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  • AZSex Festival realiza sua terceira edição em Caruaru

    O evento propõe uma imersão no cinema, literatura e artes plásticas para refletir sobre a sexualidade humana Por Madu Rodrigues Imagem da primeira edição do evento / Crédito: Ythalla Maraysa Nos dias 16 e 17 de maio de 2025, o Teatro João Lyra Filho, em Caruaru (PE), recebe a terceira edição do AZSex – Festival de Artes e Sexualidade Humana (@azfestival). A programação acontece na sexta-feira (16), das 19h às 22h, e no sábado (17), em dois horários: das 15h às 17h e das 19h às 22h. Os ingressos têm valor único e promocional de R$10,00 e serão vendidos na bilheteria do próprio teatro, com classificação indicativa de 18 anos. A proposta do festival é possibilitar uma imersão sensível e provocadora nas expressões artísticas ligadas à sexualidade, com atividades que reúnem cinema, artes plásticas e literatura. Com idealização e curadoria de Edvaldo Santos, o festival exibirá 21 filmes nacionais e internacionais, entre curtas e longas-metragens, organizados em duas categorias: Mostra Imersão e Mostra Reflexão. A Mostra Imersão reúne obras que propõem experiências sensoriais profundas e subjetivas, explorando a sexualidade de maneira íntima, poética e sensível. Já a Mostra Reflexão apresenta produções que incentivam o pensamento crítico e o debate, abordando identidade, desejo, afetividade e tabus sociais. Assim, o AZSex reafirma seu papel como espaço de provocação e desconstrução de estigmas, propondo olhares mais livres e empáticos sobre a sexualidade humana. A produção do festival é assinada por Éryka Vasconcelos, que reforça o compromisso do evento com a liberdade artística e a representatividade. O AZSex se consolida como um espaço necessário, que convida o público a olhar para si e para o outro com mais respeito, liberdade e sensibilidade, estimulando conexões que ultrapassam as barreiras do preconceito. Produtora Éryka Vasconcelos e o curador Edvaldo Santos / Crédito: Ythalla Maraysa Reforçando seu caráter interativo, o público poderá votar nas obras favoritas, que concorrem ao Troféu AZsex, reconhecendo os destaques da programação. Além disso, quem comparecer ainda poderá participar de debates e sorteios de brindes especiais, em uma ação realizada em parceria com a loja Íntimos Sexy Shop (@intimossexy), ampliando ainda mais a experiência do festival. O AZSex Festival conta, também, com o apoio da ASSARTIC (Associação dos Artistas de Caruaru) e da Brindgraf, instituições que colaboram para o fortalecimento e a expansão do evento. Dessa forma, com uma proposta inclusiva e ousada, o festival se apresenta como um importante espaço de arte, liberdade e celebração da diversidade.

  • “Poesia nas Estrelas: a arte entre um domingo e um fevereiro” de Matheus Miguel na Casa Clandestina

    A exposição de artes visuais que esteve presente na Casa Clandestina durante o mês de março, tem seu encerramento nesta sexta (28) Por: Inácio de Carvalho Matheus Miguel em frente a suas obras; Por: João Borges. Em meio a uma cortina de fitas metalizadas, ao som de Maria Bethânia, Alceu Valença e Lenine. Você é transportado ao ambiente imersivo da  exposição “Poesia nas Estrelas: a arte entre um domingo e um fevereiro”, de Matheus Miguel @poesianasestrelas   com a curadoria de Ayanne Sobral e Stênio Marcos no espaço Casa Clandestina. A primeira exposição do artista. Agora irei mostrar e contar como foi a exposição. Ela está espalhada em três áreas, as quais denominei por: “SAU-DA-DE”, “O sonho é o primeiro sentimento” e “Se você não me quiser, eu ainda tenho as ruas do Recife (e é como se eu te tivesse)”. Iniciando com a sessão “SAU-DA-DE”, começamos a conhecer o autor e o que essa exposição quer nos conta. Nessa parte vemos fotos do artista criança, a exposição conta sua história através das obras. As fotos do artista criança, nos transportando para o seu passado, a essa saudade que está literalmente em frente a essas fotografias. Há uma obra que se  destaca em meio a outras que batizei nessa sessão. SAU-DA-DE é aquela arte em que você se põe em frente e se fotografa, um sentimento tão lusofalante, e tão genuíno. Ao lado dela há um trecho de uma vídeo performance de Matheus com a obra. Obra SAU-DA-DE 2022  de Matheus Miguel; Por: Inácio de Carvalho. Ao seguir, imergimos a segunda parte da exposição “O sonho é o primeiro sentimento”, se na primeira o sentimento que predominou foi uma saudade, nesse é uma nostalgia. Ao lado direito inicia com dois quadros, um em homenagem à sua mãe e outro ao seu pai.  E do outro lado obras que trazem ícones afetivos que despertam a nostalgia em nós. Minha percepção em meio a isso, foi quando estava flanando em meio a exposição, havia um tia e uma sobrinha parada apontando no quadro cada referência que reconhecia, se conectando diretamente com a obra. É interessante como você se encanta e se perde em meio a exposição a tantas referências e obras únicas que há ali.  Os pais do artista em frente a pintura em suas homenagem; Por: João Borges. 1.Tia e sobrinha observando obra da exposição; 2. Obra a qual faz parte da exposição; Por: Inácio de Carvalho A terceira parte da exposição “Se você não me quiser, eu ainda tenho as ruas do Recife (e é como se eu te tivesse)” é extremamente coesa. Do lado esquerdo as obras parecem ser todas uma coleção única e exclusiva, elas são extremamente coesas, é aquele estilo de obra artística que ou você compra todos, ou nenhum. Funciona cada obra sozinha, sim, porém quando ver em conjunto é outro nível de beleza. Ao o outro lado, a obras do artista de âmbito mais comercial e diferente estilos de trabalhos artísticos, nós temos uma obra central que é uma camisa com uma pintura de Maria Bethânia ( e na exposição e no instagram de Matheus tem foto dela segurando a obra), capas de singles dos cantores Joyce Alane e Gael Vilanova, e o poster do filme “Todo amor do mundo” de Caio Arruda. Parte esquerda da 3 parte da exposição; Por: Inácio de Carvalho Agora que já apresentei e mostrei um pouco da exposição, irei tecer comentários gerais da exposição e colocar alguns trechos de uma pequena entrevista que realizei com os curadores e o artista. Stênio Marcos (curador da exposição e idealizador da Casa Clandestina) Matheus Miguel (multiartista) e Ayanne Sobral (curadora da exposição e idealizadora da Casa Clandestina); Por: João Borges. Ayanne Sobral e Stênio Marcos  P: Ayanne Sobral e Stênio Marcos como foi a escolha de Matheus Miguel para a realização dessa exposição?  R: A exposição “Poesia nas Estrelas: a arte entre um domingo e um fevereiro” marca um momento muito especial, a reabertura da Casa Clandestina. A casa precisou ser fechada temporariamente ano passado, em virtude de um arrombamento no antigo endereço. Então precisamos de um tempo para lidar com que aconteceu e de crescer e ampliar o espaço para receber mais pessoas. No momento que reabrimos nossas portas, ter Matheus Miguel foi uma alegria, trazer ele para cá, as suas obras, sua arte a sua poesia. Fez muito sentido ter ele agora nessa abertura para demonstrar no que sentimos e no que acreditamos na música, na literatura e na arte. Matheus expressa isso muito bem na sua arte.  P: Agora que a Clandestina está de casa nova, o que podemos esperar de novas exposições ? R: Em breve nós vamos abrir uma seleção para artistas que desejem expor com a gente. Então, se você é artista e tem um acervo de obras e sente a vontade de expor aqui na Clandestina, segue a gente nas nossas redes sociais @umacasaclandestina  , prepara seu portfólio e se inscreve, quem sabe você será a próxima pessoa a expor conosco. Nossa galeria é pensando para expor artistas que estão aqui pertinho da gente.  Matheus Miguel P: Matheus, como foi o convite para realizar a exposição? R : O convite veio em meados do segundo semestre do ano passado, me senti primeiramente realizado e muito ansioso de ver e dar um passeio em tudo aquilo que tinha feito.  P: Nas suas obras você registra muitos artistas, como é sua conexão com eles? R: A minha conexão com eles é diária, é desde a infância. Eles me inspiram,  é uma questão de identificação, manutenção e legado.  P: Qual é a sua relação com as artes? E seu processo criativo? R: Minhas relações com as artes são muito abrangentes, eu me inspiro em situações cotidianas, vivências não tem uma ordem. Eu demoro um tempo no que quero passar, projetar, envolve muitas coisas. P: Como foi realizar sua primeira exposição em Caruaru? R: Realizar minha primeira exposição em Caruaru foi diferente, mas não foi assustador. Eu tenho muitos amigos na cidade, um apreço pela cultura da cidade de Caruaru. As coisas que envolvem e que brotam são tão bonitas. Acho tudo tão lindo que isso me causa um sentimento de felicidade.  Para encerrar essa matéria, a exposição traz inúmeros sentimentos à flor da pele. Matheus Miguel faz poesias visuais com suas pinturas, desenhos e esculturas. A curadoria e a forma como Ayanne Sobral e Stênio Marcos criaram uma narrativa e conexão com as obras foi magnífico. Os sigam nas redes sociais, até uma próxima exposição de arte.    Repórter dessa matéria, Inácio de Carvalho e o artista Matheus Miguel; Por: Brenno Fraga

  • “Foi Aryel!”: a arte da poesia simples

    Um mergulho no ato de pensar-escrever sobre um “nós” nas métricas e rimas da arte poética. Por: Juliana Pinheiro Foto : Aryel Freire (Podcast Nordestino). Empresário, graduando em direito, poeta e repentista. Aryel Freire, ou Aryel Poeta, é uma figura essencial para a movimentação do cenário cultural regional do interior de Pernambuco. Crescido em Alagoinha-PE, teve contato com a poesia logo cedo, aos nove anos de idade. Ainda criança, participou de competições escolares escrevendo cordéis e, ao chegar em casa, costumava ouvir o pai escutar toadas e cantorias de repentistas, o que contribuiu em seu interesse pela arte. O espaço artístico local do qual Freire faz parte é conhecido por ser a “Terra dos Poetas”. A cidade, localizada no interior do Agreste Pernambucano, tornou a poesia uma constante em sua vida. Desde então, o poeta encontrou novas formas de ressignificar este gênero lírico em outros cenários. Em 2019, no início da pandemia causada pelo vírus COVID-19, passou a publicar os seus poemas em vídeos nas redes sociais. A sua contribuição ao formato digital da poesia é notável. Os versos, assinados por “Foi Aryel!”, marcam uma identidade própria do autor. Com o sucesso dos poemas nas plataformas do TikTok e do Instagram, Freire ficou conhecido em outras regiões do Brasil. A partir das poesias, tornou-se redator na quarta temporada da série de televisão “Os Roni”. Também assina como um dos compositores da música “Nunca Foi Sorte, Sempre Foi Deus”, gravada por Tarcísio do Acordeon e Yury Pressão. Poesia escrita por Aryel. Foto: Juliana Pinheiro A poesia, mais do que versos simples, faz parte de uma tradição oral com raízes líricas e livres que pode ser explorada em diferentes cenários. Da necessidade da escrita, nasce uma narrativa entrelaçada às mais diversas formas de ser e dizer poesia. As regras, abordagens, inspirações e os fragmentos compõem um recorte do cotidiano que atravessa o trabalho individual e contempla um “nós”. Em entrevista exclusiva à Revista Spia, o poeta Aryel Freire explica como a poesia pode ser encaixada e mesclada com várias vertentes do dia a dia. O artista também conta um pouco sobre as suas experiências, opiniões e os desafios durante a sua trajetória e na construção do seu perfil artístico. Espia alguns dos trechos de como foi essa conversa: Juliana Pinheiro (JP): Pode nos explicar como é o processo criativo de escrita da poesia? Aryel Freire (AF): A inspiração para a poesia chega até nós. Se você perguntar a qualquer compositor, essa vai ser a resposta comum. Às vezes, uma palavra, um toque; isso nos desperta. No meu caso, na maioria das situações, eu vejo uma palavra, uma publicação no Instagram, uma frase. Pode ser algo dito por uma pessoa, lido por mim ou até algo que me surge. Tento extrair poesia desses lugares. Quando é bom, eu deixo e guardo. Quando não, eu descarto. JP: Como podemos manter uma essência poética nas metáforas e um perfil individual dentro do meio digital que hoje é rápido e bombardeado por diversos conteúdos? As pessoas se identificam com publicações mais “diretas” agora, algo menos generalista. AF: Percebi que os meus vídeos com mais visualizações eram aqueles em que eu falava em primeira pessoa. Quando dizia: eu, eu, eu. Era mais fácil de chegar no público, porque eram situações comuns aos  meus seguidores. Costumo brincar que escrevo sobre mim, mas milhares de pessoas vivem ou passam pelo mesmo. Isso acaba gerando essa identificação. AF: A constância das postagens é um pouco difícil. Hoje em dia não me cobro tanto. “Tenho que postar três ou quatro vídeos por semana”. Quando a poesia chegar, eu posto, como algo natural. É orgânico. Muitas vezes nem me preocupo com os números. Tenho vídeos com bilhões de visualizações e vários seguidores, porém, a minha intenção é que aquela poesia sirva para alguém. Se tiver apenas uma pessoa sendo ajudada ou identificando-se com ela, é o que me satisfaz. AF: Já recebi mensagens de pessoas com crises de ansiedade ou depressão agradecendo pelas minhas mensagens em vídeos. Isso as motivou a procurar ajuda para estas situações. Acho que esse é o método essencial da poesia, é você tocar no fundo da alma de alguém e ajudá-la de uma forma ou de outra. Vem conferir mais dessa entrevista no canal do Youtube da Revista Spia.

  • A tradição da palha do milho

    Lisoneide Souza e a experiência das mãos que moldam e sustentam a arte da geração, da memória e da criatividade. Por: Juliana Pinheiro Mãos da artesã moldando a palha de milho. Foto: Juliana Pinheiro. O Povoado da Pindoba, situado no interior do Agreste Pernambucano, compõe um dos mais de cinco povoados do município de Alagoinha-PE. Parte de uma importante fonte de renda para o desenvolvimento da área rural, a arte popular é produzida e comercializada pelos habitantes locais. O artesanato, majoritariamente feito por mulheres da região, é o centro da criatividade e das oportunidades da Pindoba. Com peças originadas da palha de milho, o ofício de produção artesanal deu origem à Associação Comunitária de Agricultura e Artesanato da Pindoba, grupo conhecido como Pindoarte, no ano de 1992. O traçado em fibra natural, iniciado por uma das mais antigas moradoras da região, passou de geração para geração e deixou um legado que se mescla até hoje com os costumes da população pindobense. Nascida e crescida na Pindoba, Lisoneide Souza é uma das artesãs da Pindoarte. Pedagoga, mãe e artesã, vive do artesanato a partir da confecção de bolsas de palha. Movida pela curiosidade à arte manual, aprendeu a desenvolver e aperfeiçoar as técnicas da profissão. Tudo começou quando tinha quatorze anos de idade, com o bordado. Incentivada por sua mãe, a prática do artesanato tornou-se parte da sua trajetória. Foto de Lisoneide por: Juliana Pinheiro. Com mais de quatro décadas dedicadas ao trabalho de artesã, Souza faz parte de uma história com enlaces delicados. Afinal, os traçados naturais feitos da palha de milho constroem uma caminhada sobre lutas, motivações, criatividade e orgulho. Em entrevista à Revista Spia, Lisoneide Souza explica como se dá o processo da colheita da matéria prima até a comercialização dos produtos artesanais. Além disso, fala também sobre as inspirações, montagem das peças, desafios, conquistas e da riqueza do artesanato local. Confira a seguir, dois trechos da entrevista: Juliana Pinheiro (JP): As peças produzidas, toda a arte manual daqui (Pindoba), possuem muitos detalhes, histórias e símbolos…, fora a própria técnica que marca essa prática. Pode nos falar um pouco sobre a riqueza, não só de detalhes, mas também da importância do artesanato local para a comunidade e para as pessoas de fora, que recebem e estão em contato com estes produtos? Lisoneide Souza (LS): É uma riqueza muito grande para a comunidade e até mesmo lá fora. Através dessa produção, várias oficinas e trabalhos foram levados para outros lugares. E assim, é uma riqueza. É o nosso “carro-chefe”. Vem de geração em geração, e a comunidade já tentou outros tipos de artesanato, mas o que sustenta mesmo é aquele feito da palha de milho. Nós temos várias experiências. A Associação foi criada a partir das nossas reuniões em escolas. É através dela que temos viajado, ido para o exterior, para feiras livres, para a Fenearte — uma feira mundial — e é muito importante para nós. JP: Interessante como vocês, artesãs, conseguem ter uma dinâmica de interação umas com as outras. Aqui tem o incentivo, dentro da Associação, e vocês podem se acolher, ajudar e trocar práticas. Como é ver outras pessoas da comunidade inspirando-se e criando interesse pelo artesanato? LS: Muitas pessoas acham bonito, é algo diferente. Com a palha de milho você consegue fazer uma bolsa, um chapéu, cintos, bonecas, flores. Alguns veem e não acreditam, então para nós é de grande valor quando alguém se interessa e podemos transmitir isso, passar a nossa experiência para outras pessoas. Quer espiar mais? Confira a entrevista na íntegra no canal do Youtube da Revista Spia.

  • “Por Trás Da Linha De Escudos”: Os Limites Estabelecidos Entre Os Militares e a População

    Documentário de Marcelo Pedroso trás reflexão acerca dos antagonismos e tensões entre grupos como obstáculos substanciais no processo de transformação social Crítica por Louise Farias e Naely Barbosa Foto por Naely Barbosa O principal objetivo do cinema documental é mostrar um aspecto da realidade, sob determinado enfoque e enquadramento, através do olhar de um realizador. Entretanto, acessar o outro pode ser uma tarefa demasiadamente complexa, e nem sempre chega a ser alcançada da maneira como se espera. Da mesma forma, é possível que o diretor tenha uma expectativa inicial do efeito produzido pelo filme, mas o resultado pode assumir uma lógica diferente da desejada – o filme desenvolve vida própria, sua particularidade como obra artística. Algo dessa ordem aconteceu ao longa-metragem Por trás da linha de escudos (2023), de Marcelo Pedroso, que aborda as questões de segurança pública no Brasil, mostrando as ambiguidades da vida militar e assumindo uma postura crítica em relação aos atos realizados por meio dos batalhões de choque pernambucanos. A construção narrativa do documentário se desenvolve em meio à contraposição de pensamentos dos militares e de Pedroso, que além de diretor do documentário é ativista de esquerda. Trecho do Documentário Por Trás da Linha de Escudos A premissa da obra é trazer o Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco e os manifestantes, especialmente os do Movimento Ocupe Estelita, criado em 2012, em um cenário de enfrentamento mútuo. O filme apresenta os conflitos entre os manifestantes, que defendem a não destruição do Cais José Estelita, marco cultural e histórico de Recife, e o Batalhão de Choque que intercede pela decisão que beneficia o Consórcio Novo Recife, composto por grandes empresas imobiliárias, e que criou o Projeto Novo Recife, uma ação que visa a construção de prédios comerciais e residenciais no local. Autor dos filmes Pacific (2009) e Brasil S/A (2014), Pedroso realizou Por trás da linha de escudos seguindo uma abordagem expositiva e participativa; os planos alternam entre cidadãos ativistas na defesa de seus objetivos e policiais se preparando para o combate armado nas ruas. Pedroso atua não somente como observador, mas como personagem em ambas as realidades, conhecendo e entendendo o funcionamento da dinâmica em cada um dos espaços. Apesar de seu posicionamento político claramente definido, o realizador se dispõe a acompanhar e experienciar a rotina dos policiais com o objetivo de conhecê-los para além do pequeno visor presente em seus escudos. Os primeiros contatos entre os militares e a equipe se dão de forma lenta e gradual, na tentativa de conquistar a confiança dos oficiais e soldados. Entretanto, logo é percebido que existem muros comunicacionais entre soldados e civis e, mesmo ao retirarem o escudo policial, a armadura interna segue intacta e intransponível, pois os policiais parecem não conseguir ultrapassar os limites da missão e dever dos quais foram incumbidos. Trecho do Documentário Por Trás da Linha de Escudos A desumanização do indivíduo e a transformação do homem em um soldado, são um dos principais questionamentos do longa. É possível extrair algo de uma das entrevistas que nos intriga e faz pensar sobre o que a função de um policial exige e o que ele precisa, na maioria dos casos, deixar de lado ao vestir a farda. Ao detalhar seu processo de treinamento para o Batalhão de Choque, a soldado Talita revela que durante essa transição, é preciso que o policial molde a si mesmo para estar em conciliação ao que o BPChoque exige. Isso implica pensar na possibilidade de uma inflexibilidade e rigidez serem características que devem estar ativas nos militares na totalidade do tempo, mesmo fora de combate direto. Na tentativa de compreender como a rigidez militar se desenvolve, Pedroso e sua equipe passam a participar dos treinamentos e das operações junto aos soldados; durante as práticas, os policiais expõem a si mesmos à asfixia e até ao vômito, provocados por inalação de gás lacrimogêneo. Pois, durante uma ação de combate, o policial ataca com o gás não só o “inimigo”, mas também a si, uma punição mútua. Nesse sentido, o longa acaba por realizar uma crítica ao sistema de formação dos militares e à lógica de separação do exército que acaba desumanizando o homem para que ele não se reconheça em seu oponente, tornando o brasileiro inimigo dele mesmo. A doutrinação militar utilizada para separar os indivíduos é dura e fere não apenas fora das tropas e bases militares, mas também dentro dela. Ao sentir na pele cada treinamento, Pedroso reflete e considera que, ao ser submetido a um treinamento de longo prazo, talvez até ele fosse transformado em soldado. Muito mais do que evidenciar a rigidez no processo de transição do indivíduo em um soldado, Por trás da linha de escudos resgata o pensamento de emergência para a possibilidade do diálogo entre grupos antagônicos, com cenas e falas que instigam o debate público. O diálogo é a grande arte e riqueza social, construído continuamente entre indivíduos através do exercício de ouvir e compreender o lugar do outro, para caminhar coletivamente em direção à urgente transformação social.

  • RETRATO Raimundo Carrero

    Por Ceres Maria. Raimundo Carrero é um importante escritor pernambucano que possui inúmeras obras de valor cultural com reconhecimento nacional e internacional de seus livros que abrangem vários temas sociais. Nascido na cidade de Salgueiro em 1947, é filho do comerciante de roupas, Raimundo Carrero de Barros e Maria Gomes de Sá. O autor estudou o primário no colégio Estadual de Salgueiro e em sua adolescência cursou Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1969, Raimundo Carrero trabalhou para o Jornal de Pernambuco cumprindo várias funções para a empresa como crítico literário e editor-chefe da redação. O jornalismo foi muito importante em sua vida, exemplificando o seu comentário numa entrevista à ensaísta e professora Heloísa Buarque de Hollanda: "O jornal disciplina, organiza o trabalho de escrever. No jornal você se exibe, perde o medo”. Além disso, trabalhou como assessor de Imprensa da Fundação Joaquim Nabuco, foi presidente da Fundarpe, Fundação de Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco, participou do Movimento Armorial junto a seu amigo Ariano Suassuna, exercendo a função de contista e romancista em 1970. Carrero constituiu o Conselho Municipal de Cultura e o movimento cultural popular por oito anos e lecionou na Universidade Federal de Pernambuco durante os anos 1971 e 1996. Diante disso, o autor descobre o fascínio pela literatura por meio da biblioteca de seu irmão mais velho, em que os livros ficavam localizados embaixo dos balcões da loja de roupas e chapéus de seu pai. Dessa maneira, Carrero passa a ler José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Ibsen e Shakespeare. Mas antes de se tornar escritor, desenvolveu um grupo musical denominado Os Cometas, que consequentemente lhe trouxe uma experiência musical que ao retornar a Recife na década de 70, passou a tocar saxofone para uma banda de rock chamada Os Tártaros. Carrero começou a sua trajetória na escrita utilizando os papéis na loja de seu pai e sua primeira novela foi Grande Mundo em Quatro Paredes, escrita entre 1968 e 1969, mencionado pelo autor como uma “obra de menino”. Criou e mantém a sua Oficina de Criação Literária, que desenvolveu novos literatos. Carrero também escreveu a novela A Dupla Face do Baralho: confissões do Comissário Félix Gurgel, de 1984, publicado pela editora Francisco Alves em convênio com a prefeitura do Recife, proporcionou um intenso crescimento em sua carreira e sucessivamente mais obras foram surgindo. Raimundo Carrero foi eleito em 2004 para a cadeira 3 na Academia Pernambucana de Letras e com o decorrer escreveu 14 livros que lhe rendeu vários prêmios em suas obras, como o seu livro Somos Pedras que se Consomem de 1995, intitulado como uma das melhores obras da época de acordo com o jornal O Globo e selecionada como a melhor obra de ficção pelo Jornal do Brasil. Os seus prêmios literários são: Revelação do Ano, Prêmio de Oswald de Andrade com Viagem no Ventre da Baleia (1986), Prêmio José Condé pelo livro Sombra Severa (1985), concedido pelo Governo de Pernambuco, Prêmio Lucilo Varejão, da prefeitura de Recife, com O Senhor dos Sonhos (1986), melhor romancista do ano de acordo com a Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Machado de Assis, da biblioteca nacional, pelo livro Somos Pedras que Consomem e o prêmio Jabuti pela Câmara Brasileira do Livro, com a obra As Sombrias Ruínas da Alma (2000). Por fim, Para o autor a loucura é uma fuga da realidade daqueles que não querem conviver o com o real que os cercam, mas diz que todos nós somos loucos e comenta algo que seu amigo diz “o pior da vida é a ditadura da realidade”, pois as pessoas que seguem a realidade, o meio burocrático e tudo que cerca o real torna esses indivíduos mais loucos que os loucos. Para Carrero existe uma ordem e o louco é a desordem, e o artista busca organizar essa loucura em suas obras. Portanto, para Carrero o personagem habitual não é interessante, o que lhe instiga a escrever as suas figuras literárias, é a essência lúdica que possuem, como o Matheus da sua obra, o amor não tem sentimentos, que é o seu personagem favorito devido a sua insanidade.

  • “Eu abro neste filme um espaço para que eu possa falar de amor, para que eu também possa me colocar"

    Entrevista e perfil por Sammy. Natara Ney Amor, tempo e memória. Esta é a essência da história do documentário longa-metragem “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem" da diretora, roteirista e montadora, Natara Ney. A pernambucana, formada em jornalismo pela Unicap - PE, cursou Teoria da Montagem na Universidade de Brasília. Em 1993, mudou-se para o Rio de Janeiro onde vive até hoje e trabalha como montadora. Como editora, Natara é reconhecida pelos trabalhos em “Tainá 3” e “Desenrola”, de Rosane Svartman; “O Mistério do Samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor; “Todas as Mulheres do Mundo” e “Separações”, de Domingos de Oliveira; como também nas séries de televisão “Ó Paí, Ó”, de Monique Gardenberg e “Novas Famílias”, de João Jardim, e no documentário “Divinas Divas”, sobre a primeira geração de artistas travestis brasileiras, dirigido pela atriz Leandra Leal. A cineasta negra também dirigiu o curta “Um Outro Ensaio”, sendo este premiado em festivais de Gramado, Rio e Triunfo, o documentário “Cafi”, premiado no Brazilian Film Festival em Los Angeles e o documentário longa-metragem “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem". Na 7ª edição do festival VerOuvindo, no Campus Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, localizado em Caruaru, foi realizada a sessão especial do documentário “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem" com audiodescrição, contando com a presença da diretora para uma rodada de bate-papo. O documentário conta a história sobre um lote com 110 cartas de amor que foi encontrado em uma Feira de Antiguidades, todas escritas por uma moradora de Campo Grande/MS para o seu noivo no Rio de Janeiro. Durante 2 anos, 1952/53, ela relata sobre a paixão e a distância. A partir desta descoberta, uma investigação se inicia para localizarmos este casal apaixonado e descobrirmos o desfecho do romance. Cena de Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem. Direção: Natara Ney Após a reprodução do longa e de tirar um pouco de lágrimas e relatos reais das vivências do público, Natara conversou com a Revista Spia sobre a concepção e a produção do documentário. Além da sua experiência como diretora, roteirista e montadora. Sammy (S): Sua vasta experiência e seu trabalho como roteirista e montadora são amplamente conhecidos, mas como foi o processo de filmagem do longa-metragem, agora no papel e diretora? Natara Ney (NN): Depois desse e até durante esse projeto, eu dirigi outros projetos pequenos. A minha formação como montadora me ajuda muito, porque quando eu vou para o set eu tento ter o máximo possível previsão, eu decupo todas as cenas antes de filmar, por exemplo, nesse projeto aqui, eu fui na feira de antiguidades várias vezes, porque ela foi muito filmada. É uma feira muito conhecida no Rio de Janeiro e eu não queria fazer só uns planos da feira, eu queria que cada plano tivesse um sentido. Então ia muito como o Felipe lá, ficamos passeando, olhando as barracas, até que descobrimos que a melhor forma de filmar seria como se alguém tivesse procurando coisas e ao invés de filmar-la era de frente. Filmamos através de espelhos, através de buracos, para gente dar uma visão de dentro da feira pra fora, a gente tentava ser o olhar de quem estava ali dentro. Então a minha formação de montadora faz com que eu vá para o set como tudo muito decupado, anotado, pensado. Claro que no set de filmagem vamos nos deparar com inúmeras variações, mas eu tento fazer o mais decupado possível, mais desenhado possível, para que se ocorrer alguma variação, eu tenha pelo menos alguma base para onde caminhar. Eu não gosto de ir para o set, achando que vou chegar lá e vou ser a “criativa”, não sou a criativa, a minha criação acontece antes. Até porque o set já vai ter isso, nos preparamos para uma dia de sol e acaba chovendo, nos preparamos para um dia de chuva e faz sol, então se você não tiver tudo muito pensado como quer, você nem acha uma solução de como conduzir as cenas, porque eu também não quero chegar lá com 300 horas de material filmado que você termina nem usando. A minha experiência como montadora faz com que eu pense muito antes de filmar, é isso que me ajuda muito, pensar no que eu quero, quem vou entrevistar, o que eu quero daquela pessoa, porque já está tudo mais ou menos previsto, eu preciso saber o que tirar daquela pessoa, para que tudo que venha, venha como lucro. S - Você é formada em jornalismo pela Unicap de Pernambuco, poderíamos dizer, então, que a busca pelo paradeiro do casal pode se assemelhar como uma investigação jornalística? NN - O jornalismo foi quem me deu esse sul pra eu pensar “Isso é uma matéria, eu encontrei as cartas e preciso saber o que aconteceu com eles”. O jornalismo foi uma base, mas era sobre amor, sobre memória, então a jornalista foi se diluindo na pessoa que está narrando aquela história, o tema não me permite uma concisão, sabe. E a cada coisa que eu descobria, eu chegava a conclusão que não tinha como ser cartesiana nesse processo, porque você imagina: você vai pra uma cidade, que era quase o oposto do lugar onde você nasceu, que foi o que aconteceu como o personagem Osvaldo, ele nasceu no Ceará e foi embora para o Rio de Janeiro, do Rio ele foi enviado para o Mato Grosso do Sul e ele se hospeda em um hotel que fica em frente a casa da mulher por quem ele se apaixonou, casou e viveu por 60 anos, o jornalismo não cabia essa narrativa, eu poderia ter seguido esse caminho da narração jornalística e ter contado a história de maneira mais didática, mas para mim esse formato não cabia. O jornalismo também foi o sul na hora de montar a equipe, porque eu sabia que ia precisar de uma certa agilidade, então já conversei com o fotógrafo, com a produtora, com o assistente de câmera e com o técnico de som e a nossa equipe era isso, cabia todos em um carro. O jornalismo me deu a base para saber conduzir o projeto com o mínimo de pessoas possível. Mas a partir do momento que eu me deparo com a emoção, a partir do momento que cada pessoa que tocava nas cartas e abria sua própria vida para mim, o jornalismo foi se diluindo e foi virando uma coisa mais poética. Trecho de carta em Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem. Direção: Natara Ney S - Estamos vivendo um momento onde as relações e relacionamentos vêm e vão de maneira muito rápida, “Espero que esta te encontre e que estejas bem” pode ser um respiro de alívio, um lembrete para desacelerar? NN- Eu acho que é um lembrete para sermos mais honestos nas nossas relações e pararmos de impor tantas regras, nós colocamos muitas regras nas relações. Eu tenho estudado muito sobre afeto para uma nova série que estou fazendo, que é sobre amor preto e o que acontece, a gente, todos nós, fomos educados para entender que o amor é de uma certa forma e que alguns corpos são possíveis de ser amados e outros não, e que o amor certo é aquele que as pessoas se casam, moram juntos e tem tantos filhos, quase como uma fórmula e não é assim, somos diferentes e cada um de nós vai sentir e demonstrar o amor de uma forma, então acho que o filme mostra que é possível amar e demonstrar várias forma de amor. Nos faz pensar também, o que queremos quando estamos nos relacionando. Eu quero me sentir bem, eu quero me sentir acolhida e respeitada, eu quero me sentir livre, eu quero me sentir pertencendo a aquela relação, eu não quero ter medo do meu companheiro, eu não quero ter que fazer coisas só para agradar meu companheiro ou minha companheira. O filme nos provoca a pensar em afeto e em como queremos nossas relações e não apenas a fórmula que nos é dita como certa. Eu fiz esse filme para falar de amor, porque eu cresci não me vendo nos filmes, séries ou novelas sendo amada. Meu corpo, meu cabelo crespo, minha bunda grande, meu peito grade, claro, eu falo isso na minha vivência, eu tenho 55 anos, agora podemos ver outros símbolos, outras mulheres, você vê a Preta Rara, você vê a Jojo Toddynho, MC Carol, você vê mulheres com outras corporalidades falando de amor, tesão e afeto. Eu não vi isso na minha formação. Então eu abro neste filme um espaço para que eu possa falar de amor, para que eu possa me colocar e dizer que é possível e que o amor existe para todos os corpos. Eu acho que essa é a grande reflexão que temos que fazer. S - A produção cinematográfica nacional tem atravessado momentos delicados nos últimos anos, praticamente um desmonte. Dessa forma, como você enxerga o futuro do cinema? NN - Como eu enxergo o futuro do cinema [...] precisamos respeitar as políticas públicas, principalmente as políticas públicas de inclusão, os editais precisam ser inclusivos, a gente tem que lutar por isso. Precisamos lutar para que exista cinema em Caruaru, para que tenha cinema em Triunfo, para que tenha cinema em Belo Jardim, para que tenha cinema em Arcoverde. Temos que lutar para que as cópias circulem, temos que lutar para a formação de profissionais negros e negras no Brasil e temos que fazer com que essas coisas sejam políticas públicas inclusivas, então eu enxergo o futuro do cinema ainda com muito trabalho a ser feito.

  • O vestido de espumas de Paloma

    Crítica cinematográfica por Leandro Ferreira Em seu mais recente longa-metragem, intitulado Paloma, o diretor Marcelo Gomes configura, a partir dos intentos dos corpos marginalizados, um documentário em forma de ficção. Inspirado em uma história real, somos introduzidos a um curto recorte da trajetória da protagonista Paloma. No cenário do pequeno município de Saloá, com população de apenas 15 mil habitantes, somos apresentados a uma personagem distinta, munida do sonho de formalizar a união de seus laços afetivos na igreja, com uma cerimônia de casamento. A protagonista, homônima à obra do diretor Marcelo Gomes, nos mostra a vontade de potência proveniente de uma mulher trans em busca de sua utopia. Atravessada pela fé e pelo desejo, a vida e o cotidiano de Paloma são perpassados pelo matrimônio: o trabalho rural no Sítio Fernando é intercalado pelos penteados que, realizados por ela, enfeitam a cabeça de suas amigas e ensaiam as possibilidades para o seu grande dia, enquanto em casa, mesmo as brincadeiras de boneca com sua filha atuam em simulacro das expectativas para esse evento. Perpetuado pela ludicidade das ações, o retorno à infância remonta a trajetória que se desdobra sob o olhar dos espectadores, envoltos no ideal onírico do ímpeto e da crença, manifestada entre as conversas que tangenciam preces, romarias, procissões e promessas e capazes de proporcionar a esperança necessária para continuar a enfrentar as labutas diárias. O relacionamento com o parceiro, Zé, passa a ser demarcado por conflitos que se acentuam através de posturas antagônicas, o afeto privado destinado ao casal torna-se cada vez mais claustrofóbico devido aos olhares de julgamento que enclausuram não somente os espaços aos quais estão passíveis de ocupar, mas as experiências às quais estão destinados. As divergências entre os interesses do casal e o consequente desgaste oriundo dos atritos entre o querer de Paloma e o não querer de Zé, cerceados pelo ambiente de hostilidade velada da cidade e suas localidades de lazer, aproximam o casal de uma lacuna cujo espaço passa a ser preenchido por uma outra paixão. O breve envolvimento de Paloma com o motorista do transporte que a leva até o trabalho, Ivanildo, marca uma cisão que só pode ser recobrada pelo intento maior de adentrar a igreja de véu e grinalda, cumprindo os trâmites que antecedem seu final feliz. Visando o distanciamento dos cenários de violência que por muitas vezes estão relegados às existências que transpassam o viés da cisgeneridade, seja na ficção ou na realidade, a trama se esforça nas tentativas de não ser resumida aos sofrimentos enfrentados pela protagonista, entretanto, não os ignora. Em momentos de sutileza, é possível notar os espaços de acolhimento nos quais Paloma pode tecer uma rede de apoio, que, mesmo tidos nas condições de marginais, ressignificam as perspectivas norteadoras de sua história: é nesse sentido que o bordel lhe promove o acolhimento e solidariedade em seus momentos de necessidade. Em contraponto à luxúria que fetichiza a existência desse espaço, tal qual a de Paloma, são tecidos enlaces entre suas condições. Por intermédio deste e de outros espaços, é realizado um movimento de incursão por uma sociofamiliaridade que não adentra os laços sanguíneos, mas que está determinado através da luta contra as condições de precariedade experienciadas por estes corpos desde a epigênese de suas transgressões. Constitui-se assim uma categoria outra de família, na qual “primas” compartilham uma condição social propulsora do estreitamento entre suas similaridades e contradições. Mesmo em consonância aos intentos estabelecidos pelas estruturas que mantém espaços heteronormativos, como a igreja, e cumprindo as normas sociais determinantes para esse espaço, assim como os ritos estipulados por suas diretrizes para a realização de um casamento, Paloma é excluída da possibilidade de adentrar tal evento por sua identidade de gênero. Imparável mesmo diante da sucessão de eventos infortúnios que a circundam, Paloma consegue arquitetar a sua cerimônia em conjunto ao padre Luiz Gonzaga, figura pouco convencional às tradições da igreja. Em uma grande festividade realizada em uma escola municipal, e com mais de 300 convidados, Paloma concretiza seu maior ímpeto. Desfilando até o caminho do púlpito trajada com o vestido de noiva mais caro encontrado, de alvura tão branca quanto o sorriso que ostenta no rosto maquiado, o apogeu finalmente encontra nossa heroína. Afora as paredes que dimensionam essa união para outro âmbito, uma equipe de jornalismo registra tudo com um recorte midiático banhado em sensacionalismo, e aproveitando-se da inocência e felicidade que perpassam Paloma, coletam seu relato em entrevista, apenas para espetacularizar sua vivência como um freak show, criando um ambiente hostil para os recém-casados. Coordenada pela recorte midiático, a rebordosa que se instaura no município reverbera na lua de mel do casal, o revertério toma conta dos círculos sociais mais íntimos do marido, Zé, de modo que sua família e amigos passam a tratá-lo como uma figura jocosa, situação ímpar que provoca a separação entre ele e sua noiva, abandonada na lua de mel. Se desfaz o amor na alvura das pancadas das ondas do mar de encontro a areia, da mesma limpidez da cor do vestido utilizado durante a cerimônia que deveria anunciar a conclusão da sua saga, o tão esperado final merecido. A praia, outrora leito nupcial, se torna também palco para a maior desilusão amorosa da protagonista, que retorna a cidade de Saloá e encontra a violência cada vez mais à tona, impossibilitando sua permanência nesse espaço que cerceia sua vida. Em busca de uma nova possibilidade, Paloma se destina a uma nova caminhada, afora os limites de Saloá, onde possa conviver com serenidade. Talvez uma e única mulher trans entre o pequeno quantitativo de habitantes de Saloá, a personagem principal dessa narrativa é denotativa da totalidade de uma população marginalizada, excluída pelas potências bravias da cisheteronormatividade, cujos espectros atuam enquanto fatores limitantes aos corpos considerados dissidentes, que transmutam os padrões impositivos de uma cultura hegemônica opressiva. A trajetória de Paloma é perpassada pelas estruturas dominantes do país que assassina uma pessoa trans a cada 48h e figura há 13 anos no topo dos índices de crimes de ódio contra essa parte da população. Não assegurado nem o direito básico à existência, figura um movimento de resistência, cuja potencialidade reside em Paloma e muites outres que se distanciam da conformidade de gênero compulsória propagada pela sociedade. O resgate à memória travesti traça um gesto de esperança. Reconfigurar as histórias de amor cujas existências estão limitadas às vidas secretivas revela outros afetos, cujas presenças estão fronteiriças à cartografia heteronomativa.

  • Som ao Redor: Sessão comentada

    Por Ana Carolina Silva Duarte No aniversário de 10 anos do filme “Som ao Redor”, o diretor do filme, Kleber Mendonça Filho, realizou uma sessão comentada no Cinema da Fundação. Ao longo do filme, fiz perguntas sobre sobre a produção, montagem e as inspirações por trás das cenas na narrativa. Antes de iniciar as perguntas, Kleber comenta sobre a cena inicial do filme: “Sempre gostei de abrir o filme mostrando um panorama de sons e imagens que definem o filme, e o bairro em que se passa.” Para você, qual a importância em fazer um filme contornando o dia a dia das pessoas, seu cotidiano? R: “Cenas em que nada acontece dão uma musculatura à vida, ao dia a dia. O percurso dos personagens andando e entrando nos prédios é importante, na construção dos personagens” Mais tarde no final do filme, Kleber comenta que às histórias do cotidiano contam a lógica da vida, neste momento ele fala do desaparecimento da personagem Sofia no filme, já que ela não está mais namorando com João, ela não aparece mais. Como foi o processo de montagem do filme, o corte final se diferencia muito do roteiro original? R: “A montagem do filme demorou 1 ano e 3 meses para a gente terminar”. Ele também fala que, por mais estranho que pareça, o corte final ficou bastante parecido com o roteiro. Ao longo da sessão, Kleber expressa admiração em mostrar os aspectos bons do nosso cotidiano. Ele fala como algumas das cenas presentes no longa, ele viu acontecer em sua vida, como a cena em que a irmã da personagem Bia briga com ela por ter comprado uma TV maior que a irmã. Além disso, o arco dos seguranças da rua foi também algo que aconteceu na rua onde Kleber morava. Kleber fala como o filme expressa a hierarquia urbana presente na rua, fazendo uma analogia com a cena em que Seu Francisco recebe Clodoaldo na sala, e não na área de serviço como antes, pois agora ele tem assuntos do seu interesse com Clodoaldo. Na cena em que mostra o pesadelo, o diretor achou interessante que o som fosse somente o dos passos das pessoas entrando na casa, e a progressão do som dessa invasão. No fim, ele comenta como o filme fala bastante sobre a violência em vários aspectos, na narrativa individual de cada personagem, violência de classe, violência racial e de gênero.

  • Agda na Aurora

    FOTOGRAFIAS Teresa Benassi Volátil, mutante, diáfana e tão estrada, poeira, barro e chão ao mesmo tempo. Retratar Agda em fotografias, descrever em palavras uma criatura que encerra em si o singular e o plural, é desafio ingrato. Impossível traduzir o todo, no máximo consegui capturar alguns retalhos do imenso e multifacetado manto com o qual ela nos abraça dentro e fora do palco, nos emociona e toca n´alma. Não poderia ser diferente o show de lançamento do seu primeiro álbum em Recife: um encontro de águas justamente na rua da Aurora, onde o rio Beberibe, antes de abraçar o mar, encontra o rio Capibaribe, vindo lá de longe do planalto da Borborema, de onde vem Agda, sua música, sua poesia, rima, improviso e exuberância. Na beira d´agua, com as luzes e bandeirolas da nossa conhecida Rural, o "Veículo AutoEmotivo" que faz o show onde chega, com seu “Som na Rural", Agda interpretou tudo, todas as músicas do álbum e mais algumas. Cantou para um público festivo a entoar junto com ela grande parte das canções. Trouxe convidados ao palco, circulou entre os músicos e a plateia; recitou, contou estórias, cantou e encantou a todas e todos, mais do que sempre faz em suas cantorias. Uma celebração, deveras. Em Agda, tudo pode ser e pode até nem ser. Tudo vai ao sabor de um vento poético, melódico ou não, que dança, brinca, voa entre sertão, agreste e até litoral. É arte que pulsa e corre que nem cometa que risca o céu. Fotos: Teresa Benassi Teresa Benassi - artista nascida em Pernambuco. Uso da imagem permitido apenas para fins não comerciais e com o devido crédito da autoria. Mais informações: teresabenassi1@gmail.com

  • Agda, uma narrativa fantástica do agreste

    Crítica musical por Mariana Gonçalves Da rua grande, centro de Santa Cruz do Capibaribe, Agda Bezerra Nunes Moura, bisneta, neta, filha, irmã (d)e poetas. Não tinha como escapar. Cantora e rimadora como o avô; o homem gravador do prata, sertão do Pajeú, ela pertence geracionalmente às tradições do repente e memorialismo da poética sertaneja. Agda é movedora artística: ativa na poesia, música, teatro. Desde criança. Cantora, compositora, atriz, desenhista, multi-instrumentista, autodidata, Agda assina todas as canções do autointitulado álbum de estreia. Potente e difusa, a rima de Agda dá o tom das 17 faixas. Em seus 51 minutos de duração, as odes contam a jornada sensorial e imagética da artista pelo território do palpável e do sonhado, visto ou contado, sentido, sofrido e marcado numa narrativa fantástica do agreste que lhe criou. Unindo territórios e aportando a forma das atmosferas poéticas todas as melodias são preciosamente produzidas por Juliano Holanda; mago das cordas, o violonista de Goiana, mata norte pernambucana, é também cantor, compositor, diretor musical do disco e do show Reverbo: movimentação pernambucanamente diversa que abrange uma crescente e cambiante ruma de cantores, compositores, escritores, mestres da lírica vindos de todo o estado e da qual Agda participa e por qual já interpretou composições contidas no álbum. Agda - Capa do Disco As narrativas são construídas de várias vozes, misturando os tempos e percorrendo cidades, sons, sotaques, silêncios, cacofonia, agonia; calma; divididas em quatro temas, quatro canções cada. Dos parceiros de Reverbo o duo pinça Flaira Ferro (Nem lá Nem Cá), Isabela Moraes (ter sidos) Martins, Almério, Mery Lemos (produtora executiva da Reverbo, assume percussão e empresta voz e riso ao coro feminino de o cigano com Ezter Liu, Joana Terra, Miriam Juvino, Numa Ciro, Paula Tesser e Virgínia Guimarães, esta última, multiartista, cineasta e designer responsável pela identidade visual do projeto). Figuram ainda Lirinha, ator, compositor e cantador de Arcoverde, práxis e palavra potente empresta a voz a bilhete 2. Entre os santacruzenses tarimbados Lara Moura, Olegario Lucena e Fábio Xavier que engrossam o sumo sonoro junto com Isaar, o saudoso Jr. Black, Johann Brehmer e Moringa. Agda verso, produção gráfica: Virgínia Guimarães Mapa Agda - Tempos 1 e 2 Tempo 1 - Apontar 01 - Transversal Envolto em cordas, o vocal cortante é a tônica da faixa que abre o disco. Evocando a beleza misteriosa dos grotões do capibaribe, dos sítios de pomares frondosos, o patrimônio arqueológico e reserva ambiental de onde podem ser vistos ao pé da serra a vila do Pará e o desenho rural numa região onde predominam planícies e as pequenas propriedades. O poço fundo distrito fronteiriço que abriga a barragem do rio que batiza a cidade. A fera solta na feira da rua principal, o centro seco no ‘sol costurando’ uma origem dos áridos motivos do raconto de ser de onde está. 04 - Partida Os violões de agda e Juliano confabulam progressões circulares pra Lara e a passagem entrecortada da terra que leva a arcoverde, sertão e do corte colorido que uma mulher um fruto e um menino pintam no caminho. 05 - Nem lá, Nem cá Mery Lemos dá o nome na percussão energética, ligeira e quente da sinergia Flaira e Agda em verso eufônico num rimado alto astral acerca de ir e saber quando chegar só. Dois reais no bolso e um sonho. 07 - Bilhete a José Declamação de amor no corpo do silêncio, nó fraterno da pura voz de Agda. Resistência do tempo na calma. Na calma da dor: amor, como certeza. Tempo 2 - Dus Doidos “Sinto no corpo do silêncio algo. Uma coisa que queira nos salvar. Eu nem sei nem do quê, nem para quê; mas um dia você me disse que a calma é a maior resistência do tempo. Eu te amo por isso também Nos guardemos na calma da dor. Tenha meu amor como parte da força de ser com a dor escrevendo, com aquele jeito de misturar as coisas e parecer doida misturando tudo o que é bom. poder ser assim com você” 09 - As Lavadeiras Destacando o feminino na confluência de memórias do Capibaribe as sereias-lavadeiras são embaladas nas cordas de Holanda, Olegário, Xavier e na percussão de Johann e Mery. Maria, Tereza, Helena, Inacia; sobrepostas nas vozes de Agda, Jr. Black e Marcello Rangel e no mover do rio à contenda da lida das mulheres dentro do fluxo do mundo. Tempo 3 - Ter Sidos. 11 - O Cigano Camaleão do invisível e artista de estrada a quem nada satisfaz; veste carapuça de 'sonhador cativo da fantasia', impregnado de vicio sorvendo do mundo cada gota de vida. torpe, o vadio se equilibra no ar 'indo e voltando, diluindo e reintegrando', queimando no ultimo suspiro do figurado cambiante cigano o tudo e o nada. Mery Lemos (da Reverbo, assume percussão e empresta voz e riso ao coro feminino de o cigano com Ezter Liu, Joana Terra, Miriam Juvino, Numa Ciro, Paula Tesser e Virgínia Guimarães, esta última, multiartista, cineasta e designer responsável pela identidade visual do projeto). 13 - Bilhete 2 Lirinha e Agda e a poesia onírica e nebulosa do saber que tudo se cabe em si, sem corpo, onde quiser. refazendo o mundo por dentro. Tempo 4 - Poeira 16 - Fora do Eixo Na única composição de Juliano com Agda no álbum a linguagem universal do desamor tem uma intérprete ímpar. À flor da palavra, sentimentos triturados, corpos separados em versos de promessa mantidos na fé e na vontade: esperança em semente viçosa. junto d'o cigano e nem lá nem cá é ponto altíssimo do álbum pela riqueza de imagens e prosa de fino esmero. 17 - A curva da Miroucha De volta ao canto de sombra frondosa com aroma de passado, Agda toma de volta o fio com que costura no bojo da memória retalhos de ser. Realizado com apoio do Funcultura agda é bem resolvido como registro fonográfico e de linguagem, própria e fértil, que não se encerra em si; celebra dinâmicas azeitadas e não deixa arestas a aparar. Mostra razão de ser, maturidade e inventividade de uma artista plena. O show do disco está em circulação e pode ser visto dia 4 de fevereiro em Triunfo dentro do festival donas Marias às 19h na Praça Josias Albuquerque; entrada franca. Cópias físicas de agda estão disponíveis em Recife na Passa Disco: Rua da Hora, 345 Espinheiro e em Santa Cruz do Capibaribe na Farmácia do Trabalhador: Avenida Prefeito Ferraz Filho, 290, Palestina. na DM pro mundo em @agda___ Preço sob consulta

  • Agda costura o céu do agreste na história da música pernambucana com o seu primeiro álbum

    As costureiras, mototáxistas, árvores, feiras, olhos e braços humanos viram movimento e canção nos “ter sidos” de Agda. Entrevista por João Rocha e Nayara Nascimento Foto: Teresa Benassi As encruzilhadas genéticas que perpassam por Agda, já indicavam, ainda muito jovem, a potência transformacional e poética que se encontraria com o público na sua adolescência. Filha, neta e bisneta de costureiras, Agda carrega consigo os sentidos que a feira da sulanca, em Santa Cruz do Capibaribe lhe apresentou. A influência da família paterna impregna através dos sons e da estrada que lhe leva até o sertão da Paraíba, seu avô, Zé de Cazuza é um patrimônio vivo de poesia, seu pai Miguel Marcondes, é cantor e compositor há mais de trinta anos e está à frente da banda Vates e Violas. Agda aglutina suas vivências as paisagens sonoras, visuais e afetivas em muito verso e rima. Utilizando-se de seu imaginário fértil e de uma escrita flutuante, a artista transfigura para as suas composições os encontros, desencontros e a efemeridade profunda da poesia, da arte e da cotidianidade de um dia de sol ou de chuva. Com produção de Juliano Holanda, a carta sonora conta com a participação de vários artistas como: Neide Maria, Fábio Xavier, Flaira Ferro, Almério, Isaar, Isabela Moraes, Mery Lemos, Virginia Guimarães, Joana Terra, Ezter Liu, Olegário Lucena, Jr. Black, Lirinha entre outros. O álbum carrega o seu nome e é dividido em quatro tempos: “Apontar”, “Us Doidus”, “Ter Sidos” e “Poeira”, que foram divididos com quatro canções cada, denotando sua identidade e autoria, sendo possível ser acessado nas plataformas online de músicas ou ser adquirido em formato físico, o disco, tem um encarte bastante especial, como diz a própria artista. Virginia Guimarães é quem produz esse material gráfico que mais parece uma dança, e conta com vários desenhos da artista, a designer nos concedeu uma pequena entrevista também que segue abaixo. Poeta, artista plástica, desenhista, pintora, compositora, produtora cultural, atriz e cantora, Agda, para além de todos os rótulos que agregam seu percurso, é verbo. Agda é uma ação, um movimento cheio de figuras de linguagem, algo difícil de pegar mas tátil demais para se sentir, como vocês poderão compreender melhor com a entrevista, a seguir: Esse é o seu primeiro álbum, e autointitulado, o que ele fala sobre a Agda e sua trajetória até esse momento? Agda é a primeira e a última coisa de mim. Gosto da distância de uma letra para a água e anda o rio Capibaribe aqui dentro. Comecei a cantar colocando meu irmão Raimon pra dormir quando era criança, acho que foi ali que começou a ser feito. Me parece ter a ver com um mapa de encontros, entre escolas, feiras, e gente querida que amo e amei viver. Precisamos desbravar juntos a alegria de existir, a inventividade, a bravura, o ir e voltar de nosso povo agreste. Cheio de carregações, interlúdios do cotidiano vindo do pano, do tecido, e pode ser uma carta, um trajeto de encontros, entregando algo que fui talvez num poema, e na cantoria somos acompanhados pela natureza. Esse disco é parte de um movimento acontecendo em mim e onde vivo, agora mesmo e desde criança, através do chocalho (espaço cultural pensado por Agda, para produções artísticas em Santa Cruz do Capibaribe), das varandas com meus amigos e a base mais (estúdio criativo de arte e design também de Santa Cruz do Capibaribe, gerido por Marcelo Taubert, seu produtor), tem também as costureiras e pessoas arteiras, mototáxistas, árvores, feiras e olhos humanos trazendo motivos de vida, virados em canção. Acreditei inteiramente na palavra, ao entrar numa biblioteca e me sentir voltada a mundos encontrados nas prateleiras e perto dessa época entender também que a rua e as mesas de poesia são como uma grande escola. Pude perceber fronteiras que dizem sobre o que nos tornamos ao atravessar a realidade, a arte, as rádios, os antigos e novos saberes, até onde nos é dado praças e sementes. Respeitar o que se torna o tempo quando a gente sente, perto e longe do que acreditamos. Então o disco pode ser como um bilhete que vem de uma carta que não para de ser escrita, e que sobe e desce a serra vermelha e volta pra rua grande, em frente a tua casa Jones, te chamando na beira do rio *risos* (Jones é um dos codinomes que Agda adora criar e colocar nos amigos/amores, e essa casa, que atualmente moro, tem uma janela onde é possível ver e conversar com o rio Capibaribe). São 4 tempos, de um sítio, só e conjunto, girando dentro do meu juízo. Como foi o processo criativo do álbum? Criar deve ser o estado mais perto do grito mudo. Letras, tintas, máquinas e aspiração a nosso favor, desembocar em uma obra é como intervir e ser interferido ao mesmo tempo. Um nó de cada vez fez minha cidade, o retalho alinhado a outro fez a colcha, a bandeira, fez o traço na identidade de um lugar que recebe o Brasil e seca no sol de cada varal brasileiro. Então venho da situação de crescer dentro da feira como minha mãe, vó, bisavó e trisavó… ao mesmo tempo venho de cantorias no Cariri paraibano, donde venho dos poetas repentistas e de algumas gerações de Zé de Cazuza, meu avô. Foram 5 anos montando um percurso sonoro, arrudiados com Julians (Juliano Holanda), Mery Lemos sua companheira e outras pessoas queridas que estenderam a poesia de inventar o registro permanente. Acredito no improviso como ímpeto humano luminoso, tive dificuldade de visualizar algo que durasse além do que pudesse ser esquecido após acontecer, mas ao aceitar o processo, fui descobrindo sobre a região, a arte e principalmente sobre nossas capacidades sensíveis, sobre as abelhas que beijam jasmins em Recife e que acordam aqui no agreste e lá no sertão, o que somos juntos e singularmente. Fui café com leite várias vezes ao longo da vida, mas sempre feliz por realizar mais devagar e de outras formas as situações propostas a cada medida do tempo, então quatro tempos, de quatro canções, andar pelo meio, foi como… Foto: Teresa Benassi Muitos artistas saem de sua cidade natal, e lançam na capital, porque você foi na contramão disso? Interiorá é uma ideia que anda comigo, anda em meus amigos, adoro acreditar no que a gente é de bom, a arte é manutenção do coração, ajuda a gente a decidir o caráter do futuro, do presente, do passado… conheci crianças de escolas nas zonas rurais de Santa Cruz do Capibaribe, quero dizer que isso me fez perceber que antes, muito antes das coisas grandes, as pequenas e mais simples coisas nos fazem. Geralmente precisamos do mínimo pra nos apontar, flechas de todas as direções, andar interiorante me diz: Vai!! Pra os que sabem ir assim, sabemos ir e voltar, e ficamos aqui por escolher lhe amar!! Essa terra!! Uma hora será preciso aprender a necessidade de não sujar o rio para tê-lo lavando o jeans. Será preciso entender e colher do que todos nós fazemos o rio ser, onde vivem as capivaras, como elas sabem da terra além e muito depois de todos nós, bem como antes, bem antes… vamos entender como chegar ao princípio, a origem das emoções que nos são. Imagino que venhamos do mangaio, da fartura, da pouca matéria e muitas formas de inventar e sobreviver. Vou muito satisfeita nos menores lugares, eles guardam o que avisaremos ainda, do que saberemos. Ainda vamos andar adentro, desbravar miragens e paisagens perto do que estava longe. Observamos que seu álbum tem participação de diversos artistas da região e locais como Fábio Xavier, Olegario Lucena, Isabella Morais, Lirinha, Virgínia Guimarães. Qual o significado que essas participações têm pra você e como essas colaborações foram feitas? A poesia continua em cada parte de um caminho, alguns, e todos nós levamos juntos o interior de cada capital que ao redor é muito maior, é um espaço grande demais para criação e possibilidade. Encontrar essas pessoas queridas é como abraçar cada pedaço da terra do que somos, o sonho que é em nós, juntar verso é avivar o encontro, a disposição inspirativa, o motivo maior, como caminhar e abraçar artistas que trazem a fruta do imaginário. Queremos continuar, encerrar e levantar ideias. Estamos percebendo juntos como fazer isso? Sim, interligando, aprendendo. O trânsito é uma força do povo da gente. Foto: Teresa Benassi Agda, esse álbum tem várias peculiaridades que fogem desse caminho habitual sonoro que outros artistas fazem, como a inserção de um áudio para um amigo, a presença de uma passagem sonora falada com ruídos e atravessamentos, me fala um pouco do que isso representa para você. A minha trisavó chamava Maria Serrote, ela cortou o mato de uma trilha onde as crianças passavam pra ir à escola, é a partir disso que confio no que a dor e a alegria oferecida desbravam no vivido. Então, o verso livre vem como corredor, atalhos inventados para validar o sentimento acontecido em quem acorda ao inerente modo; a curva, ao paralelo, o contrário modo, o abismo entre o pavão e a pena. Estou aprendendo a ouvir e dizer, criarei o meio dizendo livremente memórias, o ocorrido, a ida, a volta, vamos dizer… A metáfora e a sensibilidade com as palavras são um dos pontos encantadores do teu disco, como no trecho da música A curva de miroucha: “piso na sombra da gameleira, piso na feira, sulanca, mangaio, retalho, couro e algodão”, ao tempo em que o sensível nos invade por meio dessas palavras, teu disco é também composto de muitas denúncias, onde tu enche/preenche teu bisaco de poesias, e você enxerga esse disco como uma ação política? Cada música tem um desenho, um estudo de cores… dedico às pessoas que mudaram e atribuíram a multiplicidade da vida, o gosto pela arte e o sabor das frutas. Vejo estas canções como um conjunto de sons que andou comigo, para andar ainda e talvez, por isso, passageiras, seja isso um dos vínculos que essa feitura atenta, por onde escolhemos passar e ser, como vamos e voltamos. Estas canções vieram, principalmente, de experimentações humanas acontecidas em: escolas públicas, feiras, praças e a varanda da casa de minha mãe...também o teto da casa de Flau (Marcelo Taubert), o quintal onde cresceu Ofélia (nome da gameleira que brotou do concreto na casa em que Agda morou), o café com Anita, a palmeira do sítio São Francisco, o pé de umbu e as gameleiras da Rua Grande... Creio que ouvir, e dizer, seja parte do maior ato político global que atravessamos, estamos na busca de entender como participar desse giro, alargando as possibilidades artísticas e a valoração ao ser humano em sua existência. As práticas que nos fortalecem, e criam impulsos de saberes contínuos. A poesia e as palavras são ferramentas que tocam no mais sensível tangido pela memória. Estamos no meio de bandeiras invisíveis e reais, levo algumas com outras e vejo o mover acontecer, o êxodo urbano, a feira… Como viver essas pessoas e o rio, o que faremos com essa situação é o nosso ato político. Nascida no sertão Pernambucano, a estudante de design Virgínia Guimarães, participou do concebimento do disco "Agda". Virgínia experimenta as artes visuais, sonoras e o design em projetos pessoais no estúdio de arte e design Base/Mais, no Chocalho, coletivo de arte e educação e no laboratório de audiovisual Punctum Filmes, este, fundado com amigos em 2017. No disco realizou o design do encarte e teve participação na canção intitulada “O Cigano” com outros nomes como Ezter Liu, Mery Lemos, Miriam Juvino, Numa Ciro e Paula Tesser. Virgínia também participou da produção do disco juntamente com Marcelo Taubert. Em entrevista, nos conta um pouco de sua veia artística e de sua participação no disco "Agda". Virginia Guimarães. Foto: Nayara Nascimento Primeiro eu queria que você falasse sobre você, dessa tua veia artística, como você se vê, quem é Virgínia? Eu sou estudante de design e estou me formando na Universidade Federal de Caruaru e artista desde família, dos pais. Então essa veia artística que também permeia a cidade, a costura também, que é uma arte. Então crescer nessa cidade também me transformou numa artista, me levou por esse caminho, no caminho das artes visuais e das artes sonoras e também do audiovisual, do cinema, da fotografia. Então, são muitas áreas aí que a gente se alarga, então também na produção e do design, enfim, para além. E você também faz parte da Punctum, não é? Me conta, como surgiu a Punctum Filmes? Surgiu em 2017, concomitantemente, quando nasceu o primeiro filme, Palestina Brasil. A Punctum nasceu com ele, que foi uma ideia da minha mãe, que é agente de saúde comunitária, que queria que a gente fizesse um filme sobre algumas pessoas do bairro. Então a gente se uniu, né? Amigos que também sabem de fotografia, um pouco de produção, um pouco de jornalismo, então se juntou para realizar, né? Porque se não tem a gente, a gente tem que fazer, sabe? E aí a gente deu nome a isso, né? Então é isso. E desde então a gente vem fazendo algumas produções. O primeiro filme foi Palestina Brasil, que é um documentário e a gente já fez outras coisas também, mais experimentais, animação, ficção e sempre também trazendo questões da cidade, da nossa região, sabe? E surgiu em 2017 e desde então a gente está produzindo. Créditos, Produção Gráfica: Virgínia Guimarães Em relação ao trabalho agora com Agda no disco, eu vi que você realizou a produção do design do encarte, como foi essa tua experiência? Foi o meu primeiro projeto assim de disco. Nunca havia feito e foi um grande desafio e que foi um grande mergulho também, com ela e comigo e com todos nós, porque não foi construído só por mim, foi construído também com ela e com todos. Foi uma experiência transformadora descobrir também como aplicar artisticamente no design uma coisa tão profunda que diz também sobre mim, porque o disco também fala muito sobre a cidade. Como é que você vai contar em imagens todas essas cores, todos esses sabores que é Agda também, sabe? E que é a gente também. Achei muito bom e muito transformador e muito feliz de que eu seja daqui, que ela tenha me convidado, que ela seja daqui, então, pra gente tentar traduzir em imagens, em design. E toda essa história que é parte da gente também. Como você enxerga a representatividade cultural aqui de Santa Cruz? Do que que a gente realmente precisa para esse fortalecimento e essa movimentação cultural aqui na cidade? Engraçado, você fala do movimento, né? O movimento existe enquanto ele está acontecendo, né? E acredito que a cidade é cheia de artistas, cheia de trabalhadores, de costureiras, de vendedores, de imigrantes, de gente que mexe com teatro, de gente que mexe com música, gente atenta ao mundo, gente sensível, Poetas aqui na nossa cidade existem, mas a gente precisa que o movimento se engate, né? E de onde ele vem também, né? De várias e várias frentes, políticas públicas. Toda essa história que a gente já conhece e que é necessária a difusão, apoio dos órgãos públicos. Porque tem muito artista aqui, muita gente sensível. Eu vejo uma cidade muito potente nesse sentido. Temos a Novo Século, que é a primeira banda, a banda mais antiga da cidade, né? A cidade tem 70 e poucos anos de emancipação, a Novo Século tem mais de 120. Uma coisa que vem antes desse nome. Uma terra que antes de ser Santa Cruz, era o nome indígena Tapera, nome de riacho, que é o riacho onde eu nadei quando eu era criança. Então isso é muito importante, né? Por isso que eu não deixo que chamem a cidade bolsonarista, sabe? A diferença de votos foi muito pouca. Aqui tem muita gente trabalhadora, sabe? É isso, muita gente artista. Teresa Benassi - artista nascida em Pernambuco. Uso da imagem permitido apenas para fins não comerciais e com o devido crédito da autoria. Mais informações: teresabenassi1@gmail.com

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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