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- Fabriquetas de jeans e sonhos
A rememoração das lembranças de infância do diretor Marcelo Gomes é contraposta à atualidade do espaço e suas necessidades em “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”. É possível avistar uma cidade que parte da ruralidade em direção a industrialização improvisada, um aceno às grandes produções e fábricas que se guliverizam em quintais e garagens, e remetem, de maneira inconsciente, às dimensões da capital do jeans. O processo pelo qual a agricultura e pecuária em Toritama dão vazão à formação de uma indústria é explorado a partir da voz de seus habitantes, intimamente relacionados a esse fenômeno. Essa massa de trabalhadores, que abandonaram o silêncio que era interrompido tão somente pelo barulho dos animais e das ferramentas em contato com o solo em troca do zumbido incessante das máquinas de costura, tem seus anseios expostos a partir dos discursos que se misturam ao som de maquinários de trabalho e sobrevivência. É nesse ambiente caótico de intercessão entre sons estridentes, que cessam somente em momentos de descanso, que se ambienta a narrativa traçada no documentário. A ilusão da autonomia trazida pelas máquinas, que em um primeiro momento substituem animais, e que podem, eventualmente, substituir as pessoas inseridas nessa cadeia produtiva, é o principal fator de reforço às experiências dos trabalhadores da cidade. Explorados na produção de jeans, essas pessoas, sem perspectiva de crescimento fora desse eixo, se empoderam pelo lucro trazido do trabalho contínuo, rotineiro, que reincide em seus cotidianos os movimentos de repetição traçados pelas mãos que costuram pequenas partes integrantes do jeans. Um bolso, uma braguilha e um dia de vida se tecem da mesma maneira: repetição com maior velocidade, seja para que a produção gere mais lucro ou para que a vida passe mais rápido até o seu próximo momento de encanto. O encanto promovido pelo lazer não pode ser encontrado nessa cidade, o ofício é a força motriz desse espaço. Não há restaurantes, bares, piscinas, a vivência é contida dentro das casas, seja nos momentos de trabalho, descanso ou lazer. O lar passa a comportar todas as possibilidades dessas existências. O êxtase que irrompe a existência estática dessa população é encontrado no carnaval, o hedonismo desse feriado é a oportunidade de extravasar as pressões do cotidiano. Esse movimento de desprendimento ao trabalho se manifesta de maneiras múltiplas, há quem venda seus eletrodomésticos, meios de transportes ou faça empréstimos para aproveitar essa data. O que pode caracterizar um protesto à exploração sofrida diariamente, além de renovar os ares daquela cidade, é a preparação que abre alas para as tentativas de recuperar a vida não vivida em 361 dias do calendário, que são possibilitadas até a data limite da quarta-feira de cinzas. O refúgio para distante do barulho das máquinas de costura dá espaço ao ruído branco da cor da espuma das ondas do mar que se dissolvem na areia. Na praia o único som metálico é oriundo das fanfarras que transitam pela cidade. Dentre as cenas filmadas nesse segmento do filme, se destacam as que relatam o descanso em seu silêncio. Cortadas apenas pelos diálogos, ou suas tentativas, que estão banhadas em metalinguagem, falam sobre o próprio descanso, o balançar da rede e o simples fato de deitar-se é assunto de suma importância. O retorno para Toritama ao final das curtas férias é marcado por uma chuva costumeira, se em outras ocasiões esse momento representava o início da temporada mais propícia para as plantações, agora sua simbologia não ultrapassa a de um fato vazio. Não existe tempo conveniente para o jeans, e por mais que as pessoas inseridas nesse ciclo de fabricação sintam-se donas de suas forças de trabalho e também de seus tempos, naturalmente esse aspecto se padroniza: dormir 6 horas diárias e trabalhar o resto do dia com pequenas pausas destinadas às suas necessidades mais básicas, que se puderem, devem ser realizadas na mesma cadeira na qual passam a maior parte de suas horas. “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” intui a possibilidade de aproximação das maneiras de exploração de um povo em prol da manutenção de um sistema econômico e nos aproxima da realidade do polo têxtil do agreste em seus aspectos menos aprazíveis. Ele investiga as maneiras como um tecido de cor azul, composto de trama e urdume, se impõe sobre as tramas das vidas de quem o confecciona. Ao final das 1h25 de filme o silêncio da minha sala, impossível de existir em um dia comum de Toritama, em contraste à tela preta, me traz o questionamento: quantas peças de roupa foram produzidas durante esse curto espaço de tempo? A obra de Marcelo Gomes está disponível na Netflix. Ficha técnica: Direção e Roteiro: Marcelo Gomes Produtoras: Carnaval Filmes, Rec Produtores Associados, Misti Filmes. Direção de Fotografia: Pedro Andrade Produtores: João Vieira Jr., Nara Aragão Coprodutores: Chico Ribeiro, Ofir Figuereido, Ernesto Soto, Marcelo Gomes Produção executiva: João Vieira Jr., Ernesto Soto Montagem: Karen Harley Som: Pedro Moreira, João Lucas, Lucas Caminha Música: O Grivo Direção de Produção: Karina Nobre, Luna Gomides Assistência de Montagem: Gustavo Campos Personagens: Leonardo, Francielly, Canário, Velho do Ouro Texto por: Leandro (colaborador da SPIA)
- O Mal Estar na Taberna Minhota
O indivíduo liquidado em EX Mágico, curta Olimpio Costa e Mauricio Nunes. Texto por Lucas dos Santos Silva. O ex Mágico é um personagem que caminha pesadamente, parece carregar um peso nas costas arqueadas; arfando, ele passa apressado pelas ruas e vielas de uma cidade vazia, numa paisagem opressiva de casarões abandonados. Parece fugir de alguma coisa misteriosa enquanto sente cansado o peso angustiante do mundo que o cerca. A animação de Olímpio Costa e Mauricio Nunes é uma adaptação do conto homônimo de Murilo Rubião, que narra a trajetória de um homem que possui um dom compulsório de fazer mágica. O personagem é constantemente atormentado por truques de mágica que brotam ao seu redor contra a sua vontade. Depois de algum tempo trabalhando no circo ele começa a tentar o suicídio mas sem obter sucesso, pois a mágica acaba por salva-lo da morte em todas as ocasiões. Frustrado ele decide se tornar funcionário público após ouvir de um estranho que isso seria como “suicidar-se lentamente”. Durante os 11 minutos de um thriller com elementos surrealistas, que mistura influências de David Lynch com animação americana dos anos 90, a adaptação narra o dia a dia do Ex Mágico na sua rotina monótona de funcionário público em que um homem de meia idade confronta as dificuldades de lidar com as frustrações e amarguras de sua vida. Os cenários hachurados e realistas, com perspectivas fortes e definidas, de casarões e ruas antigas, desenhados por Ricardo Cavani, dão à produção um ar angustiante, ao mesmo tempo que a animação e os personagens caricaturescos carregam o filme com uma natureza onírica. Essa unidade de polarizações nos transportam para dentro do delírio do protagonista. ”todo homem quando atinge certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche de tédio e de amargura, pois desde criança ele aprende a lidar com os dissabores da vida em um processo lento e gradativo, isso não aconteceu comigo” EX MÁGICO. Direção: Olímpio Costa e Maurício Nunes. Esse processo de conflito constante entre o eu e o mundo exterior, que se apresenta como uma realidade opressora, é comum na literatura de ficção. Autores como Franz Kafka e o próprio Murilo Rubião fizeram desse dilema sua matéria prima da criação, mas além das artes, um dos campos que mais se debruçou sobre o tema foi a psicanálise. Em um dos seus textos mais conhecidos, O Mal Estar da Civilização, Sigmund Freud destaca esse confronto entre o eu e o mundo exterior como uma parte primordial da formação do indivíduo. Esse processo aparece na nossa vida já no nascimento. “O bebê lactante ainda não separa seu Eu de um mundo exterior, como fonte das sensações que lhe sobrevêm. Aprende a fazê-lo aos poucos, em resposta a estímulos diversos”(FREUD, 1930.pág.17), esses estímulos podem aparecer como estímulos de dor e de desprazer. Como uma forma de se proteger, em um princípio que o autor vai chamar de Princípio do Prazer, o indivíduo acaba separando tudo que pode se tornar fonte de experiências desagradáveis como sendo parte de um mundo exterior, distinto do eu. Nesse sentido o eu se torna o ente desejante e o mundo exterior, a realidade, uma barreira para a realização dessas vontades. Na animação Ex Mágico o personagem surge como um ser pleno de desejo, que é ao mesmo tempo preenchido e atormentado por eles. Já no começo ele aparece fugindo de um perseguidor misterioso, em ruas vazias, e se refugia no seu aposento, onde é confrontado por uma miríade de animais selvagens espalhados pelo seu quarto. A magia surge na sua vida como um impulso que o controla, e é reprimido pelo seu entorno. Ao mesmo tempo, desejo e realidade aparecem de forma opressiva para o personagem. Isso porque em determinado nível ele não consegue separar o mundo exterior do seu próprio eu. Sendo assim, a sua realidade opressora se mistura com seus desejos e visse e versa. “No circo, o palco me distanciava das pessoas. Hoje eu sou funcionário público e esse não é o meu desconsolo maior” EX MÁGICO. Direção: Olímpio Costa e Maurício Nunes. Em seus devaneios a realidade é constantemente alterada, em uma visão subjetiva, vemos, através da sua ótica, o papel da sua mesa de trabalho ser preenchido magicamente por seios femininos voluptuosos, enquanto ele comenta sobre seu desejo pela sua vizinha de escritório. Ao mesmo tempo em que assistimos a sua mão se dissolver, somos entrecortados por uma montagem que reforça a monotonia através da repetição constante de cenas. Um dos diretores da animação, Maurício Nunes, destaca a presença dessa ruptura entre o eu e o mundo exterior como um tema relevante tanto na sua adaptação como na obra original de Murilo Rubião, “Uma coisa do conto, que eu sempre fiz essa leitura, é ao fato dele nascer velho; eu dei por mim já velho num espelho de uma taberna. Ele não teve infância, não passou pelas vicissitudes da vida, isso pra mim é nitidamente um processo de ruptura com o racional, ele teve algum problema neurológico que é trazido para o mundo real”. Esse jogo entre realidade e fantasia como um aspecto do delirante foi algo que o diretor Maurício Nunes afirmou ter escolhido trabalhar em sua animação através de um roteiro de ambiguidades, quis dar ao EX Mágico essa natureza de constante incerteza. Como espectador, não sabemos se o protagonista foi sequer um mágico, não temos a resposta concreta do que é real e do que não é, pois nem o personagem tem essas certezas. “Isso foi uma das coisas conscientes, eu não queria deixar claro que foi realidade, suscitar a possibilidade de ele sempre ter sido um funcionário público que entrou em crise, quis uma outra coisa, uma vida artística, mas foi tão reprimido a vida inteira que quando quis aflorar esse outro lado veio como um vulcão”. Esse processo de repressão internalizada, Freud descreve como Mal Estar Civilizatório. Para o autor, a civilização é o que nos afasta da nossa natureza selvagem, é o conjunto de regras implícitas e explícitas que nos permite a convivência social, essas regras nos protege do desejo e das vontades do outro, mas também reprime e nos afasta das nossas próprias vontades. O personagem que nos guia no curta é um sujeito que foi completamente dissolvido por esse Mal Estar Civilizatório, ele é tragado por esse mundo de regras que no filme é representado pela burocracia, no seu ofício de funcionário público. Com a mesma facilidade que as opressões sociais entram em seu eu, o seu desejo se mistura com o mundo a sua volta, gerando uma realidade delirante. “Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia” EX MÁGICO. Direção: Olímpio Costa e Maurício Nunes. Esse delírio patológico faz dele um homem sem forma, que tem o tempo todo sua aparência e seu corpo transfigurado, seja em animais ou em objetos e até figuras disformes. “A patologia nos apresenta um grande número de estados em que a delimitação do Eu ante o mundo externo se torna problemática, ou os limites são traçados incorretamente; casos em que partes do próprio corpo, e componentes da própria vida psíquica, percepções, pensamentos, afetos, nos surgem como alheios e não pertencentes ao Eu; outros, em que se atribui ao mundo externo o que evidentemente surgiu no Eu e deveria ser reconhecido por ele. Logo, também o sentimento do Eu está sujeito a transtornos, e as fronteiras do Eu não são permanentes.” O realizador afirmou em entrevista que não tem familiaridade direta com os textos dos autores de psicanálise, mas que sempre refletiu sobre as relações dos desejos primordiais humanos através de observação e pelo conhecimento direto de outras obras e do seu próprio desejo como homem. Em sua entrevista, ele afirma que muitas das chaves interpretativas da psicanálise foram passadas de forma consciente, mas algumas delas foram inconscientes, como a referência ao desejo do peito materno, além de que a escolha desse tema mais subjetivo na sua obra vem da suas influências de formação no Recife. O diretor do curta Maurício Nunes destacou que a personalidade do seu protagonista foi inspirada em pessoas que conhecia, que passaram por processos parecidos de repressão internalizada e acabaram perdendo seus limites nesse caminho. Além de se inspirar também em pessoas que sempre foram muito livres, fizeram tudo o que quiseram, já que para ele essa liberdade também sufoca, fazendo com que o sujeito se perca no próprio desejo, pois a vida não se resume só ao que o indivíduo deseja, é preciso também que haja um equilíbrio entre o desejo e a realidade. Assista o filme na íntegra:
- A BRODAGEM NO AGRESTE PERNAMBUCANO
Mais do que fazer, a paixão de quem preserva o cinema do Super 8, 16mm e 35mm Jadiel e Edvaldo falam sobre suas paixões pela preservação do cinema. Fotos por João Marcelo. O cinema pernambucano se caracteriza desde os seus primórdios da década de 1920, como movimento de criação coletiva entre amigos. Nesta época o denominado Ciclo do Recife, foi construído através de produções amadoras, onde a equipe de produção e elenco tinham outros ofícios e presente nas relações, a paixão pela sétima arte e aquele tom de “brodagem”, como bem conceitua a escritora e professora Amanda Mansur, na obra A Brodagem no Cinema Pernambucano, (2014). Tal característica se manteve nos movimentos marcantes que sucederam esse período, como a do Ciclo do Super 8, ocorrida entre 1973 e 1983, como também na retomada de produções profissionais pelos idos de 1985, cujo filme o Baile Perfumado desencadeia em grande estilo um leque de grandes sucessos que torna Pernambuco respeitado no cenário nacional e internacional. A mesma paixão de fazer cinema também contagia um outro público que ama preservar. Em duas cidades do agreste pernambucano, pertinho de Caruaru, encontramos dois apaixonados em preservar a história do Super 8, 16mm e 35mm. Em Bezerros, terra do carnaval dos papangus, terra do artista J.Borges, encontramos Edvaldo Mendonça, um servidor público estadual, músico e amante da sétima arte. Um colecionador de filmes, projetores, equipamentos e materiais de cinema. Edvaldo além de colecionador adora exibir para os vizinhos grandes clássicos nacionais e internacionais em sessões animadas na rua onde mora. Se deslocando mais alguns quilômetros, em Toritama, cidade que se intitula a Capital do Jeans do Brasil, tem no cinéfilo Jadiel, um colecionador de câmeras, projetores e materiais de cinema, que tem de cor a história das salas de cinemas de sua cidade e disponibiliza sempre o seu acervo para exibições em festivais e feiras de conhecimentos escolares. Nossa entrevista mergulha nesse universo apaixonante desses dois broders. Por que colecionar projetores, câmeras e demais materiais de cinema? EDVALDO: Para manter viva a sétima arte, o cinema. Através deste material preservamos a memória cinematográfica, assim como funcionam os museus que mantém a memória da humanidade. Além disso, quando mostramos esses equipamentos para às pessoas, estas ficam maravilhadas, como se vissem algo que vem do futuro, enquanto na verdade, estamos "de volta para o passado". JADIEL: Eu coleciono porque meu objetivo é preservar esse material para que as pessoas possam conhecer e entenderem como eram os primórdios do cinema. Conte-nos sobre sua coleção. EDVALDO: Na coleção em Super 8mm, temos 08 projetores (sendo a maioria de marcas japonesas) algumas adquiridas no Brasil e outras no exterior. Possuímos um acervo de mais de 150 filmes, além de carretéis, cartazes e peças para reposição. Na coleção em 16mm, temos 04 projetores, carretéis e mais de 30 filmes. JADIEL: Minha coleção começou no em 2005 na época apenas com um projetor 16mm nacional da marca IEC, hoje entre projetores, filmadoras, pôsteres, documentos e fotos são um total de mais de cem itens. Existe algum item raro, qual o maior achado? EDVALDO: Em Super 8mm possuímos raros filmes, como os de artes marciais, produzidos por uma empresa alemã nos anos 80. Enquanto em 16mm, podemos ver, uma raridade de 1912, que é o 1° filme da Paixão de cristo. Além de um raríssimo filme de minha cidade (Bezerros), que é um documentário de 1938. JADIEL: Um item bastante raro na minha coleção é um projetor Parisiense dos anos 50, trata-se de um equipamento que projeta filmes em 8mm, além disso um equipamento bastante raro de aparecer em sites de vendas e em coleções. Já o meu maior achado foi uma filmadora francesa da marca Pathé baby, essa filmadora utilizava as raríssimas e extintas películas 9.5mm. De onde vem essa paixão? EDVALDO: Essa paixão vem de criança, quando ao entrar pela 1°vez em um cinema, vi um foco de luz vindo do alto em direção à tela; que parecia uma mágica, onde uma luz distante, produzia imagens em movimento... Mas tarde fiquei sabendo, que eram projetores mecânicos com carretéis de fitas, girando numa velocidade sincronizada, de 24 quadros por segundo. Foi na adolescência que consegui adquirir meu primeiro projetor de Super. 8mm e alguns filmes, que com o passar dos anos foram aumentando o acervo. JADIEL: Essa paixão começou na minha adolescência quando eu vi um projetor de filmes que ficava de exposição numa locadora de filmes aqui na minha cidade. Edvaldo conta que o barulho característico do projetor e o movimento de seus carretéis chama atenção nas exibições. Edvaldo, nos conte como é essas exibições de filmes em sua rua. Em várias oportunidades cheguei a reunir a vizinhança em nossa própria rua para algumas exibições públicas de filmes diversos, desde filmes mudos de comédia de Chaplin, que ainda arrancam sonoras risadas do público até os desenhos animados que animam a garotada, mas, observo que o que também chama atenção das pessoas é de fato o barulho característico do projetor e o movimento de seus carretéis. Jadiel sonha em fazer um filme para que as pessoas possam assistir e aprender com o seu trabalho. Jadiel, é verdade que nutre o sonho de dirigir um filme? Já teve experiências com produção de cinema? Sim, tenho um sonho de fazer um filme para que as pessoas possam assistir e aprender alguma coisa com meu trabalho. Já tive uma experiência durante as filmagens do documentário Cine Aurélio aqui na cidade, na época trabalhei na captação do som, produção e pesquisa do filme, as atividades coroaram nossa participação no Curso Doc Lab, atividade formativa patrocinada pelo Curta Taquary. Inclusive o filme tem recebido premiações em festivais. Por fim, vocês mantêm contato com outros colecionadores, e se algum leitor ou colecionador desejar manter contato com vocês como fazer? Jadiel: Faço parte, juntamente com Edvaldo de um grupo de WhatsApp de colecionadores e amantes de cinema, onde postamos fotos e trocamos experiências com outros colecionadores do Brasil inteiro. Para fazer parte desse grupo basta entrar em contato comigo pelo meu telefone: 81 99258-3770. Entrevista realizada por João Marcelo.
- Especial DEVOTOS
Em 1988, no Alto José do Pinho, bairro periférico de Recife, nascia a banda Devotos, umas das principais precursoras do movimento Punk Rock que surgia em Pernambuco. Cannibal (voz e contra-baixo), Neilton Carvalho (guitarra) e Celo Brown (bateria), formadores da banda, estavam imersos em uma realidade cheia de problemas sociais, pobreza e desigualdade. A denúncia dessa realidade veio através do que sabiam fazer melhor: Rock. A Spia preparou 3 conteúdos pra lá de especial que fala um pouco sobre a banda Devotos e o movimento do rock em Pernambuco. Confira: Vídeo Ensaio: Devotos: Mudando a cidade, por Thallyson Silvestre. Relato: Devotos da boa-fé: a fé anarquista!,por Marcus ASBarr. Indicação: A cena do Punk Rock Hardcore em Pernambuco pelos olhos do Devotos, por Hanna Aragão
- Especial A Peleja
A Peleja do Bumba-meu-boi é o primeiro primeiro filme rodado em Caruaru que se tem registro. Lançado há 35 anos, é uma obra que continua dialogando com o presente. No filme os diretores Luiz Loureço e Pedro Araão mostram a realidade dos artesãos e as dificuldades que eles enfrentavam para sobreviver e deixar viva a cultura de Caruaru. ‘A Peleja do bumba-meu boi contra o vampiro do meio-dia” é o nome da lenda. Uma produção independente que mistura o ficcional e o documental, o formato Super-8 e o U-matic trazendo as feridas ainda abertas no tratamento aos artistas do estado. Além do conteúdo produzido, ao final do especial foi disponibilizado por um dia, o curta na íntegra no nosso canal do YouTube. Indicação: Destaque julho 2021: A Peleja do Bumba-meu-boi contra o Vampiro do Meio-dia, por Márcio Correia. Entrevista: 40 anos de uma história que se repete, por Hanna Aragão e Maria Clara Mendes. Relato: Memórias de um Filme Cult Popular, por Luiz Lourenço. Crítica: Um filme histórico e heroico sobre a peleja da cultura popular, por Maria Clara Mendes. Galeria: "A Peleja" pelos olhos de Germano Coelho Filho
- Especial São João 2021
A data do São João é muito significativa para a SPIA e ela não poderia deixar de ser lembrada. Tradição do lugar onde nascemos, resolvemos direcionar o conteúdo da semana junina ao tema. Todo o material produzido é de memória e afetividade. Vídeo Ensaio: São João 2021, por Maria Clara Mendes Relato: Causos e contos: O São João na memória, por Hanna Aragão Indicação: "Ai que saudades que eu sinto das noites de São João", por equipe
- Devotos: Mudando a cidade
Este vídeo ensaio faz parte do especial 'Devotos'. Roteiro e Edição: Thallyson Silvestre. Veja mais: Indicação: A cena do Punk Rock Hardcore em Pernambuco pelos olhos do Devotos Relato: Devotos da boa-fé: a fé anarquista!
- Equipe Spia: "Ai que saudades que eu sinto das noites de São João"
A data de hoje é muito significativa para a SPIA e ela não poderia deixar de ser lembrada. Tradição do lugar onde nascemos, resolvemos direcionar o conteúdo dessa semana apenas para esse dia. Todo o material produzido hoje é de memória e afetividade. Nesse, pedimos para cada membro da equipe rememorar uma foto e uma canção sobre a data. Para nós, lembrar dos bons momentos que passamos nesse mês tão especial é um modo de deixar acesa a “fogueira de São João”. Feliz São João! Ade Queiroz : Pagode Russo, Luiz Gonzaga A gente sabe que São João tem milho e derivados, fogos, roupa xadrez, fogueira, forró, e mais um ano a gente percebe o quão tudo isso faz parte de uma imensidão de elementos, que no final das contas, precisa da união de pessoas para fazer sentido. E pra escolher uma música que representasse meu sentimento junino esse ano, minha memória me levou direto pra Pagode Russo, do rei. Pra mim, ela sintetiza todas as quadrilhas que dancei, todas as fogueiras em que me esquentei e assei milho, e todas as pessoas que viveram esses momentos comigo. Não individualmente, mas, sim, as aglomerações. Tem sonho, tem dança, tem boate, tem cai não cai. Ela fala dessa vontade que a gente tem de festejar junto. Por enquanto, muitos sonhos (inclusive por uma boate e pela vacina) e mais ainda saudade. Na foto (1), eu em 1999. Hanna Aragão: Te faço meu cafuné, Dominguinhos Escutei muito essa música em 2019 na versão de Mariana Aydar, ela tocou a música no Polo Alternativo no dia 24 de junho. Foi um show muito bom e eu dancei muito forró. Em 2019, aproveitei o São João, menos do que gostaria, mas quase como se eu soubesse que seria o último. Na foto (2), um registro do show de Mariana. Maria Clara Mendes: São João triste, Trio Nordestino As músicas de forró trazem histórias encantadoras e intrigantes sobre amores, festas e costumes. Descobri a música São João Triste enquanto organizava uma playlist para ouvir no mês de Junho. Os arranjos, a história contada na letra são muito envolventes e apaixonantes, é uma música que me faz acessar o passado das festividades juninas. Estamos vivenciando o segundo ano sem o verdadeiro São João, curiosamente, por motivos diferentes do que é relatado na música, o nosso São João também está triste. Na foto (3), um registro do São João em 2019. Márcio Correia: Noites brasileiras, Luiz Gonzaga Por um bom tempo eu fui aquela pessoa que não gostava de datas festivas (de nenhuma). O fato é que criar boas lembranças é um dia recorrer a elas e sofrer pelo tempo que não pode voltar. Eu não queria isso. O São João me lembra uma pessoa muito importante na minha vida, que infelizmente já se foi. Era a pessoa mais bondosa e animada que eu tive o prazer de conhecer. Nada passava sem comemoração com ele, principalmente o mês junino. E quando a lembrança de certa forma dói, a gente tenta fugir dela, né? A música escolhida foi uma das primeiras que pensei. Além de sempre ter tocado nos nossos São João lá em Garanhuns, ela fez muito mais sentido quando resolvi buscar na memória quem sempre animou essa data pra mim. A fogueira e os milhos? Ele providenciava. As músicas? ele botava pra tocar. As bombinhas que a gente ganhava escondido? As chuvinhas e os traques? Era tudo com ele... Ainda bem que não deu tempo de fugir desses tantos São João com ele. Acho que a tristeza da perda nunca passa, mas se não fosse momentos assim, o que iria sobrar? Nessa data quando eu olho pro céu eu lembro sempre do meu querido tio Marcelo. Na foto (4), meu tio Marcelo com minha irmã Alice em 1997. Samara Torres: Tarde demais, Dorgival Dantas Diante de tantas adaptações e implantações de culturas "tradicionais" e "modernas", vivo em um momento de pura mistura. Cresci ao som de Luiz Gonzaga tocando alto na televisão de tubo do meu tio, ao mesmo tempo que senti e ainda sinto a vida ressurgindo dentro de mim quando é junho na Capital do Agreste, Caruaru. São João é sagrado ao ponto de ser impossível descrever sua importância em palavras. É sagrado. É a melhor descrição que consigo colocar aqui no segundo ano sem São João coletivo. E sendo fruto dessa mistura de ritmos e adaptação de cultura, nenhum artista poderia descrever melhor meu sentimento de renascimento que Dorgival Dantas. É reviver todas as eras do forró em uma só. De Luiz Gonzaga a Petrúcio Amorim. Do pátio do forró à Estação, lugar de tanta cultura rica e poderosa. Na foto (5), revivo o show de mamulengos de Mamusebá que acontecia e acontecerá na Estação em Caruaru, lugar também que abriga mais dessa beleza junina que o maior são joão do mundo carrega. E é com essas coisas que me seguro nesses dias de sufoco e desespero. A esperança de reviver tudo isso.
- Especial Carnaval 2021
Sem festa, sem feriado, sem cor. Por conta da pandemia, 2021 não carnaval. Ele se fez presente nas memórias e na certeza de que, no próximo carnaval, a comemoração será dobrada. Pensando nisso, e como bons pernambucanos que somos, o conteúdo de fevereiro 2021 foi dedicado ao carnaval. Foi o nosso jeitinho de matar a saudade da nossa folia e de conhecer alguns personagens importantes da nossa cultura. Nosso cinema é recheado de referências sobre o Carnaval. Do frevo ao maracatu, do sertão ao litoral, a data tão aguardada já foi abordada de diferentes formas e por diferentes diretores. Crítica: “Desde que haja frevo” é carnaval, por Márcio Correia Indicação: Documentários de Fernando Spencer resgatam as origens do Maracatu e do Frevo, por Márcio Correia Playlist: "Ao som dos clarins de momo", por equipe Entrevista:Carnaval como paixão, sangue e pesquisa de Amilcar Bezerra, por Hanna Aragão e Márcio Correia Vídeo Ensaio: Carnavalença, por Maria Clara Mendes
- Devotos da boa-fé: a fé anarquista!
Relato por Marcus ASBarr. Foi da tenacidade de Nado, memorável e emblemático vocalista da banda crossover¹ Realidade Encoberta, elo forte e inspirador, que me fez mergulhar na ação direta: passei de público a ativista cultural. Com a entrega de panfletos para o III Encontro Anti-Nuclear², ele criou um momento histórico: possibilitou o conhecer do movimento punk em flerte com a ideologia Anarquista. Marcus ASBarr em apresentação no projeto IRMANDADE, ocorrido em uma exposição promovida pelo MaOs Contatos. Foto: Cannibal. Ver o mundo da angulação do “faça você mesmo” liberta. Inevitavelmente outro enlace ocorreria, pois a trajetória do atual Devotos iniciou neste mesmo momento, naquele mesmo palco e ainda como Devotos do Ódio. Na noite nublada de agosto, fim dos anos 1980, o então “Devotos do Ódio” foi o descortinar da potencialidade do punk, o despertar para novas formas de expressar ideias, de interagir com a sociedade. Não eram contestações vazias, mas algo vívido, sentido, absoluto comprometimento com a conscientização social. Até os cacofônicos sons da aparelhagem precária nos shows suburbanos — característica do punk — não comprometiam e sim ressaltavam o talento e o vigor, que emanava da palavra, e a sinceridade das palavras se verteria em ações para o “transformar do mundo à sua volta”. Respaldo minha narrativa, após mais de três décadas, indicando leitura de duas letras de momentos extremos do Devotos: “Luz da Salvação” e “Incrédulo”. O essencial fica e a palavra liberta! Mas o estreitamento da relação com o Devotos do Ódio seguiu a passos largos. E o primeiro contato direto com a banda não tardaria, pouco depois daquele impacto inicial em meu primeiro show de punk rock — no qual levei um tombo no meio da roda de pogo e saí ileso comprovando que as pessoas estavam ali não para se agredirem, mas para extravasar energia — estive em outros shows, nos quais fiz questão de dar ênfase à banda para Osman Frazão, que me apresentou a cena underground local e por ser mais headbanger demais na época, não esteve III Encontro Anti-Nuclear. Ele é meu primo e juntos, pouco mais de um ano depois, adentraríamos de vez no ativismo cultural que já praticávamos, só que agora com uma chancela: MaOs Contatos, um organismo de intensivo apoio ao cenário... que de duo não tardaria a se tonar solo. Mantive a marca até meados dos anos 1990. Cartaz da primeira ação do MaOs Contatos Ambos já fãs confessos do Devotos do Ódio, motivados por nossa primeira ação, ter a banda na próxima investida era uma meta. Seria a sequência para o Nordeste Thrash, que se desdobrou em outra ação na qual a banda também estaria em palco: o Não Papai Noel. Ambas foram frustradas. Imagem reprodução do livro Música Para O Povo Que Não Ouve, p.12. Arte de Marcus ASbarr sobre cartaz assinado por Osman Frazão. Na memória ficou marcado o dia em que seguimos ao Alto José do Pinho, sem conhecer nenhum integrante da banda, e ao chegarmos defronte ao endereço chegou também a apreensão e um impasse: se chamávamos Cannibal ou não. Então batemos palmas à moda antiga, não sabíamos a relação da família com a participação dele no movimento punk, mas vivenciávamos a situação. Para nossa surpresa, a irmã dele atendeu e de imediato soltou o grito: “CANNIBAL!”. E logo em seguida, o momento que selaria esta relação ocorreria imediatamente após o fracasso da ação Não Papai Noel, pois no dia seguinte já subíamos o Alto José do Pinho novamente, e desta vez esperando ser trucidados. Parecia que a carga de responsabilidade pelo ocorrido pesava toneladas. Encontramos Cannibal —e uma turma que em breve seriam os novos nomes da cena musical do Alto José do Pinho— na primeira esquina da ladeira de acesso. Uma apreensão ainda maior que num instante se dissipou com uma acolhida onde o entendimento e total empatia com a proposta nos colocariam ladeados seguindo no mesmo sentido. Abertura do primeiro videoclipe do Devotos do Ódio. Produção MaOs Contatos, que foi exibido (um trecho) no programa Fúria Metal (MTV Brasil) pelo VJ Gastão. Logo no início passamos de fãs na plateia a vivenciar de perto os primórdios da banda. Estávamos em ensaios, em shows, e buscando todo o tempo dar o apoio necessário na difusão. Uma estratégia era ter matérias na mídia de todo e qualquer show. Para tal, produzíamos fotos e enviávamos releases para os principais órgãos de comunicação, com bons resultados em jornais impressos. Matéria Recife Rock Show na The Surf Press Rock Ano II, N° 6, Outubro/1993. Cannibal se apresenta com uma camisa do projeto Irmandade pintada por Marcus ASBarr. Repertório escrito por Cannibal para o show no Pocoloco Olinda, 7 de Maio de 1994. Mas parece que as ações do MaOs Contatos estavam fadadas a não darem certo com o Devotos do Ódio, pois ainda uma outra ficou registrada como o pior show na memória da banda: o Nordeste Thrashcore, este realizado em Campina Grande, Paraíba. Daí por diante eu nem sabia mais que papel desempenhava na história: eu me tornei amigo, fã, mas não produtor — embora em alguns momentos este papel coubesse a mim por necessidade de uma representatividade. Orientava apenas, não tomava decisões. Assim, sugeri rejeitarem o primeiro contrato proposto para banda por um selo local. Algo complicado, pois podem pensar: “Loucura! A banda não tinha nada naquele momento”. Mas o que se desenhava era algo grande e condizente com o seu talento. Estava já em evidência total e isso foi se avolumando de uma forma que não se poderia mais sufocar. A minha presença constante ao lado da banda ocasionaria me confundirem até como mais um integrante em alguns momentos, embora só uma vez eu estive no palco e o registro é histórico para mim. Show no clube de futebol Prazeirinho em Jaboatão dos Guararapes. Acervo: Marcus ASBarr. Posso assegurar que ainda hoje o talento que me levou a apostar alto — e em certos momentos até me deixar um tanto preocupado com a demora de acontecer — continua a me encantar. Revivi alguns desses momentos como editor do livro Música Para o Povo Que Não Ouve, no qual eu assino o singelo capítulo preambular: “Memórias de um devoto”. O livro está no catálogo da Cepe Editora, e foi lançado em 2018. No processo de editoração, a definição dada ao projeto editorial englobou momentos inéditos da banda, registros históricos tanto do meu acervo quanto do próprio Cannibal, e quando recebi o material ainda bruto do último álbum — trilha sonora enquanto desenvolvia a parte de criação artística para composição do livro — estava tudo lá: in natura, mesmo após tantos anos. E algo que me proporciona um imenso orgulho... de fã. Notas do autor: ¹ Crossover é estilo musical, no caso a sonoridade do Realidade Encoberta, em sua formação original, era a junção do punk hardcore e o heavy-metal. ² III Encontro Anti-Nuclear é o nome da histórica movimentação que recebeu três edições reunindo artistas e ativistas de várias partes do país, grafada originalmente como na época. Sobre Marcus ASBarr: @marcusasbarr (BioDiverCidade Produções) é Ativista cultural oriundo do movimento punk. Produtor Cultural, Compositor e Músico Experimental. Atuante no cenário cultural de música, audiovisual e editorial (projetos gráficos e editoriais; Direção de Arte; Designer; Ilustração; Diagramação; Editor de livro e revistas), com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Assina o projeto gráfico e capa da segunda edição do livro "Pesado" (Wilfred Gadelha), e é Editor, prefaciador e capista do livro "Música para o povo que não ouve" (Cannibal), além de ser personagem em ambos. Criador Visual filiado a AUTVIS.
- Livro que aborda o processo criativo do filme 'Tatuagem', será lançado no próximo dia 20/11
Invenção de Tatuagem é um lançamento da Cepe Editora sobre a obra de Hilton Lacerda, com autoria de Paulo Cunha, Marcos Santos e Georgia Cruz. A Cepe publica um livro fundamental para jovens cineastas e interessados na nova produção audiovisual brasileira: A invenção de Tatuagem. Ricamente ilustrado, o título aborda o processo criativo do cineasta pernambucano Hilton Lacerda, Tatuagem (2013), que em 2015 entrou para a lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema entre os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A publicação é resultado de pesquisa feita pelos autores: Paulo Cunha, Marcos Santos e Georgia Cruz. Eles narram o processo criativo em todas as etapas do primeiro longa de Hilton, desde a ideia inicial até a montagem. O lançamento será no próximo dia 20, às 17h, no pátio térreo da Fundaj do Derby. O evento acontece logo após a exibição do filme, às 15h, na Sessão Cinemateca no Cinema da Fundação. A entrada é gratuita, mas terá limite de 100 espectadores na sala. A Fundaj adotará o protocolo anti Covid. Para quem não assistiu ao filme, Tatuagem conta o romance entre Clécio, líder de um grupo teatral, o Chão de Estrelas, e Fininha, um soldado do Exército brasileiro. A história se passa em Olinda, em 1978, nos primeiros anos da ditadura militar. No livro os autores contam que a obra faz referências afetivas ao grupo de teatro Vivencial, ao ator Pernalonga, ao pop-filósofo Jomard Muniz de Britto e ao diretor Guilherme Coelho. Os três autores leram diferentes tipos de tratamentos do roteiro, estudaram fotografias de cena, consultaram materiais da direção de arte, como cenografia, figurinos e adereços, assim como retornaram às obras que inspiraram o diretor: livros, filmes e histórias. A pesquisa foi realizada no campo dos programas de pós-graduação em comunicação e em design da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Com a força da prosa poética de Jomard no prefácio, a construção do argumento, a discussão cinematográfica sobre o âmbito do Super-8, o universo por trás do filme e o prórpio filme contemporâneo a partir da ótica passada, o livro A invenção de Tatuagem é ricamente ilustrado, com fotos do diretor de fotografia Ivo Lopes, do fotógrafo Flávio Gusmão e do autor Marcos Santos, sem falar das imagens anteriores às filmagens que são de outros fotógrafos, como Ana Farache, que cedeu imagens do Vivencial. O projeto gráfico da designer Sandra Chacon, traz para o leitor a estética do filme. SOBRE OS AUTORES MARCOS SANTOS é integrante do grupo de pesquisa Cultura e Subalternidades: Epistemologias da Subalternidade no Cinema Brasileiro Contemporâneo. Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia. PAULO CUNHA - Doutor em Artes e Ciências da Arte pela Universidade de Paris I - Panthéon-Sorbonne e diplomado em História pela École des Hutes Études en Sciences Sociales de Paris, sob orientação do historiador Marc Ferro. Está vinculado, como membro permanente, ao Programa de Pós-Graduação em Design da UFPE. GEORGIA CRUZ - Pesquisadora no LabGRIM - Laboratório da Relação Infância, Juventude e Mídia e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Narrativas Multimídia. Professora do curso de Sistemas e Mídias Digitais da Universidade Federal do Ceará. Doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. SERVIÇO Lançamento de A invenção de Tatuagem Data: 20 de novembro Horário: 17h Onde: Sessão Cinemateca, no Cinema da Fundação do Derby, às 15h, com exibição de Tatuagem, de Hilton Lacerda. Entrada gratuita no limite de 100 espectadores. Com protocolos anti Covid usuais. Às 17h, no pátio térreo da Fundaj do Derby, lançamento do livro. Valor de venda: R$ 70,00 (livro impresso) E-book: R$ 28,00
- A cena do Punk Rock Hardcore em Pernambuco pelos olhos do Devotos
Em 1988 nascia a banda pernambucana, Devotos do Ódio (atualmente chamada apenas de Devotos). Formada por Cannibal (voz e contra-baixo), Neilton Carvalho (guitarra) e Celo Brown (bateria), a banda foi uma das principais precursoras do movimento de rock que surgiu em Pernambuco na década de 90. Criada no Alto José do Pinho, bairro periférico de Recife, desde o início da formação, o trio buscava compor letras que denunciavam a desigualdade social, o preconceito e as dificuldade vividas dentro das comunidades. Neilton Carvalho (esq.), Cannibal (centro) e Celo Brown (dir.) A falta de saneamento, a insegurança, criminalidade, e a pobreza, eram motivos de grandes insatisfações dos moradores do Alto José do Pinho. Então, Cannibal que já participava de passeatas punks e organizava eventos teve a ideia de criar o Devotos e assim denunciar aquela realidade através do que sabia fazer: rock. Devotos faz parte de um grupo que podemos chamar de A consciência da periferia, a voz que cobra melhorias em uma realidade dividida. Ao longo da trajetória, Devotos já lançou oito álbuns em estúdio: Agora tá Valendo (1997), Devotos (2000), Hora da Batalha (2003), Sobras da Batalha EP (2004), Flores com Espinhos, Para o Rei (2006), Póstumos (2012) e O Fim Que Nunca Acaba (2018). Além de um álbum ao vivo em comemoração aos 20 anos da banda, e dois discos de vinil intitulados de Victória (2010) e Demos e Raridades (2011). Um dos grandes sucessos do trio é a música "Eu o declaro inimigo", do álbum O Fim Que Nunca Acaba. O videoclipe da música foi lançada no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), durante a exposição "A arte é um manifesto - 30 anos de Devotos". O clipe tem direção de Marcos Buccini e Thiago Delácio e teve a participação de 127 artistas brasileiros, entre ilustradores, artistas plásticos, designers, animadores e artistas gráficos. No mesmo ano, em comemoração ao aos 30 anos da banda, Cannibal lançou o livro Música Para o Povo Que Não Ouve em parceria com a Cepe Editora. O livro conta a trajetória da banda com fotografias, cartazes de shows, matérias de jornais, e letras de canções inéditas que não chegaram a ser gravadas. Este ano a banda lançou dois singles Nossa História e Orixás: O Rock em Pernambuco O Alto não foi o único lugar de Recife que passava por problemas, vários lugares de Recife viviam e presenciavam uma grande onda de insatisfação e má qualidade de vida. Em 1990, com o declínio econômico no estado, um jornalista do The Washington Posts em passagem por Recife escreveu que a capital pernambucana seria a 4ª pior cidade do mundo para se morar. Pode-se dizer que esse foi um dos gatilhos que gerou um desejo de mudança. Nas palavras de DJ Dolores: "A gente muda de cidade ou a gente muda a cidade. Não temos dinheiro para mudar de cidade, então vamos ter que mudar a cidade". - Fala tirada do documentário Passagens (2019) de Lúcia Nagib e Samuel Paiva. Assim como Devotos, durante a década de 90 surgiram diversas outras bandas que tinham o mesmo objetivo. Nesse período nasce também nomes como Sheik Tosado, Os cachorros, Eddie, Matalanamão, III Mundo, Primeira Dama, Querosene Jacaré, Faces do Subúrbio, Jorge Cabeleira, Comadre Fulosinha, entre outros. Bem como Nação Zumbi e Mundo Livre S&A que tiveram maiores projeções nacionais e internacionais misturando rock e maracatu e falando sobre o mague. Em 1995, Adelina Pontual, Cláudio Assis e Marcelo Gomes se juntaram em um documentário que retratava o dia a dia dos jovens do Alto José do Pinho e como a música mudou suas vidas e a imagem do bairro, antes marcado por sua miséria e marginalidade. A banda Devotos do Ódio, destaque no documentário, foi exemplo, possibilitando mudanças no contexto social do bairro. O filme de 14 minutos firma-se como um registro histórico sobre a cultura marginal do nosso país. O rock pode ter tido origem americana, mas em Pernambuco o ritmo tomou outras faces e foi transformado em um grande mensageiro da realidade e também uma expressão artística de luta e resistência. Acompanhe Devotos nas redes Youtube Instagram Spotify Texto por Hanna Aragão.
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