Entrevista com Miguel Santos - egresso do Design, profissional da área de Moda: "Colhendo futuros"
- Revista Spia

- há 5 dias
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Por Marcelo Martins
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur
PALAVRAS INICIAIS
NOS ÚLTIMOS MESES DE 2025, o professor Marcelo Martins e o profissional de Design, Miguel Santos, formado pelo curso de Design do Centro Acadêmico do Agreste (CAA: UFPE), fizeram uma busca para encontrar egressos do Design do CAA para convidá-los para uma entrevista, retomando suas histórias durante o período de formação e suas respectivas inserções no mercado de trabalho, especificamente no vasto campo da Moda.
DEPOIS DE VÁRIAS CONVERSAS, algumas negativas, algumas ignoradas, alguns desencontros, mas também de alguns gestos contagiantes de enorme entusiasmo por parte dos que foram contactados, Marcelo e Miguel conseguiram reunir um conjunto de profissionais atuantes no mercado que se dispuseram a participar deste projeto que, em princípio, objetiva: 1) dar visibilidade aos trabalhos “com moda” que eles desenvolvem em diferentes cantos deste país e, 2) prestar uma homenagem ao curso do Design do CAA, neste ano em que ele comemora seus primeiros vinte anos, tendo o curso Design participado da implantação do campus da Federal no Agreste Central pernambucano, nos anos idos de 2006.
A PARTIR DESTA SEMANA, as entrevistas gentil e entusiasticamente concedidas aos coordenadores do projeto, realizadas por meio de um questionário, serão publicadas no site da Spia.
A PRIMEIRA ENTREVISTA, de um total de 8, será justamente a do Miguel Santos, que, junto com o professor Marcelo e a professora Amanda Mansur, embarcou na empreitada de “juntar” os egressos do Design e dar a oportunidade a cada uma dessas pessoas contarem suas histórias e mostrarem seus trabalhos com moda. Os professores Amanda e Marcelo, juntamente com o Miguel e mais uma estudante de Comunicação Social, Un Hee Martha de Oliveira Mbaki, chamarão as pessoas que aceitaram participar deste projeto para um desdobramento dele, em parceria com a Cultural Livraria e Cafeteria e com o Galo da Redação, nos próximos meses. Mas essa é uma outra história, inclusive porque os envolvidos não foram informados sobre ela até então.

AINDA SOBRE O MIGUEL, nosso primeiro entrevistado, o professor Marcelo diz: “O Miguel foi um aluno brilhante, um trabalhador incansável na monitoria. Ele era muito engraçado e às vezes bravo – inclusive comigo! Aos poucos, ele se tornou um grande amigo para mim. Tenho muito carinho por ele. Ele acha que eu o adotei, mas foi ele que me adotou assim que cheguei no CAA, em 2016. Fico muito feliz de a gente manter contato até hoje, e de ele, com seu coração enorme, aceitar a participar de alguns projetos comigo, mesmo estando em São Paulo. Então, para mim, o projeto homenageia o Design do CAA, o CAA, os alunos – egressos do Design –, e a primeira entrevista publicada nesta seção da Spia, para mim, homenageia também o Miguel: só para ela nunca se esquecer de quão grandioso e querido ele é; de como ele foi acolhedor comigo recém-chegado no Design. Quem faz, até pode esquecer; quem recebe o feito, nunca esquece!”. As demais entrevistas seguirão a ordem alfabética dos entrevistados.
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COM A PALAVRA, MIGUEL SANTOS
SOU NATURAL DE SUZANO, em São Paulo, mas me mudei para Pernambuco, terra dos meus pais, aos seis anos, e cresci em Moreno. Cheguei ao CAA depois de ter cursado o tecnólogo em Gestão de Turismo no IFPE, em Recife, em 2011, quando a área era vista como a “profissão do futuro” no Brasil pré-Copa. Gostei muito do que aprendi, mas nunca senti uma identificação real com o curso.

Nesse período, também fui aprovado em vestibulares para Letras, Agronomia, Arquitetura, Educação Física e até Direito, mas não cheguei a cursar nenhum desses cursos. Consegui ainda uma bolsa integral para Design de Moda em uma faculdade do Recife, mas, por um erro da instituição, não pude iniciar o curso, o que acabou me gerando uma grande frustração. Depois disso, fiz um curso técnico em Administração no Senac e comecei a trabalhar na área de administração hospitalar. Em 2015, fiz meu último ENEM e consegui uma vaga em Design no CAA. Não conhecia a cidade, nem o campus, nem mesmo o curso, mas tudo acabou se encaixando. Entrei em agosto de 2016 e me formei no final de 2021.
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DURANTE A GRADUAÇÃO, eu trabalhava com representação comercial. Como não tinha a mesma base nem os equipamentos que muitos colegas já possuíam, não consegui atuar em nada ligado ao design que me ajudasse a me manter morando sozinho em Caruaru. Por isso, também não conseguia fazer cursos na área, já que trabalhava em escala de shopping e tinha pouco tempo disponível. Por outro lado, abracei todas as oportunidades que o curso ou os professores me ofereceram: de participação em projetos ao oferecimento de cursos aos alunos e alunas do Design.
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NOS ÚLTIMOS ANOS DA GRADUAÇÃO, consegui um emprego em uma instituição mista, de iniciativa público-privada, voltada para a área de moda, embora atuasse no setor administrativo. Lá, tive contato com diversos empresários locais, conheci de perto o funcionamento das consultorias de moda e acompanhei os bastidores de projetos de fomento do Governo do Estado voltados para o Agreste. Tentei, sem sucesso, migrar para a área de consultoria e, após um ano, mudei de emprego.

DEPOIS DISSO, fui contratado como designer de moda em uma das maiores fábricas de jeans de Toritama. Foi uma experiência formadora. Viver o dia a dia do chão de fábrica, entender a complexidade de um material que até então me parecia simples e lidar com os desafios constantes da profissão, especialmente na relação com a classe patronal da região, transformaram completamente minha visão sobre o setor. Foi nesse contexto que percebi que, ali, pouco se cria. Esse entendimento foi um choque, pois desmontou a ideia que eu tinha sobre o universo da moda como um espaço essencialmente criativo.
O ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DO AGRESTE PERNAMBUCANO É, sem dúvida, uma grande força da economia do Estado, mas também carrega o peso de uma cultura fortemente baseada na cópia. Em maior ou menor grau, muitos empresários se acostumaram a reproduzir referências, seja do que veem em grandes grupos internacionais, seja dentro do próprio contexto local, com marcas menores replicando as maiores.
ASSIM, depois do impacto inicial, entendi que precisava me qualificar no que era, de fato, exigido. Passei a me dedicar ao conhecimento técnico, estudando desenho técnico, sequência de produção, maquinário e o denim como matéria-prima. Descobri a complexidade da lavanderia industrial, o uso do laser nos processos de beneficiamento e os limites que a modelagem impõe ao jeans. Era, na prática, uma imersão na Engenharia de Produto.
EM 2022, venci meu primeiro concurso como estilista de jeans e tive a oportunidade de viajar para São Paulo para conhecer o Denim City,

um hub de soluções voltado para a indústria do jeans. Em 2023, fui convidado por uma tecelagem para uma parceria e apresentei minhas primeiras peças autorais no Festival do Jeans de Toritama. Em 2024, conquistei o primeiro lugar no concurso Brasil Fashion Designers, da Febratex. Tudo isso aconteceu em paralelo ao meu trabalho na fábrica.
NESSE PONTO DA MINHA CAMINHADA, já me entendia como profissional e tinha uma visão mais ampla e ao mesmo tempo bastante pormenorizada sobre o mercado. Decidi, então, dar um novo passo: deixei a segurança de uma das posições mais desejadas, ao menos na percepção dos jovens estilistas de Caruaru e região, e me mudei para São Paulo, em busca de outras oportunidades de trabalho, com o currículo que eu até então eu tinha formado.

No momento atual, trabalho especificamente com desenvolvimento de produto em uma das empresas mais consolidadas do Estado. Não atuo diretamente com criação, o que ainda me frustra em certa medida, mas entendo que faço parte de um caminho mais longo do que aquele que Toritama poderia me oferecer. Hoje, tenho um nome reconhecido na indústria do jeans e muitos planos para o futuro.
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MEU TRABALHO ATUAL exige um domínio técnico amplo, que atravessa diferentes áreas, como tecidos, modelagem, costura, precificação, materiais, insumos e, por mais surpreendente que possa parecer, comunicação. Nesse contexto, a ética muitas vezes fica em segundo plano: diariamente, preciso analisar, reproduzir e decifrar como estilistas ao redor do mundo desenvolveram determinadas peças, para então traduzir essas informações de forma estratégica para clientes que irão se beneficiar desse processo.
JÁ NO MEU TRABALHO AUTORAL, como criador, minhas principais referências passam pelas técnicas de modelagem japonesas e pela brasilidade. Busco construir uma leitura de expressões nacionais que sejam, ao mesmo tempo, teatrais e pouco óbvias. Os trabalhos manuais e a artesania também aparecem como elementos centrais na minha linguagem criativa, funcionando quase como uma assinatura das peças.
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ACREDITO QUE HÁ ESPAÇO PARA TODOS E TODAS no vasto campo de trabalho em que se encontra a área em que atuo. Existem profissionais e Profissionais, assim como há trabalhos e Trabalhos. Ainda considero a Academia fundamental na formação de um bom profissional. Um trend setter sem conhecimento sobre sociedade, política, história, economia e outras áreas com as quais tive contato no CAA tende a ser um profissional limitado. O pensamento crítico é, nesse sentido, muito mais desenvolvido e estimulado nos ambientes acadêmicos do que em outros.
O QUE ME INCOMODA MAIS É a substituição de profissionais por influenciadores e por pessoas que chegam a posições de criação com base apenas na quantidade de seguidores nas redes sociais ou por serem filhas de “X”. Nesse caso, vejo um movimento que acaba prestando um desserviço à profissão.
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SENTI FALTA, principalmente, de mais práticas durante a minha formação. Apesar de existirem vários laboratórios no CAA, no meu período muitos eram subutilizados ou acabavam “pertencendo” a determinados professores, o que transformava o acesso em um jogo de preferências e afinidades.

Além disso, havia dificuldades recorrentes, como problemas com licenças de software, falta de manutenção e ausência de peças para as máquinas de costura. Lembro, inclusive, de um conselho marcante de um professor: “Se você quiser aprender a usar esse programa, é melhor fazer um curso ou procurar aulas no YouTube, porque a universidade não ensina.”.
MUITAS VEZES ME PERGUNTEI SE, em algum momento, ao se tornar professor, o ex-aluno atravessa uma espécie de ruptura e passa a esquecer tudo o que viveu, adotando uma postura mais centrada no próprio ego. Essa percepção nunca chegou a me intimidar diretamente, mas vi colegas profundamente afetados por esse tipo de conduta. Alguns chegaram ao ponto de desistir do curso, outros mudaram de profissão como consequência dessas experiências, que são sempre, em maior ou menor grau, devastadora.
NÃO SEI COMO ESTÁ O CAMPUS HOJE, mas, no período em que estive lá no CAA, o ambiente, em certos aspectos, era psicologicamente insalubre, muitas vezes sob a justificativa de que aquilo seria uma preparação para o mundo profissional.
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ME DEFINO COMO UM PROFISSIONAL ABERTO. Durante muito tempo, me questionei se tinha um estilo ou uma assinatura própria e cheguei a acreditar que não. Com o tempo, porém, consegui ler meu próprio trabalho como um texto coerente, com conexões e recorrências.
SOU EXTREMAMENTE TÉCNICO E ORGANIZADO NO QUE FAÇO, mas associo essa estrutura a um modo mais atravessador de criar, em que diferentes referências, processos e ideias se cruzam para construir o resultado. Aproveito este momento reflexão, esta oportunidade de expressar meus pensamentos sobre esse assunto, para fazer uma menção honrosa e deixar meu agradecimento à professora Flávia Zimmerle da Nóbrega Costa, ao professor Mário de Faria Carvalho e a Marcelo Martins, que foram fundamentais na construção do meu processo.
FLÁVIA ME MOSTROU como o básico pode ser mais complexo do que aquilo que, à primeira vista, parece elaborado. Foi com ela que aprendi que a base é o caminho para a sofisticação. Já Mário despertou em mim o hábito de questionar o belo; desde então, passei a refletir constantemente se estou, de fato, pensando por conta própria ou apenas reproduzindo um discurso. Marcelo me despertou a necessidade de equilibrar a justa medida entre o a falar e a calar.
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O PROCESSO CRIATIVO É, para mim, uma linguagem individual construída aos poucos. No meu caso, ele acontece de forma bastante sinestésica. Quando sou provocado a criar, começo a visualizar imagens e a fazer associações com o tema. A partir daí, penso em cores, cheiros, formas e sons que se conectem com essas ideias. Em seguida, desconstruo essas associações e as reorganizo a partir das sensações, para só então tentar traduzir, de forma mais lógica, qual é o sentido da criação para quem observa.
PODE PARECER UM PROCESSO COMPLEXO, mas ele acontece de maneira quase instantânea, em um curto espaço de tempo, até que o resultado se materialize.

Por isso, gosto de pensar nele como uma linguagem própria. Tenho interesse em cursos, aulas e masterclasses sobre processo criativo, mas vejo esses espaços mais como estímulos ou gatilhos do que como definições rígidas de um método.
JÁ A MODA, para mim, funciona como um agente aglutinador. Quem está neste universo da moda, de alguma forma, busca pertencer a um grupo, comunicar uma ideia ou expressar algo. Mesmo quando há uma tentativa de ruptura ou de originalidade, sempre se parte de referências anteriores, e isso não é um problema. Pelo contrário, é justamente o que torna esse jogo mais interessante.
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VEJO A MODA COMO UM ECOSSISTEMA INTEGRADO CHEIO DE APOCALÍPTICOS. Desde que comecei a trabalhar na área, tornou-se quase regra ouvir reclamações sobre as dificuldades do mercado, a competitividade entre os pares, a deslealdade e outros desafios. Ainda assim, fala-se pouco em soluções; muitas vezes, a queixa parece mais um hábito do que um ponto de partida para mudança.
A DISCUSSÃO MAIS RECENTE no nosso métier gira em torno do uso da inteligência artificial. Nesse ponto, faço uma leitura um pouco diferente. Parte dos profissionais, especialmente em um campo historicamente associado à vanguarda, encara a IA como uma ameaça, quando poderia considerá-la como mais uma ferramenta de trabalho. A inteligência artificial não cria “no sentido humano”, ela organiza. Produz a partir do que já foi feito, dito e disponibilizado por nós. Todo conteúdo gerado é uma recombinação orientada do passado.
COM A VELOCIDADE VERTIGINOSA com que a informação é gerada por essas ferramentas, nos aproximamos do ponto de autofagia, em que a própria IA passa a se alimentar de conteúdos derivados dela mesma. É aí que pode surgir uma ruptura. A criatividade humana, por outro lado, é expansiva e autorregenerativa, o que a coloca em uma posição diferente. Talvez ainda levemos alguns anos até que essa preocupação perca força e seja substituída por uma nova.
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MINHA DICA PARA QUEM ESTÁ CURSANDO DESIGN AGORA É SIMPLES: busquem conhecimento técnico! A Academia forma ótimos pensadores, e aprender os porquês, cultivar a inquietação e desenvolver um olhar crítico são, para mim, verdadeiros tesouros. Mas o mercado, hoje, exige cada vez mais domínio prático. Por isso, aproveitem ao máximo a formação para fazer cursos de costura, modelagem, estamparia, fotografia, softwares gráficos e tudo o que puder somar como bagagem. A combinação entre pensamento crítico e conhecimento técnico é o que forma profissionais realmente diferenciados.
TAMBÉM VALE AMPLIAR O OLHAR SOBRE O QUE É A MODA. Ela não se resume a desenhar, costurar ou criar coleções. Existe um universo de possibilidades que envolve imagem, branding, gestão de marca, eventos e produção. Em todas essas áreas, ter uma base sólida em moda pode ser um grande diferencial.
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MIGUEL (em outras imagens)


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