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  • Foto do escritorRevista Spia

O vestido de espumas de Paloma

Crítica cinematográfica por Leandro Ferreira



Em seu mais recente longa-metragem, intitulado Paloma, o diretor Marcelo Gomes configura, a partir dos intentos dos corpos marginalizados, um documentário em forma de ficção. Inspirado em uma história real, somos introduzidos a um curto recorte da trajetória da protagonista Paloma. No cenário do pequeno município de Saloá, com população de apenas 15 mil habitantes, somos apresentados a uma personagem distinta, munida do sonho de formalizar a união de seus laços afetivos na igreja, com uma cerimônia de casamento. A protagonista, homônima à obra do diretor Marcelo Gomes, nos mostra a vontade de potência proveniente de uma mulher trans em busca de sua utopia.


Atravessada pela fé e pelo desejo, a vida e o cotidiano de Paloma são perpassados pelo matrimônio: o trabalho rural no Sítio Fernando é intercalado pelos penteados que, realizados por ela, enfeitam a cabeça de suas amigas e ensaiam as possibilidades para o seu grande dia, enquanto em casa, mesmo as brincadeiras de boneca com sua filha atuam em simulacro das expectativas para esse evento. Perpetuado pela ludicidade das ações, o retorno à infância remonta a trajetória que se desdobra sob o olhar dos espectadores, envoltos no ideal onírico do ímpeto e da crença, manifestada entre as conversas que tangenciam preces, romarias, procissões e promessas e capazes de proporcionar a esperança necessária para continuar a enfrentar as labutas diárias.


O relacionamento com o parceiro, Zé, passa a ser demarcado por conflitos que se acentuam através de posturas antagônicas, o afeto privado destinado ao casal torna-se cada vez mais claustrofóbico devido aos olhares de julgamento que enclausuram não somente os espaços aos quais estão passíveis de ocupar, mas as experiências às quais estão destinados. As divergências entre os interesses do casal e o consequente desgaste oriundo dos atritos entre o querer de Paloma e o não querer de Zé, cerceados pelo ambiente de hostilidade velada da cidade e suas localidades de lazer, aproximam o casal de uma lacuna cujo espaço passa a ser preenchido por uma outra paixão. O breve envolvimento de Paloma com o motorista do transporte que a leva até o trabalho, Ivanildo, marca uma cisão que só pode ser recobrada pelo intento maior de adentrar a igreja de véu e grinalda, cumprindo os trâmites que antecedem seu final feliz.

Visando o distanciamento dos cenários de violência que por muitas vezes estão relegados às existências que transpassam o viés da cisgeneridade, seja na ficção ou na realidade, a trama se esforça nas tentativas de não ser resumida aos sofrimentos enfrentados pela protagonista, entretanto, não os ignora. Em momentos de sutileza, é possível notar os espaços de acolhimento nos quais Paloma pode tecer uma rede de apoio, que, mesmo tidos nas condições de marginais, ressignificam as perspectivas norteadoras de sua história: é nesse sentido que o bordel lhe promove o acolhimento e solidariedade em seus momentos de necessidade. Em contraponto à luxúria que fetichiza a existência desse espaço, tal qual a de Paloma, são tecidos enlaces entre suas condições.


Por intermédio deste e de outros espaços, é realizado um movimento de incursão por uma sociofamiliaridade que não adentra os laços sanguíneos, mas que está determinado através da luta contra as condições de precariedade experienciadas por estes corpos desde a epigênese de suas transgressões. Constitui-se assim uma categoria outra de família, na qual “primas” compartilham uma condição social propulsora do estreitamento entre suas similaridades e contradições. Mesmo em consonância aos intentos estabelecidos pelas estruturas que mantém espaços heteronormativos, como a igreja, e cumprindo as normas sociais determinantes para esse espaço, assim como os ritos estipulados por suas diretrizes para a realização de um casamento, Paloma é excluída da possibilidade de adentrar tal evento por sua identidade de gênero.


Imparável mesmo diante da sucessão de eventos infortúnios que a circundam, Paloma consegue arquitetar a sua cerimônia em conjunto ao padre Luiz Gonzaga, figura pouco convencional às tradições da igreja. Em uma grande festividade realizada em uma escola municipal, e com mais de 300 convidados, Paloma concretiza seu maior ímpeto. Desfilando até o caminho do púlpito trajada com o vestido de noiva mais caro encontrado, de alvura tão branca quanto o sorriso que ostenta no rosto maquiado, o apogeu finalmente encontra nossa heroína. Afora as paredes que dimensionam essa união para outro âmbito, uma equipe de jornalismo registra tudo com um recorte midiático banhado em sensacionalismo, e aproveitando-se da inocência e felicidade que perpassam Paloma, coletam seu relato em entrevista, apenas para espetacularizar sua vivência como um freak show, criando um ambiente hostil para os recém-casados.


Coordenada pela recorte midiático, a rebordosa que se instaura no município reverbera na lua de mel do casal, o revertério toma conta dos círculos sociais mais íntimos do marido, Zé, de modo que sua família e amigos passam a tratá-lo como uma figura jocosa, situação ímpar que provoca a separação entre ele e sua noiva, abandonada na lua de mel. Se desfaz o amor na alvura das pancadas das ondas do mar de encontro a areia, da mesma limpidez da cor do vestido utilizado durante a cerimônia que deveria anunciar a conclusão da sua saga, o tão esperado final merecido. A praia, outrora leito nupcial, se torna também palco para a maior desilusão amorosa da protagonista, que retorna a cidade de Saloá e encontra a violência cada vez mais à tona, impossibilitando sua permanência nesse espaço que cerceia sua vida. Em busca de uma nova possibilidade, Paloma se destina a uma nova caminhada, afora os limites de Saloá, onde possa conviver com serenidade.


Talvez uma e única mulher trans entre o pequeno quantitativo de habitantes de Saloá, a personagem principal dessa narrativa é denotativa da totalidade de uma população marginalizada, excluída pelas potências bravias da cisheteronormatividade, cujos espectros atuam enquanto fatores limitantes aos corpos considerados dissidentes, que transmutam os padrões impositivos de uma cultura hegemônica opressiva. A trajetória de Paloma é perpassada pelas estruturas dominantes do país que assassina uma pessoa trans a cada 48h e figura há 13 anos no topo dos índices de crimes de ódio contra essa parte da população. Não assegurado nem o direito básico à existência, figura um movimento de resistência, cuja potencialidade reside em Paloma e muites outres que se distanciam da conformidade de gênero compulsória propagada pela sociedade. O resgate à memória travesti traça um gesto de esperança. Reconfigurar as histórias de amor cujas existências estão limitadas às vidas secretivas revela outros afetos, cujas presenças estão fronteiriças à cartografia heteronomativa.


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