Do croqui ao “arraiá”: os bastidores da criação dos figurinos de quadrilhas juninas
- Revista Spia

- 9 de jun.
- 4 min de leitura
Por Clara Orange
A abertura do São João de Caruaru, realizada em 30 de maio, marca oficialmente o início de um dos períodos culturais mais significativos do Nordeste brasileiro, dando espaço à uma ampla programação de festejos, apresentações artísticas e manifestações tradicionais. Dentre essas expressões culturais, destacam-se as quadrilhas juninas, importantes patrimônios populares que mobilizam comunidades inteiras em torno da dança, da música e da preservação das tradições nordestinas.
Muito além de uma simples apresentação festiva, as quadrilhas juninas constituem um fenômeno sociocultural de grande relevância, promovendo o fortalecimento dos laços comunitários, a valorização da identidade regional e a transmissão de saberes entre gerações. Durante os meses anteriores aos festejos, integrantes dedicam-se a intensas rotinas de ensaios, preparação cênica e desenvolvimento de narrativas temáticas que culminam nas grandes competições e festivais realizados principalmente em estados nordestinos como, Pernambuco, Paraíba e Ceára ao longo do período junino.
Nesse contexto, um dos aspectos fundamentais para a construção do espetáculo é a elaboração dos figurinos. Desde a concepção criativa e pesquisa estética até a modelagem, confecção e finalização das peças, o vestuário desempenha um papel essencial na narrativa visual apresentada em cena, contribuindo para a identidade e a expressividade de cada quadrilha.
Como os figurinistas, designers e costureiras responsáveis por essas produções se preparam para uma temporada tão intensa e ansiosamente aguardada? Para compreender melhor os processos criativos e técnicos envolvidos nessa área, convidei para esta entrevista o desenhista e ilustrador Wallison Costa (@wallisoncosta76) da cidade de Mamanguape na Paraíba. Especializado em figurinos de quadrilha junina, o profissional atua há anos no segmento e, na temporada de 2026, desenvolveu projetos para mais de dez grupos juninos de cidades como Caruaru, João Pessoa e Fortaleza, consolidando-se como uma importante referência para o norte e nordeste nesse universo artístico e cultural.
Entrevista
Quais referências e cuidados orientam a criação dos seus figurinos juninos?
Minha criação começa a partir da temática proposta. Costumo buscar referências na dança, nos folguedos populares, na literatura e na música. A escolha das cores, materiais e detalhes depende muito do tema trabalhado. Quando a proposta envolve o Sertão, por exemplo, utilizo tons mais terrosos e materiais rústicos, como couro, palha e flores de tecido. Já em temas mais lúdicos ou ligados a manifestações culturais e personalidades nordestinas, trabalho com cores mais vibrantes e materiais variados.
Também utilizo elementos tradicionais como xadrez, chita, fitas de cetim, rendas, fuxicos e pedrarias, além de tecidos sublimados e pinturas à mão. Durante o processo de criação, considero a realidade financeira do grupo ou da pessoa que irá utilizar o figurino. Procuro desenvolver peças que se encaixem no orçamento disponível e, quando necessário, penso em materiais alternativos para substituir aqueles que possam ser difíceis de encontrar.
Para mim, o figurino é muito importante porque ajuda a contar a história apresentada pela quadrilha e dá vida ao espetáculo.


Como você vê a valorização do trabalho dos figurinistas e o que considera importante para quem deseja atuar nessa área?
A valorização do trabalho dos figurinistas varia bastante. Existem grupos e clientes que reconhecem e valorizam nosso trabalho, principalmente aqueles com quem mantemos uma parceria de muitos anos. Por outro lado, também existem situações de desvalorização. Algumas pessoas exigem muito, não querem pagar o valor cobrado pelo serviço ou deixam de dar retorno após a realização do trabalho, o que pode gerar prejuízos financeiros e desgaste emocional.
Para quem deseja trabalhar nessa área, acredito que o principal é gostar do que faz. Também é importante conhecer tecidos, materiais e técnicas de produção. Saber desenhar ajuda, mas não é necessário ter um desenho perfeito desde o início, pois essa habilidade pode ser desenvolvida com o tempo. Além disso, estudar e buscar conhecimento é fundamental. Meu conselho para estudantes de moda é que procurem conhecer e participar do universo junino, pois se trata de uma manifestação cultural muito rica e importante em nosso país.

Quais trabalhos marcaram sua trajetória e o que o público pode esperar dos figurinos desta temporada de 2026?
Tenho vários trabalhos pelos quais tenho carinho, mas a temporada de 2026 é especialmente marcante porque tive a oportunidade de criar sozinho os figurinos da "Quadrilha Junina Joia Rara" da Paraíba. Em anos anteriores, o processo contava com a participação de outras pessoas, então essa experiência tem sido muito especial para mim. Neste São João, estou trabalhando com diversas quadrilhas das regiões Nordeste, Norte e Sudeste, dentre elas “Joia Rara”, “Fogueirinha” (João Pessoa - PB), “Lageiro Seco” (João Pessoa - PB), “Flor de Caruá”(Caruaru - PE), “Junina Cearense” (Horizonte - CE), “Paixão Junina” (Fortaleza - CE), “Xotear”, “Mistura da Terra”, “Fazenda Lampião” (João Pessoa - PB) e “Rei do Cangaço” (Parnaíba - PI). As temáticas envolvem o Nordeste, o sertão, referências africanas, Santo Antônio, os três santos juninos e manifestações culturais nordestinas.
Entre os desafios criativos que enfrentei, destaco um projeto inspirado no conceito de Yin Yang, que buscava unir as cores preto e branco à estética junina sem perder os elementos característicos da tradição. Também considero marcantes os trabalhos relacionados aos povos originários e um projeto para a Fazenda Lampião, no qual voltei a realizar pinturas manuais em tecido. O público pode esperar figurinos com muitas cores e formas. Se eu tivesse que definir este momento em três palavras, escolheria: gratidão, alegria e emoção, sentimentos que representam tanto minha trajetória profissional quanto a experiência de viver os festejos juninos.


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