi que cursaria Design. Estou formado há três anos.


ANTES DE INICIAR O DESIGN NO CAA, já tinha feito mais de um curso profissionalizante, além de ter finalizado um curso técnico de Produção de Vestuário.



Processo criativo: busca de representante de elástico para a criação de produto personalizado. Santa Cruz do Capibaribe, 2026.
Processo criativo: busca de representante de elástico para a criação de produto personalizado. Santa Cruz do Capibaribe, 2026.

COMO EU DISSE, MESMO ANTES DE INGRESSAR NA UNIVERSIDADE FEDERAL, eu já atuava na área. Passei por diversas frentes, desempenhando funções variadas como styling, direção criativa, desenvolvimento de campanhas e de coleções. Durante toda essa trajetória, sempre tive muita convicção e pulso firme para guiar os projetos de acordo com a minha visão, sempre direcionado àquilo que eu considerava o caminho mais assertivo. Essa clareza sobre o meu trabalho me conduziu, de forma muito natural, ao meu momento atual: o início da minha própria marca de moda activewear. Hoje, vivo a verdadeira “carta branca”! Ter autonomia total para construir um negócio do zero traz desafios imensos, pois estou na fase de estruturar todos os alicerces. No entanto, é exatamente esse cenário que me permite direcionar toda a minha energia para criar algo que seja 100% fiel ao meu perfil, assumindo a responsabilidade e a liberdade de guiar a minha própria trajetória.



No CAA, em 2019, vestido para a apresentação de um trabalho sobre desenvolvimento de coleção. Tema: carranca; peça desenvolvida: moletom, com pintura manual.
No CAA, em 2019, vestido para a apresentação de um trabalho sobre desenvolvimento de coleção. Tema: carranca; peça desenvolvida: moletom, com pintura manual.

A VELOCIDADE DA INTERNET ACELERA BRUTALMENTE A SATURAÇÃO DAS IDEIAS, o que torna o desafio de criar algo original ainda maior – e mais fascinante – agora que estou estruturando os alicerces do meu próprio negócio. Para fugir do óbvio, acredito que quem detém maior repertório leva vantagem na hora de inovar. É por isso que minhas inspirações raramente vêm apenas da moda: mergulho intensamente em cinema, música, jogos online e no estudo do comportamento das massas. Como estou no início de uma jornada empreendedora, onde tenho a liberdade e a responsabilidade de guiar todas as frentes, compreender o que move as pessoas se torna uma ferramenta estratégica. Essa análise multidisciplinar me permite combinar referências inusitadas, antever cenários e direcionar a construção da minha marca para um caminho que soe genuinamente novo e alinhado com a minha essência.



Dan marcando presença no Desfile da Santana, no Festival do Jeans de Toritama, em abril e 2026.
Dan marcando presença no Desfile da Santana, no Festival do Jeans de Toritama, em abril e 2026.

APÓS MINHA FORMAÇÃO E, PRINCIPALMENTE AGORA, vivenciando o desafio de construir minha própria marca do zero, entendo bem e com muita clareza que a ausência de formação acadêmica não é um impedimento absoluto para o surgimento de talentos autodidatas; o mercado é dinâmico e muitas vezes absorve visões frescas e desinibidas. Contudo, observo também que a falta de uma base sólida frequentemente leva a trabalhos rasos, precarização ou cópias sem contexto.


A ACADEMIA, DO MEU PONTO DE VISTA, não é estritamente imprescindível para começar, mas é indiscutivelmente transformadora para quem deseja consistência. No meu caso, ela forneceu a estrutura conceitual, metodológica e crítica que hoje me dá segurança para tomar as decisões estratégicas da minha marca.


O GRANDE DIFERENCIAL, POR FIM, ESTÁ NO AUTODESENVOLVIMENTO CONTÍNUO. A vivência prática de empreender – transformando erros em insights e desbravando além do óbvio – é o que dita o ritmo hoje. No fim, o que define um bom criador não é apenas o diploma, mas a sua capacidade de síntese (unir repertório e contexto), sua integridade intelectual e a vontade genuína de evoluir.



Dan, na sua colação de grau, em 2023, ao lado de seu padrinho de formatura e amigo, professor Marcelo Martins.
Dan, na sua colação de grau, em 2023, ao lado de seu padrinho de formatura e amigo, professor Marcelo Martins.

MINHA TRAJETÓRIA ACADÊMICA FOI CONSTRUÍDA COM MUITO PROPÓSITO. Fui estratégico: selecionei disciplinas não apenas pela grade obrigatória, mas para alicerçar minha visão criativa, buscando o repertório e as ferramentas que eu sabia que precisaria. Por ter tido esse cuidado, considero minha base teórica muito sólida. O que senti “na pele” no mercado – e sinto com ainda mais intensidade hoje, ao estruturar a minha própria marca do zero – é a distância entre o projeto acadêmico e a realidade de viabilizar um negócio. A academia me preparou para criar com profundidade e embasamento, o que é fundamental. No entanto, a “prática” de sustentar essa criação, enfrentar as incertezas de desbravar o mercado e dar vida a uma marca real são lacunas que apenas a vivência preenche. Não vejo isso como um erro da formação, mas como o passo prático que eu precisava dar para assumir o controle da minha trajetória.



No CAA, registro orgulhoso de um Dia do Orgulho (s/d.)
No CAA, registro orgulhoso de um Dia do Orgulho (s/d.)

DEFINO-ME COMO UM PROFISSIONAL DE INTEGRIDADE INQUEBRANTÁVEL e clareza objetiva. Minhas convicções são pilares, não preferências – quando acredito em um conceito ou direção estratégica, assumo uma posição firme e sustentada por pesquisa profunda e experiência prática. Essa postura raramente me faz recuar, pois cada decisão é um reflexo do meu compromisso com a excelência. Não se trata de teimosia, mas de uma confiança estruturada: estudo, experimento e internalizo cada etapa do processo. Hoje, à frente da criação da minha própria marca, essa característica é o meu maior ativo. Essa firmeza deixou de ser apenas a defesa de um projeto para se tornar o próprio código de ética e o DNA da empresa que estou construindo, garantindo que tudo o que eu entregue ao mercado tenha valor e propósito reais.



Andando pelo CAA, com uma máscara produzida para a disciplina Estética e Plástica, do professor Mário de Faria, em 2019.
Andando pelo CAA, com uma máscara produzida para a disciplina Estética e Plástica, do professor Mário de Faria, em 2019.

DO MEU PONTO DE VISTA, PROCESSO CRIATIVO É navegar em arquipélagos invisíveis. Imergir em conceitos até que eles revelem fissuras de luz – aquilo que escapa ao olhar comum. É coletar achados em fontes improváveis (um verso esquecido, a textura de um muro rachado, o ritmo de uma conversa de bar) e tecê-los em experimentações radicais. Não é “ter ideias”, mas permitir que as ideias o atravessem e o levem a territórios incômodos, onde o óbvio se desfaz. É risco calculado: mergulho profundo com bússola crítica.


MODA, PARA MIM, É “LINGUAGEM CIFRADA DO CORPO NO TEMPO”, mas também é consumo (não apenas de produtos, e sim de signos, desejos, identidades); é comportamento (a roupa como ato político, mapa social, armadura ou bandeira). E hoje, materializando minha própria marca, percebo que essa “armadura” ganha um sentido prático e literal: é o design e a engenharia a serviço do corpo em movimento. Moda também é revolução (porque redesenha normas, perturba hierarquias e faz o mundo coçar onde não deveria). Em essência, é o ponto de tensão entre quem você é e quem o mundo espera que você vista – e é explorando exatamente esse gap, onde mora o genial, que encontro o propósito e o diferencial do negócio que estou construindo.


Aulas de teatro no TEA (Caruaru), em 2025, buscando elementos de inspiração.
Aulas de teatro no TEA (Caruaru), em 2025, buscando elementos de inspiração.
Ida à feira: CEACA (Caruaru), em 2025, buscando inspiração em cores e outros elementos visuais de frutas. 
Ida à feira: CEACA (Caruaru), em 2025, buscando inspiração em cores e outros elementos visuais de frutas. 













VEJO O CENÁRIO ATUAL COM UMA LENTE PREDOMINANTEMENTE APOCALÍPTICA, dominada por ciclos de consumo que alimentam uma verdadeira bomba-relógio. A lógica perversa do fast fashion gera volumes absurdos de roupas descartáveis e sem identidade. No Brasil, enfrentamos ainda o agravante do “complexo de vira-lata”, que faz o consumidor financiar cópias estrangeiras mal executadas enquanto ignora o potencial dos designers locais. Precisamos urgentemente resgatar o orgulho da produção nacional e o consumo crítico. É exatamente por não aceitar ver nosso potencial enterrado no lixo do imediatismo que decidi empreender. A criação da minha marca de moda fitness nasce desse inconformismo. É a materialização da minha exigência por qualidade: entregar um produto com engenharia, durabilidade e design autoral, mostrando na prática que a moda brasileira tem força para combater a cultura do vazio e do descartável.



AOS INGRESSANTES NO DESIGN DO CAA, eu diria o seguinte: Sempre que surgirem dúvidas, questionem seus professores – sem medo. Essa não é uma atitude de desafio, mas de busca por clareza e profundidade. A sala de aula é um laboratório de ideias, e cada pergunta é um experimento que pode desmontar certezas prontas ou, no mínimo, fazer com que reflitamos sobre o assunto de outra perspectiva.




Paralelamente, consumam conteúdos de forma voraz e sem fronteiras. Leiam tratados técnicos, mas também mergulhem em documentários sobre culturas distantes. Analisem coleções de Haute Couture, mas também observem a gramática visual das ruas. Estudem algoritmos de tendências, mas escutem as narrativas dos artesãos. Cada livro, filme, texto ou conversa é um tijolo invisível no alicerce do seu repertório. Por fim, lembrem-se: conhecimento não se limita a disciplinas formais – nunca! A moda dialoga com sociologia, semiótica, psicologia, antropologia, ecologia, gaming etc., e até com o ritmo das periferias. Seu diferencial como criador ou criadora virá dessa capacidade de conectar pontos aparentemente desconexos – como transformar a textura de um muro rachado em um padrão têxtil, ou traduzir o caos de um funk carioca em uma silhueta revolucionária.



DAN (em outras imagens)



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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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