top of page

O agente Secreto: um filme profundo em tempos de leitura rasa

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Por: Rita Valença de Castro

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins

O Agente Secreto, 2025
O Agente Secreto, 2025

Apesar de uma trajetória consagrada, com mais de 60 prêmios internacionais, incluindo Cannes e Globo de Ouro, O Agente Secreto chegou ao Oscar 2026 com indicações importantes, como Melhor Filme e Melhor Ator. Ainda assim, não levou a estatueta.


O que talvez revele menos sobre o filme e mais sobre a limitação de quem o julgou — já que há obras que não se oferecem à leitura superficial. Trata-se de um filme que exige travessia: cada camada precisa ser lida com atenção, repertório e disposição para compreender o que não se entrega de imediato.


Do meu ponto de vista, vivenciamos uma repetição de procedimentos na premiação: em 2025, o reconhecimento também escapou de uma obra brasileira densa e necessária como Ainda Estou Aqui, que traz à tona a memória real da repressão militar no Brasil. Em seu lugar, premiou-se Anora — um filme que, para muitos, se acomoda com facilidade na lógica do entretenimento leve, quase uma “sessão da tarde”.


No fim, talvez, não seja o cinema brasileiro insuficiente, mas a superficialidade da própria Academia.


O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça e protagonizado por Wagner Moura, é um filme extraordinário, profundamente inteligente, simbólico e politicamente contundente. Nada ali está posto por acaso. Tudo é linguagem, tudo é mensagem.


A obra apresenta, de forma lúdica e crítica, aspectos duríssimos da história brasileira — especialmente os efeitos da ditadura militar de 1964 sobre a educação, as instituições e a própria formação do povo. É um filme que abarca, com consistência, conhecimentos de história (do Brasil), de sociologia e de filosofia.


Não foi à toa a escolha do personagem principal: um professor e pesquisador universitário (pernambucano). Ele representa o professor brasileiro — sobretudo o da escola e universidade públicas — comprometido com o pensamento, com a pesquisa e com a produção do conhecimento científico.


E é justamente por isso que é perseguido. Porque regimes autoritários temem quem pensa.


O filme também mobiliza o imaginário popular — como a Perna Cabeluda — mostrando que o medo, o mito e a memória coletiva são formas de linguagem, além de funcionar como uma representação simbólica do repressivo daquele período. O tubarão é outro símbolo central; ele não representa apenas o animal que rondava as praias do Recife já naquela década, mas uma força oculta, silenciosa e feroz —metáfora da repressão ditatorial militar, da violência institucional, da polícia corrupta que fazia corpos desaparecerem e apagava identidades.


O filme também escancara a corrupção e a atuação das forças policiais dentro dessa lógica autoritária, revelando algo ainda mais grave: a ausência de formação humanística e de compromisso com direitos humanos. E isso tudo é mostrado com uma precisão impressionante.


Eu, como delegada especial de Polícia Civil, hoje aposentada, reconheço ali muitos traços extremamente fiéis à realidade da época — nas estruturas, nas condutas, nos ambientes e nas mentalidades que são reveladas na intensidade de atuação dos personagens.


Essa representação não é caricata. Ela incomoda — porque é verdadeira.

Dentre as várias cenas e sequências marcantes, há a de um político vindo de Brasília que desmonta uma equipe de pesquisa dentro da universidade. Nela, revela-se um projeto, não apenas de repressão, mas da destruição do pensamento crítico e enfraquecimento das instituições nacionais. E mais: um processo que dialoga com interesses maiores, inclusive internacionais, comprometendo a própria soberania do país.


Em outro momento, ganha destaque cena extremamente simbólica: o jornal, com a matéria sobre os mortos do Carnaval, que é colocado sobre o corpo de uma personagem executora. Nela, o filme explicita que a violência não é unilateral — ela circula, retorna e atinge a todos, mesmo em momentos de festejos coletivos. Em seu movimento circular, não escolhe destino: pode recair sobre qualquer um, instaurando um cotidiano atravessado pela vigilância, pela desconfiança e pelo medo. A pessoa que defende a violência muitas vezes não imagina que a violência, numa situação de semelhança, pode acontecer com ela.


Há ainda um elemento central que atravessa o filme: a memória. O filho do protagonista, já adulto, não compreende plenamente o que viveu — porque lhe foi negado o direito de saber. Seus pais foram mortos. Seus avós silenciaram. E assim se constrói um sujeito sem memória — um povo sem memória é um povo mais vulnerável à repetição da violência.


Nas artimanhas do enredo, dissemina-se uma camada profundamente sensível e socialmente reveladora. Ela se constrói discursivamente quando o professor investiga sua própria origem a partir da história de sua mãe, empregada doméstica na casa da família paterna. Essa relação expõe uma dinâmica histórica marcada pela desigualdade, em que a mulher trabalhadora, muitas vezes invisibilizada, tem sua maternidade perfurada e interrompida por relações de poder. O filho lhe é retirado, rompendo vínculos afetivos, evidenciando uma violência que não é apenas individual, mas estrutural.


Em outro momento, o filme apresenta uma cena emblemática: a patroa — mulher rica — que, por negligência, permite que a filha da empregada atravesse o portão, culminando na morte da criança. Mais grave ainda é o tratamento deferente que recebe das autoridades durante o inquérito, revelando como o poder público operava na proteção das classes mais favorecidas, em detrimento dos pobres e trabalhadores. Esse fragmento da história retoma em referência a acontecimentos funestos de um Recife bem atual, mostrando mais um dos aspectos do engajamento  político e social promovido pelo filme. Essa cena é extremamente impactante porque escancara como vidas eram tratadas de forma desigual dentro de uma mesma estrutura social.


O filme também valoriza o papel do jornalismo investigativo — e feminino —na busca pela verdade, representado por duas jovens jornalistas que investigam os fatos por meio de antigas fitas cassete. Nesse sentido, a cena que apresenta o Instituto do Sangue no local onde antes funcionava um cinema reforça a ideia de transformação da cidade — evidenciando como os espaços se modificam e, com eles, são apagadas histórias, memórias e significados.

Comentários


MIX.png

A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Twitter Ícone
  • Branco Facebook Ícone
bottom of page