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  • O Voo do Viajante Alado

    Em “O Voo do Viajante Alado”, a Spia resgata o relato de Paulo Rafael para o livro "As Aventuras do Baile Perfumado: 20 anos depois". Paulo Rafael - Foto: Fred Jordão "Eu tinha feito apenas coisas bem esporádicas para cinema. Eu tinha feito a trilha de um curta para Lírio Ferreira, um curta bem experimental, que até ganhou um prêmio de melhor música num festival da Bahia. Também tinha feito a música e a trilha incidental de Pátria Amada, de Tizuka Yamazaki. Como na trilha estavam Alceu Valença e Carlos Fernando, com quem eu tinha muita intimidade, acabei assumindo. Cerca de um ano antes das filmagens do Baile Perfumado, eu estava me mudando de Olinda, voltando para o Rio. Foi quando Geraldinho Magalhães, que estava cuidando da produção musical do filme, me convidou para assumir a direção musical. Na verdade, foi nesse momento que eu fui tomando pé da situação. Havia muitos comentários, todos os meus conhecidos do Recife já estavam curtindo a informação de que havia um longa sendo rodado. Já existiam muitas lendas e histórias: “Olha, eles estão filmando, Lírio e Paulo Caldas…”. De vez em quando, chegava alguém vindo das filmagens e começava a comentar que estava rolando isso ou aquilo. E ficava todo mundo querendo participar de alguma forma daquele projeto. Mas, no meu caso, foi muito por insistência de Geraldinho. Quando Geraldinho me convidou é que comecei a me informar melhor. Fiquei mais perto. Um dia, me passaram uma versão do roteiro, mas chegava alguém para me alertar: “Olha, nem leia isso que mudou tudo…” De todo modo, li uma parte do roteiro para entender como era a história. Posteriormente, Marcelo Pinheiro me ajudou muito a entender o que estava por trás daquela história. A bem da verdade, eu diria que quando eu entrei no processo foi na função de um motorista que dá uma freada para arrumar o caminhão. Porque todo mundo estava ou tinha passado pelo estúdio do Conservatório Pernambucano de Música para gravar. Já tinha material gravado de Chico Science, Lúcio Maia, Siba (que era o Mestre Ambrósio), Fred Zero Quatro, Stela Campos… ou seja: todo mundo que estava envolvido com o que se fazia naquele momento no Recife em termos musicais. Eu sabia do trabalho de todos eles, mas na verdade não conhecia todos em profundidade, a não ser a Nação Zumbi e Siba. E a primeira impressão que eu tive quando me entregaram os rolos - porque foi tudo gravado em fita de rolo, ainda em 16 canais -, chamei um técnico de som que eu conhecia para vir ao estúdio do Conservatório. E o cara me alertou: “Olha, se prepare porque é um quebra-cabeça, Você vai ter que montar um quebra-cabeça gigante”. Comecei a ouvir as gravações, tinha muita coisa. Porque no início, antes de me chamarem, as coisas funcionaram assim: alguém convidava os músicos, passava um briefing, e eles entravam no estúdio e passavam o dia tocando, fazendo música. Disso resultaram horas e horas de gravação. Todo o material tinha uma certa orientação de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, e cerca de 90% das músicas já estavam gravadas. Embora quase tudo estivesse feito, sempre faltava um pedaço. Era tudo esboço. Um esboço que exigia que a gente voltasse para eles. Eram milhões de esboços, e comecei a filtrar, a filtrar. A partir desse momento, defini um pouco sobre o que iria ou não entrar. Fazia uma seleção e levava para os diretores, mostrava, conversava. E eles já achavam que estava resolvido: “Está tudo pronto?”. E eu dizia: “Não, não está pronto!”. Seria preciso regravar para tudo ficar realmente pronto, bem acabado. E a produção enlouquecia: “Ai, meu Deus do céu, tem mesmo que refazer?” Algumas coisas, portanto, estavam para terminar, concluir, resolver, editar no estúdio… Um bocado de coisa que precisava regravar. Nesse momento eu já estava morando no Rio. Então eu comecei a perceber que havia nessa etapa uma resistência incrível, porque todo mundo já achava que aquilo que tinha gravado estava bom, concluído. O próprio Siba, que tinha acabado de gravar o disco do Mestre Ambrósio, dizia que não estava mais com cabeça: “Porra, eu vou ter que gravar aquilo tudinho de novo?” Eu insistia: “E você vai deixar desse jeito, cara? A ideia está fantástica, mas tem que dar um acabamento”. Aos pouquinhos, comecei a convencer Siba. Depois dele foi mais fácil convencer Lúcio Maia, depois convencer Chico Science, Fred Zero Quatro, todos os outros. Todo mundo ajeitando as gravações. Eu pegava aqueles borrões, aqueles esboços e saia gravando por cima. Então essa foi a primeira etapa. A segunda etapa eu já trouxe para o Rio. Havia boas ideias porque como o projeto era fazer um disco - nem era DVD ainda - como o material era pra fazer parte de um disco uniforme, chamei o Dj Suba, que tinha uma pegada mais forte de música eletrônica. E decidi que ele também iria entrar na trilha do filme. Porque eu comecei a observar que tinha muita coisa que precisaria recombinar. Eu tinha uma banda chamada Eletro Fluminas, com o tecladista Márcio Lomiranda. Eu me propus, então, participar da trilha não apenas na direção musical. Pedi mesmo: “Deixa eu colocar umas músicas minhas aqui também”. Eram mais músicas que poderíamos chamar de músicas de fundo. Não eram os temas principais, que eram sempre cantados. As minhas músicas eram de apoio, que fomos fazendo puxando para um lado mais eletrônico, que serviria para complementar todo o resto. Por fim, eu mixei. Lírio e Paulo estavam editando em Botafogo, bem perto de onde ficava a minha casa. E comecei a frequentar. Era uma energia fantástica, os caras estavam curtindo pra caramba. Foi a primeira vez que eu vi as imagens e o som que vinha do set. Porque até então era tudo na imaginação. Nesse momento, Lírio e Paulo já sabiam exatamente onde colocar as músicas. Eles sabiam da importância que teria a trilha para conduzir a narrativa. Quando eu vi o filme pronto foi ainda surpreendente. Eu pensava: “Olha, aquela música entrou nessa sequência”. Mas quando eu vi a cena de Lampião naquela pedra, fiquei arrepiado. Aliás, eu fico arrepiado até hoje. Eu senti um impacto enorme. Tanto que pensei na hora: “Puta que pariu, isso aí vai mudar um monte de coisas” Eu senti na hora que já era uma linguagem nova do cinema. E eu digo: “Negão deu um passo”. Sangue de Bairro (Chico Science e Ortinho) Besouro/ Moderno/ Ezequiel/ Candeeiro/ Serra Preta/ Labareda/ Azulão/ Mamoeiro/ Quinaquina/ Bananeira/ Sabonete/ Catingueira/ Limoeiro/ Lamparina/ Mergulhão/ Corisco/ Voltaseca/ Jararaca/ Cajarana/ Viriato Gitirana/ Voltabrava/ Meia Noite/ Zabelê Quando degolaram minha cabeça, passei mais de dois minutos vendo meu corpo tremer E não sabia o que fazer, morrer, viver, morrer, viver Nesse universo que é o filme, eu me considero uma particulazinha. Mas os diretores não: eles deram um tiro lá na frente. Fiquei muito emocionado. Aquelas imagens ficaram perpetuadas, porque não eram imagens antigas ou novas. Ficou uma coisa atemporal. Fiquei muito feliz por ter participado do Baile Perfumado. Eu acho que o filme foi um trabalho fundamental para o cinema, para a música pernambucana, para que todo mundo pudesse se sentir valorizado. Eu acho que o Baile foi o que deu a alavancada para toda essa coisa que veio depois no cinema em Pernambuco. Eu fiquei só felicidade." Gravação da trilha sonora do filme Baile Perfumado no Conservatório Pernambucano de Música. 1- Chico Science - Foto: Fred Jordão; 2- Fred 04 - Foto: Fred Jordão. Relato extraído do livro "A Aventura do Baile Perfumado: 20 anos depois".

  • O afeto das memórias pelas lentes de Géssica Amorim

    A partir das fotografias de Géssica Amorim, refletimos a importância do fazer fotográfico na construção da identidade e a permanência dos afetos. Autorretrato por Géssica Amorim. Embora pensados em muitos casos de formas apartadas, a fotografia e o tempo se entrelaçam na construção da identidade e partilham um sentimento único: o afeto das memórias. Stuart Hall (1932-2014) foi um teórico cultural e sociólogo, que dedicou-se a compreender e valorizar o estudo da cultura. Em seu livro “A identidade cultural na pós-modernidade” (1992), Hall traça uma narrativa acerca da relação entre o homem e a identidade moderna, o mesmo afirma que por muito tempo as identidades eram sólidas e os indivíduos se encaixavam nas ideias já estabelecidas, com o passar do tempo as identidades se encontram menos definidas e atravessam novas significações para o espaço social e cultural. Géssica Amorim, 27, traça uma narrativa identitária a partir do seu olhar sincero, político e afetuoso acerca daquilo que conhece e perpassa seu cotidiano. A artista está cursando a segunda graduação, sendo essa, em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco no Campus Acadêmico do Agreste (CAA) e trabalha como estagiária na Marco Zero Conteúdo. A narrativa fotográfica traçada em seu perfil no instagram (@gessicamorim) desvendava uma voz sincera, que sempre me acalentou o peito e me reafirma a importância das narrativas múltiplas acerca daquilo que conhecemos e identificamos como história. “O lugar onde vivo e que costumo registrar com mais frequência é estereotipado desde sempre. Os assuntos, o que varia, o que é singular no espaço e nas pessoas são diluídos e impressos numa mensagem só. Talvez isso confuda quem vê de longe. O meu tema é o que está ao meu redor, o que faz parte da minha existência, do que eu vivo no mundo. É mais íntimo do que parece.” Reflete a artista nascida no sertão do Pajeú, no sítio dos Nunes. O município é conhecido como uma terra cheia de poesia e retratado de maneira singular pelo olhar de Géssica, que afirma que sua fotografia “É sobre o que vejo no meu pedaço. O que cresci vendo e vivendo. Me apego ao que me é familiar. Fico andando atrás de mim, registrando o que e onde me reconheço.” Esses são os registros de Géssica Amorim: uma busca aos afetos. Quando você se descobriu fotógrafa? Qual papel a fotografia tem para você? Géssica Amorim: Na verdade, eu não me considero fotógrafa. Acho que, pra isso, eu teria de atender a uma série de critérios que envolvem técnicas e estilos que, por vezes, não domino ou não me interessam. Eu sou amadora. Pra conseguir a carteirinha de fotógrafa, é muita exigência, muita obediência (risos). Clarice Lispector dizia que não queria ser reconhecida como escritora pra manter a sua liberdade enquanto escrevia. Ela sempre se considerou amadora. E eu acho isso honesto e fantástico. Penso igual. Me agarrando a isso honestamente, eu me mantenho livre para aprender, experimentar e produzir o que eu quiser. Sem obrigação de entregar um produto "profissional", de “alto nível". Pra mim, isso é só engraçado, não um objetivo. A fotografia me ajuda a suportar. O papel dela na minha vida é esse. Esqueço de tudo quando estou fotografando. Me concentro no que vejo e quero registrar. Não existe mais nada além do que enxergo por trás da câmera. Cada fotógrafo tem um objeto de estudo, um campo particular que o encanta. Você acredita que há um objeto/campo que te encante mais na fotografia? Se sim, qual/quais? GA: Eu não sou apegada a um tema específico, nesse sentido. Olhando o que eu publico, pode ser que pareça que eu corro atrás de um tema só, mas não é isso. O lugar onde vivo e que costumo registrar com mais frequência é estereotipado desde sempre. Os assuntos, o que varia, o que é singular no espaço e nas pessoas são diluídos e impressos numa mensagem só. Talvez isso confunda quem vê de longe. O meu tema é o que está ao meu redor, o que faz parte da minha existência, do que eu vivo no mundo. É mais íntimo do que parece. Sua produção artística é um embarque ao passado-presente, há sensíveis textos que acompanham as tuas fotografias em seu perfil do Instagram. Qual o valor da escrita na tua arte? GA: Olha, eu acho que a escrita vem quando as imagens não bastam em alguns casos. Tenho escrito com menos frequência a respeito de algumas imagens e dos significados delas. E eu escrevo quando acho realmente necessário, quando o sentimento me pede. Talvez seja o que chamam de inspiração, não sei. Eu sei que não forço a barra. Não aqui, no que é meu e onde posso ser livre. Quando vem, eu deixo aparecer. É só isso mesmo. Tem uma série fotográfica em seu instagram que relata os recados deixados no verso de algumas fotografias. Como você enxerga a fotografia impressa e qual peso ela consegue verter na sua concepção? GA: Eu sempre achei e acho muito interessante essas mensagens, recados e dedicatórias que a gente escrevia nos versos das fotografias. Eu consigo imaginar o que foi revelado sem olhar a imagem - sem falar na coisa de usar essa imagem como presente, lembrança. Eu acho muito bonito. Queria entregar e receber imagens assim também. Imagem-presente-recado por Géssica Amorim Tem algum registro que você fez que pode ser considerado como seu preferido? Se sim, qual e porquê? GA: Eu ia dizer que não, pra evitar pensar e avaliar demais (risos). Mas, há pouco tempo, levei uma cama para o terreiro e fotografei o conforto que enxergo nela, ali, no meio do mundo. Tentando dizer, mesmo, que qualquer lugar do mundo é casa. Gosto muito dela. Cama no terreiro por Géssica Amorim. Entrevista pro Cecília Tavora.

  • Destaque: Uma viagem ao passado sem tirar os pés do presente

    Por Maria Clara Mendes. A grandeza de um disco pode ser observada de inúmeras formas. Gosto de pensar que a obra de Alceu tem a autonomia para falar por si mesma, basta colocar o disco para tocar e pronto, está dito. O Cinco Sentidos, lançado em 1981, tem a força, a sensibilidade e o atrevimento que só poderia surgir da mente de um artista como Alceu Valença. O álbum traz algumas memórias da infância do músico pernambucano, é uma viagem ao passado sem tirar os pés do presente. Com uma intensa dose de intimidade e desejo, ao longo das nove faixas, somos levados a experiências que jamais serão esquecidas. São as nossas emoções se misturando com as emoções do autor. Parece um filme cujo diretor é um cabeludo, sensível e teimoso que tem apenas trinta e dois minutos para dizer tudo e mais um pouco. E ele manifesta, de forma poética e arrebatadora, a sua mensagem e a sua essência enquanto homem, menino, artista e pernambucano. A última faixa do disco sintetiza bem. Seixo Miúdo. O Cinco Sentidos vendeu 150 mil cópias e colocou Alceu no ápice dos grandes shows, seu lugar por merecimento. É um álbum que aponta o rumo que a carreira do artista iria seguir na década de 1980, mas que ainda traz o resquício da ternura presente em sua poderosa obra setentista. Em tempos estranhos de pandemia e de tantos conflitos políticos, ouvir o Cinco Sentidos é uma boa pedida para sempre nos lembrarmos quem somos e o que nunca deixaremos de ser. “Minha língua ferina só cala no fim do espetáculo…” Link do álbum no Spotify Link do álbum no YouTube

  • Revista Spia é vencedora do Expocom Nordeste na categoria Produção Multimídia

    Estamos muito felizes em compartilhar esse resultado com vocês, que é reflexo do esforço e dedicação da nossa equipe e de vários colaboradores pela arte e cinema pernambucano. O Expocom é uma exposição de pesquisas experimentais em comunicação destinada aos melhores trabalhos produzidos por estudantes no campo da Comunicação. A Revista Spia era finalista na categoria Produção Multimídia, uma modalidade de Produção Transdisciplinar e conseguiu o prêmio da etapa Regional, o Expocom Nordeste. Agradecemos a todo mundo que acredita, compartilha e faz parte desse projeto. Um obrigado especial a Amanda Mansur, nossa orientadora, Márcio Correia, Hanna Aragão, Maria Clara Mendes, Ade Queiroz, Samara Torres e Cecília Távora. Viva o curso de Comunicação Social da UFPE- Caruaru! Viva a Universidade Pública!

  • Galeria "A Peleja do Bumba Meu Boi Contra o Vampiro do Meio Dia"

    Como um esquenta para exibição especial de "A Peleja do Bumba Meu Boi Contra o Vampiro do Meio Dia", de Lula Lourenço e Pedro Aarão, selecionamos algumas fotos tiradas por Germano Coelho Filho (Still e Produção) dos bastidores do filme. Lembramos que o filme ficará disponível por 24 horas no nosso canal do Youtube. Saiba mais sobre as fotos nas legendas abaixo. 1.Luiz Lourenço e Pedro Aarão com Olegário Fernandes em sua barraca onde vendia cordéis na feira de Caruaru; 2.Mestre Galdino gravando seu depoimento em sua casa/atelier. Edinho Moraes na câmera e Wellington Branco na iluminação, que também fez a personagem de Catirina na parte filmada em Super-8 - Caruaru; 3.Germano Coelho Filho (Still e Produção), Pedro Aarão, Manoel Galdino, Edinho Moraes (câmera), Luiz Lourenço e Bela Leite (assistente de produção) - Caruaru; 4.Mestre Otilio com um mamulengo em sua residência na gravação de seu depoimento e performance para o filme - Caruaru; 5.Exibição do filme em 1988, no Centro Interescolar Luiz Delgado, no Parque 13 de maio - Recife; 6.Feira de Caruaru em 1982; 7.Mestre Gercino em foto da gravação em vídeo do Boi na praça Coronel João Guilherme - Caruaru; 8.Guiga Melo, ator que desempenhou magistralmente o papel do vampiro, na gravação de seu depoimento para o filme.em sua residência fazendo a massa do pão integral que vendia para sobreviver com a família - Caruaru; 9.Foto de cena no circo - Caruaru.

  • Um filme histórico e heroico sobre a peleja da cultura popular

    Frame do filme A Peleja do bumba-meu-boi contra o vampiro do meio-dia. Alguns filmes tem a hora, o lugar e as pessoas certas. No início dos anos 80, no agreste pernambucano, dois amigos se uniram a outros amigos e fizeram história com o pouco que tinham ao alcance. ‘A Peleja do bumba-meu-boi contra o vampiro do meio-dia’, dirigido por Luiz Lourenço e Pedro Aarão, ao que tudo indica, é o primeiro filme realizado na cidade de Caruaru, interior de Pernambuco. Tudo começou em 1981 quando as filmagens foram iniciadas na marra com o uso de câmeras Super-8. Por dificuldades técnicas e financeiras, o trabalho foi interrompido e retomado cinco anos depois, agora utilizando também o formato u-matic. Um filme-vídeo histórico e heróico sobre a peleja da cultura popular. Esta é uma possível interpretação para uma obra que desperta curiosidade e muitos significados. Com uma pegada documental e ficcional, A Peleja tem uma proposta ousada e necessária que se reflete nos depoimentos dos artistas populares de Caruaru, e sobretudo, na imagem do vampiro. Logo de cara somos apresentados a uma paisagem escura e repleta de lixo, uma placa traz os dizeres: Terceiro Mundo. É um prenúncio do que está por vir, A Peleja tem uma mensagem direta, simbólica e com margem para muitas interpretações. De forma poética e metafórica, a narrativa traz a cultura popular (o bumba-meu-boi) em um duelo contra os poderes político e econômico (o vampiro). A caracterização do vampiro se assemelha à imagem de Tio Sam, um dos símbolos dos Estados Unidos. O vampiro aparece em várias situações dentro da narrativa - como se quisesse nos lembrar dos inimigos que nos cercam cotidianamente. Ele está nas ruas da cidade, na feira, atacando um senhor na fila do banco, ele tem posses e um aspecto teatral em sua presença marcante. Os depoimentos de nomes históricos da cultura popular são significativos. Mestre Galdino (ceramista e poeta), Antônio Medeiros (ator e diretor), Olegário Fernandes (poeta e editor), Mestre Gercino (bumba-meu-boi), Tavares da Gaita (músico e artesão), Mestre Otilio (mamulengueiro) e Francisco Sales Areda (poeta). Em cada fala um testemunho das dificuldades de quem faz a cultura popular, uma dificuldade do passado que persiste no presente. E como é importante ouvir cada depoimento. A Peleja nos permite ver e ouvir estes mestres e poetas que tinham muito a dizer. O filme é um registro histórico destes personagens e do trabalho realizado por eles, é também um registro histórico de Caruaru, uma cidade que se transformou completamente com o passar dos anos. As cenas do vampiro caminhando pelas ruas da cidade, subindo as escadas e olhando para a feira são memoráveis. A presença de tanta gente com o Boi Tira-Teima na rua, no duelo contra o vampiro, é de arrepiar. Há muito para se emocionar ao assistir ‘A Peleja do bumba-meu-boi contra o vampiro do meio-dia’. Uma das maiores emoções vem da própria existência do filme e da coragem que Pedro e Luiz tiveram para criar uma obra autêntica. A Peleja não existiria com a mesma paixão e verdade pelas mãos de outros diretores. Os dois tinham o olhar e as experiências que a obra necessitava para existir. Eles tinham o sonho de fazer o filme, e hoje, 40 anos depois, o filme ainda nos inspira a sonhar, criar e refletir sobre a nossa cultura. . . Referências: A PELEJA DO BUMBA-MEU-BOI CONTRA O VAMPIRO DO MEIO-DIA. Direção: Luiz Lourenço e Pedro Aarão. Pernambuco: 1986. DVD (30 min) SCHWARZ, Ana. Entrar e sair da tela: uma viagem móvel. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Pernambuco, Pós-graduação em Antropologia no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 2002. Texto por Mª Clara Mendes.

  • Memórias de um Filme Cult Popular

    Por Luiz Lourenço. Em 1981, o Brasil era governado por João Batista de Figueiredo, o 5º general no poder da ditadura militar que durou 21 anos. Nesse período havia censura que impedia a circulação livre de ideias, de peças de teatro, livros e filmes. Pessoas eram sequestradas sumariamente, interrogadas, torturadas e mortas pelo regime militar. Justificava-se que havia uma invasão comunista para tomar o poder político. Na UFPE onde estudei Comunicação Social, engajei-me na luta do movimento estudantil, quando fundamos o Diretório Acadêmico Livre de Comunicação e fui eleito como 1º presidente, em 1979. Luiz Lourenço, Pedro Aarão e Olegário Fernandes na feira de Caruaru - Foto por Germano Coelho Filho. A ideia de fazer o filme, surgiu a partir do reencontro com Pedro Aarão, que havia passado uma temporada em São Paulo trabalhando com produção de Teatro e música. Havíamos participado do Cineclube Lumière criado por um grupo de intelectuais de Caruaru e presidido por Pedro Aarão. O Centro de Pesquisa e Documentação da Fafica, dirigido pelo sociólogo e professor Ivan Brandão junto com o Cineclube promoveram um curso de como operar câmeras de super-8. Fortemente influenciados pela estética e política do Cinema Novo brasileiro, além de filmes do Neo-realismo italiano de diretores como Fellini, Antonioni, Bertolucci, De Sica, e do novo Cinema alemão como Fassbinder, Schlondorff, Wim Wenders. O processo do filme começou com uma enquete que fizemos na feira de Caruaru, munidos de um gravador cassete, conversando com os feirantes. Partimos então para escrever o roteiro do filme com o mote de uma peleja imaginária do povo contra os poderes local, nacional e internacional. As dificuldades eram enormes, pois não tínhamos fonte renda na ocasião e nem havia políticas, editais nem leis de fomento para a produção cultural. A realização do filme arregimentou artistas de vários segmentos e gerou diversos tipos de reação, quando filmávamos em locais públicos, como por exemplo na frente da igreja da Conceição onde chegamos a ser apedrejados. As dificuldades técnicas surgiram quando filmamos as cenas da peleja cantada e encenada entre o Bumba meu boi e o vampiro a partir dos versos do poeta Francisco Sales Areda e musicados por Jadilson Lourenço. Não tínhamos experiência nenhuma com captação de som direto nem equipamento compatível com o desafio. Mestre Galdino - Foto por Germano Coelho Filho. Essa dificuldade gerou um impasse na hora que partimos para montar o filme porque a qualidade do som captado não tinha inteligibilidade para passar a mensagem que queríamos. Aí houve uma interrupção no processo de feitura do filme. Durante a montagem do filme em Recife que teve a inestimável colaboração de Douglas Tabosa de Almeida, surgiu a possibilidade de trabalhar com audiovisual na Prefeitura de Olinda. Passaram-se então 5 anos até que reuníssemos condições técnicas para gravar em estúdio para dublar as partes cantadas da peleja. Paralelo a isso foi um tempo de redefinição do roteiro do filme quando resolvemos agregar uma parte documental gravada em vídeo. Houve toda uma discussão com os artistas focados para que eles entendessem o processo do filme. Fizemos uma exibição do material até então filmado numa sala de exibição de um videoclube que ficava na av. Agamenon Magalhães. Nós conseguimos locar por uma diária o equipamento da Massangana Vídeo da Fundaj para que num único dia gravássemos todas as participações. A edição do material foi possível na TV Universitária de Recife, onde eu trabalhava e pegava no equipamento em sessões de edição pela madrugada adentro. O filme foi inscrito no Festival do Maranhão e chegou lá no dia da exibição, quando o júri já havia deliberado sobre as premiações e quando viram o filme tiveram que refazer e outorgaram 4 prêmios na estreia do filme. Na sequência o filme participou do I Festival de Vídeo Independente de Fortaleza onde recebeu 3 premiações. Na Bahia, onde o filme participou da jornada Internacional de Cinema e Vídeo, ganhou o Tatu de Ouro de Melhor direção. Fizemos uma sessão de estreia concorridíssima para a classe artística no auditório da Fundação de Cultura de Caruaru e uma outra para o público em geral no Teatro João Lyra Filho. A principal exibição pública que fizemos foi na Feira de Caruaru, na praça Coronel João Guilherme, onde ficava a feira de artesanato na época. Montamos nesse local na noite da sexta até a madrugada do sábado, uma barraca de campanha com televisores para todos os lados exibindo continuamente o filme e fizemos toda uma mobilização com artistas que passaram o dia se revezando em apresentações. Levamos ainda de Recife o tradicional Maracatu Leão Coroado, ainda comandado pelo Mestre Luís de França. Como ainda não havia emissora de TV local em Caruaru, conseguimos que a Rede Globo Nordeste pautasse o evento e deslocasse uma equipe de Jornalismo para exclusivamente cobrir o evento. Houve então uma repercussão bastante importante do filme nessa ocasião. Exibição do filme. Na TV, o rosto de Olegário Fernandes - Foto por Germano Coelho Filho. Daí vieram os projetos de circuito de exibição nas comunidades de Caruaru, nas escolas públicas do estado em Recife e seguiu com estrondoso sucesso no projeto Arte nas Praças criado e produzido pelos queridíssimos amigos Prego e Ione, que deu uma grande visibilidade aos artistas participantes. O filme circulou em treinamentos de professores do ensino médio de escolas públicas, em turmas de alfabetização de adultos, em seminários dos Mestrados de sociologia e antropologia da UFPE, foi traduzido e legendado em inglês e espanhol. Gerou uma dissertação de Mestrado em Antropologia na UFPE, pesquisa realizada por Ana Schwartz. 40 anos depois do início dessa história, ao atravessar diversas mudanças tecnológicas na captação/edição de imagens/som, o filme-vídeo precisa de uma restauração pois as sucessivas transcrições de um sistema para outro, provocou uma deterioração das imagens/sons do filme. Sendo muito necessária uma ação restauradora para sua preservação para que ele siga fazendo história. O jornalista e antropólogo Celso Marconi que escrevia sobre cinema numa coluna no Jornal do Commercio classificou “A Peleja do Bumba meu boi contra o vampiro do meio dia como um filme “cult popular” pela circulação alternativa que conseguimos imprimir em vários meios e públicos. Seguiu-se exibições numa sala de vídeo da Fundaj no Derby. Fizemos uma pequena temporada no Cine Bajado em Olinda que ficava no Clube Atlântico de Olinda. Importante ressaltar a participação dos artistas nos debates que se seguiam às exibições. Destaco as presenças muito fortes e desatinadas do Mestre Galdino, Olegário Fernandes e Francisco Sales Areda, que nos debates conseguiam criar maneiras de refletir sobre o filme que iam além dele. Cito ainda outros não menos importantes que deixaram suas marcas em nossas vidas como Mestre Gercino e Dona Lindaura do Boi Tira-teima, Mestre Otílio, Antônio Medeiros, Tavares da Gaita, Carlos Sá, Iran Barreto, Nal, Marconi Edson entre outros. Germano Coelho Filho (Still e Produção), Pedro Aarão, Manoel Galdino, Edinho Moraes (câmera), Luiz Lourenço e Bela Leite (assistente de produção). Quero dar um destaque todo especial ao grande amigo e parceiro de todas as horas na produção do filme, o ator Guiga Melo que hoje mora no Norte e que fez brilhantemente o papel do vampiro. Queria também citar o sociólogo e professor Ivan Brandão que foi de inestimável valor, pois sem ele nós não teríamos vencido as barreiras da incompreensão que cercavam nosso trabalho. O padre Pedro Aguiar com seu espírito humanitário nos legou muitas lições. Nosso amigo e parceiro Germano Coelho Filho que fez um still impecável de toda segunda parte do filme. E por fim, mas não por último, precisamos trabalhar filmes que coisas importantes não caiam no esquecimento, e não justifiquem o bordão que “o Brasil é um país sem memória”. Parabenizo o trabalho da equipe da Revista SPIA que provocou quase uma escavação arqueológica para desenterrar um passado que poderia ficar enterrado e esquecido ad infinitum. Ressalto a importância de termos uma universidade pública no Agreste Pernambucano que cumpre seu grande papel de fomentador do desenvolvimento regional e de aglutinador de vivências e experiências. Lutemos por mais verbas para as universidades públicas. E educação, mais educação, sempre educação. É o melhor legado que podemos ofertar para as próximas gerações, contra a ignorância, o obscurantismo e o subdesenvolvimento. Vida longa para a Revista SPIA!

  • 40 anos de uma história que se repete

    A Spia conversou com Luiz Lourenço e Pedro Aarão sobre o filme e o atual cenário em que a arte se encontra. Há 40 anos, começava a ser filmado em super 8 o filme "A Peleja do Bumba meu boi contra o vampiro do meio dia" de Luiz Lourenço e Pedro Aarão. Um processo demorado, que só foi finalizado cinco anos depois, mas que valeu muito a pena. O filme fala sobre a peleja que artesãos e artistas caruaruenses enfrentam diante da desvalorização do trabalho e da cultura em Caruaru, Agreste de Pernambuco, e é tão elogiada mundo afora. Hoje, 40 anos depois, as dificuldades que esses trabalhadores enfrentam ainda são as mesmas, na verdade, talvez estejam maiores. Para homenagear esse filme que diz tanto sobre o presente, a Spia entrevistou os dois realizadores do filme que falaram sobre como foi o processo de produção, o contexto atual e as adversidades para quem faz arte e cinema de modo geral. A pandemia nos confinou em casa e mudou o rumo de muitas coisas. Como está sendo esse período para vocês? Luiz Lourenço (LL): Está sendo muito difícil. Principalmente para quem mora só, como eu. E também para quem como nós que pertencemos ao grupo de risco. Sinto falta do trabalho presencial, estou tentando me adaptar ao trabalho remoto, o que nem sempre é fácil e adaptável. Por outro lado, tenho tido mais tempo para ler coisas que nos tempos ditos normais não pararia para fazê-lo. Agora tem o lado ruim que são as perdas, as ausências, faz um ano e meio que não vejo minha família que mora em Caruaru. Não pude ir ao enterro de minha mãe pelo nível de contágio que estava na Região Agreste, um ano atrás. Pedro Aarão (PA): A pandemia está sendo muito ruim. O isolamento, o stress, ficar em casa sem poder sair nem receber visitas. Mas de uns anos pra cá, venho melhor dividindo o meu tempo, priorizando o meu bem-estar. Cuidando do meu corpo, da minha mente. Procurando acompanhar as programações dos teatros, do cinema e principalmente a literatura que foi fundamental para encarar esta pandemia. Luiz Lourenço e Pedro Aarão ao centro - Foto por Germano Coelho Filho. Quando foi que o cinema entrou na vida de vocês? E em que momento vocês começaram a fazer cinema? LL: Meus pais eram cinéfilos, mas foi meu irmão Jadilson quem me levou pela primeira vez para o Cine Santa Rosa que ficava pertinho da minha casa. O filme era um desenho animado tipo Walt Disney. Eu era muito pequeno e aquela experiência tomou conta de mim e comecei a reagir às situações do filme, mas fazia muito barulho e meu irmão contou que isso estava incomodando a plateia. Um de meus irmãos, o Jonas, comprou um projetor de cinema, quebrado e que veio acompanhado de um único filme. Ele é muito habilidoso e fabricou uma peça de madeira que faltava para o projetor funcionar. Ver esse filme dentro de casa foi uma das coisas mais marcantes da infância. Minha iniciação em fazer cinema se deu com o curso de manusear câmeras de Super-8, ministrado por um Padre Marista na FAFICA em 1975. Depois de um dia teórico do curso, saímos num domingo para fazer imagens no Monte do Bom Jesus. As imagens que eu havia feito nessa primeira vez, chamou a atenção de Ivan Brandão que passou a me convidar para fazer documentações de eventos culturais e religiosos para o CEPED que era o Centro de Pesquisas e Documentação. Foi minha entrada nesse universo do fazer cinematográfico. PA: O cinema em Caruaru tinha uma programação dinâmica. Eram 3 salas de projeção: o Cine Caruaru, o Cine Santa Rosa e o Irmãos Maciel, funcionavam diariamente, com as mudanças de programação na sexta. Sempre que podia estava no cinema. Quando criança assistia Bang-Bang. Quando eu tive a oportunidade de assistir às mostras de Super-8 no Recife, me despertou o interesse em produzir. Já se passaram 40 anos do início da aventura que foi realizar ‘A Peleja do bumba-meu-boi contra o vampiro do meio-dia’. Tanto tempo depois, o que significa ter feito este filme? LL: Fazer A Peleja foi a coisa mais importante da minha vida. Foi o maior desafio fazer um filme nas condições que fizemos. Um dia estávamos na rodoviária de Caruaru indo para Recife quando surgiu a ideia de fazer o filme. Lembro que eu tinha alguns cartuchos de Super-8 com o prazo de validade vencido. Não tínhamos câmera, mas consegui emprestado três câmeras para fazer o filme. Era uma ideia na cabeça, um roteiro e uma câmera na mão. Muito influenciados pelos filmes de Glauber Rocha principalmente. E hoje, tanto tempo depois, saber que ele continua sensibilizando as pessoas, é muito gratificante. PA: Hoje quando participo de uma projeção da Peleja vejo que valeu a pena, todo o trabalho, porque o tema levanta questionamentos até hoje, mostrando a atividade do filme. A Peleja do bumba-meu-boi, está no imaginário dos artistas de Caruaru, uma das últimas apresentações da Peleja no Alto do Moura deu problema com o equipamento de projeção, mesmo assim, houve um debate muito significativo sobre a realidade do Alto do Moura. A Peleja foi um marco na mobilização de todos os segmentos da cultura de Caruaru, mostrando que a organização política poderá com empenho, determinação, alcançar melhores dias para a Arte, mostrando o cinema como objeto de transformação da sociedade. Vocês acham que o filme dialoga com o que estamos vivendo atualmente? Com o desmonte e a desvalorização da cultura. E sobre Caruaru, como vocês veem a cultura da cidade nos dias de hoje? LL: Infelizmente, sim. Digo isso porque gostaríamos que fosse diferente, que isso fosse apenas um passado distante onde a gente revisitasse através do filme. Estamos vivendo uma crise de poder, principalmente pela falta de caráter humanitário. Vivendo um desgoverno sem precedentes na história com um ditador/genocida que utilizou de mentiras para conquistar um eleitorado bombardeado através de mídias sociais e uma mídia convencional que contou meias verdades e é responsável pelo descrédito da população com a política. A cultura da cidade [Caruaru] não mudou muito. São grupos políticos que se revezam a anos no poder com visões parecidas e hegemônicas da cultura local. Houve um crescimento enorme do São João da cidade e só. Não vejo artistas como Galdino com um acervo público significativo que difunda a sua genialidade. De onde surgiu a referência para o personagem do vampiro? O que este personagem representa simbolicamente? LL: A referência do vampiro é própria do cinema mundial em filmes do Expressionismo Alemão como “Nosferatu” (1922) de F.W Murnau, Dança dos Vampiros (1967) de Roman Polanski e “Nosferatu, o vampiro da noite” (1979) de Werner Herzog. Trouxemos a referência para a realidade local e transmutamos para um personagem que suga as suas vítimas em plena luz do dia, em diversas situações cotidianas com a cena do velhinho na fila do Funrural na frente do banco, que era uma fila real onde introduzimos os personagens. Representa também o capitalismo selvagem dos Impérios-Nações que vivem da riqueza espoliada de países do Terceiro Mundo. É chocante para mim ver as cenas de travessia que presenciamos quase cotidianamente de tentativas de migração de pessoas de países arrasados pelas guerras, fome, intempéries da, etc. E maior ainda a postura desumana desses impérios responsáveis pela apropriação de riquezas e fomentador de genocídios por todo o planeta. A construção de muros e barreiras migratórias é só a “ponta do iceberg” da globalização da miséria humana. Boi Tira-Teira - Foto por Germano Coelho Filho. Por muito tempo, quando se falava de um cinema feito em Pernambuco, era na verdade um cinema feito no Recife. Para muitos é uma surpresa a existência de uma obra como A Peleja. Qual foi a maior dificuldade de se fazer um filme no agreste pernambucano? LL: Talvez a maior dificuldade seja, ou era, a falta de compreensão do que podemos fazer. A questão do colonialismo cultural a que nos referimos no filme, quando usamos imagens de heróis americanos nos quadrinhos, é a de se reconhecer dentro desse caldeirão multi-étnico em que estamos mergulhados. O cinema brasileiro passou muito tempo com o complexo vira-lata, pois sofremos com um domínio econômico-cultural que ditava qual eram as condicionantes para ter um filme “de verdade”. O filme nacional foi por muitos anos confundido com “mal-feito”, “escrachado” e tecnicamente ruim. Com o avanço e desenvolvimento de várias tecnologias quebrou-se vários tabus que impediam que mais pessoas tivessem acesso a um aparato técnico e estético alternativo ao modelo hollywoodiano de fazer cinema que exige milhares de dólares na produção, divulgação/distribuição e no fomento de um star system cada vez mais restrito e excludente racialmente. Qual conselho vocês dariam aos jovens de Caruaru que querem fazer cinema? LL: Pra começar eu diria que não há modelo a ser seguido. A gente primeiro se reconhece como indivíduo dentro de um espaço/tempo inserido numa cultura híbrida, e procura buscar referências de originalidade que é o que conta. Sou absolutamente contra os modelos de sucesso. A gente sempre foi muito influenciado pela linguagem do cinema americano. Precisamos observar que existem várias cinematografias no mundo, do presente e do passado que podem nos auxiliar nas escolhas narrativas. Há certamente, junto com o acesso à procura de imagens/sons uma grande banalização do discurso audiovisual, na qual não podemos cair. Para mim é tão importante referências como o filme “Limite” de Mário Peixoto (anos 1930), como “Terra em Transe” (1967) de Glauber Rocha e “Cabra marcado para morrer” (anos 80) de Eduardo Coutinho. PA: Hoje a produção tem leis de incentivo que de algum modo facilita a produção. Mas o problema é mesmo a falta de mercado para escoamento da produção. Mas quem pretende produzir tem que encarar esta realidade. Mestre Otilio - Foto por Germano Coelho Filho. Vocês estão trabalhando em algum projeto no momento? Quais são os planos para o presente e futuro? LL: O último projeto de filme que fizemos foi um que inicialmente ia ser uma curta de meia-hora financiado pelo Funcultura e que acabou virando um longa-metragem e minissérie de 5 episódios chamado “O Reinado de Lampião no raso da Catarina", documentário sobre a trajetória do rei do cangaço com foco nos dez anos que ele viveu na Bahia. Devido ao escasso orçamento levamos seis anos para concluir e tivemos dificuldade para difundi-lo. A minissérie exibida na TV universitária sofreu com a pouca divulgação, precisando de um contexto mais favorável para sua difusão. A pesquisa do filme é de Pedro Aarão, dividimos a autoria do roteiro e eu fiz a direção. Por fim, gostariamos que cada um de vocês definisse A Peleja em uma palavra. Luiz Lourenço: Resistência. Pedro Aarão: Luta Entrevista por Hanna Aragão e Maria Clara Mendes.

  • Artistas de Caruaru realizam a 4ª Feira Vital no Alto do Moura

    Artistas caruaruenses estão realizando um movimento semanal no bairro Alto do Moura. Neste sábado, 24 de julho, das 10 às 19h, em frente ao Centro de Atendimento ao Turista - CAT, localizado na praça ao lado do letreiro Alto do Moura, realizarão a quarta edição da Feira Vital. Os envolvides no movimento estão comprometidos com as orientações de distanciamento social e utilização de máscaras e álcool em gel por conta da pandemia de Covid-19. Serão comercializados no espaço obras de arte, livros, comidas, etc. Também ocorrerá a exibição do filme "A Peleja do Bumba-Meu-Boi Contra o Vampiro do meio-dia", uma ação do movimento Barro e Poesia. O que é a Feira Vital? É um movimento dos artistas das diversas categorias que começou em julho de 2021 no Alto do Moura para comercialização dos trabalhos artísticos em praça pública. E como funciona? São artistas INDEPENDENTES e organizados com objetivo de fortalecer a pluralidade artística e quebrar os tabus. Para liberdade artística dos envolvides, funcionam com o apoio próprio, se organizando dentro dos limites físico, mental e financeiro que possuem, estabelecendo a educação e o respeito pelo próximo, dialogando no sentido de todes serem os zeladores dos espaços culturais, públicos, das culturas locais e da boa vivência. O espaço está aberto a qualquer artista que queira colaborar, desde que se comprometa a cumprir as normas de convivência coletiva estabelecidas. "Nossas vozes e forças só poderão ser fortalecidas se a união dos artistas "não soltar a mão de ninguém" e não deixar cair no controle do domínio público, somos multiplicadores da educação pelos saberes artísticos, culturais, plurais e para conquistarmos uma independência organizada é preciso se libertar das amarras e se organizar coletivamente." - Shivo Araújo, membro organizador do movimento. O movimento cresce com as diversidades artísticas de Caruaru, com objetivo de fortalecer a independência ocupando o espaço que é de todes. SERVIÇO: IV Feira Vital do Alto do Moura Sábado, 24 de julho, das 10 às 19h, em frente ao Centro de Atendimento ao Turista - CAT, localizado na praça ao lado do letreiro Alto do Moura

  • A Brodagem no Cinema em Pernambuco

    “Quem tem amigos não faz filme ruim.” Kleber Mendonça Filho Por Amanda Mansur. Foi fazendo filmes que tive o primeiro contato com os afetos e com a maneira de os cineastas produzirem filmes, colocando-se em risco e apaixonados pelo cinema, acima de tudo. Minha primeira experiência efetiva com cinema foi no filme Deserto Feliz, como segunda assistente de Direção, de Paulo Caldas. Foi no set do Deserto Feliz que pela primeira vez tive contato com a história do Grupo Vanretrô, da década de 1980. Eu já tinha uma forte admiração pelos filmes Baile Perfumado, Cinema, Aspirinas e Urubus e Árido Movie, que assistira antes. Mas foi somente nos intervalos entre a filmagem de uma cena e outra que descobri que Paulo Caldas, Lírio Ferreira, Adelina Pontual e Valéria Ferro eram da mesma turma da universidade, e que Marcelo Gomes e Cláudio Assis eram seus contemporâneos. Conheci Vânia Debs (a montadora de vários filmes realizados em Pernambuco, incluindo Deserto Feliz) antes mesmo de ser apresentada a ela, de tanto Paulo Jacinto Reis (1963-2011), o diretor de Fotografia, mencioná-la nos planos que ele criava para a personagem do filme, Jéssica. Na produtora de Germano Coelho (1958-2010), a Camará Filmes, conheci mais um monte de gente de cinema, que participava direta ou indiretamente da realização do filme. Em Pernambuco é assim, você acaba conhecendo todo mundo do cinema. A produção de um filme transborda pela cidade, ocupa suas ruas, invade as casas e apartamentos, circula pelos bairros. O cinema vem junto de pessoas que você encontra nos sets, é claro, mas igualmente nas salas de cinema, nos cineclubes, nos cafés e nos bares. A partir de Deserto Feliz, acabei circulando por essa cena audiovisual da cidade. No esquema da brodagem – que nas próximas páginas tentarei circunscrever –, ganhei padrinhos (Germano Coelho, Paulo Caldas e Camilo Cavalcante) e madrinhas (Stella Zimmerman e Adelina Pontual), que me convidaram para participar de outros projetos. Percebi, adotada a esse modelo produtivo, que a mesma coisa ocorrera – e ocorria – com muitos outros profissionais ou aspirantes a profissionais. Na mesma época em que me aproximava desse universo da produção de cinema em Pernambuco, eu cursava Radialismo e TV na Universidade Federal de Pernambuco. Lá no prédio do Centro de Artes e Comunicação, compartilhei de outros afetos cinematográficos. Enquanto frequentava as sessões do Cineclube Barravento, assistia aos vídeos da Símio nos Festivais e acompanhava a criação do coletivo Trincheira Filmes no “corredor de comunicação.” Compartilhávamos dos mesmos lugares, festas e amigos. Assim, fui assistente de Direção de Marcelo Lordello, em seu longa Vigias; organizei a documentação de cadastro de produtor cultural da Símio: Daniel Bandeira, Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro. No esquema de brodagem, o prédio onde moro serviu de locação para três filmes produzidos pela Trincheira: Vigias (2010), Ela Morava na Frente do Cinema (2011) e Eles Voltam (2012). A intensidade do processo produtivo de Pernambuco permitiu que, durante esse período, eu também tivesse a oportunidade de realizar filmes com pessoas de outros lugares e em outros Estados. Nessa experiência “estrangeira”, pude perceber que os filmes dos “outros” se organizaram a partir de uma forte hierarquia e que, na prática, isso gerava tensão e ansiedade. Eu pensava: “Isso aqui é diferente de Pernambuco.” Mas onde situar a diferença? Em que ela consistia efetivamente, para além de um clima mais amistoso e afetuoso nos sets e nos lugares frequentados pelos cineastas? Aprendi com as duas gerações o prazer de fazer cinema com os amigos. Constatei que eles só sabem fazer cinema entre amigos. E que foi o cinema que despertou os sentimentos de união desses grupos. Também aprendi, nos festivais de cinema, que não se faz cinema pernambucano sem festa, porque festejar o cinema faz parte desse processo. Afinal, como fala Lírio Ferreira, cinema pernambucano é um copo na mão e uma ideia na cabeça! E o cinema é o território onde se manifestam afetos. No ano 2012, dois filmes pernambucanos dividiram o prêmio de Melhor Filme no tradicional Festival de Brasília (Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, e Eles Voltam, de Marcelo Lordello). Em 2013, Tatuagem, de Hilton Lacerda, ganhou o prêmio de Melhor Filme no pomposo Festival de Gramado. No mesmo ano, o aclamado filme de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor, foi o indicado do Brasil para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 2019, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes. A imprensa, por sua vez, legitimou este momento em sucessivas e enfáticas manchetes: “Pernambuco filmando para o mundo” (Revista Continente Multicultural); “Cinema de Pernambuco vive sua era de ouro” (Jornal Valor Econômico); “Cinema de Pernambuco revela uma novíssima geração de diretores” (Jornal O Globo). Toda essa repercussão do cinema contemporâneo de Pernambuco evoca uma série de questionamentos, que podem ser sintetizados assim: quais as razões dessa prolífica e conceituada produção cinematográfica? É uma vocação? É este o impulso que encontramos para seguir os rastros das memórias e resgatar uma história, arraigada de vontade, uma vontade que consome, um desejo incomensurável de fazer cinema, que tem seus primórdios lá no início dos anos 1920, quando, numa Utopia Provinciana, um grupo de jovens evoca a chegada do trem dos Lumière, no Gare de La Ciotat, numa das primeiras sequências do filme Retribuição, que inaugura o Ciclo do Recife. Não é preciso fazer grande esforço para demonstrar que o cinema feito em Pernambuco ocupa hoje um papel singular na cultura brasileira. Financiado principalmente por políticas de fomento público (estadual e nacional), esta produção conseguiu consolidar-se, mantendo uma impressionante continuidade desde o período da Retomada, com o Baile Perfumado em 1996. Reconhecido principalmente pelo frescor narrativo e ousadia estética, é considerado por críticos e cinéfilos como a produção mais autoral e pulsante do cinema nacional. São diversos profissionais, diretores, roteiristas, produtores, montadores aglutinados em grupos e coletivos de cinema, que transitam entre diferentes funções uns nos filmes dos outros. Como se faz cinema atualmente neste Estado? Quais são os grupos que produzem cinema aqui em Pernambuco? Como se configura o modo de produção, conhecido localmente como brodagem, ao longo das gerações? Como os sentimentos e afetividades de grupo vão aparecer nos filmes? O objetivo principal desta tese é discutir a história do cinema em Pernambuco a partir da constituição de grupos de cineastas que operam em um modo colaborativo de produção, conhecido localmente como brodagem. Os filmes realizados por estes grupos se configuram como uma atuação articulada em um mesmo momento histórico e inseridos em um mesmo cenário sociocultural e também por um programa de trabalho comum. A hipótese defendida pelo trabalho é a de que o suporte da produção e o da qualidade do cinema realizado em Pernambuco está vinculado a uma comunidade de afetos que permite a eclosão dos filmes. Por laços de amizade, afetos, valores e sentimentos compartilhados, os cineastas configuram grupos articulados em torno de uma estrutura social da brodagem. O intuito é entender em que medida as comunidades de afetos participam ou colaboram com a produção de cinema em Pernambuco. A proposta desta tese é, secundariamente, resgatar a trajetória dos grupos envolvidos na produção de cinema em Pernambuco: do Ciclo do Recife (década de 1920); a crítica e cineclubes dos anos 50, do Ciclo Super-8 (década de 1970), Vanretrô (década de 1980), a geração da década de 1990 (Kleber Mendonça e Camilo Cavalcante), a Símio Filmes, a Trincheira Filmes (início do século XXI) e os Coletivos de Audiovisual – a partir da reconstituição histórica de formação dos grupos e obras realizadas. E, na construção dos vínculos estabelecidos pelos cineastas, verificar até onde vai o afeto partilhado pelas diferentes gerações. Um afeto que tem a ver com os espaços da cidade do Recife, e por vezes acaba extrapolando, como faíscas que pulsam nas telas dos filmes. Link para tese: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/13147

  • Resgate da memória gráfica do Festival de Inverno de Garanhuns

    Designer dá movimento às identidades visuais do FIG como forma de preservar a memória do festival na pandemia Identidade visual do 29º Festival de Inverno de Garanhuns, animada por Bruno Verissimo. Materializado pela primeira vez em 1991, o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) surgiu da necessidade e vontade de despolarizar os grandes eventos culturais do estado. Após dez anos sendo apenas uma ideia, em 1991 Marcílio Reinaux conseguiu, com parceria entre governo do estado e prefeitura, finalmente tirar do papel o projeto. Desde sua primeira edição, o FIG se propõe a dar conta da imensa variedade cultural pernambucana e brasileira. Para isso, abraçou todas as formas de linguagens artísticas; e foi se aprimorando com o passar dos anos. Três anos após a primeira edição, o festival soma aos seus pólos o circo. Em 2004, por exemplo, o cinema deixou de ser trabalhado apenas em oficinas e debates e tem sua primeira mostra de cinema integrada à programação. Na sua última edição (2019), o festival contou com mais de 500 atrações ocupando as ruas e os 21 polos espalhados pela cidade. E ainda apresentando novidades como: o Figuinho, uma programação especial voltada para o público infantil, e o Prêmio Palhaço Cascudo de Incentivo às Artes Circenses, que visa reconhecer, premiar e incentivar trajetórias de artistas circenses. Toda essa pluralidade sempre foi bem projetada nas identidades visuais do festival, e é através de intervenções em motion design que o designer e pesquisador Bruno Veríssimo desenvolveu a exposição online FIG in Motion (2020). A exposição é um dos frutos de sua pesquisa de conclusão de curso, que em 2018 foi transformada na exposição “Memória Gráfica do FIG”, que fez parte da programação da 28ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns através de identificação, vetorização e preservação dos ícones visuais que marcaram a história do FIG. A exposição online FIG in Motion surgiu da inquietude de Bruno durante a pandemia para manter uma memória do FIG, que ano passado realizaria sua 30ª edição, mas foi cancelado devido a pandemia. Além da vontade do pesquisador em compartilhar de forma mais acessível sua pesquisa e a necessidade do resgate histórico e preservação da memória gráfica do festival. Natural de Garanhuns, Bruno Veríssimo acredita na potência do reconhecimento e pertencimento através das marcas desenvolvidas para o Festival de Inverno de Garanhuns. Bruno é também responsável pelo projeto O Design de Luís Jardim (https://www.luisjardim.com.br/), resultado de sua pesquisa para o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade Federal de Pernambuco, em que cria um panorama das obras do artista Luís Jardim, com foco em seus primeiros trabalhos para a indústria gráfica pernambucana nas décadas de 1920 e 1930. Exposição FIG in Motion: https://www.instagram.com/figinmotion/ Exposição Memória Gráfica do FIG: https://www.behance.net/gallery/88799065/Exposicao-Memoria-Grafica-do-FIG

  • Primeiro acervo virtual de filmes feitos por pessoas trans é lançado em Pernambuco

    Plataforma conta com mais de 135 filmes entre curtas, médias e longas-metragens. Com o objetivo de criar um acervo de filmes dirigidos por pessoas trans no Brasil, as cineastas Caia Coelho e Pethrus Tibúrcio idealizaram a plataforma Tela Trans, o primeiro acervo virtual brasileiro do cinema feito por pessoas trans. O projeto nasceu de uma pesquisa sobre o tema há cinco anos. Até agora, a plataforma já conta com o levantamento de mais de 135 filmes e ao menos 50 perfis de realizadores, que estão disponíveis gratuitamente no portal. A ideia é que o Tela Trans seja uma plataforma colaborativa, construída com a ajuda de indicações e inscrições de pessoas trans, cinéfilas, curadoras e pesquisadoras. O acervo é gratuito e pode ser acessado através do www.telatrans.com.br O mapeamento feito para o site coletou curtas, médias e longas-metragens, ficções e documentários, videoclipes, videoartes e videoperformances, além de obras para internet. No acervo, há obras realizadas por cineastas de quase todos os estados brasileiros, além de brasileiras residentes no exterior. Para o levantamento, Caia Coelho e Pethrus Tibúrcio consideraram todos os períodos em que se tem notícia dessa produção. “Até o momento do lançamento, o filme mais antigo no catálogo é “Superstição”, curta-metragem realizado em 2002 pelo homem trans negro paulista Tiely”, afirma Pethrus. A maior parte dos filmes do acervo podem ser assistidos pelo público direto na plataforma. O projeto foi financiado pela Lei Aldir Blanc, em Pernambuco. Para entrar em contato e saber mais informações sobre o projeto é só acessar o site ou entrar em contato através do e-mail contato@telatrans.com.br. SERVIÇO Tela Trans - Acervo do Audiovisual Trans Brasileiro: www.telatrans.com.br Contato: contato@telatrans.com.br

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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