top of page

Entrevista com Alex Santos - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Vivendo e aprendendo"

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • 17 de abr.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 27 de abr.

Por Marcelo Martins e Miguel Santos

Trabalho aprovado por: Amanda Mansur e Paula Donato


PALAVRAS INICIAIS


AUTODIDATA E CURIOSO INSACIÁVEL, Alex Santos ficou radiante quando seu artigo científico foi selecionado para ser apresentado e publicado no maior evento de divulgação de pesquisas e estudos de Moda do país, promovido pela ABEPEM (Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda), em 2024, quando já tinha se formado.

Primeiro vestido produzido por Alex, no Laboratório de Moda do CAA, onde ele trabalhava por ainda não possuir os instrumentos para realizar as peças em seu ateliê. Ano: 2018.
Primeiro vestido produzido por Alex, no Laboratório de Moda do CAA, onde ele trabalhava por ainda não possuir os instrumentos para realizar as peças em seu ateliê. Ano: 2018.

O trabalho em questão, intitulado “Retratos do Feminino: análise da imagem parada”, anos antes, havia sido submetido ao evento, mas, por questões de inaptidão técnica no momento da inscrição, ele sequer chegou a ser avaliado.


SEU ATELIÊ EM CARUARU divide o espaço com a sua casa. Nesse aconchegante oásis urbano, de trabalho e de moradia, tudo transpira produção de moda: tecidos, brilhos, manequins, chapéus, cores, linhas, botões, fitas métricas em volta do pescoço e nas mãos do artista, tule e mais tule, fantasias acabadas, prancheta, folhas de desenho, lápis e canetas diversas, dentre tantos outros “instrumentos de trabalho”, atravessam os sentidos dos corpos dos clientes que vão lá para buscar ou para fazer uma encomenda, ou vão para pedir para que ele desenhe no ao vivo e em cores a ideia inicial de um modelo, que, dias depois, ganha fisicalidade de formas, cores, acabamentos e movimentos – botões, brilho e volume.


Vestido de formatura, traje de festa, 2023. Cliente: Aurora Balbi.
Vestido de formatura, traje de festa, 2023. Cliente: Aurora Balbi.

AURORA BALBI, uma de suas clientes, relembra da primeira vez que foi ao ateliê: “Entrar lá foi como ser transportada para um outro mundo, uma mágica aconteceu. Para a minha formatura, eu vi várias possibilidades, mas optei por ele, porque alguma coisa no traçado dele me atraiu bastante. Era a minha formatura, um momento único, e esse vestido teve, então, um significado ainda mais especial. Foi feito por um aluno do meu pai, o que já tornava tudo bem emocionante — e quando eu o vi pela primeira vez, não consegui segurar as lágrimas e chorei na frente do Alex mesmo. Ao vestir, foi simplesmente inesquecível: ficou perfeito, deslumbrante, como se tivesse sido feito exatamente para mim em todos os sentidos. Tudo o que o Alex falava durante a criação e nos momentos de prova transformou-se linda e confortavelmente no meu corpo.”.


ALEX ABRE SUAS PORTAS para “quase todo mundo” e acredita, de certo modo, estar contribuindo, mesmo assim, com uma espécie de democratização da moda, da beleza, do sentir-se bem e do bom-gosto. Pesquisador voraz do que faz, encontra-se constantemente envolvido também com pesquisas autodidatas sobre aquilo que está por trás de tudo aquilo que produz. Assim, sua cabeça de universitário nunca parou de funcionar, pois ele se dedica também a projetos paralelos para, no fundo, entender melhor como os discursos e expressões de moda moldam os corpos, as sociedades, e as relações interpessoais. Conhecedor profundo de momentos da história da moda, discute projetualmente as roupas que constroem os gêneros, as sexualidades, os grupos, os movimentos sociais; enfim, a vida como ela é – e como poderia ser.



COM A PALAVRA, ALEX SANTOS


EU NASCI E FUI CRIADO NO INTERIOR DE PERNAMBUCO, em Bezerros. Sou fruto de educação pública e de escola integral. Durante o Ensino Médio, fui incentivado a entrar no mundo da criação e acabei optando por Design, inclusive por causa das minhas habilidades com desenho e pelo meu enorme interesse por moda. O fato de o Centro Acadêmico do Agreste ficar perto de casa também foi um facilitador que conduziu a esta escolha, uma vez que, quando terminei o Ensino Médio e entrei na faculdade, tinha 16 anos. Era muito jovem e tinha receio de ir para longe. Entrei na faculdade em 2015 e concluí em 2021.


Laboratório de Moda, antes da aula de moulage da Professora Flávia Zimmerle, em 2018.
Laboratório de Moda, antes da aula de moulage da Professora Flávia Zimmerle, em 2018.
Processo na produção do traje da personagem Rainha Má (espetáculo de ballet), em 2025.
Processo na produção do traje da personagem Rainha Má (espetáculo de ballet), em 2025.



















DURANTE O PERÍODO DA MINHA FORMAÇÃO, eu já atuava “amadoramente”. Quando entrei na faculdade, já desenhava figurinos e trajes de festa. Mas foi só no decorrer do curso que tive o primeiro contato com modelagem e costura, o que me ajudou a conseguir aliar a minha experiência de criar ao poder de executar. Ainda durante o curso, comprei minha primeira máquina de costura e comecei a atender clientes fazendo roupas sob medida.



Acima: Alex, ao centro do corpo do ballet trajando suas criações de figurino, em 2022. Ao lado: Blazer sob medida, peça finalizada em 2026.
Acima: Alex, ao centro do corpo do ballet trajando suas criações de figurino, em 2022. Ao lado: Blazer sob medida, peça finalizada em 2026.

POSSO DIZER, ENTÃO, QUE MINHA TRAJETÓRIA COMEÇOU com um certo “admiradorismo”, porque eu era um admirador! Meu primeiro ato no mundo da moda foi como desenhista. Aos poucos, porém, fui me construindo e me lapidando como profissional. Passei pela faculdade, por ateliê e por indústria, onde assumi cargos de chefia de produção, modelista, pilotista e costureiro.


Atualmente, não dependo de demandas de mercado, porque ao longo do tempo construí uma clientela fixa. No cenário atual, além de trabalhar como instrutor de corte e costura, mantenho meu ateliê e escolho meus clientes, que geralmente são indicados por outros clientes. E os escolho de acordo com a indicação e o quão interessante é o tipo de trabalho que desejam. Não produzo qualquer tipo de roupa nem para todas as pessoas, eu escolho os trabalhos de acordo com a relevância que trará para a minha carreira a longo prazo. Nesse exato momento, estou me preparando para seguir no rumo da alfaiataria tradicional masculina.



NO MEU DIA A DIA, meu trabalho depende de muitas habilidades técnicas para muitas atividades. Como eu trabalho sozinho, preciso executar todas as etapas dos processos, desde a pesquisa até as demais fases: desenho, modelagem plana, moulage, corte, passadoria, montagem etc.; além disso, preciso estar atento ao meu repertório técnico com relação aos tipos de tecidos, aviamentos, estruturação e acabamentos, operação e manutenção de maquinário; por fim, não escapam dessa cadeia os entendimentos de gestão empresarial – e até mesmo marco presença em determinados eventos ou junto a determinadas marcas.


APESAR DE TRABALHAR COM O NICHO DE “SOB MEDIDA”, é necessário manter-me informado das questões de tendência e demais fatores que influenciam a informação de moda. A roupa sob medida carrega a égide do estilo, mas, no fim, as pessoas ainda querem pertencer a determinados grupos, identificar-se e comunicar-se através do vestuário.


Em 2023, Alex sentiu-se preparado para começar os trabalhos com a alfaiataria.
Em 2023, Alex sentiu-se preparado para começar os trabalhos com a alfaiataria.

É NATURAL PARA O CRIADOR, contudo, espelhar em suas criações suas inspirações. Apesar de ater-me às satisfações dos clientes, tudo o que é criado para ele transmite a essência das coisas que me inspiram. Eu sou muito inspirado pelo Barroco, por exemplo. Gosto de volumes, sombras, luzes e formas dramáticas e sinuosas. Em contrapartida, também faz parte desse arsenal inspirador o lugar onde nasci, o Nordeste brasileiro e o Estado de Pernambuco. As cores, os elementos do barro e do couro, trajes de vaqueiros e cangaceiros estão sempre no meu radar. Os livros de historia, ilustrações infantis, música, pintura… toda a arte, arquitetura e antiguidades me são fonte de inspiração.






 Figurino desenvolvido para o quinteto violado, em parceria com Lucy Celestino, em 2025.
Figurino desenvolvido para o quinteto violado, em parceria com Lucy Celestino, em 2025.
Pinacoteca de São Paulo, em 2023. Viagens e idas constantes a museus e igrejas alimentam a veia barroca do artista-criador.
Pinacoteca de São Paulo, em 2023. Viagens e idas constantes a museus e igrejas alimentam a veia barroca do artista-criador.
Look desfilado no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024.
Look desfilado no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024.
















ACREDITO QUE A FORMAÇÃO ACADÊMICA É ESSENCIAL para forjar um bom profissional que também pretende atuar no mercado, pois, como em todas as profissões, existem partes necessárias ao ofício que só a Academia proporciona. Como exemplo, é possível citar os estudos das metodologias, dos teóricos e da própria história. A noção científica só se aprende com profissionais. Mas, por outro lado, é importante sublinhar que somente a Academia não nos forma por completo: é necessário haver as experiências e as práticas das vivências de mercado. Portanto, um bom designer se faz a partir das duas experiências, a teoria aplicada à prática. Assim como em todas as outras profissões, existem os que sabem fazer e os que gostam de fazer. Nem todos que gostam, sabem fazer; nem todos que fazem, deveriam estar fazendo.


Em plena Rua Augusta, entre uma bebida e outra, uma pausa para rabiscar umas ideias oriundas desse contexto. Ano: 2023.
Em plena Rua Augusta, entre uma bebida e outra, uma pausa para rabiscar umas ideias oriundas desse contexto. Ano: 2023.
Alex se apresentando na passarela no final do desfile do Festival do Jeans de Toritama (PE, em 2025.
Alex se apresentando na passarela no final do desfile do Festival do Jeans de Toritama (PE, em 2025.


















COM RELAÇÃO AO MEU CURSO NO CAA, eu diria que eu senti falta, nele, de praticar mais a escrita. Como eu entrei muito jovem na universidade (aos 16), havia saído recentemente do Ensino Médio, onde a preparação era direcionada para a escrita do Enem e vestibular. O curso de Design, na época, oferecia uma cadeira de Metodologia Cientifica no segundo semestre, sendo essa uma disciplina obrigatória, e uma cadeira de Produção Textual e uma de Pesquisa Científica, que eram eletivas. Essas duas últimas foram muito problemáticas, por diversos fatores, inclusive devido às conduções nelas realizadas, naquele momento. Ou seja, saí com a Metodologia Científica do segundo período para produzir uma monografia no final do curso, porque as duas outras disciplinas citadas não contribuíram – como poderiam ter feito – com a minha formação. Como consequência de uma história como essa, muitas pessoas acabaram ficando estacionadas no TCC justamente pela dificuldade de escrever. Desse modo, acredito que a oferta de cadeiras obrigatórias de escrita e leitura acadêmicas seriam muito úteis nessa formação. Já com relação à aproximação com o mercado, senti falta de vivenciar práticas laboratoriais e de laboratórios mais bem equipados na universidade. Na minha época de graduando, o Laboratório de Moda, por exemplo, contava com mais da metade das máquinas inutilizáveis e ultrapassadas. Faltavam, por exemplo, máquina de corte e o estudo do funcionamento das produções industriais. Pela minha experiência de hoje, acredito que aulas de campo em que visitas fossem realizadas em fábricas e ateliês teriam sido muito valiosas nessa fase da formação de acadêmico em Design.



Em 2023, período decisivo para a entrada do Alex na alfaiataria: “um profissional completo!”, “Eu faço Moda!”.
Em 2023, período decisivo para a entrada do Alex na alfaiataria: “um profissional completo!”, “Eu faço Moda!”.

“UM PROFISSIONAL COMPLETO”: é assim que me defino. Tenho muito orgulho em dominar todas as etapas da produção de uma roupa, desde o croqui até o corte, montagem e finalização. Não sou somente o criador, eu vou para a máquina e executo – trabalho que, inclusive, me encanta. Gosto de pensar que posso pegar um pedaço de nada e transformar em alguma coisa útil e bela. Isso tem me moldado nesses últimos 10 anos, e eu gosto muito, mas muito mesmo, do que faço.



Looks desfilados no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024.
Looks desfilados no Festival do Jeans de Toritama (PE), em 2024.





ENTENDO O “PROCESSO CRIA-TIVO” COMO UM NOME que se dá ao conjun-to de etapas que antecedem a criação de algum artefato. Para mim, funciona como um banco de dados de referências. Eu gosto muito de ler, assistir e ver imagens. Isso me ajuda a construir um acervo como um “Pinterest” interno. Quando recebo uma proposta para desenvolver algo, já tenho um gancho na mente com alguma referência e, a partir daí, começo a fazer os testes e filtrar as possibilidades. Muitas vezes acontecem os insights, aí preciso colocar rápido em algum papel (ando sempre com um lápis e um caderno), para não esquecer. A partir dos insights escritos ou desenhados, realizo colagens e as utilizo como painéis de inspiração. Para mim, Moda é um sistema que se fortalece pelo culto às novidades que gera o ciclo do consumo e descarte dos produtos. Eu faço Moda!



Figurinos desenvolvidos para o espetáculo Branca de Neve, realizado pelo Ballet Corpo, em 2025, em Bezerros, Pernambuco
Figurinos desenvolvidos para o espetáculo Branca de Neve, realizado pelo Ballet Corpo, em 2025, em Bezerros, Pernambuco

JÁ HÁ ALGUM TEMPO, o sistema de moda caminha para como ele está hoje: multifacetado. Podemos experienciar inúmeros nichos de expressão de moda que surgem e desaparecem muito rapidamente. Eu percebo que ainda há o ciclo tradicional da moda elitista, onde os hábitos de consumo dos ricos tornam-se símbolos de desejo das massas menos favorecidas. O sentido contrário também pode ser percebido; nele, elementos da cultura popular são aceitos nos círculos da elite e passam por processos brutais de precificação – distanciando-se, por isso, como objeto de consumo, da sua própria origem.


Terno sob medida para Perpétua Dantas, uma das clientes de Alex. Caruaru, 2026
Terno sob medida para Perpétua Dantas, uma das clientes de Alex. Caruaru, 2026



Por outro lado, não é possível desconsiderar que, apesar das cúpulas mais altas da moda permanecerem elitistas, abriram-se portas para outros corpos, culturas e cores, e isso representa um avanço. Além disso, as formas de produção também estão sendo adaptadas conforme as necessidades que giram em torno da sustentabilidade. É possível notar uma busca pela moda consciente, durável e circular. Como exemplo, citam-se a busca pela alfaiataria e a busca por peças bem feitas que têm aumentado consideravelmente, e o consumo de roupas de segunda mão que abriu espaço para os brechós serem percebidos como alternativas viáveis e mais ideais.


DESSA PERSPECTIVA, então, entendo que há um certo caminhar para uma integração, e o fato de estarmos no meio desse constructo de um novo comportamento e mesmo modo de vida deixa tudo meio nebuloso, meio caótico.



Figurino sob medida desenvolvido para Jonatas, professor responsável pelo Ballet Corpo, em 2026 (Bezerros).
Figurino sob medida desenvolvido para Jonatas, professor responsável pelo Ballet Corpo, em 2026 (Bezerros).

O CURSO DE DESIGN DO CAA É muito bom por deixar o aluno livre para escolher os caminhos, contudo, devido à inexperiência da maioria que entra no primeiro período e como primeira faculdade e, também, dando o primeiro passo para decidir a vida; aquele que não tem foco certeiro ou um mínimo de conhecimento na área perde muito tempo diante do leque de possibilidades. E isso faz com que o estudante acabe cursando disciplinas avulsas até encontrar um eixo de identificação. Seria bom, por parte da universidade, proporcionar encontros, palestras, aulas de campo direcionadas para as três áreas já no início do curso; isso, sem dúvida, daria aos estudantes a oportunidade de vivenciarem um pouco da profissão que pretendem seguir. Não nos enganemos: muitos entram sem ter ainda desenvolvido qualquer aptidão ou habilidade para uma das três áreas: gráfico, moda e produto. Por fim, o conselho que eu daria para os ingressantes é o mesmo que eu segui: aproveitar ao máximo, da forma que for possível, todas as aulas, todos os eventos e todos os professores. Os quem vieram antes sempre têm muito a ensinar.



ALEX (em outras imagens)



Comentários


MIX.png

A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Spotify
  • Branco Twitter Ícone
  • Branco Facebook Ícone
bottom of page