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  • Fred Jordão e sua jornada pela fotografia dentro da diversidade cultural em Pernambuco

    Como surgiu o fotógrafo Fred e sua paixão em fotografar o Nordeste e toda a sua diversidade cultural e social, para além da fotografia comercial. Fotografia: Fred Jordão/Web (Cinema Pernambucano) Fotógrafo há mais de 30 anos, o pernambucano Fred Jordão nascido em 1964, passou a maior parte de sua infância na capital do Rio Grande do Sul e com 16 anos se mudou para Brasília, onde entrou na área de comunicação, cursando Jornalismo no Centro Universitário de Brasília. Mais adiante aos 21 anos retornou a Recife ingressando na fotografia em 1986, aos 22 anos terminou sua graduação no curso de Comunicação Social na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), no ano de 1988. Jordão já foi jornalista fotográfico do Jornal do Comércio (1989-1991), e Diário de Pernambuco (1993-1994). Ele destaca que seu contato com a arte vem desde muito jovem, desde as sessões de cinema organizadas pelo seu pai em sua casa na infância. Mesmo afirmando que leva a fotografia como algo mais profissional voltado em sua maioria para o jornalismo, confirma que ela se torna arte quando leva informação ao cidadão comum e faz com que conheça outras pessoas e suas histórias. Dessa forma, sua conexão com esse meio se deu após ganhar uma máquina fotográfica, ele fala que nunca pensou em trocar de profissão e sempre gostou do que faz. Adiante na carreira do fotojornalista pernambucano, Fred Jordão já participou da filmografia de diversos filmes e documentários como, O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000), Baile Perfumado (1996), Clandestina Felicidade (1998), Acqua Movie (2019), Comida é Arte - Terroir Brasil (2020), e O Circo voltou (2021). Além de produzir diversos fotolivros, alguns sendo de forma colaborativa, cada um carrega sua própria essência e significado, desde Sertão Verde-paisagens (2012), no qual tinha o desejo de mostrar o Sertão moderno, o impacto da globalização naquela localidade, mostrar o outro lado, a fim de desconstruir o estereótipo de negatividade que é dada a essa região. Como também, “Eu vi o mundo” (2006), que transmite o desejo de mostrar o revolucionário movimento manguebeat. Não esquecendo do Projeto Lambe-Lambe (1995), que conta com parcerias de fotógrafos do estado de Pernambuco, onde montaram um estúdio de fotografia a céu aberto para contar um pouco sobre a história do carnaval de Recife, e o livro intitulado de RECIFE, mostrando o antes e o depois da capital e como ela se modificou durante anos, sendo publicado no ano de 2018 e concorreu ao prêmio Jabuti em 2021. Fotografia: Fred Jordão/Web (Cinema Pernambucano) Fred Jordão é conhecido pelas suas exposições, algumas delas já conhecidas Brasil afora, todas focando nas belezas e culturas nordestinas, em especial no seu estado Pernambuco, no qual conta que o motivo que leva a isso, é a riqueza e diversidade que se guarda, sendo um estado vasto e com muitas histórias para serem contadas de perspectivas divergentes. Apesar dos grandes feitos dentro da fotografia e de uma carreira brilhante, diz encontrar dificuldades por falta de visibilidade e verba para essa cultura, se investisse mais culturalmente, se teria mais trabalhos fotográficos. Se tem público, conteúdo e profissionais, o que falta é o investimento financeiro, afirma Fred Jordão.

  • Curta estreia em Toritama e discute o estereótipo entre as mulheres e o jeans

    Obra é trabalho de conclusão de curso de estudante da UFPE Por Joebson José (Fotografia: Sheyla Caroline) A cidade de Toritama, conhecida como a “capital do jeans”, recebeu a estreia do filme “No Fio do Destino: Mulheres e Jeans em Toritama”, dirigido por Valdenilson Henrique, conhecido também como Romeu. Com uma abordagem diferenciada, a obra busca desmistificar a imagem estereotipada da cidade apenas como polo de trabalho, revelando pessoas e histórias por trás do ouro azul do Agreste, a peça de jeans. Acompanhando o processo de criação na indústria, vemos três mulheres contarem as suas vivências e relações de trabalho na cidade de Toritama, que integra o maior Polo de Confecções do Estado, junto com os municípios de Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe. Ao trazer uma nova perspectiva sobre a dinâmica da cidade, o curta-metragem explora histórias reais de pessoas que possuem grande experiência na área de confecções de jeans, e que mesmo envoltos na indústria, possuem um tempo destinado ao lazer. A estreia ocorreu no cinema de Seu Aurélio, um ponto de cultura que exemplifica a riqueza cultural na cidade. O curta é o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Romeu, estudante do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA). (Fotografia: Sheyla Caroline) Em uma entrevista exclusiva para a Revista Spia, o diretor revela as motivações e os desafios por trás de "No Fio do Destino: Mulheres e Jeans em Toritama". Confira a seguir os principais trechos dessa conversa: Como é ver as pessoas prestigiando seu filme após o longo trabalho de pesquisa e produção? Ah, é incrível, sabe Joebson? Como cineasta, meu papel é contar histórias. Desta vez, tive uma responsabilidade imensa: mostrar, através do cinema, uma nova perspectiva sobre Toritama. Ver a equipe e o público se envolvendo com o filme, compartilhando suas próprias experiências que se conectam com as histórias que contamos, e perceber como quebramos estereótipos sobre os habitantes da cidade, que muitas vezes são reduzidos apenas ao trabalho, é extremamente gratificante para mim. O que você espera alcançar com o filme? Quais seus objetivos com ele a partir desse lançamento? Bom, acho que meu principal objetivo já está sendo alcançado, que é justamente quebrar esses estereótipos sobre Toritama. Ver o acolhimento positivo dos habitantes ao filme já me faz sentir que estou no caminho certo. No futuro, quero levar essa nova visão para os festivais de cinema, compartilhando com mais pessoas e desafiando essa ideia limitada que muitos têm da cidade. Você exprime no filme sua visão de que a cidade é mais que uma indústria do jeans, poderia falar sobre isso? Sim, Toritama é, sem dúvida, muito mais que uma cidade do jeans, e isso foi algo que quis deixar claro no filme através das histórias das entrevistadas. Cada uma delas traz uma perspectiva única que vai além do trabalho nas fábricas. Toritama é feita de pessoas que têm sonhos, valores e uma forte conexão com sua terra. A cidade carrega uma rica cultura, uma história de resistência e um espírito comunitário que não se limita ao jeans. O filme busca revelar essas camadas, mostrando que, por trás da imagem industrial, existe uma cidade viva, cheia de histórias e de pessoas que merecem ser vistas em toda a sua complexidade. Como foi o processo de pesquisa sobre a vida das mulheres trabalhadoras de Toritama? A roteirista Luzia Tôrres fez um trabalho impecável, pois o processo de pesquisa sobre a vida das mulheres trabalhadoras de Toritama foi complexo. A seleção das participantes não foi fácil, pois muitas estavam hesitantes em compartilhar suas histórias e abrir suas vidas para minha equipe. Mas, ao longo da pesquisa, encontramos três mulheres cujas histórias me surpreenderam e me tocaram profundamente, Juliana, uma designer que se tornou modelista e decidiu permanecer em Toritama, Eroniza, uma técnica de enfermagem que optou por seguir como costureira e Eduarda, uma administradora que preferiu trabalhar como vendedora na loja da família . Assim, o que mais me surpreendeu foi perceber como cada uma delas fez escolhas baseadas em uma paixão genuína pelo que fazem. Quais foram os maiores desafios que a equipe enfrentou durante as filmagens e por que você acha que eles aconteceram? Nossa maior dificuldade foi nos distanciar da estética e da abordagem de filmes anteriores, como "Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar" (2019), de Marcelo Gomes. Desde o início, meu objetivo foi construir uma narrativa visual que trouxesse uma nova perspectiva sobre Toritama, evitando os ambientes e enquadramentos já explorados. Queria criar algo único, uma resposta tanto em termos de fotografia quanto de narrativa, que mostrasse uma Toritama diferente, longe dos estereótipos e das visões já estabelecidas. O desafio foi justamente romper com essas interpretações imaginativas criadas por cineastas e trazer uma leitura mais fresca e autêntica da cidade e de suas histórias. (Fotografia: Sheyla Caroline)

  • 11º Festival de Cinema de Caruaru realiza exibições gratuitas

    O evento estará em cartaz durante os dias 28 e 31 de Agosto Por: Joebson José (Fotografia: Ythalla Maraysa) Teve início na noite desta quarta-feira (28) as exibições da 11ª edição do Festival de Cinema de Caruaru. As sessões são gratuitas e acontecem a partir das 19h, no Teatro João Lyra Filho, e contam com filmes nacionais e internacionais, que integram as mostras Pega Leve, Latino-Americana, Fantásticos, Agreste e Brasil. A programação desta edição conta com 55 filmes, selecionados a partir de 928 inscrições. A primeira etapa das exibições já foi realizada, entre os dias 12 e 16, com as Mostras Infantil e Adolescine nas escolas públicas da cidade. Além disso, o evento promoveu a Mostra Itinerante Acessibilidade, na sede da Associação de Pessoas com Deficiência de Caruaru (APODEC). O encerramento do festival acontecerá no próximo sábado (31), com a realização da Mostra Especial Caruaru e a premiação dos filmes exibidos. Mais detalhes da programação do evento podem ser encontrados em: https://festivaldecaruaru.com.br/. (Fotografia: Ythalla Maraysa) Confira a programação: Quarta-feira (28) Mostra Pega Leve: Paraíso, dir. Valentina Salvestrini, São Paulo – SP, 12 min, 12. Mostra Latino-Americana Tênue, dir. Leonardo Pérez, Venezuela, 13 min, 12. Doença do Sono, dir. Cristiano Paiz, Guatemala, 4 min, 16. Para as Memórias, dir. Rodrigo Ugalde, México, 17 min, L. Na Bolha, dir. Valeria Pérez Delgado e Florencia Fernández, Argentina, 12 min, L. Dias de Chuva, dir. Ainara Iungman, Argentina, 15 min, 14. Mostra Fantásticos: Encruzilhada Bar, dir. Johann Jean, Natal – RN, 10 min, 12. Dia de Preto, dir. Beto Oliveira, Piracicaba – SP, 15 min, 12. Autocuidado, dir. Sofia Pires, São Paulo – SP, 8 min, L. Noite de Jogos, dir. Stefany Taglialatella, São Paulo – SP, 20 min, 14. Guimbo, dir. Giordano Benites, Porto Alegre – RS, 9 min, 12. Mau Presságio, dir. Rhodes Madureira, Belo Horizonte – MG, 4 min, 14. Lá Fora, dir. Louis Fernanda, Caruaru – PE, 2 min, L. Quinta-feira (29) Mostra Pega Leve: Operação Enjoei do Bingo, dir. Vinicius Damasceno, São Paulo – SP, 6 min, L. Mostra Agreste: Para Onde Eu Vou?, dir. Fabi Melo, Campina Grande – PB, 6 min, L. Ordenação, dir. José Railson, Campina Grande – PB, 8 min, 12. Flor do Coco, dir. Vinícius Tavares, Toritama – PE, 15 min, L. O Rebanho de Quincas, dir. Rebeca Souza, Boa Vista – PE, 11 min, L. O Canto, dir. Isa Magalhães e Izabella Vitório, Arapiraca – AL, 15 min, L. Mostra Brasil: Não Olhe Para Mim, dir. Natasha Atab, São Paulo – SP, 10 min, L. Onde as Flores Crescem, dir. Fabrício de Lima, Santos – SP, 15 min, L. O Sacro e o Profano de Araújo e Verônica, dir. Rivanildo Feitosa, Teresina – PI, 15 min, 16. Conexão, dir. Julie Ketlem, Caruaru – PE, 15 min, L. Terminal, dir. Getsemane Silva e Guilherme Bacalhao, Brasília – DF, 15 min, 14. Aquela Mulher, dir. Marina Erlanger e Cristina Lago, Rio de Janeiro – RJ, 14 min, L. Expresso São Valentim, dir. Guilherme Ayres e Luiza Torres, Santos – SP, 14 min, L. Dinho, dir. Leo Tabosa, Recife – PE, 20 min, L. Sexta-feira (30) Mostra Pega Leve: Sonata Beladona, dir. Antônio Rafael, Aracaju – SE, 13 min, 14. Mostra Agreste: Graffito, Logo Existo, dir. Leandro Machado, Caruaru – PE, 18 min, 10. La Ursa, dir. Joebson José, São Caetano – PE, 9 min, L. Black Out – A História Apagada no Palco da Arte, dir. Renan Oliveira, Caruaru – PE, 15 min, 12. Drag Queens em Cena: A Expressão de Almas Artísticas, dir. Alana Pereira, Caruaru – PE, 9 min, L. Mostra Brasil: Diga ao Povo que Avance, dir. Evelyn Freitas, Mossoró – RN, 15 min, L. Dona Taquariana, Uma Cabocla Brasileira, dir. Abimaelson Santos, São Luis – MA, 14 min, L. Dente, dir. Rita Luna, Camaragibe – PE, 20 min, L. Eu Não Sei Se Vou Ter Que Falar Tudo de Novo, dir. Vitória Fallavena e Thassilo Weber, Rio de Janeiro – RJ, 14 min, L. Umbilina e Sua Grande Rival, dir. Marlom Meirelles, Bezerros – PE, 20 min, L. Pequenas Insurreições, dir. William de Oliveira, Curitiba – PR, 13 min, 10. Samuel Foi Trabalhar, dir. Janderson Felipe e Lucas Litrento, Maceió – AL, 16 min, 10. Sábado (31) Mostra Especial Caruaru: Cultura em Movimento: O Hip-Hop em Caruaru, dir. Igor Lira, Caruaru – PE, 20 min, 12. Abandono Urbano: Uma História não Contada do Alto do Moura, dir. Keyliane Maria, Caruaru – PE, 10 min, L. (Fotografia: Ythalla Maraysa)

  • Mostra Janelas para Equidade realiza exibições gratuitas de filmes com recursos de acessibilidade em Caruaru

    A programação acontece em 21 e 22 setembro, na Estação Criativa Por Madu Rodrigues Neste mês, Caruaru receberá sua primeira mostra de cinema com foco exclusivo na acessibilidade, pensada com e para pessoas com deficiência. Intitulada Mostra Janelas para Equidade, a iniciativa é pioneira na região e contará com exibição de 22 filmes, além da realização de apresentações culturais. A programação é gratuita e acontecerá nos dias 21 e 22, na Estação Criativa (antiga Estação Ferroviária). "A Mostra surge de um movimento de inquietação, após a escuta ativa de pessoas com deficiência. Neste processo, foi perceptível o desejo delas de vivenciar a cultura de forma plena, especialmente no território local. Muitas expressaram o interesse pelo cinema, mas não apenas para ver suas vidas retratadas nas telas. Elas desejam filmes acessíveis que permitam acessar todos os gêneros, como ficção, comédia, aventura e romance", explica a coordenadora e idealizadora do evento, Rhaynara Janaina. Para conseguir atender a esse público com mais precisão, a mostra conta com uma equipe de consultoria de acessibilidade composta por três pessoas com deficiência: Clebison Alves, Lucy Tertulina e Esnande Quirino. Além disso, todas as exibições incluirão pelo menos um recurso de acessibilidade, como audiodescrição, Legendas para Surdos e Ensurdecidos (LSE) e Libras. Após as exibições dos filmes, que contemplam diversos gêneros, também serão realizados debates com convidados. A curadoria da programação, que será divulgada no começo do mês de setembro, é assinada por César Caos, Ana Carolina, David Garcia, Rhaynara Janaina e Amanda Lima. A mostra tem coordenação e produção executiva de Rhaynara Janaina, produção executiva de Cecília Távora, assistência de produção de Letícia Cavalcante, produção de acessibilidade de Amanda Lima, produção geral de Ana Carolina, e assistência de produção de David Garcia. O design e a comunicação ficam a cargo de Bianca Carvalho e Dani Melo, do Estúdio GiraCoco. Mais informações estão disponíveis no Instagram: https://www.instagram.com/janelasparaequidade/. Texto: Stephanie Sá / Acessora de Imprensa da Mostra Janelas para Equidade

  • 11ª edição do Festival de Cinema de Caruaru é encerrada com premiação e sessões lotadas

    Entre os dias 28 e 31 de Agosto, o Festival de Cinema de Caruaru realizou sua 11ª edição (Foto: Dani Leite) Com sessões lotadas no Teatro João Lyra Filho, para prestigiar produções independentes do cinema brasileiro e internacional. Ao longo da programação, o evento realizou exibições gratuitas das mostras Pega Leve, Latino-América, Fantásticos, Agreste e Brasil, além de debates com os cineastas presentes. (Foto: Dani Leite) O encerramento desta edição, realizado no último sábado (31), foi marcado por muitas emoções, com apresentação dos resultados das oficinas de 'Construções Textuais de Júri e Crítica Cinematográfica' e 'Produção de Documentários de Baixo Orçamento', homenagem ao ator e diretor Jô Albuquerque e entrega do troféu José Condé para os premiados das mostras competitivas. (Foto: Dani Leite) Além da categoria de Melhor Filme por voto do júri jovem e do júri oficial, a premiação contemplou prêmios técnicos nas áreas de direção, roteiro, fotografia, direção de arte, desenho de som, atuação e pôster. Todos os resultados estão disponíveis em: https://festivaldecaruaru.com.br/2024/premiacao/. Texto: Stephanie Sá

  • Agreste Skate Open realiza sua primeira edição no dia 1 de dezembro em Caruaru

    O evento promete ser um marco no cenário do skate em Pernambuco, reunindo atletas, simpatizantes e a comunidade local em um vibrante movimento do esporte e da cultura Por Madu Rodrigues O Agreste Skate Open acontecerá no Skate Park do bairro Indianópolis, em Caruaru-PE, no dia 1 de dezembro de 2024, das 10h às 22h. O evento é um campeonato nordestino que atrai skatistas de diversos Estados, com competições na modalidade street para atletas na categoria masculina e feminina, nascendo da parceria entre a Agreste Skate Magazine e a USB Mídia Skate. Além das competições, o evento oferecerá diversas atrações musicais e estandes de merchandising dos apoiadores oficiais do evento, proporcionando uma interação rica entre os participantes e a cultura local. A realização do Agreste Skate Open responde ao crescimento da popularidade do skate na região, especialmente após o reconhecimento do esporte nas Olimpíadas. A proposta é oferecer uma plataforma para novos talentos, fortalecer a cultura do skate e contribuir para o turismo e a economia local. Com uma expectativa de público entre 500 e 1.000 pessoas, uma divulgação abrangente nas redes sociais e parcerias estratégicas com influenciadores, o evento visa garantir engajamento e visibilidade ampla, atraindo tanto a comunidade local quanto visitantes. Além do esporte, o Agreste Skate Open promove a interação dos moradores locais com a vida esportiva e artística da cidade, incentivando, também, a participação de empresários e atletas do meio esportivo. Isso contribui para o crescimento e profissionalização do skate no cenário local e nacional, abrindo portas para novos investimentos e oportunidades. A programação completa - que inclui credenciamento, aquecimento, competições e apresentações musicais - fortalece o compromisso com o desenvolvimento do turismo e o fortalecimento de Caruaru como ponto de referência para eventos atrativos. O Agreste Skate Open é uma experiência completa que une esporte, lazer e cultura, representando um marco para Caruaru, projetando a cidade como um centro importante para o skate e o turismo em Pernambuco, impulsionando o mapa de eventos relevantes para o cenário cultural e esportivo da região.

  • “Crítica para Náufragos e Outros Ensaios” (CEPE, 2026): o novo livro de Eduardo Cesar Maia

    Por Isadora Ascendino Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins “Esse livro é uma espécie de narração de uma parte fundamental de minha trajetória como crítico e intelectual.” – Eduardo Cesar Maia, escritor, ensaísta, crítico e professor. Eduardo Cesar Maia é professor do curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/CAA). Graduado em Jornalismo pela UFPE e Doutor e Mestre em Teoria da Literatura pela mesma instituição. Além disso, o autor escreve sobre crítica cultural, literatura e filosofia. Organizador de duas obras, Sobre críticas e críticos (CEPE, 2015), uma biografia, e Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste (CEPE, 2015), um ensaio. Seu lançamento mais recente foi o livro infantil A Vaca Macaca (CEPE, 2022), um grande sucesso na literatura e aprovado pelo Plano Nacional de Livros Didáticos (PNLD), na área da educação infantil. Nesta entrevista exclusiva, Maia fala sobre o seu novo livro não-ficcional Crítica para Náufragos e Outros Ensaios (CEPE, 2026), onde ele sintetiza muito amadurecimento conquistado em sua longa trajetória como crítico literário; uma obra que reúne seus ensaios sobre a própria atividade da crítica nos tempos modernos. Refletindo sobre a tradição da crítica humanista, visão filosófica e cultural que centraliza o ser humano através da ponderação constante e do questionamento de estruturas de poder, a obra busca resgatar a permanência do humanismo crítico como interesse na atualidade, tese de seu doutorado. Título do novo livro de Eduardo César Maia, "Crítica para Náufragos e Outros Ensaios", 2026. Créditos: Isadora Ascendino. Com exclusividade, o escritor concedeu uma entrevista para falar um pouco da sua relação com a escrita e da sua experiência ao produzir esse novo livro que vinha sendo pensado e/ou produzido desde o seu doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco que tem como tese “Crítica e Contingência: uma reavaliação da crítica humanista através do perspectivismo filosófico de José Ortega y Gasset e do personalismo crítico de Álvaro Lins” em 2013, que reflete a respeito da atualidade da tradição crítica humanista através das obras dos citados autores. Sobre o que fala o livro? O que o motivou a escrevê-lo? R: Crítica para Náufragos e Outros Ensaios é um conjunto de ensaios meus buscando pensar a crítica em nosso tempo. Uma das minhas motivações foi justamente refletir sobre os valores que a sociedade tem utilizado para legitimar ou deslegitimar uma obra, já que vivemos uma espécie de ética simplificadora de pura adesão ou total repúdio, sem meio termo. No livro, eu volto os pensamentos para quais são os valores, o sentido, a função e os limites da própria atividade da crítica. O livro é uma reunião dos meus textos, que eu chamo de metacríticos – crítica da crítica. Eles abordam temas filosóficos, o pensamento sobre o que é literatura, o que é ficção e a relação entre ideias e formas. O que motivou você a escolher o título da obra? R: Essa pergunta é interessante e importante para mim, porque foi difícil. O nome “Crítica para Náufragos” vem de uma metáfora. O náufrago é aquele que, para não afundar, permanece “batendo os braços” para nadar. Se ele parar, ele afunda. E, para mim, essa é a metáfora que define a atividade crítica. O crítico não pode se dar por satisfeito, já que a crítica é uma conversação interminável sobre todos os assuntos. Fazendo uma relação entre A Vaca Macaca (CEPE, 2022) e Crítica para Náufragos e Outros Ensaios (CEPE, 2026), como foram os processos de criação de ambos livros? Você sentiu uma grande diferença? R: A diferença entre as produções é total. A ideia de que um dia eu poderia escrever uma obra de ficção já me ocorreu. Eu trabalho com literatura, então eu pensava que talvez mais velho fizesse alguma coisa, mas não tinha planejado, muito menos uma obra infantil. De repente, percebi que tinha uma história que foi muito bem recebida por quem leu, por mais que tudo aquilo fosse novo e uma surpresa particular para mim. "Crítica para Náufragos", em contrapartida, é da minha área. Eu considero a atividade de crítico como um trabalho, mas também uma vocação, por isso o campo é cada vez mais fruto do meu interesse. De alguma forma, eu venho pensando nele desde o meu doutorado finalizado em 2013. “A Vaca Macaca” (CEPE, 2022). Créditos: Reprodução da Internet. Imagem do livro. Créditos: Isadora Ascendino. Como crítico literário, como você analisa seus próprios livros? Há uma cobrança maior de si mesmo sobre seus resultados? R: Pessoalmente, eu tenho uma atitude que eu acredito ser muito pragmática. Eu odeio afetação, então eu penso o seguinte: Como eu acredito que tudo, todas as nossas atividades e obras são contingentes, o que eu estou deixando nesse livro não é mais do que uma perspectiva minha durante esse período da minha vida. Então, de antemão eu aceito – até para ficar tranquilo comigo mesmo –, que podem aparecer críticas ou que daqui a pouco eu posso olhar para trás e discordar do que escrevi. Então, eu vejo isso com tranquilidade. Eu gosto de quando as pessoas leem o meu texto, mesmo que critiquem, porque, para mim, é a natureza do meu trabalho. Podemos separar a obra do autor? O quanto das suas vivências tem nesse livro? R: Há um ensaísta, Oscar Wilde, que diz que “toda crítica é uma forma de biografia” e eu tendo a aceitar essa visão. Há um trabalho de pesquisa, um esforço de entender objetivamente certos aspectos da realidade, mas aqui estão as minhas preocupações: Eu tenho perfeita consciência de que muita gente não pensa igual a mim e que há muitas formas de ver a crítica. Em “Críticas para Náufragos” eu defendo uma perspectiva da crítica e do pensamento como uma atividade também retórica, persuasiva, mas necessariamente imperfeita. Vivemos em uma sociedade pluralista e não vamos ter jamais um consenso absoluto. Tem muito de mim aqui, mas não é um eu fixo, eu sigo em mudança, sigo pensando. Qual o propósito da sua escrita? Ou vai muito da inspiração? R: Essa pergunta é bem complexa para mim, mas acredito que seja principalmente para auxiliar na minha compreensão de mundo. Eu comecei a me interessar por crítica em uma tentativa de compreender melhor as coisas. Não faço crítica para ensinar alguma coisa a alguém, faço crítica, em primeiro lugar, para mim mesmo. Para tentar compreender melhor as ideias de um autor. Entrevista. Créditos: Eduarda Martins. Eduardo Cesar Maia, escritor da obra “Crítica para Náufragos e Outros Ensaios”. Créditos: Arquivo pessoal. Todas as suas publicações foram feitas em parceria com a CEPE, a Companhia Editora de Pernambuco. Qual a sua relação com a editora? Como funciona essa dinâmica parceira entre vocês? R: Nossa relação começou porque eu trabalhei por sete anos na revista Continente, produzida pela CEPE, antes de ser professor universitário. Eu escolhi a CEPE porque a editora tem profissionalismo e capacidade para levar os livros pra fora de Pernambuco com uma boa distribuição e divulgação. Quando e onde será o lançamento do livro? R: Estou muito animado pela estreia! A divulgação está prestes a começar, mas será dia 15 de maio na Academia Pernambucana de Letras (APL) em Recife, Pernambuco. Em Caruaru, ainda estamos organizando, por isso não temos uma data ou local, mas acredito que seja por volta de junho ou julho. Você citou que escrever ficção foi uma ideia que lhe ocorreu para o futuro, mas a paternidade transformou-a em algo do presente. Como foi a experiência de escrever “A Vaca Macaca (CEPE, 2022)”? Você imaginava que o livro fosse conquistar tantos feitos, como a seleção no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), por exemplo? R: Esse é um livro que só me trouxe alegria, mas foi uma surpresa para mim. Recentemente ele foi selecionado pelo PNLD, Plano Nacional de Leitura da Educação Infantil, e vai ser distribuído nas escolas públicas de todo o país. Essa é uma obra muito especial porque surgiu a partir da minha experiência com a paternidade da minha primogênita. Assim como eu, ela sempre gostou de histórias e pedia para que contasse para ela dormir. Hoje eu conto para ela e para a minha filha mais nova, e esse é um hábito que nos aproxima. A Vaca-Macaca surgiu na verdade como um personagem inventado por mim, e ela amou. Certo dia me veio uma ideia mais concreta de quem era a vaca macaca, um ser que não está satisfeito com a sua própria identidade fixa de ser vaca e quer ser também uma macaca. A partir disso, realmente vieram muitos frutos positivos. Há previsão de novos lançamentos? R: Não tenho datas, mas já tenho outro livro sendo submetido à edição. Também é um livro voltado a ensaios críticos. A diferença entre ambos é porque esse apresenta mais uma reflexão sobre a própria atividade crítica e o próximo será voltado ao crítico em ação. Aguardem!

  • FACE DE QUEM PERCO: o amor que abraça as faltas

    Por Nilton Barros Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo M. Martins PALAVRAS INICIAIS NATURAL DE ARCOVERDE, SERTÃO DE PERNAMBUCO, E TENDO MORADO EM PESQUEIRA POR BOA PARTE DE SUA VIDA, Vinícius Galindo Farias é escritor, poeta e estudante do curso de Design, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA) e emerge como uma voz singular na poesia contemporânea brasileira, com o seu primeiro livro: Face de quem perco, publicado em 2025 pela editora Mondru. Em busca de dar vazão aos conflitos internos, o autor, em sua obra, navega pelas sombras do afeto humano, transformando silêncios e vazios em versos pulsantes; além de capturar essa essência com delicadeza intensidade, ele convida o leitor a conhecer e aprender a lidar com espaços onde a perda, a falta, o amor, o desejo, a emancipação e o erotismo são protagonistas. NESTA CONVERSA, mergulhamos no universo criativo do autor, explorando o que o impulsiona a escolher a poesia, também, como forma de expressão criativa. Abordamos temas recorrentes em seu trabalho, como o confronto com ausências que, paradoxalmente, geram laços profundos – um amor nascido das faltas, ecoando em metáforas íntimas e familiares. Além disso, Farias compartilha reflexões sobre o ritual de escrita, o nascimento orgânico de um livro e as parcerias que amplificam vozes semelhantes, como afinidades temáticas com outros criadores. O livro terá o seu lançamento oficial em Caruaru, no dia 15 de maio, às 16h, na Cultural Livraria e Cafeteria, com mediação de Maria Eduarda Alexandre Rodrigues, estudante do curso de Comunicação Social e colunista da revista SPIA, também da UFPE. No texto que segue, com fotos de Vinícius Galindo Farias, organizamos o conteúdo da entrevista que realizamos com o autor, registrando apenas suas reflexões e respostas, na tentativa de compreender melhor como ele entrelaça o pessoal no universal, celebrando o que está ausente para amar o que permanece. COM A PALAVRA, VINÍCIUS GALINDO FARIAS EU TRABALHO COM OUTROS TIPOS DE ESCRITA TAMBÉM. O que acontece é que, independentemente do rumo que eu tomasse, todas as minhas decisões criativas se voltariam para a poesia em algum momento. Quando eu comecei a escrever, antes mesmo de me considerar escritor, quando tinha 6-7 anos, escrevia textos que hoje eu sei que eram poemas, ou inícios de poemas. Alguns eu nunca finalizava e outros sim – e eu sei que não eram bons, mas tudo isso foi uma preparação para que quando eu publicasse Face de quem perco eu soubesse que era um caminho a se seguir. Foto autoral de Vinicius, 2023. Fonte: Instagram. OS MEUS POEMAS, GERALMENTE, ABORDAM A QUESTÃO DE AMOR. E assim como todo o resto da minha literatura – até o presente momento – lida muito com a questão da falta e da perda. Tanto que, este primeiro livro acaba sendo um monumento de toda a minha temática na escrita e na literatura. Eu gosto muito de fazer uma investigação das ausências, tanto no indivíduo quanto no sistema; ou então em determinadas situações. Então, escrever sobre isso, dar vazão a isso, me dá cada vez mais clareza, mais certeza do que pode me comover e comover o outro, e de como eu posso me conectar com outra pessoa por meio desses versos, por meio desse tema em si, porque a perda é inevitável e universal. EU CREDITO MUITO DA MINHA ESCRITA À MINHA FAMÍLIA. Eu venho de uma família em que a matriarca é minha avó e é uma professora aposentada do Estado. Na época em que eu nasci e quando era novo, fui criado por ela e ela ainda estava em atuação. Ela sempre levava livros da escola para mim, me incentivava bastante a ler histórias em quadrinhos, tanto ela quanto a minha mãe e o meu tio. Histórias em quadrinhos, livros, textos diversos que me moldaram, querendo ou não, independentemente do teor deles. Além disso, eu credito bastante da minha escrita poética à Cecília Meireles, que eu comecei a ler no 9º ano do Ensino Fundamental. Hilda Hilst, também, – que curiosamente morreu no mesmo dia que eu nasci – a minha literatura funde bastante à dela em alguns pontos. Quando eu descobri a nossa data de nascimento e a data de morte dela, eu descobri como a nossa literatura se cruzava e achei muito interessante traçar esse paralelo. Foto autoral de Vinicius, 2025. Fonte: Instagram. Clarice Lispector é uma escritora indispensável de se falar, especialmente no meu caso, como é poesia, a linguagem de Clarice acaba sendo muito poética. Tenho também algumas amigas e amigos escritores que me inspiram bastante, como Maíra Dal’Maz, que é do Rio Grande do Norte. Ela escreveu a orelha do meu livro há muitos anos atrás. Renata DeCastro, também poetisa, que fez o texto da orelha para essa versão de agora (2025). Tem Fellipe Fernandes Cardoso, que escreveu o prefácio. Ele é romancista, mas a escrita dele é muito sentimental, muito versada quando a gente para para analisar bem. Débora Gil Pantaleão, minha antiga editora, também é poetisa e trabalha com a questão da negritude e do ser mulher bissexual no Brasil e no Nordeste. Conhecer o trabalho dela na minha adolescência foi muito importante. John Green também foi muito importante no meu desenvolvimento como leitor e escritor na pré-adolescência e adolescência. Eu lembro que os textos dele me deixavam pensativo e estimularam bastante a minha criatividade com relação ao desenvolvimento de personagens, porque ele usa muito bem o diálogo como uma forma de desenvolvimento, assim como o monólogo interno também; essa junção ele consegue fazer muito bem, a meu ver. Eu lembro bastante de outra referência, que é a Aline Bey, escritora de O Peso do Pássaro Morto. Lembro que em 2021, li A Pequena Coreografia do Adeus e, mesmo não sendo um livro com uma grande história, ele consegue captar a pessoa pela linguagem, pelo uso das palavras e da estruturação do texto, e como ela vai reformulando a linguagem do jeito dela, estilisticamente falando, conseguindo deixar aquilo original, mesmo sendo estranho à primeira vista. EU ACHO QUE TEM IMPORTÂNCIA, COMO ESCRITOR, DA GENTE CONSEGUIR CANALIZAR tudo aquilo que a gente quer naquele momento, com aquele contexto controlado. Mas em ambientes livres eu também consigo, eu gosto. Eu costumo escrever num bloco de notas antes de dormir ou na rua, por exemplo. Em cadernos, quando estou em aula. Não costumo me colocar em regras para como escrever. Meu processo de escrita acaba sendo bem diverso para cada projeto e para cada dia também por causa disso, mas eu sinto que quando o ambiente está mais controlado e que eu consigo controlar aquelas circunstâncias, o processo acaba sendo bem mais fluido, especialmente para escrita de prosa. É muito melhor você ter um ritual de escrita mais aprimorado porque, para a poesia, consigo ser bem mais aleatório do que com prosa, porque a prosa exige planejamento e mais estudo – já a poesia, querendo ou não, não exige anos de pesquisa para conseguir desenvolver. Não tem um personagem por si só na poesia, tem um eu lírico, que acaba sendo, simultaneamente, bem mais complexo e mais simples de desenvolver, para mim. EU COMECEI A ESCREVER, COMO FALEI, MUITO NOVO. Lembro que uma semana antes dos meus 11 anos, decidi que queria ser escritor, só não sabia como exatamente. Mas eu sabia que um dia iria conseguir escrever e publicar os meus livros. Na época, eu ainda não me reconhecia como poeta, apenas como romancista. E naquela época, algum tempo depois, o primeiro texto de Face de quem perco surgiu. Você vai encontrar a versão mais recente dele no poema "Terra Morta", que está presente na versão final do livro. A primeira versão foi o texto mais antigo do livro, e é de 2016, então são dez anos de lá para cá. Decidi que deveria ser um livro – e que eu queria publicar esse livro – depois de muitos anos escrevendo textos soltos, e de perceber que esses textos poderiam se juntar em uma coletânea. Na época, comecei a ler muitos poetas e a ter acesso a várias antologias; li livros solos de autores e percebi como eles faziam muito bem o seu trabalho, de um jeito que não é tão convencional a gente ler um livro de poesia hoje em dia, porque o romance acaba sendo o gênero mais vendido nas listas da revista Veja, por exemplo, junto com os de não ficção e os de espiritualidade, por algum motivo. Mas eu vi naquilo a chance que eu tinha de, talvez, começar alguma coisa, seja um projeto que fosse finalizado, seja um renome para a crítica e para o mercado literário. Encontrei na poesia uma porta de entrada, além de ser, também, uma porta de entrada dos outros para mim. Há muito de mim no eu lírico, e estes se confundem bastante entre si, em certos pontos. Então, apenas quem me conhece muito vai saber quais partes são verdade e quais partes não são, porque é justa e ironicamente a liberdade poética que trata disso. Em 2021, Face de quem perco iria ser publicado por outra editora independente, a Escaleras, fundada por Débora Gil Pantaleão, que eu falei anteriormente. No mesmo ano foi aceito, e em março de 2022 a editora fecha as portas. Assim, eu me vi sem editora e sem perspectiva de publicar esse livro. Foi um desafio, porque com 17-18 anos eu precisava entender que o livro ainda não estava pronto. Eu achei que ele estava. Tive que desenvolver maturidade de desenvoltura na escrita, porque o livro não tinha conceito nenhum antes; eram apenas textos soltos que tinham temas muitos similares ou tangentes entre si, mas que você não via uma conversa entre eles. A partir do momento que eu comecei a enviar para algumas editoras e eu não via resposta alguma, comecei a pensar: “Tem alguma coisa que eu preciso melhorar”. Aí eu ouvi de um editor que o texto ainda estava muito verde, e isso foi o “clique” que eu precisava. Percebi que o livro poderia ter um efeito mais coesivo, poderia ter uma condução ao longo dos textos. Foi apenas no ano seguinte, em 2023, que eu comecei a trabalhar melhor no livro, quando eu também trouxe o poema que dá título à obra, que é o Face de quem perco. Na Casa dos Sonhos, de Carmem Maria Machado, 2021. Fonte: Google. Criei esse poema em junho de 2023 e fui construindo isso. Lembro que eu via algumas resenhas e impressões online em periódicos e jornais, sobre o livro Na Casa dos Sonhos, de Carmem Maria Machado, e achei muito interessante o projeto gráfico, tanto nas edições originais quanto no Brasil: essa pessoa que está enjaulada dentro de uma casa, e essa casa é pequena demais para ela, ao mesmo tempo também que é a casa naquela figura, porque você não consegue mais dividir qual é ela e qual é a casa, qual é a narradora e qual é a casa. Quando vi aquelas ilustrações, fiquei muito intrigado. Então, foi um processo até eu descobrir que queria ser publicado, foi um processo também para eu conseguir ser publicado e para eu conseguir desenvolver esses textos de um jeito que eu pudesse me orgulhar deles quando saísse e caso alguma editora lesse. EU SABIA, DESDE O COMEÇO, DESDE QUANDO O LIVRO VEIO PARA MIM COMO UM LIVRO, QUE EU PRECISARIA FAZER ALGO CÍCLICO, que mostrasse esse início, meio e fim, numa estrutura de três atos para os poemas e para a minha própria realização pessoal também: ver aquilo e conseguir compreender, delimitar a interpretação à minha maneira. Então, juntei a inspiração de Na Casa dos Sonhos, e decidi ficar com essa metáfora e aprofundar nela. Querendo ou não, a poesia, por mais difícil que sua linguagem seja, te traz mais vantagem quando você consegue trazer referências que aproximam o leitor, o crítico ou qualquer outra pessoa que for consumir o seu trabalho. Você tem muito mais chances de ser lido. Você tem muito mais chances de que haja uma conexão ali. Vinicius Galindo, autor da obra Faces de quem perco, 2026. Fonte: Nilton Barros. Então, a casa é algo universal – todo mundo sabe o que é uma casa, todo mundo sabe a sensação de se sentir em casa. E eu queria justamente trazer isso: o que é não se sentir em casa em algum momento, quando as luzes se apagam, quando você volta com aquela pessoa de uma festa e se pergunta quem é você quando a casa fecha os olhos, quem você é no escuro das pálpebras dela, que é algo relacionado ao livro. Como é não se sentir em casa ao mesmo tempo que você já está na casa? Como é você ter que reconstruir a casa mesmo já tendo construído tantas outras vezes? Como é ter que começar ou recomeçar? Então, isso acabou batendo muito forte em mim pela questão da simplicidade com que isso pode ser conduzido. Sei que talvez eu tenha sido muito sofisticado, em algum ponto ou outro. Acho que é até por ser meu primeiro trabalho finalizado, de fato, mas essa questão da familiaridade, da identificação, foi o motivo principal para eu ter me atido a essa metáfora. Fico muito feliz também por ter me atido a ela, porque não teria funcionado de nenhum outro jeito. EU JÁ TINHA COMEÇADO A ESCREVER OUTRA HISTÓRIA, OUTRO LIVRO, QUE ERA UM ROMANCE, EM 2015. Uma parte dele veio a ser finalizada em 2016, e aí anos depois é que eu reconheci como um romance finalizado propriamente. Eu achava que era apenas um prólogo da história, mas acabou sendo um romance inteiro. Naquela época, eu lembro que escutava bastante indie pop. Lembro de escutar The Sweeplings, que é um grupo dos Estados Unidos; "Fluerie" e "Ruel" são músicas de trilha sonora das séries adolescentes da época, só que sempre tinha um clima mais sombrio nas nelas. E também nas próprias histórias que eu lia como fantasia e alguns romances adultos que eu não deveria estar lendo, mas que eu lia. Me inspirei bastante naquela época, na música e na literatura que eu consumia. E quanto ao meu gosto, o meu consumo cultural foi se aprimorando e se nivelando ao longo dos anos. A minha escrita também foi acompanhando esse ritmo, mas acho que o cerne sempre tem essa questão do amor, da desilusão, da juventude, da perda ou do ganho, dependendo da perspectiva. Sempre estou construindo uma casa diferente – só variam o ano e o projeto também, mas acaba sendo, sempre, uma construção. Creio que de 2015 para cá, que é quando eu tomei aquela primeira decisão de ser escritor, aprendi a me organizar melhor com relação aos conceitos de cada projeto, o que cabe e o que não cabe em cada um. Também aprendi a saber quando um projeto não vai engrenar ou quando merece ser levado com mais a atenção, como ter elementos coesivos mesmo entre os textos do livro ou entre os personagens, dependendo do gênero. E na poesia, claro, aprendi muito sobre justamente criar esse contexto e esse conceito para o livro, para os textos, para que eles combinem entre si. Eu gosto de histórias, não só de poemas. Sou um ávido fã de romances e contos. Então, eu gosto de trazer essa questão para a minha escrita poética. Tanto que o meu segundo trabalho, que eu pretendo lançar ainda esse ano, também vai ter esse olhar, esse prisma. EU ACHO QUE COM A POESIA ACABA SENDO MAIS DIFÍCIL DE DELIMITAR UM PÚBLICO-ALVO, porque, ao contrário da literatura mais comercial, diga-se de passagem, como romances jovens adultos – os YA (Young Adult) – e os romances policiais etc., costumam ter a classificação indicativa nas livrarias, pelas editoras, às vezes pelos próprios autores. A poesia acaba sendo algo tão abstrato no próprio conceito que a comercialização dela é contraditória. Você nunca sabe para qual público aquilo é exatamente, até que aquele público a sinta. Então, acredito que definitivamente não é uma música da Xuxa, mas também não é algo que apenas determinada classe ou determinado tipo de gente vai ler. Tem adolescentes interessados no meu livro, tem idosos interessados no meu livro que compraram, que adquiriram, gente que comprou para a mãe, gente que comprou para a tia. Acredito que, no final das contas, quem é amante de poesia de verdade, quem gosta de verdade do gênero e de se colocar à prova, colocar sob as lentes de uma reflexão mais profunda, consegue desfrutar desse trabalho sem precisar pensar muito. E se pensar, que pense em como ele foi bem executado, eu espero. O livro não é dedicado a alguém em particular, talvez apenas alguns poemas. "Três à mesa", por exemplo, é um poema bem específico, de algo muito específico que já aconteceu. Vinicius Galindo com sua obra Faces de quem perco, 2026. Fonte: Nilton Barros. Alguns poemas como "Um mar ou uma poça, ou melhor, um laguinho", e "Abacaxi ao vinho", como eu falo na minha própria divulgação do livro, é uma narrativa que justamente trata do eu lírico se munir das próprias faltas dele, passadas e presentes, para continuar escrevendo. As musas dele são as perdas, e é por isso que o livro carrega esse título Face de quem perco: ele está ali, face a face com àquelas perdas diárias, passadas e presentes, para continuar se instigando a escrever, a fazer os versos. Essas pVerdas não são só do eu lírico, são perdas minhas também. Tenho dois poemas específicos que são dedicados a pessoas reais. Uma delas é Nalva, a outra é Lelê. Foram duas pessoas reais na minha vida, as duas já falecidas. Tem outros que são para amizades e para relacionamentos que poderiam ter acontecido e nunca aconteceram porque estavam só na minha cabeça mesmo. Algumas pessoas que eu gostei por bastante tempo, com quem eu convivi por bastante tempo. Tem um poema chamado "Cinco anos", que fala exatamente sobre uma dessas pessoas, e que era a mesma pessoa de "Três à mesa", então, quando você ler, pode associar que será a mesma pessoa. No universo criado por Face de quem perco, é só um ser amado a quem o eu lírico se refere, mas sempre escrevi pensando em várias pessoas. Às vezes nem mesmo em alguma em específico, só por escrever; para ter aquele sentimento canalizado, aquela reflexão escrita e finalizada no papel. Eu diria que é justamente igual ao eu lírico: uma miríade, uma junção de vários fatores, contextos, ambientes e pontos finais que já houve. QUANDO EU FIQUEI SEM A EDITORA ESCALERAS, foi quase um ano de hiato na escrita, apenas fazendo alguns textos soltos que não entraram no livro propriamente. No entanto, durante esse período passei pelo processo de saída do Ensino Médio para ingressar na UFPE, o que acabou sendo, também, um luto que eu estava vivenciando em paralelo com os lutos que descrevo no próprio livro. Nesse contexto todo, conheci a Mondru, que é uma editora independente de Goiânia. Eles foram inaugurados em 2020, durante a pandemia. Ela já tinha certo burburinho, com alguns autores finalistas e semifinalistas de Jabuti, alguns prêmios assim. E eu gostei. Como ilustrador e como designer, a primeira coisa de que gostei, não vou negar, foi o projeto gráfico deles. Cada projeto é personalizado e traz muito dos trabalhos dos próprios profissionais envolvidos. No caso, o principal é Jefferson Barbosa, que é o editor e designer-chefe. Me interessei bastante pelo projeto gráfico deles. Entrei em contato na época só para saber como funcionava o processo de avaliação. Depois continuei acompanhando as publicações, assim, esporadicamente, até que em 2024, quando eu já tinha o título novo do livro – o título antigo era Saudade Qualquer – tive a primeira versão finalizada e fiz algumas conexões para ter leitores de teste, para que me falassem o que eu precisava melhorar, o que deveria ser retirado ou não, o que já estava bom e não precisava ser mexido; enviei, após alguns meses nesse processo de ajustar os textos, para a Mondru em outubro de 2024. E aí, em meados de janeiro, a Mondru me respondeu já com a proposta de publicação. Não foi um bicho de sete cabeças. Ilustração do livro Face de quem perco, editado por Jeferson Barbosa, 2025. Fonte: Editora Mondru. O processo deles, na época, foi bem transparente. Editoras independentes, na verdade, são bem mais acessíveis do que as tradicionais, porque, ao contrário das tradicionais, os autores não precisam de intermédio de agentes literários para falar com elas. Elas geralmente têm um contato direto com os autores e com os leitores, então foi algo bem fácil pra mim nessa época. Foi gratificante também ver, tanto por parte da minha editora assistente quanto por parte do editor-chefe, a satisfação deles em estarem trabalhando no meu texto. Também foi um pouco cansativo, devido à demora em algumas etapas. Depois, passei pelas avaliações das leituras iniciais. Pela editora, tive leitura crítica, revisão, diagramação e teve toda a questão do projeto gráfico, sobre o qual eu também pude dar um aval. Eles me passaram algumas perguntas sobre o que eu imaginava, sobre poemas que eu queria que fossem ilustrados para o miolo do livro. Então, todas essas questões foram acatadas desde a paleta de cores até a tipografia para a capa. A ideia da capa surgiu relacionada a um poema, que é o último poema da primeira parte, o "Sístole". Nele, o eu lírico fala como se estivesse falando das paredes do coração do par romântico dele. Então, aqui é como se fosse dentro de um coração: na contracapa interna são as veias e as artérias; e na própria ilustração do "Sístole", eles trouxeram essa ideia. Eu falo que a pessoa está pintando uma réplica do ser amado no próprio coração. Ela está dentro do coração pintando, fazendo uma réplica fidedigna. Esse coração que é um ofertório vibrante, escuro e podre, então creio que eles se aproveitaram dessa descrição para justamente fazer essa nuance de cores. Eu também trago como palavras “fogo”, “face pálida”, “sensualidade do fruto da derme ao âmago”, “alma desbotada”, “doença”, “altar”, “choro”. O projeto gráfico traz muito dessa questão do coração, do cenário criado a partir da leitura desse poema. Esse conjunto de visualidades reflete o eu lírico fragmentado, confuso, com muitas emoções ao mesmo tempo. Acho que eles souberam traduzir muito bem toda a linguagem do livro; me sinto, de fato, muito lisonjeado por terem feito esse tipo de trabalho para a minha estreia. Fico muito honrado em ter sido escolhido por eles, que investiram muito tempo, energia e trabalho no meu livro. Isso só reforça o que eu falo nos agradecimentos do livro: tanto na área da escrita como na do Design, não se faz um trabalho desse sozinho. Mesmo quando você está escrevendo algo, você está trazendo consigo o repertório que você tem. Por mais que o trabalho da escrita seja muitas vezes solitário – já que temos que estar a sós com os nossos próprios pensamentos, teorias e reflexões –, a gente nunca está realmente sozinho. Renata de Castro e seu livro De quando estive em alto-mar, 2023. Fonte: Instagram. RENATA [DeCastro, já citada] FOI PUBLICADA PELA ESCALERAS, ENTÃO A GENTE SE CONHECEU POR CAUSA DISSO. Nossos temas, se entrelaçam na questão do amor, do erotismo e do sexo. Da emancipação, enquanto a dela é feminina, a minha talvez seja a do pensamento homoafetivo no geral, porque apesar de eu escrever sobre diversos outros gêneros, nesse trabalho eu foco justamente em uma relação homoafetiva. É importante eu trazer esse paralelo entre a minha escrita e a dela, para dizer que não somos os mesmos, mas a gente se encosta, e quando a gente se encosta, é muito bom ver essa similaridade. Eu me inspiro nela também e ela sabe que é uma grande inspiração para mim. Acho a escrita dela muito especial, muito única, até porque ela é professora de língua portuguesa, pelo o que eu lembre. Ela é formada em Letras, então estuda bastante os conceitos de poesia, métrica, históricos etc. Eu acompanho um pouco desse processo e é, num geral, muito lindo ter uma parceria como essa no mundo da escrita. O que só reforça o que eu já falei, que não dá pra fazer nenhum trabalho ou projeto sozinho, mesmo que às vezes a gente esteja lá solitário. EU JÁ LI EDGAR ALLAN POE, ALGUNS POEMAS SOLTOS E UNS TRECHOS DE CONTOS. Gosto muito de “Annabel Lee”, por exemplo. É um texto muito especial para mim porque me lembra muito a minha adolescência e eu meio que “gravitaciono” ao redor da escrita dele (Edgar Allan Poe) por temas que também são bem comuns como a sombriedade, essa tenebrosidade, o macabro, o gótico; gosto bastante da escrita dele, do visual gótico. São coisas que me influenciam mesmo que eu não tenha tanto contato com a escrita dele, mas é um escritor que conheço e consumo indiretamente desde os meus muito cedo. É alguém muito querido para mim. Fonte: Nilton Barros. Sobre a transpiração e a inspiração, eu acredito que seja uma mistura dos dois, porque já existiram várias vertentes da poesia por movimentos de contracultura e movimentos históricos específicos. Hoje em dia, o que a gente mais vê é a poesia livre. A poesia de versos livres, que não tem rima, não tem estrutura apropriada para uma poesia tradicional, mas que a gente reconhece como poesia devido à linguagem também. Mas sempre que a gente escreve, independentemente do gênero de escrita, acho importante a gente se ater ao fato de que estudo é necessário – inclusive quanto à estrutura, por mais desorganizado que o texto possa parecer. Para quem não conhece, às vezes ele vai ter, sim, uma estrutura que fica invisível ali nas entrelinhas. Então, meu processo de escrita mesmo costuma ser muito solto, mas posteriormente sempre tem uma revisão; sempre tem a questão da métrica, que precisa estar envolvida, dependendo da complexidade do poema. Se eu quero que o meu leitor passe por aquele texto com muita celeridade, com muita rapidez, com muito ânimo; o verso tem que ser curto, ou então com sílabas que acabem se juntando umas nas outras. O cuidado com a linguagem, nesse caso, é crucial, imprescindível. Se você quer fazer com que o seu leitor se arraste pelo segundo de uma vida, pelo poema e pelo verso, e que ele sinta a angústia que você está sentindo enquanto escreve aquilo, você tem que usar palavras mais longas, sílabas mais pontudas, por assim dizer; versos mais brutos. Então, sim, existe a inspiração, mas é uma inspiração transpirada. Depois é algo que, se não vier no processo inicial, nas primeiras ideias, vai vir depois uma edição, quando você lembrar daquele texto e quiser mudar. Quando você vir que aquele texto precisa de uma rima e aí você só precisa descobrir qual é a estrutura dele, quando vai rimar e quando não vai, ou, então, como cortar isso ou aquilo e como deixar mais curto porque o efeito que eu quero causar é outro. No final das contas, ele, Edgar Allan Poe, sempre esteve certo.

  • Entrevista com Marcel Pereira – egresso do Design, profissional da área de Moda: "A liberdade na criação e a criação na liberdade"

    Por Marcelo M. Martins e Miguel Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Amanda Mansur PALAVRAS INICIAIS MARCEL PEREIRA: no início foram os desenhos incentivados pelos familiares, os trabalhos em torno da Produção de Moda e os estágios – sempre acompanhados com a vontade de cursar uma universidade, mas a Federal. No Design do CAA, foi monitor de várias disciplinas, e depois mentoria de profissionais como Mário Queiroz e Ronaldo Fraga. Ele pensa o design a partir de suas origens, na indústria – e isso o molda como profissional do mercado que executa muitas vezes mais de uma coleção por período, atendendo ao ritmo das empresas com as quais trabalha. Marcel defende a liberdade criativa, mas entende as limitações (auto)impostas, e reconhece a importância da busca constante pelo conhecimento – tanto na universidade como fora dela. Marcel abordou esses e outros assuntos, inclusive listando alguns conselhos para jovens designers, com Miguel Santos e Marcelo Martins, que organizaram os resultados do “bate-papo” no texto em 1ª. pessoa que segue. COM A PALAVRA, MARCEL PEREIRA SOU DE PESQUEIRA, PERNAMBUCO, mas me mudei muito cedo para Santa Cruz do Marcel, em setembro de 2016, já próximo à conclusão do curso. Capibaribe, com apenas sete anos. A minha descoberta do curso de Design está muito ligada a essa mudança regional. Eu sempre achei que faria Biologia, que seguiria carreira como ornitólogo, mas tudo começou a mudar no Ensino Médio. Na época, fiz um curso técnico em Administração pelo Senai, integrado ao Ensino Médio. Como venho de uma família de desenhistas e sempre desenhei bem, as professoras do curso de Produção de Moda começaram a me incentivar a seguir o caminho do Design. NO SEGUNDO ANO, acabei entrando no curso de Produção de Moda e, no terceiro, já estava estagiando e trabalhando na área. Desde pequeno eu tinha um objetivo muito claro: cursar uma Universidade Federal. Quando descobri que havia o curso de Design na UFPE, no campus de Caruaru, esse caminho se tornou natural ainda que inesperadamente, de certa forma. Entrei na turma de 2011.1 e me formei em 2016. QUANDO COMECEI A FACULDADE, eu já atuava na área há um ano. Como o curso era em período integral, eu passava o tempo todo dividido entre faculdade e trabalho. Não consegui fazer cursos paralelos porque, basicamente, o dia inteiro estava tomado e à noite eu nunca rendi muito, sempre dormi cedo. Então, tudo o que eu poderia fazer como extra, eu fazia dentro da própria faculdade. FUI MONITOR DE PRATICAMENTE TODAS AS DISCIPLINAS LIGADAS À MODA. Durante uns três anos, três anos e meio, fui monitor da professora Flávia Zimmerle. Também fui monitor das professoras Nara Rocha, Andréa Camargo e Tati Leite. Foi um período muito voltado à monitoria e aos projetos de extensão. EM 2026, COMPLETO 16 ANOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL. Literalmente, trabalho há metade da minha vida. Ao longo desse tempo, passei por muitas áreas diferentes. Trabalhei com alfaiataria durante vários anos, já atuei com moda fitness e praia, fui modelista, trabalhei como ilustrador e tive a oportunidade de participar de projetos como o Senai Brasil Fashion, onde fui mentorado pelo estilista Ronaldo Fraga. TAMBÉM PARTICIPEI DE UMA MENTORIA com o professor Mário Queiroz durante a pandemia. Hoje atuo no segmento de moda masculina, aqui em Recife, numa empresa chamada Broomer, que está há mais de 30 anos no mercado de varejo masculino. ACHO QUE NENHUM DESIGNER VAI DIZER QUE tem carta branca pra fazer o que quiser, né? A gente está sempre condicionado a algo — e isso faz parte da profissão, o que, de certa forma, é até saudável. O design, especialmente quando ligado à moda, está naturalmente muito sujeito aos movimentos do mercado, às mudanças sociais, ao comportamento de um público-alvo que tem seus desejos, referências e limites. Desenho autoral, intitulado "Casaco mondrogo 2: o retorno do Diabo", 2022. ENTÃO, MESMO QUANDO A GENTE TRABALHA POR CONTA PRÓPRIA, com a nossa própria marca, dentro do sistema em que vivemos, chega uma hora em que a gente precisa se adaptar e entender que essa carta branca total não existe se a gente quer tornar o trabalho sustentável. DIZER QUE TENHO LIBERDADE TOTAL para criar tudo o que quero? Não tenho. E, sinceramente, nem acho que deveria ter. O que eu tenho é liberdade pra criar dentro dos parâmetros que a empresa em que estou define — parâmetros de público, de foco, de objetivo. DENTRO DISSO, SIM, TENHO LIBERDADE TOTAL. Mas se percebo que estou saindo um pouco, eu mesmo dou um passo atrás. É como se existisse uma cerca que eu mesmo me imponho, e eu não ultrapasso. O DESIGNER DE MODA PRECISA DESENVOLVER duas frentes principais. A primeira é a parte técnica. Um bom designer tem, sim, que saber modelar, entender de costura, ter conhecimento sobre tecidos, fibras, acabamentos. Precisa olhar uma peça e saber se ela está mal cortada, se está bem finalizada. E mais do que isso: precisa conseguir expressar tudo isso de forma clara, para que o que ele desenvolve seja compreendido por toda a cadeia de produção. Esse é o lado técnico, que é fundamental. MAS TAMBÉM EXISTE O LADO SUBJETIVO — aquele que, à primeira vista, pode parecer meio hermético, mas não é. É o campo do repertório: é preciso ter um repertório visual consistente, ter contato com diferentes formas de arte, de cultura, de expressão. Pode vir de literatura, música, cinema, manifestações populares... tanto faz se é Troinha ou Mozart. O que importa é que isso alimente sua visão de mundo. Viagem a Recife para participar de um evento na área de Design (UFPE), 2015. O QUE DIFERENCIA UM DESIGNER COM ESTILO PRÓPRIO é justamente o quanto ele se apropria desse repertório. Ele entende aquilo como seu e transforma em linguagem pessoal. Então, na minha visão, um bom designer é aquele que consegue unir técnica e subjetividade. Juntar essas duas narrativas: domínio técnico e um repertório verdadeiro, construído com autenticidade. É desse conjunto que nasce a personalidade do trabalho. ACHO QUE MINHA GRANDE FONTE DE INSPIRAÇÃO são as histórias. Histórias que vivi, que amigos e familiares viveram, que me foram contadas, que li em livros, ouvi em músicas ou vi em filmes. É o desdobramento dessas narrativas que me inspira, que eu tento transformar de forma pictórica, e essa é, sem dúvida, a minha principal fonte criativa. CONFESSO QUE NÃO TENHO GRANDES REFERÊNCIAS na cultura pop ou nas inspirações mais modernas. O que realmente me move é o processo de criar um storytelling, o desafio de pesquisar e mergulhar fundo no coração daquela história. É isso que me encanta e que mais me inspira como criador. EU ACREDITO QUE, PARA SER UM BOM CRIADOR — seja de moda ou de qualquer outra coisa — é preciso praticar o ato de criar. É ter o hábito de criar. Isso não está, necessariamente, ligado a um diploma ou a uma certificação. No caso da moda, especificamente, é o fato de criar e de colocar a mão na massa, de ter a prática do fazer. SE VOCÊ PARAR PRA PENSAR, é algo que se constrói na base de tentativa, erro e acerto, ao longo do tempo. A faculdade, uma certificação ou um curso técnico encurtam esse caminho. Eles ensinam de forma mais focada, mais concisa, algo que talvez você levasse muito mais anos pra aprender por conta própria. Croqui de estudo sobre mangas, vazados e estampas (2018), idealizado através de IA. POR ISSO, NÃO ME INCOMODA VER PESSOAS SEM BACHARELADO, sem curso superior ou técnico, se destacando como grandes criadores. Acho totalmente plausível que isso aconteça. O QUE REALMENTE ME INCOMODA É quando alguém com algum tipo de capital — seja financeiro ou social — se apropria do trabalho de uma equipe de designers e sai como se fosse o grande criador. Aquela pessoa que fundou uma marca e entra no final do desfile como se tudo tivesse saído da cabeça dela, quando, na verdade, o trabalho foi feito por uma equipe. Ou então um influencer que diz "gosto disso, disso e daquilo", a equipe desenvolve tudo e, no final, ele sai com a fama de bom designer. Isso me irrita: ver alguém recebendo os créditos por uma criação que não é sua. Agora, dizer que só quem tem um diploma pode ser um bom criador? Acho um pensamento muito anacrônico. DESDE QUE ME FORMEI, muita coisa mudou no currículo do curso. Na minha época, o que eu mais sentia falta era de uma maior integração entre a faculdade e o mercado. Faltavam visitas técnicas a empresas, faltavam oportunidades de apresentar aquele corpo discente tão efervescente e criativo ao mercado de trabalho. A GENTE JÁ ESTAVA, GEOGRAFICAMENTE, distante das grandes empresas — e além da distância física, existia também uma barreira de acesso. Não havia esse contato direto, essa ponte. E isso, para mim, era uma grande lacuna. Acompanhando a produção dos blazers. NÃO SEI SE ISSO AINDA ACONTECE HOJE, mas naquela época também se falava muito que o nosso curso era “de licenciatura”. Eu achava isso um absurdo, mas era uma fala recorrente. E, muitas vezes, vinha de pessoas que não tinham tido nenhum contato com o mercado. ÀS VEZES A GENTE ESQUECE QUE O CURSO DE DESIGN tem uma origem industrial, e às vezes isso se perde de vista. O contato com a indústria, com a cadeia produtiva, com o mercado como um todo, era algo que faltava — pelo menos na minha vivência. EU DETESTO QUANDO VOCÊS ME PERGUNTAM como me defino; detesto com todas as minhas forças. Muito mesmo. O que posso dizer é que sou um designer que acredita ter seus méritos — até porque, se não tivesse, não teria conseguido me manter tanto tempo no mercado, nem teria participado dos projetos que participei ou conquistado os trabalhos que conquistei. ACHO QUE SOU UM DESIGNER MADURO, com bagagem, que consegue desenvolver um trabalho consistente. É isso. Essa pergunta sempre me parece capciosa, difícil de responder. Pra mim, é o máximo que dá pra dizer. O PROCESSO CRIATIVO, pra mim, é o caminho de elaboração e de organização de uma loucura mental que dá origem a uma criatura final. É um caminho que começa com uma pesquisa ou um insight, passa pela etapa de execução, esbarra na frustração extrema… e, no fim, sai alguma coisa. Pode ser um projeto, uma roupa, um desenho, uma música — o que for. É sobre organizar esse caos que acontece dentro da cabeça da gente. APLICANDO ISSO À MODA, ao design de moda especificamente, é pegar essa bagunça interna, confrontar com o espírito do tempo, com o que está sendo proposto no momento, e moldar tudo isso dentro dos parâmetros que precisam ser seguidos. NO FIM DAS CONTAS, é um processo muito subjetivo, na minha visão. E pra mim, moda nada mais é do que a mais sincera expressão do espírito do tempo de uma população, de um nicho, de uma pessoa. O MUNDO DA MODA HOJE É RÁPIDO. Desumanamente rápido. Tão rápido que não dá pra acompanhar — nem quem consome, nem quem cria. Sempre que encontro meus amigos que também trabalham com moda, a pauta é sempre a mesma: o cansaço. “Como é que você tá?” “Tô muito cansado. Tô exausto.” E ESSA EXAUSTÃO APARECE NAS CRIAÇÕES. Até nas grandes marcas: tudo pasteurizado, sem graça, entediante, sem emoção. Porque não há tempo. Não tem tempo para maturar uma ideia, para desenvolver com calma. Eu sei que é uma resposta comum, até batida, mas é real: não tem tempo para criar de verdade. Não tem tempo para respirar. É UMA COLEÇÃO EM CIMA DA OUTRA — eu falo por mim. No final do ano passado e no começo deste ano, eu estava com quatro coleções ao mesmo tempo. Pensando no passado, no presente, no futuro… e até no futuro do futuro. A GENTE TÁ NUMA VELOCIDADE que está colapsando tudo. Quem cria, quem compra, e o planeta. E o pior: a gente tá levando o meio ambiente para o colapso com criações ruins. Peças que nem deveriam existir. Coisa chata mesmo, sem alma. MAS, APESAR DISSO, EU AINDA VEJO uma luz no fim do túnel. Ela aparece nos criadores autorais, naqueles que estão conectados com pequenas comunidades, trabalhando de forma mais sustentável, com mais sentido. Infelizmente, hoje não estou envolvido diretamente com esse tipo de projeto, mas tenho amigos que estão — e vejo coisas muito bonitas, e com sentido para existir, nascendo disso. E é aí que eu coloco uma esperança: na possibilidade de que esse tipo de criação e de consumo se torne cada vez mais viável. NA MINHA ÉPOCA, A GENTE IA SE DESCOBRINDO não sendo da moda ao longo da graduação. Engraçado como as coisas mudam, né? Mas, se eu pudesse dar um conselho — na verdade, dois — seriam esses: PRIMEIRO: LEIA. LEIA MUITO. O CAA tem uma biblioteca incrível. Na minha época, ela já era ótima — imagino que hoje esteja ainda melhor. Ler vai te dar repertório, vai te ajudar a construir argumentos, a defender suas ideias, seus produtos. É fundamental. E não é só leitura técnica, não. É ter um repertório cultural, de verdade. Pode Lygia, Jorge Amado ou qualquer coisa. Mas tenha algo que alimente sua visão de mundo. SEGUNDO: DESENVOLVA SEU ESTILO. Isso é muito importante. Estilo de trabalho, assinatura visual. Algo que permita que alguém olhe para uma peça e diga “isso tem a cara de fulano”, mesmo sem ver seu nome ali. Isso é força criativa. Criação para o SENAI Brasil Fashion, orientado por Ronaldo Fraga. E CLARO, TEM A PARTE TÉCNICA. Aprenda a modelar. Um bom designer de moda precisa saber modelar. Isso não é opcional, é obrigatório. Costurar também ajuda muito. Se não souber costurar, ao menos entenda o processo — já faz toda a diferença. E DESENHE! POR FAVOR, DESENHEM! Virou meio hábito dizer que designer não precisa desenhar, mas essa é uma das partes mais prazerosas do processo. É colocar a mão na massa. Às vezes, é justamente desenhando que a criatividade flui de um jeito que o computador, o Photoshop ou o Illustrator, não conseguem proporcionar. E OUTRO CONSELHO: procure entrar no mercado, ter vivência na indústria. E, quando entrar, crie boas relações. Relacionamento, principalmente no chão de fábrica, é essencial. Seja amigo da modelista, das costureiras, do pessoal do acabamento, do corte. Você vai aprender demais com essas pessoas. Vai sair dali diferente — mais maduro, mais completo. PORQUE MUITAS VEZES, É NO DIA A DIA DA INDÚSTRIA que você vai conseguir confrontar o que aprendeu na faculdade com o que realmente acontece na prática. E isso, pra mim, é um dos aprendizados mais importantes. MARCEL (em outras imagens)

  • Diário de um Banana: A porta de entrada para outras leituras

    Por Everton Antonio Silva Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Diário de um Banana (2007). Fonte: Google. É comum ouvir por aí que algumas escolhas na juventude funcionam como “portas de entrada para outras drogas mais pesadas”. Na literatura, essa expressão cabe perfeitamente à obra do norte-americano Jeff Kinney. O livro, que conta a história do pré-adolescente Greg Heffley e seus desafios nessa nova fase da vida, foi lançado originalmente em 2007 e traduzido para o Brasil logo em seguida. Para quem nasceu em tempos tão modernos e de tantos estímulos, Diário de um Banana é uma ótima opção para iniciar o hábito de leitura. Com sua estética e fluidez, suas obras abrem os olhos para a “leitura à moda antiga”. Admito que nunca fui um grande leitor, nem entusiasta dos clássicos. Mas, um dia, aquele livro que imitava um caderno escrito à mão, com desenhos de bonecos de palito e uma sequência de capas coloridas, chamou minha atenção e me fez escolher meu presente de aniversário de 9 anos: “Eu quero o livro do Diário de um Banana!” E se você me perguntar hoje, com quase 20 anos da série já com 21 livros, eu ainda quero. Jeff Kinney, cartunista e autor do livro. Fonte: Amazon. Como profissional em formação da área de Comunicação, não posso deixar de observar que a obra carrega uma engenharia poderosa: seu hibridismo funcional. Kinney não usa ilustrações como meros enfeites: os cartuns de traços simples e expressivos agregam novos sentidos ao texto verbal. Muitas vezes, o narrador e protagonista Greg Heffley nos conta uma versão dos fatos em primeira pessoa, mas o desenho ao lado o desmente, revelando a ironia da situação. Essa alternância rápida entre blocos curtos de texto, compostos por pequenos parágrafos e o apoio visual, mantém o cérebro do leitor engajado sem o peso de páginas densas. É um sutil treinamento de interpretação e associação. Ilustração do personagem Greg Heffley, feita pelo autor Jeff Kinney. Fonte: WimpyKid. Alguns críticos não levam em consideração a importância da obra para o mundo literário, porque a julgam como inferior em relação aos demais livros que tratam de assuntos mais sérios e mesmo filosóficos. No entanto, vejo o ato de ler o trabalho de Kinney como algo valioso, observando principalmente o público infanto-juvenil, que é seu maior alvo, fazendo da saga um grande treinamento para a vida, que cada vez mais exige de nós desde cedo preparação intelectual, agilidade em leitura e interpretação, e um vasto repertório sobre diversos assuntos. Uma leitura como essa funciona como um ótimo “entorpecente literário”, que diverte e imerge o leitor em uma narrativa leve e acolhedora, e que, além disso, oferece uma experiência que pode ser um start para as leituras mais pesadas que a vida pode (e vai) lhe oferecer. Tudo isso, porque uma sequência de livros com linguagem e desenhos simples nos mostrou que ler pode ser, acima de tudo, um prazer.

  • Vestir é pertencer, mas a que custo?

    Por Lara V. Pereira Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Cena de "O Diabo Veste Prada 2" (2026). Créditos: Google. Após a sessão de O Diabo Veste Prada 2 (2026), a palavra “identidade”, no contexto da moda, ficou gravada na minha cabeça. A história me levou a pensar no consumo de fast fashion e no de slow fashion, porque, tanto num caso como no outro, somos levados a acreditar na ideia de que o sujeito é o que veste. Nessa construção social de imagens edificadas por meio de roupas e acessórios – nem sempre “verdadeiras” –, performamos o que, por exemplo, pessoas pertencentes a classes diferentes da nossa performam: assunto tratado inúmeras vezes pela sétima arte, como o que acontece na história da personagem Becky Bloom do filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2009). Se no primeiro filme, o uso de Prada reitera traços da identidade e do contexto da protagonista que circulam num universo de “iguais”, no outro a marca é usada para construir uma encenação social de certa identidade, calcada nos símbolos em torno dela, da marca. Ainda: no primeiro, Prada não é um produto em particular, mas uma totalidade criada no contexto do slow fashion – diferentemente do segundo, no qual Prada é apenas um produto; uma peça solta de um quebra-cabeça e, como tal, poderia ser qualquer outra marca. Poderia, até, ser as peças do universo do fast fashion, que, num movimento ascendente, imitam o slow fashion, que, para não ser imitado, propõe novas criações e instaura a ideia de ciclicidade da moda. Cena de "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom". Créditos: Pinterest. Em Delírios de Consumo de Becky Bloom, nem mesmo a marca precisa “ter marca”, mas ser construída discursivamente como mediadora de luxo, exclusividade e desejo. Na história, Bloom é uma jornalista financeira que orienta pessoas a não se endividarem enquanto, paradoxalmente, ela passa a desenvolver hábitos de consumo que a endividam, pois ela se tornou uma compradora compulsiva de produtos relacionados à moda e à beleza, mesmo não precisando deles. Se o sujeito não tem muito dinheiro, ele se vira com produtos de baixa qualidade, falsificados e companhia, produzidos em grande escala etc., movimento que faz crescer o consumo (a oferta, a procura, o lixo, o próprio consumo e mesmo os negócios em torno do fast fashion.) Ao fazer isso, a protagonista – como nós, consumidores do lado de cá da tela – responde a duas motivações: a primeira diz respeito ao mero prazer relativo à aquisição de “coisas” que, de algum modo, a satisfazem – não pelo produto em si, mas pelo que o ato aporta de valor a ela; a segunda, por sua vez, refere-se à construção de uma identidade centrada em um status que não possui – e sim as peças, que são lidas pelo outro da perspectiva de seus simbolismos e rituais de consumo. Moradora da cidade mais cosmopolita do mundo e uma das sedes da capital da moda, Nova Iorque, a jovem ingressante no mundo adulto do trabalho, Becky Bloom, é o retrato do hedonismo do consumo, exatamente estimulada e capacitada pelo que o fast fashion cria como uma galáxia de possibilidades: respostas imediatas à necessidade de o sujeito estar sempre usando as tendências que mudam de modo constante, afinal, a indústria precisa gerar lucro. Nesse modelo de produção e consumo, essas roupas caem facilmente em desuso, pois sempre parecem já estar fora de moda por seus materiais de baixa qualidade, já que foram feitas para durar menos. Duas outras oposições categóricas e autoexplicativas são apreendidas nessa proposta: de um lado, a quantidade; do outro, a qualidade, e ambas reverberam tanto no descarte como em novos ciclos de produção e consumo. Para compreender um dos caminhos para que os produtos do modelo fast fashion sejam vendidos mais baratos, é preciso considerar desde o início do processo: quanto à produção e escolha de matéria-prima, o custo também é reduzido. Muitas vezes, as fibras naturais são substituídas por fibras químicas, como o poliéster. Esse material tem vida útil de, aproximadamente, 200 anos, e ao ser descartado em lugares impróprios, causa um forte impacto ambiental – assunto já abordado por diversas mídias e órgãos internacionais. Como um todo, a produção de fast fashion causa transformações negativas no meio ambiente, quer pela poluição massiva, quer pelo uso excessivo de água, ou ainda, pelo emprego recorrente de produtos químicos que trazem em suas composições poluentes naturais. Além disso, não se pode deixar de mencionar outro aspecto a ser considerado na equação ser humano-moda-planeta: o descarte das roupas e o lixo que ele obrigatoriamente faz acumular em várias partes do mundo, a exemplo do “depósito a céu aberto” que virou o Deserto do Atacama, no Chile. Cena de Imagem: Descarte massivo no deserto do Atacama, Chile. Créditos: AFP. Para além dos impactos ambientais e do crescente acúmulo de lixo, ainda existem as consequências sociais: a exploração humana por trás de muitas indústrias do fast fashion. Para obterem mão de obra barata – reduzindo custos trabalhistas e tributários –, muitas empresas optam por terceirizar etapas de produção em países em desenvolvimento. Pela ausência de acompanhamento dos órgãos trabalhistas e por causa de práticas clandestinas de exploração, as condições de trabalho ainda operam com salários abaixo do que deveriam, quando esses existem, e sempre em ambientes insalubres com jornadas de trabalho diário inimagináveis. Situações como essas estão acontecendo, infelizmente, neste exato momento em algum país em desenvolvimento. A roupa e os acessórios com os valores de proteção, pudor e adorno são uma parte intrínseca da história da humanidade. Em diferentes períodos, eles passaram a receber outros valores culturalmente definidos e se tornaram objeto de circulação nas sociedades, sendo um atrativo extremamente simbólico na indicação de posições sociais, traços identitários, marcas de subjetividades do sujeito etc., sendo um elemento de comunicação não verbal na relação do “eu” com o “outro”. Como produto da cultura, eles são tomados pelas engrenagens do sistema e, constantemente, ressignificados. Por exemplo, a produção de roupas em larga escala existe há muito tempo, e ela se sobrepôs à produção particular, antes realizada por costureiras e alfaiates. Esses dois modos de produção, então, coexistem, conforme atesta a história do ser humano. Nos anos 1990, porém, a indústria nomeou a produção contínua e ininterrupta de fast fashion, cujos traços de sentido já apresentamos ao longo do texto. Em contrapartida, como contradiscurso e prática ao fast fashion, a mesma indústria nomeou e enfatizou outra prática, então, “concorrente”, a do slow fashion, em meados dos anos 2000. Ou seja, os termos são novos e recebem sobredeterminações de sentidos expandidos, mas, como práticas, as ações decorrentes deles já existiam. Assim, o slow fashion, que se diz uma produção mais particularizada, mais individualizada e mais orientada para as especificidades exclusivas do consumidor, se contrapõe às mazelas decorrentes da produção do fast fashion, criado como “novidade” (portanto, moda), a partir da percepção de que os varejistas podiam reproduzir as tendências com rapidez, de maneira massificada e com baixo custo. Imagem: Reprodução/Internet. Créditos: Teen Vogue. Ao contrário, o slow fashion se apresenta como uma resposta a essa rapidez e impacto negativo socioambiental sobre o qual já discorremos. O slow fashion busca durabilidade, ética e transparência durante as etapas de produção, valorização ao artesanal e local e reutilização de peças, pensando no lado mais “humano”, o de respeito ao tempo de quem produz, e às filiações ideológicas de quem o veste. Para exemplificar, temos a Feira da Sulanca e a Feira de Artesanato dividindo o mesmo espaço, na cidade de Caruaru (PE). Enquanto a primeira é referência para quem procura preços baixos, tendências, e opta pela quantidade (fast fashion); a segunda oferece produtos “feitos à mão”, com promessa de maior durabilidade, com melhor qualidade dos materiais, com ares de “exclusividades”, dentre outros atributos (slow fashion). Esses dois mecanismos de produção e consumo são replicados em lojas do centro da cidade, ateliês, shoppings, supermercados, no Polo de Moda etc. Feira da Sulanca – Caruru (PE). Créditos: Metropolitana FM. Toda discussão que se refere ao fast fashion na contemporaneidade inclui questões de marketing e produção em larga escala vendidas em grandes lojas varejistas – não apenas em feiras. Marcas renomadas também aderiram e ajudam a propagar esse modelo de produção e consumo, porque, como dissemos, a produção visa sempre ao lucro. A Shein, varejista chinesa de alcance global, que, inclusive, abriu sob protestos sua primeira loja física na capital da moda, no l'Hôtel de Ville, em Paris, em novembro de 2005, prometeu continuar entregando seus produtos de “moda” a preços acessíveis e lançando tendências, como fez na sua inauguração, em 2012. Aproveitando o espírito do tempo do hiperconsumo, a empresa se dirige a pessoas que querem se sentir, de alguma forma, parte integrante da trend do momento. Ou seja, a Shein e empresas similares captam as movimentações do mercado e respondem de modo positivo aos desejos e necessidades do consumidor ávido por novidades que contribuem para a sua construção identitária social. Com um marketing assertivo, inclusive trabalhado por influencers no Tiktok, a empresa consegue alcançar e dialogar com a geração Z, que usa a própria plataforma para pesquisar produtos de interesse, oferecendo para ela uma moda atual e jovem – e em grande quantidade, apagando, obviamente, uma parte importante da cadeia da produção das peças. Feira do Artesanato – Caruaru (PE). Créditos: Neylma Melo. Como nas feiras de Caruaru, coexistem “sheins” e outros modos de produção e consumo. Em contrapartida ao caso da Shein, temos o consumo dito consciente, quem vem de autoquestionamentos, antes de o sujeito comprar, como: “Eu realmente preciso disso?”. A resposta a ele geralmente se volta para a real necessidade, para a escolha de produtos pela qualidade, ao invés de quantidade, e pela tomada de consciência do saber que uma peça pode ser versátil e estar presente por muito tempo no dia a dia, não levando em conta, primeira e exclusivamente, apenas se ela faz parte de uma tendência. É uma nova forma de educação do e para o consumidor: se uma roupa não faz parte do estilo pessoal dele, é possível que o consumidor esteja sendo feito apenas como massa de manobra, seduzido pelo consumismo e, assim, usando a peça uma única vez para depois ser perdida e descartada. No caso do slow fashion, instauram-se propostas de solução para casos como o descrito e mesmo outros desdobramentos das práticas do consumo exacerbado: refazimento de peças, doações, reciclagem, são alguns exemplos, com destaque para o upcycling, que consiste em reaproveitar o material e criar uma peça nova, reduzindo o desperdício e prolongando a vida útil do material utilizado. Desfile com peças recicladas, Australian Fashion Week, 2021. Créditos: Jessica Hromas Além dessas propostas de ressignificação das peças, outras ações ganham destaque, como o caso da compra de peças vintage e de segunda mão, facilmente encontradas em brechós e sites de revenda. Esse tipo de consumo se alia ao slow fashion, por promover esses movimentos contra o desperdício, o excesso, a quantidade e o próprio fast fashion. Essas práticas são, sem dúvida, mais sustentáveis, apoiando, inclusive, a produção e o comércio locais. No caso das roupas, que são sempre cheias de histórias, elas estão lá, esperando novos começos para seus próprios recomeços. Contudo, como insistimos ao longo deste artigo, a base de qualquer negócio é o lucro do produtor, do comerciante ou de qualquer outro agente na ponta do processo. E isso se aplica também à produção do slow fashion: quanto custa ao consumidor o produto artesanal? Ele é de fato acessível? Por questões de sobrevivência no mercado, os produtores têm que elevar o preço de suas peças, muitas vezes encarecendo-as muito mais do que o fast fashion. Matéria-prima de qualidade, produto direcionado ao cliente, promessa de maior durabilidade encarecem o produto. Ou seja, mesmo com as melhores intenções, o slow fashion não é para todos, até porque as pessoas vivem realidades diferentes. O trabalhador comum costuma optar pelo fast fashion por ter um custo-benefício melhor e por se encaixar na realidade econômica dele. Com o dinheiro que pode ser economizado para comprar uma peça duradoura, ele consegue comprar três com menos durabilidade, e que ainda têm a chancela de “estarem na moda”. E moda é identidade e pertencimento, distinção e imitação. De alguma maneira, suscitamos aqui a ideia de que a moda e o consumo se distinguem, grosso modo, de duas perspectivas: a de O Diabo Veste Prada 2, e a de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. No primeiro caso, tem-se o slow fashion, a exclusividade; no segundo, o excesso, o lugar-comum. De um modo ou de outro, as pessoas consomem o que podem pagar para performar socialmente como querem, e a moda aporta a elas signos que direcionam uma interpretação de quem elas são ou almejam ser. Umas ainda se revestem dos discursos dos brechós, upcycling e afins; outras, das quantidades semanais que são despejadas em bancas, araras e vitrinas. Outras ainda, seguindo uma certa tradição europeia, preferem economizar para comprar peças de qualidade e montar um guarda-roupa inteligente. No fim das contas, todas essas pessoas só querem expressar sua identidade através da moda. Todas querem ser vistas e reconhecidas, e a moda é, então, um cartão de visita para elas, um primeiro contato carregado de mensagens. A questão é: a que custo?

  • O agente Secreto: um filme profundo em tempos de leitura rasa

    Por: Rita Valença de Castro Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins O Agente Secreto, 2025 Apesar de uma trajetória consagrada, com mais de 60 prêmios internacionais, incluindo Cannes e Globo de Ouro, O Agente Secreto chegou ao Oscar 2026 com indicações importantes, como Melhor Filme e Melhor Ator. Ainda assim, não levou a estatueta. O que talvez revele menos sobre o filme e mais sobre a limitação de quem o julgou — já que há obras que não se oferecem à leitura superficial. Trata-se de um filme que exige travessia: cada camada precisa ser lida com atenção, repertório e disposição para compreender o que não se entrega de imediato. Do meu ponto de vista, vivenciamos uma repetição de procedimentos na premiação: em 2025, o reconhecimento também escapou de uma obra brasileira densa e necessária como Ainda Estou Aqui, que traz à tona a memória real da repressão militar no Brasil. Em seu lugar, premiou-se Anora — um filme que, para muitos, se acomoda com facilidade na lógica do entretenimento leve, quase uma “sessão da tarde”. No fim, talvez, não seja o cinema brasileiro insuficiente, mas a superficialidade da própria Academia. O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça e protagonizado por Wagner Moura, é um filme extraordinário, profundamente inteligente, simbólico e politicamente contundente. Nada ali está posto por acaso. Tudo é linguagem, tudo é mensagem. A obra apresenta, de forma lúdica e crítica, aspectos duríssimos da história brasileira — especialmente os efeitos da ditadura militar de 1964 sobre a educação, as instituições e a própria formação do povo. É um filme que abarca, com consistência, conhecimentos de história (do Brasil), de sociologia e de filosofia. Não foi à toa a escolha do personagem principal: um professor e pesquisador universitário (pernambucano). Ele representa o professor brasileiro — sobretudo o da escola e universidade públicas — comprometido com o pensamento, com a pesquisa e com a produção do conhecimento científico. E é justamente por isso que é perseguido. Porque regimes autoritários temem quem pensa. O filme também mobiliza o imaginário popular — como a Perna Cabeluda — mostrando que o medo, o mito e a memória coletiva são formas de linguagem, além de funcionar como uma representação simbólica do repressivo daquele período. O tubarão é outro símbolo central; ele não representa apenas o animal que rondava as praias do Recife já naquela década, mas uma força oculta, silenciosa e feroz —metáfora da repressão ditatorial militar, da violência institucional, da polícia corrupta que fazia corpos desaparecerem e apagava identidades. O filme também escancara a corrupção e a atuação das forças policiais dentro dessa lógica autoritária, revelando algo ainda mais grave: a ausência de formação humanística e de compromisso com direitos humanos. E isso tudo é mostrado com uma precisão impressionante. Eu, como delegada especial de Polícia Civil, hoje aposentada, reconheço ali muitos traços extremamente fiéis à realidade da época — nas estruturas, nas condutas, nos ambientes e nas mentalidades que são reveladas na intensidade de atuação dos personagens. Essa representação não é caricata. Ela incomoda — porque é verdadeira. Dentre as várias cenas e sequências marcantes, há a de um político vindo de Brasília que desmonta uma equipe de pesquisa dentro da universidade. Nela, revela-se um projeto, não apenas de repressão, mas da destruição do pensamento crítico e enfraquecimento das instituições nacionais. E mais: um processo que dialoga com interesses maiores, inclusive internacionais, comprometendo a própria soberania do país. Em outro momento, ganha destaque cena extremamente simbólica: o jornal, com a matéria sobre os mortos do Carnaval, que é colocado sobre o corpo de uma personagem executora. Nela, o filme explicita que a violência não é unilateral — ela circula, retorna e atinge a todos, mesmo em momentos de festejos coletivos. Em seu movimento circular, não escolhe destino: pode recair sobre qualquer um, instaurando um cotidiano atravessado pela vigilância, pela desconfiança e pelo medo. A pessoa que defende a violência muitas vezes não imagina que a violência, numa situação de semelhança, pode acontecer com ela. Há ainda um elemento central que atravessa o filme: a memória. O filho do protagonista, já adulto, não compreende plenamente o que viveu — porque lhe foi negado o direito de saber. Seus pais foram mortos. Seus avós silenciaram. E assim se constrói um sujeito sem memória — um povo sem memória é um povo mais vulnerável à repetição da violência. Nas artimanhas do enredo, dissemina-se uma camada profundamente sensível e socialmente reveladora. Ela se constrói discursivamente quando o professor investiga sua própria origem a partir da história de sua mãe, empregada doméstica na casa da família paterna. Essa relação expõe uma dinâmica histórica marcada pela desigualdade, em que a mulher trabalhadora, muitas vezes invisibilizada, tem sua maternidade perfurada e interrompida por relações de poder. O filho lhe é retirado, rompendo vínculos afetivos, evidenciando uma violência que não é apenas individual, mas estrutural. Em outro momento, o filme apresenta uma cena emblemática: a patroa — mulher rica — que, por negligência, permite que a filha da empregada atravesse o portão, culminando na morte da criança. Mais grave ainda é o tratamento deferente que recebe das autoridades durante o inquérito, revelando como o poder público operava na proteção das classes mais favorecidas, em detrimento dos pobres e trabalhadores. Esse fragmento da história retoma em referência a acontecimentos funestos de um Recife bem atual, mostrando mais um dos aspectos do engajamento político e social promovido pelo filme. Essa cena é extremamente impactante porque escancara como vidas eram tratadas de forma desigual dentro de uma mesma estrutura social. O filme também valoriza o papel do jornalismo investigativo — e feminino —na busca pela verdade, representado por duas jovens jornalistas que investigam os fatos por meio de antigas fitas cassete. Nesse sentido, a cena que apresenta o Instituto do Sangue no local onde antes funcionava um cinema reforça a ideia de transformação da cidade — evidenciando como os espaços se modificam e, com eles, são apagadas histórias, memórias e significados.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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