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  • Foto do escritorRevista Spia

A Brodagem no Cinema em Pernambuco

“Quem tem amigos não faz filme ruim.”

Kleber Mendonça Filho


Por Amanda Mansur.


Foi fazendo filmes que tive o primeiro contato com os afetos e com a maneira de os cineastas produzirem filmes, colocando-se em risco e apaixonados pelo cinema, acima de tudo. Minha primeira experiência efetiva com cinema foi no filme Deserto Feliz, como segunda assistente de Direção, de Paulo Caldas. Foi no set do Deserto Feliz que pela primeira vez tive contato com a história do Grupo Vanretrô, da década de 1980. Eu já tinha uma forte admiração pelos filmes Baile Perfumado, Cinema, Aspirinas e Urubus e Árido Movie, que assistira antes. Mas foi somente nos intervalos entre a filmagem de uma cena e outra que descobri que Paulo Caldas, Lírio Ferreira, Adelina Pontual e Valéria Ferro eram da mesma turma da universidade, e que Marcelo Gomes e Cláudio Assis eram seus contemporâneos. Conheci Vânia Debs (a montadora de vários filmes realizados em Pernambuco, incluindo Deserto Feliz) antes mesmo de ser apresentada a ela, de tanto Paulo Jacinto Reis (1963-2011), o diretor de Fotografia, mencioná-la nos planos que ele criava para a personagem do filme, Jéssica. Na produtora de Germano Coelho (1958-2010), a Camará Filmes, conheci mais um monte de gente de cinema, que participava direta ou indiretamente da realização do filme.


Amanda Mansur (sentada de rosa) e equipe de Deserto Feliz em set do filme

Em Pernambuco é assim, você acaba conhecendo todo mundo do cinema. A produção de um filme transborda pela cidade, ocupa suas ruas, invade as casas e apartamentos, circula pelos bairros. O cinema vem junto de pessoas que você encontra nos sets, é claro, mas igualmente nas salas de cinema, nos cineclubes, nos cafés e nos bares.


A partir de Deserto Feliz, acabei circulando por essa cena audiovisual da cidade. No esquema da brodagem – que nas próximas páginas tentarei circunscrever –, ganhei padrinhos (Germano Coelho, Paulo Caldas e Camilo Cavalcante) e madrinhas (Stella Zimmerman e Adelina Pontual), que me convidaram para participar de outros projetos. Percebi, adotada a esse modelo produtivo, que a mesma coisa ocorrera – e ocorria – com muitos outros profissionais ou aspirantes a profissionais.



Na mesma época em que me aproximava desse universo da produção de cinema em Pernambuco, eu cursava Radialismo e TV na Universidade Federal de Pernambuco. Lá no prédio do Centro de Artes e Comunicação, compartilhei de outros afetos cinematográficos. Enquanto frequentava as sessões do Cineclube Barravento, assistia aos vídeos da Símio nos Festivais e acompanhava a criação do coletivo Trincheira Filmes no “corredor de comunicação.”


Compartilhávamos dos mesmos lugares, festas e amigos. Assim, fui assistente de Direção de Marcelo Lordello, em seu longa Vigias; organizei a documentação de cadastro de produtor cultural da Símio: Daniel Bandeira, Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro. No esquema de brodagem, o prédio onde moro serviu de locação para três filmes produzidos pela Trincheira: Vigias (2010), Ela Morava na Frente do Cinema (2011) e Eles Voltam (2012).


A intensidade do processo produtivo de Pernambuco permitiu que, durante esse período, eu também tivesse a oportunidade de realizar filmes com pessoas de outros lugares e em outros Estados. Nessa experiência “estrangeira”, pude perceber que os filmes dos “outros” se organizaram a partir de uma forte hierarquia e que, na prática, isso gerava tensão e ansiedade. Eu pensava: “Isso aqui é diferente de Pernambuco.” Mas onde situar a diferença? Em que ela consistia efetivamente, para além de um clima mais amistoso e afetuoso nos sets e nos lugares frequentados pelos cineastas?


Aprendi com as duas gerações o prazer de fazer cinema com os amigos. Constatei que eles só sabem fazer cinema entre amigos. E que foi o cinema que despertou os sentimentos de união desses grupos. Também aprendi, nos festivais de cinema, que não se faz cinema pernambucano sem festa, porque festejar o cinema faz parte desse processo. Afinal, como fala Lírio Ferreira, cinema pernambucano é um copo na mão e uma ideia na cabeça! E o cinema é o território onde se manifestam afetos.


No ano 2012, dois filmes pernambucanos dividiram o prêmio de Melhor Filme no tradicional Festival de Brasília (Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, e Eles Voltam, de Marcelo Lordello). Em 2013, Tatuagem, de Hilton Lacerda, ganhou o prêmio de Melhor Filme no pomposo Festival de Gramado. No mesmo ano, o aclamado filme de Kleber Mendonça Filho, O Som ao Redor, foi o indicado do Brasil para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 2019, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes.


A imprensa, por sua vez, legitimou este momento em sucessivas e enfáticas manchetes: “Pernambuco filmando para o mundo” (Revista Continente Multicultural); “Cinema de Pernambuco vive sua era de ouro” (Jornal Valor Econômico); “Cinema de Pernambuco revela uma novíssima geração de diretores” (Jornal O Globo).


Toda essa repercussão do cinema contemporâneo de Pernambuco evoca uma série de questionamentos, que podem ser sintetizados assim: quais as razões dessa prolífica e conceituada produção cinematográfica? É uma vocação? É este o impulso que encontramos para seguir os rastros das memórias e resgatar uma história, arraigada de vontade, uma vontade que consome, um desejo incomensurável de fazer cinema, que tem seus primórdios lá no início dos anos 1920, quando, numa Utopia Provinciana, um grupo de jovens evoca a chegada do trem dos Lumière, no Gare de La Ciotat, numa das primeiras sequências do filme Retribuição, que inaugura o Ciclo do Recife.


Não é preciso fazer grande esforço para demonstrar que o cinema feito em Pernambuco ocupa hoje um papel singular na cultura brasileira. Financiado principalmente por políticas de fomento público (estadual e nacional), esta produção conseguiu consolidar-se, mantendo uma impressionante continuidade desde o período da Retomada, com o Baile Perfumado em 1996. Reconhecido principalmente pelo frescor narrativo e ousadia estética, é considerado por críticos e cinéfilos como a produção mais autoral e pulsante do cinema nacional. São diversos profissionais, diretores, roteiristas, produtores, montadores aglutinados em grupos e coletivos de cinema, que transitam entre diferentes funções uns nos filmes dos outros.


Como se faz cinema atualmente neste Estado? Quais são os grupos que produzem cinema aqui em Pernambuco? Como se configura o modo de produção, conhecido localmente como brodagem, ao longo das gerações? Como os sentimentos e afetividades de grupo vão aparecer nos filmes?


O objetivo principal desta tese é discutir a história do cinema em Pernambuco a partir da constituição de grupos de cineastas que operam em um modo colaborativo de produção, conhecido localmente como brodagem. Os filmes realizados por estes grupos se configuram como uma atuação articulada em um mesmo momento histórico e inseridos em um mesmo cenário sociocultural e também por um programa de trabalho comum.


A hipótese defendida pelo trabalho é a de que o suporte da produção e o da qualidade do cinema realizado em Pernambuco está vinculado a uma comunidade de afetos que permite a eclosão dos filmes. Por laços de amizade, afetos, valores e sentimentos compartilhados, os cineastas configuram grupos articulados em torno de uma estrutura social da brodagem. O intuito é entender em que medida as comunidades de afetos participam ou colaboram com a produção de cinema em Pernambuco.


A proposta desta tese é, secundariamente, resgatar a trajetória dos grupos envolvidos na produção de cinema em Pernambuco: do Ciclo do Recife (década de 1920); a crítica e cineclubes dos anos 50, do Ciclo Super-8 (década de 1970), Vanretrô (década de 1980), a geração da década de 1990 (Kleber Mendonça e Camilo Cavalcante), a Símio Filmes, a Trincheira Filmes (início do século XXI) e os Coletivos de Audiovisual – a partir da reconstituição histórica de formação dos grupos e obras realizadas.


E, na construção dos vínculos estabelecidos pelos cineastas, verificar até onde vai o afeto partilhado pelas diferentes gerações. Um afeto que tem a ver com os espaços da cidade do Recife, e por vezes acaba extrapolando, como faíscas que pulsam nas telas dos filmes.




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