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  • Exposição Animação Pernambucana - 5 Décadas de História

    Por Ana Carolina Silva Duarte. O ano de 2022 marcou a celebração de 50 anos de animação pernambucana, iniciada com o pioneiro e mestre animador Lula Gonzaga. Para comemorar essa grande jornada de produção cultural da cinematografia, o Museu de Cinema de Animação Lula Gonzaga (MUCA), através do projeto do SESC, o ANIMASESC, elaborou uma exposição para contar a história de 5 décadas da animação em Pernambuco. Visitamos a exposição e a Spia conversou com Rafael Buda, produtor e realizador audiovisual, e coordenador na área de programação do MUCA. Carolina Duarte (CD): Como membro do MUCA, como foi idealizar e participar da exposição do ANIMASESC? Rafaela Buda (RB): O MUCA no ano passado completou 5 anos de vida, e a gente completou 50 anos de animação em Pernambuco, então são histórias que se entrelaçam. O MUCA inicialmente foi um projeto vocacionado para cuidar da preservação e memória da obra do mestre e patrimônio vivo Lula Gonzaga, mas que ao longo do seu tempo, da sua trajetória, expandiu para que a gente pudesse dialogar com outros artistas, não só de Pernambuco, como também do Brasil e internacionalmente. O MUCA hoje, funciona a 80 quilômetros do Recife, no agreste de Pernambuco, na cidade de Gravatá, é um espaço físico com cerca de 90 metros quadrados, onde a gente pode ir lá não só revisitar toda essa trajetória do mestre Lula, como também realizamos cineclubes, oficinas, eventos, e já recebemos inúmeras visitas, tanto de estudantes da Universidade Federal, quanto de animadores aqui do Estado e de outros países, posso destacar, por exemplo, a Alemanha, França, Argentina. Na nossa parte de formação, realizamos cerca de 6 oficinas por ano, formando uma média de 120 jovens do Agreste neste ciclo básico de animação, possibilitando que o Agreste possa ser hoje um grande polo de referência da produção de cinema de animação aqui do estado. Pensar a exposição foi um desafio enorme porque não foi fácil conceber o caminho que a gente ia desenvolver para poder apresentar isso para os visitantes, mas fizemos um recorte muito bacana. Queríamos não fazer uma exposição apenas historiográfica, digamos assim, mas trazer o que a animação tem de diferente das outras linguagens audiovisuais, que é a possibilidade de poder trazer cenários, objetos, matérias de jornais e experiências interativas, como por exemplo, a maioria dos filmes que nós jogamos luz aqui, trouxemos para que os visitantes pudessem apreciar, que foram cerca de 60 obras durante essas cinco décadas, elas também estão linkadas via QR Code, onde o visitante pode não só ver uma foto, ver o boneco, ver o cenário, como assistir o filme ao mesmo tempo. Então é possível ver, principalmente, a transformação tecnológica de animações com pouca ou quase nenhuma estrutura para serem produzidas, seja de recorte, seja com câmeras analógicas, seja com o processo digital até chegar hoje na possibilidade de trabalhar com 3D. Então acredito que foi uma exposição bem pensada, com a curadoria muito legal do Tiago Delácio, com a montagem muito bacana do Bruno Cabús e toda uma equipe que se envolveu e se dedicou intensamente para que a gente pudesse entregar o melhor que a animação pernambucana tem nessas últimas 5 décadas. (CD): Como foi que se iniciou a sua relação com a animação, esse interesse começou na infância ou veio depois? (RB): Desde criança eu gosto muito de desenhar, de ler revistas em quadrinhos, HQs, fui muito estimulado por isso através da minha mãe principalmente. Em 2005 eu tive a oportunidade de participar de um projeto na Casa da Cultura, por meio do Mestre Lula Gonzaga, que era um projeto chamado Células Culturais: Desenhando culturas, então a partir disso eu comecei a emergir mais no mundo da animação. Minha primeira formação é Ciência da Computação, então a gente acaba interagindo também com essa parte de design, games e de animação. Então, desde 2005, eu sou ligado à área de cinema de animação e desde 2013 eu me dedico integralmente a esse universo, ou seja, fazem 10 anos esse ano. O ano de 2013 foi quando a gente realizou o primeiro Animacine, que é o festival de animação do Agreste, com a coordenação artística do Mestre Lula Gonzaga, a coordenação do festival pelo Tiago Delácio e eu faço a produção. Nesse ano vamos realizar a quinta edição do projeto. Além disso, eu costumo dizer que o mais legal que o MUCA vem propiciando é a gente hoje poder trabalhar com o que eu chamo de ecossistema do cinema de animação aqui no estado. Nós trabalhamos com formação, através das oficinas do OCA, o Cinema de Animação do Mestre Lula Gonzaga, a gente trabalha com difusão através do nosso festival de animação, chamado de Animacine, trabalhamos com a preservação e memória, através do MUCA, onde a gente salvaguarda a memória de Lula e de outros animadores. E também, trabalhamos com realização, desenvolvendo não só os filmes das oficinas, mas as séries que vamos desenvolvendo ao longo dos anos. (CD): Rafael, a Spia quer perguntar se você tem algum conselho para dar para jovens estudantes e animadores ainda emergentes. (RB): Eu acho que o primeiro conselho é persistam. Trabalhar com animação não é fácil, apesar de ser hoje um mercado muito emergente, porque a animação atua em diversos espaços do audiovisual. Se você entrar hoje na TV aberta, uma propaganda daquelas, por exemplo, de loja de móveis tem animação, saldão, liquidação, e aí vem aquelas animações apresentando o produto, seja na internet, em sites de notícias ou em sites de vendas. Além disso, hoje existe um mercado muito grande de animação, principalmente de marketing digital, e também hoje no universo das redes sociais. Então a animação permeia tudo isso e é um dos mercados que mais cresce para além do cinema autoral e do cinema artístico, é o mundo dos games, que de fato os jogos digitais em geral, cerca de 30% a 40% da equipe também são formados por animadores. Então é possível entender a dinâmica desse universo para poder entender esse leque de mercado. A gente sempre trabalhou com a questão voltada para o cinema, que é o nosso foco de atuação, então para quem quer trabalhar especificamente com o cinema de animação, eu acho que a primeira coisa é persistir, porque não é fácil. Nós produzimos um filme de 8 minutos, que demoramos 3 anos e meio para produzir. Ou seja, é preciso muita resiliência, muita dedicação, uma galera com uma sinergia muito boa, muito envolvida no projeto para que ele possa concluir o seu ciclo. Hoje, mesmo na universidade, você fazendo filmes mais estudantis ou que não sejam para o universo comercial, existe uma gama de festivais que aceitam filmes nessa categoria, filmes de iniciantes, filmes estudantis. Inclusive, existem festivais específicos para isso, tem a Mostra Estudantil aqui de Pernambuco também, que é um espaço bem bacana para que você possa apresentar o seu primeiro trabalho. O Brasil tem sido uma grande vitrine não só de profissionais, inclusive, eu vi um paper esses dias de que devido, infelizmente, à pandemia, mas ao trabalho de home office, hoje muitos profissionais brasileiros pela sua qualidade, pelo seu traço, pela dinâmica do trabalhador, do animador brasileiro, digamos assim, pela perspectiva do trabalho home office, muitos animadores desenvolvem diversos trabalhos para fora do país, principalmente para o mercado do Canadá e para o mercado asiático. Então, assim, depende de onde você se posiciona, se você vai ser um animador, se você vai ser um roteirista ou um produtor. Eu penso que a gente não deve cair nesse desestímulo que muitas vezes é jogado para nós, tendo em vista que, quando vamos pesquisar e analisar o mercado, existe uma potencialidade enorme, então acho que é muito mais de como que a gente pensa a nossa inserção no mercado de trabalho. (CD): E nesse aspecto, como você interpreta a importância de um evento cultural como esse? (RB): Eu e Tiago, que foi o curador da exposição, pensamos muito hoje como o cinema e o audiovisual podem ocupar outros espaços, não só as salas de cinema e não só os streamings. Então, ano passado, 2022, foi um ano muito simbólico, nós realizamos uma exposição audiovisual no Rio de Janeiro sobre o Bicentenário da Independência do Brasil. Já no FIG, que é o Festival de Inverno de Garanhuns, a gente realizou projeções e vídeo mappings sobre a Semana de 22, que no ano passado foi o 100 anos da Semana de Arte Moderna, porém, focamos nos modernistas pernambucanos, que muitas vezes, quando se fala dos modernistas do país, só focam na turma do Expo Rio São Paulo. Foi muito bacana poder desenvolver esses dois projetos. E foi muito legal, porque a gente pegou as obras desses modernistas, animamos elas e projetamos nos prédios públicos de Garanhuns. Já esse lance da exposição era uma coisa que a gente já tinha feito no MUCA, não sobre esse tema, porque o MUCA, que eu inclusive convido todo mundo desde já a ir lá conhecer, a professora Amanda, o professor Buccini, eles sempre levam anualmente estudantes lá para conhecer o museu, então independente disso, é um espaço que está sempre de portas abertas para receber pessoas interessadas na área. Mas lá foi muito legal, porque quando a gente concebeu a expografia do museu, a gente fez uma trilha animada, que é um pouco do que vocês podem ver aqui, que são esses brinquedos óticos, os objetos, para conhecer a história do pré-cinema. Fizemos um espaço dedicado ao mestre Lula, um espaço de formação, uma videoteca com livros e filmes que a gente em breve deve estar consolidando o nosso sistema para empréstimo, para pesquisa e tal, fizemos também um espaço para exposição. Por quê? Porque a animação permite que você também tenha produtos físicos, seja 2D, 3D, que aí você pode imprimir aquele objeto, seja stop motion, recorte, ou outras técnicas que permitem que você tenha um objeto ali para poder apresentar. Então quando inauguramos MUCA em 2017, lançamos a nossa primeira exposição, que foi a exposição de um filme que nós fizemos abordando a comemoração dos 20 anos da banda Devotos, que é uma banda de punk rock daqui, inclusive aqui de Casa Amarela, e que na época, também em 2017, eles estavam completando 20 anos de trajetória, a gente fez uma experiência muito interessante, onde a gente juntou 100 animadores do Brasil todo para poder fazer esse trabalho. E aí eu fiquei muito nessa ideia de que a gente deveria fazer uma exposição e trazer esse universo para o público, já que o primeiro filme de animação foi em 1972, então em 2022 a gente estava completando 50 anos de animação em Pernambuco. (CD): E por último, que recomendações você tem, tanto de conteúdo, como de artistas, para dar aos animadores iniciantes na área. (RB): Ah, enfim, tem muitos livros legais, né? Tem um livro, inclusive, daqui do nosso professor, parceiro e amigo Marcos Buccini, que conta a história do cinema de animação de Pernambuco. Tem um livro do professor Antônio Moreno chamado "Experiência Brasileira no Cinema de Animação" . Antônio Moreno foi muito amigo nosso, parceiro, e amigo de Lula, que inclusive, foi para Zagreb com ele nessa época, né? A Embrafilme enviou três animadores do Brasil para poderem estudar fora, e o livro dele também é sobre animação. Tem um livro do professor lá da Unicamp, Wilson Lazaretti, que também é um livro muito legal, que trata sobre essa história da animação, como funciona a história do pré-cinema, o livro se chama "Manual do Pequeno Animador", da editora Komedi. Tem uma pessoa que eu recomendo muito, que hoje ele é professor lá em Minas, a gente já teve a oportunidade de lançar o livro dele aqui em 2015, no segundo Animacine que é o Sávio Leite, ele é professor lá da UNA, mas que hoje ele é um dos principais expoentes nosso da animação do ponto de vista de literatura, porque ele já lançou, se eu não me engano, cerca de 3 a 4 livros do universo da animação, livros inclusive de artistas, de pesquisadores americanos, onde ele a faz tradução. Mas esse livro é muito legal dele, chamado “A Maldita História da Animação Brasileira", onde ele faz entrevistas com os principais animadores do Brasil. Tem um livro que foi lançado recentemente pela editora Martins, se eu não me engano, que é também de um grande produtor e um grande animador brasileiro, o Otto Guerra, onde ele lançou sua autobiografia e é um livro muito legal. O livro "Nem Doeu (Autopornografia)", da editora MMARTE, conta toda a trajetória dele, que é muito engraçada, e ele tem trabalhos muito interessantes, que é possível comprar pela internet. Inclusive, a gente também trouxe ele para o Animacine, no último Animacine ele foi um dos nossos homenageados. SERVIÇO EXPOSIÇÃO ANIMAÇÃO PERNAMBUCANA - 5 DÉCADAS DE HISTÓRIA Onde: Galeria de Artes SESC Casa Amarela Av. Norte Miguel Arraes de Alencar, 4490 Horário: 09h às 19h de segunda à sexta

  • Cantautores e produção colaborativa na mostra Reverbo (PE): agregando para reverberar

    Divulgação cientifica por Amilcar Almeida Bezerra, Amanda Mansur Nogueira, Vinícius Barros de Oliveira. O coletivo de Cantautores “Reverbo” nasceu em 2016, em casas, terraços e apartamentos no Recife com músicos criando junto e separadamente. No estudo desenvolvido por Amilcar Almeida, Amanda Mansur e Vinícius Barros, o conceito de “cantautor” está na base de uma cena musical que propõe novas formas de circulação sustentável para a canção autoral, centradas na produção colaborativa, na performance individual e em mostras coletivas. Resumo do artigo O termo “cantautor” vem sendo utilizado na mídia pernambucana para designar um tipo de artista independente que compõe e performa a canção para um nicho do público local em bares, cafés e teatros. Neste estudo desenvolvido com o coletivo de Cantautores “Reverbo”, sugerimos que este conceito de “cantautor” está na base de uma cena musical que propõe novas formas de circulação sustentável para a canção autoral, centradas na produção colaborativa, na performance individual e em mostras coletivas. Publicado na Revista Terceira Margem, idealizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o artigo pode ser acessado no link abaixo: Cantautores e produção colaborativa na mostra Reverbo (PE): agregando para reverberar

  • “Eu abro neste filme um espaço para que eu possa falar de amor, para que eu também possa me colocar"

    Entrevista e perfil por Sammy. Amor, tempo e memória. Esta é a essência da história do documentário longa-metragem “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem" da diretora, roteirista e montadora, Natara Ney. A pernambucana, formada em jornalismo pela Unicap - PE, cursou Teoria da Montagem na Universidade de Brasília. Em 1993, mudou-se para o Rio de Janeiro onde vive até hoje e trabalha como montadora. Como editora, Natara é reconhecida pelos trabalhos em “Tainá 3” e “Desenrola”, de Rosane Svartman; “O Mistério do Samba”, de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor; “Todas as Mulheres do Mundo” e “Separações”, de Domingos de Oliveira; como também nas séries de televisão “Ó Paí, Ó”, de Monique Gardenberg e “Novas Famílias”, de João Jardim, e no documentário “Divinas Divas”, sobre a primeira geração de artistas travestis brasileiras, dirigido pela atriz Leandra Leal. A cineasta negra também dirigiu o curta “Um Outro Ensaio”, sendo este premiado em festivais de Gramado, Rio e Triunfo, o documentário “Cafi”, premiado no Brazilian Film Festival em Los Angeles e o documentário longa-metragem “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem". Na 7ª edição do festival VerOuvindo, no Campus Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco, localizado em Caruaru, foi realizada a sessão especial do documentário “Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem" com audiodescrição, contando com a presença da diretora para uma rodada de bate-papo. O documentário conta a história sobre um lote com 110 cartas de amor que foi encontrado em uma Feira de Antiguidades, todas escritas por uma moradora de Campo Grande/MS para o seu noivo no Rio de Janeiro. Durante 2 anos, 1952/53, ela relata sobre a paixão e a distância. A partir desta descoberta, uma investigação se inicia para localizarmos este casal apaixonado e descobrirmos o desfecho do romance. Após a reprodução do longa e de tirar um pouco de lágrimas e relatos reais das vivências do público, Natara conversou com a Revista Spia sobre a concepção e a produção do documentário. Além da sua experiência como diretora, roteirista e montadora. Sammy (S): Sua vasta experiência e seu trabalho como roteirista e montadora são amplamente conhecidos, mas como foi o processo de filmagem do longa-metragem, agora no papel e diretora? Natara Ney (NN): Depois desse e até durante esse projeto, eu dirigi outros projetos pequenos. A minha formação como montadora me ajuda muito, porque quando eu vou para o set eu tento ter o máximo possível previsão, eu decupo todas as cenas antes de filmar, por exemplo, nesse projeto aqui, eu fui na feira de antiguidades várias vezes, porque ela foi muito filmada. É uma feira muito conhecida no Rio de Janeiro e eu não queria fazer só uns planos da feira, eu queria que cada plano tivesse um sentido. Então ia muito como o Felipe lá, ficamos passeando, olhando as barracas, até que descobrimos que a melhor forma de filmar seria como se alguém tivesse procurando coisas e ao invés de filmar-la era de frente. Filmamos através de espelhos, através de buracos, para gente dar uma visão de dentro da feira pra fora, a gente tentava ser o olhar de quem estava ali dentro. Então a minha formação de montadora faz com que eu vá para o set como tudo muito decupado, anotado, pensado. Claro que no set de filmagem vamos nos deparar com inúmeras variações, mas eu tento fazer o mais decupado possível, mais desenhado possível, para que se ocorrer alguma variação, eu tenha pelo menos alguma base para onde caminhar. Eu não gosto de ir para o set, achando que vou chegar lá e vou ser a “criativa”, não sou a criativa, a minha criação acontece antes. Até porque o set já vai ter isso, nos preparamos para uma dia de sol e acaba chovendo, nos preparamos para um dia de chuva e faz sol, então se você não tiver tudo muito pensado como quer, você nem acha uma solução de como conduzir as cenas, porque eu também não quero chegar lá com 300 horas de material filmado que você termina nem usando. A minha experiência como montadora faz com que eu pense muito antes de filmar, é isso que me ajuda muito, pensar no que eu quero, quem vou entrevistar, o que eu quero daquela pessoa, porque já está tudo mais ou menos previsto, eu preciso saber o que tirar daquela pessoa, para que tudo que venha, venha como lucro. S - Você é formada em jornalismo pela Unicap de Pernambuco, poderíamos dizer, então, que a busca pelo paradeiro do casal pode se assemelhar como uma investigação jornalística? NN - O jornalismo foi quem me deu esse sul pra eu pensar “Isso é uma matéria, eu encontrei as cartas e preciso saber o que aconteceu com eles”. O jornalismo foi uma base, mas era sobre amor, sobre memória, então a jornalista foi se diluindo na pessoa que está narrando aquela história, o tema não me permite uma concisão, sabe. E a cada coisa que eu descobria, eu chegava a conclusão que não tinha como ser cartesiana nesse processo, porque você imagina: você vai pra uma cidade, que era quase o oposto do lugar onde você nasceu, que foi o que aconteceu como o personagem Osvaldo, ele nasceu no Ceará e foi embora para o Rio de Janeiro, do Rio ele foi enviado para o Mato Grosso do Sul e ele se hospeda em um hotel que fica em frente a casa da mulher por quem ele se apaixonou, casou e viveu por 60 anos, o jornalismo não cabia essa narrativa, eu poderia ter seguido esse caminho da narração jornalística e ter contado a história de maneira mais didática, mas para mim esse formato não cabia. O jornalismo também foi o sul na hora de montar a equipe, porque eu sabia que ia precisar de uma certa agilidade, então já conversei com o fotógrafo, com a produtora, com o assistente de câmera e com o técnico de som e a nossa equipe era isso, cabia todos em um carro. O jornalismo me deu a base para saber conduzir o projeto com o mínimo de pessoas possível. Mas a partir do momento que eu me deparo com a emoção, a partir do momento que cada pessoa que tocava nas cartas e abria sua própria vida para mim, o jornalismo foi se diluindo e foi virando uma coisa mais poética. S - Estamos vivendo um momento onde as relações e relacionamentos vêm e vão de maneira muito rápida, “Espero que esta te encontre e que estejas bem” pode ser um respiro de alívio, um lembrete para desacelerar? NN- Eu acho que é um lembrete para sermos mais honestos nas nossas relações e pararmos de impor tantas regras, nós colocamos muitas regras nas relações. Eu tenho estudado muito sobre afeto para uma nova série que estou fazendo, que é sobre amor preto e o que acontece, a gente, todos nós, fomos educados para entender que o amor é de uma certa forma e que alguns corpos são possíveis de ser amados e outros não, e que o amor certo é aquele que as pessoas se casam, moram juntos e tem tantos filhos, quase como uma fórmula e não é assim, somos diferentes e cada um de nós vai sentir e demonstrar o amor de uma forma, então acho que o filme mostra que é possível amar e demonstrar várias forma de amor. Nos faz pensar também, o que queremos quando estamos nos relacionando. Eu quero me sentir bem, eu quero me sentir acolhida e respeitada, eu quero me sentir livre, eu quero me sentir pertencendo a aquela relação, eu não quero ter medo do meu companheiro, eu não quero ter que fazer coisas só para agradar meu companheiro ou minha companheira. O filme nos provoca a pensar em afeto e em como queremos nossas relações e não apenas a fórmula que nos é dita como certa. Eu fiz esse filme para falar de amor, porque eu cresci não me vendo nos filmes, séries ou novelas sendo amada. Meu corpo, meu cabelo crespo, minha bunda grande, meu peito grade, claro, eu falo isso na minha vivência, eu tenho 55 anos, agora podemos ver outros símbolos, outras mulheres, você vê a Preta Rara, você vê a Jojo Toddynho, MC Carol, você vê mulheres com outras corporalidades falando de amor, tesão e afeto. Eu não vi isso na minha formação. Então eu abro neste filme um espaço para que eu possa falar de amor, para que eu possa me colocar e dizer que é possível e que o amor existe para todos os corpos. Eu acho que essa é a grande reflexão que temos que fazer. S - A produção cinematográfica nacional tem atravessado momentos delicados nos últimos anos, praticamente um desmonte. Dessa forma, como você enxerga o futuro do cinema? NN - Como eu enxergo o futuro do cinema [...] precisamos respeitar as políticas públicas, principalmente as políticas públicas de inclusão, os editais precisam ser inclusivos, a gente tem que lutar por isso. Precisamos lutar para que exista cinema em Caruaru, para que tenha cinema em Triunfo, para que tenha cinema em Belo Jardim, para que tenha cinema em Arcoverde. Temos que lutar para que as cópias circulem, temos que lutar para a formação de profissionais negros e negras no Brasil e temos que fazer com que essas coisas sejam políticas públicas inclusivas, então eu enxergo o futuro do cinema ainda com muito trabalho a ser feito.

  • O vestido de espumas de Paloma

    Crítica cinematográfica por Leandro Ferreira Em seu mais recente longa-metragem, intitulado Paloma, o diretor Marcelo Gomes configura, a partir dos intentos dos corpos marginalizados, um documentário em forma de ficção. Inspirado em uma história real, somos introduzidos a um curto recorte da trajetória da protagonista Paloma. No cenário do pequeno município de Saloá, com população de apenas 15 mil habitantes, somos apresentados a uma personagem distinta, munida do sonho de formalizar a união de seus laços afetivos na igreja, com uma cerimônia de casamento. A protagonista, homônima à obra do diretor Marcelo Gomes, nos mostra a vontade de potência proveniente de uma mulher trans em busca de sua utopia. Atravessada pela fé e pelo desejo, a vida e o cotidiano de Paloma são perpassados pelo matrimônio: o trabalho rural no Sítio Fernando é intercalado pelos penteados que, realizados por ela, enfeitam a cabeça de suas amigas e ensaiam as possibilidades para o seu grande dia, enquanto em casa, mesmo as brincadeiras de boneca com sua filha atuam em simulacro das expectativas para esse evento. Perpetuado pela ludicidade das ações, o retorno à infância remonta a trajetória que se desdobra sob o olhar dos espectadores, envoltos no ideal onírico do ímpeto e da crença, manifestada entre as conversas que tangenciam preces, romarias, procissões e promessas e capazes de proporcionar a esperança necessária para continuar a enfrentar as labutas diárias. O relacionamento com o parceiro, Zé, passa a ser demarcado por conflitos que se acentuam através de posturas antagônicas, o afeto privado destinado ao casal torna-se cada vez mais claustrofóbico devido aos olhares de julgamento que enclausuram não somente os espaços aos quais estão passíveis de ocupar, mas as experiências às quais estão destinados. As divergências entre os interesses do casal e o consequente desgaste oriundo dos atritos entre o querer de Paloma e o não querer de Zé, cerceados pelo ambiente de hostilidade velada da cidade e suas localidades de lazer, aproximam o casal de uma lacuna cujo espaço passa a ser preenchido por uma outra paixão. O breve envolvimento de Paloma com o motorista do transporte que a leva até o trabalho, Ivanildo, marca uma cisão que só pode ser recobrada pelo intento maior de adentrar a igreja de véu e grinalda, cumprindo os trâmites que antecedem seu final feliz. Visando o distanciamento dos cenários de violência que por muitas vezes estão relegados às existências que transpassam o viés da cisgeneridade, seja na ficção ou na realidade, a trama se esforça nas tentativas de não ser resumida aos sofrimentos enfrentados pela protagonista, entretanto, não os ignora. Em momentos de sutileza, é possível notar os espaços de acolhimento nos quais Paloma pode tecer uma rede de apoio, que, mesmo tidos nas condições de marginais, ressignificam as perspectivas norteadoras de sua história: é nesse sentido que o bordel lhe promove o acolhimento e solidariedade em seus momentos de necessidade. Em contraponto à luxúria que fetichiza a existência desse espaço, tal qual a de Paloma, são tecidos enlaces entre suas condições. Por intermédio deste e de outros espaços, é realizado um movimento de incursão por uma sociofamiliaridade que não adentra os laços sanguíneos, mas que está determinado através da luta contra as condições de precariedade experienciadas por estes corpos desde a epigênese de suas transgressões. Constitui-se assim uma categoria outra de família, na qual “primas” compartilham uma condição social propulsora do estreitamento entre suas similaridades e contradições. Mesmo em consonância aos intentos estabelecidos pelas estruturas que mantém espaços heteronormativos, como a igreja, e cumprindo as normas sociais determinantes para esse espaço, assim como os ritos estipulados por suas diretrizes para a realização de um casamento, Paloma é excluída da possibilidade de adentrar tal evento por sua identidade de gênero. Imparável mesmo diante da sucessão de eventos infortúnios que a circundam, Paloma consegue arquitetar a sua cerimônia em conjunto ao padre Luiz Gonzaga, figura pouco convencional às tradições da igreja. Em uma grande festividade realizada em uma escola municipal, e com mais de 300 convidados, Paloma concretiza seu maior ímpeto. Desfilando até o caminho do púlpito trajada com o vestido de noiva mais caro encontrado, de alvura tão branca quanto o sorriso que ostenta no rosto maquiado, o apogeu finalmente encontra nossa heroína. Afora as paredes que dimensionam essa união para outro âmbito, uma equipe de jornalismo registra tudo com um recorte midiático banhado em sensacionalismo, e aproveitando-se da inocência e felicidade que perpassam Paloma, coletam seu relato em entrevista, apenas para espetacularizar sua vivência como um freak show, criando um ambiente hostil para os recém-casados. Coordenada pela recorte midiático, a rebordosa que se instaura no município reverbera na lua de mel do casal, o revertério toma conta dos círculos sociais mais íntimos do marido, Zé, de modo que sua família e amigos passam a tratá-lo como uma figura jocosa, situação ímpar que provoca a separação entre ele e sua noiva, abandonada na lua de mel. Se desfaz o amor na alvura das pancadas das ondas do mar de encontro a areia, da mesma limpidez da cor do vestido utilizado durante a cerimônia que deveria anunciar a conclusão da sua saga, o tão esperado final merecido. A praia, outrora leito nupcial, se torna também palco para a maior desilusão amorosa da protagonista, que retorna a cidade de Saloá e encontra a violência cada vez mais à tona, impossibilitando sua permanência nesse espaço que cerceia sua vida. Em busca de uma nova possibilidade, Paloma se destina a uma nova caminhada, afora os limites de Saloá, onde possa conviver com serenidade. Talvez uma e única mulher trans entre o pequeno quantitativo de habitantes de Saloá, a personagem principal dessa narrativa é denotativa da totalidade de uma população marginalizada, excluída pelas potências bravias da cisheteronormatividade, cujos espectros atuam enquanto fatores limitantes aos corpos considerados dissidentes, que transmutam os padrões impositivos de uma cultura hegemônica opressiva. A trajetória de Paloma é perpassada pelas estruturas dominantes do país que assassina uma pessoa trans a cada 48h e figura há 13 anos no topo dos índices de crimes de ódio contra essa parte da população. Não assegurado nem o direito básico à existência, figura um movimento de resistência, cuja potencialidade reside em Paloma e muites outres que se distanciam da conformidade de gênero compulsória propagada pela sociedade. O resgate à memória travesti traça um gesto de esperança. Reconfigurar as histórias de amor cujas existências estão limitadas às vidas secretivas revela outros afetos, cujas presenças estão fronteiriças à cartografia heteronomativa.

  • Som ao Redor: Sessão comentada

    Por Ana Carolina Silva Duarte No aniversário de 10 anos do filme “Som ao Redor”, o diretor do filme, Kleber Mendonça Filho, realizou uma sessão comentada no Cinema da Fundação. Ao longo do filme, fiz perguntas sobre sobre a produção, montagem e as inspirações por trás das cenas na narrativa. Antes de iniciar as perguntas, Kleber comenta sobre a cena inicial do filme: “Sempre gostei de abrir o filme mostrando um panorama de sons e imagens que definem o filme, e o bairro em que se passa.” Para você, qual a importância em fazer um filme contornando o dia a dia das pessoas, seu cotidiano? R: “Cenas em que nada acontece dão uma musculatura à vida, ao dia a dia. O percurso dos personagens andando e entrando nos prédios é importante, na construção dos personagens” Mais tarde no final do filme, Kleber comenta que às histórias do cotidiano contam a lógica da vida, neste momento ele fala do desaparecimento da personagem Sofia no filme, já que ela não está mais namorando com João, ela não aparece mais. Como foi o processo de montagem do filme, o corte final se diferencia muito do roteiro original? R: “A montagem do filme demorou 1 ano e 3 meses para a gente terminar”. Ele também fala que, por mais estranho que pareça, o corte final ficou bastante parecido com o roteiro. Ao longo da sessão, Kleber expressa admiração em mostrar os aspectos bons do nosso cotidiano. Ele fala como algumas das cenas presentes no longa, ele viu acontecer em sua vida, como a cena em que a irmã da personagem Bia briga com ela por ter comprado uma TV maior que a irmã. Além disso, o arco dos seguranças da rua foi também algo que aconteceu na rua onde Kleber morava. Kleber fala como o filme expressa a hierarquia urbana presente na rua, fazendo uma analogia com a cena em que Seu Francisco recebe Clodoaldo na sala, e não na área de serviço como antes, pois agora ele tem assuntos do seu interesse com Clodoaldo. Na cena em que mostra o pesadelo, o diretor achou interessante que o som fosse somente o dos passos das pessoas entrando na casa, e a progressão do som dessa invasão. No fim, ele comenta como o filme fala bastante sobre a violência em vários aspectos, na narrativa individual de cada personagem, violência de classe, violência racial e de gênero.

  • Agda na Aurora

    FOTOGRAFIAS Teresa Benassi Volátil, mutante, diáfana e tão estrada, poeira, barro e chão ao mesmo tempo. Retratar Agda em fotografias, descrever em palavras uma criatura que encerra em si o singular e o plural, é desafio ingrato. Impossível traduzir o todo, no máximo consegui capturar alguns retalhos do imenso e multifacetado manto com o qual ela nos abraça dentro e fora do palco, nos emociona e toca n´alma. Não poderia ser diferente o show de lançamento do seu primeiro álbum em Recife: um encontro de águas justamente na rua da Aurora, onde o rio Beberibe, antes de abraçar o mar, encontra o rio Capibaribe, vindo lá de longe do planalto da Borborema, de onde vem Agda, sua música, sua poesia, rima, improviso e exuberância. Na beira d´agua, com as luzes e bandeirolas da nossa conhecida Rural, o "Veículo AutoEmotivo" que faz o show onde chega, com seu “Som na Rural", Agda interpretou tudo, todas as músicas do álbum e mais algumas. Cantou para um público festivo a entoar junto com ela grande parte das canções. Trouxe convidados ao palco, circulou entre os músicos e a plateia; recitou, contou estórias, cantou e encantou a todas e todos, mais do que sempre faz em suas cantorias. Uma celebração, deveras. Em Agda, tudo pode ser e pode até nem ser. Tudo vai ao sabor de um vento poético, melódico ou não, que dança, brinca, voa entre sertão, agreste e até litoral. É arte que pulsa e corre que nem cometa que risca o céu. Fotos: Teresa Benassi Teresa Benassi - artista nascida em Pernambuco. Uso da imagem permitido apenas para fins não comerciais e com o devido crédito da autoria. Mais informações: teresabenassi1@gmail.com

  • Agda, uma narrativa fantástica do agreste

    Crítica musical por Mariana Gonçalves Da rua grande, centro de Santa Cruz do Capibaribe, Agda Bezerra Nunes Moura, bisneta, neta, filha, irmã (d)e poetas. Não tinha como escapar. Cantora e rimadora como o avô; o homem gravador do prata, sertão do Pajeú, ela pertence geracionalmente às tradições do repente e memorialismo da poética sertaneja. Agda é movedora artística: ativa na poesia, música, teatro. Desde criança. Cantora, compositora, atriz, desenhista, multi-instrumentista, autodidata, Agda assina todas as canções do autointitulado álbum de estreia. Potente e difusa, a rima de Agda dá o tom das 17 faixas. Em seus 51 minutos de duração, as odes contam a jornada sensorial e imagética da artista pelo território do palpável e do sonhado, visto ou contado, sentido, sofrido e marcado numa narrativa fantástica do agreste que lhe criou. Unindo territórios e aportando a forma das atmosferas poéticas todas as melodias são preciosamente produzidas por Juliano Holanda; mago das cordas, o violonista de Goiana, mata norte pernambucana, é também cantor, compositor, diretor musical do disco e do show Reverbo: movimentação pernambucanamente diversa que abrange uma crescente e cambiante ruma de cantores, compositores, escritores, mestres da lírica vindos de todo o estado e da qual Agda participa e por qual já interpretou composições contidas no álbum. As narrativas são construídas de várias vozes, misturando os tempos e percorrendo cidades, sons, sotaques, silêncios, cacofonia, agonia; calma; divididas em quatro temas, quatro canções cada. Dos parceiros de Reverbo o duo pinça Flaira Ferro (Nem lá Nem Cá), Isabela Moraes (ter sidos) Martins, Almério, Mery Lemos (produtora executiva da Reverbo, assume percussão e empresta voz e riso ao coro feminino de o cigano com Ezter Liu, Joana Terra, Miriam Juvino, Numa Ciro, Paula Tesser e Virgínia Guimarães, esta última, multiartista, cineasta e designer responsável pela identidade visual do projeto). Figuram ainda Lirinha, ator, compositor e cantador de Arcoverde, práxis e palavra potente empresta a voz a bilhete 2. Entre os santacruzenses tarimbados Lara Moura, Olegario Lucena e Fábio Xavier que engrossam o sumo sonoro junto com Isaar, o saudoso Jr. Black, Johann Brehmer e Moringa. Tempo 1 - Apontar 01 - Transversal Envolto em cordas, o vocal cortante é a tônica da faixa que abre o disco. Evocando a beleza misteriosa dos grotões do capibaribe, dos sítios de pomares frondosos, o patrimônio arqueológico e reserva ambiental de onde podem ser vistos ao pé da serra a vila do Pará e o desenho rural numa região onde predominam planícies e as pequenas propriedades. O poço fundo distrito fronteiriço que abriga a barragem do rio que batiza a cidade. A fera solta na feira da rua principal, o centro seco no ‘sol costurando’ uma origem dos áridos motivos do raconto de ser de onde está. 04 - Partida Os violões de agda e Juliano confabulam progressões circulares pra Lara e a passagem entrecortada da terra que leva a arcoverde, sertão e do corte colorido que uma mulher um fruto e um menino pintam no caminho. 05 - Nem lá, Nem cá Mery Lemos dá o nome na percussão energética, ligeira e quente da sinergia Flaira e Agda em verso eufônico num rimado alto astral acerca de ir e saber quando chegar só. Dois reais no bolso e um sonho. 07 - Bilhete a José Declamação de amor no corpo do silêncio, nó fraterno da pura voz de Agda. Resistência do tempo na calma. Na calma da dor: amor, como certeza. Tempo 2 - Dus Doidos “Sinto no corpo do silêncio algo. Uma coisa que queira nos salvar. Eu nem sei nem do quê, nem para quê; mas um dia você me disse que a calma é a maior resistência do tempo. Eu te amo por isso também Nos guardemos na calma da dor. Tenha meu amor como parte da força de ser com a dor escrevendo, com aquele jeito de misturar as coisas e parecer doida misturando tudo o que é bom. poder ser assim com você” 09 - As Lavadeiras Destacando o feminino na confluência de memórias do Capibaribe as sereias-lavadeiras são embaladas nas cordas de Holanda, Olegário, Xavier e na percussão de Johann e Mery. Maria, Tereza, Helena, Inacia; sobrepostas nas vozes de Agda, Jr. Black e Marcello Rangel e no mover do rio à contenda da lida das mulheres dentro do fluxo do mundo. Tempo 3 - Ter Sidos. 11 - O Cigano Camaleão do invisível e artista de estrada a quem nada satisfaz; veste carapuça de 'sonhador cativo da fantasia', impregnado de vicio sorvendo do mundo cada gota de vida. torpe, o vadio se equilibra no ar 'indo e voltando, diluindo e reintegrando', queimando no ultimo suspiro do figurado cambiante cigano o tudo e o nada. Mery Lemos (da Reverbo, assume percussão e empresta voz e riso ao coro feminino de o cigano com Ezter Liu, Joana Terra, Miriam Juvino, Numa Ciro, Paula Tesser e Virgínia Guimarães, esta última, multiartista, cineasta e designer responsável pela identidade visual do projeto). 13 - Bilhete 2 Lirinha e Agda e a poesia onírica e nebulosa do saber que tudo se cabe em si, sem corpo, onde quiser. refazendo o mundo por dentro. Tempo 4 - Poeira 16 - Fora do Eixo Na única composição de Juliano com Agda no álbum a linguagem universal do desamor tem uma intérprete ímpar. À flor da palavra, sentimentos triturados, corpos separados em versos de promessa mantidos na fé e na vontade: esperança em semente viçosa. junto d'o cigano e nem lá nem cá é ponto altíssimo do álbum pela riqueza de imagens e prosa de fino esmero. 17 - A curva da Miroucha De volta ao canto de sombra frondosa com aroma de passado, Agda toma de volta o fio com que costura no bojo da memória retalhos de ser. Realizado com apoio do Funcultura agda é bem resolvido como registro fonográfico e de linguagem, própria e fértil, que não se encerra em si; celebra dinâmicas azeitadas e não deixa arestas a aparar. Mostra razão de ser, maturidade e inventividade de uma artista plena. O show do disco está em circulação e pode ser visto dia 4 de fevereiro em Triunfo dentro do festival donas Marias às 19h na Praça Josias Albuquerque; entrada franca. Cópias físicas de agda estão disponíveis em Recife na Passa Disco: Rua da Hora, 345 Espinheiro e em Santa Cruz do Capibaribe na Farmácia do Trabalhador: Avenida Prefeito Ferraz Filho, 290, Palestina. na DM pro mundo em @agda___ Preço sob consulta

  • Agda costura o céu do agreste na história da música pernambucana com o seu primeiro álbum

    As costureiras, mototáxistas, árvores, feiras, olhos e braços humanos viram movimento e canção nos “ter sidos” de Agda. Entrevista por João Rocha e Nayara Nascimento As encruzilhadas genéticas que perpassam por Agda, já indicavam, ainda muito jovem, a potência transformacional e poética que se encontraria com o público na sua adolescência. Filha, neta e bisneta de costureiras, Agda carrega consigo os sentidos que a feira da sulanca, em Santa Cruz do Capibaribe lhe apresentou. A influência da família paterna impregna através dos sons e da estrada que lhe leva até o sertão da Paraíba, seu avô, Zé de Cazuza é um patrimônio vivo de poesia, seu pai Miguel Marcondes, é cantor e compositor há mais de trinta anos e está à frente da banda Vates e Violas. Agda aglutina suas vivências as paisagens sonoras, visuais e afetivas em muito verso e rima. Utilizando-se de seu imaginário fértil e de uma escrita flutuante, a artista transfigura para as suas composições os encontros, desencontros e a efemeridade profunda da poesia, da arte e da cotidianidade de um dia de sol ou de chuva. Com produção de Juliano Holanda, a carta sonora conta com a participação de vários artistas como: Neide Maria, Fábio Xavier, Flaira Ferro, Almério, Isaar, Isabela Moraes, Mery Lemos, Virginia Guimarães, Joana Terra, Ezter Liu, Olegário Lucena, Jr. Black, Lirinha entre outros. O álbum carrega o seu nome e é dividido em quatro tempos: “Apontar”, “Us Doidus”, “Ter Sidos” e “Poeira”, que foram divididos com quatro canções cada, denotando sua identidade e autoria, sendo possível ser acessado nas plataformas online de músicas ou ser adquirido em formato físico, o disco, tem um encarte bastante especial, como diz a própria artista. Virginia Guimarães é quem produz esse material gráfico que mais parece uma dança, e conta com vários desenhos da artista, a designer nos concedeu uma pequena entrevista também que segue abaixo. Poeta, artista plástica, desenhista, pintora, compositora, produtora cultural, atriz e cantora, Agda, para além de todos os rótulos que agregam seu percurso, é verbo. Agda é uma ação, um movimento cheio de figuras de linguagem, algo difícil de pegar mas tátil demais para se sentir, como vocês poderão compreender melhor com a entrevista, a seguir: Esse é o seu primeiro álbum, e autointitulado, o que ele fala sobre a Agda e sua trajetória até esse momento? Agda é a primeira e a última coisa de mim. Gosto da distância de uma letra para a água e anda o rio Capibaribe aqui dentro. Comecei a cantar colocando meu irmão Raimon pra dormir quando era criança, acho que foi ali que começou a ser feito. Me parece ter a ver com um mapa de encontros, entre escolas, feiras, e gente querida que amo e amei viver. Precisamos desbravar juntos a alegria de existir, a inventividade, a bravura, o ir e voltar de nosso povo agreste. Cheio de carregações, interlúdios do cotidiano vindo do pano, do tecido, e pode ser uma carta, um trajeto de encontros, entregando algo que fui talvez num poema, e na cantoria somos acompanhados pela natureza. Esse disco é parte de um movimento acontecendo em mim e onde vivo, agora mesmo e desde criança, através do chocalho (espaço cultural pensado por Agda, para produções artísticas em Santa Cruz do Capibaribe), das varandas com meus amigos e a base mais (estúdio criativo de arte e design também de Santa Cruz do Capibaribe, gerido por Marcelo Taubert, seu produtor), tem também as costureiras e pessoas arteiras, mototáxistas, árvores, feiras e olhos humanos trazendo motivos de vida, virados em canção. Acreditei inteiramente na palavra, ao entrar numa biblioteca e me sentir voltada a mundos encontrados nas prateleiras e perto dessa época entender também que a rua e as mesas de poesia são como uma grande escola. Pude perceber fronteiras que dizem sobre o que nos tornamos ao atravessar a realidade, a arte, as rádios, os antigos e novos saberes, até onde nos é dado praças e sementes. Respeitar o que se torna o tempo quando a gente sente, perto e longe do que acreditamos. Então o disco pode ser como um bilhete que vem de uma carta que não para de ser escrita, e que sobe e desce a serra vermelha e volta pra rua grande, em frente a tua casa Jones, te chamando na beira do rio *risos* (Jones é um dos codinomes que Agda adora criar e colocar nos amigos/amores, e essa casa, que atualmente moro, tem uma janela onde é possível ver e conversar com o rio Capibaribe). São 4 tempos, de um sítio, só e conjunto, girando dentro do meu juízo. Como foi o processo criativo do álbum? Criar deve ser o estado mais perto do grito mudo. Letras, tintas, máquinas e aspiração a nosso favor, desembocar em uma obra é como intervir e ser interferido ao mesmo tempo. Um nó de cada vez fez minha cidade, o retalho alinhado a outro fez a colcha, a bandeira, fez o traço na identidade de um lugar que recebe o Brasil e seca no sol de cada varal brasileiro. Então venho da situação de crescer dentro da feira como minha mãe, vó, bisavó e trisavó… ao mesmo tempo venho de cantorias no Cariri paraibano, donde venho dos poetas repentistas e de algumas gerações de Zé de Cazuza, meu avô. Foram 5 anos montando um percurso sonoro, arrudiados com Julians (Juliano Holanda), Mery Lemos sua companheira e outras pessoas queridas que estenderam a poesia de inventar o registro permanente. Acredito no improviso como ímpeto humano luminoso, tive dificuldade de visualizar algo que durasse além do que pudesse ser esquecido após acontecer, mas ao aceitar o processo, fui descobrindo sobre a região, a arte e principalmente sobre nossas capacidades sensíveis, sobre as abelhas que beijam jasmins em Recife e que acordam aqui no agreste e lá no sertão, o que somos juntos e singularmente. Fui café com leite várias vezes ao longo da vida, mas sempre feliz por realizar mais devagar e de outras formas as situações propostas a cada medida do tempo, então quatro tempos, de quatro canções, andar pelo meio, foi como… Muitos artistas saem de sua cidade natal, e lançam na capital, porque você foi na contramão disso? Interiorá é uma ideia que anda comigo, anda em meus amigos, adoro acreditar no que a gente é de bom, a arte é manutenção do coração, ajuda a gente a decidir o caráter do futuro, do presente, do passado… conheci crianças de escolas nas zonas rurais de Santa Cruz do Capibaribe, quero dizer que isso me fez perceber que antes, muito antes das coisas grandes, as pequenas e mais simples coisas nos fazem. Geralmente precisamos do mínimo pra nos apontar, flechas de todas as direções, andar interiorante me diz: Vai!! Pra os que sabem ir assim, sabemos ir e voltar, e ficamos aqui por escolher lhe amar!! Essa terra!! Uma hora será preciso aprender a necessidade de não sujar o rio para tê-lo lavando o jeans. Será preciso entender e colher do que todos nós fazemos o rio ser, onde vivem as capivaras, como elas sabem da terra além e muito depois de todos nós, bem como antes, bem antes… vamos entender como chegar ao princípio, a origem das emoções que nos são. Imagino que venhamos do mangaio, da fartura, da pouca matéria e muitas formas de inventar e sobreviver. Vou muito satisfeita nos menores lugares, eles guardam o que avisaremos ainda, do que saberemos. Ainda vamos andar adentro, desbravar miragens e paisagens perto do que estava longe. Observamos que seu álbum tem participação de diversos artistas da região e locais como Fábio Xavier, Olegario Lucena, Isabella Morais, Lirinha, Virgínia Guimarães. Qual o significado que essas participações têm pra você e como essas colaborações foram feitas? A poesia continua em cada parte de um caminho, alguns, e todos nós levamos juntos o interior de cada capital que ao redor é muito maior, é um espaço grande demais para criação e possibilidade. Encontrar essas pessoas queridas é como abraçar cada pedaço da terra do que somos, o sonho que é em nós, juntar verso é avivar o encontro, a disposição inspirativa, o motivo maior, como caminhar e abraçar artistas que trazem a fruta do imaginário. Queremos continuar, encerrar e levantar ideias. Estamos percebendo juntos como fazer isso? Sim, interligando, aprendendo. O trânsito é uma força do povo da gente. Agda, esse álbum tem várias peculiaridades que fogem desse caminho habitual sonoro que outros artistas fazem, como a inserção de um áudio para um amigo, a presença de uma passagem sonora falada com ruídos e atravessamentos, me fala um pouco do que isso representa para você. A minha trisavó chamava Maria Serrote, ela cortou o mato de uma trilha onde as crianças passavam pra ir à escola, é a partir disso que confio no que a dor e a alegria oferecida desbravam no vivido. Então, o verso livre vem como corredor, atalhos inventados para validar o sentimento acontecido em quem acorda ao inerente modo; a curva, ao paralelo, o contrário modo, o abismo entre o pavão e a pena. Estou aprendendo a ouvir e dizer, criarei o meio dizendo livremente memórias, o ocorrido, a ida, a volta, vamos dizer… A metáfora e a sensibilidade com as palavras são um dos pontos encantadores do teu disco, como no trecho da música A curva de miroucha: “piso na sombra da gameleira, piso na feira, sulanca, mangaio, retalho, couro e algodão”, ao tempo em que o sensível nos invade por meio dessas palavras, teu disco é também composto de muitas denúncias, onde tu enche/preenche teu bisaco de poesias, e você enxerga esse disco como uma ação política? Cada música tem um desenho, um estudo de cores… dedico às pessoas que mudaram e atribuíram a multiplicidade da vida, o gosto pela arte e o sabor das frutas. Vejo estas canções como um conjunto de sons que andou comigo, para andar ainda e talvez, por isso, passageiras, seja isso um dos vínculos que essa feitura atenta, por onde escolhemos passar e ser, como vamos e voltamos. Estas canções vieram, principalmente, de experimentações humanas acontecidas em: escolas públicas, feiras, praças e a varanda da casa de minha mãe...também o teto da casa de Flau (Marcelo Taubert), o quintal onde cresceu Ofélia (nome da gameleira que brotou do concreto na casa em que Agda morou), o café com Anita, a palmeira do sítio São Francisco, o pé de umbu e as gameleiras da Rua Grande... Creio que ouvir, e dizer, seja parte do maior ato político global que atravessamos, estamos na busca de entender como participar desse giro, alargando as possibilidades artísticas e a valoração ao ser humano em sua existência. As práticas que nos fortalecem, e criam impulsos de saberes contínuos. A poesia e as palavras são ferramentas que tocam no mais sensível tangido pela memória. Estamos no meio de bandeiras invisíveis e reais, levo algumas com outras e vejo o mover acontecer, o êxodo urbano, a feira… Como viver essas pessoas e o rio, o que faremos com essa situação é o nosso ato político. Nascida no sertão Pernambucano, a estudante de design Virgínia Guimarães, participou do concebimento do disco "Agda". Virgínia experimenta as artes visuais, sonoras e o design em projetos pessoais no estúdio de arte e design Base/Mais, no Chocalho, coletivo de arte e educação e no laboratório de audiovisual Punctum Filmes, este, fundado com amigos em 2017. No disco realizou o design do encarte e teve participação na canção intitulada “O Cigano” com outros nomes como Ezter Liu, Mery Lemos, Miriam Juvino, Numa Ciro e Paula Tesser. Virgínia também participou da produção do disco juntamente com Marcelo Taubert. Em entrevista, nos conta um pouco de sua veia artística e de sua participação no disco "Agda". Primeiro eu queria que você falasse sobre você, dessa tua veia artística, como você se vê, quem é Virgínia? Eu sou estudante de design e estou me formando na Universidade Federal de Caruaru e artista desde família, dos pais. Então essa veia artística que também permeia a cidade, a costura também, que é uma arte. Então crescer nessa cidade também me transformou numa artista, me levou por esse caminho, no caminho das artes visuais e das artes sonoras e também do audiovisual, do cinema, da fotografia. Então, são muitas áreas aí que a gente se alarga, então também na produção e do design, enfim, para além. E você também faz parte da Punctum, não é? Me conta, como surgiu a Punctum Filmes? Surgiu em 2017, concomitantemente, quando nasceu o primeiro filme, Palestina Brasil. A Punctum nasceu com ele, que foi uma ideia da minha mãe, que é agente de saúde comunitária, que queria que a gente fizesse um filme sobre algumas pessoas do bairro. Então a gente se uniu, né? Amigos que também sabem de fotografia, um pouco de produção, um pouco de jornalismo, então se juntou para realizar, né? Porque se não tem a gente, a gente tem que fazer, sabe? E aí a gente deu nome a isso, né? Então é isso. E desde então a gente vem fazendo algumas produções. O primeiro filme foi Palestina Brasil, que é um documentário e a gente já fez outras coisas também, mais experimentais, animação, ficção e sempre também trazendo questões da cidade, da nossa região, sabe? E surgiu em 2017 e desde então a gente está produzindo. Em relação ao trabalho agora com Agda no disco, eu vi que você realizou a produção do design do encarte, como foi essa tua experiência? Foi o meu primeiro projeto assim de disco. Nunca havia feito e foi um grande desafio e que foi um grande mergulho também, com ela e comigo e com todos nós, porque não foi construído só por mim, foi construído também com ela e com todos. Foi uma experiência transformadora descobrir também como aplicar artisticamente no design uma coisa tão profunda que diz também sobre mim, porque o disco também fala muito sobre a cidade. Como é que você vai contar em imagens todas essas cores, todos esses sabores que é Agda também, sabe? E que é a gente também. Achei muito bom e muito transformador e muito feliz de que eu seja daqui, que ela tenha me convidado, que ela seja daqui, então, pra gente tentar traduzir em imagens, em design. E toda essa história que é parte da gente também. Como você enxerga a representatividade cultural aqui de Santa Cruz? Do que que a gente realmente precisa para esse fortalecimento e essa movimentação cultural aqui na cidade? Engraçado, você fala do movimento, né? O movimento existe enquanto ele está acontecendo, né? E acredito que a cidade é cheia de artistas, cheia de trabalhadores, de costureiras, de vendedores, de imigrantes, de gente que mexe com teatro, de gente que mexe com música, gente atenta ao mundo, gente sensível, Poetas aqui na nossa cidade existem, mas a gente precisa que o movimento se engate, né? E de onde ele vem também, né? De várias e várias frentes, políticas públicas. Toda essa história que a gente já conhece e que é necessária a difusão, apoio dos órgãos públicos. Porque tem muito artista aqui, muita gente sensível. Eu vejo uma cidade muito potente nesse sentido. Temos a Novo Século, que é a primeira banda, a banda mais antiga da cidade, né? A cidade tem 70 e poucos anos de emancipação, a Novo Século tem mais de 120. Uma coisa que vem antes desse nome. Uma terra que antes de ser Santa Cruz, era o nome indígena Tapera, nome de riacho, que é o riacho onde eu nadei quando eu era criança. Então isso é muito importante, né? Por isso que eu não deixo que chamem a cidade bolsonarista, sabe? A diferença de votos foi muito pouca. Aqui tem muita gente trabalhadora, sabe? É isso, muita gente artista. Teresa Benassi - artista nascida em Pernambuco. Uso da imagem permitido apenas para fins não comerciais e com o devido crédito da autoria. Mais informações: teresabenassi1@gmail.com

  • Tatuagem: Liberdade e Democracia

    Vídeo Ensaio produzido por Renan Oliveira O vídeo ensaio vai mostrar Carlos Marighella, político e guerrilheiro contra a ditadura militar e Clécio Wanderley, personagem do filme Tatuagem do diretor pernambucano, Hilton Lacerda, mas afinal o que essas duas figuras tem em comum? Os dois lutam pelo mesmo ideal de liberdade e democracia, mas só tem uma coisa que diferencia um ao outro, a forma de lutar. Em uma época onde não se podia mais falar em revolta armada a única arma contra a opressão é o deboche. O ano era 1978 ano de terror de estado. A ditadura militar no Brasil estava na sua fase mais opressora, fase essa que censurava qualquer tipo de manifestação política ou artística, indo contra a liberdade de expressão. Mas afinal o que diabo é liberdade? E democracia? Democracia é liberdade? Democracia tem símbolo? Este vídeo ensaio traz uma reflexão sobre liberdade com uma pitada de deboche. Link para acesso: https://youtu.be/COtc9wjdQEc

  • O Peso do Ser

    Texto por Thiago Muniz A ideia para o filme surgiu um certo dia, quando eu passava de carro por uma rua de Caruaru, e presenciei uma cena atípica. Um cavalo raquítico estancou, logo após isso, um homem desceu da carroça, e o espancou incansavelmente, em pleno movimento do tráfego. Ao me deparar com aquela cena, logo me veio à mente duas coisas: a primeira foi a história de Nietzsche – que enlouqueceu na cidade de Turim após presenciar uma cena parecida. E a segunda foi o filme “O Cavalo de Turim (2011)” . Nesse filme, o diretor húngaro Bela Tarr, cria uma história baseada no que aconteceu com o “cavalo de Nietzsche”, depois do famoso acontecimento. Nesse contexto, essas referências surgiram pra mim como um grande ponto de partida, iniciei assim uma busca por esse carroceiro, cuja personalidade e vida foi se formando pra mim durante toda a realização do filme. A ideia da unidade fílmica do curta “O Peso do Ser”, é apresentar a vida de um homem que vive em um mundo de contradições, e que não consegue se encaixar em nenhum lado do grande embate entre o moderno e o arcaico, entre a ordem e o caos. A personagem Ana, esposa do personagem Jorge, surge como uma figura que simboliza a bussola norteadora, o contrapeso na balança que procura dar estabilidade a esse homem atribulado. Esse personagem representa uma parte da população do Agreste Pernambucano, pertencente a uma classe social baixa. Essas pessoas, possuem raízes e estilo de vida arcaico, mas vivem em um mundo de abundância de objetos e constante consumo. Nesse contexto, o objetivo do filme não é trazer respostas prontas sobre esses problemas, mas sim para levantar reflexões como: “Somos determinados por nossas raízes? Somos reféns da nossa condição, ou das nossas próprias ambições? Qual é a vida boa; aquela que se ganha mais, consome mais e deseja mais, ou aquela que se vive buscando os prazeres das pequenas coisas? Além disso, sigo a filosofia de que um bom filme não é composto apenas pelo que se diz; mas sim pela simbiose do que se diz, alinhado a como se diz, formando assim uma unidade cinematográfica coerente. Nesse sentido, a proposta estética é trabalhar com extremos, com o intuito de representar esse conflito interno e externo através das imagens. Não existe cinema sem a captação dos acontecimentos através do meio técnico. Sendo assim, sigo a filosofia de que é papel do diretor conhecer as particularidades técnicas do cinema pra encontrar a melhor forma de favorecer a história. Nesse sentido, elaborei uma decupagem pautada pelo rigor formal, constituída de planos mais longos, movimentos sutis de pan, tilt e travelling. Porém, mesmo sendo completamente decupado, também utilizei cenas com câmera na mão, para intensificar os momentos onde os demônios interiores do personagem, escapam para a superfície de forma mais clara. Além disso, como dizia o cineasta Andrei Tarkovski, fazer um filme é como esculpir o tempo. E fazer isso só é possível através da montagem, que é a parte onde organizamos as cenas e encontramos o ritmo ideal. Sendo assim, nesse curta-metragem, optei pelo uso de uma montagem narrativa – aquela que conta uma história e transmite seu sentimento. Utilizei planos mais longos e poucos cortes, com intuito de explorar a capacidade realística da mise-en-scène, as possibilidades do espaço e a percepção do tempo dos habitantes que vivem em cidades do interior de Pernambuco. Por fim, temos a música. Não enxergo a música como um elemento secundário que tá lá só pra aumentar a tensão ou salvar alguma cena que não deu certo, como fazem muitos diretores. Não. Pra mim, a música é algo extremamente importante, um elemento capaz de elevar a níveis extremos, ou até mesmo arruinar o sentimento de uma cena. Nesse sentido, utilizei o recurso da música como um elemento vital do personagem. No sistema formal do filme, ela aparece em seus momentos de vulnerabilidade em dois momentos chave: Quando Jorge afaga o jumento após espancá-lo, como se fosse um pedido de desculpas. E na última cena, quando ele desmorona nos braços da mulher. A cantiga de ninar que Ana canta nessa cena, funciona como uma espécie de “afago primordial”. Nesse fim, encontramos Jorge desnudo, desnascendo, massacrado por todo o peso do seu ser, enquanto Ana representa toda a bondade e sacrifício no seio dessa agonia.

  • Ruminante Sem Rumo

    Crítica por Leandro Ferreira Em tempos inoportunos, a cronologia dos fatos nos antecipa a ansiedade que recai sobre as datas icônicas; é dentre os incômodos e ânsias insaciáveis que retomam-se as narrativas do interior. Em Animal Político, a impossibilidade de escapar das inquietações localizadas no incontrolável futuro tensionam as estruturas do ser e proporcionam uma imersão nas vicissitudes compositoras de suas urgências. A partir do recorte de uma personagem atípica, o diretor Tião permite ao público a identificação com o anômalo, cuja manifestação se desdobra ao animal: por intermédio da vaca que vaga pelas trincheiras do pensar em vagarosos passos, somos transportados para uma intervenção de realismo mágico no tédio pujante das banalidades da vida. Representante da natureza bucólica, reside nesse bicho uma procura infinda, adormecida, por sua própria natureza. Embora a conjunção que resguarda os entrelaces entre a dimensão que tangencia os anseios instintivos mais primários, o desejo pelo contato com as potências do eu se desdobram por intermédio da figura do bovino de potências domesticadas. É por e através dessa figura que nos deparamos com questões tão próprias, enquanto partícipes da condição de feras domadas, amansadas pela rotina irremediável entre afazeres metódicos e diversões mecânicas. O solitário trajeto percorre por um caminho construído tão somente pelas próprias pegadas já traçadas pelos cascos dessa eremita, a circularidade da rotina ordinária se remonta mesmo na peregrinação. O aspecto cíclico dessa odisseia em busca de sentido e significado para além do ócio das efemeridades se remonta enquanto possibilidade de ressignificação dos caminhos percorridos, é entre o flanar desatento e a fluidez dos devaneios que percorremos o íntimo dessas questões cujas reflexões promovem a identificação instantânea. Perpassando outra esfera, nos deparamos com A pequena caucasiana, uma jovem mulher humana, herdeira da fortuna decadente dos engenhos de cana-de-açúcar, essa personagem encontra refúgio ao longe das ilhas de calor presentes nos grandes centros urbanos, disposta em sua própria ilha de solipsismo, rodeada somente por água salgada. Cerceada pelas estruturas de seus castelos imaginários e as ruínas reais de um sistema decadente de manutenção do lucro proveniente dos espólios do escravagismo, essa emblemática personagem carrega consigo a convenção pela ausência das subjetividades dos sujeitos, expressa mediante seu encontro com as normas objetivas da ABNT, redutoras da experiência do indivíduo ao que pode ser classificado em suas diretrizes. Entre similaridades e dessemelhanças prostradas por intermédio dessas misteriosas personagens que se desvelam em confluência com seus isolamentos, se cria uma lacuna, seriam estas antagônicas ou complementares? As provocações trazidas pelo filme contrastam e aproximam suas distinções, deixando ao público o exercício do senso crítico para diferenciar tais criaturas. As incertezas compartilhadas entre quadrúpedes e bípedes são catalisadas por uma estrutura narrativa ambivalente, cujo caráter aproxima e repele esses mamíferos e suas particularidades expressas entre os coeficientes racionais e instintivos do pensar. Ao final da jornada de nossa protagonista, é possível observar o flerte com as teorias evolucionistas, expresso mediante a figura do monolito transportado da obra de Stanley Kubrick, ressignificado enquanto objeto de contemplação, e não um essencial potencializador de mudança. Esse artefato externo se demarca no espaço que atravessa a formação identitária de nossa personagem, tendo em vista que a transformação imanente ao percurso da vaca integra um processo de emanação de suas possibilidades internas, advinda das capacidades do ego e de seu contexto. A exteriorização de suas particularidades fundamentais se manifesta através dos gestos de contentamento com a realidade objetiva, em um movimento de acolhimento de suas necessidades mais humanas e mundanas, nossa personagem trafega com duas pernas o caminho trilhado de volta à sociedade. A ficção de Animal Político versa diretamente com a ampla gama de sentimentos provenientes dos dias inescapáveis, expressos entre datas: as memoráveis, nos quais a iconoclasta se apresenta impensável, ou no denso cotidiano e sua repetição incessante. Na data que escrevo, nos aproximamos de uma efeméride: a lenta marcha ao segundo turno de uma eleição presidencial capaz de reconfigurar as noções penetrantes do cerne das angústias da população. Cercados pelo fluxo indomável das notícias catalisadoras da biografia da nossa barbárie, e o ecoar do berrante que direciona o gado, tal qual as trombetas anunciadoras do apocalipse. é necessário manter a firmeza dos passos constantes que nos encaminharam, outrora, às épocas de vacas gordas. Na condição de animais políticos, devemos rumar contra os avanços dos sujeitos cujos objetivos prezam pelo abate de nossas pluralidades.

  • Jornada de Mc’s: fortalecendo a resistência e a representatividade das periferias de Pernambuco

    Indicação por Niny Nascimento Evento da cultura do hip hop reúne artistas diferentes, mas que possuem narrativas que se encontram Uma cultura inerentemente periférica, negra e de influência afro-diaspórica. Mesmo possuindo quatro elementos muito conhecido e difundidos pela mídia (o grafite, o MC, o DJ e o breaking) a cultura do hip hop se multiplica e ressignifica seus incontáveis signos a cada dia, tornando-se difícil definir-se em uma fórmula única. Quem observa ou até mesmo analisa o movimento não dando atenção ao seu caráter social, desconhece a sua história, ou melhor, a história de cada indivíduo que compõe todos os dias essa cultura, fortalecendo, educando, fazendo arte, resistindo. A importância de dar o protagonismo aos próprios participantes dessa cultura se dá por meio do encontro dessas narrativas, das semelhanças e vivências pautadas na luta pelo reconhecimento e valorização das periferias. Essa observação se aflorou a partir do evento Jornada de MCs, realizado pela quarta vez no 30º FIG (Festival de Inverno de Garanhuns), em julho de 2022. Através de entrevista com o próprio fundador do projeto, DJ Big e também com pessoas que estavam na organização ou participando das competições e apresentações do evento, foi possível traçar linhas de encontro coletivo partindo de cada experiência individual. Jornada de MCs e a sua Representatividade O Jornada de MCs nasceu em 2005 no palco da Terça Negra, evento voltado para a difusão e visibilidade das culturas afro no Pátio de São Pedro, no bairro do Santo Amaro em Recife. Com o passar dos anos, o projeto se fortaleceu como um festival, dando oportunidade para diversos artistas de Pernambuco e também realizando oficinas e competições. Em 2017, em parceria com a Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE), conquistou espaço oficialmente no FIG. O Festival de Inverno de Garanhuns foi realizado pela primeira vez em 1991 e hoje reúne diversas vertentes artísticas como música, teatro, artesanato e literatura. Um evento como o Jornada acontecendo dentro de outro festival como o FIG, que recebe pessoas de todo estado, é o primeiro ponto interessante a se observar. Movimentos e projetos que nascem dentro das periferias geralmente são invisibilizados, justamente por vir de um local marginalizado pela sociedade e esquecido pelo Estado. Questionado sobre o que representa um evento do hip hop acontecendo dentro do FIG, DJ Big comenta: “Pra mim representa a vida, mas também representa a luta. Não tem como desvincular uma coisa da outra porque, quando a execução do projeto tá acontecendo, a gente vê vida, mas, antes de ela acontecer, a gente tem a luta. O grande problema é a dificuldade de as pessoas entenderem que esse projeto, essa cultura, além de salvar vidas, mostra outros horizontes pra galera começar a focar. Seja na música, seja na literatura. Enfim, coisas que desenvolvem a mente do jovem”. Zé Brown, integrante da renomada e pioneira Faces do Subúrbio foi um dos artistas a se apresentar no festival. Para ele olhar para trás e ver tudo que o movimento conquistou, se tornar uma modalidade olímpica por exemplo, é muito importante. Além disso, existir um evento como o Jornada dentro do FIG, é enxergar a possibilidade das pessoas conhecerem a cultura, participar e até mesmo desconstruir seus pensamentos equivocados em relação ao movimento. “É sempre bom dar continuidade ao que traz um rendimento importante, ao que dá um olhar para o futuro, respeito e compreensão do que é a cultura. A gente sofria muita repressão da polícia, discriminação, preconceito das pessoas que falavam que isso era coisa de marginal. Tô aqui em Garanhuns mais uma vez, pisando nesse tapete e parabenizando todo mundo, que está curtindo e produzindo esse festival.” A arte resistindo nas periferias Se o que é das ruas e do povo preto é considerado inferior e não recebe o olhar que realmente merece, a valorização vem de dentro das próprias periferias. Algumas pessoas entrevistadas relataram que conheceram a cultura através de algum projeto dentro da sua comunidade. DJ Big citou que trabalhou com o Grupo Pé no Chão durantes anos. A ONG Pé no Chão é um projeto urbano e arte educador voltado para crianças e adolescentes. DJ Ronny, artista de 27 anos da comunidade do Arruda, Recife, também conheceu a cultura através da ONG. A cantora e compositora Nanny Nagô é de Jaboatão dos Guararapes e foi uma das artistas a se apresentar no Jornada. Nagô consumia rap junto com a sua família desde criança, mas passou a integrar a cultura de forma mais intensa quando conheceu o movimento CSA, no Cabo de Santo Agostinho. Conhecer o hip hop por meio desse tipo de projetos de propagação da cultura também é frequente na narrativa dos participantes. Alguns movimentos são mais naturais, como o ato de assistir vídeos de breaking e depois passar a se reunir com os colegas nas ruas para treinar e estudar essa dança. Foi o caso do dançarino Akira Soul, de 27 anos. O hip hop se popularizou nos Estados Unidos na década de 70 e foi chegando aos poucos no Brasil a partir da década de 80. Nos anos 2000 ainda não existiam muitos conteúdos sobre a cultura como existem hoje, principalmente na internet. O que contribuiu bastante para a difusão do movimento no Brasil foi essa curiosidade aflorada através dos poucos vídeos e filmes que chegavam aqui. Okado do Canal, apresentador da batalha de breaking do Jornada, hoje investe na carreira de MC e ator, mas iniciou na dança depois de assistir uma reportagem sobre a morte de Sabotage, um dos principais rappers brasileiros. Ficou curioso e começou a ouvir sobre a cultura dentro da sua comunidade, a favela do Canal em Recife, até chegar nos encontros de breaking que aconteciam na época. Esse ato de consumir vídeos que chegavam de fora do país e começar a procurar conhecimento sobre algo novo também pode se caracterizar como um processo de resistência, visto que essas pessoas se desdobravam para entender e apreciar uma cultura mesmo sem ter acesso direto a ela inicialmente. O hip hop vence até a falta de acesso. A importância da cultura O fruto de locais que vivem à margem da sociedade e esquecidos pelo Estado muitas vezes é a criminalidade. Como o próprio DJ Big comentou, o hip hop traz a possibilidade de os jovens da periferia se ocuparem com a arte e investirem em outros caminhos, rompendo estereótipos de “quem nasce na quebrada, não serve pra nada”. Para a rapper Nanny Nagô, a cultura é uma possibilidade da periferia não se limitar mais em algo único, além de incentivá-la a se descontruir. “Não tem como você cantar uma coisa e viver outra. O hip hop me ajudou muito com a minha construção de caráter. Se eu quero abrir mentes, eu tenho que construir primeiro a minha, tá ligado?”. Okado do Canal conta que, infelizmente, alguns dos seus amigos que não tiveram contato com a arte hoje estão mortos, presos ou são dependentes químicos. O cantor diz que essa cultura contribuiu para que ele tivesse contato com pessoas conscientes que o ajudasse a salvar a sua vida. O MC conta que teve uma época sombria em sua vida, chegou a fazer algumas coisas erradas, mas que hip hop o abraçou, acolheu e o trouxe de volta. Ele também comenta que hoje aproveita a oportunidade de conquistar o mundo e passar as suas experiências para os jovens e adolescentes da sua comunidade que o tem como referência. Okado completa dizendo que a mídia geralmente vai para as periferias apenas para retratar morte e violência, mas que a cultura do hip hop vem justamente para romper essa perspectiva. A cantora de Jaboatão dos Guararapes MC Agô, que também se apresentou no Jornada de MCs, conta que embora a polícia sempre faça abordagens nos eventos de hip hop dentro das favelas, o movimento traz a possibilidade de fazer protestos sem que haja um silenciamento efetivo. Além disso, ela também acredita que o movimento traz diversos benefícios para as comunidades trazendo consciência e a possibilidade de ter a arte como fonte de renda. Por fim, ressalta que diversos artistas que estão no topo hoje vieram de periferias. Negrita, atriz e rapper, moradora da cidade de Carpina e uma das apresentadoras no Jornada, diz que a importância da cultura se dá por meio do grito de liberdade expressado por meio dos quatro elementos (grafite, Dj, MC e breaking) e que a resistência do movimento dentro das periferias significa uma representatividade grande. Um dos jurados da batalha de breaking do Jornada, o artista Thiago Cabral, mais conhecido como Takeone, não sabe onde estaria se não fosse o hip hop. O dançarino de Camaragibe acredita que a cultura seja uma forma se ressocialização e conta que de onde veio é comum familiares e amigos se envolverem com a criminalidade, mas que a arte o livrou desse meio. “Quando você conhece a dança, o breaking, você vicia, você foca e só tem olhos pra ele. O hip hop vem pra te dar um propósito. Ele simboliza tudo isso, os quatro elementos: paz, união, amor e diversão.”

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