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Antes, agora e depois: a nostalgia se camufla de novidade?

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    Revista Spia
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Por Louise Farias

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet
Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet

Nas últimas semanas, tenho assistido e lido conteúdos que me fizeram pensar sobre a nostalgia. Você sabia que a nostalgia já foi considerada uma doença grave? O conceito surgiu em 1688, quando o médico suíço Johannes Hofer estudou, em sua dissertação, soldados suíços que estavam em combate longe da sua terra natal. Nostalgia vem da junção de duas palavras gregas: nóstos (retorno para casa) + álgos (sofrimento). Sendo assim, a nostalgia seria uma saudade física e arrebatadora de casa, que provocava dor e melancolia. Com o tempo, a nostalgia deixou de ser vista como doença física e passou a ser vista como uma lembrança melancólica do passado que não volta mais.



Sentir saudades do passado pode provocar diferentes sensações nas pessoas. Alguns afirmam não ter nostalgia de coisas, pessoas ou situações vividas, porque hoje tudo parece “melhor”; outros buscam memórias antigas e tentam, de certa forma, replicar no cotidiano o que já foi vivido. E ainda há aqueles que dizem ter “nascido na época errada”, pois sentem saudade de um período que nem viveram.

É inegável que estamos imersos em um mar de novas tecnologias, informações e tendências, mas será que estamos vendo e vivendo novidades de fato? Ou será que as pessoas, consciente ou inconscientemente, estão buscando cada vez mais encontrar prazer, conforto e bem-estar num retorno ao analógico?

Acredito que um dos maiores fundamentos da moda é seu caráter cíclico, como demonstra a literatura especializada. Por muito tempo, estudiosos afirmavam que as tendências levavam cerca de 20 anos para retornarem ao mercado. Tempo suficiente para que uma geração crescesse e sentisse saudade da época pretérita.

  No início de 2026, houve uma trend nas redes sociais do ano ser o "novo 2016". Por meio dela e para participar da tendência, diversas pessoas resgataram fotos pessoais antigas e entraram na onda nostálgica. A magia da nostalgia está nas sensações que ela provoca nas pessoas, estimulando lembranças, conforto e a segurança de tempos que, agora, talvez parecessem mais fáceis, mas não é mais assim.

Foto: Reprodução/Internet.
Foto: Reprodução/Internet.

Com o avanço da tecnologia, o excesso de informações, a velocidade das redes sociais e a inteligência artificial, a lógica dos 20 anos foi sendo aos poucos derrubada. Hoje, não há mais uma precisão exata do que estará nas vitrines semana que vem, ou mesmo amanhã.

Há um livro intitulado A Vingança dos Analógicos (Anfiteatro, 2016), do jornalista David Sax, no qual ele comenta sobre esse movimento de transformação digital. Sax afirma que os discos de vinil foram sendo substituídos pelo mp3 e por plataformas de streaming. No entanto, tempos depois, o público foi “redescobrindo” o vinil e conferindo valor a ele, não se tratando apenas de um surto nostálgico, mas de uma resposta a um profundo desejo por experiências sensoriais e que nos conectam ao real.

Na moda, esse movimento se manifesta, em certa medida, a partir das tendências e do acelerado mercado contemporâneo. Não se trata mais de esperar 20 anos para reviver uma tendência, mas de revisitá-la constantemente. O mercado já percebeu esse desejo e, cada vez mais, se utiliza da economia da nostalgia para proporcionar experiências de conforto em um mundo caótico.

As referências sempre existiram não só na indústria da moda, mas em todas as artes. Em 1937, a estilista Elsa Schiaparelli se inspirou nas obras do artista Salvador Dalí, seu contemporâneo, que incluía lagostas em suas obras. Já na década de 1960, o vestido tubinho colorido de Yves Saint Laurent teve influência na obra de Piet Mondrian, dos anos 1930. Essas referências surgem com frequência na moda, na música e no audiovisual.


Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet
Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet

No cinema, filmes ganharam sequência lançada décadas depois do original, como Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025), com uma história que se passa anos depois do original de 1997. Séries de streaming dedicaram episódios para fazer referências diretas a outras obras, como a série da Prime Video Elle (2026), que na primeira temporada faz uma homenagem ao filme Clube dos Cinco, dos anos 1985. O próprio Met Gala é um espaço para ver e compreender esse resgate de referências. Em 2026, o tema foi “Fashion is Art” (Moda é Arte), ampliando possibilidades de interpretação e busca por inspiração na pintura, escultura, cinema e outras fontes e linguagens.

Quando eu era mais nova, gostava de fazer referências a filmes e artistas de que gostava. Minhas roupas de aniversário foram, por muito tempo, fantasias de personagens. Aos 12 anos fiz mechas vermelhas no cabelo graças à atriz Josie Pessôa na telenovela Império. Nós sempre fazemos referência a algo ou alguém — por admiração, identificação, sentimento de pertencimento ou para materializar um sentimento, revivendo-o.

O que mudou, hoje, é a velocidade e intensidade com que essas referências são acumuladas.



Se pegarmos o celular e pesquisar “anos 90” ou “anos 2000” no Pinterest ou TikTok, podemos perceber que a linha entre uma imagem original da época e algo produzido atualmente para parecer da época é muito tênue. Às vezes nem dá para diferenciar de imediato. Looks inspirados em Friends — sitcom que terminou há mais de 20 anos — continuam aparecendo como referência para a Geração Z. O corte de cabelo da Rachel, os looks do Chandler, ou o batom usado pela Mônica, ainda hoje rendem conteúdos nas redes sociais para serem replicados.

Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet
Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet

A marca de maquiagem Quem Disse, Berenice? lançou no mês de junho, inclusive, uma linha inspirada na série, que traz itens com embalagens com cheiro que remete ao café Central Park e ícones dos personagens. A atriz que interpreta a Janice (Maggie Wheeler) veio ao Brasil para a campanha, deixando muitos fãs da série emocionados. Nostalgia pura! Quase fui rendida para essa linha.


Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet
Fonte: Colagem feita pela autora. Reprodução/Internet

Essa campanha mostra o quanto o apelo nostálgico vende. Ainda no mundo da maquiagem, diversas marcas resgataram o batom mágico verde, conhecido como “batom da vovó”, e lançaram produtos com proposta semelhante. O algoritmo e as marcas perceberam que a forma mais segura de rentabilizar e reduzir riscos é recorrendo ao passado que já é aceito, levando até o fast fashion a produzirem peças “vintage”. O que vemos é uma busca constante por identidade através do que já foi vivido — ou idealizado — por outras gerações.



Por um lado, esse movimento homenageia e nos conecta a um passado que, de certa forma, nos moldou. Parte da Geração Z, por exemplo, que não viveu os anos 1990 ou 2000, tem buscado e encontrado nessas referências uma forma de pertencimento. Isso reflete na atual produção e busca massiva de conteúdos de “tendência Y2K”, “estilo Y2K”, que é, basicamente, o resgate do visual dos anos 2000, inspirado na cultura pop da época. Essa tendência de comportamento revela uma procura por identidade própria em um mundo que muda rápido demais. Por isso, a busca pelo analógico não é, necessariamente, pela nostalgia, mas pela necessidade humana de experiências que nos lembrem que somos pessoas feitas de carne, osso e memórias.

Mas, também há um lado negativo nisso. Quando a indústria passa a utilizar o apelo ao passado como estratégia comercial segura, corremos o perigo de não fazer mais questão de criar algo novo e aceitar os riscos que isso traz. A nostalgia vira um atalho fácil. Mais uma hamburgueria com temática anos 1960. Um ovo de Páscoa comum que custa o dobro por trazer dentro dele um brinquedo clássico. Lojas que vendem roupas, calçados e acessórios “vintages” e possuem um alto custo. Compramos memórias. Compramos as partes boas de uma época – ou que são vendidas como tal.

Experiências pautadas no passado trazem conforto e segurança em tempos de incertezas. Crises políticas, econômicas e climáticas. O futuro soa como algo muito instável. O passado, ainda que idealizado, esteticamente moldado, oferece um refúgio para nos sentirmos acolhidos.

Afinal, estamos mesmo vendo novidades ou apenas revisitando o passado? Talvez a moda esteja deixando um pouco de lado a essência da inovação, e buscando mais a ressignificação. A nostalgia está para a moda como aquela camisa desbotada e confortável está para nós no final de um dia exaustivo.



SAIBA MAIS

Assista a este vídeo da Mina Lee no YouTube para entender melhor a indústria da nostalgia: Does originality still exist anymore?. Nele, ela desenvolve uma análise crítica sobre como o medo do novo tem alimentado o ciclo infinito de remakes e resgates culturais.

Assista ao filme Clube dos Cinco (1985) e a série Elle (2026) para entender as referências diretas. Preste atenção nos figurinos e na construção dos arquétipos dos personagens: a patricinha, o atleta, o rebelde. A série resgata a memória coletiva de uma das cenas mais clássicas do cinema.

CURIOSIDADES

Os brechós e a moda circular passam por um crescimento exponencial desde 2025. De acordo com o ThredUp Report, em 2025 o mercado de moda de segunda mão cresceu cerca de 18% e possui estimativa de crescimento de US$367 bilhões até 2030. Isso reflete que o consumo consciente, a sustentabilidade e o slow fashion tornaram-se valores importantes para consumidores, o que também explica o boom de peças artesanais em 2026.

A estampa poá, tendência em 2026, surgiu no século XIX na Europa. Era conhecida como “polka dot” por causa da famosa dança da época. A palavra “poá” vem da abreviação do termo em francês “petit-pois”, que significa “ervilha pequena”. Seu auge foi nos anos 1950, mas em 2026 voltou com tudo.


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