Para onde vamos com a desesperança?
- Revista Spia

- 2 de jun.
- 6 min de leitura
Por Gabriel Assis
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
Guerras, nostalgia, insegurança econômica, pós-pandemia, comodismo, dentre outros eventos compõem o cenário global em que nos encontramos — social e politicamente. Seus reflexos ou desdobramentos podem ser apreendidos nas práticas de como estamos nos vestindo e produzindo moda. Como plano de fundo, talvez conseguíssemos ainda ler no emaranhado de materiais, texturas, cores e formas, em letras minúsculas, uma frase como: “Talvez não haja futuro!”.
Quando tratamos de tendências, sabemos que elas têm seus ápices em algum momento da história e que, depois, são deixadas de lado, podendo retornar em períodos posteriores. As tendências estão para os movimentos de uma grande e divertida montanha-russa, como as modas estão para os movimentos cíclicos de abandono e retorno ao (antigo) novo e o (novo) novo — perdoem-nos pelo trocadilho tão necessário. Ambas, tendências e moda, por caracterizarem os movimentos próprios do campo, constituem o universo de continuidade e de descontinuidade nos modos de o ser humano expressar-se por meio de suas vestes (roupas e acessórios).

Considerando os eventos apontados na introdução deste artigo, e os pensando da perspectiva da comunicação, podemos considerar que as novas tendências (ou não tão novas assim), trazem em seu bojo um aspecto disfórico das sociedades contemporâneas: a de que a humanidade transita atualmente por um espaço global em que não há lugar para a esperança.
Assim como nada é por acaso na indústria, poderíamos conjecturar que paira nos ares do tempo uma onda de nostalgia que nos acompanha desde o começo da década de 2020 — sintoma de algo muito maior que está assolando a mente dos indivíduos consumidores e ditando seus comportamentos.
Ao mesmo tempo em que vivemos imersos na criação e na manutenção de muitos avanços tecnológicos, moldamos novos modos de existência e de inteligência, mas não estamos vestidos a caráter para essas mudanças. Em um passado recente, ao longo das décadas, as novidades relativas à difusão de informação e dos artefatos dos meios de comunicação eram acompanhadas naturalmente com o surgimento de tendências que traduziam em cores, materiais, texturas, formas etc., o momento do então. No conjunto, tínhamos novos moldes corporais, estéticos, utilitários e simbólicos, acompanhados com novas formas de ser o comportamento humano — sobretudo da perspectiva do consumo.
Como práticas em disputa, havia a transformação da ordem e, ao mesmo tempo, havia uma reação a ela, realizada por pessoas que queriam manter o então “atual” estado das coisas — por medo, por preferência, por apego, dentre outras paixões. Mas as transformações das sociedades são cada vez mais visíveis e sensíveis, este é o fato; e um grupo as aceita e, outro, ao contrário, as rejeita, preferindo manter um apego ao lugar mais seguro, o passado. Grosso modo, há que veja nas transformações o prenúncio de uma esperança no futuro, e há os que não o veem.
De uma perspectiva bastante empírica, arriscamos a dizer que a grande massa, embora usufrua das tecnologias do momento, ancora-se na segurança do passado, pois, para ela, as novidades que ganham “forma e função” não convencem que o “futuro” (presente) seja um lugar melhor e que de fato aporte aos seres humanos uma esperança de uma vida mais justa, digna, igualitária, humanizada etc. Esses posicionamentos reverberam na produção e no consumo de moda: não há promessas amigáveis e apaziguadoras de um futuro que sustente as novas formas de fazer e de consumir moda.
Entra nesse jogo facto-existencial, a volta de tendências. Elas não trazem consigo apenas uma homenagem ou referência histórica, mas escancaram uma dificuldade coletiva de produzir novos horizontes e simbologias. Com efeito, como dissemos, o retorno ao passado acaba sendo um “porto seguro” para o sujeito manter-se ao menos “firme e forte” diante e nas mazelas do mundo contemporâneo.
Pensando no papel do consumo na manutenção e, em parte, da formação identitária do indivíduo inserido no contexto social médio e com acesso fácil à informação fornecida sobretudo pela internet; há uma busca incessável pelo novo — o que é próprio dos discursos da moda —, mas sendo esse atrelado ao passado, criando-se o caso das micro-trends. O que antes vinha de uma subcultura — um movimento cultural, parte de uma rebeldia ao sistema —, hoje volta como tendências passageiras e esvaziadas de seu âmago social e significado. Em plataformas de multimídia como o TikTok, é muito fácil encontrar pessoas que querem se fazer presentes no mundo, inclusive no virtual. Esses palcos, substituindo funções próprias de instituições como família e escola, tornaram-se palco e espelho por meio dos quais muitos de gerações inteiras tiveram seu letramento social e o seu entendimento de o que é e como é ser um “sujeito individual”.

Podemos compreender esse e outros processos que vêm ocorrendo como sintomas da subjetividade esgotada pela aceleração contínua da informação. Isso porque as pessoas se cansam muito mais rápido das coisas do mundo e buscam o novo a todo instante, criando um desgaste geral, uma alienação pela informação. É nesse mal-estar que se tem um ambiente muito propício para a criação de uma outra subcultura que de pouco tem em comum às outras, mas consiste em uma abjeção ao novo, um submovimento cultural da internet que busca, infrutiferamente, sair dela.
Como consequência, práticas relacionadas ao uso de câmeras digitais analógicas, livros físicos, cadernos, discos de vinil e idas constantes a brechós são populares nesse nicho cada vez maior que busca estar vivo para além do mundo cibernético. Essas pessoas utilizam da saudade do que não foi vivido para essa libertação, uma união entre presente e passado que vem numa tentativa de acalentar os corações submergidos pela angústia da hipervigilância virtual. No passado, havia uma experiência de tempo menos fragmentada, um vínculo mais forte entre objeto, memória e uso, e uma sensação de profundidade que hoje parece rarear na economia da atenção e da automostração. Isso não significa que o passado tenha sido melhor em si, mas sim que ele é mobilizado como um antídoto simbólico contra a saturação do presente digital.

Ao assistir essas cenas em que pessoas interagem e se compõem com esses objetos utilitários (com seus componentes estéticos e simbólicos também ressignificados), parece-nos uma aspiração para algo que vai muito além do lugar comum, do já conhecido e do já visto, pois muitas pessoas que aderem ao submovimento mencionado sequer viveram ou estavam presentes no momento em que estes objetos e práticas primordialmente eram utilizados na forma que foram pensados.
A conclusão desse fato é óbvia: não trata de saudade vivida, mas de um conforto ou acalento que o sentimento de saudade propõe. Esse ato de conjunção entre sujeito e objetos não acontece apenas por gosto pessoal ou estilo, mas como reflexo de uma reação a um presente que cansa rápido demais e parece sempre exigir uma nova forma de existir; de um presente angustiante que nos faz querer gritar, expulsar suas pressões e nossos demônios. A contínua busca por desempenho com excelência, a exposição e a circulação de informações produzem um sujeito exausto, que passa a buscar no passado uma espécie de abrigo contra a velocidade do agora — inclusive porque, em meio a tantos eventos disfóricos do mundo, ele descrê na esperança de um futuro melhor.
Assim, talvez esse retorno ao passado signifique ainda mais sobre o presente do que sobre o próprio passado. Se ele conforta, é porque o futuro já não consegue sustentar as promessas que eram vistas em outros tempos. O que antes poderia ser imaginado como um avanço, mudança ou melhora, agora parece apenas repetição de um mundo cansado, veloz e instável. Por isso, voltar ao antigo não é apenas olhar para trás: é também um modo encontrado para lidar com a falta de perspectiva do que vem adiante. Nesse sentido, o passado deixa de ser apenas lembrança e passa a funcionar como uma tentativa de suportar um tempo em que as promessas de futuro parecem cada vez mais frágeis e mesmo ilusórias.
Assim, o antigo volta não como simples repetição, mas como resposta afetiva à ausência de promessas convincentes. Quando o presente cansa e o futuro não convence, voltar ao passado pode ser menos um gesto de fuga e mais uma tentativa de reencontrar alguma forma de permanecer, existir e expressar. E nessa volta ao passado, inclusive, toques e abraços, lágrimas e sorrisos voltam a unir pessoas e grupos afins, mesmo quando são registros que, por si, tornam-se automaticamente nostálgicos e funcionam como marcas de um tempo menos fragmentado, mais coeso e com mais traços de felicidade, porque envoltos por uma esperança, então, bastante crível.


.png)



Comentários