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  • O poder veste Prada: quando o poder compra a moda

    Por Lívia Feliciano Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Quando eu assisti a O Diabo Veste Prada 2 (direção de David Frankel, roteiro de Aline Brosh McKenna e figurino de Molly Rogers; 2026), lembro que uma coisa não parava de ecoar na minha cabeça: “Deve ser muito massa ter dinheiro igual o Benji”. O personagem em questão é Benji Barnes, namorado bilionário de Emily que resolve comprar a Runway, revista em que ela trabalhou no passado como assistente, só para realizar os desejos dela. Assisti ao filme dia 30 de abril, exatamente na sessão de estreia, e mal sabia eu que tinha acabado de receber um spoiler dos grandes da vida real. Sessão de estreia do filme "O Diabo Veste Prada 2" em Caruaru (PE). Foto: Lívia Feliciano No dia 4 de maio, aconteceu um dos eventos mais esperados do ano no mundo da moda: o Met Gala. A edição de 2026, intitulada “Costume is Art”, foi considerada uma das mais polêmicas da história desse espetáculo do tapete vermelho, não pelo tema ou pelos looks, mas sim por ter sido cercado de protestos e manifestações do lado de fora do evento. Metropolitan Museum of Art (The Met), localizado na cidade de Nova York, nos Estados Unidos; local onde acontece o "Met Gala". Foto: Reprodução/Internet A razão disso tem nome e sobrenome: Jeff Bezos. Ele é um engenheiro, empresário estadunidense e lidera a Amazon, uma das empresas mais importantes do mundo. No ano de 2026, Jeff e sua esposa, Lauren Sánchez Bezos, foram os principais patrocinadores do baile do Met, o que gerou muitas críticas entre a população devido às várias polêmicas em que o empresário está envolvido, como as condições de trabalho em suas empresas, seu posicionamento político e a sua concentração de riquezas. Com esse patrocínio, eles ganham voz na produção do evento, podendo opinar em quem é ou não convidado, nas narrativas que ganham destaque e na imagem que é construída. O Met Gala é um “acontecimento” anual que gera recursos para a manutenção do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, o Met. Mas e o que isso tem a ver com O Diabo Veste Prada 2? Tudo! A narrativa do filme é muito focada em como a dinâmica no mundo da moda mudou. Agora está no topo quem tem poder, controle, dinheiro e influência midiática, sobretudo da produção. Benji decide comprar uma revista de moda para satisfazer um capricho de sua namorada, podendo assim interferir diretamente no destino da revista e de seus colaboradores. Na vida real, não é diferente. Quando Jeff decide se inserir nesse universo da moda utilizando-se de sua riqueza, acaba que o verdadeiro significado do baile do Met perde o sentido, visto que é uma celebração da expressão artística, da criatividade, algo que não pode ser comprado– apenas os ingressos (cerca de US$ 100.000). Um bilionário ter poder de usar essa celebração para tentar se promover nesse mundo, tira um pouco da credibilidade desse grande evento. Justin Theroux, ator que interpreta Benji, vestindo a marca italiana Prada na estreia do filme em Nova Iorque. Foto: Reprodução/Internet Sarah Paulson vestindo a peça "The One Percent" da marca parisiense Matière Fécales no Met Gala 2026. Foto: Reprodução/Internet Muitas celebridades utilizam-se da visibilidade que recebem no baile para levantarem suas bandeiras e ideais. Um exemplo disso esse ano foi a Sarah Paulson, que vestiu Matières Fécales, usando como ponto principal de sua roupa uma máscara feita de dólar cobrindo os olhos, que manifesta uma crítica ao poder e privilégios que o dinheiro proporciona. Já outros nomes de peso em Hollywood optaram por não comparecerem ao baile, como foi o caso de Zendaya e Meryl Streep, a protagonista de O Diabo Veste Prada 2. Muitas pessoas acreditam que elas não marcaram presença justamente por não compactuar com os ideais do principal casal patrocinador da cerimônia deste ano. Os protestos do lado de fora e de dentro do Met Gala mostram que a moda não é e nunca foi só roupa. A moda é política, atravessada por questões sociais e econômicas. Não adianta vestir roupas de milhares de dólares e patrocinar um evento que celebra a arte e diversidade, se o “benfeitor” tem posicionamentos que vão contra toda essa narrativa e essas pessoas que mantêm essa indústria de pé. SAIBA MAIS A presença de grandes empresários, como Jeff Bezos, evidencia a crescente aproximação entre o setor da moda e o capital financeiro, ampliando o debate sobre até que ponto eventos culturais podem manter sua autonomia diante de interesses econômicos. O documentário The First Monday in May revela os bastidores do evento e evidencia como cada detalhe é estrategicamente pensado para construir narrativas específicas. CURIOSIDADES A personagem Miranda Priestly foi inspirada em Anna Wintour, editora-chefe da Vogue e uma das figuras mais influentes da moda. Inclusive, Anna é quem tradicionalmente lidera a organização do Met Gala. O Met Gala acontece sempre na primeira segunda-feira do mês de maio.

  • Moda pernambucana fora daqui

    Por Vanessa Karol Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Nascida em Tracunhaém, filha do artista plástico Mestre Ivo Diodato, Júlia Lira está presente nas redes sociais desde 2015 mostrando um pouco das suas vivências, facetas e fases. Dentro desse contexto, a moda sempre esteve presente, seja na roupa, no calçado, nas paredes da sua casa e até mesmo nos cenários das cidades em que ela já morou. Júlia Lira no São João de 2026. Foto: Instagram (@juulialira) JÚLIA LIRA hoje é criadora de conteúdo e possui aproximadamente 130 mil seguidores no total de suas principais redes sociais. Na sua presença digital é perceptível como seu amor e carinho por Pernambuco, sempre participando e experienciando todos os nossos meios de expressão. Com a sua forma de ver o mundo, ela consegue traduzir o que sente e percebe para uma tela na vertical, permitindo que outras pessoas que não estão aqui possam conhecer através dela. Recentemente, Júlia se mudou para o Rio de Janeiro e, durante nossa entrevista, vamos descobrir através dos seus conceitos como ela entende a moda pernambucana e se essa mudança geográfica alterou sua percepção, já que a saudade pode acentuar alguns aspectos da vida dela. MODA ATRAVÉS DE JÚLIA LIRA Vanessa: Como você percebe a moda pernambucana, como você a define e o que vem em sua mente primeiro? Júlia: Eu tomo cuidado quando falo de moda pernambucana para não generalizar a vivência com a moda por todo estado. Tendo vivido em Caruaru, Tracunhaém e Recife, noto características diferentes em cada lugar. Talvez culturais, mais especialmente marcadas pelo clima e ritmo urbano das cidades. Em Recife, por termos praias, eu me sentia mais à vontade para explorar looks mais leves e até com biquínis e chinelos Havaianas; looks mais naturais. Em Tracunhaém, por exemplo, eu não tinha muito costume de usar tênis ou botas. E em Caruaru, eu me sentia mais à vontade para explorar um visual mais dramático, jaquetas, corta-ventos, materiais de couro junto de outras peças com tecidos mais leves. Mas, respondendo a pergunta, eu vejo que a moda pernambucana mescla muito os estilos urbanos e naturais, misturando tecidos e adaptando a realidade local. Júlia em terras recifenses. Foto: Instagram (@juulialira) Júlia no Rio de janeiro. Foto: Instagram (@juulialira) V: Recentemente você mudou de estado. Isso transformou seu olhar para a moda de Pernambuco? A distância fez você perceber detalhes da nossa cultura que antes passavam despercebidos? J: Eu mudei de estado, mas as minhas referências de moda continuam as mesmas. Então, de forma geral, continuo admirando e consumindo da moda pernambucana. No meu dia a dia, faço questão de me manter imersa nos detalhes da minha cultura. Um detalhe que tenho me corrigido mesmo é justamente caracterizar meu olhar para a moda pernambucana, reconhecendo que ela é bem múltipla e não se prende ao que leem da capital. Pode ser vanguardista, pode ser tradicional, pode ser autêntica e também, como em todo lugar, mais genérica seguindo o senso comum. Decoração do antigo apartamento de Júlia. Foto: Instagram (@juulialira) V: Nas suas redes sociais é perceptível que a moda está além da vestimenta para você, marcando presença também nas paredes da sua casa e nos objetos de decoração. Como você considera essa relação entre moda e cotidiano? J: Eu acho que a moda e o cotidiano estão 200% atrelados um ao outro. É no cotidiano que a gente expressa nossas referências, nossa vivência e nosso repertório. Tanto no que eu visto quanto na minha casa, eu mostro mesmo que espontaneamente um reflexo de tudo que eu já vi, li, assisti, conheci etc. É muito natural que isso transborde de mim, já que eu busco me cercar de coisas bonitas e inspiradoras. V: Grande parte do seu público talvez nunca tenha visitado Pernambuco. Quando você compartilha referências de moda e cotidiano, pensa que está influenciando essas pessoas a construírem uma imagem do nosso estado? Como acontece esse processo de traduzir algo tão pessoal para uma tela na vertical? J: Quando eu comecei a mostrar mais da minha cultura, percebi um erro: talvez eu estivesse falando para pessoas que nunca tinham ouvido falar daquilo, ou nunca nem tinha visto. Então, eu passei a tomar o cuidado de explicar do básico, como onde ir pela primeira vez, explicar como a festa acontece enquanto compartilho como eu vivo/vivia nesses espaços. Foi realmente muito natural e eu fui percebendo o impacto quando comentários como: “quero conhecer esse lugar por causa da forma que você fala” se tornaram comuns. Então sim, reconheço o impacto e vejo muito valor nisso. Publicidade feita para Nescafé no São João de 2025. Foto: Instagram (@juulialira) Visita a Tracunhaém. Foto: Instagram (@juulialira) V: De onde vem suas referências para produção de posts ou até mesmo vídeos quando se trata de moda e pernambuco? Existe alguém em que você se inspira? J: Uma vez, eu vi o Fefo (@pelosolhosdefelipe) — que me inspira muito por sinal — falando que ele fotografa a cidade e as pessoas com o olhar curioso de quem também está conhecendo a cidade, já que não cresceu ali. Isso fez sentido pra mim porque estou sempre me mudando e me mantendo curiosa sobre as coisas e sobre o mundo. Desde criança esse é um traço meu, meus pais contam. Então, quando falamos de moda em Pernambuco, minhas principais referências são as histórias contadas pelas pessoas à minha volta. Sendo mais específica, minha amiga Beatriz (@beamanifesta), é uma grande inspiração como formadora de opinião quando se trata de moda, política e identidade cultural. Júlia no carnaval de Olinda de 2026. Foto: Instagram (@juulialira) V: Se Pernambuco fosse uma pessoa, como ela seria? Como seria um look completo para um dia habitual? J: Difícil responder essa! [risos] Tenho tantas imagens em mente do que seria Pernambuco em pessoa. Certamente, teria de incluir nossa bandeira em algum detalhe. Então, vou imaginar uma camisa de linho de botões, com uma saia midi em renda ou crochê — ou com alguma estampa mais fluída — e uma sandália rasteira. Acessórios bem chamativos, brincos e colares dourados com elementos solares, e uma bolsinha de couro artesanal tipo as da feira de artesanato de Caruaru. Vocês podem acompanhar e conhecer mais sobre Júlia Lira no Instagram: @juulialira

  • A Cultura de PE na Pele com Hachura 

    Por Filipi Alexandre "Não troco o meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém!" – Ariano Suassuna Em 18 de outubro de 1970, floresceu no Recife um dos mais importantes movimentos da arte brasileira, idealizado pelo lendário escritor paraibano Ariano Suassuna, que fundou o Movimento Armorial. A iniciativa artística surgiu como uma forma de resistência à cultura estrangeira e tinha como objetivo criar uma arte erudita brasileira com profundas raízes populares nordestinas, tendo como principal base para a construção de sua identidade a própria cultura popular da região. Apesar de ter recebido apoio da própria Prefeitura do Recife, o Movimento Armorial travou uma importante batalha intelectual com outro movimento que também buscava reafirmar as raízes populares do Nordeste. Na década de 1990, surgiu o manifesto "Caranguejos com Cérebro", idealizado por artistas como Chico Science e Fred Zero Quatro. O manifesto deu origem ao movimento Manguebeat. Caranguejos com Cérebro| Internet Mangue, a cena Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife... Décadas depois do Armorial e do Manguebeat, esse sentimento de valorização da cultura pernambucana continua inspirando artistas contemporâneos. Entre eles está Sostenes, tatuador pernambucano nascido no Recife e criado em Carpina, cidade da Zona da Mata. Ele teve contato direto com manifestações da cultura popular, experiências que futuramente exerceriam grande influência sobre o seu trabalho. Sostenes Marcos | Tatuador "Lá, a cultura popular se manifesta de uma forma muito forte, seja pelo maracatu rural, pelas festas de cavalo-marinho, no carnaval com as burrinhas e os mascarados passando de casa em casa pedindo dinheiro. Eu cresci no meio disso, vendo todas essas manifestações da cultura popular, que me trazem toda uma afetividade da minha infância. Como questão política, eu penso que, se é para ter alguém retratando a nossa cultura, que seja a gente que vive essa cultura." A decisão de tatuar veio após uma mudança de carreira durante a pandemia. Embora desenhasse desde criança e já fosse fascinado por tatuagens, Sostenes só começou a estudar biossegurança e técnicas em 2022. No ano seguinte passou a atuar profissionalmente. "eu me vi em um momento muito insatisfeito com o meu trabalho e estava buscando uma nova profissão, foi quando um amigo meu perguntou por que eu não começava a tatuar, já que eu desenhava tão bem, e essa idéia fez muito sentido para mim, foi daí que eu comecei a buscar mais informações sobre o mundo da tatuagem buscando entender mais sobre cuidados, biossegurança e técnicas, e só em 2023 que eu comecei realmente a tatuar como profissão" Tatuagem como manifestação da própria origem Sostenes cultiva uma visão muito mais alinhada à de Chico Science e do Movimento Manguebeat, reconhecendo-se inserido em um mundo globalizado e utilizando referências externas para ampliar o alcance da cultura de sua região. Um exemplo disso é o seu estilo autoral, marcado pelo uso da técnica da hachura. Retrato de Dirck Volckertsz Coornhert | Internet "Sim, eu sempre achei muito interessante como eram feitos os desenhos e as ilustrações de livros antigos de anatomia e arte sacra, devido ao uso de hachuras. A forma como usavam os traços para trabalhar profundidade e sombreamento, particularmente, eu acho que gera um resultado muito elegante. Quando comecei a tatuar, quis juntar o gosto que eu tinha pela hachura com a tatuagem. No Brasil, o estilo de hachuras ainda é uma técnica nova na tatuagem, mas, na Europa, é um estilo já bem consolidado." Sostenes usa da Hachura como principal técnica para desenvolver sua arte, e ele faz da seguinte forma: "Primeiro eu faço todo o 'esqueleto' da arte pensando no aspecto geral. Em seguida, penso em que ângulo a luz estaria batendo no objeto desenhado e, a partir daí, vou preenchendo com as hachuras. Essa parte eu não tenho um método em si; vou fazendo conforme acho que fica melhor, sempre preenchendo mais onde imagino que estejam as sombras mais fortes e diminuindo a intensidade à medida que caminho em direção à luz, até chegar a um resultado que eu considere satisfatório. Vai também da sensação que eu quero passar. Se é algo mais delicado, busco fazer linhas mais finas e mais ordenadas. Se quero transmitir movimento, faço traços que fogem do esqueleto da arte." "Na hora de criar uma arte, eu busco imaginar a cena que quero retratar e a perspectiva que ela deve ter. Depois, começo a buscar referências, porque, mesmo não sendo um realismo sombreado, gosto que minhas artes e tatuagens, mesmo feitas com hachuras, fiquem o mais próximo do real possível. A etapa de colher referências, para mim, é a mais importante de todo o processo; é nela que eu amadureço a ideia de verdade." Tatuagem Homem da Meia-Noite | Foto: Instagram "Essa do Homem da Meia-Noite mesmo foi todo um processo para chegar nesse resultado. Primeiro, eu tentei retratar um boneco gigante como se fosse uma pessoa. Eu queria representá-lo de uma forma que passasse a impressão de que ele estivesse acenando com a cabeça para alguém. Para isso, tive que pensar bastante na pose que ele teria." O futuro de uma tradição Sostenes pretende abrir um estúdio em parceria com a sua associação, a SOMA. A proposta é criar um espaço colaborativo, funcionando como uma espécie de incubadora para fortalecer a cena da tatuagem local e impulsionar tatuadores iniciantes por meio da troca de experiências. Já em seus projetos pessoais, Sostenes pretende desenvolver novos trabalhos voltados para a fauna e a flora brasileiras, além de continuar explorando a cultura nordestina, buscando expandir o seu repertório estético. "Esses dias eu venho flertando muito com o new school e o sketch, que são estilos de traços fortes, mas com a junção de sombreados, o que eu acho que deixa um resultado muito interessante." Mesmo que alguns estados brasileiros tenham orgulho da tradição herdada de seus colonizadores e que ainda exista um cenário em que muitos brasileiros valorizem mais aquilo que vem de fora e a cultura erudita europeia, o povo pernambucano sempre demonstrou resistência a essa lógica. Um povo orgulhoso e forte que, do mítico sertão ao caótico mangue metropolitano, gritou e fez valer a sua própria identidade. Artistas como Sostenes representam a continuidade dessa resistência, transformando a cultura popular em linguagem artística e reafirmando a identidade de um povo que nunca troca o seu "oxente" pelo "ok" de ninguém. Siga @sosso.so_ para acompanhar mais do seu trabalho.

  • Entre bandeirinhas e bandeiras: quando a Copa encontra a identidade visual do São João de Caruaru

    Por Arielle Laís e Higor Evangelista Foto: Higor Evangelista O mês de junho costuma transformar Caruaru em um grande cenário da cultura popular nordestina. As ruas ganham bandeirinhas coloridas, os polos juninos recebem cenografias inspiradas no cordel e na xilogravura, enquanto o comércio e os espaços públicos incorporam elementos que já fazem parte da identidade visual do São João. Em 2026, no entanto, outro conjunto de símbolos passou a integrar essa paisagem: o da Copa do Mundo. A realização do torneio durante o período junino fez com que referências ligadas ao futebol dividissem espaço com a estética tradicional da festa. Bandeiras do Brasil, camisas da Seleção, vitrines temáticas e telões para transmissão dos jogos passaram a compor um cenário que, até então, era ocupado quase exclusivamente pelos elementos característicos do São João. Essa aproximação entre dois eventos de grande alcance popular chama atenção para um aspecto que muitas vezes passa despercebido: a identidade visual também faz parte da experiência cultural. Mais do que decorar espaços, a comunicação visual ajuda a construir a memória de uma festa. Em Caruaru, referências ao cordel, à xilogravura e ao artesanato aparecem nas peças gráficas, na sinalização dos polos, nos palcos e na cenografia distribuída pela cidade. São elementos que reforçam a relação entre o São João e a cultura popular do Agreste. Foto: Higor Evangelista Já a Copa do Mundo possui uma linguagem visual própria. Cada edição apresenta uma identidade construída a partir de cores, símbo os e elementos gráficos que representam o país-sede. No Brasil, essa comunicação costuma ganhar novas interpretações quando chega às ruas. A população incorpora bandeiras, pinturas, faixas e outros elementos à paisagem urbana, criando uma estética que ultrapassa o ambiente esportivo. Quando essas duas linguagens compartilham o mesmo espaço, o resultado não é a substituição de uma pela outra, mas uma convivência entre diferentes referências culturais. O verde e amarelo aparece ao lado das bandeirinhas juninas, enquanto vitrines e estabelecimentos comerciais adaptam suas decorações para dialogar com os dois acontecimentos. A presença dos telões destinados à transmissão dos jogos também modifica a dinâmica dos espaços públicos. Durante as partidas da Seleção Brasileira, áreas tradicionalmente ocupadas por apresentações musicais passam a reunir pessoas em torno de outra manifestação coletiva. O público continua no São João, mas vivencia a festa a partir de uma nova configuração visual, em que palco, decoração e transmissão esportiva coexistem. Esse cenário revela que a identidade visual das festas populares não é estática. Ao longo do tempo, ela incorpora novas referências sem abandonar elementos que já fazem parte da memória coletiva. A coincidência entre a Copa e o São João evidencia justamente essa capacidade de adaptação, mostrando como diferentes manifestações culturais podem dialogar dentro de um mesmo espaço. Mais do que registrar a presença do futebol durante os festejos juninos, observar essas transformações ajuda a compreender como a cidade constrói sua imagem a partir dos acontecimentos que mobilizam seus moradores. Em 2026, entre bandeirinhas e bandeiras, Caruaru oferece um exemplo de como cultura popular, design e comunicação visual podem compartilhar o mesmo cenário e produzir novas formas de representação.

  • Entre a fantasia pernambucana e o autoritarismo: Sangue Raro, de Lucas Santana

    Por Washington Vitório Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Desde criança, lembro que meu voinho sempre dizia para eu não ficar brincando na rua até tarde da noite e tomar cuidado; se eu não obedecesse, a polícia iria me pegar e me levar para longe, para nunca mais voltar. Ele também falava que na casa abandonada na parte de baixo da rua, morava uma velha. Aos meus olhos, o medo daquela mulher, que apenas morava sozinha com seus gatos, a transformava em um monstro, em uma bruxa ou qualquer outra criatura que minha mente pudesse criar. Foi exatamente nessa sensação de crescer cercado por medos — medos esses que muitas vezes escondiam problemas muito mais reais —, que encontrei em Sangue Raro, de Lucas Santana: um reflexo da forma como aprendemos a temer aquilo que não compreendemos. Capa do livro "Sangue Raro". Foto: Reprodução/Internet Publicado pela Companhia Editora Nacional (NACI) em abril de 2025, Sangue Raro é um livro de distopia fantástica que une bruxos poderosos, feitiços, uma nova ditadura militar e personagens com diferentes tipos de sangue que carregam propriedades perigosas. Porém, limitar a obra apenas aos seus elementos fantásticos seria ignorar a sua maior qualidade: a forma como a narrativa é construída profundamente enraizada em Pernambuco; na cultura, na oralidade, nos costumes e na identidade pernambucana — que não aparece apenas como cenário, mas como parte essencial da história, moldando a narrativa e transformando Pernambuco em um elemento ativo da construção do universo. Ao mesmo tempo, não tem medo de abordar temas incômodos, descrevendo — constantemente de maneira explícita — a nudez, a violência militar, e outras formas de brutalidade que percorrem a experiência do personagem principal, Caetano. "Comecei a sentir a coisa estranha dentro de mim mais ou menos quando eu tinha dezesseis anos. Não sabia explicar o que era, faltavam palavras para entender e nomear, mas era algo que fervia, espalhando-se por debaixo da pele, pelos músculos, dentro dos ossos.” Sangue Raro (p. 16) O livro acompanha a vida de Caetano, um jovem recifense morador do Morro da Conceição, que desde cedo entende que há algo de estranho nele. Ele é “sangue raro”: uma pessoa cujo sangue pode ser utilizado por bruxos na realização de feitiços diversos. Porém, por questões políticas, essas pessoas acabam sendo caçadas num golpe militarista, com a motivação de aproveitar de seu sangue para benefício militar e os exterminar, logo em seguida. A narrativa é dividida entre capítulos que contam os momentos vividos por Caetano durante os seus dezesseis e dezessete anos; entre a descoberta de quem é ele no mundo, não apenas no sentido fantasioso, mas também nas questões de um jovem entendendo seus gostos, peculiaridades e sexualidade; e, então, capítulos que o apresentam dez anos depois, abatido e consumido pela culpa de ser quem é, dividido entre a necessidade de encontrar aqueles que lhe fizeram mal e o medo de reviver tudo aquilo novamente. Assim, a história se inicia no momento em que ele está sendo resgatado de uma instalação militar onde viveu por 10 anos sendo uma bica — nome dado a todos os sangue raros pegos pela ditadura, e que tinham seus sangues extraídos para benefício do comandante Fagner — e que era usado para rastrear outros como ele. Jorge, um bruxo desconhecido que precisa de seu sangue para resgatar sua filha, foi o responsável por libertar Caetano, o que acaba por inseri-lo na jornada do sangue raro. Ao decorrer da leitura, me questionei o motivo da escolha de Lucas Santana: porque colocar bruxos e personagens com sangue distintos para serem os protagonistas de uma história que se entende desde o início como política? No entanto, não precisei ir muito além para entender que essa decisão faz total sentido. Ao longo da história da humanidade, as bruxas são interpretadas como símbolo do mal e do perigo, aspecto que Lucas Santana faz questão de reforçar ao recorrer a esses personagens em sua narrativa. Ele encontra maneiras de criar discussões sobre perseguição e exclusão em uma sociedade autoritária que, além de não compreender as diferenças dos indivíduos, usa do seu poder para controlar, silenciar e eliminar. Essa lógica se mantém por todo o livro. Os bruxos e os sangue raros não são perseguidos apenas por serem diferentes, ou por sua dominação de magia, mas sim porque representam aquilo que o estado não consegue ter controle; aquilo que desafia a normalidade imposta pela sociedade que vive um regime militar. É no coronel Fagner que essa lógica encontra sua representação mais evidente. Mais do que apenas o antagonista na história de Caetano, ele é a personificação do funcionamento da ditadura militar: um assassino com interesses próprios nos sangues raros e que legitimiza a violência como forma de proteção coletiva. Ele torna evidente que o principal instrumento da ditadura neste livro é o medo, que se faz necessário para convencer a sociedade de que existe um perigo. Denunciar um sangue raro é quase como um dever cívico, sob a falsa promessa de proteção e até mesmo de cura para os indivíduos considerados diferentes. Isto pode ser relacionado a alguns eventos da história da humanidade, como ocorreu durante a caça às bruxas, em regimes ditatoriais ou em outros processos históricos de perseguição, e até mesmo sobre como, uma parte da sociedade vê e trata pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ até os dias atuais. “Meu coração estava acelerado, uma banda de maracatu tocando dentro de meu peito, meu sangue fervendo como nunca antes; eu sentia que minha pele explodiria.” Sangue Raro (p. 67) Um elemento muito presente e marcante em diversas cenas descritas no livro, é a violência, que em alguns momentos é utilizada para chocar, em outros para criar uma tensão maior na narrativa. É quase como se você não conseguisse ter tempo para respirar pois algo ruim logo acontecia. O mais interessante é que esse artifício, algumas vezes vem acompanhado do toque do maracatu que é utilizado como um recurso narrativo. O maracatu, que é uma manifestação cultural afro-brasileira de música e dança originária de Pernambuco, tem um toque marcado pelo som grave das alfaias, acompanhado das caixas de guerra e do tarol. Isto é utilizado para criar no leitor a mesma ansiedade que está sendo vivida por Caetano, dessa maneira, o livro transforma uma manifestação cultural em uma linguagem que conduz os momentos de suspense da história. Olinda, Pernambuco. Encontro de Maracatus de baque solto. Foto: Reprodução/Internet “Eu não era um assassino. Eu não era um monstro. Eu precisava ser bom. Ser bom o tempo todo, para compensar minhas falhas.” Sangue Raro (p. 156) Caetano talvez seja o aspecto que mais dividiu expectativas ao longo da leitura. Por diversas vezes, o protagonista se mostra muito vulnerável e até ingênuo demais, acreditando em muitos dos personagens que apareciam em seu caminho. Durante a história, ele foi sendo entendido, em muitos aspectos, como um personagem fraco, sobretudo diante da brutalidade que o cerca em todo o livro. A realidade é que, a falta de malícia de Caetano é intencional do autor, ao invés de uma limitação do personagem. Enquanto o livro vai se desenrolando em questões sérias, sobre segregação, desigualdade social e violência, a personalidade de Caetano era o que, de fato, trazia um respiro e uma paz necessária para que a história não se seguisse de maneira tensa e pesada o tempo inteiro. A partir do momento que ele fala que não é um assassino e nem um monstro, o autor toma para a história rumos que definem o contrário daquilo que foi inserido na narrativa dos sangues raros; é Caetano mostrando que o perigo nunca esteve de fato naqueles que eram vistos como os inimigos. E mesmo após uma possível mudança em sua atitude, em querer buscar vingança pelos anos que lhe foram tirados, e ele fora feito de bica; ainda assim, Caetano demonstra uma sensibilidade que se torna um contraponto ao bruxo Jorge que o acompanha nessa jornada, visto que, Jorge é o personagem forte e guerreiro que normalmente se espera em uma distopia. A escrita de Lucas Santana é fluida e versátil durante todo o livro. A maneira como constrói pontos específicos das cidades — indo de Recife e Olinda até Arcoverde e tantos outros espaços — aliada ao regionalismo linguístico pernambucano nos diálogos, aproxima o leitor através da narrativa que causa identificação quase imediata com a história. É de tal maneira que em alguns momentos nos colocamos no lugar de Caetano; vivemos o universo criado sob o olhar do sangue raro. É uma história escrita para todos, mas que de uma maneira muito específica nos atinge de formas diferentes. Seja através da descrição das festas de carnaval, das máscaras de la ursa — inseridas como elementos que podem ser utilizados para feitiços e causar ilusões — ou pelos momentos onde nos sentimos em um outro Pernambuco, narrado e retratado sob o impacto da devastação causada pela ditadura no livro. O resultado é um livro onde Lucas incorpora elementos enraizados da cultura popular, convencendo o leitor de que tudo aquilo é real e é justamente essa proximidade que faz da narrativa impactante. La ursa de Carnaval - Recife, 2020. Foto: Reprodução/Internet Ao final de Sangue Raro pensei novamente no que meu voinho dizia. Cresci acreditando que o perigo poderia ser a velha solitária que morava no terreno abandonado ou nas criaturas da minha imaginação. A realidade é que aquela mulher não era uma bruxa e nem nada do tipo, ela só era diferente; alguém que, de alguma forma, preferiria viver sua vida longe dos outros, em paz. Ainda que fosse uma bruxa, ela não tinha de fato feito nada a ninguém para que se tivesse criado esse medo nas crianças da rua. Por outro lado, Lucas Santana me faz pensar que os comentários de meu avô sobre a polícia, se devam aos ecos de uma geração que viveu os anos de ditadura e aprendeu a desconfiar do poder quando ele se apresenta como proteção. E que os perigos não vêm de quem pratica feitiços ou carregam sangue raro, mas talvez venham daqueles que juram proteger a população quando, na realidade, o fazem impondo o medo. É por isso que Sangue Raro permanece na memória depois da última página: utiliza a fantasia não para nos afastar da realidade, mas para nos obrigar a encará-la. SAIBA MAIS https://brasilescola.uol.com.br/cultura/maracatu.htm https://editoranacional.com.br/livros-buscar-detalhe/?id=660 https://www.amazon.com.br/stores/Lucas-Santana/author/B0892S4CV6?ref=ap_rdr&shoppingPortalEnabled=true https://www.instagram.com/lucassntn/ CURIOSIDADES Embora Sangue Raro seja profundamente marcado pela cultura pernambucana, Lucas Santana nasceu na Paraíba. Elu se identifica como uma pessoa não binária e vive atualmente em Recife, cidade que influencia fortemente o imaginário e os cenários presentes no livro. Lucas Santana é autore de O Silêncio do Mangue (Naci, 2024), A Trama da Morte e Fruto Podre (Editora Corvus, 2023), além do conto O Parque. Também publicou contos nas revistas Suprassuma (Editora Suma, 2023), The Dark e Pulpa, e integrou a antologia Rocket Pages (Editora Rocket, 2022).

  • Marcas do Imaginário: A Pele como Tela e Espelho da Alma

    Por Filipi Alexandre A tatuagem, historicamente, é ligada à identidade, seja ela a do indivíduo ou a de todo o coletivo. Surgiu há milhares de anos como rito de passagem, amuleto de proteção espiritual ou para marcar posições hierárquicas e guerreiras. Feitas com ossos e pigmentos naturais, as marcas representavam a história e a ancestralidade de cada um. O simples fato de ser uma expressão que faz da pele uma tela de pintura atribui a ela um caráter de expressividade e intimidade: por muitas vezes, é possível reconhecer no que as pessoas acreditam, valorizam e amam apenas observando o que riscam eternamente em seus corpos. E, assim como os humanos de milhares de anos atrás, o homem moderno busca expressar suas raízes na pele. É uma das inúmeras formas de gritar para o mundo que sua cultura existe e que a memória daquilo que o formou como ser humano é um pilar fundamental de quem ele é. Fotografia de Tawhiao, segundo rei Māori (1822 - 1894) Esse processo está profundamente ligado ao trabalho do tatuador pernambucano Marques Hudson, que transforma sua bagagem no design e seu conhecimento acerca do imaginário em combustível para seu trabalho autoral. Do Design à Tatuagem A relação de Marques com a arte começou muito cedo. Desde criança, ele já apresentava forte interesse por pintura, ilustração, animação e diversas áreas do mundo da arte. Esse interesse não era exclusivo dele; sua família também compartilhava essa paixão. Seus irmãos também desenhavam, faziam curtas-metragens e trabalhos com tipografia. Após sair do ensino médio, com 17 anos, ele iniciou a graduação em Design na UFPE, onde adquiriu conhecimentos que posteriormente influenciariam muito seu trabalho no mundo da tatuagem. Mas seu primeiro passo no mercado seguiu um rumo diferente: ele decidiu, primeiramente, mergulhar na criação de marcas, ingressando na área de branding design aos 18 anos, chegando a ter dois estúdios próprios e passando por diversas agências ao longo dos oito anos em que trabalhou nesse ramo. Mas ele sentia que esse não era seu verdadeiro caminho e que era necessário se reinventar. Marques Hudson | Tatuador “A sensação era nada mais, nada menos que a vontade de mergulhar na ilustração novamente. Eu estava saturado do mundo empresarial, do atendimento a empresas e desses desdobramentos que um estrategista de marca vive. E, durante todo esse processo, houve diversas vezes em que eu olhei para o mundo da tatuagem e senti um impulso para ele. Mas acabava ignorando. Até que, finalmente, saturado da profissão que eu vinha executando nesses oito anos, decidi fazer uma transição de carreira.” Esse processo não foi da noite para o dia. Foi uma construção longa, estruturada principalmente na busca pelo conhecimento necessário para realizar um bom trabalho, conhecimento esse que também foi acumulado ao longo de toda a trajetória. “E eu tinha muitas ferramentas valiosas comigo. Ferramentas que aprendi no mundo do design. Então trouxe diversos saberes para alinhar com esse novo mundo no qual eu estava entrando. E foi assim que comecei a dar os primeiros passos. Diria até mesmo que os primeiros passos foram lá atrás, com as tatuagens de chiclete e a caneta em gel.” Símbolos, Fauna e Identidade Tatuagem Carcará | Foto: Instagram O trabalho de Marques tem uma profunda ligação com quem ele é. Todo o aprendizado que conquistou ao longo da vida foi fundamental para a construção de sua estética única, que navega entre a bagagem teórica e afetiva que colecionou ao longo dos anos. “Eu tento trazer uma aplicabilidade da teoria do imaginário nas narrativas que construo nos meus projetos autorais, principalmente no que diz respeito à criação de conceitos, símbolos e arquétipos, que são faculdades de que gosto de me utilizar em cada nova criação.” A Teoria do Imaginário foi fundada por Gilbert Durand, antropólogo dedicado a entender a relação entre o homem e suas criações imagéticas, tendo como principal obra As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Mas a teoria de Gilbert Durand não foi a única influência de Marques; é importante ressaltar também o caráter afetivo presente em suas obras. “Quando vamos olhar para outras influências, essas outras seriam justamente o meu ambiente. O ambiente em que cresci, tanto do ponto de vista da natureza regional quanto da natureza nacional. A nossa fauna e flora brasileiras me trazem forte influência porque, inclusive, eu sempre fui muito apegado à questão de gostar de estar perto dos animais, estudá-los e conhecê-los melhor.” Todo esse conjunto de influências fica claro quando mergulhamos no processo de criação de suas artes, como, por exemplo, em seu projeto Deep Dive. Mergulho Profundo: O Processo por Trás do Projeto "Deep Dive" “E como eu cheguei até essa ideia é uma jornada que sempre começa em algum momento de abstração. Quase todos os meus projetos autorais refletem muito algo que estou abstraindo naquele momento em que os crio. No momento em que criei a coleção na qual o Deep Dive está inserido, foi um momento de aprofundamento na minha vida, aprofundamento sobre mim mesmo, uma retomada da aventura de me autodescobrir, aventura essa que eu havia deixado de lado há algum tempo. Tatuagem Deep Dive | Foto: Instagram E, nesse processo de voltar a me redescobrir, voltar a praticar meditação e voltar a estudar conceitos ancestrais, naquele momento, por exemplo, eu estava lendo as Upanishads védicas, principalmente o Bhagavad Gita. Então foi um momento de mergulho que eu estava dando dentro de mim mesmo. E, quando eu sentei para criar uma nova coleção, os símbolos, os arquétipos e os conceitos em volta disso estavam muito claros na minha cabeça. A partir disso, comecei a escolher gráficos que vestissem esses símbolos e arquétipos de uma maneira um pouco mais abstrata, envolvendo também tipografia. E, como eu havia dito, eu gosto de fauna. E um animal que mergulha profundamente, mesmo com o oceano completamente escuro na profundidade em que eles mergulham, são os cetáceos, principalmente as baleias. Então, a minha abstração como signo desse momento de mergulho profundo, mesmo em águas escuras e muitas vezes sombrias, foi a baleia-azul, a maior que existe. Porém, o enfrentamento do mergulho em si mesmo tem suas recompensas. Apesar do medo do autoconhecimento e da insegurança de fazer esse mergulho, a glória advinda desse enfrentamento é o esclarecimento sobre si e o desenvolvimento da autonomia. E isso vem representado pela estrela. A estrela é o símbolo da direção. E ela aparece quando o dia acaba e a noite escura surge. Ou seja, é mais um símbolo que vou capturando e adicionando ao projeto para trazer a ideia de que o mergulho profundo na escuridão é o que vai fazer a jornada levar à obtenção da luz. Da direção. E assim vão se construindo meus projetos autorais, a partir de experiências, sentimentos e conhecimentos que vão sendo convertidos, de maneira consciente, em símbolos, arquétipos e conceitos no geral.” Quando a Arte Encontra o Público Ao final de nossa entrevista, questionei Marques sobre como ele usa sua experiência com construção de marca para comunicar ao público seu trabalho autoral. Ele aponta que considera esse processo muito importante, mas que, no momento, prefere não expor seu processo de criação. Acredita no valor da construção que cada indivíduo faz ao contemplar seu trabalho, permitindo que quem está vendo admire, reflita, imagine e abstraia sobre a obra sem o viés do artista, apenas digerindo aquilo que está exposto. Essa é, atualmente, sua metodologia para se apresentar como artista. “É justamente a recepção positiva. A admiração pelos projetos, a troca de ideias, o interesse em querer adquirir um daqueles projetos exclusivos. Quase como se fosse a possibilidade de um colecionador de arte adquirir mais um quadro de tal pintor. Isso é satisfatório porque você enxerga o reconhecimento do público, mas também é assustador, no sentido de que você começa a deslizar na armadilha de querer ser mais produtivo, diante de uma questão que, para mim, não se trata de performance, e sim de sutilezas e abstrações pontuais.” Se milhares de anos atrás a tatuagem servia para registrar a história de um povo sobre a pele, hoje artistas como Marques Hudson continuam esse mesmo gesto por outros caminhos. Entre símbolos, fauna e identidade, suas tatuagens não apenas ocupam o corpo: elas contam histórias. Siga @imaginariomarques para acompanhar mais do seu trabalho.

  • Entre hennings e casquetes: como o medieval moldou a moda atual

    Por Rafaela da Hora Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Trecho do filme “Coração de Cavaleiro” (2001). Foto: Reprodução/Internet Ouvi-me, estimados leitores! A boa nova que vos trago é urgente! Voltamos à Idade Média! E não em termos de comportamentos, mas em termos fashion! Seja de forma direta ou indireta, o medieval ainda está presente em nossas vidas. Tal fenômeno pode ser chamado de medieval revival, e é denominado como um movimento cultural e estético que resgata o imaginário da Idade Média. Essa estética, assim como tantas outras, não surgiu do nada. Ela veio reinterpretada como uma válvula de escape do presente, preservando, assim, uma idealização do passado. O imaginário que temos do medievalismo, que é a devoção a elementos do período da Idade Média, é modificado com base nos fragmentos de nossa memória, assim como a moda faz ao replicar certas eras. Em alguns casos, o que é considerado e comercializado como medieval pode ser confundido com o estilo renascentista. À esquerda, uma fantasia de um traje medieval, e à direita, um traje renascentista. Foto: Reprodução/Internet Os primeiros sinais desse renascimento surgiram no século XIX, durante o período da Era Vitoriana. Nessa época, a Revolução Industrial já estava em sua segunda fase, e nisso, um passado campestre começava a desaparecer, dando espaço a um futuro mecânico que fascinava e ao mesmo tempo preocupava os vitorianos. Assim, apesar de grande parte da sociedade vitoriana considerar o período atrasado e o intitular como a Idade das Trevas, eles recorriam a uma sensação de nostalgia, querendo reinterpretar a época medieval. Vale ressaltar que a Grã-Bretanha estava numa fase de colonização em massa. Para se mostrarem superiores e evoluídos, eles se apropriaram da estética medieval, criando um paradoxo romântico e fantasioso, inspirados pelos contos de fada. Os vitorianos criaram o movimento dos pré-rafaelitas nas artes plásticas e essas obras criavam um cenário ambientado por belas donzelas e seus cavaleiros, além do uso de cores vibrantes. “La Belle Dame sans Merci”, de John William Waterhouse (1983). Foto: Reprodução/Internet Mas isso não ficou ilustrado apenas no campo artístico: na indústria têxtil e no design de interiores houve um movimento intitulado de Arts & Crafts, que trazia um ideal de retorno ao processo manual e criticava a indústria massificada. Eles usavam texturas naturais, como a flora e elementos de fantasia inspirados na época em que os objetos eram feitos de ponta a ponta pelo mesmo artesão. Em um aspecto social, os contos do Rei Arthur também foram remodelados, fazendo com que o personagem se tornasse um exemplo de herói cristão perfeito, promovendo valores como a moralidade, a lealdade e a grandeza do Império Britânico. A estética também foi adaptada ao vestuário e cotidiano vitoriano, especialmente em bailes de máscara e eventos sociais. Elementos como os botões frontais em vestidos, bainhas cortadas em formatos de losango e capas com mangas longas referenciando o houppelande conseguiram consolidar um visual que é reaproveitado até os dias atuais. À esquerda, ilustração de “Grandes Crônicas de França”, 1455. À direita, um Mourning Dress da Rainha Vitória, 1894. O detalhe proeminente são os botões frontais em ambos vestidos. Foto: Reprodução/Internet No século seguinte, especificamente em 1960 e 1970, a ascensão do rock'n'roll e os movimentos de contracultura, como os hippies, criavam um cenário de rebeldia, onde os jovens eram culpabilizados pelos problemas da sociedade. A subcultura Mod, derivada de Modernista, rompia com o conservadorismo da geração anterior e possuía inspiração em ícones como a Twiggy, supermodelo britânica conhecida por revolucionar os padrões de beleza da época. Quando a subcultura passou a se popularizar, alguns elementos foram preservados para o estilo psicodélico. O termo era dado às drogas que alteravam a percepção e cognição, a exemplo da LSD e a psilocibina. O uso de substâncias era algo recorrente entre os músicos da época, e, consequentemente, influenciaram diretamente a estética da década. Como já disse Ringo Starr, integrante dos Beatles: "Acho que o LSD muda todo mundo. Com certeza faz você enxergar as coisas de forma diferente. Faz você olhar para si mesmo, para seus sentimentos e emoções. E me aproximou da natureza, de certa forma — da força da natureza e de sua beleza. Você percebe que não é só uma árvore; é um ser vivo. Minha perspectiva certamente mudou — e você se veste de forma diferente também!". Esse espiritualismo romântico aproximava-se dos ideais medievais. O folk, gênero musical que se popularizou na década de 1960, contava com uma estética naturalista e mística, com instrumentos que misturavam as cantigas medievais com o som moderno. Artistas como Donovan, Sunforest, e The Fool se denominavam como trovadores, e personificavam essa psicodelia com a visão sessentista do que foi a era medieval. Eles traziam figurinos de palco e ensaios fotográficos que saíam diretamente de contos fantasiosos, desafiando a percepção vitoriana do período e mostrando um lado mais esperançoso e ensolarado. À esquerda, o artista Donovan e à direita, o grupo The Fool. Foto: Reprodução/Internet Nos anos 1990 para a virada dos anos 2000, o estilo medieval ganhava força com uma estética sombria, fazendo referência ao gótico e às bruxas. Filmes como Jovens Bruxas, Da Magia a Sedução, Abracadabra e séries como Buffy, a Caça-Vampiros trazem releituras das figuras mitológicas, unindo a modernidade e elementos medievais, através de acessórios e peças de roupa. Além disso, artistas como Fleetwood Mac e Kate Bush também foram influências nessa estética. Trecho do filme “Jovens Bruxas” (1994). Foto: Reprodução/Internet Durante a pandemia, essa estética foi impulsionada graças ao aplicativo TikTok, quando os usuários da plataforma batizaram o movimento como "whimsical goth". Roupas com aspecto vintage, como se tivessem saído de contos de fada, reinventaram a aura boêmia e a figura das bruxas, transformando a persona de uma mulher antiquada e gargalhada assustadora em uma mulher dotada de sedução e jovialidade. Nicole Kidman como Gillian Owens em “Da Magia à Sedução”, 1998. Foto: Reprodução/Internet Entre longas passagens de tempo, o que levamos em consideração é que o medieval sempre esteve presente em nossas vidas. Esse revivalismo não quer dizer que devemos ignorar o presente, pelo contrário, ele só quer demonstrar uma representação do passado pela ótica atual. Não é possível retornarmos a outros tempos completamente. Como já citado no início, esse apelo ao passado é um sintoma de desilusão com o futuro. Ao invés de imaginarmos o amanhã, nossa geração recorre a estéticas fantasiosas, que funcionam quase como uma declaração de amor à criatividade humana, preservando a memória dos antepassados. É uma oportunidade de conexão para reconhecermos como a época moldou o presente. A moda nos ajuda com isso. Parafraseando a influencer Kaz Rowe: “roupas antigas sobrevivem pelo mesmo motivo que muitas outras não sobrevivem: porque foram amadas.” SAIBA MAIS Neste vídeo, a youtuber Aline Pascholati explica um pouco do que foi o Arts & Crafts: para acessá-lo, clique aqui! A música "Strawberry Fields Forever", dos Beatles demonstra um visual fantasioso, fazendo referência a psicodelia dos anos 60. CURIOSIDADES No Brasil, o psicodélico tomou forma graças ao movimento da psicodelia nordestina. Nomes como Ave Sangria e Zé Ramalho criavam uma nova sonoridade com a mistura do rock e ritmos ancestrais, como o coco. O medieval revival também esteve presente em desenhos animados, principalmente em Shrek.

  • A escrita por trás dos roteiros da "Junina Traquejo"

    Por Natyelle Soares Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Palavras iniciais Quando se escreve para a quadrilha junina, não tem uma regra, sabe? Tem vezes que a ideia brota da vida, do corpo, das emoções, ou de um troço que nem dá para explicar. É assim para Hérica Araújo roteirista da Junina Traquejo. É tudo meio imprevisível. A arte sempre esteve do lado dela. Desde pequena, vivia em meio ao circo e a cultura popular da família. Por parte de mãe, ela vem de uma linhagem circense — os famosos Irmãos Araújo, do Globo da Morte. Cresceu ajudando na apresentação, fazendo mágica, brincando com malabares, mergulhada nas lembranças que hoje viraram combustível para criar histórias intensas que tomam vida na quadra. Nesse papo com a colunista Natyelle Soares, Hérica conta como as ideias chegam, fala das inquietações, e desse jeito de criar que vive mudando até chegar ao para o público. Trajetória e encontro com a arte [NATYELLE] Queria saber do seu caminho com a arte e como você começou a escrever pros festejos juninos. [HÉRICA] Nem sei dizer o momento certo em que tudo começou. Arte sempre foi coisa de casa. A família da minha mãe é do circo; meus tios ajudaram a criar o Globo da Morte no Brasil. Eu já cresci no meio dos equipamentos, ajudando o mágico, o palhaço, quem estivesse por perto. Para a gente, brincar era fazer mágica, malabares, era esse universo. Agora, os roteiros para a quadrilha vieram depois. O Wanderson me chamou para assumir na Traquejo depois que o roteirista antigo saiu. Como eu já fazia parte do Grupo Máquina Teatral, ele achou que eu dava conta. [N] Você já escrevia antes? Como você acabou nesse mundo junino? [H] Já sim, mas não tem um começo certo. Veio de oficinas, de vivências. Às vezes é uma conversa de esquina, uma história que escutei, uma música. Isso tudo vira material para o roteiro, vira metáfora. Acabei indo nesse caminho pela poesia desses ciclos. Não é só a festa em si. O São João é forte, mas tem algo a mais. Eu vejo ali uma forma de manter tradição, de resistir com a identidade nordestina. A roteirista Hérica Araújo, responsável pela construção narrativa da "Quadrilha Traquejo". Foto: Reprodução/Internet A concepção dos roteiros [N] Como nasce um roteiro para Traquejo? Vem do tema, personagem, emoção...? [H] Cada vez é de um jeito. Tem dia que nasce do tema, outro de uma sensação, às vezes de um personagem, ou uma ideia aleatória. A emoção tem muito peso, a dor também. Do nada pinta uma cena, um nome, uma faísca. Aí, só depois, percebo que dá para transformar numa história de quadrilha. [N] Você cria tudo sozinha ou rola uma troca com a galera? [H] No fim das contas, é sempre coletivo, de algum modo. Mesmo um roteiro que tem minha cara nasce de algo que vivemos juntos. Nunca rolou um processo 100% coletivo, mas não fecho a porta para isso. [N] Quando você começa a escrever, já imagina as cenas acontecendo na quadra? E sua escrita mudou como nesse tempo? [H] Quase nunca. No começo, tudo parece bagunçado, fora de controle. As cenas vêm em impulso, vou organizando depois para entender o que encaixa ou não. Minha escrita mudou demais. Ganhei confiança. Antes, era teatro demais, hoje deixo a dança mandar, porque o espetáculo precisa desse movimento. Processo criativo [N] O que te inspira e como você equilibra tradição e novidade? [H] A inspiração chega sem pedir licença. Sou muito no instinto, autodidata, não tem método. Às vezes bate ansiedade porque não dá para saber quando a próxima ideia vai cair. A tendência de equilibrar tradição e novidade acontece muito conversando com Wanderson, que mexe direto nos detalhes do espetáculo. Preciso cutucar ele também, não deixo as coisas ficarem engessadas. O mais difícil é não conseguir escolher quando tudo começa. [N] Você pensa na reação da plateia enquanto cria? [H] No início, nem passa pela cabeça. O insight já vem cheio de emoção. Depois que escrevo, paro para pensar em como isso toca o público. A construção dos personagens [N] Como surgem os personagens? Vocês se inspiram em gente real? [H] Vai de cada história. Tem hora que já aparecem juntos com a primeira ideia, às vezes demoram para chegar. A maioria é baseada em gente de verdade, mas sempre vira metáfora, fantasia. O que falta eu invento para caber na narrativa. [N] Quanto de você aparece neles e qual mais te marcou? [H] Tem eu por todos os lados, só que transformado para caber ali. Pau e Pano foi o roteiro que mais marcou, sem dúvida. Foi o primeiro encomendado, e descobrir quem contaria aquela história foi difícil. Momento e composição dos personagens em cena. Foto: Reprodução/Internet A roteirista na prática da quadrilha [N] Como é ver o roteiro virando espetáculo? [H] É agridoce. Tem horas lindas, outras frustrantes, depende de como a galera executa. Quando falta cuidado, pesa, e sempre bate um cansaço emocional — depois de tanto viver e reviver aquela história, entregar o texto já é atravessar tudo de novo. [N] O espetáculo muda muito do papel para a apresentação? Você assiste aos ensaios? [H] Com certeza. Fica mais direto, mais centrado na dança com o tempo. Sempre vejo os ensaios e fico ajustando. Escrevo solto, depois corto, adapto para o tempo de 25 minutos, e isso dói. Sempre algo fica de fora e, sinceramente, machuca. Reações do público [N] Alguma reação do público ficou na memória? Já mudaram o sentido do que você escreveu? [H] No ano da apresentação de Pau e Pano, a cena da rezadeira celebrando o casamento quebrou a tradição, aquilo marcou. E Dagmar, de Amar Cura: todo mundo queria saber por que ela não casava com a noiva. Ele mesmo foi um personagem que cada pessoa entendia de um jeito. [N] O que mais te emociona desse retorno? [H] Ver que ajudo a manter a cultura nordestina viva, e quando alguém se enxerga na história. Detalhe de personagens que compõem o universo da apresentação, revelando a diversidade de figuras, figurinos e interpretações que fortalecem a identidade visual e dramática da quadrilha junina. Foto: Reprodução/Internet Planos futuros [N] O que esperar dos próximos roteiros? Quer experimentar outros formatos? [H] Nem eu sei. Sempre tem uma expectativa, mas também medo, porque é puxado demais. As ideias vêm picadas, guardo um monte, às vezes levo anos até fazer sentido. Quero experimentar sim. Tenho muita vontade de ver essas histórias em audiovisual, ou até virar livro. [N] Já sonhou com uma história para contar? [H] Nunca planejo. Meu processo nunca foi assim. Meu sonho agora é descobrir qual será a próxima história, e se ela vai aparecer de verdade. Últimas palavras A escrita da Hérica não segue receita. Ela nasce do susto, das urgências, dos sentimentos. O roteiro acaba sendo mais que história na arena: é experiência, memória, cultura, e identidade. No fim, esse caos no processo é o que dá força para tudo que ela cria. Antes de qualquer método, vem o sentir.

  • NEM TODO SANTO FAZ MILAGRE NO SÃO JOÃO

    Casos de Petrúcio Amorim e Flávio José expõem, em meio às mudanças nas festas juninas, o apagamento gradual de artistas que ajudaram a construí-las Por: Madu Rodrigues “Tá vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar.” “E pra aumentar o meu tédio / Eu nem posso olhar pro prédio / Que eu ajudei a fazer.” Lançada em 1979, a canção Cidadão, composta por Lúcio Barbosa e eternizada na voz de Zé Ramalho, se transformou em um dos retratos da desigualdade brasileira. A música conta a história de um trabalhador que constrói prédios, escolas e casas, mas permanece excluído dos espaços que ajudou a erguer. Mais de quatro décadas depois, a metáfora continua atual. Não apenas para quem trabalha na construção civil, mas, também, para aqueles que ajudaram a construir a cultura popular brasileira. No último dia 14 de junho, durante uma apresentação no Polo do Alto do Moura, em Caruaru-PE, o cantor e compositor Petrúcio Amorim fez um desabafo que repercutiu entre artistas, produtores culturais e admiradores do forró. Visivelmente emocionado, afirmou estar triste e declarou: “não era para eu estar aqui”. A fala partiu de um dos artistas mais importantes da música nordestina contemporânea, autor de Tareco e Mariola, Meu Cenário e Confidência – clássicos que ajudaram a consolidar a identidade sonora do São João pernambucano. Esse desabafo surgiu quando o artista revelou que sua apresentação estava inicialmente prevista para um polo da zona rural do município e que precisou dialogar com a produção do evento para se apresentar no Alto do Moura, um dos espaços mais simbólicos da cultura popular caruaruense. A mudança, no entanto, não se trata de um pedido de privilégio individual, mas do reconhecimento de um vínculo histórico com o local. Nascido em Caruaru e com décadas de contribuição para a construção da identidade musical da festa, Petrúcio já ocupou os principais palcos do evento ao longo da carreira, o que torna sua presença no Alto do Moura menos uma exceção e mais a reafirmação de uma trajetória profundamente ligada ao próprio espaço cultural da cidade. Foto: Jorge Farias O episódio não pode ser interpretado como um simples desabafo. Ele expõe uma sensação compartilhada por muitos artistas que dedicaram décadas à construção das festas juninas e hoje observam uma inversão de prioridades. Os mesmos nomes que ajudaram a transformar o São João em patrimônio cultural, atrativo turístico e marca identitária do Nordeste frequentemente ocupam posições secundárias em programações cada vez mais orientadas pela lógica do mercado. Essa discussão também ganhou força poucos dias antes, quando Flávio José criticou publicamente a perda de espaço do forró tradicional nas festas juninas. Em meio ao impasse envolvendo a reavaliação de seus shows na Bahia e o reajuste de seu cachê, o cantor relacionou a situação às mudanças de prioridade na ocupação dos palcos e à forma como o gênero vem sendo tratado dentro da programação. Em nota publicada nas redes sociais, afirmou: “Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”. O desfecho do caso veio em 3 de junho, quando ele anunciou o cancelamento de sua agenda na Bahia após a falta de acordo em torno do cachê, que havia passado de R$250 mil, em 2025, para R$350 mil, em 2026, e foi alvo de questionamentos pela gestão pública, que buscava reavaliar ou reduzir o valor. Essa situação ultrapassou a dimensão contratual e expôs uma contradição mais ampla: enquanto nomes ligados ao forró tradicional enfrentam forte contestação e pressão por redução de cachês, atrações de outros gêneros musicais seguem recebendo valores que ultrapassam a marca de R$1 milhão durante o período junino. Foto: Prefeitura de Campina Grande O problema não é a presença de outros estilos musicais. O São João sempre dialogou com diferentes influências. O problema surge quando a exceção se torna regra e quando a identidade da festa passa a ser tratada como um detalhe decorativo. Em muitos casos, a sanfona, o triângulo e a zabumba aparecem apenas como elementos cenográficos de um evento cuja programação principal já não dialoga com a tradição que lhe deu origem. Existe uma ironia difícil de ignorar. Nunca se falou tanto sobre patrimônio cultural. Nunca houve tantas campanhas institucionais exaltando a importância do São João para o Nordeste. Nunca se investiu tanto na promoção turística da festa. Ao mesmo tempo, artistas responsáveis por construir esse patrimônio precisam constantemente reivindicar reconhecimento. A cultura popular brasileira parece viver uma relação de conveniência com o poder público e com o mercado. Quando é necessária para atrair turistas, movimentar a economia ou fortalecer uma marca territorial, ela é celebrada. Quando chega a hora de distribuir investimentos, definir protagonismos e construir programações, muitas vezes perde espaço para aquilo que oferece retorno mais imediato em números, visualizações e engajamento. O São João de Caruaru e de tantas outras cidades não nasceu dos grandes escritórios de entretenimento. Ele foi construído por sanfoneiros, compositores, trios pé de serra, mestres da cultura popular, quadrilhas, artesãos e brincantes que mantiveram viva uma tradição mesmo quando ela não ocupava os holofotes nacionais. Foram esses artistas que transformaram a festa em referência cultural antes que ela se tornasse uma potência econômica. Por isso, o desabafo de Petrúcio Amorim não fala apenas sobre Petrúcio. A crítica de Flávio José não fala apenas sobre Flávio. Ambas revelam um conflito maior: o risco de transformar a cultura em produto e esquecer as pessoas que a construíram. “Hoje o homem criou asa / E na maioria das casas / Eu também não posso entrar.” O verso final de Cidadão talvez nunca tenha dialogado tanto com a realidade de muitos artistas populares. Afinal, quem ajudou a construir a alma do São João não deveria precisar lutar para encontrar lugar dentro dele.

  • Nova estética junina redesenha a figura tradicional do "caipira"

    Por Madu Santos Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins Quadrilha junina no início do século XX, com roupas típicas. Foto: Reprodução/Internet “A moda é um produto do meio cultural e, hoje, não se tem mais a identidade do ‘caipira’ no estilo de antigamente. O São João parece mais uma vaquejada”. Essas frases foram proferidas pelo designer e alfaiate Alex Santos ao ser questionado sobre as roupas que são confeccionadas para o período do São João. Ele afirma que elas revelam o afastamento da figura do “caipira” nas festas típicas. Esse fator reverbera não somente nos shows e nos artistas convidados a se apresentar, que representam, cada vez mais, algo massificado, mas também na própria forma de se vestir do público consumidor e cocriador do São João. O modo de vestir-se é um ato comunicacional através do qual o indivíduo produz significação, mas ele também se modifica de acordo com as mudanças que a própria sociedade enfrenta. Assim, a criação de uma nova estética junina denuncia o surgimento de um conceito bastante atual atribuído ao São João. Estilista e designer, Alex Santos, formado na UFPE, Campus Caruaru. Foto: Instagram As origens rurais da festa no Nordeste, com costumes tradicionais relacionados ao ciclo das colheitas agrícolas e ao calendário religioso, tornaram-se apenas uma das faces desta manifestação, que passou a sofrer influências das cidades, do aumento da industrialização e do próprio consumo do espetáculo. Hoje, a festa é marcada por um hibridismo cultural, que tenta – e consegue - misturar o tradicional com o teor comercial da modernidade produzido para as massas. Como já citado anteriormente, essas transformações também são visíveis nas vestimentas mais usadas pelos participantes da festa – artistas, patrocinadores, turistas ou até os locais. As roupas juninas referentes às raízes do São João, como as mangas bufantes, os vestidos de chita, o xadrez, as peças remendadas e os chapéus de palha remontam aos bailes franceses da Idade Média – por exemplo, a dança, a ideia de quadrilha, vem dos bailes franceses do século XVIII. No caso das roupas, o grupo social conhecido como “plebe” foi o principal responsável por criar a figura do “caipira”, típico personagem do período junino, pois os integrantes desse grupo copiavam os looks, peças de roupas e acessórios da Aristocracia e da Nobreza, entretanto, de uma maneira mais caricata e popular, devido às poucas condições financeiras que possuíam. Pessoas com trajes juninos. Foto: Reprodução/Internet Hoje, em um outro contexto, percebe-se uma mistura de elementos e até a incorporação da contemporaneidade com, por exemplo, a estilização do matuto e da própria estampa xadrez, e as roupas dos vaqueiros mescladas com a indumentária do sertanejo ou boiadeiro estilo country. O estilista e designer Alex Santos aponta essa descaracterização presente no vestuário e na própria realização da festa. “A festa de São João, que deveria ser significativa para nossa terra, está se tornando muito genérica. Não tem mais cara do São João da gente. Tem a de um sertanejo qualquer, do Centro-Oeste ou Sudeste. Existem diversas identidades de ‘caipiras’. E, ao longo do tempo, fomos perdendo muito da identidade do nosso São João. Inclusive, na forma de se vestir”, afirma Alex. A Feira da Moda de Caruaru, localizada no Parque 18 de Maio e reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, é um dos principais polos comerciais destinados à compra e venda também do vestuário. Durante o mês de junho, o fluxo de turistas na cidade aumenta e a feira torna-se um dos pontos turísticos de maior preferência deles, mas também dos locais. Dessa forma, as ofertas das roupas, nos boxes presentes no local, demonstram uma espécie de padronização dos looks mais procurados pela clientela desse polo. A comerciante Sheila Luna, que trabalha há 25 anos com a venda de roupas, fala sobre as principais escolhas do público neste período junino. Comerciante e proprietária de um banco na Feira de Caruaru, Sheila Luna. Foto: Instagram “As tendências que estão bem em alta, características do São João, são as calças resinadas, aquelas de couro fake; as blusas no modal, com mangas compridas, bastante detalhes e brilhos. Mas os consumidores também procuram muito shorts, saias, vestidos, todos na tendência do corino”, afirma Sheila. Além disso, conforme a feirante, o xadrez não está entre os produtos mais vendidos em seu banco, mas que o pouco que oferece, procura sempre um xadrez mais estilizado. Nesse sentido, observa-se que os elementos tradicionais nas roupas juninas deram espaço a uma nova estética, na qual afastam-se, cada vez mais, da figura do “caipira”. Banco com roupas, na Feira da Moda, localizada em Caruaru (PE) (28 de Maio de 2026). Foto: Madu Santos No entanto, mesmo com uma modificação no estabelecimento de signos e símbolos nessa manifestação cultural, ainda existem pessoas que trabalham com a confecção de roupas “típicas”, principalmente para o mês de junho, e que mesclam o tradicional e o moderno. Segundo a costureira Salete Tabosa, que trabalha como profissional na área da costura de trajes juninos e fantasias há 18 anos, há uma necessidade de se adaptar as novas demandas do seu público. “No início, eu usava muito xadrez, chita, bicos e fitas. Hoje, as preferências dos meus clientes são sempre novidades e lançamentos”. A entrevistada ainda complementa que, devido ao favoritismo de sua clientela, todos os anos ela cria uma coleção exclusiva usando elementos tradicionais para não perder a característica junina, mas com modelos que acompanham as tendências anuais. Por exemplo, neste ano, um dos seus lançamentos chama-se “Brasileirinhas”, no qual a profissional mesclou elementos como o xadrez, as fitas e os bicos nas cores verde e amarelo, por causa da realização do maior evento esportivo, a Copa do Mundo de 2026. A mistura de elementos no São João e até a integração de uma nova identidade das festividades ainda é visível em um dos principais lugares que compõem o período junino, na cidade de Caruaru (PE), o Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga. De acordo com a estudante Lyzandra Duarte, de 20 anos, que diz frequentar bastante o local, há uma grande padronização na escolha das roupas por parte do público-alvo, sempre com a presença do couro e do brilho, e com o xadrez aparecendo só alguma vezes. Ela ainda argumenta que esse fator se intensificou com a chegada das lojas de R$ 20,00 na cidade, o que, automaticamente, aumentou o acesso ao setor do vestuário, facilitando a normalização de certos estilos. Lyzandra Duarte com família e amigos, no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga (31 de Maio de 2026). Foto: Arquivo Pessoal Nesse contexto, percebe-se uma significativa influência das redes sociais, principalmente TikTok e Instagram nas tendências das roupas para as festas do mês de junho. Essas redes citadas tornaram-se importantes agentes influenciadores na vida dos seus usuários. O contexto apresentado, diante da inserção das redes sociais no cotidiano contemporâneo, é perceptível em alguns dos relatos. Ainda de acordo com a estudante Lyandra Duarte, essas mídias influenciam os usuários e mostram que as tendências vão mudando e, através das redes, as pessoas se adaptam. Salete Tabosa, costureira de trajes juninos e fantasias há 18 anos. Foto: Instagram “Sempre quando surge uma tendência, as pessoas vão se adaptando a ela. Se eu gosto de alguma roupa que vejo alguém usando no TikTok, por exemplo, já penso em usar e ir adaptando ao meu estilo”, afirma a estudante. Essa situação também é vista na realidade da costureira Salete Tabosa que relata usar referências das redes sociais na criação de sua coleção anual, como uma forma de atualizar seus modelos para o momento. Além disso, a comerciante Sheila Luna também encontra essa influência externa no seu comércio. “Acontece muito de chegarem no meu banco na feira, querendo o que passa na TV, nas redes sociais, o que pessoas famosas vêm usando ultimamente nesses meios, principalmente, no Instagram”, atesta Luna. A moda e a sua comunicação sofreram várias transformações desde o surgimento do meio digital, devido à diminuição de sua exclusividade as elites e também devido à própria ideia de democratização da informação. Agora, os indivíduos, de qualquer grupo ou classe social, passam não somente a aderir a moda, mas também a cria-la por meio de suas próprias redes, como as citadas. Segundo o estilista Alex Santos, a transformação que ocorreu nas roupas juninas reflete a nossa sociedade, que não se importa tanto com o contexto cultural, porém o status e o que é instagramável tornaram-se foco desta geração, usando até mesmo como referência as trends do TikTok, traduzidas como tendências. Dessa forma, percebe-se que a plataforma é grande influente nos padrões atuais, e o São João, assim como a Feira de Caruaru e o Pátio de Eventos são alvos dessa interferência cultural. Em suma, é imprescindível afirmar que as redes sociais foram, de certa forma, um dos aspectos responsáveis pelas mudanças na simbologia do vestuário junino nos dias atuais. O tradicional do São João, ainda tenta reafirmar a figura do “caipira”, procurando sustentar-se em alguns elementos, como o tema do São João de Caruaru: “Tecido de tradições, costurando gerações”. Entretanto, a população, ao receber tantas influências e referências através das redes, mudam sua forma de vestir-se, e assim, indiretamente, criam uma nova estética, misturando na composição itens de couro, cores como o preto e o marrom, paetê, brilho, botas e chapéus, com detalhes do estilo country, muito difundidos no ambiente virtual. Dessa forma, profissionais como a costureira Salete Tabosa e a comerciante Sheila Luna, que possuem uma demanda maior neste período festivo, precisam procurar um equilíbrio entre o tradicional e o moderno, mesclando elementos das duas propostas, o que confirma a presença de um hibridismo cultural na comunicação das vestimentas juninas.

  • "O Encontro", de Justine Lévy, e entre eu você

    Por Paula Donato Trabalho aprovado por: Marcelo Martins e Nilton Barros Isabelle Doutreluigne. Foto: Reprodução/Internet Louise aguarda no balcão, Justine fuma cinco maços ao dia e eu vos escrevo essa crítica. Três mulheres unidas pela espera, pelo tabaco e pela relação edipiana que ronda a figura da mulher e da mãe. “Sou a melhor coisa que mamãe já fez”, é como Justine Lévy abre seu primeiro livro. O Encontro (1996, Editora Record) é um livro que poderia ser uma confissão envergonhada, mas que Justine se limitou a lançar, apenas, para alguns milhões de pessoas no ápice dos seus 20 anos; e nos deu a oportunidade de ficar aliviados ao descobrir, desse lado do mundo, que uma filha ressentida é a mesma em todo lugar. Neste livro, Louise e Isabelle, mãe e filha e filha e mãe respectivamente, encontram-se no L’Écritoire, um restaurante localizado na Praça da Sorbonne, em Paris, e discutem a recém-chegada de Isabelle de Kuala Lumpur, da Malásia. Louise toma um café, Isabelle toma uma cerveja; Louise pensa em como sua mãe está bonita, de como sempre fora bonita, e Isabelle chora pela perda das mulheres de sua vida; nunca pela perda da própria filha, no entanto. Era conhecida por ser uma mulher volúvel, marcada pela beleza surrealista e pela decadência romantizada dos anos 1960. "Mamãe mente. Aí está. É a sua forma de curar a depressão, seu remédio para a doença de se sentir desimportante." O Encontro (p. 11) A dinâmica e a escolha minuciosa de palavras entre as personagens revelam uma figura ambivalente de Isabelle, o resultado de quando uma femme fatale se torna mãe. Justine suspende o afeto pela figura maternal da mesma maneira que suspende o tempo no livro. Temos acesso a duas mães e duas filhas: sem aviso nenhum, somos constantemente jogados para o pensamento das mulheres em momentos fundamentais de nostalgia. Quando, no restaurante, Louise revira os olhos para uma piada da mãe, eu, você e Justine temos acesso completo à narrativa familiar que resultou nessa reação. Justine Lévy. Foto: Reprodução/Internet Sendo filha de Bernard-Henri Lévy, considerado um dos líderes do movimento dos Novos Filósofos em 1976, a autora conseguiu esquivar da sombra do pai e concentrou a narrativa na figura materna em suas obras. Isabelle Doutreluigne, com personagem inspirada no mesmo nome, faleceu deixando como legado apenas uma figura de ex-mulher e mãe atormentada. Une drôle de peine (2025, Editora Stock), ainda sem previsão para adaptação no Brasil, é a obra mais recente da autora, que se certifica de preservar a memória de Isabelle mais de 20 anos após a sua morte, e pela segunda vez. Neste livro irônico e melancólico, Justine tem quase a idade que sua mãe tinha quando lançou O Encontro. Então, se há 30 anos tivemos um vislumbre do passado e, até então presente, agora temos a figura central da maternidade incorporada na própria autora. “Continuo tão sensata quanto antes, tão sem imaginação: gasto muita energia tentando não ser como você, mãe. Eu não conseguiria ser criança e não sei ser adulta.” (excerto retirado do site da Editora Stocks) Numa tradução livre, Uma Estranha Tristeza (2025) vai abordar a materialidade do luto que Louise – e Justine – sentia desde O Encontro, mas desta vez saindo do campo emocional e lidando com a perda, de modo que todos os versos franceses ainda não a fariam alcançar a pele da mãe, mesmo quando sua mãe, em vida, já era ausência. Embora meio ficcional, meio autobiográfico e totalmente melancólico, os livros não fazem parte de uma saga, pelo menos, não de uma saga literária, mas contam a história de uma vida inteira que foi definida por uma presença-ausência que deveria, acima de tudo, tê-la ensinado a ser uma filha. "O Encontro" de Justine Lévy (1996, Editora Record). Foto: Reprodução/Internet Descobri Justine Lévy em 2016, num sebo de livros para onde eu gostava de ir quando queria fugir das aulas e/ou flertar com um de meus colegas. Ganhei o livro com um adesivo que indicava o valor de 5 reais e um garrancho em formato de letra que dizia “com amor, para Gaby”. Não tem “y” no meu segundo nome e ninguém, além dele, nunca me chamou de Gabriela, mas o livro ficou marcado comigo desde então. Um evento de tomada como esse só se repetiu anos depois, quando comecei a estudar linguística e pude analisar o livro por mais uma das várias interpretações que eu já havia aplicado ao texto. Na semiótica greimasiana, teoria criada por Algirdas J. Greimas e que estuda como os sentidos são construídos a partir de estruturas narrativas, existe um percurso de análise de sentido que se chama “esquema canônico narrativo”. Através de quatro modalidades (dever, querer, poder e saber), analisamos como um sujeito (tido como destinador ou enunciador, dependendo da maneira como você analisa) manipula o destinatário (destinatário ou enunciatário) a realizar uma ação (performance) através dos atributos que ele adquire (competência) até chegar ao resultado (sanção), seja ele esperado ou não. Como escritora e crítica, comecei a pensar o papel do crítico como uma figura que busca orientar a paixão – seja ela simples ou complexa – sobre uma obra que não lhe pertence. Sua influência decorre do juízo que formula sobre a obra e, principalmente, da relação de confiança que estabelece com seus leitores. Sua sanção da narrativa, positiva ou negativa, pode influenciar o modo como o leitor se relaciona com ela. Mas não me interprete errado, pouco me importa se você, leitor, vai sair dessa publicação e procurar o arquivo digital do livro para tirar suas próprias conclusões com relação às nossas protagonistas, Louise e a mãe, ou entre Justine e Isabelle ou ainda, entre mim e o livro. No entanto, me interessa muito mais o nível de confiança que foi construído entre mim e você até esse momento do texto. Ao longo de minha crítica, tento brevemente contextualizá-lo quanto ao meu livro favorito, não só, de modo deliberado, deixando de lado um ponto crucial da história, mas, principalmente, o modificando de maneira consciente: Isabelle nunca chega ao encontro. Algum ou outro detalhe foi modificado para efeito de sentido e embasamento de minha meia-verdade que por certo não será comprovada, a não ser pela leitura atenciosa do romance. Embora utilizado como exercício prático de minhas supostas habilidades para a crítica, a função principal deste texto é, para a semiótica e para mim, despertar uma paixão: seja ela a da curiosidade, da revolta ou da vergonha por ter confiado em mim até aqui. Torço para que, ao contrário da ausência de Isabelle em mais um dos encontros marcados com a filha, o meu leitor não se contente com palavras bonitas, informações pela metade e, talvez, mascaradas com verdades construídas por minhas palavras. Para o meu leitor e para Justine, desejo a liberdade da ponderação e do discernimento de não se contentar com falácias produzidas por figuras de autoridade com as quais me revisto neste momento. CURIOSIDADES Além de escritora, Justine atuou em 3 obras: Mauvaise fille (2012), adaptação de seu próprio livro; Cet amour-là (2001), roteirizado por Marguerite Duras; e Paris dernière (1995), onde faz participação em um episódio. Justine Lévy já foi traída pelo marido com a Carla Bruni (compositora da famosa música "Quelqu'un m'a dit", ou, para os locais, "Baby Fala pra Mim" da banda Desejo de Menina), que era namorada do Bernard-Henri Lévy, na época. E, obviamente, escreveu um livro contando tudo isso: Rien de grave (2004). SAIBA MAIS https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/8/24/ilustrada/14.html https://bernard-henri-levy.com/en/photos/isabelle-doutreluigne-the-last-surrealist-woman/ https://www.editions-stock.fr/livre/une-drole-de-peine-9782234094048/

  • Do holofote ao anonimato: a história do estilista Markito

    Por Milena Pontes Trabalho por: Paula Donato e Marcelo Martins A chegada de junho marca a volta de pautas importantes ao centro de discussões. O orgulho LGBTQIAPN+ ocupa espaço nas redes sociais, como forma de reconhecer as lutas e vivências da diversidade ao longo da história da sociedade. Além disso, o mês também marca a perda de uma das figuras mais emblemáticas da moda brasileira. Há 43 anos, morria Markito, um estilista de destaque nos anos 1970-1980, que vestiu artistas e personalidades nacionais e internacionais, mas que teve seu legado ofuscado pela sua morte precoce em decorrência da AIDS, em uma época marcada por medo, desinformação e preconceito. Com uma estética marcada por sofisticação, brilho e influência do glam rock, Marcus Vinícius Resende Gonçalves, conhecido como Markito, consolidou seu nome na cena da moda, com criações frequentemente associadas ao universo festivo dos anos disco. Suas peças vestiram ícones como Gal Costa e Farrah Fawcett, além de assinar alguns dos figurinos mais marcantes do Ney Matogrosso. Markito. Foto: Reprodução/Internet Pode-se dizer que ele revolucionou a moda no Brasil. Desde jovem, já mostrava interesse por esse meio da criação, desenhando peças para escolas de samba em Uberaba-MG, sua cidade natal. Sua notoriedade, no entanto, veio posteriormente, no eixo Rio-São Paulo, devido à sua apresentação excêntrica, com sungas cavadas e acessórios, como bolsas de pele de carneiro, causando choque à sociedade da época. Lucinha Lins na capa da revista Manchete. Foto: Reprodução/Internet Frequentador das festas da alta sociedade e do Studio 54 em Nova Iorque, era também intensamente dedicado ao seu trabalho. No auge de sua carreira, atendia cerca de 30 clientes por dia na sua suíte do Rio de Janeiro. Já seu ateliê reunia aproximadamente 150 funcionários e produzia cerca de 300 vestidos por mês, sob a marca Markito Brazil. Em seguida, veio a By Markito, cuja intenção era atrair um público mais jovem. Em 1983, a atriz Lucinha Lins estampou a capa da revista Manchete vestindo uma peça de paetê assinada pelo estilista. Era considerado referência quando o assunto era glamour noturno. Sua produção também chegou aos cinemas. O filme brasileiro Rio Babilônia, de 1982, conta com um acervo de 150 vestidos assinados pelo designer. No entanto, nem só de glamour foi marcada sua trajetória. No mesmo ano da publicação da revista, a carreira de Markito chegou ao fim. No dia 04 de junho, aos 31 anos, em Nova Iorque, o estilista morreu por consequência da AIDS, sendo a primeira figura pública brasileira a ter sua morte associada à doença. Vale ressaltar que sua morte antecede a do ator norte-americano Rock Hudson, que é frequentemente citado como um dos pioneiros a trazer visibilidade mundial à epidemia, que, cercada por medo, desinformação e discriminação, ficou conhecida naquele momento como “câncer gay”. Em decorrência desse contexto, sua carreira foi parcialmente apagada e, nos dias atuais, não é lembrada da mesma forma que outros colegas de profissão, como o Clodovil que, assim como o Markito, também era um estilista assumidamente homossexual. Jornal Última Hora anunciando a morte de Markito. Foto: Reprodução/Internet Sua morte foi anunciada em rede nacional, seu nome aparecia estampado em manchetes como “Marcos Vinícius Resende Gonçalves, o Markito, 31, de doença diagnosticada como câncer gay. Em hospital de Nova Iorque…”. A forma como a imprensa se dirigia à AIDS refletia o preconceito direcionado à comunidade “GLS”, como era conhecida na época. Já que, inicialmente, a doença foi associada apenas a homens gays. Embora, posteriormente, casos em mulheres e crianças tenham sido identificados, o estigma já havia se consolidado. Numa sociedade marcada por dogmas, pessoas homossexuais passaram a ser mais perseguidas e culpabilizadas pela epidemia. Em um mês como esse, onde o orgulho e a resistência ganham destaque, histórias como a de Markito nos evidenciam que nem toda trajetória teve o mesmo direito de brilhar ao longo do tempo. Mais do que celebrar, também permanece a necessidade de enfrentar as barreiras que ainda recaem em pessoas LGBTs e soropositivas, cujas vivências seguem sendo feridas pelo preconceito que insiste em permanecer.

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