
160 resultados encontrados com uma busca vazia
- F(r)icções: Oficina online e gratuita sobre crítica de cinema abre inscrições
Aulas serão ministradas pelo pesquisador e roteirista Márcio Andrade, com foco no cinema pernambucano e nacional. A oficina "F(r)icções - Laboratório de Ensaios de Cinema", está com inscrições abertas de forma online e gratuita. A formação, ministrada pelo pesquisador e roteirista Márcio Andrade, tem o objetivo de promover encontros sobre leitura, interpretação e produção de conteúdo sobre cinema nacional e pernambucano. O projeto será dividido em três módulos independentes que acontecem entre fevereiro e março, cada um com 12h de duração. Serão disponibilizadas 60 vagas, sendo 20 vagas para cada módulo. As vagas terão um percentual reservado para mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, alunos e professores da rede pública de ensino. Cada módulo trará uma abordagem diferente, apresentando princípios da linguagem cinematográfica por meio da produção de ensaios em textos, podcasts e vídeos. O primeiro módulo se chama “Olhar” e vai acontecer entre os dias 8 e 12 de fevereiro, abordando os principais formatos de escrita sobre cinema: resenha, crítica, ensaio, entre outros. Em seguida haverá o módulo “Fabular”, entre os dias 22 e 26 de fevereiro. Na ocasião, os alunos vão trabalhar na produção de podcasts sobre curtas-metragens, explorando técnicas de escrita de roteiro, gravação e edição. O terceiro e último módulo, “Imaginar(-se)”, acontece entre os dias 8 e 12 de março. Neste módulo, os participantes irão criar um vídeo-ensaio com análise de cenas de um longa-metragem. Todas as turmas terão aulas no horário das 19h às 21h. Os interessados em participar devem inscrever-se através do site combomultimidia.com ou pelo formulário de inscrição até o dia 31 de janeiro. Ao final das oficinas, todos os materiais produzidos serão publicados na revista digital F(r)icções (friccoes.com). Tanto a oficina como a revista digital foram desenvolvidos com recursos dos editais emergenciais da Lei Aldir Blanc em Pernambuco. Sobre o professor Márcio Andrade é doutor em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCOM/UERJ), com período de intercâmbio na Universidad de Navarra - Pamplona - Espanha. Autor do livro Autobiografias do Outro – Camadas de Selfies em Documentários Pernambucanos (2015) e de diversos artigos sobre cinema publicados em revistas acadêmicas. Atualmente, coordena a produtora de conteúdo Combo Multimídia – responsável por projetos de curtas-metragens; de produção de conteúdo para internet como a revista digital multimídia Quarta Parede (4parede.com) e os podcasts storytelling Aventurama, Anônimos e Espelhos Quebrados (em desenvolvimento); e oficinas como F(r)icções e Ponto de Virada – Laboratório de Social Video. Além disso, já participou de comissões julgadoras para o concurso Rucker Vieira e Festival de Inverno de Garanhuns e de júris de festivais como Janela Internacional de Cinema do Recife, Recifest, FestCine e Cine Chinelo.
- O documentário de Marcelo Pedroso e a convergência entre cinema e jornalismo
Cineasta fala sobre a trajetória e influência de sua formação acadêmica nas produções audiovisuais. Marcelo Pedroso é diretor e documentarista, formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco. Combinando o olhar atento e crítico com as possibilidades documentais, Marcelo deu vida a vários curtas, entre eles Aeroporto (2010) e Em trânsito (2013), além de longas como Pacific (2009), Brasil S/A (2014) e KFZ - 1348 (2009), sendo este último seu primeiro longa, com roteiro e direção em parceria com o cineasta Gabriel Mascaro. Ainda durante a faculdade, o diretor e mais alguns amigos deram início a um coletivo de cinema que mais tarde se tornaria a produtora Símio Filmes. Em 2008, a Símio foi oficialmente formalizada integrando apenas Daniel Bandeira, Marcelo Pedroso, Gabriel Mascaro e Juliano Dornelles. Marcelo conversou com a Spia e falou sobre como começou a fazer documentários, como sua formação em jornalismo influencia nas suas produções e qual sua relação com a idas e vindas da vida. Como foi que você entrou no mundo do documentário? Eu me formei em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, e tive contato com o cinema na universidade. Eu fui estudar jornalismo porque eu gostava de escrever e não tinha nenhuma vontade ou vocação para trabalhar com imagens, mas aí na faculdade eu entrei em contato com vários colegas que eram vocacionados e tinha interesse de trabalhar com cinema e eles já filmavam. Foi a partir daí que eu comecei a me aventurar por esse meio e eu acho que teve uma convergência entre o jornalismo e o cinema que resultou na prática do documentário, não que o documentário seja tributário do jornalismo, são correntes que tem muitas diferenças, mas o fato de ter o interesse pelo o que a gente chama de real, pelo mundo histórico que vinha do jornalismo, de abordar questões do mundo, fatos e acontecimentos, tudo isso convergiu e resultou nessa aproximação com o documentário. Politicamente, eu me via muitas vezes desalinhado das prerrogativas do jornal e acho que foi um pouco em função disso que eu fui encontrando esse vetor de fuga e passei a trabalhar com o documentário como modo de aproximação com a realidade. Boa parte dos cineastas pernambucanos fizeram jornalismo e dentro do curso se envolveram com cinema e não atuaram mais nesta área, contigo foi quase a mesma coisa, mas você chegou a atuar como jornalista. Eu trabalhei 4 anos na redação do Jornal do Commércio. Na verdade, quando eu estava na faculdade eu era estagiário do jornal e depois que me formei passei uns 3 anos como contratado mesmo. E foi uma experiência muito boa, eu adorava! Trabalhei no Caderno de Cidades e era um caderno muito difícil, porque você tem um contato muito epidérmico com a realidade, com uma realidade muitas vezes brutal, de violência, de injustiças... Estar perto disso e tentar através da sua capacidade de reportar aquilo, tentar modificar e transformar de alguma forma, fazia com que eu me encontrasse nesse ofício, ao mesmo tempo eu também tinha muita dificuldade. Enquanto jornalista, você está sujeito a uma corporação e isso traz uma série de regras e limites para a sua atuação. Muitas vezes você está querendo ir de encontro aos interesses do jornal, da empresa e se vê muito cerceado. Então, politicamente, eu me via muitas vezes desalinhado das prerrogativas do jornal e acho que foi um pouco em função disso que eu fui encontrando esse vetor de fuga e passei a trabalhar com o documentário como modo de aproximação com a realidade. São paradigmas muito distintos do ponto de vista ético e político. Existe sim uma convergência em algum lugar, talvez essa aproximação com o mundo histórico, mas ainda são coisas muito diferentes. A liberdade e a possibilidade de ter autonomia do ponto de vista político e estético que o documentário ofereceu foi o que respondeu justamente às limitações que eu encontrava no jornal. Brasil S/A está disponível no YouTube. Eu tenho uma professora que diz que não existe jornalismo imparcial, e como estamos falando de jornalismo e eu enxergo o documentário como sendo e não sendo uma vertente do jornalismo, eu queria saber de você se o documentário é imparcial? Eu acho que o campo do documentário é muito plural, existem práticas documentais que são muito impregnadas no ideário jornalístico, inclusive no ideário da imparcialidade jornalística, algo que não acredito, mas que é defendido por muitas vertentes, empresas e pessoas. Eu, particularmente não acredito, como também não acredito na possibilidade do documentário ser imparcial, eu não acredito na imparcialidade de nenhum campo da atividade humana. Essa suposta neutralidade é uma invenção de um determinado momento histórico que atendia a interesses políticos, sociais e científicos específicos, que a história tem mostrado que não procede. O que eu acho mais interessante do documentário é entender que ele tem um lado. O jornalismo também tem um lado, embora ele tenha que dissimular e camuflar sob essa áurea da imparcialidade, ele tem um lado, é o lado do capital, o lado do patrão, da empresa, mas ele nega isso. O documentário não, a gente assume que a gente tem um lado e esse lado pode ser um que a gente queira se alinhar. Eu acho isso uma grande confusão, quando as pessoas cobram essa neutralidade. O barato é justamente o filme que se assume enquanto ponto de vista sobre a realidade, um recorte que direciona, seleciona, organiza e manipula todas essas ações que não necessariamente são dissimuladas no documentário. Pelo contrário, elas são colocadas às vezes dentro da própria cena, a gente quebra o pacto ilusionista no documentário, a gente admite a filmagem do próprio processo. O que me encanta no documentário é a parcialidade, é o tomar partido, é o ser histórico, é estar no mundo assumindo um posicionamento. Muitas pessoas cobram isso, só os fatos, mas acredito que não exista uma verdade única. Isso. Mesmo que você seja uma pessoa super desejosa da neutralidade, ela tem que entender que ela é um sujeito. Por exemplo, um filme feito por um homem branco e heterossexual, é um sujeito tido como “universal”, dentro do projeto colonial, e que muitas vezes tenta ocultar essa perspectiva. Eu, por exemplo, já cai nessa de achar que o lugar que ocupo não é perspectivado. Qualquer filme ou reportagem vai ser assumido a partir desse lugar específico ocupado por essa pessoa. Essa pessoa vai sempre reportar essa dimensão a partir da sua própria existência, dos pontos cegos que incidem sobre ela e das possibilidades de leituras do mundo que serão determinadas pelas condições de existência dela. Tudo isso é filtrado por uma sensibilidade que é esculpida por condições históricas, esse filtro ai é inescapável, mesmo que ela queira negar, é ela que está no jogo. Em geral, são lutas responsáveis por produzir, por tentar, por construir mundos mais igualitários e menos injustos. O audiovisual pode disseminar ideias, pode apresentar modos de vida, pode endossar pontos de vista, dar visibilidade a formas de existência, e todas essas operações podem ser lidas como instrumentos úteis à luta dos movimentos sociais. Você é uma pessoa ligada a movimentos políticos, queria saber qual o papel do audiovisual dentro desses movimentos? Eu acho que tem muitos papéis, um deles é de ser aliado e se colocar como instrumento para uma determinada luta. O audiovisual agencia diferentes regimes de visibilidade e de sensibilidade, então, ao construir representações ele constrói mundos. O imaginário que ele propõe e produz é parte do mundo em que a gente vive, então nesse sentido, o audiovisual pode se valer dessa capacidade de produzir mundos ou produzir imaginários para se aliar aos movimentos em suas diversas lutas. Em geral, são lutas responsáveis por produzir, por tentar, por construir mundos mais igualitários e menos injustos. O audiovisual pode disseminar ideias, pode apresentar modos de vida, pode endossar pontos de vista, dar visibilidade a formas de existência, e todas essas operações podem ser lidas como instrumentos úteis à luta dos movimentos sociais. Você se engaja ali, enquanto um militante, que está empenhado em produzir esses materiais servindo uma causa. Ao mesmo tempo, o audiovisual pode também problematizar os próprios movimentos, tensionar alguns consensos que existem dentro dos movimentos, porque os movimentos sociais não podem ser idealizados. Eu por exemplo, por mais que na minha atuação eu tente me construir como um aliado, enquanto alguém que endossa o projeto de sociedade que os movimentos estão construindo e estão defendendo, também tenho minhas críticas a várias coisas. Tem filmes que a gente faz pensando em desorganizar alguns consensos, levar uma auto reflexão para dentro dos movimentos, tensionar alguns pressupostos. Assista ao curta Aeroporto (2010) Assista Pacific (2009) Você acredita que os documentários produzidos aqui em Pernambuco têm alguma especificidade? Não sei, eu acho que no Brasil a gente fala muito o documentário mineiro, ou do pessoal do Ceará de uma galera que fez algo que trouxe uma identidade específica, uma diversidade grande de perspectiva. O Cinema Pernambucano em geral, diz respeito a um cinema de ficção, eu acho que o documentário feito aqui não tenha muito essa unidade, embora que o Cinema Pernambucano também não tenha muita essa unidade, pelo menos do meu ponto de vista. Acho que a ideia de Cinema Pernambucano também é uma grande estratégia política e de marketing, que foi e tem sido eficaz, por exemplo, cobrar políticas públicas para o audiovisual. Essa grife do cinema pernambucano foi muito bem usada e muito bem aproveitada pra isso, mas ele realmente agrega uma diversidade tão grande de coisas, de pessoas, de forma de olhar, que também não dá pra reduzir a isso. Você é integrante da Símio Filmes, como é o trabalho dentro de uma produtora? A Símio foi criada oficialmente como um coletivo em 2002/2003 e queríamos fazer filmes de forma lúdica, descompromissada, era um desejo das pessoas de realizar aquilo. Para a maioria de nós, nessa época, não tinha nenhuma pretensão de levar a frente, pra mim mesmo isso estava bem longe do horizonte, era, realmente, uma curiosidade, uma coisa prazerosa. Aos poucos, a gente foi levando mais a sério, e fomos nos conhecendo dentro daquela atividade. Além do prazer, percebemos um compromisso com aquilo, a gente se via ali como um espaço de expressão política no mundo e posteriormente no mundo profissional. Acho que a Símio se consolidou como produtora justamente na medida em que essas políticas públicas foram permitindo que a gente vislumbrasse a possibilidade de realizar nossos projetos e ideias que, até então, eram realizadas de forma completamente espontânea e financeiramente gerida sem incentivo externo. E era uma produtora, inicialmente com 10 homens, heterossexuais, a maioria brancos, isso diz muito sobre uma certa possibilidade de quem era autorizado a fazer cinema naquela época e ainda é hoje. Quando a gente formou a produtora dos 10 caras, só ficaram 4. As outras pessoas já tinham trilhado outros caminhos, um virou músico, outro diplomata, outro professor e aí os quatro que ficaram e formalizaram a Símio em 2008, foram: eu, Daniel Bandeira, Juliano Dornelles e Gabriel Mascaro. Em 2012/2013 Gabriel saiu da Símio e fundou uma produtora própria e ficamos só eu, Daniel e Juliano. Hoje, a gente continua enquanto um grupo de amigos fazendo algumas coisas juntos, mas não temos a mesma organicidade que tínhamos no começo, de realizar os filmes juntos. Hoje, tem uma certa atomização das relações, eu tenho os meus projetos, Juliano tem os dele, Daniel tem os dele, a gente se encontra, troca uma ideias, eventualmente nós colaboramos com o projeto um do outro. Mudando um pouco de assunto, dois filmes me chamaram a atenção que foram “Aeroporto” e “Pacific”. Eu achei que os dois dão a sensação de nostalgia, de saudade, idas e vindas...Qual é tua relação com as idas e vindas, principalmente neste período de distanciamento social? É isso aí (risos)... É difícil! Eu tenho a sensação que esse distanciamento social e o fato de muitas relações estarem se dando hoje mediados por essas câmeras e dispositivos eletrônicos, na verdade, é um grande laboratório do que vai ser o mundo, do que está se tornando o mundo. A proximidade se dá pela agência desse meio eletrônico. Para mim isso é muito assustador! Claro que tenho uma certa leitura positiva disso, mas também acho isso muito distópico. É realmente um paradigma de virtualização e não presentificação das relações que eu acho que vá ser muito difícil para a minha geração, talvez não para a sua. O que eu sinto, olhando um filme como Pacific, é que ele já estava olhando para isso. Acho que tudo isso é a consumação dessa sociedade do espetáculo, dessa sociedade mediada por imagens. Que é um projeto que está em curso, atualmente gerido por grandes corporações. Quando assisti O Dilema das Redes (2020), o que ele faz é colocar em palavras o que a gente já sabe, mas é bem didático. O que eu fiquei pensando foi que, o grande atentado terrorista hoje, seria destruir essa matrix, o Vale do Silício, para libertar a humanidade desse modo de se relacionar. Ali é onde tudo nosso está armazenado, onde nossos desejos estão sendo fabricados, onde estamos aprendendo a ser gente, reproduzindo padrões desenvolvidos por essas indústrias. Entrevista realizada por: Hanna Giovanna Aragão hannagiovanna@outlook.com
- Os toques e as mungangas no cinema pernambucano
Não há quem seja de Pernambuco e não saiba o que é uma munganga. Se você faz parte dos que não sabem, pernambucano ou não, eu só posso lamentar. E eu lamento lhe escrevendo enquanto faço uma munganga. Voinha diz que se o galo cantar eu vou ficar assim pra sempre. Eu vou explicar melhor. Munganga é uma expressão cômica, uma careta. O que é melhor que um corpo munganguento pra zombar da grande caretice que é a nossa sociedade? Talvez seja daí que nascem as LGBTQ+ nordestinas. Em experimento munganga.beta o realizador Tiago Lima nos prende numa viagem experimental de 37 minutos com uma performance estonteante da artista Libra. Do começo ao fim, a apresentação da artista é acompanhada de criações digitais que brincam com as formas e texturas do corpo. Servindo não apenas movimentos de câmera, mas experimentações de replicação, alteração e sobreposições tanto de imagens alheias quanto de partes do próprio corpo, é perceptível a intencionalidade de provocar os corpos em frente a tela. Essa provocação parece vir do desejo de romper com as formas de se perceber um corpo LGBTQ+, fruto de um contexto em que, para além de um falar sobre, é preciso dar visibilidade às existências e afetos corpóreos de um sujeito queer. A criação de um retrato audiovisual em que hipervaloriza o toque norteado pelo som de um set regado de música eletrônica, um techno poderoso, permite um passeio sinestésico ao espectador que supera os limites da identificação. Ressoa como um conto cheio de referências à história das pessoas LGBTQ+’s. Quando eu falo de toque, lembro que o cinema pernambucano já retratou corpos e afetos. Foi em 1975 que o famigerado Jomard Muniz de Britto lançou o que hoje se considera um dos primeiros filmes eróticos do estado. Em Toques, Jomard cria uma alegoria que atravessa o tempo para nos mostrar que a liberdade vem antes e depois da repressão. Nesse curta de sete minutos, três corpos aparecem livremente em paisagens naturais em clara referência às Graças. Num contexto de ainda forte repressão policial dos corpos marginais, o famigerado entrelaça a beleza ambígua dos corpos para além de uma união puramente carnal. Tudo isso com a música Pelos Olhos, de Caetano Veloso, como um quarto elemento compondo a obra. Estando nós num contexto sociocultural mudado, não tem como não notarmos como as obras audiovisuais são produtos do seu tempo. Tiago Lima não esconde suas referências. Ele as reverência. Mas também sabe nos maravilhar com sua performance contemplativa da performance do corpo filmado. Seu olhar potencializa politicamente o corpo de Libra e imprime em tela as particularidades e intimidades da personagem. Em consonância com o famigerado, Tiago compõe uma obra que utiliza de elementos fílmicos e personagens que questionam as representações, discute as liberdades e o próprio fazer cinema. Porém, diferente daquele, ele nos oferece uma obra analógica em que um corpo que faz caretas é permeado de afetos e que já não quer mais discutir sua existência, ela é real, e agora, é dar visibilidade às histórias que perfuram e completam esse corpo. Uma obra que diz: meu corpo é uma grande munganga para os caretas. E entenda, o LGBTQ+ irá sempre tocar-se, seja como resistência ou ressignificância da sua presença no tempo e no espaço. O que é mais Pernambuco queer que um corpo munganguento? Referências JOMARD Muniz de Britto. Disponível em: http://cinematecapernambucana.com.br/diretores/jomard-muniz-de-britto/ . Acesso em: 01 dez. 2020 SARMET, E. ; BALTAR, M. . Pedagogias do desejo no cinema queer contemporâneo. Textura - ULBRA , v. 18, p. 50-66, 2016. TIAGO Lima. Disponível em: https://tiagovlima.hotglue.me/ . Acesso em: 01 dez. 2020
- O silêncio em Geneton grita pela liberdade
Mudez Mutante mostra a sensibilidade de um diretor que tinha apenas 16 anos. Cena do filme Mudez Mutante - Disponível em: Cinemateca Pernambucana Mudez Mutante de 1973, foi o primeiro curta experimental de Geneton Moraes Neto. Rodado em super-8 e com duração de sete minutos, o diretor passeia por uma sala onde estão uma mulher e um homem lendo revistas em silêncio. A câmera curiosa começa a explorar o que parece ser um quarto com poucos objetos, mas com muitos recortes de imagens e palavras de manchetes de jornais, todas coladas nas paredes. A mudez se apresenta apenas no não diálogo entre os personagens, mas é acompanhada pela música Me Deixe Mudo de Walter Franco, também lançada em 1973. A música, que acompanha o grande quebra cabeça de palavras nas paredes, é uma composição que remete claramente à poesia concreta. Me Deixe Mudo tem uma estrutura ternária, uma sequência de silêncio-som-silêncio: começa com um silêncio que vai sendo preenchido por acordes e intercalações de fonemas e sons sem formas, até chegar na estrutura harmônica de música. E, por fim, vai se desmanchando, com a volta de fonemas e sons sem formas, ao retomar um silêncio intercalado que quebra toda a estrutura anterior. Cenas do filme Mudez Mutante - Disponível em: Cinemateca Pernambucana “Fique à vontade” é a primeira frase audível da música de Franco, e Geneton nos faz pensar que não é possível o conforto com a opressão. É uma crítica direta aos anos mais duros da ditadura, e é quando a personagem feminina se levanta e escreve num quadro negro, que o diretor nos mostra a vontade que o silêncio seja interrompido. Além da utilização de Me deixe Mudo como trilha principal do filme ou pela aparição de repetidos “ou não” no final do filme (o nome do álbum em que Walter lança pela primeira vez essa canção é Ou Não), a convergência das obras se dá pelo desejo de criar sons a partir dos silêncios. Geneton dá materialidade visual à vontade implícita na música de Franco. Cena do filme Mudez Mutante - Disponível em: Cinemateca Pernambucana A última parte da canção, que leva de volta ao silêncio inicial, é complementada pela saída do cômodo pelos personagens. As paredes continuam falando, mas o cômodo continua mudo. É o questionamento sobre onde está nossa liberdade. Se somos silenciados, como seremos ouvidos? É mutante porque se refaz. Geneton dá início a sua carreira de diretor transformando o silêncio rígido da censura em poesia que no final nos liberta. A mudez é anterior a toda criação. * Essa e outras outras de Geneton Moraes Neto podem ser conferidas no site da Cinemateca Pernambucana **Para conhecer a vida e obra do diretor, recomendamos a biografia: Geneton - Viver de Ver o Verde Mar, de Ana Farache e Paulo Cunha Referências: FARACHE, Ana; CUNHA, Paulo. Geneton: viver de ver o verde mar. Recife: Cepe Editora, 2019. GENETON Moraes Neto. Disponível em: . Acesso em: 05 nov. 2020. STESSUK, Sílvio . O silêncio em espirais: Walter Franco. In: XI Congresso Internacional da ABRALIC, 2008, São Paulo. Anais do XI Congresso Internacional da ABRALIC. São Paulo: Abralic, 2008.
.png)



