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  • Foto do escritorAde Queiroz

Uma (possível) leitura de Exercício de Arquivo #2 de Abiniel João Nascimento


Frames do filme Exercício de Arquivo #2

Na segunda semana do mês de março foi realizada a “Semana do Audiovisual Negro”, o primeiro festival de cinema, de caráter competitivo, criado aqui em Pernambuco com recorte racial. Em sua segunda edição, a curadoria buscou uma aproximação entre o cinema negro e o cinema indígena, com obras que refletem sobre ancestralidade e territorialidade das imagens. Foi então que assisti a obra (em processo) “Exercício de Arquivo #2”, do artista Abiniel João Nascimento. Um curta de 12 minutos, um videoarte, em que Abiniel faz experimentos imagéticos para investigar o processo de criação da própria obra.


Conheci Abiniel ano passado (2020), em um texto sobre o artista e pesquisador que saiu na 4ª edição da revista “Propágulo”. Estudante de Museologia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), descendente de indígenas e afrodescendentes, Abiniel João Nascimento permite que seu leitor, ao ir conhecendo suas produções artísticas (de fotografia documental a performances), perceba e entenda que estas não estão - nunca estiveram e nunca estarão - deslocadas da sua existência. Além, do incessante desejo do artista por explorar outras linguagens.


Exercício de Arquivo #2 traz a documentação que antecede a apresentação final da obra. É possível ver os caminhos escolhidos pelo artista dentro da rede de possibilidades que o processo de pesquisa e construção da obra oferece. A narrativa é construída a partir da busca histórica da origem da palavra “caboclo”. Sobre a região Nordeste, ele pisa. É onde estão os seus. Aqui é seu lugar antes mesmo da história o dizer que é. O tempo é presente pelo som - e pelo anunciamento - de um relógio analógico, o que me faz pensar como a ritmação do tempo colonizador determinou o apagamento e a nova construção das identidades colonizadas. O silêncio, também anunciado, é como a ausência e negligência para com o olhar à história.


Frames do filme Exercício de Arquivo #2

É posto em xeque o quanto as palavras usadas pelos “pensadores” para descrever aquelas pessoas conseguem preencher as inúmeras variações de culturas, fenótipos, economias, línguas. Intervindo nas imagens para narrar suas convicções, ao aumentar ou diminuir os contrastes (sempre imagens em preto e branco), ele mostra que o seu pensar artístico é crítico, inclusive, do seu próprio processo de construção. Tensiona o olhar à história da história. Aqueles que invadiram os territórios brasileiros mentem sobre como se deram as relações com os que aqui já habitavam.


As inscrições em vermelho narram verbalmente observações do artista nas imagens escolhidas; aparecem rapidamente por cima das imagens, em consonância com o tempo marcado pelo relógio, que também é o ritmo para explanação das imagens no vídeo. E em um momento do alto da beleza estética escolhida por Abiniel, ele nos presenteia com a rica quantidade de informações acerca dos processos de apagamento étnico em comunhão com imagens da representação teórica dos indígenas.


Frames do filme Exercício de Arquivo #2

No momento em que o artista aparece sobre o estado de Pernambuco (pisando, literalmente), além do visível afunilamento territorial e histórico da sua pesquisa, sua inclusão com mais força na narrativa é descrita pela sobreposição de fotografias pessoais² (coloridas) com as imagens históricas (em preto e branco). As imagens e textos verbais que vão saltando na tela são como confirmações mútuas.


Na quinta parte do vídeo (que é dividido em seis partes) é quando Abiniel João Nascimento aparece propriamente. É como se começássemos a ver Abiniel em um processo de digestão daquilo que ele tem pesquisado. O que é também um processo autofágico, já que Abiniel digere sua própria história. Sentado, de costas a um fundo marrom, ele se observa e se deixa observar, enquanto suas observações em vermelho continuam a invadir a tela. Agora, não mais fotografias, mas o próprio artista vivo e em movimento está em cena. O ritmo do tempo colonizador segue imperial sobre o sujeito, o que me confirma ser um momento de absorção ainda sob a influência da cronologia colonizadora - ele faz uma leitura dos processos de representação midiáticos (das imagens P&B estereotipadas às coloridas e reais fotografias, até sua própria imagem auto representada em vídeo).


Ao se ler numa releitura de um caboclo de lança, Abiniel encerra a quinta parte de seu videoarte afirmando sua identidade enquanto sujeito pertencente daquele espaço e história e anuncia que dali em diante veremos sua regurgitação estética do processo que estamos acompanhando.


Na sexta e última parte ele performa diante da câmera brincando com alguns elementos como o couro de um animal de grande porte que hora está sobre si, hora está sobre a cadeira; folhas secas, que hora formam uma máscara em seu rosto, hora estão atrás dele coladas no fundo marrom; e lâminas metálicas douradas que formam outra máscara em seu rosto, dessa vez, aderindo às formas de seu rosto. É a leitura de si enquanto ser que ainda é cercado de elementos que fazem parte do seu sujeito, que relacionam-se com a dor, espiritualidade e identidade históricas e contemporâneas. Abiniel ignora o incômodo de ser observado, como ato que exerceria influência em seu fazer artístico, ao propor deixar-se ser observado, quando ele mesmo cria, edita e publica partes (lembrar que o que vemos em Experiências de Arquivo #2 é o que o artista quer que vejamos) de seu processo criativo nesse videoarte. Ele provoca o leitor a questionar seu lugar: Sou apenas observador? De que forma sou parte dessa história?


Não dá pra passar despercebido que o som do relógio analógico continua a marcar a passagem de tempo até o fim do curta. Fim do curta, não da obra. Abiniel fala da importância do tempo num texto que escreveu para a edição de outubro de 2020 (15ª) da revista Outros Críticos. O tempo enquanto partícula (Aracá) se faz presente na história de resistência e de reexistência dos povos indígenas nordestinos. “Escrevo porque também é necessário criar vida através dessa língua e desse espaço-tempo; escrevo para retornar ao futuro onde saúdo os umbigos-sementes que me sustentam”³. Sobre ser parte do que pesquisa e produz, diz que há uma relação mútua “já que a experiência que antecede a construção desse texto também atravessa a constituição corporal do eu-coletivo, que por consequência é futuro-presente-passado”*.


O tempo de Abiniel e de seus antepassados não precisa da ritmação de um relógio. Mesmo assim ele faz uso do tempo dos outros. Ele entende de si e sabe como fazer uso desse elemento para tensionar as dinâmicas da arte oriental (coisa para outro texto).


Abiniel em frames do filme Exercício de Arquivo #2

Seja no seu videoarte, num texto próprio, num texto de outra revista, ou em outras produções suas, percebemos elementos que evidenciam uma preocupação do artista em manter sua obra unificada. Ele sabe das possibilidades diversas de leitura, releitura e até intervenções, como se sua preocupação nunca fosse aquela obra em andamento no agora, mas sua totalidade no conjunto da obra-vida. Assim como Geraldo de Barros¹, artista paulista que faleceu em 1998 deixando sua última obra (“Sobras”) incompleta, Abiniel está mais preocupado com seu processo de investigação do que com o resultado final da obra. A diferença, é que o pernambucano parece nos apresentar os vestígios de suas criações propositalmente, e ao somar-se suas experimentações linguísticas nos permite, e quer, que possamos rever e refazê-las, ao não deixar que percamos de vista as interferências e conexões que marcam seu ser, seu processo e sua própria obra.



² - “Antes da fotografia ser possibilidade artística, para Abiniel ela sempre se configurou enquanto espaço de afeto e registro - sua família guarda um acervo enorme de fotos, não apenas de parentes, mas também de amigos e pessoas que sua avó, parteira, ajudou a nascer.” - 4ª edição, Propágulo.



Texto escrito por Ade Queiroz

adelvandomonteiro@gmail.com

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