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Entrevista com Rosberg Adonay e Vanderson Santos - Dupla multiartista, idealizadores de um monólogo e livro que recebem o mesmo nome: Poeta Preto

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 2 dias
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 21 horas

Por M.E. Rodrigues

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Palavras iniciais


O Poeta Preto, antes de se tornar livro, foi monólogo, e antes de se tornar monólogo, foi ideia, diálogo e vivência. Lançado pela editora Arrelique em maio de 2026, a obra abarca um discurso poético sobre um eu lírico sensível. O Poeta, nosso protagonista, fala das dores de uma solidão, explorando seus traumas e frustrações, sendo assumidamente um ser em declínio.

A concepção desse personagem e a maneira como ele chega no livro nascem de poemas escritos por Vanderson Santos e da voz e do corpo “emprestados” por Rosberg Adonay, artista que o interpreta nos tablados de teatro. E, apesar de Vanderson receber o título de autor na capa do livro, a dupla de multiartistas ressalta que o trajeto dessa produção foi realizado em conjunto. Como dito antes, o livro já foi monólogo e, o monólogo, já foi diálogo e desabafo de ambos os colegas diante de cenários proporcionados pela vida, pela cultura e pela sociedade.

Durante a entrevista, Rosberg Adonay e Vanderson Santos falam como surgiu o Poeta Preto e a forma com que ele foi crescendo e amadurecendo através dos anos, assim como nos explicam os primeiros contatos com a arte e a íntima necessidade de querer mergulhar em ser artista.


Com a palavra, Vanderson e Rosberg, e nossa colunista, M.E. Rodrigues


[MARIA] Quero que vocês falem um pouco sobre vocês e como chegaram na arte. A trajetória, o que trabalham além da literatura e, inclusive, a literatura também.

[VANDERSON SANTOS] Meu nome é Vanderson dos Santos, costumo assinar como Vanderson Santos. A arte esteve presente na minha vida desde pequeno. Sempre desenhei, depois comecei a escrever, comecei a frequentar a biblioteca, inclusive aqui, a Álvaro Lins, quando era na estação. Depois, comecei a comprar livros e perdi um pouco esse hábito de estar nas bibliotecas.

Mas a arte sempre esteve para mim num lugar muito interno, sou muito introvertido, e era onde eu me sentia mais acolhido. Sempre desenhei, escrevo também, e foi assim desde que eu me lembro. Sou psicólogo de formação, trabalho na psicologia social, no Programa Atitude, que é um programa do governo do estado que atende pessoas em situação de vulnerabilidade. Mas, em paralelo, sempre esteve a arte. Já fiz roteiros de cinema, dramaturgia de teatro, contos, e estou elaborando um livro de contos agora. Pretendo um romance também, futuramente.

[MARIA] E você, sempre foi mais voltado para a escrita, tanto no cinema quanto na literatura em geral? Você já atuou, como num monólogo, ou prefere ficar nos bastidores?

[VANDERSON] Já, o pessoal do Teatro Nelson Berger já me propôs, mas sou muito tímido. Não me sinto confortável nisso. Cheguei a fazer uma participação uma vez, mas era uma entrada, era uma passada, sem falas.


Vanderson em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva
Vanderson em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva

[MARIA] E você, Rosberg?

[ROSBERG] Sou Rosberg Dunari, multiartista, produtor e produtor cultural de Caruaru. Trabalho com algumas linguagens artísticas, mas venho do teatro, minha formação foi no teatro. Assim como o Vanderson, comecei desde pequeno. Era muito influenciado pelo aspecto artístico, pela energia artística da vida. Sempre tive muita sensibilidade voltada para isso. Fazia teatro na escola, fui para o TEA (Teatro Experimental de Arte), depois entrei no grupo de teatro do Sesc, passei por alguns grupos de Caruaru. Hoje a gente trabalha na Trupe Veja Bem Meu Bem, que é uma trupe de teatro criada para o teatro alternativo, para chegar em qualquer espaço e realizar uma apresentação em lugares que não têm tanta vivência artística.

Fora a Trupe, tenho um trabalho individual de escrita, alguns poemas e projetos publicados pela Arrelique. No livro do Poeta também tem o meu depoimento, falando um pouco dessa história, como surgiu, o processo de apresentação, a circulação nacional... Tenho um trabalho também voltado para a música, mas costumo dizer que o poema vem antes dela: primeiro escrevo a poesia e depois a música vem. Quase todas as canções, antes de serem canções, foram poemas.


Solitário


Solitário

Condição de viver

Quem jamais conseguirá entrar pelos meus olhos devassar minhas entranhas e descobrir a verdade?

Verdade

Sersó

Uno

A menos que costurássemos a alma uma na outra

O coração um no outro

Que nos misturássemos até sermos uma massa igual

Um líquido incolor

Uma pessoa indolor

Aguada

Cega

Muda

Morta

A solidão é fogo

Marca escarlate

Ferro em brasa e cheiro de carne queimada

Quem jamais deglutirá a minha calma?

Amará a minha solidão até matá-la?

Solidão

Mentira

Falácia

Como posso ser solitário se cada poro do meu corpo é um indivíduo que fala?

Se cada átomo é uma alma que dispara?

A cada minuto sou outro

Outro outro

O estranho desconhecido familiar

Que busca no fundo do abismo do olhar

Por um solitário eco perdido

Rosberg em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva
Rosberg em lançamento do livro, pela editora Arrelique. Foto: Higor da Silva

[MARIA] Como vocês se conheceram e começaram a trabalhar juntos?

[ROSBERG] Faz um tempo. Foi na casa de um amigo nosso. Eram dois amigos nossos que moravam juntos, e a gente frequentava e acabou se conhecendo.

[MARIA] E desde então vocês começaram a trabalhar juntos no campo artístico ou demorou um pouco?

[VANDERSON] Demorou um pouco.

[ROSBERG] O Poeta Preto foi o primeiro trabalho. A gente deve ter se conhecido em 2014, 2015, por aí. Estreamos em 2017.



A concepção do Poeta Preto


[MARIA] Agora adentrando um pouco mais no projeto, como foi a concepção do monólogo, antes mesmo de existir como livro? Como foi criar, quais versões tiveram, o que foi modificado ao longo do tempo? São quase 10 anos, então imagino que tenha passado por revisões e reinterpretações. Fale também sobre a sinopse, para a gente entender um pouco.

[ROSBERG] A gente trabalhava no TEA, que é um grupo que existe desde 1962, o segundo grupo de teatro em atividades ininterruptas do país. Ele forma atores vindos de comunidades, com oficinas gratuitas, um público amplo e diverso. Muitos atores que hoje trabalham no ramo, em Caruaru, no Brasil e no mundo, o TEA teve esse papel de formação. Eu me formei lá e a gente frequentava muito o espaço.

O espetáculo foi construído dentro de uma sala de lá, um quartinho reservado do teatro, por ser um espetáculo intimista. O Fábio Pascoal, que hoje é o idealizador do TEA, ia produzir o FETEAG (Festival de Teatro do Agreste) de 2017 com a temática de ancestralidade, trazendo grupos do Brasil e de fora. Ele propôs para a gente montar um trabalho voltado à temática negra e racial. Aí a gente sentou, começou a discutir as possibilidades, definimos o monólogo. Chamamos Pedro Henrique, que é ator e produtor de teatro, para dirigir o espetáculo com a gente.

O Vanderson trouxe a poesia dele, mas a gente criou com muito diálogo. No começo, a gente tinha caixa de som e microfone. Eu gostava muito da ideia de potencializar essa voz, porque o Poeta vem para bater um papo real com a galera. Teve muita corporalidade, construída através de referências da capoeira, da musicalidade. Teve um experimento antes, que foi o "Macaco Morto", que era mais uma performance, sem texto, mais curtinho. Foi a gênese do Poeta, como uma dança, uma experimentação em público. Depois entrou o texto.

[VANDERSON] O texto é meu, mas a ideia do personagem surgiu através dos diálogos: Quem é esse personagem? Quem é essa consciência? Quem é esse Poeta? Eu tinha poesias antigas e fui fazendo partes novas, trazendo e encaixando.

[MARIA] Então, basicamente, eles iam bebendo de você e você ia bebendo deles?

[VANDERSON] Isso.

[MARIA] E esse texto de 2017 para cá mudou muito?

[ROSBERG] Não mudou muito, mas termos e pequenas observações feitas em apresentações, a gente mudou. A encenação também foi amadurecendo pela vivência e pela repetição. Em 2022, a gente fez a circulação por quatro estados do Brasil, foram cerca de 10 apresentações.

[MARIA] Você se lembra de quais foram os estados?

[ROSBERG] Pernambuco, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro. Foram seis pessoas da trupe.

[MARIA] E aqui, em Caruaru, vocês ainda apresentaram bastante?

[ROSBERG] Sim, em muitos lugares. Já fomos no Festival de Inverno. E, na pandemia, a gente conseguiu circular bastante. Participamos de um festival virtual de São Paulo chamado Felino Preta. O Vanderson tem experiência em cinema, então a gente também fez uma versão gravada, aprovamos um edital para ir para um lugar reservado e gravar uma narrativa audiovisual do Poeta Preto.


Foto: Higor da Silva
Foto: Higor da Silva

O Livro


[MARIA] Como surgiu o livro?

[ROSBERG] O pessoal da Arrelique tinha visto o Poeta em várias apresentações, gostado muito do texto e quis fazer uma versão para livro.

[VANDERSON] Teve uma adaptação para a versão do livro, mas que não mudou muita coisa. Mudou mais a poesia final, porque no espetáculo tem uma possessão dessa consciência que é o Poeta por um racista, e ele diz coisas muito pesadas que têm o propósito de criar um choque, um embate, e no espetáculo funciona. Mas eu não queria deixar isso escrito. Então, teve essa modificação. São nove poemas, é bem curtinho.

[MARIA] Como foi a concepção da ilustração e o processo de edição?

[VANDERSON] O processo todo — gráfico, diagramação — foi com o pessoal da Arrelique. A parte da ilustração da capa, eles que entraram em contato com o ilustrador. A gente recebia o material, dava uma olhada, dava sugestões, mas foi mais eles mesmo. A ilustração a gente gostou muito, logo de cara. A fonte foi que a gente pediu para modificar um pouco.

Eu também fiz as entrevistas com o Rosberg, com o Pedro e com o Dionísio, o iluminador e transcrevi essas entrevistas para o livro. Foi mais ou menos um ano de processo de editoração. Então, além dos poemas, o livro fala do processo do próprio espetáculo. Tem entrevistas e fotos do espetáculo também.

[MARIA] Como foi para vocês a experiência de transformar o monólogo em livro?

[VANDERSON] Algumas poesias já existiam como poesia antes do Poeta. Eu coloquei títulos nas que não tinham e pensei na sonoridade, na estrutura, uma poesia mais livre. Eu não me considero muito "poeta", me considero um escritor que às vezes encontra uma voz, um eu lírico. Tive que pensar na poesia, na estrutura, suprimir a questão do poema final, acrescentar e mudar algumas coisas, mas pouquíssimo. Por exemplo, a poesia de abertura, a "Recepção", foi construída para o Poeta. Quando fui fazer a versão para o livro, refiz a métrica dela baseada em como o Rosberg fala o texto. Antes era um texto mais narrado, um bloco, um parágrafo. Quando fui para a versão do livro, escrevi na métrica em que o Rosberg o declama.

[ROSBERG] Eu vi como uma extensão de todo esse processo que a gente construiu nesses anos. É como se o Poeta estivesse tomando outros caminhos que a gente não imaginava. Para um espetáculo, acho que é uma consagração ter um livro direcionado à dramaturgia. É uma outra forma de se comunicar com o público, de mostrar o texto e o personagem. É viver esse personagem no livro, é estranho, mas é engraçado.

Foto: Higor da Silva
Foto: Higor da Silva

A atuação e a construção do personagem


[MARIA] Rosberg, como foi construir e carregar esse personagem por quase 10 anos? O que você colocou de si mesmo nele?

[ROSBERG] É muito complexo. Para você conseguir traçar uma forma de interpretação, você tem que descobrir a intenção em você primeiro. O personagem tem muito de mim, tem muito do Vanderson, tem muito do Pedro. Essa dramaturgia surge através do diálogo, e esse diálogo tem muita revolta, tem muita dor, através das nossas experiências enquanto homens negros.

A minha, principalmente, enquanto homem negro e periférico. Lidar com essa realidade na cena é trazer essa percepção e essa revolta para a cena. Quando eu passava por um baculejo da polícia, por exemplo, eu chegava no ensaio e os meninos falavam para eu colocar essa revolta na cena. Foi um ano de processo até trazer o Poeta, descobrir essa personalidade, falar de forma completamente seca, bruta, sem rodeios.

Ele é muito preciso, muito direto nas palavras e na interpretação. Ele é irônico de uma forma violenta. Ele é violento com a plateia, no olhar e nas palavras. Ele traz um aspecto predador que sequestra a plateia. Tem apresentações em que ninguém se mexe, ninguém vai ao banheiro. Nos primeiros momentos do espetáculo, ele toca as pessoas, puxa alguém para a cadeira dele; uma cadeira sofisticada que simboliza um trono. Ele representa uma consciência frenética, traumatizada pelo peso de ser, pelo ódio. Ele vomita o texto, grita com a pessoa e manda a pessoa sair.

Durante o espetáculo inteiro, ele é possuído por um alter ego racista que vai o matando aos poucos. Por isso, no final, ironicamente, ele se apaga com a própria voz. Acontece também uma cena de nudez, que representa de forma subjetiva o renascimento e a fragilidade. A gente termina o espetáculo com a crítica ao White Face, o Poeta é morto pelo branqueamento ideológico, porque a gente ainda enfrenta essas coisas.


A escrita dos poemas


[MARIA]: Vanderson, como suas vivências se respaldam nos poemas e como foi receber as experiências deles para escrever?

[VANDERSON] O Poeta tem algumas poesias mais antigas, da época de jovem adulto, que já tinham uma energia um pouco mais agressiva, mais violenta. Eu gosto de temáticas mais pesadas, e já tinha um pouco do Poeta nessa forma como eu escrevia, foi isso que os meninos viram quando me chamaram.

A parte das conversas, dos roteiros que a gente via, de documentários, de pensar em como seria a peça, porque a peça tem a característica de quebrar a quarta parede e mexer com a plateia. Isso tudo influenciou muito. Tinha algumas poesias que eu já tinha, e fui construindo outras. A primeira poesia, a recepção, foi construída para o Poeta. O final também foi construído para o Poeta. Algumas do meio eu fui encaixando.

Foto: Higor da Silva
Foto: Higor da Silva

Reações do público


[MARIA]: Vocês se lembram de alguma reação do público que foi marcante, que tocou em algo que vocês não esperavam?

[ROSBERG] Muitas coisas. Teve umas que sempre a gente comenta. A gente foi apresentar na Alvará, teve uma vivência com um curso de artes cênicas de lá. Um menino, quando eu o coloquei na cadeira e comecei a dizer o texto, se levantou e abraçou o Poeta. Foi uma reação muito inesperada. O Poeta tirou tranquilamente a mão dele e apontou para a cadeira. Ele sentou, e eu continuei o texto normalmente.

Já teve um menino que, no momento em que eu viro, ele se virou e sentou em cima da cadeira, entrou na cena. No final, foi o primeiro a ir embora, porque não podia sair antes: o portão estava fechado durante o espetáculo, e quando subiu, ele foi embora sem ficar para conversar.


Planos futuros


[MARIA] Para onde vão vocês e o Poeta Preto agora?

[ROSBERG] Com o Poeta Preto, a gente não tem nada planejado ainda, mas o livro a gente vai continuar vendendo. No segundo semestre, a gente vai começar um projeto enquanto Trupe, uma nova montagem com um novo texto do Vanderson para o teatro, com temática mais local, direcionada para Caruaru, a feira, outros aspectos. A gente conseguiu recurso para esse projeto, aprovamos a PENAB. E estou dirigindo uma montagem do Auto da Compadecida, com estreia prevista para setembro.


Últimas palavras


O Poeta Preto continuará levando seus versos, seja no livro ou no teatro. Tal qual seus idealizadores, o Poeta é multiartista, se expandindo dentro das inúmeras formas que a arte o permite estar.

Além disso, quando pensamos nos relatos que ele traz e nos sentimentos que reproduz, não podemos imaginar um lugar mais seguro que ele possa iniciar seu desabafo, afinal, tudo começa e termina na arte.

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