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Onde estão nossas mulheres?

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 8 horas
  • 5 min de leitura

Por Sophia Nascimento

Trabalho aprovado por: Marcelo Martins e Paula Donato



“São mais de 50 ganhadores homens para 5 mulheres em todo o histórico desse prêmio…”. O comentário da escritora Raiza Hanna na publicação da Secult-PE não foi apenas um desabafo, mas um apontamento certeiro que roubou a cena na publicação do anúncio dos vencedores da décima primeira edição do Prêmio Hermilo Borba Filho em 2025 – que, em mais de uma década, premiou apenas 5 mulheres.

Instituído pelo Governo de Pernambuco para democratizar o acesso à cultura e valorizar a produção literária do Estado, do Sertão à Região Metropolitana do Recife (RMR), o concurso se tornou um pilar para a valorização da literatura pernambucana. No entanto, o resultado da sua 11ª. edição (na qual, mais uma vez, todos os premiados eram homens) transformou a celebração em um grande vácuo, gerador de um pertinente e importante ponto de interrogação sobre representatividade.



Embora a qualidade das obras vencedoras seja inquestionável, a ausência total de mulheres entre os laureados fez com que perguntas como “Cadê as mulheres?” e “Onde estão as escritoras?” aparecessem nas redes sociais, evidenciando uma disparidade que Raiza Hanna acertou em cheio: em onze edições, o pódio feminino é uma exceção estatística, tendo como premiadas:


(2015) Rejane Paschoal, escritora da Zona da Mata, com a obra Manuscritos em grafite – na III edição da premiação;

(2017) Ezter Liu, escritora da RMR, com a obra Das tripas coração – na V edição;

(2018) Jussara Salazar, escritora do Agreste, com a obra O dia em que fui Santa Joana do matadouro – na VI edição;

(2021) Renata Santana, escritora da RMR, com a obra A mulher do tempo – na VIII edição;

(2024) Carla Montanha, escritora de Garanhuns, com a obra Almas, sóis e viadutos caindo – na X edição.



Olhando para o histórico de toda a premiação, a conta que fecha com apenas cinco mulheres vencedoras expõe o abismo entre a efervescência da produção feminina atual e o reconhecimento oficial. Quando apontamos essa discrepância numérica, sempre surge aquela dúvida (ou desculpa) clássica:

"Será que as mulheres não estão se inscrevendo?". Ou pior: "será que falta qualidade?".

Vamos ser diretas: não falta talento, falta espaço, e o nome disso é: misoginia editorial. A pesquisadora Regina Dalcastagnè (UnB) já mostrou que o perfil do autor publicado pelas grandes editoras brasileiras é quase um padrão de fábrica: 72,7% são homens. Sabe qual é o detalhe irônico? As mulheres são quem mais leem e compram livros no Brasil, sendo 49% contra 44% dos homens.

O problema é que o mercado ainda funciona como um “clube do Bolinha”, em que os homens ocupam a maior parte das cadeiras nas grandes editoras, nos júris e nos tabloides. Enquanto isso, nossas escritoras produzem verdadeiras obras-primas, muitas vezes à margem dos holofotes e resistindo ao silenciamento histórico. Diante disso, a pergunta continua ecoando: onde estão as nossas mulheres?



A resposta é quase cômica de tão óbvia: elas estão escrevendo e publicando. Cabe aos júris, editores e críticos finalmente abrirem os olhos – e as páginas – para elas. É diante disso que apresentamos cinco indicações de obras por autoras que você precisa conhecer hoje:


  • Solo para Vialejo (Cepe Editora, 2019), por Cida Pedrosa – Poeta, advogada e ativista política


Tendo sua obra como vencedora do Prêmio Jabuti 2020 (Livro do Ano e Poesia), Cida consolidou sua posição como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira com Solo para Vialejo. A produção é de um poema épico-lírico que mergulha nas raízes da autora, em Bodocó, no Sertão do Araripe (PE). Pedrosa tece uma narrativa que entrelaça memórias pessoais com a história coletiva, abordando a diáspora de negros, indígenas, mulheres e homens oprimidos. O vialejo, uma gaita de boca, simboliza, nesta narrativa, a música e a alma sertaneja, enquanto a estrutura fragmentada do poema evoca vozes silenciadas e a resistência cultural de um povo, como um convite à reflexão sobre identidade e pertencimento.



  • Caminhando com os mortos (Companhia das Letras, 2024), por Micheliny Verunschk – Mestre em literatura, crítica literária e Doutora em comunicação e semiótica pela PUC.


Sendo uma autora recifense de renome nacional e vencedora do Jabuti 2022 – com O som do rugido da onça –, Micheliny apresenta em Caminhando com os mortos um romance visceral e impactante. Ambientada em um vilarejo marcado pela produção de algodão e pelo fundamentalismo religioso, a trama se desenrola a partir de um crime brutal: uma mulher que é queimada viva em um ritual. A obra explora o horror, a violência contra a mulher, o fanatismo e as feridas abertas de um Brasil profundo e arcaico, construindo uma narrativa densa que aborda a memória e o trauma, levando cada um dos seus leitores a confrontar as sombras de uma sociedade que ainda lida com a barbárie.



  • Enquanto Deus não está olhando (Editora Record, 2014), por Débora Ferraz – Escritora, jornalista, professora e Doutora em escrita criativa.


Natural de Serra Talhada, vencedora do Prêmio SESC e do Prêmio São Paulo de Literatura, Débora oferece em Enquanto Deus não está olhando um romance de profunda sensibilidade e introspecção. A história acompanha uma jovem em busca de seu pai desaparecido, em uma narrativa carregada de agonia e reflexão. A obra explora temas como a ausência, a reconstrução da identidade, o luto e a busca por respostas em um universo de incertezas. É um mergulho nas complexidades das relações familiares e na dificuldade de lidar com o vazio deixado por quem se foi, ressoando com a experiência humana de perda e resiliência.



  • À Mente que Sabe (Editora Letramento, 2024) e Lutar é crime (Editora Letramento, 2019), por Bell Puã – Poeta, slammer e historiadora.


Bell, também uma escritora do Recife, é uma das mulheres que representa a potência da nova geração e da poesia falada. Em uma de suas obras mais recentes, À Mente que Sabe, apresenta uma coleção de poesias que conecta a força feminina à natureza, tratando a presença da mulher como uma força cotidiana e essencial. Enquanto isso, sua obra Lutar é crime – finalista do Prêmio Jabuti 2020 – aborda questões sociais urgentes como racismo, desigualdade e a resistência das minorias, usando seus versos diretos que focam na realidade urbana e periférica, utilizando a poesia falada como uma poderosa ferramenta de transformação social e empoderamento.



  • Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco (Funcultura [apoio] 2025), por Danielle Romani – Jornalista e escritora.


Em sua obra Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco, Danielle retrata um trabalho de biografia e historiografia ilustradas que resgata e celebra as histórias de mulheres pioneiras em Pernambuco, sendo ela própria uma mulher recifense. Fruto de uma extensa pesquisa financiada pelo Funcultura, o livro resgata a trajetória de 40 mulheres fundamentais para a história do Estado que foram apagadas ou silenciadas pela história oficial, mas ela também inclui nomes conhecidos — como Branca Dias, as Heroínas de Tejucupapo, Dandara e Lia de Itamaracá.



Diante de tantos nomes e talentos femininos como estes, o questionamento à ausência de mulheres no Prêmio Hermilo Borba Filho passa longe de ser um ataque ao concurso, mas sim uma reivindicação. Afinal de contas, o futuro da literatura pernambucana já está sendo escrito por mulheres há muito tempo. Basta agora que o mundo pare de apagar suas assinaturas.



CURIOSIDADES


• Além de escrever, Danielle Romani também ilustrou manualmente sua obra Visionárias: a presença das mulheres na história de Pernambuco.


• Quando Cida Pedrosa venceu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2020 com Solo para Vialejo, ela fez história em dose dupla. Além de ser a primeira mulher pernambucana a conquistar o prêmio máximo da literatura brasileira, ela recebeu a notícia exatamente no dia em que comemora o aniversário de seu filho.


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