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  • “Foi Aryel!”: a arte da poesia simples

    Um mergulho no ato de pensar-escrever sobre um “nós” nas métricas e rimas da arte poética. Por: Juliana Pinheiro Foto : Aryel Freire (Podcast Nordestino). Empresário, graduando em direito, poeta e repentista. Aryel Freire, ou Aryel Poeta, é uma figura essencial para a movimentação do cenário cultural regional do interior de Pernambuco. Crescido em Alagoinha-PE, teve contato com a poesia logo cedo, aos nove anos de idade. Ainda criança, participou de competições escolares escrevendo cordéis e, ao chegar em casa, costumava ouvir o pai escutar toadas e cantorias de repentistas, o que contribuiu em seu interesse pela arte. O espaço artístico local do qual Freire faz parte é conhecido por ser a “Terra dos Poetas”. A cidade, localizada no interior do Agreste Pernambucano, tornou a poesia uma constante em sua vida. Desde então, o poeta encontrou novas formas de ressignificar este gênero lírico em outros cenários. Em 2019, no início da pandemia causada pelo vírus COVID-19, passou a publicar os seus poemas em vídeos nas redes sociais. A sua contribuição ao formato digital da poesia é notável. Os versos, assinados por “Foi Aryel!”, marcam uma identidade própria do autor. Com o sucesso dos poemas nas plataformas do TikTok e do Instagram, Freire ficou conhecido em outras regiões do Brasil. A partir das poesias, tornou-se redator na quarta temporada da série de televisão “Os Roni”. Também assina como um dos compositores da música “Nunca Foi Sorte, Sempre Foi Deus”, gravada por Tarcísio do Acordeon e Yury Pressão. Poesia escrita por Aryel. Foto: Juliana Pinheiro A poesia, mais do que versos simples, faz parte de uma tradição oral com raízes líricas e livres que pode ser explorada em diferentes cenários. Da necessidade da escrita, nasce uma narrativa entrelaçada às mais diversas formas de ser e dizer poesia. As regras, abordagens, inspirações e os fragmentos compõem um recorte do cotidiano que atravessa o trabalho individual e contempla um “nós”. Em entrevista exclusiva à Revista Spia, o poeta Aryel Freire explica como a poesia pode ser encaixada e mesclada com várias vertentes do dia a dia. O artista também conta um pouco sobre as suas experiências, opiniões e os desafios durante a sua trajetória e na construção do seu perfil artístico. Espia alguns dos trechos de como foi essa conversa: Juliana Pinheiro (JP): Pode nos explicar como é o processo criativo de escrita da poesia? Aryel Freire (AF): A inspiração para a poesia chega até nós. Se você perguntar a qualquer compositor, essa vai ser a resposta comum. Às vezes, uma palavra, um toque; isso nos desperta. No meu caso, na maioria das situações, eu vejo uma palavra, uma publicação no Instagram, uma frase. Pode ser algo dito por uma pessoa, lido por mim ou até algo que me surge. Tento extrair poesia desses lugares. Quando é bom, eu deixo e guardo. Quando não, eu descarto. JP: Como podemos manter uma essência poética nas metáforas e um perfil individual dentro do meio digital que hoje é rápido e bombardeado por diversos conteúdos? As pessoas se identificam com publicações mais “diretas” agora, algo menos generalista. AF: Percebi que os meus vídeos com mais visualizações eram aqueles em que eu falava em primeira pessoa. Quando dizia: eu, eu, eu. Era mais fácil de chegar no público, porque eram situações comuns aos  meus seguidores. Costumo brincar que escrevo sobre mim, mas milhares de pessoas vivem ou passam pelo mesmo. Isso acaba gerando essa identificação. AF: A constância das postagens é um pouco difícil. Hoje em dia não me cobro tanto. “Tenho que postar três ou quatro vídeos por semana”. Quando a poesia chegar, eu posto, como algo natural. É orgânico. Muitas vezes nem me preocupo com os números. Tenho vídeos com bilhões de visualizações e vários seguidores, porém, a minha intenção é que aquela poesia sirva para alguém. Se tiver apenas uma pessoa sendo ajudada ou identificando-se com ela, é o que me satisfaz. AF: Já recebi mensagens de pessoas com crises de ansiedade ou depressão agradecendo pelas minhas mensagens em vídeos. Isso as motivou a procurar ajuda para estas situações. Acho que esse é o método essencial da poesia, é você tocar no fundo da alma de alguém e ajudá-la de uma forma ou de outra. Vem conferir mais dessa entrevista no canal do Youtube da Revista Spia.

  • A tradição da palha do milho

    Lisoneide Souza e a experiência das mãos que moldam e sustentam a arte da geração, da memória e da criatividade. Por: Juliana Pinheiro Mãos da artesã moldando a palha de milho. Foto: Juliana Pinheiro. O Povoado da Pindoba, situado no interior do Agreste Pernambucano, compõe um dos mais de cinco povoados do município de Alagoinha-PE. Parte de uma importante fonte de renda para o desenvolvimento da área rural, a arte popular é produzida e comercializada pelos habitantes locais. O artesanato, majoritariamente feito por mulheres da região, é o centro da criatividade e das oportunidades da Pindoba. Com peças originadas da palha de milho, o ofício de produção artesanal deu origem à Associação Comunitária de Agricultura e Artesanato da Pindoba, grupo conhecido como Pindoarte, no ano de 1992. O traçado em fibra natural, iniciado por uma das mais antigas moradoras da região, passou de geração para geração e deixou um legado que se mescla até hoje com os costumes da população pindobense. Nascida e crescida na Pindoba, Lisoneide Souza é uma das artesãs da Pindoarte. Pedagoga, mãe e artesã, vive do artesanato a partir da confecção de bolsas de palha. Movida pela curiosidade à arte manual, aprendeu a desenvolver e aperfeiçoar as técnicas da profissão. Tudo começou quando tinha quatorze anos de idade, com o bordado. Incentivada por sua mãe, a prática do artesanato tornou-se parte da sua trajetória. Foto de Lisoneide por: Juliana Pinheiro. Com mais de quatro décadas dedicadas ao trabalho de artesã, Souza faz parte de uma história com enlaces delicados. Afinal, os traçados naturais feitos da palha de milho constroem uma caminhada sobre lutas, motivações, criatividade e orgulho. Em entrevista à Revista Spia, Lisoneide Souza explica como se dá o processo da colheita da matéria prima até a comercialização dos produtos artesanais. Além disso, fala também sobre as inspirações, montagem das peças, desafios, conquistas e da riqueza do artesanato local. Confira a seguir, dois trechos da entrevista: Juliana Pinheiro (JP): As peças produzidas, toda a arte manual daqui (Pindoba), possuem muitos detalhes, histórias e símbolos…, fora a própria técnica que marca essa prática. Pode nos falar um pouco sobre a riqueza, não só de detalhes, mas também da importância do artesanato local para a comunidade e para as pessoas de fora, que recebem e estão em contato com estes produtos? Lisoneide Souza (LS): É uma riqueza muito grande para a comunidade e até mesmo lá fora. Através dessa produção, várias oficinas e trabalhos foram levados para outros lugares. E assim, é uma riqueza. É o nosso “carro-chefe”. Vem de geração em geração, e a comunidade já tentou outros tipos de artesanato, mas o que sustenta mesmo é aquele feito da palha de milho. Nós temos várias experiências. A Associação foi criada a partir das nossas reuniões em escolas. É através dela que temos viajado, ido para o exterior, para feiras livres, para a Fenearte — uma feira mundial — e é muito importante para nós. JP: Interessante como vocês, artesãs, conseguem ter uma dinâmica de interação umas com as outras. Aqui tem o incentivo, dentro da Associação, e vocês podem se acolher, ajudar e trocar práticas. Como é ver outras pessoas da comunidade inspirando-se e criando interesse pelo artesanato? LS: Muitas pessoas acham bonito, é algo diferente. Com a palha de milho você consegue fazer uma bolsa, um chapéu, cintos, bonecas, flores. Alguns veem e não acreditam, então para nós é de grande valor quando alguém se interessa e podemos transmitir isso, passar a nossa experiência para outras pessoas. Quer espiar mais? Confira a entrevista na íntegra no canal do Youtube da Revista Spia.

  • ESTESIA REÚNE EXPERIÊNCIA SONORA E SENSORIAL EM ESPETÁCULOS

    O Grupo surgiu a partir da insatisfação dos integrantes com a maneira tradicional de realizar performances musicais. Por: Gabriella Marinho Reunindo os produtores Miguel Mendes e Tomás Brandão, o cantor e compositor Carlos Filho e o performer e iluminador cênico Cleison Ramos, o grupo Estesia faz parte do cenário musical de Pernambuco desde 2016, com o seu primeiro espetáculo ocorrendo em maio do referido ano, no teatro Marco Camarotti, localizado no Recife, e desde então o quarteto vêm ganhando espaço no calendário artístico da cidade e se apresentando em lugares como a Torre Malakoff e a Casa Malassombro, também no Recife. Foto de: Felipe Schuler As letras de suas músicas são sensíveis e abordam reflexões acerca do tempo, da vida e do espaço, oferecendo narrativas instrumentais contínuas. Além disso, os membros também desenvolvem seus próprios shows e trabalham com uma série de eventos chamados “Estesia Convida”, que possuem abordagens multissensoriais e chamam atenção por serem imersivos, afinal, a principal proposta do grupo é tornar o público parte do show e criar um espaço de experimentação ao desafiar os formatos clássicos do fazer cultural. Com isso, o grupo, que se inspira em arenas de teatro para a execução de suas apresentações, convida o público para estar em cima do palco vivenciando cada experiência de perto. Sob esse aspecto, a música é reproduzida por caixas de som distribuídas em lugares específicos da arena e as luzes ficam projetadas na plateia, para que cada um viva um momento não somente coletivo, mas também individual, em meio a um espetáculo de luz e som. Dessa forma, o grupo insere os seus espectadores na cena e oferece uma sensação de pertencimento com ajuda da convergência entre as tecnologias analógicas, além de estimular os sentidos do corpo humano para além da visão e audição, como se todos estivessem literalmente “an-estesiados”. Ainda com o intuito de quebrar os padrões e fugir do óbvio, Carlos Filho, criador do projeto, reitera em entrevista para o Diário de Pernambuco, que: O Estesia nunca faz o mesmo show duas vezes. Isso porque, a cada espetáculo há um convidado diferente que agrega um valor artístico distinto à apresentação e contribui engrandecendo ainda mais a explosão de sentidos e experiências que o grupo transmite. Logo, cada show é pensado e visto de modo único, para não haver uma sensação de repetição e para que uma pessoa que está assistindo o espetáculo pela terceira vez possa se sentir como quem vê pela primeira. Foto de: Deborah Barros O Estesia é, notoriamente, um grupo musical ousado que almeja quebrar barreiras e mostrar para o mundo uma nova forma de fazer arte, isso deve ser visto e apreciado por Pernambuco e pelo mundo inteiro. Suas músicas estão disponíveis em plataformas de streaming como o Spotify, e merecem estar nas suas playlists e fones de ouvido enquanto você pensa em uma letra para uma melodia. RECOMENDAÇÕES: Melodia Para Uma Letra (2019) Mais Um Lamento (2019) Se Você Quiser (2020) Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai do lugar (2020) REDES SOCIAIS DO GRUPO E INTEGRANTES: Instagram - (@estesiaestesia) Instagram - (@carlosfilho.7) Instagram - (@cleison.belo) Instagram - (@miguelsbm) Instagram - (@tom_b_c)

  • “Por Trás Da Linha De Escudos”: Os Limites Estabelecidos Entre Os Militares e a População

    Documentário de Marcelo Pedroso trás reflexão acerca dos antagonismos e tensões entre grupos como obstáculos substanciais no processo de transformação social Crítica por Louise Farias e Naely Barbosa Foto por Naely Barbosa O principal objetivo do cinema documental é mostrar um aspecto da realidade, sob determinado enfoque e enquadramento, através do olhar de um realizador. Entretanto, acessar o outro pode ser uma tarefa demasiadamente complexa, e nem sempre chega a ser alcançada da maneira como se espera. Da mesma forma, é possível que o diretor tenha uma expectativa inicial do efeito produzido pelo filme, mas o resultado pode assumir uma lógica diferente da desejada – o filme desenvolve vida própria, sua particularidade como obra artística. Algo dessa ordem aconteceu ao longa-metragem Por trás da linha de escudos (2023), de Marcelo Pedroso, que aborda as questões de segurança pública no Brasil, mostrando as ambiguidades da vida militar e assumindo uma postura crítica em relação aos atos realizados por meio dos batalhões de choque pernambucanos. A construção narrativa do documentário se desenvolve em meio à contraposição de pensamentos dos militares e de Pedroso, que além de diretor do documentário é ativista de esquerda. Trecho do Documentário Por Trás da Linha de Escudos A premissa da obra é trazer o Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco e os manifestantes, especialmente os do Movimento Ocupe Estelita, criado em 2012, em um cenário de enfrentamento mútuo. O filme apresenta os conflitos entre os manifestantes, que defendem a não destruição do Cais José Estelita, marco cultural e histórico de Recife, e o Batalhão de Choque que intercede pela decisão que beneficia o Consórcio Novo Recife, composto por grandes empresas imobiliárias, e que criou o Projeto Novo Recife, uma ação que visa a construção de prédios comerciais e residenciais no local. Autor dos filmes Pacific (2009) e Brasil S/A (2014), Pedroso realizou Por trás da linha de escudos seguindo uma abordagem expositiva e participativa; os planos alternam entre cidadãos ativistas na defesa de seus objetivos e policiais se preparando para o combate armado nas ruas. Pedroso atua não somente como observador, mas como personagem em ambas as realidades, conhecendo e entendendo o funcionamento da dinâmica em cada um dos espaços. Apesar de seu posicionamento político claramente definido, o realizador se dispõe a acompanhar e experienciar a rotina dos policiais com o objetivo de conhecê-los para além do pequeno visor presente em seus escudos. Os primeiros contatos entre os militares e a equipe se dão de forma lenta e gradual, na tentativa de conquistar a confiança dos oficiais e soldados. Entretanto, logo é percebido que existem muros comunicacionais entre soldados e civis e, mesmo ao retirarem o escudo policial, a armadura interna segue intacta e intransponível, pois os policiais parecem não conseguir ultrapassar os limites da missão e dever dos quais foram incumbidos. Trecho do Documentário Por Trás da Linha de Escudos A desumanização do indivíduo e a transformação do homem em um soldado, são um dos principais questionamentos do longa. É possível extrair algo de uma das entrevistas que nos intriga e faz pensar sobre o que a função de um policial exige e o que ele precisa, na maioria dos casos, deixar de lado ao vestir a farda. Ao detalhar seu processo de treinamento para o Batalhão de Choque, a soldado Talita revela que durante essa transição, é preciso que o policial molde a si mesmo para estar em conciliação ao que o BPChoque exige. Isso implica pensar na possibilidade de uma inflexibilidade e rigidez serem características que devem estar ativas nos militares na totalidade do tempo, mesmo fora de combate direto. Na tentativa de compreender como a rigidez militar se desenvolve, Pedroso e sua equipe passam a participar dos treinamentos e das operações junto aos soldados; durante as práticas, os policiais expõem a si mesmos à asfixia e até ao vômito, provocados por inalação de gás lacrimogêneo. Pois, durante uma ação de combate, o policial ataca com o gás não só o “inimigo”, mas também a si, uma punição mútua. Nesse sentido, o longa acaba por realizar uma crítica ao sistema de formação dos militares e à lógica de separação do exército que acaba desumanizando o homem para que ele não se reconheça em seu oponente, tornando o brasileiro inimigo dele mesmo. A doutrinação militar utilizada para separar os indivíduos é dura e fere não apenas fora das tropas e bases militares, mas também dentro dela. Ao sentir na pele cada treinamento, Pedroso reflete e considera que, ao ser submetido a um treinamento de longo prazo, talvez até ele fosse transformado em soldado. Muito mais do que evidenciar a rigidez no processo de transição do indivíduo em um soldado, Por trás da linha de escudos resgata o pensamento de emergência para a possibilidade do diálogo entre grupos antagônicos, com cenas e falas que instigam o debate público. O diálogo é a grande arte e riqueza social, construído continuamente entre indivíduos através do exercício de ouvir e compreender o lugar do outro, para caminhar coletivamente em direção à urgente transformação social.

  • A Musicalidade Revolucionária em Pernambuco com Gabi da Pele Preta

    A musicalidade revolucionária em Pernambuco com Gabi da Pele Preta Por Madu Rodrigues Foto de Gabi da Pele Preta (Crédito: Rafaela Amorim) Quem é Gabi? Nascida em 1 de novembro de 1985, Gabriella Ariadne Silva de Freitas, também conhecida como Gabi da Pele Preta, é uma atriz e cantora de grande incursão em Pernambuco e no Brasil, trazendo através de suas músicas, que mesclam raízes do samba, jazz e MPB, a sua essência de vida como mulher preta, ativista e interiorana. História Filha de membros da primeira Igreja Batista de sua cidade natal, Gabi da Pele Preta nasceu em 1985, no município de Caruaru, Agreste de Pernambuco, e teve uma formação protestante de grande importância para a sua bagagem musical. Formados em História e Filosofia, seus pais faziam parte do Coral Madrigal Batista e vivenciavam o evangelho de maneira muito ativa dentro do seio familiar. Durante a sua infância e adolescência, Gabi cantava músicas da igreja e MPB e com o  incentivo do pai, percebeu a música como uma ferramenta de ensino para mostrar uma construção narrativa da história do país. A exemplo de: Chico Buarque, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Zé Ramalho e tantos outros intérpretes musicais aos quais a artista se inspirou. De acordo com a cantora, desde o início, teve  a certeza de que, se um dia se tornasse uma artista, gostaria de ter uma comunicação cidadã, de identificação e com uma função social a partir de suas obras. Compromissos esses que eram vistos através dos cantores apresentados pelos seus pais. Em 1997, quando tinha 12 anos, o seu pai faleceu e durante muito tempo teve que trabalhar, assim como os seus irmãos, para ajudar a sua mãe. Gabi já foi operadora de caixa, palhacinha de trânsito e garçonete de bufê, sendo constantemente questionada pelas pessoas sobre o seu talento e por não estar cantando, ao qual ela sempre explicava que, devido a sua condição social, não poderia. Ainda assim, Gabi frisa que: “sempre agarrou as oportunidades que lhe eram apresentadas no momento”. Anos depois, foi aprovada em Comunicação Social e com 18/19 anos, viu um meio de se inserir artisticamente em Caruaru. Através do teatro, entendeu que essa incorporação seria possível, pois poderia pertencer a um grupo e ser uma atriz que cantava. Nesse mesmo período, fez um teste para uma peça de teatro e conseguiu um papel em “Amor em Tempo de Servidão”, criando com esse grupo teatral o alicerce para trabalhar com arte. Mais para frente, integrou o grupo “Samba de Tamanca”, descobrindo um caminho para trabalhar com samba, o que marcou o início de sua trajetória como cantora. Foto de Gabi da Pele Preta (Crédito: Rafaela Amorim) Carreira Trabalhando com música há 18 anos, Gabi da Pele Preta começou a sua trajetória em 2006, quando entrou pela primeira vez em um bar para cantar. De início, percebeu o samba como um grande alicerce, passando a ser reconhecida como sambista, embora cantasse de tudo um pouco. Anos depois, começou a se interessar por outros ritmos e conheceu Thera Blue, um cantor de sua cidade, que produziu o seu primeiro show a convite da Secretaria da Mulher de Caruaru. Durante sete anos, foi acompanhada em seus shows pelo músico Felipe Magoo, atualmente conhecido como Felipe Gonçalves, e por três anos pelo violinista Fernando Bezerra. Posteriormente, teve um problema na voz e precisou deixar os palcos por um tempo. Com a sua retomada vocal três meses depois, conheceu o garanhuense Alexandre Revoredo, que lhe ajudou a voltar do zero em um período em que os bares do país foram preenchidos pela música sertaneja e cantar o seu antigo repertório, composto por Chico César, Marisa Monte, Elis Regina, Maria Bethânia e músicas de seus amigos e outros artistas, não fazia mais sentido nesse cenário. Nesse mesmo momento, conheceu Nina Oliveira e a Marcha Mundial das Mulheres e acabou percebendo que aquela comunicação de cunho social é o que faria sentido de ser levado para o palco, seguindo o objetivo central de conversar sobre assuntos como as questões feministas, negritude e Direitos Humanos, com um repertório militante e de modo autoral. Em 2016, Gabi da Pele Preta teve o seu projeto musical aprovado pelo Edital Molotov, onde, com a ajuda de Alexandre Revoredo, com quem já tinha feito algumas parcerias, produziu um show acompanhada pela banda do garanhuense em Belo Jardim - PE, se consolidando ainda mais no meio artístico até os dias atuais. Músicas e Participações Em seu primeiro trabalho, a cantora enalteceu a alegria e a liberdade por meio do single politizado “Revolução” (2021), composto pelo músico Juliano Holanda, sendo, também, o seu primeiro trabalho em estúdio. Já em 2022, lançou o seu EP composto por quatro músicas de caráter social, produzido pelo músico, compositor e poeta Alexandre Revoredo. “Canção para curar a voz”, “Palavra Feminina”, “Virá” e “Gente” são as canções compostas por Ezter Liu, Joana Terra, Izabela Moraes e Uma Luiza Pessoa. Conheça algumas participações de Gabi da Pele Preta: Foto de Gabi da Pele Preta e Alexandre Revoredo (Crédito: Fernando Pereira) Single “Disque Denúncia” (2016) no Elefante Sessions. Single “Conectadas pela música: para espantar a dor” (2019) (feat). Single “Recados” (2020) de Thera Blue (feat). Álbum “Revoredo” (2020) - Música: “Andor”. Single “Xô te vê” (2020) de Agda (feat). Single “Vídeo chamada” (2021) de  Renata Torres (feat). Álbum “Coração no Meio” (2021) - Música: “Recife, Capital Federal do Carnaval Brasileiro”. Albúm “Isolados”(2022) - Música: “Liberdade” de Sam Silva (feat). Trilha sonora de “Cangaço Novo” (2023) - Música: “A terceira lâmina” de Forró no Mundo (feat). Baile do Menino Deus (2023) - Música: “Ciganinha” de Baile do Menino Deus. Assista a entrevista completa!

  • Alexandre Revoredo: Um Artista Multifacetado

    Entenda a trajetória que conferiu a Revoredo uma importância fundamental para a cultura interiorana de Pernambuco. Reportagem por Letícia Cavalcante Foto de Revoredo (Breno César) Alexandre Revoredo, uma figura que ultrapassa os limites artísticos, é conhecido como músico, compositor e poeta. Nascido em Garanhuns, sua jornada criativa veio de berço por sua família profundamente musical. Aos sete anos, venceu um concurso de música promovido pelo projeto cultural Mobralteca, e desde então, a música tem sido uma constante em sua vida. Como autor, Alexandre Revoredo encantou o público infantil com suas obras "DiAnimal" (2018, CEPE) e "O Casaco Oco de Isaac" (2022, Vacatussa), nas quais ele entrelaça narrativas com poesia e sensibilidade. Além dos livros, ele compartilha suas poesias no perfil do Instagram @1diadepoesia, no qual seus versos são expressados para além das páginas. Sua contribuição para o cenário artístico vai além da escrita. Revoredo é uma peça fundamental no Coletivo Tear, grupo de artistas de várias linguagens que engajam a cultura da região. Desde sua criação em 2011, o Coletivo Tear possibilitou a criação da Aldeia Tear, um espaço cultural que tem o artista como um dos gestores. Além disso, Revoredo também movimenta o cenário cultural do Agreste Pernambucano com a Mostra Mundaú de Canções, o Studio Tear, o TeArte - Viva o Coletivo e O Livro em Cena. Seu comprometimento com a promoção da cultura se mostra presente ainda na direção musical de espetáculos infantis como "Luanda Ruanda - Histórias Africanas", "Ayô - Histórias de Griô" e "Histórias da Caixola", o que traz à tona narrativas que encantam e educam. Em março de 2020, o artista deu um passo marcante em sua carreira ao lançar seu primeiro álbum, intitulado "Revoredo", disponível nas plataformas digitais. Produzido por Juliano Holanda, o disco apresenta 11 faixas autorais e inéditas, sendo viabilizado através do incentivo do primeiro edital de Música do Funcultura do Agreste Meridional. O sucesso foi tamanho que lhe rendeu os prêmios de ‘Melhor Cantor Popular’ e ‘Melhor Show/DVD’ no Prêmio da Música de Pernambuco em 2022. É notável que suas obras são atravessadas pelas influências da cultura pernambucana e carregadas da tradição popular, com rimas e versos metrificados. Com mais de 15 anos de experiência, o multiartista compartilha sua jornada com a Revista Spia, revelando os desafios de produzir música no interior pernambucano e contando como suas canções podem surgir de forma inusitada. Para espiar a entrevista completa, confira o vídeo produzido para o canal de YouTube da Revista Spia.

  • "Janela Poética" Movimenta Cena Literária De Caruaru no Instagram

    O projeto foi criado por um estudante universitário e compartilha poemas e poesias autorais na internet. Reportagem por Ramona Ferreira e Newton Barros Foto de Gael O “Janela Poética” é um perfil literário digital que visa compartilhar poemas e  poesias autorais em formato de Reels no Instagram. Idealizado pelo estudante do curso de Comunicação Social do Centro Acadêmico do Agreste, Gael Vila Nova, o projeto teve início em setembro de 2023. O objeitvo principal é movimentar a cena poética e literária de Caruaru através das redes sociais digitais, além de dar visibilidade aos poetas locais. De acordo com o coordenador do projeto, o nome “Janela Poética” foi inspirado em um movimento antecessor, ocorrido durante a Pandemia de  covid-19, intitulado: “Fazendo do Insta uma janela poética”, onde Gael utilizava a rede social para recitar seus próprios poemas. A referência ao verso de Mário Quintana, “Quem faz um poema abre uma janela”, reflete a proposta de tornar o Instagram um meio de divulgação da poesia. O projeto, que é mantido por uma Bolsa de Incentivo à Criação Cultural (BICC), através da UFPE,  visa criar uma movimentação literária e estabelecer um público consumidor de poesia autoral, além de contribuir para o enriquecimento da cena literária local nas redes sociais e conta com o apoio de oito poetas colaboradores. São eles: Ser Imenso, Mano Monteiro, Urbano Leafa, Bernardo Reyes, Estefane Sá, Tainá Lima, Rosberg Adonay, além do próprio idealizador desse movimento. Gael Vila Nova decidiu que cada poeta escolhido teria a oportunidade de recitar e divulgar três poemas autorais até o encerramento do projeto, que acontece em março deste ano. A seleção dos colaboradores foi feita com o intuito de diversificar o conteúdo compartilhado e considerou gênero, estilo de poesia e a presença ou ausência de livros publicados pelos colaboradores. Questionado sobre o futuro do “Janela Poética”, após o encerramento da vigência da BICC, Vila Nova responde que deseja consolidar o projeto como um veículo de divulgação e fomento à poesia contemporânea de Caruaru e também considera a possibilidade de submeter o projeto a editais futuros. Acompanhe no nosso Instagram: https://www.instagram.com/reel/C485hXNi7H6/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA=

  • O Fantasma Capturado pela Câmera

    Crítica cinematográfica por Joebson José Trecho do Filme Retratos Fantasmas “Vou fechar o cinema com a chave de lágrimas”. Nas transformações do esquecido centro do Recife, o diretor e crítico de cinema, Kleber Mendonça Filho, nos conta sobre os fantasmas que habitam por lá. Retratos Fantasmas (2023) teve estreia especial no Festival de Cannes e conta a história do cinemas de rua que um dia foram cultuados, mas que hoje tornaram-se farmácias ou igrejas, ruínas de templos sagrados para a cinefilia que perderam o seu espaço para as modificações do capitalismo. O diretor pernambucano passeia por esses lugares, presenciando as transformações na arquitetura urbana, além de dedicar atenção ao grande valor de arquivos e documentos pessoais e públicos. Dividido em três partes, o documentário sai do micro, a relação de Mendonça com a mãe e a sua casa de infância (também cenário para alguns de seus filmes na década de 90) para o macro, as grandes salas de cinema do Recife, suas construções, auges, quedas e destruições. Trecho do Filme Retratos Fantasmas A obra de amor ao cinema do diretor é ainda mais poderosa para quem conhece e acompanha a sua filmografia, especialmente pela relação deste recente trabalho com alguns elementos passados, simbolismos complexos e personagens marcantes, como a participação do cachorro Nico em “O Som Ao Redor” (2012) e o problema com cupins, abordado em “Aquarius” (2016). Kleber Mendonça Filho também referencia alguns realizadores pernambucanos, como os ilustres Katia Mesel e Cláudio Assis, com destaque para trechos de suas obras mais conhecidas e aclamadas. Também presta homenagem ao cuidador do Cine Art Palácio, seu Alexandre, com quem o diretor conviveu durante a sua juventude e recebeu vários ensinamentos e conselhos sobre o mundo da sétima arte. Sendo ele também quem cita a marcante frase: “Vou fechar o cinema com a chave de lágrimas” durante o longa. Trecho do Filme Retratos Fantasmas O documentário possui um belo trabalho de cuidados com restauração de imagens, pesquisa, montagem, trilha sonora e som. Tudo para falar não somente de cinemas mortos, mas também da transformação da arquitetura, disputa do público contra o privado e, principalmente, um relato pessoal e íntimo pela visão de quem presenciou o seu espaço mudar durante várias décadas e não pôde fazer nada. Em uma mistura entre comédia, ficção e realismo, o diretor, em apenas 1h30, traz um projeto poderoso para expor o seu amor pelo cinema, mas também entrega uma investigação que servirá de referência no campo da pesquisa sobre cinemas de rua no futuro. O filme mostra que os fantasmas dos cinemas mortos do centro do Recife perpetuam em arquivos, relatos, fotos e em memórias, seja com um tom de suspense ou de melancolia.

  • Documentário CABOCOLINO encanta público no 31º. Festival de Inverno de Garanhuns – FIG 2023

    No último domingo (23), foi exibido no Cine Jardim do SESC Garanhuns, o documentário CABOCOLINO, o filme, que tem uma trajetória de prêmios e participações em grandes festivais do País, encantou o público presente na mostra audiovisual que faz parte da programação do FIG-2023. Após a sessão de exibição do documentário em sua versão com acessibilidade completa (LSE, Libras e Audiodescrição), a plateia pode interagir em um animado bate-papo com o Diretor do filme, João Marcelo e o protagonista o Sr. João de Cordeira, muitos presentes ficaram emocionados com a narrativa da obra, elogiando também a qualidade técnica do filme. Cabocolino foi um projeto nascido nas salas do curso de Comunicação Social, Campus Agreste, da UFPE, sendo o objeto do TCC do aluno João Marcelo, sob orientação da Profa. Dra. Amanda Mansur, em um dos momentos do bate-papo, o diretor pontuou sobre a importância da universidade pública, da interiorização do ensino superior e as políticas de incentivo público a cultura disponibilizada pelos entes governamentais. O protagonista “João de Cordeira”, indagado sobre as transformações em sua vida após lançamento do filme, disse: “Tudo mudou para melhor, hoje as pessoas me param nas ruas e me elogiam pelo meu trabalho, fiquei ainda mais conhecido, muitos dizem “O senhor agora é um homem famoso! ”, ainda fico emocionado”.

  • Capa do EP: Mozart Oliveira

    Por Maria Clara Mendes. A capa do primeiro EP de Mozart Oliveira segue a premissa do que uma capa de disco é capaz de causar como primeira impressão. Basta olhar a capa por alguns segundos e milhares de curiosidades são atiçadas sobre a obra. Impactante, original, repleta de símbolos, tem muito de Mozart na capa, conversamos com ele para entender os significados desse trabalho. Dono de uma voz inconfundível e de uma presença hipnotizante nos palcos e fora dele, Mozart Oliveira, natural de Gravatá, agreste pernambucano, é uma das revelações da música brasileira. Cantor, compositor, poeta, documentarista, entre outros atributos que não caberiam aqui, mas que explicam um pouco a magnitude de tudo que este artista produz. “Há uma assinatura de quem sou na capa do disco. Não identifico a capa em si como uma espécie de amostra sonora e melódica do disco, mas sim o que coloquei de mim mesmo e de quem sou nas canções”, revela. Fica evidente a presença de Mozart em suas próprias canções, o que transforma a experiência de ouvir o EP emocionante e de fácil identificação com o público. A cada faixa inúmeras sensações nos levam a lugares pessoais em que as nossas memórias e afetos se encaixam com tudo que é cantado e declamado. A criação de uma obra com essa força tem o talento e a criatividade de seu criador como um dos alicerces. A capa do EP surge, assim, em sintonia com esse lugar. “Eu sinto que a capa se relaciona muito com uma dimensão interna, como se ela emergisse justamente desse oceano particular e denso onde guardo muito do que sinto e onde eu mergulho para ativar minha criatividade artística”. Um dos destaques da capa está na figura do próprio Mozart, centralizada, representada em um desenho do artista pernambucano Heitor Silva. O desenho traz um Mozart sem roupas, envolto a uma planta, junto da constelação de Aquário, e com um coração flechado à mostra. Um ouroboros, serpente egípcia cuja representação denota o conceito de renovação, cerca o desenho protegendo praticamente todo o corpo de Mozart, exceto a mão direita. A mão direita tem dois dedos apontados para cima, enquanto a mão esquerda traz dois dedos apontados para baixo, alusão a famosa frase “o que está acima é como o que está abaixo”. Conceitualmente uma referência extraída das obras de Hermes Trismegistus. Olhos aparecem na palma das mãos de Mozart. Ao fundo vemos a representação de uma noite estrelada. O nome Mozart Oliveira aparece na parte superior da capa. Os detalhes da capa corroboram com a força artística que Mozart traz dentro de si e que transforma por completo tudo que compreende sua obra. É também a comprovação de um artista que sabe o que quer e que tem repertório para colocar em prática suas ideias. A parceria com Heitor Silva, portanto, não poderia ser mais apropriada. “Conversamos bastante sobre as cores e quais técnicas de ilustração poderiam ser utilizadas, além de toda a parte de inserção de símbolos. Escolhi Heitor porque notei nele o que eu gostaria como identidade visual desse projeto”. O contato de ambos artistas se deu à distância, através do WhatsApp, em uma valiosa comunicação e troca de referências. Há uma conexão da capa com as canções, então, naturalmente, a conexão também envolve Mozart Oliveira e todos que se identificarem com o repertório do EP. "Com a colaboração da artista Acsah Lírio, conseguimos no show projetar a capa durante a execução das músicas e era muito mágico ver o público se voltando para a projeção, mergulhando no universo sonoro que criamos para cada canção". Um universo singular que parece nos dizer muito além do que está sendo cantado, é um universo para sentir e se deixar levar. Tudo que corresponde a este trabalho chama atenção pela qualidade e pela capacidade de despertar emoções. As músicas, a capa, o artista Mozart Oliveira e toda a equipe por trás da produção do EP, merecem reconhecimento. Estamos presenciando o desabrochar de uma geração talentosa do agreste pernambucano, da qual Mozart é um dos nomes para se guardar com carinho e ouvir com paixão. Um agradecimento a Mozart Oliveira. Para os curiosos: Laboratório 63: https://www.instagram.com/laboratorio.63/ Heitor Silva: https://www.instagram.com/heitorsilva.art/ Mozart Oliveira: https://www.instagram.com/mozartoliv/ Filip Bagewitz: https://www.instagram.com/filipbagewitz/ Acsah Lírio: https://www.instagram.com/artedelirio/

  • Crítica Musical do EP Mozart Oliveira

    Crítica musical por João Rocha. Há um bom tempo na estrada da música pernambucana, com interpretações emocionantes de artistas da música popular brasileira, como Maria Bethânia, Gal Costa e Cazuza, Mozart Oliveira lança seu primeiro EP neste ano, com canções autorais e parcerias, apresentando sambas, bossa nossa e muita poesia romântica, em letras que falam de amores diversos, o artista se desnuda, assim como na capa do álbum, criada pelo ilustrador Heitor Silva, a criação mostra Mozart nu com uma hera atrepada ao seu corpo, cheio de simbolismos e significados, identificamos o ouroboros, a cobra que morde seu próprio rabo, apresenta também a constelação de aquário, o céu estrelado, algumas tatuagens e um coração perfurado por seis flechas; na segunda faixa do disco, Mozart não pestaneja em dizer “romântico, romântico até dizer chega”, esse amor antigo e demodê se mostra presente por todo o disco. Produzido pelo Laboratório 63, com participações de Filip Bagewitz, Matheus Lucena, Guira, Joyce Noelly, Ythalla Maraysa, Izadora França, Rosberg Adonay, Cizou José, Matheus Ferraz, Gael Vila Nova e Valdemar Neto. Mozart provoca o ouvinte a viajar nesse mundo íntimo e cru de melodias ritmadas pela ancestralidade musical de artistas muito jovens. São seis canções, que em 27 minutos e 55 segundos contam um pouco da trajetória deste artista agrestino. 1. Vem Em uma voz aveludada e um coral que arrepia, a primeira canção conta com uma melodia predominantemente de instrumentos de cordas, Mozart chama o amor para mais próximo de si, em vem ele divide os vocais com Filip Bagewitz que também participa da composição da música. O canto dos amigos criam um coral harmônico ao fazerem a segunda voz, proporcionando essa força coletiva que canta e acredita no amor, “juntos seremos uma estrela, pra quem de longe olhar (...) e todas vão cantar.” 2. Esquecimento Esquecimento inicia no movimento do samba, dançante, Mozart metaforiza o mar, o rio, transbordando o sentir, nos embriaga com a sensação de amar que nos faz perder o compasso ainda que o remelexo dos pés continuem, o artista nos provoca com a questão “amar é esquecimento?”. A faixa conta com uma poesia em fala, onde ele expõe sua forma de amar que por ora diz basta e em outro momento corre em ritmo alheio em busca desse amar que está fora de moda. 3. Samba do Amor Com inspirações da bossa nova, o samba de amor pede um gingado mais lento para sambar, e sambar para esquecer ou lembrar da coragem que é preciso para amar, pois o amor dói. Mozart canta a tristeza de derramar a paixão, completude possivelmente realizada pelas vozes de Joyce Noelly, Ythalla Maraysa, Izadora França e Valdemar Neto. 4. Um Bardo Retomando arquétipos seculares como o boêmio e o bardo, Mozart canta em uma melodia latina, espanhola, mas muito pernambucana o amor efêmero que sente o ritmo do coração de olhos fechados, performando a melancolia do sofrimento que é amar. 5. Flamenco Como o próprio título descreve, esta canção, iniciada em língua espanhola, apresenta o flamenco, com toques de instrumentos de sopro, incentivando a dança caliente proporcionada a dois corpos, que se entrelaçam e se degeneram em amor e poesia, como descreve também a letra da música. 6. Samba de Carmen O EP é em sua essência carregado de nostalgias, e muito samba, permitindo o embalo de quem o ouve. Samba de Carmen, a última canção do EP, retoma o coral acalorado e harmônico presente na faixa inicial, dando o último laço e fechando o ciclo desta produção que deixa o sabor de experiências vividas e daquelas que ainda viveremos, pois não há como fugir do amor e consequentemente do sofrer.

  • Retrato Mozart Oliveira

    Entrevista por Leandro Ferreira. Natural de Gravatá, agreste pernambucano, Mozart Oliveira é uma das revelações da música brasileira. Cantor, compositor, poeta, documentarista, entre outros atributos que não caberiam aqui, mas que explicam um pouco a magnitude de tudo que este artista produz. A Spia conversou com o artista acerca da sua trajetória, vivência e influências musicais. Veja na entrevista a seguir: Leandro Ferreira (LF): Mozart, você transitou por diversas linguagens artísticas. Você esteve associado ao GAMR, e realizou produções audiovisuais a partir desse espaço. E, além disso, você também se associou a outros atos como em plano musical, performático, poético, como o Tríplice Mistério. Como você se desdobra por esses espaços? Mozart Oliveira (MO): É algo que eu só me debruço quando eu preciso escrever algum release para algum projeto. Sempre fiz o que era possível no momento em que eu estava ali me exercitando enquanto artista. A parte do Triplice Mistério, por exemplo, foi muito de chegar em Caruaru e encontrar um movimento que a gente criou na época, que era o Malin, em que a gente declamava poesias ali na Estação Ferroviária. Ali eu me enturmei, e ali a gente se criou. No GAMR, o Grupo de Apoio aos Meninos de Rua de Gravatá, foi quando eu vim de Recife, esse era o único lugar que educava através de arte e cultura. Depois de um tempo, chegaram equipamentos de fotografia e de cinema. Quando eu vi, já estava fazendo cineclubismo. As oportunidades aparecendo, fui me guiando através delas. LF: Em relação a esse trajeto, quais foram suas primeiras influências musicais? Você acha que elas se fazem presentes durante a construção desse EP? MO: As minhas referências musicais são aleatórias. Assim como minha prática artística também acaba sendo. Eu comecei a ler sobre música erudita através do meu nome. Também lembro muito na infância de ter gostado muito de O Grande Encontro, porque tinha aquelas vozes nordestinas cantando. A partir daquilo eu comecei a criar um imaginário do que poderia ser o cantor, depois, sobre o que é o intérprete. Depois de um tempo, me enlouqueci por Maria Callas. Ao mesmo tempo, eu estava ouvindo Secos e Molhados, descobri Maria Bethânia.... E para além disso, rock and roll. Na minha adolescência foi heavy metal, punk rock, música gótica, entrei de cabeça, e acho que a estética do rock and roll não foi uma fase. Eu acho que o disco inteiro remete muito a Tom Zé, em algumas partes. A faixa Samba do Amor é completamente feita pensando em Tom Zé. LF: Esse é o seu primeiro álbum, e é autointitulado também. O que você acha que ele representa na concretização dessa trajetória? O que ele representa, nesse sentido? MO: Eu vejo esse disco como… Eu vejo ele como uma experimentação fragmentária de possibilidades. “Olha o que eu consigo fazer”. A primeira canção já mostra outro lado meu, algo que não tinha performado desde o meu início na música. Os sambas que tem no disco também, eles já talvez denotem esse caráter de experimentação também minha. Talvez, ao menos para quem me conhece, o mais provável fosse fazer um disco com guitarra, distorção, bateria, declamando muito em todas as canções e fazendo mil e uma coisas. E muito pelo contrário, o disco parece que tem esse enxugamento de ideias. Ele não é um disco de estúdio pensado como disco. Ele é realmente um EP. Enquanto EP, vou muito por esse caráter de experimentação de possibilidades. E acho realmente que ele é apenas uma demonstração de possibilidades. LF: É muito notável a forma como essa produção conta com participações a partir de diversos recortes, você colaborou com pessoas que estão na região do Agreste, mas também com pessoas que estavam do outro lado do mundo. Além disso, existem manifestações artísticas diferentes e plurais. De que forma ocorreu a união dessas potências para esse encontro? MO: Eu tinha submetido um projeto para a Lei Aldir Blanc, mas não conseguimos o fomento. Depois de um tempo, o produtor, Guira, entrou em contato comigo e disse que iria para Bezerros, ficaria na casa de Matheus Lucena, e que mesmo sem a verba, a gente poderia gravar as vozes guias do EP. Nesse meio tempo, entrei em contato com Filipe Bolgovich, um amigo lá da Suécia, que conheci enquanto ele fazia um estágio aqui no GAMR. Há mais de dez anos que a gente não conversava. Mandei mensagem pra ele, e ele topou e falou de duas músicas que ele tinha engavetado. A primeira música que ele me deu foi “Vem”, como eu lhe disse, né? Ela só tinha aquela primeira estrofe, Eu completei com o Matheus no refrão. Em “Samba de Carmen”, a música já estava em completude. Eu compus Flamenco e a gente adicionou Cizou, que toca rabeca, e estava pronto. Tendo as seis músicas do disco, eu fui pra Cidade de Bezerros e gravei as vozes de guias. A maioria das pessoas que participaram do disco, salvo alguns, como Valdemar Neto e Matheus Ferraz, eu conheci justamente na época que fui morar em Caruaru, em 2016. À parte isso, o processo de formação foi muito livre, quem fez backing vocals, Isadora França, Rosberg Adonay, Ythalla Maraysa e Joyce Noelly, estavam livres. Então, tá todo mundo aqui, e, cada vez mais, eu sinto mais preguiça de ir pra Recife. LF: Na esteira do que você falou sobre o álbum não ter conseguido apoio das leis de incentivo. Eu gostaria de saber mais se você acha que existe mais esperança de fomento, se no atual momento se abre um novo horizonte, se há novas possibilidades nesse cenário. MO: Obviamente, não é suficiente nada do que já é feito. A gente tem o mínimo, e mesmo que consiga realizar, não é ideal. O que tem de política pública no Brasil ainda não é o ideal. Esse EP foi feito sem nenhuma lei de incentivo. Como é que ele foi feito? Com boa vontade. Infelizmente, você não pode parar de produzir apenas porque você não conseguiu passar num edital. O seu sonho de ser artista não deve estar amarrado a conseguir uma aprovação de uma banca que faz parte do governo. Eu sei que parece papo de positivismo barato, de coisa quase de charlatão, mas não. Com cultura e arte você ganha abertura para um mundo de possibilidades e de noções, por exemplo, o respeito ao diferente. Eu acho que eu vejo esperança agora, porque você tinha perguntado sobre esperança. Eu vejo muita esperança. LF: Eu também sinto nesse álbum um recorte bastante romântico. Isso se transpõe também para as condições sonoras de diversos sentidos, seja nos vocais, seja nos instrumentais. Você se considera uma pessoa romântica? Como isso influencia suas obras? MO: Se a gente pensar em Baudelaire, Álvaro de Azevedo, me considero romântico. São artistas de obras que muito me influenciaram, então, pegando o romantismo enquanto esse grande movimento de lá de antigamente, sim, me considero romântico. Ao mesmo tempo, também me coloco nesse romantismo da trilha sonora de uma novela, da Maria Bethânia cantando paixões inesperadas, de coração rasgado. Lá na música “Esquecimento”, fala sobre ter um jeito de amar antigo. Eu acho que vem disso, esse jeito de amar antigo, mofado, meio démodé Nessa música tem uma inserção, eu não sei qual contexto em que aquela fala é produzida, mas eu sinto que esses ruídos sonoros se integram bastante à natureza do seu álbum. LF: A inserção dessas partículas do cotidiano e do processo de gravação estão presentes no álbum, inserindo o ouvinte nos “extras” que compõem a construção de uma totalidade. Pra mim, esse artifício representa um movimento de acolhimento, aconchego. Quais são suas impressões sobre essas adições? MO: Em “Vem”, tem um ruído de fundo, uma sonificação feita pela NASA de um conglomerado de galáxias chamado Perseu, na qual habita um buraco negro. Tinha tudo a ver com a narrativa. Em “Esquecimento” tem a minha avó, falando no final, meses antes daquela gravação, da voz dela, ela tinha sofrido um AVC. E aí eu perguntei para ela algo sobre isso. Achei interessante como registro dela também e da importância da figura dela no meu olhar, ela tem muita influência no meu olhar quase místico sobre as coisas. Ela sempre me guiou muito, mesmo sem saber, ela me inferiu um olhar menos racional e quase dionísíaco. Em “Samba do Amor”, eu faço som de percussão com um isqueiro, acendendo e apagando. Todas essas camadas, muito tem a ver com a liberdade que Guira proporcionou, enquanto produtor fonográfico do disco, ele ficou muito aberto. Todas as ideias que eu vinha trazendo, ele tentava realizar da maneira que eu estava pensando. LF: É muito interessante notar essas interseções entre seu álbum e esse espaço do Agreste. De que maneira você acha que seria possível esses artistas e produtores se organizarem por aqui? MO: Quando eu cheguei em Caruaru eu tive encantamento com tudo que acontecia, todas possibilidades do que as pessoas conseguiam com poucos recursos e com muita vontade. A gente, enquanto artista, jovens, vivenciamos a história do Brasil e suas transformações, especialmente políticas. Não podemos esquecer disso. Foram passados fatos históricos. Isso mexeu com a gente, com nossos sonhos, com a nossa realidade enquanto país. Eu vejo que agora a gente está ganhando um novo fôlego. Eu fui embora de Caruaru muito frustrado porque eu achei que a Tríplice Mistério teria tudo. Agora eu fiz o lançamento do disco em Caruaru. Quando eu saio para cantar e cantam junto comigo e eu me emociono ao ver tanta gente querida que me ajudou a construir esse disco. Eu vejo a movimentação da galera do TEA. Eu vejo coletivos, como tem as Madalenas, que é um coletivo de mulheres que está fazendo também intervenções de teatro. Eu vejo a movimentação do Sesc, das pessoas que não conseguem tocar no Sesc. Tudo isso eu fico vendo, mas realmente parece que perdeu-se mais a coisa urbana. E que cada um meio que foi para o seu nicho. LF: Eu pensei em encerrar a nossa entrevista com uma pergunta bem ao estilo Provocações. Mas é uma pergunta super simples também: existe alguma pergunta que você gostaria que eu tivesse feito, mas eu não fiz? MO: Rapaz… essa é bem complicada, viu? Talvez…se eu já tenho ideia de algum outro disco. LF: Você já tem alguma ideia, você já pensa em um outro projeto? MO: Já! Eu ainda não sei quais os músicos que estarão comigo, quero fazer algo completamente diferente desse EP. E talvez seja algo completamente de fácil assimilação para quem já me conhece. Já existe toda uma temática poética para esse novo trabalho. Por isso mesmo eu preciso encontrar mais coisas, assim como músicos que dialoguem com essa poética. Eu gostaria muito de fazer algo tendo como uma grande referência a Angela Ro Ro, tendo como referência uma Maísa, uma seresta, uma coisa densa. Gostaria muito de explorar isso. Mas daqui pra lá pode ser que eu mude completamente a ideia, pode ser que saia um livro, outro filme, sei lá.

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