Vestuário e Movimento da Negritude: muito além do turbante

Por Isaac Batista
Trabalho revisado por Paula Donato e Marcelo Martins
O Movimento da Negritude é protagonizado por pessoas negras que se engajam na luta contra o racismo e a favor da valorização dos sujeitos negros e da identidade negra. É um movimento plural, cujos discursos e práticas permeiam políticas públicas, produção científica, literatura, religiosidade, artes, moda e outras dimensões.
A moda e a negritude possuem uma relação que se resume, muitas vezes, ao uso do turbante ou às reclamações acerca do que a internet popularizou com o termo de “apropriação cultural”. Nesta matéria, vamos mostrar outros itens e estilos de vestuário que também se integram ao Movimento da Negritude, servindo de pivôs para discutir sobre corpo negro, cultura negra e religiosidade afro-brasileira.

Vestuário de orgulho pelo corpo negro
O Movimento da Negritude percebe a questão da corporeidade como um elemento central nas discussões acerca de racismo e da luta antirracista, isso porque o corpo é o primeiro aspecto da vida das pessoas a ser racializado e etnicizado. A história atesta que a colonização categorizou os corpos em diferentes raças hierarquizadas em superiores ou inferiores. O discurso racista e eurocêntrico desvaloriza os traços corporais que constroem a identidade racial negra e impõe padrões de beleza que se baseiam na aparência branca e europeia, estimulando o embranquecimento dos corpos negros. Esse embranquecimento ocorre de diferentes formas, como, por exemplo, através de rinoplastias, alisamento de cabelos, cirurgias para afinar os lábios e cosméticos que prometem o clareamento da pele.
Por outro lado, o Movimento da Negritude, embora ainda construído sobre um discurso racial, busca valorizar positivamente os traços corporais considerados típicos do corpo negro e, com isso, promover uma retomada da autoestima e do amor pelo próprio corpo e pela identidade negra. Nesse contexto, muitos integrantes desse movimento utilizam itens de vestuário que fazem referências positivas aos traços do corpo negro: pele escura, cabelo crespo ou cacheado, nariz largo e lábios grossos. Aliado a isso, as pessoas demonstram, pelo uso de determinadas roupas e acessórios que fazem ressaltar esses traços, que se sentem orgulhosas, satisfeitas, aceitas e digna de possuírem os traços físicos que comunicam negritude e que as constroem ou as reiteram como negras.

Entre esses itens, estão brincos com desenhos de pessoas negras ou com textos que dizem “negra”, “preta”, “negra linda”, “crioula” etc. De modo semelhante, são usadas roupas diversas com estampas ou bordados que figurativizam o rosto ou corpo de pessoas negras, sempre de maneira bela e esteticamente agradável. Além disso, as pessoas exercitam uma outra forma de se colocarem no mundo com seus corpos vestidos ou adornados, uma prática que sugere uma leitura até poética de comunicar esse orgulho pelo corpo negro: o uso de flores nos cabelos crespos ou cacheados, o que funciona como uma metáfora que diz que os cabelos das pessoas negras são belos, delicados, cheirosos e lindos assim como as flores que parecem brotar de suas cabeças.
Vestuário de orgulho pela cultura negra
Outra esfera que permeia a união entre vestuário e negritude diz respeito à cultura negra ou cultura africana. A cultura negra é um termo com sentidos diversos, não uma essência eterna que já vem na genética. Porém, seu conceito é muito ligado a ideias sobre comportamentos, práticas do cotidiano e manifestações artísticas que são consideradas como criações das pessoas negras ou africanas. Muitos consideram parte da cultura negra, por exemplo, o samba, a capoeira, comidas como acarajé e feijoada, religiões como candomblé e umbanda, reduzindo a existência das pessoas negras a essas práticas.

No campo do vestuário, a cultura negra se manifesta de maneiras diversas, como pelo uso do turbante para remeter a uma prática herdada do passado e às religiões afro-brasileiras. São utilizadas estampas coloridas comuns em alguns países africanos na contemporaneidade, as quais são tidas pelos brasileiros como “estampas étnicas africanas”. Essas estampas podem ser usadas em quaisquer itens de vestuário, porém são especialmente marcantes quando usadas em dashikis, que são tipos de batas que podem ser usadas por homens ou mulheres. Os dashikis frequentemente possuem a estampa conhecida como Angelina Print, criada pela empresa Vlisco. Também são frequentes acessórios e roupas com imagens do continente africano ou que fazem referência à característica, entendida como qualidade, de “afro” (prefixo que comunica pertencimento pátrio ou étnico, como em afrodescendente, afrodiaspórico etc.).

Essas peças de vestuário constroem a cultura negra como algo belo, alegre, deslumbrante e bom. Isso é um esforço contra a perspectiva racista e eurocêntrica que considera a cultura negra como algo ruim, demoníaco ou primitivo. Uma das formas mais espetaculares de combater essa visão preconceituosa é pelo uso de roupas e acessórios que remetem ao Antigo Egito. O Egito é um país da África, mas normalmente os antigos egípcios são retratados como pessoas brancas ou mesmo invisibilizados por aqueles que acreditam que ETs foram responsáveis pela criação de enormes pirâmides e hieróglifos complexos.

Além disso, a produção audiovisual hollywoodiana também contribuiu com esse tipo de visão sobre esse povo. Na contramão desses discursos, o Movimento da Negritude reivindica a africanidade dos egípcios, e com isso reivindicam também as narrativas históricas de grandiosidade daquela que foi um dia a maior potência mundial, a qual criou conhecimentos em medicina e arquitetura, formas de artes imponentes e únicas, além de promover uma organização social e territorial profunda. As roupas referenciam hieróglifos, pirâmides, as coroas khepresh dos governantes, os poderosos e divinos faraós e as adoradas grandes esposas reais. A mensagem transmitida é nítida: os antigos egípcios eram negros africanos e a cultura negra é grandiosa e relevante. Tenta-se mostrar que foi a colonização que colocou um hiato na história magnífica dos negros. Olha-se para aquele passado pré-colonização e encontra-se nele um referencial da essência negra antes de qualquer influência do racismo e do eurocentrismo.

Vestuário de orgulho pelas religiões de matriz africana
Por último e ainda de maneira relacionada à cultura negra e africana, estão as roupas que dialogam luta antirracista, negritude e religiosidade afro-brasileira. O Movimento da Negritude considera que o preconceito e discriminação contra os praticantes do candomblé e da umbanda são devidos às consequências da colonização europeia que afirmava que essas religiões eram demoníacas ou mesmo bruxarias. Por muito tempo, a Constituição brasileira proibiu a prática das religiões afro-brasileiras, permitindo apenas (e muitas vezes obrigando) que se exercesse a fé católica. Devido a isso, até hoje, os candomblecistas e umbandistas sofrem com violência física e verbal, além de terem seus templos invadidos e objetos religiosos danificados.

Por essas religiões estarem associadas à cultura negra, tendo sido criadas por pessoas negras e possuindo raízes históricas na África, o Movimento da Negritude mobiliza essas religiões na afirmação de uma identidade negra e luta pelo fim do racismo religioso e pela liberdade de cultuar os orixás sem que os praticantes sofram discriminação. Nesse contexto, as pessoas negras perdem o medo de se afirmarem como candomblecistas e umbandistas e passam a usar e expor suas roupas de culto, seja nas redes sociais online ou em protestos nas ruas contra o racismo, como forma de demonstrar orgulho pela sua fé – e indiretamente, de si mesmas, como vimos antes.

Outra forma de demonstrar a conexão com o divino afro-religioso é pelo uso de conchas de búzios, que podem aparecer em roupas estritamente de culto ou em peças de uso casual. Além disso, são consumidos roupas e acessórios que fazem referência aos orixás, que são entidades espirituais das quais os fiéis se consideram filhos e filhas. Essa filiação e amor pelos orixás são demonstrados em ensaios fotográficos em que os religiosos se vestem com a aparência dos orixás, ou pelo uso de roupas com desenhos e cores das divindades ou menções aos seus nomes e qualidades.

SAIBA MAIS |
Sobre a “jebba” tunisiana: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/85644 |
Sobre o “dashiki” da África Ocidental: https://genovixa.com/pt-br/blogs/le-blog-royaume-dafrique/le-dashiki-de-lafrique-de-louest-au-monde-entier |
CURIOSIDADES |
A estampa Angelina Print se assemelha às decorações das túnicas da Tunísia chamadas de “jebba” ou dos “dashikis” da África Ocidental, ambas as peças usadas por mulheres e homens. |
As flores no cabelo de estilo black power já haviam sido moda nos anos 1970, também com relação à resistência negra. |
O termo negritude foi “criado” por Aimé Césaire (1913-2008), um literato martinicano (francês), político e ativista negro. |

.png)



Comentários