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Entrevista com Marcel Pereira – egresso do Design, profissional da área de Moda: "A liberdade na criação e a criação na liberdade"

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    Revista Spia
  • há 4 dias
  • 9 min de leitura

Por Marcelo M. Martins e Miguel Santos

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur


PALAVRAS INICIAIS


MARCEL PEREIRA: no início foram os desenhos incentivados pelos familiares, os trabalhos em torno da Produção de Moda e os estágios – sempre acompanhados com a vontade de cursar uma universidade, mas a Federal. No Design do CAA, foi monitor de várias disciplinas, e depois mentoria de profissionais como Mário Queiroz e Ronaldo Fraga. Ele pensa o design a partir de suas origens, na indústria – e isso o molda como profissional do mercado que executa muitas vezes mais de uma coleção por período, atendendo ao ritmo das empresas com as quais trabalha. Marcel defende a liberdade criativa, mas entende as limitações (auto)impostas, e reconhece a importância da busca constante pelo conhecimento – tanto na universidade como fora dela. Marcel abordou esses e outros assuntos, inclusive listando alguns conselhos para jovens designers, com Miguel Santos e Marcelo Martins, que organizaram os resultados do “bate-papo” no texto em 1ª. pessoa que segue.



COM A PALAVRA, MARCEL PEREIRA


SOU DE PESQUEIRA, PERNAMBUCO, mas me mudei muito cedo para Santa Cruz do

Marcel, em setembro de 2016, já próximo à conclusão do curso. 
Marcel, em setembro de 2016, já próximo à conclusão do curso. 

Capibaribe, com apenas sete anos. A minha descoberta do curso de Design está muito ligada a essa mudança regional. Eu sempre achei que faria Biologia, que seguiria carreira como ornitólogo, mas tudo começou a mudar no Ensino Médio. Na época, fiz um curso técnico em Administração pelo Senai, integrado ao Ensino Médio. Como venho de uma família de desenhistas e sempre desenhei bem, as professoras do curso de Produção de Moda começaram a me incentivar a seguir o caminho do Design.

NO SEGUNDO ANO, acabei entrando no curso de Produção de Moda e, no terceiro, já estava estagiando e trabalhando na área. Desde pequeno eu tinha um objetivo muito claro: cursar uma Universidade Federal. Quando descobri que havia o curso de Design na UFPE, no campus de Caruaru, esse caminho se tornou natural ainda que inesperadamente, de certa forma. Entrei na turma de 2011.1 e me formei em 2016.



QUANDO COMECEI A FACULDADE, eu já atuava na área há um ano. Como o curso era em período integral, eu passava o tempo todo dividido entre faculdade e trabalho. Não consegui fazer cursos paralelos porque, basicamente, o dia inteiro estava tomado e à noite eu nunca rendi muito, sempre dormi cedo. Então, tudo o que eu poderia fazer como extra, eu fazia dentro da própria faculdade.

FUI MONITOR DE PRATICAMENTE TODAS AS DISCIPLINAS LIGADAS À MODA. Durante uns três anos, três anos e meio, fui monitor da professora Flávia Zimmerle. Também fui monitor das professoras Nara Rocha, Andréa Camargo e Tati Leite. Foi um período muito voltado à monitoria e aos projetos de extensão.



EM 2026, COMPLETO 16 ANOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL. Literalmente, trabalho há metade da minha vida. Ao longo desse tempo, passei por muitas áreas diferentes. Trabalhei com alfaiataria durante vários anos, já atuei com moda fitness e praia, fui modelista, trabalhei como ilustrador e tive a oportunidade de participar de projetos como o Senai Brasil Fashion, onde fui mentorado pelo estilista Ronaldo Fraga.

TAMBÉM PARTICIPEI DE UMA MENTORIA com o professor Mário Queiroz durante a pandemia. Hoje atuo no segmento de moda masculina, aqui em Recife, numa empresa chamada Broomer, que está há mais de 30 anos no mercado de varejo masculino.

ACHO QUE NENHUM DESIGNER VAI DIZER QUE tem carta branca pra fazer o que quiser, né? A gente está sempre condicionado a algo — e isso faz parte da profissão, o que, de certa forma, é até saudável. O design, especialmente quando ligado à moda, está naturalmente muito sujeito aos movimentos do mercado, às mudanças sociais, ao comportamento de um público-alvo que tem seus desejos, referências e limites.

Desenho autoral, intitulado "Casaco mondrogo 2: o retorno do Diabo", 2022.
Desenho autoral, intitulado "Casaco mondrogo 2: o retorno do Diabo", 2022.

ENTÃO, MESMO QUANDO A GENTE TRABALHA POR CONTA PRÓPRIA, com a nossa própria marca, dentro do sistema em que vivemos, chega uma hora em que a gente precisa se adaptar e entender que essa carta branca total não existe se a gente quer tornar o trabalho sustentável.

DIZER QUE TENHO LIBERDADE TOTAL para criar tudo o que quero? Não tenho. E, sinceramente, nem acho que deveria ter. O que eu tenho é liberdade pra criar dentro dos parâmetros que a empresa em que estou define — parâmetros de público, de foco, de objetivo.

DENTRO DISSO, SIM, TENHO LIBERDADE TOTAL. Mas se percebo que estou saindo um pouco, eu mesmo dou um passo atrás. É como se existisse uma cerca que eu mesmo me imponho, e eu não ultrapasso.



O DESIGNER DE MODA PRECISA DESENVOLVER duas frentes principais. A primeira é a parte técnica. Um bom designer tem, sim, que saber modelar, entender de costura, ter conhecimento sobre tecidos, fibras, acabamentos. Precisa olhar uma peça e saber se ela está mal cortada, se está bem finalizada. E mais do que isso: precisa conseguir expressar tudo isso de forma clara, para que o que ele desenvolve seja compreendido por toda a cadeia de produção. Esse é o lado técnico, que é fundamental.

MAS TAMBÉM EXISTE O LADO SUBJETIVO — aquele que, à primeira vista, pode parecer meio hermético, mas não é. É o campo do repertório: é preciso ter um repertório visual consistente, ter contato com diferentes formas de arte, de cultura, de expressão. Pode vir de literatura, música, cinema, manifestações populares... tanto faz se é Troinha ou Mozart. O que importa é que isso alimente sua visão de mundo.

Viagem a Recife para participar de um evento na área de Design (UFPE), 2015.
Viagem a Recife para participar de um evento na área de Design (UFPE), 2015.

O QUE DIFERENCIA UM DESIGNER COM ESTILO PRÓPRIO é justamente o quanto ele se apropria desse repertório. Ele entende aquilo como seu e transforma em linguagem pessoal. Então, na minha visão, um bom designer é aquele que consegue unir técnica e subjetividade. Juntar essas duas narrativas: domínio técnico e um repertório verdadeiro, construído com autenticidade. É desse conjunto que nasce a personalidade do trabalho.

ACHO QUE MINHA GRANDE FONTE DE INSPIRAÇÃO são as histórias. Histórias que vivi, que amigos e familiares viveram, que me foram contadas, que li em livros, ouvi em músicas ou vi em filmes. É o desdobramento dessas narrativas que me inspira, que eu tento transformar de forma pictórica, e essa é, sem dúvida, a minha principal fonte criativa.

CONFESSO QUE NÃO TENHO GRANDES REFERÊNCIAS na cultura pop ou nas inspirações mais modernas. O que realmente me move é o processo de criar um storytelling, o desafio de pesquisar e mergulhar fundo no coração daquela história. É isso que me encanta e que mais me inspira como criador.



EU ACREDITO QUE, PARA SER UM BOM CRIADOR — seja de moda ou de qualquer outra coisa — é preciso praticar o ato de criar. É ter o hábito de criar. Isso não está, necessariamente, ligado a um diploma ou a uma certificação. No caso da moda, especificamente, é o fato de criar e de colocar a mão na massa, de ter a prática do fazer.

SE VOCÊ PARAR PRA PENSAR, é algo que se constrói na base de tentativa, erro e acerto, ao longo do tempo. A faculdade, uma certificação ou um curso técnico encurtam esse caminho. Eles ensinam de forma mais focada, mais concisa, algo que talvez você levasse muito mais anos pra aprender por conta própria.


Croqui de estudo sobre mangas, vazados e estampas (2018), idealizado através de IA.
Croqui de estudo sobre mangas, vazados e estampas (2018), idealizado através de IA.

POR ISSO, NÃO ME INCOMODA VER PESSOAS SEM BACHARELADO, sem curso superior ou técnico, se destacando como grandes criadores. Acho totalmente plausível que isso aconteça.

O QUE REALMENTE ME INCOMODA É quando alguém com algum tipo de capital — seja financeiro ou social — se apropria do trabalho de uma equipe de designers e sai como se fosse o grande criador. Aquela pessoa que fundou uma marca e entra no final do desfile como se tudo tivesse saído da cabeça dela, quando, na verdade, o trabalho foi feito por uma equipe. Ou então um influencer que diz "gosto disso, disso e daquilo", a equipe desenvolve tudo e, no final, ele sai com a fama de bom designer. Isso me irrita: ver alguém recebendo os créditos por uma criação que não é sua. Agora, dizer que só quem tem um diploma pode ser um bom criador? Acho um pensamento muito anacrônico.



DESDE QUE ME FORMEI, muita coisa mudou no currículo do curso. Na minha época, o que eu mais sentia falta era de uma maior integração entre a faculdade e o mercado. Faltavam visitas técnicas a empresas, faltavam oportunidades de apresentar aquele corpo discente tão efervescente e criativo ao mercado de trabalho.

A GENTE JÁ ESTAVA, GEOGRAFICAMENTE, distante das grandes empresas — e além da distância física, existia também uma barreira de acesso. Não havia esse contato direto, essa ponte. E isso, para mim, era uma grande lacuna.

Acompanhando a produção dos blazers.
Acompanhando a produção dos blazers.

NÃO SEI SE ISSO AINDA ACONTECE HOJE, mas naquela época também se falava muito que o nosso curso era “de licenciatura”. Eu achava isso um absurdo, mas era uma fala recorrente. E, muitas vezes, vinha de pessoas que não tinham tido nenhum contato com o mercado.

ÀS VEZES A GENTE ESQUECE QUE O CURSO DE DESIGN tem uma origem industrial, e às vezes isso se perde de vista. O contato com a indústria, com a cadeia produtiva, com o mercado como um todo, era algo que faltava — pelo menos na minha vivência.



EU DETESTO QUANDO VOCÊS ME PERGUNTAM como me defino; detesto com todas as minhas forças. Muito mesmo. O que posso dizer é que sou um designer que acredita ter seus méritos — até porque, se não tivesse, não teria conseguido me manter tanto tempo no mercado, nem teria participado dos projetos que participei ou conquistado os trabalhos que conquistei.

ACHO QUE SOU UM DESIGNER MADURO, com bagagem, que consegue desenvolver um trabalho consistente. É isso.

Essa pergunta sempre me parece capciosa, difícil de responder. Pra mim, é o máximo que dá pra dizer.



O PROCESSO CRIATIVO, pra mim, é o caminho de elaboração e de organização de uma loucura mental que dá origem a uma criatura final. É um caminho que começa com uma pesquisa ou um insight, passa pela etapa de execução, esbarra na frustração extrema… e, no fim, sai alguma coisa. Pode ser um projeto, uma roupa, um desenho, uma música — o que for. É sobre organizar esse caos que acontece dentro da cabeça da gente.

APLICANDO ISSO À MODA, ao design de moda especificamente, é pegar essa bagunça interna, confrontar com o espírito do tempo, com o que está sendo proposto no momento, e moldar tudo isso dentro dos parâmetros que precisam ser seguidos.

NO FIM DAS CONTAS, é um processo muito subjetivo, na minha visão. E pra mim, moda nada mais é do que a mais sincera expressão do espírito do tempo de uma população, de um nicho, de uma pessoa.



O MUNDO DA MODA HOJE É RÁPIDO. Desumanamente rápido. Tão rápido que não dá pra acompanhar — nem quem consome, nem quem cria. Sempre que encontro meus amigos que também trabalham com moda, a pauta é sempre a mesma: o cansaço. “Como é que você tá?” “Tô muito cansado. Tô exausto.”

E ESSA EXAUSTÃO APARECE NAS CRIAÇÕES. Até nas grandes marcas: tudo pasteurizado, sem graça, entediante, sem emoção. Porque não há tempo. Não tem tempo para maturar uma ideia, para desenvolver com calma. Eu sei que é uma resposta comum, até batida, mas é real: não tem tempo para criar de verdade. Não tem tempo para respirar.

É UMA COLEÇÃO EM CIMA DA OUTRA — eu falo por mim. No final do ano passado e no começo deste ano, eu estava com quatro coleções ao mesmo tempo. Pensando no passado, no presente, no futuro… e até no futuro do futuro.

A GENTE TÁ NUMA VELOCIDADE que está colapsando tudo. Quem cria, quem compra, e o planeta. E o pior: a gente tá levando o meio ambiente para o colapso com criações ruins. Peças que nem deveriam existir. Coisa chata mesmo, sem alma.

MAS, APESAR DISSO, EU AINDA VEJO uma luz no fim do túnel. Ela aparece nos criadores autorais, naqueles que estão conectados com pequenas comunidades, trabalhando de forma mais sustentável, com mais sentido. Infelizmente, hoje não estou envolvido diretamente com esse tipo de projeto, mas tenho amigos que estão — e vejo coisas muito bonitas, e com sentido para existir, nascendo disso. E é aí que eu coloco uma esperança: na possibilidade de que esse tipo de criação e de consumo se torne cada vez mais viável.



NA MINHA ÉPOCA, A GENTE IA SE DESCOBRINDO não sendo da moda ao longo da graduação. Engraçado como as coisas mudam, né? Mas, se eu pudesse dar um conselho — na verdade, dois — seriam esses:

PRIMEIRO: LEIA. LEIA MUITO. O CAA tem uma biblioteca incrível. Na minha época, ela já era ótima — imagino que hoje esteja ainda melhor. Ler vai te dar repertório, vai te ajudar a construir argumentos, a defender suas ideias, seus produtos. É fundamental. E não é só leitura técnica, não. É ter um repertório cultural, de verdade. Pode Lygia, Jorge Amado ou qualquer coisa. Mas tenha algo que alimente sua visão de mundo.

SEGUNDO: DESENVOLVA SEU ESTILO. Isso é muito importante. Estilo de trabalho, assinatura visual. Algo que permita que alguém olhe para uma peça e diga “isso tem a cara de fulano”, mesmo sem ver seu nome ali. Isso é força criativa.

Criação para o SENAI Brasil Fashion, orientado por Ronaldo Fraga.
Criação para o SENAI Brasil Fashion, orientado por Ronaldo Fraga.

E CLARO, TEM A PARTE TÉCNICA. Aprenda a modelar. Um bom designer de moda precisa saber modelar. Isso não é opcional, é obrigatório. Costurar também ajuda muito. Se não souber costurar, ao menos entenda o processo — já faz toda a diferença.

E DESENHE! POR FAVOR, DESENHEM! Virou meio hábito dizer que designer não precisa desenhar, mas essa é uma das partes mais prazerosas do processo. É colocar a mão na massa. Às vezes, é justamente desenhando que a criatividade flui de um jeito que o computador, o Photoshop ou o Illustrator, não conseguem proporcionar.

E OUTRO CONSELHO: procure entrar no mercado, ter vivência na indústria. E, quando entrar, crie boas relações. Relacionamento, principalmente no chão de fábrica, é essencial. Seja amigo da modelista, das costureiras, do pessoal do acabamento, do corte. Você vai aprender demais com essas pessoas. Vai sair dali diferente — mais maduro, mais completo.

PORQUE MUITAS VEZES, É NO DIA A DIA DA INDÚSTRIA que você vai conseguir confrontar o que aprendeu na faculdade com o que realmente acontece na prática. E isso, pra mim, é um dos aprendizados mais importantes.



MARCEL (em outras imagens)



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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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