Entrevista com Augusto Ribas - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Entre a transpiração e a inspiração"
- Revista Spia

- há 1 dia
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Por Marcelo Martins e Miguel Santos
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur
PALAVRAS INICIAIS
“UM BONITENSE OU, COMO DIZIAM ALGUNS, UM BONITO DE BONITO”: José Augusto Ribas fez parte daquela grande leva de universitários brasileiros que conseguiram uma bolsa para desenvolver parte de seus estudos no exterior, por meio do saudoso programa do governo federal intitulado Ciência sem Fronteiras (CsF). Levou para a América do Norte nosso jeitinho de estudar e trabalhar, e trouxe o deles para a sua prática e para o término da sua formação no Design do CAA. Uma mente criativa, hoje atua em São Paulo, completamente interconectado com feiras, cursos, internet, mercado, e muitas pessoas – tanto para desopilar do estresse do mundo do trabalho e de sobrevida da maior capital do país como também, ao mesmo tempo, para buscar referências ao que vai desenvolver como projeto, inclusive porque precisa de argumentos e referências consistentes para coordenar sua equipe. Augusto Ribas, com muita presteza e com sua habitual simpatia e sorriso, atendeu ao pedido de Miguel Santos e Marcelo Martins, que reorganizaram a experiência de suas respostas no texto em 1ª. pessoa que segue.

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COM A PALAVRA, AUGUSTO RIBAS
SOU NATURAL DE BONITO, PERNAMBUCO. Antes de chegar ao curso de Design do CAA, me formei em Sistemas de Informação e atuei por um ano na área, mas percebi que não era o que eu queria para minha vida. O Design sempre foi minha primeira opção, ainda quando o curso funcionava no Polo Comercial de Caruaru, mas acabei optando por TI inicialmente, influenciado pela visão dos meus pais e pela falta de conhecimento geral sobre a profissão. Esse meu primeiro desejo, porém, nunca foi embora, e em 2012 fiz vestibular e ingressei na UFPE. Concluí a graduação em Design em agosto de 2017.
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DURANTE A GRADUAÇÃO, fiz um curso de Desenvolvimento de Coleções pelo Senai, em Caruaru, que me aportou uma base prática importante para minha atuação profissional. Paralelamente, fiz diversos cursos online focados em ferramentas específicas, como o pacote Adobe, e também em costura e modelagem básica.

MAS O GRANDE “DIVISOR DE ÁGUAS” NA MINHA FORMAÇÃO E NA PROJEÇÃO DE MINHA ATUAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO foi mesmo o intercâmbio que fiz numa universidade dos Estados Unidos, pelo programa Ciência sem Fronteiras. Por meio desse projeto de governo, tive a oportunidade de cursar várias disciplinas no programa de Design do Vestuário da Universidade de Wisconsin. Essa experiência ampliou minha visão global do Design de Moda e me trouxe um entendimento mais profundo do varejo. Lá, participei de desfiles estudantis, como o Silhouettes Fashion Show, onde os alunos mostravam seus trabalhos para a comunidade local, colocando em prática algumas das habilidades que desenvolvemos ao longo do curso.
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COMECEI MINHA CARREIRA COMO ASSISTENTE DE ESTILO em uma empresa que produzia uniformes de alto padrão, onde depois assumi o cargo de Estilista. Participei de projetos importantes para grandes marcas, mas o início foi desafiador: baixos salários, mão de obra explorada e um ritmo de trabalho que me levou a desenvolver ansiedade. Após alguns anos, decidi sair da empresa e enfrentei dificuldades para me recolocar, já que o mercado exigia especialização em segmentos específicos (masculino ou feminino, tecido plano ou malharia etc.). Trabalhando com uniformes, eu havia feito de tudo um pouco, mas isso não era visto como suficiente.

POR CANSAÇO E FRUSTRAÇÃO, acabei migrando para o Design Gráfico e Social Media de moda em uma marca no Bom Retiro, atuando dentro do departamento de marketing. Era algo que eu fazia paralelamente como freelancer e decidi investir. Essa experiência me permitiu ampliar habilidades, criar uma rede de contatos e, posteriormente a isso, fui convidado para atuar em outras empresas. Foi assim que evoluí para Designer Especialista em Branding e Storytelling e, mais tarde, para Coordenador de Design, liderando estratégias criativas que unem design, comunicação e propósito.
HOJE, TENHO CERTA AUTONOMIA PARA DESENVOLVER PROJETOS CRIATIVOS E ESTRATÉGICOS, mas sempre atento aos movimentos do mercado e às diretrizes da empresa, garantindo que cada entrega esteja alinhada aos objetivos e ao posicionamento da marca. Atualmente, aceitei um novo desafio para atuar no mercado de luxo de joias, um segmento diferente do das roupas, mas que segue um fluxo de tendências semelhante.
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MEU TRABALHO EXIGE QUE EU ESTEJA CONSTANTEMENTE ANTENADO às tendências, aos movimentos de consumo tanto massivo quanto os de luxo e às mudanças culturais em geral. Para isso, utilizo com frequência plataformas como WGSN, Pinterest e Behance, além de acompanhar de perto as redes sociais, que funcionam como um termômetro imediato de comportamento. Não é exatamente uma escolha: o ritmo pode ser intenso, por vezes cansativo, e até gerar ansiedade. Para equilibrar, crio espaços de inspiração em outras áreas, como nas artes e na espiritualidade. Já fiz cursos de escultura, pintura e desenho, que me ajudam a ampliar o olhar criativo e a manter uma relação mais saudável com o processo de criação.

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DO MEU PONTO DE VISTA, DESIGN NÃO É ARTE; É CIÊNCIA. É criar com método, embasamento e estratégia de mercado. Por isso, acredito que o treinamento acadêmico é imprescindível para um desenvolvimento sólido no mercado de trabalho. Dito isso, e ao contrário disso, posso dizer que a realidade é um pouco diferente: ao longo da minha trajetória, já deparei com pessoas em posições importantes sem qualquer preparo formal, mas que estavam ali por relações familiares, poder aquisitivo, capital social ou simplesmente por terem bom gosto para consumir moda. Isso é algo que acontece, e o mercado, muitas vezes, reforça essas distorções.
NO MEU CASO, VINDO DE UMA REALIDADE SIMPLES e chegando a São Paulo, que é uma verdadeira selva de pedra, a minha formação foi minha armadura. Foi ela que me deu as ferramentas para enfrentar as dificuldades e, com o tempo, me estabelecer. Ter concluído a graduação na UFPE trouxe respeito ao meu currículo e abriu portas que talvez não se abrissem de outra forma.

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A UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO é, da minha perspectiva, uma verdadeira fortaleza quando trata de formar um pensamento crítico, estratégico e de entendimento mais amplo sobre o mundo da moda. Esse foi um diferencial importante na minha trajetória. Por outro lado, quando se fala em vivência prática de mercado, seja no varejo ou no atacado, muitas lacunas ficaram evidentes na própria formação. Aspectos mais técnicos, como o domínio de ferramentas e a execução prática do trabalho, eu só consegui preencher de fato com a experiência do dia a dia. Durante a formação, o estudante precisa ter o bom senso de buscar esse aprendizado de forma paralela, porque o que a universidade entrega nesse sentido ainda é bastante básico e introdutório, não sendo suficiente para as exigências do mercado. Então, o estudante precisa ser sempre lembrado disso e estimulado a procurar complementar a sua formação ainda durante o curso.

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DEFINIR-ME COMO PROFISSIONAL É SEMPRE uma pergunta difícil de responder... Acredito que a palavra que mais me define é “obstinação”. Durante a graduação, me dediquei ao máximo para ser um bom aluno e absorver todo o conhecimento possível. Quando cheguei a São Paulo, trazia apenas um sonho de ser um adulto independente, e minha bagagem mais preciosa era, sem dúvida, o conhecimento que carregava.
COMO PROFISSIONAL, me defino como alguém interessado, resiliente, direto, mas gentil, com um senso forte de autopreservação e de liberdade. Minimalista, moderno e, hoje, Especialista em Marketing de Moda, Branding e Storytelling. Já atuei em diversas frentes: estilista, designer gráfico, produção de moda e marketing, dentre outras. Essa experiência me deu um olhar 360º sobre os negócios, algo que valorizo muito e que enriquece minha presença em cada empresa por onde passo.
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PARA MIM, A MODA ESTÁ EM TODO LUGAR. Ela acompanha, quase de forma irritante, nosso modo de consumir e, inclusive, de pensar. Mesmo após anos no mercado, ainda me impressiona ver como o resultado do trabalho de um time criativo é capaz de instigar desejo e necessidade no coração das pessoas. Odeio admitir, mas a moda é cruel: ela serve a um grande deus chamado capitalismo. Tem beleza, dor, arte e suor. Sustenta e destrói.
JÁ O PROCESSO CRIATIVO, para mim, está justamente em captar e estudar todas essas nuances, traduzindo-as em narrativas e produtos que alimentem esse desejo. Ou, se você é um desses gênios visionários, ele, o processo criativo, faz parte dos ingredientes que acompanham a coragem de criar algo totalmente fora da curva.
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NUM PRIMEIRO MOMENTO, EU COMPREENDO O MUNDO DA MODA DIVIDIDO EM DUAS TRIBOS. De um lado, os apocalípticos: grandes varejistas, como a Shein, que representam o consumo em massa e acelerado. De outro, uma moda mais integrada, que busca um consumo consciente e se afirma como expressão artística, de identidade, de cultura e de gênero.
ESSAS DUAS VISÕES COEXISTEM E SE MANIFESTAM DE FORMAS DIFERENTES, mas ambas fazem parte da moda como expressão humana: seja no desejo de status, seja na necessidade simples de se proteger do frio ou do calor, sempre atravessada pelas questões morais que a moda inevitavelmente carrega – até porque ela integra um universo de complexidades que condicionam e ao mesmo tempo estruturam seu sistema.
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EU GOSTARIA DE TER TIDO, DURANTE A GRADUAÇÃO, uma visão mais realista sobre a atuação no mercado e sobre processos. As disciplinas teóricas são extremamente importantes, mas é fundamental que o estudante escolha um segmento de atuação (seja produto, moda ou gráfico), e se aprofunde tecnicamente em como desenvolver um produto.

NO FIM DO DIA, O DESIGNER É UM PROFISSIONAL que cria e desenvolve soluções, olhando para um nicho de mercado, mas também preservando a identidade e a essência da marca. Já vi muitos ex-colegas saírem da universidade sem conseguir performar no mercado justamente por terem focado apenas nas disciplinas teóricas, porque eram as que mais gostavam de estudar. Essa liberdade de escolha, se não for equilibrada, pode se tornar um risco. Mas é importante lembrar que cada pessoa tem um processo e uma vivência única. Apesar de parecer clichê, se a pessoa se mantém interessada, faz bem o que gosta e é consistente, as coisas acontecem sim. O caminho pode não ser linear, mas a constância e a paixão sempre encontram espaço na sinuosidade dele.
AUGUSTO (em outras imagens)


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