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  • Foto do escritorAmanda Nascimento

Miremos nuestras histórias, nuestros puentes, nuestros pueblos y nuestros colores

Atualizado: 23 de dez. de 2021

Um relato sobre a direção de produção de “King Kong en Asunción”, longa-metragem de Camilo Cavalcante.


Por Amanda Nascimento*


5 de março de 2021


Andrade Jr. - Foto: Camilo Soares

No trabalho (INT/DIA):


-Alô? Quem é?


-É Camilo Cavalcante. Tudo bem? Olha. Vou te enviar um email com um roteiro para um possível trabalho.


Por telefone. Foi assim que “King Kong em Asunción” me chamou.


Essa ligação mais pareceu a sensação de quando recebi o email, em 2008, de Patrícia Martín, coordenadora dos estudantes latino-americanos, dizendo que eu teria sido a última integrante do taller de dirección de actores, que aconteceria no verão caribenho, na Escuela Internacional de San Antonio de Los Baños (EICTV), em Cuba. Oportunidades que dividem a carreira de qualquer um que tem como propósito a integração da América Latina, através do Cinema.


Reunião marcada, prestes à recusa. Sabia mais ou menos a escala que este filme iria proporcionar a quem ousasse se envolver. Ousar? Sim, ousar. Deserto, penhascos, fronteiras, estradas (quase) sem fim. Seria imprescindível ter uma equipe guerrilheira e ousada para topar tudo que viria pela frente de um projeto como este.

Equipe de Tech Schout, no Salar de Uyuni (Bolívia) - Foto: acervo pessoal

Queria recusar, mas como fazer isso para um trabalho que tem tudo a ver com o meu propósito de vida? Repetindo sempre “propósito”, esta palavra que anda sendo espalhada por aí. Um filme de fronteiras. Ou melhor, sem fronteiras. Como já diz o nome, “King Kong en Asunción” é um drama existencial pelas “veias abertas da América Latina”, como o título icônico de Eduardo Galeano. Um desafio de produção tríplice fronteira entre Paraguai, Bolívia e Brasil.


Imagina ir buscar locações/ pesquisar/ reconhecer o roteiro (Tech Scout) e encontrar Werner Herzog (filmando)? Foi exatamente isso que aconteceu. Poderia ser qualquer outra pessoa, mas era Herzog filmando o seu “Sal y Fuego”, no Salar de Uyuni, deserto de sal da Bolívia. Perdidos, chegamos bem na hora em que ele estava livre para uma foto. Coincidência ou presságio? Estar perdido nem sempre é um mau negócio.


Ao voltarmos, percebemos a real escala do que seria o filme. Das mudanças climáticas a ter como realizar financeiramente como queríamos que fosse. Encontramos um Golpe de Estado no Brasil e uma hérnia de disco no meio do caminho. Era o primeiro sinal que as políticas públicas para o Cinema Brasileiro iriam retroceder. Uma longa espera pela frente. A equipe cresce. Seguiríamos na espera.


Amanda Nascimento - Foto: acervo pessoal

Em 2016, estávamos quase prontos para a nossa rodagem. Fui sozinha na frente. Desafio dobrado. Na mala, a missão e os adjetivos: mulher brasileira, de cinema... Seria bem bom que estes fossem exemplificados (e romantizados) como os versos da música “Ela faz Cinema”, de Chico Buarque, mas, basta atravessar a fronteira, que outras camadas fronteiriças chegam rápido. Pensamos em uma estratégia diplomática para a segurança. Deu certo. Aí está a importância das embaixadas brasileiras nos road movies de fronteiras. Gratidão à Embaixada do Brasil na Bolívia pela assessoria e cuidado. Desde quando souberam do projeto, nunca soltaram a nossa mão.


Além disso, tivemos a hérnia de disco adiando mais uma vez nossas filmagens. Era novembro, o Salar do Uyuni estava cinza. Realmente, ainda não era a hora de apertarmos rec. Com o diretor dentro de um bloco cirúrgico, teria que aceitar e seguir a “pré-produção” solitária, pois havia casting, negociação de locações e muito o que fazer. Pedir licença aos aimarás (povo indígena) era fundamental. Não se filma sem a autorização deles. Não só para registro audiovisual no território deles, mas também tê-los na frente das câmeras. A história de Cristóvão Colombo não vale lá. No caso do Salar de Uyuni, é um território subdividido em várias microrregiões e cada uma tem um cacique. É preciso muita negociação, diplomacia e conquista de confiança.


Saindo da Bolívia e entrando no Paraguai, no Chaco paraguaio não é muito diferente. Na zona rural da cidade de Filadélfia, encontramos aldeias e caciques. Para filmar, é preciso uma permissão. A América Latina (ainda) é habitada pelos seus povos originários, aos quais se deve ter muito respeito e buscar descolonização: Ayoreos, Guaranis, Aimarás, Xukurus, Pataxós, Pankararus, entre outros. A Pachamama, grande nação. Não tem como falar neste continente geopolítico sem frisá-los. Miremos nuestras histórias, nuestros puentes, nuestros pueblos y nuestros colores. Não precisamos ir muito longe. Somos bonitos, alegres, competentes.

Ayoreos - Foto: acervo pessoal

Em 2017, passadas as filmagens na Bolívia e no Paraguai, depois de alguns meses, chegamos em Amaraji, município da zona da mata sul de Pernambuco. Apenas uma diária, mas de uma importância fundamental para a narrativa. Um novo elenco e outros técnicos que pareciam fazer parte da mesma família. Pareciam todos estarem destinados.

De cima pra baixo: Alba Azevedo (controller), Amanda Nascimento (diretora de produção), Luján Riquelme (figurinista), Carol Vergolino (produtora executiva), Regiana Rial (Jaheka Casting), Pamela Paredes (assistencia de produção), Gessyka Toro Rodriguez (assistente de arte), Karen Fraenkel (diretora de Produção) - Foto: acervo pessoal


Família? Neste filme, a equipe foi família. Em uma variável de 29 pessoas trabalhando em trânsito, não teria como ser diferente. Como diretora de produção, “King Kong em Asunción” não só me possibilitou conhecer um pouco de excelentes profissionais do mercado latino-americano, mas ter essa percepção do cinema horizontal que aprendi lá na EICTV, em Cuba, onde todos da equipe têm a mesma importância: os motoristas, as cozinheiras, os assistentes de todos os departamentos, as costureiras... Absolutamente todos com o mesmo tratamento. O cinema que nasci para executar. E, neste filme, teve. Foi bonito e prazeroso fazer. Um exemplo de produção colaborativa. Ou fazíamos juntos, ou não concluiríamos.

Andrade Jr. - Foto: Camilo Soares

Talvez todo esse relato explique os kikitos, os Labrfs, os prêmios no FEST Aruanda, a seleção no FAM, no Utopia ou a participação em outros festivais. Mas nada explicará, para além das estratégias de produção, o que fez levar nosso amigo-protagonista antes de ver o filme e de não poder viver tudo isto que estamos vivendo agora. Que o nome e trabalhos de Andrade Jr. sejam sempre honrados.


Texto dedicado a Andrade Jr. (in memorian), a Camilo Cavalcante pela oportunidade e aposta no meu trabalho e a toda a nossa equipe guerrilheira, por nunca desanimar, sobretudo às mulheres, las madres del “King Kong en Asunción”. Adelante vamos.


*

Amanda Nascimento é diretora de produção, pesquisadora e assistente de direção de Cinema, jornalista (DRT-3931/PE) com especialização em Diplomacia e Negócios Internacionais.

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