Natureza Urbana: o processo criativo da moda autoral de Dan Cavalcante para o Festival do Jeans de Toritama/2026
- Revista Spia

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Por Laura Lima
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo M. Martins
PALAVRAS INICIAIS
O Festival do Jeans de Toritama teve sua edição de 2026 concluída no dia 26 de abril e demonstrou, mais uma vez, a força criativa da moda em Pernambuco ao reunir marcas, criadores e diversos olhares em torno do denim e da força de produção do nosso Estado. Dentre os estilistas presentes na edição, Dan Cavalcante se destacou ao apresentar peças inspiradas no cotidiano urbano que combinaram conhecimentos sobre arquitetura, design de moda e identidade visual incorporados às suas experiências no interior.
Formado em Design pela Universidade Federal de Pernambuco (CAA), o designer – que foi recentemente entrevistado pela SPIA, em alusão aos 20 anos do curso de Design do CAA – reúne experiências em styling, direção criativa, campanhas e desenvolvimento de coleções que estabelecem um trabalho marcado pela pesquisa, pela experimentação e pela construção de uma identidade própria para a sua marca autoral de activewear.
Durante a entrevista, Dan Cavalcante fala sobre o seu processo criativo por trás dos looks apresentados no Festival do Jeans de Toritama/2026, as referências que guiaram seu trabalho, a influência das vivências pessoais em seu estilo e os próximos passos para a ascensão de sua carreira.
COM A PALAVRA, DAN CAVALCANTE
Pensando nos looks que você apresentou no Festival do Jeans de Toritama/2026 (FJT), qual foi o conceito central das peças, quais referências orientaram sua criação e que tipo de reflexão ou emoção você buscou provocar no público ao levá-las para a passarela?

D: Para desenvolver esses looks, mergulhei profundamente no tema “Natureza Urbana” proposto pela Santana Textiles para a abertura do FJT 2026. Meu conceito central partiu da ideia da nossa “selva de pedra” – o ambiente metropolitano onde a rigidez da cidade se torna o nosso habitat natural. A escolha do denim em tons de cinza estonado foi o ponto de partida para representar a predominância do concreto, do asfalto e das texturas brutas do nosso dia a dia urbano. Minhas referências vieram diretamente da arquitetura e da geometria das grandes cidades. Traduzi as linhas dos edifícios e a estrutura das ruas para a modelagem: isso fica evidente nas pregas marcadas e rigorosas do vestido, que lembram as grades e as linhas retas da arquitetura, e na silhueta ampla e escultural do casaco oversized, que remete à imponência e ao volume das grandes construções.
Ao mesmo tempo, deixei alguns acabamentos com fios soltos e desfiados para representar o lado orgânico – a forma como a natureza e o tempo interagem, desgastam e sobrevivem no meio do concreto. Ao levar essas peças para a passarela, minha intenção foi provocar uma reflexão sobre a força, a resistência e a beleza estética que existem no caos urbano. Eu queria que o público sentisse o peso e a proteção dessa “armadura” de concreto, mas também percebesse a fluidez e a atitude de quem veste. A emoção que busquei transmitir é a de imponência e adaptação: mostrar que, mesmo cercados pelo cinza e por formas geométricas rígidas, existe uma harmonia visual poderosa e uma beleza crua na selva urbana que habitamos.
Como funcionou, na prática, o seu processo criativo desde o primeiro rascunho até a finalização das peças, e de que forma suas vivências no interior de Pernambuco moldam as escolhas estéticas, cores, texturas e narrativas presentes nos seus designs até este momento?
D: Meu processo criativo para essa coleção uniu a visão artística a um rigoroso planejamento técnico. Além da imersão na proposta do tema, fiz uma análise técnica detalhada das bases de denim da Santana Textiles que eu tinha à disposição. A partir da matéria-prima, iniciei uma pesquisa visual profunda focada na estética das grandes metrópoles: estudei as linhas geométricas, a paleta de cores frias das cidades e a arquitetura urbana. O passo seguinte foi aterrissar essas ideias, desenvolvendo croquis até alcançar as formas e os volumes exatos que eu imaginava para as peças — silhuetas que remetessem à estrutura dos edifícios. A segunda grande fase, e talvez a mais transformadora, aconteceu na lavanderia. Para garantir que o conceito não se perdesse, elaborei um briefing detalhado explicando exatamente como os tons de cinza, o desgaste e as texturas pós-lavagem deveriam se comportar no jeans.

O objetivo era alcançar aquele aspecto estonado, cru e denso, traduzindo o asfalto e o concreto para o tecido. “A Identidade Pernambucana na Selva de Pedra” era o tema, e embora ele aborde as metrópoles, meu olhar sobre essa “Natureza Urbana” é inevitavelmente moldado por minhas vivências no interior de Pernambuco. Viver, produzir e empreender no nosso Estado, especialmente em um polo de confecções tão pulsante, me ensina diariamente sobre resiliência — uma característica que a natureza local e a cidade grande têm em comum. Essa bagagem influencia diretamente minhas escolhas estéticas. As texturas desgastadas, os estonados marcantes e os acabamentos desfiados que uso não representam apenas o desgaste do concreto urbano, mas conversam com a força, a resistência e a aridez do nosso próprio ambiente. A narrativa das minhas peças nasce desse contraste: a capacidade de encontrar beleza e poesia na dureza e rudeza das formas, unindo a força de quem produz moda no interior de Pernambuco com a imponência visual da selva de pedra.
Olhando para os próximos anos, quais são seus planos de crescimento como marca e criador, e como você observa o papel da moda autoral pernambucana e do FJT no cenário atual?
D: Olhando para os próximos anos, meu foco principal é a consolidação de uma marca forte e genuinamente autoral. Meu maior objetivo como criador é refinar minha visão estética e meu rigor técnico a ponto de estabelecer uma assinatura artística inconfundível. Quero que a arquitetura das minhas peças, a precisão da modelagem e a forma como trabalho os materiais falem por si. O ápice do meu planejamento é chegar no momento em que as pessoas reconheçam o meu design e a minha identidade apenas batendo o olho na roupa, sem nem mesmo precisarem procurar por uma etiqueta ou logo. Nessa jornada de construção, não posso deixar de destacar a parceria de sucesso que mantenho há quatro anos com a Santana Textiles. Eles desempenham um papel crucial no fomento da moda nacional, oferecendo oportunidades reais para designers que estão despontando no mercado. Ter o apoio deles para desenvolver e desfilar criações em um dos palcos mais importantes do Nordeste é um divisor de águas na carreira de qualquer profissional.

A cada ano, vejo o Festival do Jeans de Toritama (FJT), em sinergia com a Santana, crescer e expandir seu alcance. O festival se tornou uma plataforma indispensável para que o público e o mercado conheçam a força do design feito em Pernambuco. Acredito que esse espaço é fundamental para a formação, o amadurecimento e a valorização dos nossos criadores locais. Além de dar holofote aos novos talentos, o impacto do FJT no cenário atual é monumental. O festival movimenta toda a engrenagem da nossa indústria: desde as grandes empresas que lançam coleções comerciais completas até a produção de campanhas e o networking de negócios. O valor econômico e cultural que esse evento agrega à cidade de Toritama, às marcas do nosso Polo de Confecções a todos os profissionais da cadeia produtiva é imensurável. Ele reafirma, a cada edição, que a moda pernambucana tem potência criativa, capacidade industrial e uma identidade única para mostrar ao Brasil e ao mundo.

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