“Crítica para Náufragos e Outros Ensaios” (CEPE, 2026): o novo livro de Eduardo Cesar Maia
- Revista Spia

- há 2 dias
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Por Isadora Ascendino
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
“Esse livro é uma espécie de narração de uma parte fundamental de minha trajetória como crítico e intelectual.” – Eduardo Cesar Maia, escritor, ensaísta, crítico e professor.
Eduardo Cesar Maia é professor do curso de Comunicação Social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/CAA). Graduado em Jornalismo pela UFPE e Doutor e Mestre em Teoria da Literatura pela mesma instituição. Além disso, o autor escreve sobre crítica cultural, literatura e filosofia. Organizador de duas obras, Sobre críticas e críticos (CEPE, 2015), uma biografia, e Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste (CEPE, 2015), um ensaio. Seu lançamento mais recente foi o livro infantil A Vaca Macaca (CEPE, 2022), um grande sucesso na literatura e aprovado pelo Plano Nacional de Livros Didáticos (PNLD), na área da educação infantil.
Nesta entrevista exclusiva, Maia fala sobre o seu novo livro não-ficcional Crítica para Náufragos e Outros Ensaios (CEPE, 2026), onde ele sintetiza muito amadurecimento conquistado em sua longa trajetória como crítico literário; uma obra que reúne seus ensaios sobre a própria atividade da crítica nos tempos modernos. Refletindo sobre a tradição da crítica humanista, visão filosófica e cultural que centraliza o ser humano através da ponderação constante e do questionamento de estruturas de poder, a obra busca resgatar a permanência do humanismo crítico como interesse na atualidade, tese de seu doutorado.

Com exclusividade, o escritor concedeu uma entrevista para falar um pouco da sua relação com a escrita e da sua experiência ao produzir esse novo livro que vinha sendo pensado e/ou produzido desde o seu doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco que tem como tese “Crítica e Contingência: uma reavaliação da crítica humanista através do perspectivismo filosófico de José Ortega y Gasset e do personalismo crítico de Álvaro Lins” em 2013, que reflete a respeito da atualidade da tradição crítica humanista através das obras dos citados autores.
Sobre o que fala o livro? O que o motivou a escrevê-lo?
R: Crítica para Náufragos e Outros Ensaios é um conjunto de ensaios meus buscando pensar a crítica em nosso tempo. Uma das minhas motivações foi justamente refletir sobre os valores que a sociedade tem utilizado para legitimar ou deslegitimar uma obra, já que vivemos uma espécie de ética simplificadora de pura adesão ou total repúdio, sem meio termo. No livro, eu volto os pensamentos para quais são os valores, o sentido, a função e os limites da própria atividade da crítica. O livro é uma reunião dos meus textos, que eu chamo de metacríticos – crítica da crítica. Eles abordam temas filosóficos, o pensamento sobre o que é literatura, o que é ficção e a relação entre ideias e formas.
O que motivou você a escolher o título da obra?
R: Essa pergunta é interessante e importante para mim, porque foi difícil. O nome “Crítica para Náufragos” vem de uma metáfora. O náufrago é aquele que, para não afundar, permanece “batendo os braços” para nadar. Se ele parar, ele afunda. E, para mim, essa é a metáfora que define a atividade crítica. O crítico não pode se dar por satisfeito, já que a crítica é uma conversação interminável sobre todos os assuntos.
Fazendo uma relação entre A Vaca Macaca (CEPE, 2022) e Crítica para Náufragos e Outros Ensaios (CEPE, 2026), como foram os processos de criação de ambos livros? Você sentiu uma grande diferença?
R: A diferença entre as produções é total. A ideia de que um dia eu poderia escrever uma obra de ficção já me ocorreu. Eu trabalho com literatura, então eu pensava que talvez mais velho fizesse alguma coisa, mas não tinha planejado, muito menos uma obra infantil. De repente, percebi que tinha uma história que foi muito bem recebida por quem leu, por mais que tudo aquilo fosse novo e uma surpresa particular para mim. "Crítica para Náufragos", em contrapartida, é da minha área. Eu considero a atividade de crítico como um trabalho, mas também uma vocação, por isso o campo é cada vez mais fruto do meu interesse. De alguma forma, eu venho pensando nele desde o meu doutorado finalizado em 2013.


Como crítico literário, como você analisa seus próprios livros? Há uma cobrança maior de si mesmo sobre seus resultados?
R: Pessoalmente, eu tenho uma atitude que eu acredito ser muito pragmática. Eu odeio afetação, então eu penso o seguinte: Como eu acredito que tudo, todas as nossas atividades e obras são contingentes, o que eu estou deixando nesse livro não é mais do que uma perspectiva minha durante esse período da minha vida. Então, de antemão eu aceito – até para ficar tranquilo comigo mesmo –, que podem aparecer críticas ou que daqui a pouco eu posso olhar para trás e discordar do que escrevi. Então, eu vejo isso com tranquilidade. Eu gosto de quando as pessoas leem o meu texto, mesmo que critiquem, porque, para mim, é a natureza do meu trabalho.
Podemos separar a obra do autor? O quanto das suas vivências tem nesse livro?
R: Há um ensaísta, Oscar Wilde, que diz que “toda crítica é uma forma de biografia” e eu tendo a aceitar essa visão. Há um trabalho de pesquisa, um esforço de entender objetivamente certos aspectos da realidade, mas aqui estão as minhas preocupações: Eu tenho perfeita consciência de que muita gente não pensa igual a mim e que há muitas formas de ver a crítica. Em “Críticas para Náufragos” eu defendo uma perspectiva da crítica e do pensamento como uma atividade também retórica, persuasiva, mas necessariamente imperfeita. Vivemos em uma sociedade pluralista e não vamos ter jamais um consenso absoluto. Tem muito de mim aqui, mas não é um eu fixo, eu sigo em mudança, sigo pensando.
Qual o propósito da sua escrita? Ou vai muito da inspiração?
R: Essa pergunta é bem complexa para mim, mas acredito que seja principalmente para auxiliar na minha compreensão de mundo. Eu comecei a me interessar por crítica em uma tentativa de compreender melhor as coisas. Não faço crítica para ensinar alguma coisa a alguém, faço crítica, em primeiro lugar, para mim mesmo. Para tentar compreender melhor as ideias de um autor.


Todas as suas publicações foram feitas em parceria com a CEPE, a Companhia Editora de Pernambuco. Qual a sua relação com a editora? Como funciona essa dinâmica parceira entre vocês?
R: Nossa relação começou porque eu trabalhei por sete anos na revista Continente, produzida pela CEPE, antes de ser professor universitário. Eu escolhi a CEPE porque a editora tem profissionalismo e capacidade para levar os livros pra fora de Pernambuco com uma boa distribuição e divulgação.
Quando e onde será o lançamento do livro?
R: Estou muito animado pela estreia! A divulgação está prestes a começar, mas será dia 15 de maio na Academia Pernambucana de Letras (APL) em Recife, Pernambuco. Em Caruaru, ainda estamos organizando, por isso não temos uma data ou local, mas acredito que seja por volta de junho ou julho.
Você citou que escrever ficção foi uma ideia que lhe ocorreu para o futuro, mas a paternidade transformou-a em algo do presente. Como foi a experiência de escrever “A Vaca Macaca (CEPE, 2022)”? Você imaginava que o livro fosse conquistar tantos feitos, como a seleção no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), por exemplo?
R: Esse é um livro que só me trouxe alegria, mas foi uma surpresa para mim. Recentemente ele foi selecionado pelo PNLD, Plano Nacional de Leitura da Educação Infantil, e vai ser distribuído nas escolas públicas de todo o país. Essa é uma obra muito especial porque surgiu a partir da minha experiência com a paternidade da minha primogênita. Assim como eu, ela sempre gostou de histórias e pedia para que contasse para ela dormir. Hoje eu conto para ela e para a minha filha mais nova, e esse é um hábito que nos aproxima. A Vaca-Macaca surgiu na verdade como um personagem inventado por mim, e ela amou. Certo dia me veio uma ideia mais concreta de quem era a vaca macaca, um ser que não está satisfeito com a sua própria identidade fixa de ser vaca e quer ser também uma macaca. A partir disso, realmente vieram muitos frutos positivos.
Há previsão de novos lançamentos?
R: Não tenho datas, mas já tenho outro livro sendo submetido à edição. Também é um livro voltado a ensaios críticos. A diferença entre ambos é porque esse apresenta mais uma reflexão sobre a própria atividade crítica e o próximo será voltado ao crítico em ação. Aguardem!

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