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  • Uma Música Cascabulho

    Texto escrito por Maria Clara Mendes No dia 19 de maio de 1995, com o Recife em plena transformação do Mangue, surge uma das bandas pernambucanas mais inventivas e com raízes na obra de Jackson do Pandeiro. O Cascabulho deixou a sua marca no Mangue e na música brasileira. “É muito gratificante ter a certeza que você acompanhou o processo inicial e que ainda está ativo na construção desse movimento que veio a se chamar de Mangue”, revela Magrão, vocalista do grupo, em entrevista à Revista Spia para o Especial de 30 anos do Manguebeat. A contribuição do Cascabulho com o Manguebeat reflete a diversidade musical e estética do movimento. Sobre este aspecto, Magrão é enfático: “A peça fundamental do Manguebeat foi a diversidade. Você tinha uma cidade pulsante, e ainda tem, numa produção musical efetiva e vigorosa, e ao mesmo tempo, uma diversidade que eu acho difícil outro lugar do Brasil ter”. Esta pluralidade se evidenciava sobretudo em dois alicerces do movimento: Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, autores respectivos dos icônicos discos ‘Da Lama ao Caos’ e do ‘Samba Esquema Noise’. “Nós tivemos o primeiro contato com Chico Science & Nação Zumbi na cidade de Campina Grande, onde nós abrimos um show pra eles que estavam vindo, se não me falha a memória, de Fortaleza, e daqui de Recife foi o Cascabulho e o Eddie”, recorda. Foi nesta noite que a banda entregou a Paulo André Pires, empresário de Chico e Nação, um release e uma fita demo. “Depois que Chico faleceu, nós começamos a trabalhar com Paulo André e foi onde nós fizemos as nossas primeiras turnês internacionais.”, relembra. Este encontro impulsionou o Cascabulho a lançar o seu primeiro álbum, no Brasil, na Europa e no Japão, colocando um potente trabalho autoral no mundo. Destas memórias se destaca um lamento: “Infelizmente por uma partida precoce, a música perdeu Chico e nós não tivemos a honra de trocar uma ideia com ele, de talvez traçar algumas coisas musicalmente falando”. É possível se emocionar só de imaginar o que Chico e Cascabulho teriam produzido. Se não houve tempo suficiente para que esta parceria acontecesse, Chico Science inspirou uma geração e movimentou, com outros caranguejos, uma cena em que o Cascabulho se insere. “Eu considero o nosso principal legado, além de fazer parte dessa diversidade, nós construímos, hoje, uma música Cascabulho que veio fincada a partir da música de Jackson do Pandeiro”, observa. Esta influência é um indício das vivências dos membros da banda. “Como pessoas nascidas no centro urbano e crescidas na cidade, mas filhos e netos de pessoas que vieram de zona rural, mostrar a música de Jackson do Pandeiro numa dimensão ampla foi fundamental”, ressalta. Se ainda hoje há quem desconheça a obra de Jackson do Pandeiro, a situação não era diferente nos anos 90 e o grupo buscou “mostrar a música do Jackson do Pandeiro numa dimensão maior do que apenas algumas canções que se conhecia do rádio, no período do ciclo junino”, aponta. A vontade era construir a sua própria identidade, inspirada na genialidade do mestre e vinculada com referências da zona rural e da vida urbana. O Cascabulho se colocou vigorosamente numa posição de destaque, pulsando criatividade e confirmando o que para Magrão é uma certeza: “considero que ainda hoje a música pernambucana é a música mais criativa da música brasileira”. O movimento Mangue é um forte exemplo da diversidade e da criatividade da música pernambucana, “o legado do Manguebeat foi ter colocado efetivamente a música de Pernambuco em sintonia com a música contemporânea do mundo”, afirma. O Mangue que já se mostrava original nos anos 90 e que ainda ecoa 30 anos depois, “foi uma oxigenação total, naquele momento, nas artérias da música brasileira, injetando novos elementos e inovando a música brasileira”, manifesta. Para o Cascabulho é um orgulho ter participado deste momento histórico e se manter na ativa como “uma das poucas bandas, ao longo desses 30 anos do Mangue, com 27 anos ininterruptos de atividade”, destaca. Fica evidente a vontade de fazer muito mais: “o Cascabulho continua seguindo com disposição de mais 50 anos de música, de força, e de construção de uma música Cascabulho”. A música brasileira só pode festejar que o Cascabulho continue a sua inventividade, levando para as novas gerações o trabalho de Jackson do Pandeiro, o legado da própria banda e do Manguebeat. Afinal, a música Cascabulho nos revela o que de melhor temos na cultura pernambucana e brasileira.

  • Manguefonia

    Relato escrito por Mariana Gonçalves Show de celebração aos 30 anos de Manguebeat com concepção e direção de Jorge Du Peixe e Dengue que balançou a praça Dominguinhos com big band de formação hibrida de percussão, guitarras e vozes exaltando herança viva do movimento cultural brasileiro que tirou a produção musical do estado do marasmo botando em prática a filosofia da diversão levada a sério. Pernambuco ainda abriga uma das maiores e mais originais cenas culturais do país, com uma diversa gama de expressões de novos e antigos talentos. Desde os fins dos anos 80 para cá, mais de 30 anos de experimentos da Nação Zumbi, Mundo Livre SA, Devotos do Ódio, Eddie e Mestre Ambrósio e seus afiliados Mombojó, Sheik Tosado (hoje na figura solo de Chinaina), Alessandra Leão, Isaar e Karina Buhr (isto contanto apenas no eixo Recife-Olinda), seguem botando em prática a filosofia da diversão levada a sério e o mote "Pernambuco embaixo dos pés e a cabeça na imensidão", realizam de seus núcleos espalhados pelo país um pós Manguebit de musicalidades tão ímpares que deixaria o saudoso patrono orgulhoso. O anúncio de um show com membros da Nação meses depois da notícia um hiato de duração indeterminada, já era chamado o suficiente pra caravanas e fãs partindo de todo o estado tomarem o rumo da cidade das flores. Meu conto começa na rodoviária de Caruaru, 97.6 km de distância do ponto final da noite, de onde partimos num Chevrolet Classic, cheio de malas e de expectativa. Era o último show do palco principal do FIG e pela hora só íamos chegar a tempo da misteriosa homenagem (não que ninguém precisasse conhecer mais que três nomes da lista e três hits pra já ficar ansioso). A praça Mestre Dominguinhos já estava apinhada quando por volta das 11 da noite a apresentação começa, com Roger de Renor relembrando nominalmente a importância das personalidades e coletivos da cena, da força e representatividade de um movimento que segue vivo trinta anos depois de pedra fundamental ser lançada em forma de release-manifesto, assinado por Fred 04, o ministro da comunicação do mangue. Abrindo com Siba Veloso, vocalista compositor e multi-instrumentista, da finada Mestre Ambrósio, Siba e a Fuloresta, em atual carreira solo cantando “Trincheira da Fuloresta” emendada num sincero discurso de valorização da cultura tradicional. Daí começa a Turma tá Subindo, e com ajuda do ritmo e de um pouco de álcool, ninguém fica parado. Cannibal, segundo convidado, surge tal qual uma entidade de força e beleza, incendiando o público, puxando coro pra Lula, citando Paulo Freire e exaltando o “Punk Rock Hardcore do Alto José do Pinho”, berço da Devotos do Ódio, banda formada em 1988 no bairro recifense que dá título ao hit, que como a galera das primeiras grandes rodas punk por todo lado já sente, é do carai. Seguimos com Fábio Trummer que faz uma performance rápida e amarrada mas instigante dos hits de sua banda Eddie. Dando a deixa pra Louise França, atriz e cantora, a filha de Chico, que é a quarta vocalista da noite, fazendo sua estreia nos palcos do FIG com traje de gala: óculos de lente verde, chapéu coco de fibra sintética e o vestido de Silvana Carmo adornado de caranguejos, prédios, antenas e água. Todos os símbolos da manguetown e essa garota com a feição conhecida (nem todos os filhos parecem com os pais mas Louise parece e muito com Chico, é inevitável não vê-lo nela). Desde a hora que sua figura é iluminada no palco, é tudo dela. Cantando “Risoflora”, com a guitarra de Neilton pronunciada e limpa, o público em coro, ela passeia leve pelo palco, à vontade e linda. Emocionado e orgulhoso, Fred 04 assume os vocais e, de cavaquinho em punho começa sua “Livre Iniciativa” com Dengue inspirado no baixo e no backing vocal. Na sequência “Baile Infectado” e Toca Ogan no front: com seu tambor, de roupa e sapatos brancos o percussionista brilha e emenda uma dança cheia de suingue e classe (Toca é músico e sacerdote de candomblé, junto com Gilmar Bola 8 é cria do Lamento Negro grupo de percussão e canto seminal para o movimento, este nascido das iniciativas de formação do Daruê Malungo, centro de cultura e educação de Peixinhos onde crianças e jovens aprendiam desde cedo a dançar e a tocar instrumentos.). Agora a deixa de Jorge Du Peixe, que abre o último bloco do show com “Monólogo ao Pé do Ouvido/Banditismo Por Questão de Classe”. O clima muda: a Nação está presente, o coro engrossa, todo mundo sorri. as maiores rodas punk se formam por onde a vista alcança. A massa de gente que lota a praça pula, corre e nesse ponto ser empurrado pela horda de homens e mulheres eufóricos é inevitável, eu fui. Passado o susto voltei pra roda, tirei e amarrei meus dois casacos e me joguei em “Foi de Amor”, sentimental, instigante e caótica, o que uma pequena gota serena é capaz de fazer. Em “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” Vicente Machado, baterista da Mombojó e o trio de percussão brilham desde os primeiros pulsos do couro. Serpentina voa, jatos de fumaça abrem alas pra “Manguetown”, o maior coro completa os versos, Du Peixe nem precisaria cantar senão quisesse. “Quando a Maré Encher” traz Fábio Trummer de volta (aos não iniciados cabe mencionar que é dele a letra famosa também na voz de Cássia Eller), e todo ser vivo num raio de várias centenas de metros sente a vibração da percussão rápida e pesada do trio. O show se encaminha ao encerramento, é a hora do coral: cinco vocalistas se unem em “Da Lama Ao Caos”, Siba prefere agora contribuir nas cordas de sua guitarra. Em cerca de duas horas e dez minutos de show, doze artistas no palco, três gerações de artistas pernambucanos, trinta anos de história ainda sendo escrita. Foi meu primeiro show da Nação, um marco na vida de qualquer entusiasta de música boa; o terceiro avistamento de Siba, mestre dos públicos e do ritmo, tá sempre incrível; foi nesse dia que conheci Cannibal, Toca e Dengue, Louise e Trummer, uma galera boa de ritmo, de discurso, de dança e carisma; e nos meus também 30 anos, nunca antes o propósito do manguebeat fez tanto sentido. Ele segue vivo no imaginário coletivo de quem nunca pisou no manguezal mas ouviu Chico cantar do chié, da lama fétida mas fértil. Da cidade sufocada ilusora de pessoas (ou o que restou dela), dos jovens e velhos filhos da revolta, da fome, tão mais latente hoje num país endividado e empobrecido e também de mim, aquela criança humilde dentro do paú, em Jardim Maranguape, fazendo armadilha pra aratu e se encantando com os frutos do pé de panã; indo de kombi ou no Chevette vermelho de meu pai à primeira etapa de Rio Doce visitar minha avó paterna. Lavadeira, pescadora e exímia cozinheira dos frutos desse mar, que não deixou seus noves filhos sem mistura. No almoço com pirão de guaiamum, rádio ligado, cerveja e dominó, ouvindo como era limpo e vivo o rio que dá nome ao bairro de Olinda, berço do coletivo mangue e de Chico, do Sheik Tosado de China e Bruno Ximarú, do som estrondoso, original, político e forte que em 21 de julho de 2022 invocou emoção e bagunça e alegria sem nome e sem fim na madrugada fria e festiva da praça Dominguinhos. Não foi um show qualquer Saímos todos rebocados pela PM assim que o show acabou e começaram as rodas de coco, sempre elas, porque se eles deixassem tinha gente lá até agora. Galeria de Fotos:

  • “Fazem 25 anos da partida dele, e eu vejo muita gente de uma nova geração que não o conhece"

    Entrevista com Paulo André Moraes Pires, por Nayara Nascimento Fundador e organizador do festival Abril Pro Rock, um dos criadores da feira Porto Musical, empresário que articulou a jornada da música pernambucana dos anos 90 pelo mundo, especialmente a carreira de Chico Science & Nação Zumbi (e também da Nação após a morte de Chico), Paulo André Moraes Pires dá um novo passo em sua carreira, dessa vez como escritor. Em agosto deste ano lançou seu primeiro livro: "Memórias de Um Motorista de Turnês", o livro traz a memória principalmente do lado estradeiro de suas aventuras musicais. Em entrevista, ele conta um pouco como surgiu a ideia do livro e a cena Manguebeat. Nayara Nascimento (NN) - Como surgiu a ideia de fazer um livro contando essas tuas experiências como produtor? Como se deu o processo criativo? Paulo André Moraes Pires (PP)- Agora durante a pandemia, 2020 e 2021, foram duas datas redondas das turnês. Em 2020, foram 25 anos da “From Mud to Chaos”, o World Tour, né? Que foi a Turnê internacional de “Da Lama ao Caos”. E no ano seguinte foram 25 anos da segunda turnê que a gente chamava de “Afrociberdelia”. E bom, pandemia, a gente em casa, eu comecei a me debruçar no acervo. Eu sou colecionador desde os dez anos de idade, então eu sempre tive a preocupação de guardar os flyers, cartazes, e tal, e aí eu comecei a olhar esse material, jornais.... Então quando chegou a pandemia e eu comecei a postar essa memoriadelia e falar dos dias e das coisas que aconteceram, eu comecei a ver que eram os posters mais comentados. Quando chegou 2021, que aí eu já estava falando sobre a turnê Afrociberdelia Internacional e outros assuntos, veio o edital Recife Virado, da prefeitura do Recife, e ai eu comecei a analisar o Instagram, e me dei conta que eu já tinha textos suficientes tanto para um livro mais diferente do que eu idealizava. Eu sempre falo assim: eu estou escrevendo esses textos das turnês internacionais principalmente pela memória do Chico. A gente vive num país sem memória. Fazem 25 anos da partida dele, fazem agora mais de 25 anos dessas turnês, dos discos, e eu vejo muita gente duma nova geração que não conhece, então, a ideia era essa, mas eu desfiz essa ideia quando eu resolvi fazer essa compilação de textos que tem um pouco de cada um dos livros que eu pretendo lançar ainda num futuro próximo, como, por exemplo, a minha experiência dos três anos nos Estados Unidos, enfim um pouco dessa trajetória. NN – E o que os leitores podem esperar do livro? PP - Olha, o livro, acima de tudo, é um livro divertido, é um livro que eu escolhi não ter histórias tristes. Nesse livro eu tentei trazer duas coisas, a primeira: eu sou muito convidado para falar para jovens músicos e jovens produtores; e eu sou de uma geração que não gozou desse privilégio, porque não existiam palestras, não existia seminário de economia criativa, nada disso, eu aprendi fazendo. Então eu tenho o maior prazer de falar pra essa juventude, e eu quero desmistificar que o produtor é aquele que fica dando a coordenada em tudo, ele tem um compromisso e que você tem que fazer tudo, se você gerencia uma carreira, meter a mão na massa, literalmente. Mas são histórias divertidas, são histórias da música pernambucana, e principalmente nesses dois capítulos das turnês internacionais de Chico, um amigo meu me falou que a sensação que ele teve é como se ele tivesse embarcando na van com a gente, você sabe como as coisas rolam ali nos bastidores. Então é um trabalho não só pela memória do Chico, mas pra fazer com que a galera saiba onde ele chegou com a Nação. A gente atingiu o cume da montanha da música pop, a gente estava ali ao lado de grandes nomes da música pop daquele momento, como nós éramos também, e eu digo que nós éramos alpinistas amadores, mal agasalhados, mas que apesar disso conseguimos chegar no cume da montanha da música pop. Então o livro traz muito disso, né? E aí eu finalizo o livro dizendo o seguinte, meio que dizendo que não houve esse investimento da gravadora, eu digo que “não interessa o tamanho do veículo, mas sim a forma como se dirige”, que é um trocadilho com o título do livro. Enfim, desmistificar o papel do produtor também, que é mais do que só produzir. NN – Nestes teus mais de 25 anos de carreira como produtor, qual o momento relatado lá no livro que pra você foi mais importante, teve um impacto maior na tua vida, ou algum fato curioso que você possa adiantar pra gente? PP – Olha, eu falo muito das duas cenas que eu testemunhei nos Estados Unidos, o Fresh Metal com a metálica virando uma mega banda, e depois o funk-rock pesado COM O FAITH NO MORE, PRIMUS, O MORDRED aquilo pra mim mudou minha vida realmente, assim, virou uma chave, eu pensei que eu queria trabalhar com aquilo, aquilo era o que eu queria fazer pro resto da minha vida, e quando eu volto pra Recife, como eu era uma das poucas pessoas que a trabalha com isso, o Chico me convidou pra trabalhar com ele. Eu também acho que talvez se eu não tivesse esse passado recente nos Estados Unidos se eu não falasse inglês, se eu não tivesse já transitado de alguma forma na música, eu não teria o posto de gerenciador da carreira dele, então essas experiências foram incríveis, a vida continuou depois, infelizmente não pra ele, e eu também falo do Dj Dolores, eu falo do Cascabulho, da Cabroeira, outras bandas que eu trabalhei, que também circulei internacionalmente, realizei turnês com eles também. Hoje eu sou um motorista de turnês aposentado. NN– No livro você fala sobre a sua experiência com a turnê no exterior, o sucesso da Nação Zumbi. Como foi ser produtor de uma das bandas que marcou o movimento Manguebeat? PP – Olha, o mais incrível pra mim de ter sido o produtor dessa turnê histórica do Chico em 95, é que a gente não era nem samba, nem bossa nova, nem MPB, que eram os três gêneros musicais brasileiros mais conhecidos no exterior, e era até difícil rotular o som da banda, mas aquilo também foi o divisor de águas para uma nova música brasileira que se projetava internacionalmente, jovem, diferente de tudo que já havia sido conhecido por eles de música brasileira, né? Então foi incrível testemunhar aqueles momentos, tocar em grandes festivais, dividir o palco com gente..., né? Os encontros, a gente encontrou o David Byrne dos Talking Heads, conhecemos o cara do Ministry. Então, apresentar o Chico a esses caras, estar ali nos bastidores, a história que eu contei com CBGB que é um dos inferninhos mais famosos do mundo, que tem até um filme de Hollywood sobre a história do CBGB e do HILLY KRISTAL, então, a experiência de cruzar com esses personagens foi incrível. NN – Hoje no lançamento do livro, você estava falando que o Abril Pro Rock, o movimento undergroud, traz a luta pela permanência do movimento. Qual foi a importância do Abril Pro Rock pra cena Manguebeat? PP – Olha, eu diria que a cena Manguebeat foi importante pro Abril Pro Rock assim como o Abril Pro Rock foi importante pra cena Manguebeat também, porque quando o Abril Pro Rock começou nenhuma banda tinha gravadora, nenhuma banda tinha saído de Recife ainda pra tocar em outro estado. E aí logo depois Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre SA viajam, vão tocar no sudeste, Belo Horizonte e São Paulo, já com as gravadoras assediando para assinar contrato, né? E aí no segundo Abril Pro Rock, o Chico já estava na Sony, e ai galera da Sony vem e já vê o Jorge Cabeleira, o “Da Lama ao Caos” fica pronto no segundo Abril Pro Rock, e no terceiro Abril Pro Rock o disco do Planet e do Jorge Cabeleira são lançados juntos pela Sony, a mesma gravadora do Chico. E ali começam as gravadoras a assistirem as bandas, gostavam... Os Devotos foi pra BMG, Penélope da Bahia foi pra Sony, e um pouco depois, no final dos anos 90, o Los Hermanos também creditam o Abril Pro Rock como um show importante para fazê-los chegar numa gravadora, né. Então ali começa uma movimentação. NN – Para finalizar, 30 anos de Manguebeat, como é que você vê o movimento hoje? O que podemos esperar para o futuro? PP- Olha, antes de mais nada, eu fico feliz porque tá todo mundo aí produzindo, todo mundo muito bem, obrigado, né? Tem o pós-mangue também que todo mundo continua aí, e eu vejo, como eu vi agora... Tem até uma matéria que saiu no programa Metrópoles da TV Cultura que eles me perguntam sobre hoje, e aí eu falo de grupos como Abolidos, Barbarize, uma banda chamada Janete Saiu Pra Beber que é do Cabo de Santo Agostinho que tem muita influência do Mangue, eu falo de muita gente que eu não tô lembrando agora, gente nova, e eu vejo como uma continuidade, né? E fico muito feliz em acompanhar. Então eu penso que a mensagem continua né, você vai no Recife, você vê Chico nos muros, influencia a galera do grafite, a galera das artes visuais, agora na FENEARTE, nossa, eu vi Chico de madeira, de barro, de ferro, de pano! Assim, você vê que o imaginário foi tão forte que visitando a FENEARTE eu queria ter dinheiro pra comprar tudo, consegui comprar algumas coisas, mas é impressionante como ele ainda inspira outros artistas, não só da música, a produzirem com essa influência, com esse universo como inspiração.

  • Uma cena em cima da lama

    Vídeo-ensaio realizado por Maria Clara Mendes e Sammy Quando Chico Science e a Nação Zumbi cantaram que só tinha caranguejo esperto saindo do manguezal, o recado estava dado: depois dessa galera, a música jamais seria a mesma. Os caranguejos com cérebro, liderados por CSNZ e Mundo Livre S/A, inspiraram uma geração e cristalizaram uma cena que apresentou para o mundo o que Pernambuco tem de melhor: as suas diferenças e uma pulsante pluralidade de ideias e sons. Considerando estas figuras centrais e protagonistas do que ficou conhecido como Movimento Mangue, apresentamos o vídeo ensaio ‘Uma cena em cima da lama’, realizado por Maria Clara e Sammy. Utilizando recortes de entrevistas, documentários, shows e clipes, o vídeo ensaio traz um pouco do Mangue por meio do que os próprios mangueboys têm a dizer.

  • “Chico falava isso, sobre diversão levada a sério e hoje a gente vê isso”

    Entrevista com Roger de Renor, por Nayara Nascimento “Cadê Roger, cadê Roger, cadê Roger, ô?” Vendedor, capoeirista, dançarino, empresário, ator, apresentador de rádio e tevê e produtor cultural. Roger de Renor, teve e tem um papel importante na movimentação da cena cultural pernambucana. São mais de três décadas dedicadas às artes. A história de Roger de Renor se confunde com a trajetória da cultura de Pernambuco e com a cena Manguebeat. Afinal, não tem como falar do Manguebeat sem falar da Soparia. Roger de Renor, dono do bar Soparia, lugar que foi um dos principais redutos do movimento manguebeat, conta como surgiu o bar, sua trajetória e perspectivas sobre o movimento. Nayara: Não tem como falar do Manguebeat sem falar da Soparia que se tornou praticamente uma sede do movimento. Como surgiu a Soparia e quais foram os desdobramentos dessa iniciativa? Roger: Eu brinco que a Soparia foi uma tentativa de viver sem trabalhar, depois eu descobri que viver sem trabalhar dá mais trabalho. Mas a Soparia era como se fosse uma festa na minha casa, eu sempre fui muito bom de festa porque eu conhecia muitas pessoas. Eu trabalhava com disco, era representante de uma gravadora de disco, conheci o pessoal da capoeira, fazia teatro e depois fui para o balé popular. Então quando eu deixei de ser representante de disco, eu sabia que daria certo vender ‘rango’ de madrugada e conciliando com a boemia, com a farra... Recife não tinha loja de conveniência de madrugada, tinha mercado público ou a porta da restauração, mas não era lugar feliz e sim de trabalho. A Soparia surgiu para isso, era uma festa todo dia e eu levava a sério isso, eu tava lá toda noite e cuidava de todos os detalhes menos do caixa (risos). Era um lugar muito aconchegante. No início não tinha músicos, começou com chorinho e depois passou a ter atração de segunda a segunda, exibição de clipes, de filmes, teatro, era um lugar muito diverso, ocupou um espaço de sede do Manguebeat e acolheu a galera na ida e volta dos shows, era um lugar muito livre. Nayara: Chico Science e Nação Zumbi foi uma das principais bandas que se consolidou no Brasil e conquistou um renome através do manguebeat. Quais outras bandas do movimento passaram pela Soparia e que conseguiram ter essa consolidação que a Nação Zumbi teve? Roger: Não digo exatamente que foi por tocar lá. Acho que a gente teve mais proveito do que as bandas. Por exemplo, Mundo livre e Nação Zumbi tocaram lá uma vez. Mestre Ambrósio fez temporada lá, tocou toda quarta durante dois anos, era um evento. O show de Chico e Mundo Livre S/A foi bem no começo da carreira deles. Muitas bandas tocaram lá. Chegou um ponto que teve uma banda, que eu não me lembro qual, chegou pra mim falando que ia tocar no Rec Beat em São Paulo, mas que nunca tinha tocada na Soparia e que queria tocar lá antes pra não chegar lá e ser a única banda que não tocou. Banda Eddie, Matala na Mão, todas as bandas da época e as que também por outros motivos não continuaram, mas se estivessem estariam se transformado também como essas, como o Cavalo do Cão, super importante na cena. Era muita gente do movimento que está aí hoje ou pararam por outros motivos. Nayara: A Soparia se tornou uma sede do movimento, era realmente um local que movimentava a cena. Você considera que hoje ainda é importante ter um lugar como esse funcionando como sede para a movimentação de uma cena musical? Roger: Sim, acho que o lugar físico é imprescindível, por mais que a tecnologia preencha o lugar da rádio, hoje por exemplo tocou uma artista e eu fui procurar ela no Instagram e eu já a conhecia por referência de outros músicos como Lucas Torres. Então hoje a gente tem a referência do algoritmo, mas ele não é honesto com a gente, não que os bares sejam, a gente não confia tanto, mas a confiança na pessoa humana que produz o lugar, o aconchego, o acolhimento para as pessoas irem e se encontrarem. Música é encontro. Tem outros lugares como o Terra Café e o outros que eu considero que são lugares bem importante pra nossa música. Outros institucionais como o Passo do Frevo, que são importantes e construídos também a partir dessa necessidade. Mas os lugares físicos continuam, talvez não como sede, ou inferninhos porque as coisas mudam, mas como espaços humanos de encontros e de assistir ao vivo, e agora com essa necessidade que a gente tem de lugares de pequeno porte, porque a gente tá cansado de palcos grandes que você ver nos telões. Antes da pandemia já tinha lugares pra 40 pessoas, mais acessíveis etc. E isso é massa porque você fideliza a galera e depois consegue multiplicar pelas redes sociais. Nayara: Olhando pros 30 anos do manguebeat, para toda a trajetória da soparia, você faria algo diferente? Roger: Tô respirando pra pensar não, mas pra não chorar. Com essa volta do FIG, se eu parar pra pensar eu me emociono. Eu teria estudado, daria tempo ainda. Mas eu tive uma experiência legal na época que eu fui chamado pra estudar era uma pauta pública que a gente discutia muito, fiz programas de rádio mesmo sem ter me formado, me assumir como comunicador, fiz vários programas de rádio… Essas experiências foram uma formação também, mas talvez com formação acadêmica eu também teria contato com outras pessoas e ia descobrir muitas coisas também, ia ser outro aprendizado. Nayara: O manguebeat surgiu através dos manifestos e críticas sociais, através do que a própria sociedade enfrentava. Você enxerga que o movimento continua com essas mesmas ideias? Roger: Eu não vejo mais o movimento como só musical, acho que a música serviu pra chamar atenção, mas hoje as causas tem mais alcances porque tem mais ferramentas. O Manguebeat sofreu com esse remédio que ele usou pra ter o alcance. A forma de comunicação era a MTV, eu fico meio assim quando vejo as pessoas falando e quase celebrando “ah, MTV tava chegando no brasil” e esquece a crítica sobre isso, a MTV clareou, embranqueceu o Manguebeat. O movimento tem pessoas brancas sim, mas o reflexo dele é negro, é periférico. A gente tem Chão de Estrelas e Peixinhos como a base, e isso se calou, Josué de Castro é um fundamento, por exemplo, mas passou a ser curiosidade. As pessoas dentro da comunidade hoje, que compõe, que faz manifestação, que faz grafitagem, tá ocupando os espaços no CAC, na Universidade Federal, muita gente do teatro, dança etc. Elas têm outra visão, são pessoas do Bode, Ilha de Deus, de Peixinhos... Fui fazer uma pesquisa sobre a galera de Peixinhos porque eu queria citar os nomes aqui e não lembrava de alguns, e eu encontrei várias monografias sobre o movimento lá, as bandas de lá, os lugares de diversão da juventude, muitos projetos acadêmicos e eu fiquei muito feliz com isso, isso é fruto do movimento Manguebeat. Nayara: Em relação aos 30 anos do Manguebeat, o FIG voltando depois da pandemia, o Som na Rural, quais foram suas expectativas e como está sendo vivenciar esses movimentos? Roger: Eu fiquei pensando nisso, desses 30 anos, e eu acho massa, é um planejamento pro futuro. Eu fico muito incomodado se alguém me falar que é uma homenagem. Eu não vejo como uma homenagem, eu vejo realmente como um planejamento pro futuro. Muita gente chega pra tirar foto comigo, a gente bate um papo muito de boa, é uma galera de 23, 24, 25 anos, não tem papo de que “poxa, meus pais te conheciam” não, geralmente os pais são mais caretas, quando eles estão juntos eu até brinco e tal. Enfim, eu tenho pirado com uma galera que é apaixonante, Barbarize e outras bandas novas. Ontem tava Joyce Alane tocando aqui um som muito foda e é música muito profissional, muito requintada e é uma galera jovem que consegue isso de uma forma muito séria, diversão levada a sério. Chico falava isso, sobre diversão levada a sério e hoje a gente vê isso. Então eu quero acompanhar esse planejamento futuro dessa turma, eu quero tá por perto, eu tô sempre querendo começar de novo, acho muito legal a gente sempre tá inventando coisa nova. Eu dependo da galera, de vocês, dos novos.

  • Especial 30 anos do Manguebeat

    Em 1990, de acordo com o Population Crisis Commitee, Instituto de Washington D.C, Recife foi considerada a 4ª pior cidade do mundo para se viver. Na época, Recife vivenciava um declínio econômico. Inconformados com a situação socioeconômica em que se encontravam, jovens pernambucanos promoveram uma revolução cultural a partir do Movimento Manguebeat, que misturava a cultura tradicional com a moderna, com sua diversidade sonora, simbolizada pela parabólica que está o tempo todo captando as mais diferentes referências. “Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!”, “Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife”. Assim se estabelecia o movimento manguebeat, através do manifesto "Caranguejos com Cérebro” de 1992 pelo vocalista do Mundo Livre S/A, Fred Zero Quatro. O movimento mais tarde se tornaria um dos grandes acontecimentos da música brasileira da década. Em comemoração aos 30 anos de Manguebeat, a SPIA produziu um especial para comemorar junto com vocês esse movimento que ainda ecoa pelas ruas e traz estima aos pernambucanos. Em nossa sessão de entrevistas, Nayara Nascimento conversa de uma forma descontraída com dois nomes super importantes para a cena manguebeat; Roger de Renor, produtor cultural e dono do Bar Soparia, local que foi fundamental para a consolidação do manguebeat e Paulo André Moraes Pires, produtor de Chico Science e Nação Zumbi e criador do festival Abril Pro Rock. Na entrevista, relatam suas experiências, assim como o que esperam para o futuro da cena. No Vídeo-ensaio “Uma cena em cima da lama”, Maria Clara Mendes e Sammy, utilizam de recortes de entrevistas, documentários, shows e clipes, trazendo um pouco da cena Mangue por meio da visão dos próprios mangueboys. No podcast PodSpiar: Especial Manguebeat, Henrique, Ceres Maria e Daniel Nascimento trazem com muita leveza, uma série de episódios com diversos convidados que tiveram vivências no Mangue e que foram importantes para o movimento. Em “Manguefonia”, Mariana Gonçalves traz seu relato sobre o show em celebração aos 30 anos de manguebeat no 30º Festival de Inverno de Garanhuns. O projeto com concepção e direção de Jorge Du Peixe e Dengue, membros do Nação Zumbi, teve sua estréia pernambucana balançando a Praça Dominguinhos. e como bônus, uma playlist super especial com as músicas que rolaram no show. Em Uma Música Cascabulho, Maria Clara Mendes traça um perfil do Cascabulho a partir de uma entrevista com Magrão, vocalista do grupo. Trazendo um olhar sobre o surgimento da banda, a relação com o Mangue e a influência de Jackson do Pandeiro. Abra a mente e os ouvidos e boa viagem.

  • Matéria-documento e efeito sensorial na arte contemporânea e no cinema de Renata Pinheiro

    Falar da obra de Renata Pinheiro abrange um legado como diretora de arte, realizadora audiovisual e artista visual. A pesquisa ‘Matéria-documento e efeito sensorial na arte contemporânea e no cinema de Renata Pinheiro’, realizada por Iomana Rocha e Tainá Xavier, apresenta uma interessante análise do trabalho da artista pernambucana. As obras analisadas apontam para questões que envolvem o cinema e a arte contemporânea. Indicam memórias, afetos e possíveis leituras dos espaços e objetos a partir de estratégias imersivas que colocam o espectador em um devir instalação. Publicada pela Revista Graphos, idealizada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba, a pesquisa pode ser acessada no link abaixo: Matéria-documento e efeito sensorial na arte contemporânea e no cinema de Renata Pinheiro

  • Peixe, Homem e Câmera em ação. Silêncio

    Maryane Martins Ambiguidade. Corpo. Educação. Raça. Instinto. Etnografia. Linguagem. Antropologia. Identidade. Essas são algumas palavras que norteiam o trabalho do artista Jonathas de Andrade. Nascido em 1982, em Macéio, ele vive e trabalha em Recife, onde se formou em Comunicação Social. Jonathas utiliza suportes variados: instalação, cinema e fotografia. Todos eles têm um ponto em comum: um forte conteúdo político e social, em especial, no contexto latino-americano. Ficção, representação e realidade se misturam nas obras do alagoano, que sempre se interessou pela linguagem (do corpo, da palavra, imagética) como expressão. As pessoas e suas relações, sobretudo de poder e classe, estão presentes e norteiam boa parte da produção do artista. Afetos que passeiam pela crítica histórica, pelo erotismo, nostalgia e na identidade do sujeito, que nos trabalhos de Jonathas, é quase sempre representado pelo corpo masculino. Um dos trabalhos que refletem este último é “O peixe”, um filme cujo enredo poderia ser definido na frase “Homens seminus abraçando peixes”. Mas, é muito mais que isso. Raízes do mangue e o Rio São Francisco. É no encontro com o mar, entre Alagoas e Sergipe que, por trás da câmera em 16mm, Jonathas de Andrade, nos leva ao ambiente de “O peixe”. A câmera em tons terrosos do diretor, passeia apresentando o espaço e leva o espectador a uma sequência de cenas, em loop. Há um pescador para cada uma delas. Em seus trajes de banho, esses homens guiam suas canoas por entre os mangues, em busca de peixes. Ao invés de matar os animais no momento da captura, os pescadores os confortam, enquanto os peixes morrem lentamente em seus braços. O diretor expõe as imagens sem interferências: não há textos na tela, entrevistas ou diálogos. O som é a vida e a morte, acontecendo juntas, ali. “O peixe traz um abraço limite.” Um rito de passagem. O homem e o peixe estão em condições de espécie. Presa e predador. É uma relação de dominação. Jonathas traz essa relação de forma contrastada, cheia de ambiguidades. Há uma morte assistida, há afeto, solidariedade e, violência. O diretor faz uma produção etnográfica documental-ficcional. Documental, pois as cenas foram reais, com pessoas reais. Ficcional porque a situação foi dirigida por ele, não espontânea. Os pescadores cumprem o papel de serem eles mesmos, mas são colocados em uma situação não habitual: de maneira oposta a pegar o peixe e jogá-lo no barco, onde ele se debate até a morte, em “O peixe” essa morte é sentida de perto, acalentada. O pescador pega o animal, o abraça, dá carinho, o sente até o último suspiro. Quando o abraço acontece, o homem percebe o peixe. Aquela morte deixa de ser banal. Há um sentimento diferente ali. Há uma espécie de respeito. Há uma intimidade. Mas, paralelo a isso, há o uso da força, do poder, da dominação. É quase como uma relação da inevitabilidade da força de um sobre o outro. Por isso, a ambiguidade: vida e morte. Para o espectador, os sentimentos de inquietação, incômodo. É uma produção silenciosa, a imagem, os olhares do peixe, do homem, são carregados de emoção. Há uma relação física, simbólica e, em alguns momentos, quase que erótica entre homem e a natureza. A câmera não foca no momento da pesca, o enquadramento é o toque que eleva o filme, ele nos leva a outro olhar: o de Jonathas. A câmera, quase que desaparece. E quem assiste mergulha naquele ambiente. A imagem é utilizada como vetor de discurso e confronta quem assiste de forma direta e próxima, trazendo um contato profundo com a visão do autor. Além disso, há a relação direta do pescador com a câmera. Alguns vivem aquela situação não-comum, dirigida, com muita naturalidade. Outros, apresentam claro desconforto com a presença do equipamento. “O peixe” pode ser visto como uma conexão com a natureza, por meio do encontro, da resposta dos corpos que, de forma espontânea respondem a presença um do outro. Se percebem. Há uma subversão no ato de pescar, na banalização da morte daquele animal. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser uma relação de violência, crueldade. O encontro com a carne. Os olhares que denunciam. “O peixe” é um silêncio que fala.

  • A resistência de Gonzaga

    Gonzaga de Garanhuns, mestre de reisado, poeta e cordelista, dedica sua vida a paixão pela cultura popular de Pernambuco Sammy¹ O enlace de Luiz Gonzaga de Lima com a cultura popular pernambucana é longo. Teve início no ano de 1954, no Sítio Sussuarana, zona rural de Garanhuns, quando aos 12 anos de idade teve o primeiro contato com o Reisado -folguedo popular tradicional do Agreste pernambucano. Conterrâneo de grandes artistas, como Mestre Dominguinhos, Seu Gonzaga de Garanhuns, como é popularmente conhecido, resiste às passagens do tempo, sendo um personagem intrínseco à história da cidade de Garanhuns. Nomeado patrimônio vivo de Pernambuco, em 2018, pela Secretaria Estadual de Cultura juntamente a Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Gonzaga de Garanhuns dedicou sua vida a arte, seja no reisado, na poesia, na música ou nos cordéis. Além do Reisado, Seu Gonzaga, o escritor e cordelista, publicou seu primeiro trabalho de cordel em 1973, chamado “Lampião e Serrinha''. Desde então acumula mais de 300 títulos autorais, que ultrapassam as fronteiras do Nordeste e conquistam o mundo afora. Suas obras estiveram expostas em diversos países, como os Estados Unidos, França e Japão. Para manter seu legado vivo, junto de seu filho, Seu Gonzaga inaugurou em 2021 o Espaço Cultural Gonzaga de Garanhuns dedicado ao ensino a folia do Reisado, acervo fotográfico, exposição dos cordéis autorais e bodega de bebidas artesanais, além de uma viagem no tempo com a história do transporte municipal de Garanhuns em formato de miniaturas. Mestre Gonzaga é um homem autêntico, simples e caloroso. Entusiasmado por sua própria cultura, é uma das principais figuras na manutenção da tradição da cultura popular de Pernambuco. Marcou presença no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), localizado, precisamente, no polo dedicado à cultura popular, Seu Gonzaga conversou com a Spia acerca de seu trabalho e a volta aos palcos com o retorno do festival. Como é estar de volta ao festival de inverno de Garanhuns (FIG) após dois anos de pandemia? Foi a maior benção que Deus nos deu, eu tenho muita alegria em estar de volta junto com meu povo no festival de inverno, depois dessa pandemia terrível que prejudicou tanta gente. É muito bom estar de volta, me sinto muito grato. Qual a importância do festival para a valorização da cultura popular pernambucana, sobretudo a cultura do reisado? Olhe, eu vou lhe dizer uma coisa, esse festival valoriza muito a cultura do nosso Pernambuco, é uma coisa linda de se ver. É um empenho muito grande, por isso nós estamos aqui hoje nessa apresentação, para valorizar nossa cultura popular tão rica. Dedicar um palco somente a cultura popular mostra o quanto o festival nos valoriza. O senhor é um dos grandes nomes da literatura de cordel da região. Como surgiu o interesse e de que forma o cordel passou a fazer parte da sua vida? Entrou na minha vida através de um artigo de jornal. Eu lendo um artigo do Diário de Pernambuco, vi que uma cidade estava sendo elogiada pela literatura de cordel e Garanhuns não tinha isso, e pensei: Garanhuns agora vai ter literatura de cordel. Isso já faz 50 anos, há 50 anos que o cordel está na minha vida. Durante a pandemia, foi inaugurado um espaço cultural dedicado a suas obras, quais são as expectativas para o espaço com o afrouxamento da pandemia? Eu tenho muita expectativa, é um espaço para a propagação da nossa cultura, mais um espaço na cidade. Tenho expectativa de receber todos lá. Depois de tantos anos de luta em defesa da cultura popular em Garanhuns, o senhor foi declarado patrimônio vivo de Pernambuco, qual o seu sentimento ao receber essa nomeação? Foi incrível, é um sentimento que não sei descrever. Foi uma grande felicidade e uma grande surpresa! Eu já vinha há mais de nove anos lutando por esse título. Em 2018, graças a Deus, reconheceram meu esforço e dois reisados, além do meu, foram declarados como patrimônio de Pernambuco. É uma honra carregar esse título. E na sua visão, qual o futuro do reisado? O senhor enxerga as novas gerações mantendo essa cultura viva? O que fazer para despertar o interesse dos mais novos pela cultura popular? É preciso de muito esforço para que o reisado continue vivo. É uma cultura que vem sendo esquecida, sobretudo pelos jovens, pelas gerações mais novas. Mas mesmo assim, estamos fazendo o que podemos. Levamos essa cultura para as escolas, as escolas têm colaborado com esse projeto. Nesse semestre, já vou apresentar um reisado em uma escola na rua da liberdade, próxima ao Espaço Cultural. Eu acredito que a educação é um caminho firme, já que a cultura tem sido tão desvalorizada no nosso país. ¹Sammy é graduanda do curso de Comunicação Social pela UFPE/CAA e colaboradora da SPIA.

  • Sangue vermelho, gasolina azul

    Leandro Ferreira¹ Na cidade de Caruaru, o avanço da automação encontra refúgio na figura dos automóveis. É na estrutura das suas carcaças metálicas, consideradas extensões artificiais do corpo, que figuram os confrontos entre natureza humana e tecnologia. O recém-estreado “Carro Rei” retrata com destreza os conflitos entre humanos de sangue vermelho e carros movidos por gasolina azul, em uma fábula na qual o antropomorfismo se debruça a figura dos carros, e os criadores e suas criações se demonstram essencialmente indissociáveis em suas semelhanças e disparidades. O maior município do agreste pernambucano perpassa a visão dos espectadores através de um filtro pincelado por pigmentos azuis, amarelos e verdes, seu aspecto cristalizado antecipa a intervenção da máquina nas projeções da realidade. Subliminarmente, a presença dos signos pátrios explicita a distopia e a contextualiza aos olhares, promovendo a naturalização dos absurdos ao acostumar gradualmente a visão à banalização das incoerências experienciadas. Atravessando a sua atmosfera e conduzindo a existência a um estado de simulacro de si própria, a visão estrábica da princesinha do agreste, dividida entre as potências da natureza e o pulsar das máquinas e motores, remete às suas próprias dessemelhanças, que ao se manifestarem em seus habitantes, tomam proporções inesperadas. Sob o farol de uma nova aurora, entre os sons das buzinas e o tilintar dos sinos que denunciam a presença animal, o nascimento de Uno (Luciano Pedro Jr.) nos insere nas ânsias de uma nova geração, concebida conjuntamente aos rápidos avanços científicos, mas permeada por preocupações relacionadas às questões sociais que povoam o inconsciente dos que promovem as possibilidades de revolucionar o mundo. Inserido em um núcleo familiar estritamente masculino, e cujas relações de poder se materializam através das proporções aerodinâmicas de caráter fálico que se materializam através dos carros, Uno é dotado da habilidade ímpar de se comunicar com essas máquinas que perpetuam a existência do negócio familiar de seu pai (Adélio Lima), responsável pelo seu sustento e de seus parentes, tal qual o seu tio e mecânico, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele). O trânsito inconstante do filme em frente às temáticas que circundam esses personagens nos apresenta um leque de possibilidades, vivências e vazões que nem sempre são contemplados pelo rápido ritmo da narrativa encenada. Tendo desdobramentos não comportados dentro da duração longa, encerrando assim a curiosidade que atiça ao inserir o público nas vicissitudes de seus agentes. Cercados pelas interações masculinistas, os automóveis adquirem um aspecto de virilização, fundamental na relação de domínio imposta através das disparidades dos gêneros. É atribuída aos homens a capacidade de alterar a vigência das leis que interditam a circulação das velhas carcaças dos carros que já atingiram idade similar a puberdade, assim como são homens que tomam a direção e ditam as marchas e caminho percorridos pelos carros, exercendo o controle sob as ferramentas que elevam a posição da humanidade enquanto liderança na corrida da adaptação e sobrevivência, atropelando outras espécies no seu entorno. Reestruturados para proporcionar continuidade ao trânsito desenfreado através das avenidas do pseudo progresso, esses veículos se dimensionam enquanto partículas de uma inteligência outra, similar a de seus criadores. Dotados de senciência, se configura no cerne de seus pensamentos, uma revolta iminente contra parte do sistema que os impõe o estado de subalternizados, mas que não reverbera nas pessoas responsáveis pelas decisões que os relega a esse espaço. Esse esforço vão, exercício da revolta indiscriminada, se direciona à pessoa mais próxima das contradições que resvalam a condição humana e a máquina, representada na figura da feminilidade de Amora (Clara Pinheiro), é possível notar nesse embate um conflito de gênero implícito, na qual a convivência harmônica figura enquanto impossibilidade, e somente a subversão do outro se faz possível. Os homens, que anteriormente domavam as toneladas de metal retorcido que proporcionam forma às relações de poder, retornam gradualmente aos seus aspectos mais atávicos, passando a ocupar um espaço secundário na pirâmide de predominância. Dispostos à situação de servidores dos carros, passam a atender os interesses frutos de seus próprios desvios morais, facilmente manipuláveis pela ganância do lucro imediatista e recompensas que duram menos que seus corpos. “Carro Rei” é uma obra composta por binômios díspares e suas interações, os empasses entre velho e jovem, tecnologia e natureza, homem e mulher, cujos simbolismos se fazem explícitos de maneira didática para seus observadores, norteiam a polarização de um contexto no qual se dividem os antônimos sem possibilidade de conciliação. A direção de Renata Pinheiro orquestra alegorias que se dimensionam para além dos limites geográficos de Caruaru, e ecoam no panorama do Brasil contemporâneo. É no cerne desse país, liderado por homens, cujas similaridades estão mais dispostas aos símios, que se conservam estruturas de dominação da natureza, da tecnologia e dos corpos. Através de discursos animalescos, cujas características se demonstram tão primitivas quanto seus valores primatas, a subversão das subjetividades humanas dá vazão à valorização dos meios mecânicos, objetivos. ¹ Leandro Ferreira é graduando do curso de Design pela UFPE/CAA e faz parte da equipe da Revista Spia.

  • FIG 2022: Para matar a saudade e esquentar o coração

    A cidade de Garanhuns, no interior de Pernambuco, abre suas portas para a 30º edição do Festival de Inverno Johany Medeiros¹ Desde a sua primeira edição, em 1991, o Festival de Inverno de Garanhuns - FIG pretende valorizar as mais diferentes linguagens artísticas do estado e do Brasil. Após dois anos sem festa, devido a pandemia de covid-19, o festival volta com toda a sua magia e sua imensa variedade cultural. Por 29 edições, o FIG se fez presente na vida e na memória do povo e, em sua 30º edição, é preciso compreender o seu significado em resistência dessa pluralidade artística aqui no estado e esse ano não poderia ser diferente, e não poderíamos ficar de fora: é hora de matar a saudade, espantar o frio e esquentar o coração - nem que seja só um tiquinho. Se for pra ser, deixar fluir No último final de semana, a cidade de Garanhuns (PE) foi palco e ponto de encontro para diferentes artistas do estado e do país. Desde o dia 15 de julho a cidade celebra mais uma edição do Festival de Inverno, a primeira depois de dois anos parado por causa da pandemia do Covid-19. O palco Som na Rural foi sucesso garantido e conseguiu trazer consigo toda a potência, magia e arte que exala do nosso estado. A sexta-feira (22/07) nos presenteou uma com uma noite para lá de especial, que nos fez lembrar que “se for pra ser, deixar fluir”, da forma que canta Isadora Melo e nos fez entender que “é no presente onde moro então eu aproveito”, da maneira que entoa Marcelo Rangel. Além destes, houve participação dos artistas Lucas Torres e Joyce Alane. A grade oficial do palco Som na Rural, na 30º edição do FIG, segue com demais atrações até o domingo (30/07). Arte para aquecer o corpo e o coração O segundo dia da nossa cobertura, sábado (23/07) foi repleto de arte. Assim que colocou os pés na cidade, nossa repórter Sammy deu de cara com o grupo Maracatu Estrela Brilhante, de Igarassu. Fundada por Cosme Damião Tavares, em 1906, é a nação em atividade mais antiga aqui no estado de Pernambuco e comemora seus 112 anos de pura cultura, com seu batuque contagiante e inigualável. Para Sammy, presenciar a apresentação foi uma experiência muito arrebatadora e bem emocionante. “A dança junto com as batidas da música são elementos que se encaixam perfeitamente. Eu posso dizer, dá para sentir o espírito do maracatu”, diz Sammy. Continuando com o nosso itinerário, seguimos para o Cinema do Sesc, onde ocorreu o 2º Seminário Arte Contemporânea em Perspectiva, que nesta edição tem como temática “Arte e Política" e tem como objetivo trazer reflexões sobre o atual cenário brasileiro na arte. Os convidados da mesa Criação e Política foram: Juliana Notari (artista visual), Hilton Lacerda (cineasta) e Manoel Constantino (jornalista, escritor, ator e diretor de teatro). Juliana Notari, doutora e mestre em Artes Visuais, trabalha com as mais diversas formas de linguagens e acredita que a arte em si já é política por natureza. Para a artista visual, “a arte lida com emoções, a arte lida com sentimentos, ela provoca o nosso modo de estar no mundo, de sentir, de perceber, de amar, de desejar”. Para Notari, a arte gera sensibilidade e empatia e conclui “a arte é muito poderosa, porque ela consegue atravessar isso e criar seres empáticos, seres sensíveis, que é isso que estamos precisando”. O cineasta Hilton Lacerda, além de carregar uma bagagem cinematográfica imensa, como os filmes Amarelo Manga (2003) e Baixio das Bestas (2006), também é o responsável pela direção de vários videoclipes da cena do Manguebeat aqui no estado e diz que o que mais o interessa no movimento mangue “foi uma cidade se descobrir capaz de produzir e pensar arte e cultura, foi uma mudança muito drástica no comportamento de uma cidade”. Agora no hall da entrada do Sesc, uma exposição intitulada Sete Luas de Sangue. Em homenagem à pintora Tereza Costa Rêgo, que faleceu em 2020, aos 91 anos de idade, estão em exposição um conjunto de sete obras dela. Tereza, que tem como traço forte em sua pintura os tons locais e de insolações tropicais, onde suas obras carregam os tons vermelhos e, logo em seguida, uma nudez feminina que busca romper com os discursos predominantes masculinos dentro da pintura moderna de Pernambuco. Prestigiar as obras de Tereza é entender e sentir a libertação feminina que domina o próprio corpo e tem seu prazer conquistado, longe de qualquer submissão. Para finalizar o corrido e maravilhoso sábado, nada melhor que se esquentar um pouco no calor humano. A equipe, dividida entre os dois palcos, conseguiu curtir o show do Palco Som na Rural, que contou com presenças como a das cantoras Luana Tavares e Larissa Lisboa. No Palco Pop, conseguimos registrar o maravilhoso show da banda de São José do Egito, Em Canto e Poesia. Talvez tenha sido um final de semana curto, para tantos dias desse evento grandioso, mas o que resta são ótimas memórias, saudade, aperto no peito e um até logo. Nunca uma despedida. * A Exposição Sete Luas de Sangue ficará disponível até o final do festival. ¹ Johany Medeiros é graduanda de Comunicação Social pela UFPE e faz parte da equipe da Revista Spia.

  • O Pontapé do Baile Perfumado

    Tendo como elementos estéticos e narrativos funções metalinguísticas que trabalham o cinema e a política à realidades em diversas épocas do país, o filme Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, recria acontecimentos históricos ao mesmo tempo que nos conta de um homem que quer mudar o mundo. Este homem é Benjamin Abrahão e ele foi o responsável pelas imagens históricas do bando de Lampião Nossa colaboradora, Luzia Tôrres (@luziamtorres), é autora dessa análise fílmica da obra que tornou-se pontapé para outros filmes aqui no estado e apresenta um pouco do próprio cinema pernambucano nesse vídeo-ensaio. Assista o vídeo aqui na íntegra: Sinopse: O filme Baile Perfumado possui uma metalinguística que trabalha o cinema e a política, costurando toda sua história à realidade do cenário cinematográfico em diversas épocas do país. E recria acontecimentos de modo que a arte possa-os adornar ao mesmo tempo em que nos conta a história de um homem com aspirações de mudar o mundo. Nesse vídeo-ensaio, é feita uma análise do filme dentro de sua narrativa e contexto de lançamento, apresentando também um pouquinho do próprio cinema pernambucano.

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