top of page
  • Foto do escritorRevista Spia

Manguefonia

Atualizado: 15 de set. de 2022


Relato escrito por Mariana Gonçalves


Show de celebração aos 30 anos de Manguebeat com concepção e direção de Jorge Du Peixe e Dengue que balançou a praça Dominguinhos com big band de formação hibrida de percussão, guitarras e vozes exaltando herança viva do movimento cultural brasileiro que tirou a produção musical do estado do marasmo botando em prática a filosofia da diversão levada a sério.

Manguefonia no 30º Festival de Inverno de Garanhuns. Imagens de Vinícius Vilela

Pernambuco ainda abriga uma das maiores e mais originais cenas culturais do país, com uma diversa gama de expressões de novos e antigos talentos. Desde os fins dos anos 80 para cá, mais de 30 anos de experimentos da Nação Zumbi, Mundo Livre SA, Devotos do Ódio, Eddie e Mestre Ambrósio e seus afiliados Mombojó, Sheik Tosado (hoje na figura solo de Chinaina), Alessandra Leão, Isaar e Karina Buhr (isto contanto apenas no eixo Recife-Olinda), seguem botando em prática a filosofia da diversão levada a sério e o mote "Pernambuco embaixo dos pés e a cabeça na imensidão", realizam de seus núcleos espalhados pelo país um pós Manguebit de musicalidades tão ímpares que deixaria o saudoso patrono orgulhoso.


O anúncio de um show com membros da Nação meses depois da notícia um hiato de duração indeterminada, já era chamado o suficiente pra caravanas e fãs partindo de todo o estado tomarem o rumo da cidade das flores. Meu conto começa na rodoviária de Caruaru, 97.6 km de distância do ponto final da noite, de onde partimos num Chevrolet Classic, cheio de malas e de expectativa. Era o último show do palco principal do FIG e pela hora só íamos chegar a tempo da misteriosa homenagem (não que ninguém precisasse conhecer mais que três nomes da lista e três hits pra já ficar ansioso).


A praça Mestre Dominguinhos já estava apinhada quando por volta das 11 da noite a apresentação começa, com Roger de Renor relembrando nominalmente a importância das personalidades e coletivos da cena, da força e representatividade de um movimento que segue vivo trinta anos depois de pedra fundamental ser lançada em forma de release-manifesto, assinado por Fred 04, o ministro da comunicação do mangue.


Abrindo com Siba Veloso, vocalista compositor e multi-instrumentista, da finada Mestre Ambrósio, Siba e a Fuloresta, em atual carreira solo cantando “Trincheira da Fuloresta”

emendada num sincero discurso de valorização da cultura tradicional.


Daí começa a Turma tá Subindo, e com ajuda do ritmo e de um pouco de álcool, ninguém fica parado.


Cannibal, segundo convidado, surge tal qual uma entidade de força e beleza, incendiando o público, puxando coro pra Lula, citando Paulo Freire e exaltando o “Punk Rock Hardcore do Alto José do Pinho”, berço da Devotos do Ódio, banda formada em 1988 no bairro recifense que dá título ao hit, que como a galera das primeiras grandes rodas punk por todo lado já sente, é do carai.


Cannibal. Imagens por Vinicius Vilela

Seguimos com Fábio Trummer que faz uma performance rápida e amarrada mas instigante dos hits de sua banda Eddie. Dando a deixa pra Louise França, atriz e cantora, a filha de Chico, que é a quarta vocalista da noite, fazendo sua estreia nos palcos do FIG com traje de gala: óculos de lente verde, chapéu coco de fibra sintética e o vestido de Silvana Carmo adornado de caranguejos, prédios, antenas e água. Todos os símbolos da manguetown e essa garota com a feição conhecida (nem todos os filhos parecem com os pais mas Louise parece e muito com Chico, é inevitável não vê-lo nela). Desde a hora que sua figura é iluminada no palco, é tudo dela. Cantando “Risoflora”, com a guitarra de Neilton pronunciada e limpa, o público em coro, ela passeia leve pelo palco, à vontade e linda.


Louise França.Imagens por Vinicius Vilela

Emocionado e orgulhoso, Fred 04 assume os vocais e, de cavaquinho em punho começa sua “Livre Iniciativa” com Dengue inspirado no baixo e no backing vocal. Na sequência “Baile Infectado” e Toca Ogan no front: com seu tambor, de roupa e sapatos brancos o percussionista brilha e emenda uma dança cheia de suingue e classe (Toca é músico e sacerdote de candomblé, junto com Gilmar Bola 8 é cria do Lamento Negro grupo de percussão e canto seminal para o movimento, este nascido das iniciativas de formação do Daruê Malungo, centro de cultura e educação de Peixinhos onde crianças e jovens aprendiam desde cedo a dançar e a tocar instrumentos.).


Fred 04. Imagens por Vinicius Vilela

Agora a deixa de Jorge Du Peixe, que abre o último bloco do show com “Monólogo ao Pé do Ouvido/Banditismo Por Questão de Classe”. O clima muda: a Nação está presente, o coro engrossa, todo mundo sorri. as maiores rodas punk se formam por onde a vista alcança. A massa de gente que lota a praça pula, corre e nesse ponto ser empurrado pela horda de homens e mulheres eufóricos é inevitável, eu fui. Passado o susto voltei pra roda, tirei e amarrei meus dois casacos e me joguei em “Foi de Amor”, sentimental, instigante e caótica, o que uma pequena gota serena é capaz de fazer.


Em “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” Vicente Machado, baterista da Mombojó e o trio de percussão brilham desde os primeiros pulsos do couro. Serpentina voa, jatos de fumaça abrem alas pra “Manguetown”, o maior coro completa os versos, Du Peixe nem precisaria cantar senão quisesse.


Jorge Du Peixe. Imagens por Vinicius Vilela

“Quando a Maré Encher” traz Fábio Trummer de volta (aos não iniciados cabe mencionar que é dele a letra famosa também na voz de Cássia Eller), e todo ser vivo num raio de várias centenas de metros sente a vibração da percussão rápida e pesada do trio.

O show se encaminha ao encerramento, é a hora do coral: cinco vocalistas se unem em “Da Lama Ao Caos”, Siba prefere agora contribuir nas cordas de sua guitarra.


Em cerca de duas horas e dez minutos de show, doze artistas no palco, três gerações de artistas pernambucanos, trinta anos de história ainda sendo escrita. Foi meu primeiro show da Nação, um marco na vida de qualquer entusiasta de música boa; o terceiro avistamento de Siba, mestre dos públicos e do ritmo, tá sempre incrível; foi nesse dia que conheci Cannibal, Toca e Dengue, Louise e Trummer, uma galera boa de ritmo, de discurso, de dança e carisma; e nos meus também 30 anos, nunca antes o propósito do manguebeat fez tanto sentido. Ele segue vivo no imaginário coletivo de quem nunca pisou no manguezal mas ouviu Chico cantar do chié, da lama fétida mas fértil. Da cidade sufocada ilusora de pessoas (ou o que restou dela), dos jovens e velhos filhos da revolta, da fome, tão mais latente hoje num país endividado e empobrecido e também de mim, aquela criança humilde dentro do paú, em Jardim Maranguape, fazendo armadilha pra aratu e se encantando com os frutos do pé de panã; indo de kombi ou no Chevette vermelho de meu pai à primeira etapa de Rio Doce visitar minha avó paterna. Lavadeira, pescadora e exímia cozinheira dos frutos desse mar, que não deixou seus noves filhos sem mistura. No almoço com pirão de guaiamum, rádio ligado, cerveja e dominó, ouvindo como era limpo e vivo o rio que dá nome ao bairro de Olinda, berço do coletivo mangue e de Chico, do Sheik Tosado de China e Bruno Ximarú, do som estrondoso, original, político e forte que em 21 de julho de 2022 invocou emoção e bagunça e alegria sem nome e sem fim na madrugada fria e festiva da praça Dominguinhos.


Não foi um show qualquer


Saímos todos rebocados pela PM assim que o show acabou e começaram as rodas de coco, sempre elas, porque se eles deixassem tinha gente lá até agora.




Galeria de Fotos:

Siba Veloso. Imagens por Vinicius Vilela

Neilton da Devotos no posto guitarrista da big band do mangue. Imagens Vinicius Vilela

Cannibal e o público na Manguefonia. Imagens por Vinicius Vilela


77 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page