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  • Foto do escritorHanna Aragão

A cena do Punk Rock Hardcore em Pernambuco pelos olhos do Devotos

Atualizado: 23 de dez. de 2021

Em 1988 nascia a banda pernambucana, Devotos do Ódio (atualmente chamada apenas de Devotos). Formada por Cannibal (voz e contra-baixo), Neilton Carvalho (guitarra) e Celo Brown (bateria), a banda foi uma das principais precursoras do movimento de rock que surgiu em Pernambuco na década de 90. Criada no Alto José do Pinho, bairro periférico de Recife, desde o início da formação, o trio buscava compor letras que denunciavam a desigualdade social, o preconceito e as dificuldade vividas dentro das comunidades.

Neilton Carvalho (esq.), Cannibal (centro) e Celo Brown (dir.)

A falta de saneamento, a insegurança, criminalidade, e a pobreza, eram motivos de grandes insatisfações dos moradores do Alto José do Pinho. Então, Cannibal que já participava de passeatas punks e organizava eventos teve a ideia de criar o Devotos e assim denunciar aquela realidade através do que sabia fazer: rock. Devotos faz parte de um grupo que podemos chamar de A consciência da periferia, a voz que cobra melhorias em uma realidade dividida.



Ao longo da trajetória, Devotos já lançou oito álbuns em estúdio: Agora tá Valendo (1997), Devotos (2000), Hora da Batalha (2003), Sobras da Batalha EP (2004), Flores com Espinhos, Para o Rei (2006), Póstumos (2012) e O Fim Que Nunca Acaba (2018). Além de um álbum ao vivo em comemoração aos 20 anos da banda, e dois discos de vinil intitulados de Victória (2010) e Demos e Raridades (2011).


Um dos grandes sucessos do trio é a música "Eu o declaro inimigo", do álbum O Fim Que Nunca Acaba. O videoclipe da música foi lançada no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), durante a exposição "A arte é um manifesto - 30 anos de Devotos". O clipe tem direção de Marcos Buccini e Thiago Delácio e teve a participação de 127 artistas brasileiros, entre ilustradores, artistas plásticos, designers, animadores e artistas gráficos.



No mesmo ano, em comemoração ao aos 30 anos da banda, Cannibal lançou o livro Música Para o Povo Que Não Ouve em parceria com a Cepe Editora. O livro conta a trajetória da banda com fotografias, cartazes de shows, matérias de jornais, e letras de canções inéditas que não chegaram a ser gravadas. Este ano a banda lançou dois singles Nossa História e Orixás:


O Rock em Pernambuco


O Alto não foi o único lugar de Recife que passava por problemas, vários lugares de Recife viviam e presenciavam uma grande onda de insatisfação e má qualidade de vida. Em 1990, com o declínio econômico no estado, um jornalista do The Washington Posts em passagem por Recife escreveu que a capital pernambucana seria a 4ª pior cidade do mundo para se morar. Pode-se dizer que esse foi um dos gatilhos que gerou um desejo de mudança. Nas palavras de DJ Dolores: "A gente muda de cidade ou a gente muda a cidade. Não temos dinheiro para mudar de cidade, então vamos ter que mudar a cidade". - Fala tirada do documentário Passagens (2019) de Lúcia Nagib e Samuel Paiva.


Assim como Devotos, durante a década de 90 surgiram diversas outras bandas que tinham o mesmo objetivo. Nesse período nasce também nomes como Sheik Tosado, Os cachorros, Eddie, Matalanamão, III Mundo, Primeira Dama, Querosene Jacaré, Faces do Subúrbio, Jorge Cabeleira, Comadre Fulosinha, entre outros. Bem como Nação Zumbi e Mundo Livre S&A que tiveram maiores projeções nacionais e internacionais misturando rock e maracatu e falando sobre o mague. Em 1995, Adelina Pontual, Cláudio Assis e Marcelo Gomes se juntaram em um documentário que retratava o dia a dia dos jovens do Alto José do Pinho e como a música mudou suas vidas e a imagem do bairro, antes marcado por sua miséria e marginalidade. A banda Devotos do Ódio, destaque no documentário, foi exemplo, possibilitando mudanças no contexto social do bairro. O filme de 14 minutos firma-se como um registro histórico sobre a cultura marginal do nosso país.



O rock pode ter tido origem americana, mas em Pernambuco o ritmo tomou outras faces e foi transformado em um grande mensageiro da realidade e também uma expressão artística de luta e resistência.


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Texto por Hanna Aragão.

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