A posse não reproduz reciprocidade

Por Natyelle Soares
Ao assistir ao filme Obsessão (Curry Barker, 2026), uma questão me chamou atenção além do aspecto sobrenatural da história: a dificuldade de aceitar que o outro não pertence a ninguém. No filme o protagonista Bear é o ponto de vista principal, o que torna a narrativa curiosa porque não sabemos muitas coisas da sua vida pessoal, além de que ele tinha uma gata, herdou a casa da vó e que deseja Nikki. Vale ressaltar que mesmo tendo esse desejo por ela e consequentemente sendo obcecado pela a mesma, no decorrer do filme é mostrado que ele não conhecia a vida pessoal dela, por exemplo, ele não sabia sobre a relação dela com o pai e mesmo assim ele se fixa na ideia de que o sentimento dele tem que ser correspondido. E como solucionar isso?
A primeira ação certa seria se declarando, mas como estamos falando de um protagonista que sente medo da rejeição e o sentimento protagonista é o desejo de posse, ele não segue o padrão, ele prefere usar o brinquedo One Wish Willow que promete realizar o seu desejo e usar dessa forma: Eu desejo que a Nikki me ame mais do que qualquer pessoa no mundo. Ele poderia ter desejado "Ser o cara ideal para Nikki” ou "Ter coragem pra chamar ela pra sair", mas ele preferiu tirar a autonomia dela e isso comprova que ele deseja mais que ela seja recíproca do que gostar dela de fato.

É nesse momento que Obsessão se aproxima de O Colecionador, de John Fowles (Editora Darkside, 2018). Apesar de as histórias serem diferentes, os protagonistas enfrentam a mesma frustração. Freddie gosta de colecionar aquilo que acha bonito e encantador focando principalmente em borboletas, mas olhar uma mulher e desejar que ela também entre na sua coleção de posse já mostra a sua falta de incapacidade de conhecer e aceitar a individualidade e independência do outro. Ao sequestrar a Miranda ele acredita que, mantendo-a perto, conseguirá construir uma relação com ela. O protagonista monta o porão com as coisas que ela gosta, tenta fazer com que ela ficasse o mais “confortável” para que o sentimento dele fosse recíproco, mas a Miranda não é uma borboleta, não é algo a ser colecionado e muito menos um objeto que pode ser forçado a ter sentimentos recíprocos.
E assim, os dois protagonistas conseguem destruir a natureza da relação. O problema deles começou no sentimento de desejar alguém e se intensificou ao transformar o desejo em algo que se espera da outra pessoa. Freddie não se relaciona com Miranda como ela realmente é, ele cria uma imagem dela e tenta preservar essa imagem no espaço que ele mesmo criou. Bear também faz algo semelhante diante da possibilidade de não ser correspondido, ele procura eliminar a incerteza e a liberdade de escolha de Nikki. Se o sentimento de Nikki é produzido por uma força externa, ainda podemos chamá-lo de amor? A pergunta é central porque o amor pressupõe a possibilidade de escolha. Quando essa possibilidade é eliminada, aquilo que resta pode parecer amor, mas perde a liberdade que o torna significativo. Mesmo que em algumas cenas a Nikki repita: “Eu amo você, eu amo tanto você”, sabemos e sentimos que não é real e o próprio Bear também sabe, mas prefere continuar vivendo nessa ilusão, o que comprova ainda mais o fato de que ele não gosta da Nikki em si, se ele gostasse ou até amasse, ele iria desejar o bem para ela e ver ela bem com a vida dela, não aceitando, assistindo, explicando e escondendo o que a outra versão da Nikki fez.

Em O Colecionador, Freddie captura as borboletas e retira elas do espaço onde elas vivem naturalmente. Miranda ocupa uma posição semelhante dentro da obsessão de Freddie. Ela é admirada e desejada, mas assim como as borboletas, sua liberdade precisa ser limitada para que a fantasia de Freddie funcione. E a partir do momento em que a fantasia vai perdendo a cor e Miranda ficando cada vez mais longe daquilo que ele idealizou, o que ele criou cai por terra demonstrando que a posse não gera reciprocidade mesmo que ele use tudo aquilo que ela poderia gostar ao seu favor.

Bear não coleciona Nikki da mesma forma, mas sua tentativa também é de manter uma realidade desejada, ele quer garantir que aquilo que imagina aconteça e continue acontecendo. Mas as pessoas não são objetos estáticos. Por isso, a liberdade é o que a obsessão tenta retirar da relação. O outro nunca pode ser totalmente controlado porque tem uma consciência e uma existência que não dependem do que imaginamos sobre ele e não temos controle sobre isso. Quando tento transformar alguém naquilo que desejo, corro o risco de apagar justamente aquilo que faz dessa pessoa um outro: sua capacidade de desejar algo diferente de mim.
No fim, até onde alguém pode ir para conseguir aquilo que acredita querer? É nesse momento que a tentativa de aproximação pode se transformar em afastamento. Porque uma relação real depende de reconhecer que o outro poderia escolher não permanecer. E é isso que torna Obsessão e O Colecionador tão desconfortáveis. Em ambos, o desejo começa como uma tentativa de aproximação e termina revelando uma vontade de controlar. O que deveria depender de duas pessoas passa a ser construído unilateralmente. E, quando a liberdade do outro deixa de ser aceita, a relação deixa de ser uma relação de fato. A posse pode garantir presença, mas nunca pode produzir reciprocidade.

SAIBA MAIS |
Obsessão (2026), é escrito, dirigido e montado por Curry Barker, que também participa da produção executiva. |
O Colecionador foi publicado em 1963 e foi o primeiro romance de John Fowles. |
CURIOSIDADES |
O sobrenatural não é o foco da explicação. No filme Obsessão (Obsession, 2026), poderia ter sido acompanhado por uma mitologia grande, com detalhes sobre sua origem, suas regras e o motivo pelo qual ele existe. Mas o filme decide que o objeto serve mais como um mecanismo para colocar em prática uma obsessão que já estava presente. O próprio Curry Barker disse que estava interessado em trabalhar a psicologia humana e a ideia de até onde pode chegar a fixação por outra pessoa. |
A mudança de narrador no livro O Colecionador altera completamente a forma como nos relacionamos com a história. Na primeira parte, estamos presos na mente de Freddie. Ele narra tudo como se estivesse apresentando uma versão coerente dos fatos. Depois, a narrativa muda para o diário de Miranda. O interessante é que Fowles mostra duas versões da mesma realidade entrando em conflito. |

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