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O Peso do Ser

Atualizado: 26 de out. de 2022

Texto por Thiago Muniz


Trecho do filme O Peso do Ser. Direção: Thiago Muniz

A ideia para o filme surgiu um certo dia, quando eu passava de carro por uma rua de Caruaru, e presenciei uma cena atípica. Um cavalo raquítico estancou, logo após isso, um homem desceu da carroça, e o espancou incansavelmente, em pleno movimento do tráfego.


Ao me deparar com aquela cena, logo me veio à mente duas coisas: a primeira foi a história de Nietzsche – que enlouqueceu na cidade de Turim após presenciar uma cena parecida.

E a segunda foi o filme “O Cavalo de Turim (2011)” . Nesse filme, o diretor húngaro Bela Tarr, cria uma história baseada no que aconteceu com o “cavalo de Nietzsche”, depois do famoso acontecimento.


Nesse contexto, essas referências surgiram pra mim como um grande ponto de partida, iniciei assim uma busca por esse carroceiro, cuja personalidade e vida foi se formando pra mim durante toda a realização do filme.


A ideia da unidade fílmica do curta “O Peso do Ser”, é apresentar a vida de um homem que vive em um mundo de contradições, e que não consegue se encaixar em nenhum lado do grande embate entre o moderno e o arcaico, entre a ordem e o caos.

A personagem Ana, esposa do personagem Jorge, surge como uma figura que simboliza a bussola norteadora, o contrapeso na balança que procura dar estabilidade a esse homem atribulado.


Trecho do filme O Peso do Ser. Direção: Thiago Muniz

Esse personagem representa uma parte da população do Agreste Pernambucano, pertencente a uma classe social baixa. Essas pessoas, possuem raízes e estilo de vida arcaico, mas vivem em um mundo de abundância de objetos e constante consumo.

Nesse contexto, o objetivo do filme não é trazer respostas prontas sobre esses problemas, mas sim para levantar reflexões como:


“Somos determinados por nossas raízes? Somos reféns da nossa condição, ou das nossas próprias ambições? Qual é a vida boa; aquela que se ganha mais, consome mais e deseja mais, ou aquela que se vive buscando os prazeres das pequenas coisas?

Além disso, sigo a filosofia de que um bom filme não é composto apenas pelo que se diz; mas sim pela simbiose do que se diz, alinhado a como se diz, formando assim uma unidade cinematográfica coerente. Nesse sentido, a proposta estética é trabalhar com extremos, com o intuito de representar esse conflito interno e externo através das imagens.


Não existe cinema sem a captação dos acontecimentos através do meio técnico. Sendo assim, sigo a filosofia de que é papel do diretor conhecer as particularidades técnicas do cinema pra encontrar a melhor forma de favorecer a história.

Nesse sentido, elaborei uma decupagem pautada pelo rigor formal, constituída de planos mais longos, movimentos sutis de pan, tilt e travelling. Porém, mesmo sendo completamente decupado, também utilizei cenas com câmera na mão, para intensificar os momentos onde os demônios interiores do personagem, escapam para a superfície de forma mais clara.


Além disso, como dizia o cineasta Andrei Tarkovski, fazer um filme é como esculpir o tempo. E fazer isso só é possível através da montagem, que é a parte onde organizamos as cenas e encontramos o ritmo ideal. Sendo assim, nesse curta-metragem, optei pelo uso de uma montagem narrativa – aquela que conta uma história e transmite seu sentimento.

Utilizei planos mais longos e poucos cortes, com intuito de explorar a capacidade realística da mise-en-scène, as possibilidades do espaço e a percepção do tempo dos habitantes que vivem em cidades do interior de Pernambuco.


Trecho do filme O Peso do Ser. Direção: Thiago Muniz

Por fim, temos a música. Não enxergo a música como um elemento secundário que tá lá só pra aumentar a tensão ou salvar alguma cena que não deu certo, como fazem muitos diretores. Não. Pra mim, a música é algo extremamente importante, um elemento capaz de elevar a níveis extremos, ou até mesmo arruinar o sentimento de uma cena.

Nesse sentido, utilizei o recurso da música como um elemento vital do personagem. No sistema formal do filme, ela aparece em seus momentos de vulnerabilidade em dois momentos chave:


Quando Jorge afaga o jumento após espancá-lo, como se fosse um pedido de desculpas.

E na última cena, quando ele desmorona nos braços da mulher. A cantiga de ninar que Ana canta nessa cena, funciona como uma espécie de “afago primordial”.


Nesse fim, encontramos Jorge desnudo, desnascendo, massacrado por todo o peso do seu ser, enquanto Ana representa toda a bondade e sacrifício no seio dessa agonia.





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