“Na mesa da minha alma, sentam-se muitas”: Mariana Carvalho e a arte de ser
- Revista Spia

- há 1 dia
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Por Pedro Gomes
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins

Aos 28 anos, a caruaruense Mariana Carvalho, conhecida artisticamente como Marisflora, transita entre a arte, a psicologia, a massoterapia, a maternidade e diferentes formas de cuidado, sem aceitar que precise escolher apenas uma maneira de existir. Culturalmente, há na sociedade específicos artistas que se especializam em determinados ramos: cinema, música, dança ou escrita. Todavia, na contramão das especificidades, Mariana Carvalho parece preferir os cruzamentos.
Nascida no Agreste pernambucano, Marisflora reúne experiências que, à primeira vista, poderiam parecer distantes: é atriz, dançarina, escritora, psicóloga, massoterapeuta, doula, educadora e mãe. Na prática, porém, Mariana não enxerga essas atividades como compartimentos isolados. Para ela, existe um fio que atravessa todas essas experiências: o cuidado.
“O que eu vejo mais em comum entre essas Marianas, é o cuidado”, afirma.
É a partir dessa perspectiva que sua trajetória começa a fazer sentido. O corpo, a escuta, a maternidade e a criação aparecem como diferentes portas de entrada para uma mesma investigação: compreender o ser humano e encontrar maneiras de transformar aquilo que é vivido em experiências compartilhadas.
Entre o corpo e aquilo que não se vê
O interesse de Mariana pelo corpo surgiu antes mesmo da escolha profissional. Ao estudar massoterapia, ela conta que passou a enxergar o corpo para além daquilo que está imediatamente visível.
“Quando comecei a estudar sobre massoterapia e comecei a enxergar o corpo por dentro, não apenas a casca que vemos aqui fora, descobri um universo gigantesco que se conecta com a psiquê.”
A percepção de que corpo e mente não poderiam ser compreendidos separadamente também atravessou sua formação em Psicologia. Durante a trajetória estudantil, Mariana começou a observar como tensões físicas, inquietações mentais, fugas e até processos de automedicação poderiam aparecer inscritos no corpo. Não se tratava, segundo ela, de uma escolha profissional planejada desde cedo. Antes da academia, havia uma inquietação anterior: a curiosidade pela própria existência humana.
“Só fui seguindo o faro dos meus sentidos”, resume.
Esse “faro” parece ser uma das palavras-chave de sua trajetória. Em vez de considerar suas formações como interferências umas nas outras, Mariana prefere compreendê-las como campos que se atravessam.
“Jamais acreditarei que essas formações e atuação profissional contaminam uma à outra. [...] esses estudos estão muito entrelaçados, cada um na sua área de pesquisa sobre nosso corpo-memória.”
A maternidade como movimento
Se o corpo já era território de investigação, a maternidade o ampliou. Mãe há oito anos, Mariana não descreve a experiência a partir de uma narrativa idealizada. Para ela, ser mãe significou movimento, adaptação e também renúncias. Houve trabalhos e estudos que precisaram ser recusados para que outras necessidades fossem atendidas.
“Eu TIVE que me movimentar ainda mais, eu me senti instigada a me mover”, conta.
A maternidade também modificou sua percepção sobre as relações. Mariana diz que a gestação foi como a abertura de um “portal com uma realidade paralela”, a partir do qual seus sentidos ficaram mais atentos aos perigos e às possibilidades da vida. Ser mãe de um menino também a levou a refletir sobre masculinidade e patriarcado a partir de uma perspectiva íntima: a de quem precisa educar uma criança enquanto revisita as próprias construções pessoais.
Na arte, essa experiência encontra outro caminho. Mariana entende que a criação também pode ser uma forma de apresentar ao filho outras maneiras de perceber o mundo.
“A arte será sempre algo que me incentiva a mostrar a ele como forma de poetizar nossa existência, apesar de tudo.”
Ela faz questão, entretanto, de reconhecer que essa trajetória não seria possível sem uma rede de apoio. A maternidade, para Mariana, não é uma experiência individual isolada, mas também uma construção coletiva.
Escutar antes de criar

Há uma relação direta entre escuta, corpo e criação no trabalho de Marisflora. Ela recorre à escritora estadunidense Clarissa Pinkola Estés para explicar sua percepção de que corpo e alma estão profundamente entrelaçados. Mais do que uma ideia abstrata, essa relação aparece concretamente em suas experiências artísticas. Mariana já realizou monólogos em intervenções urbanas construídos a partir de histórias de mulheres. As experiências foram compartilhadas com autorização e preservação das pessoas envolvidas e, segundo ela, só puderam ganhar aquela forma graças à escuta desenvolvida em sua trajetória na Psicologia.
“A escuta ativa com a Psicologia” possibilitou acessar essas histórias; as pesquisas com terapias ajudaram a corporificá-las; e a arte transformou tudo isso em performance. É justamente nesse ponto que suas diferentes experiências deixam de parecer profissões independentes e passam a funcionar como ferramentas de uma mesma investigação.
Quando o caos também organiza
Conciliar tantos papéis, entretanto, está longe de significar uma rotina perfeitamente organizada. Mariana reconhece que existem períodos em que trabalha de domingo a domingo. Em outros, consegue reduzir as demandas e se afastar um pouco das redes sociais para dedicar tempo à família. Atualmente, sua rotina profissional também é construída em diálogo com os cuidados do filho e com a disponibilidade da rede de apoio.
Mas há uma ressalva importante: ser multifacetada não significa ser permanentemente organizada.
“Há períodos de sobrecarga e muita pressão interna e externa”, admite.
Sua maneira de lidar com isso passa por um diálogo interno desenvolvido desde a infância. E talvez nenhuma frase traduza melhor sua relação com a própria rotina do que esta: “Em alguns momentos consigo manter a ordem mesmo perante o caos. Às vezes deixo o caos criar a ordem.” A frase poderia servir também como síntese de sua trajetória.
O incômodo de caber em uma única definição
A multiplicidade, contudo, tem um preço: a cobrança para escolher. Mariana conta que ainda escuta questionamentos sobre por que não se dedica exclusivamente à Psicologia, especialmente depois de tantos anos de estudo.
“Por que você não dá preferência apenas à Psicologia? Você passou tanto tempo estudando, tem que dar retorno.”
A resposta vem acompanhada de humor:
“Não consigo estar em vários lugares ao mesmo tempo. Infelizmente esse dom do clone das sombras ainda não desenvolvi — quem assistiu Naruto vai entender.”
Por trás da brincadeira existe uma questão mais profunda. Mariana reconhece que sustentar suas escolhas ainda provoca conflitos internos e externos, mas afirma estar vencendo, aos poucos, o medo de corresponder ao padrão esperado. O que a mantém nesse caminho é justamente a possibilidade de experimentar diferentes formas de encontro.
Ela fala com entusiasmo sobre acompanhar nascimentos como doula, proporcionar bem-estar por meio das terapias, contar histórias através da dança, do teatro e do canto, trabalhar com grupos de mulheres, facilitar dinâmicas com adolescentes e jovens, fortalecer a cultura hip-hop pela arte-educação e participar de palestras, cursos e oficinas.
“Eu até posso abrir mão de tudo isso, focar em uma coisa só e seguir o percurso da vida, mas sinto que se fizer, partes de mim serão assassinadas.”
A multiplicidade, portanto, não aparece apenas como característica profissional. Para Mariana, ela também é uma forma de preservação de si.
Antes de Marisflora, havia uma menina inventando histórias
Muito antes das formações acadêmicas e das experiências profissionais, havia uma criança inventando mundos. Mariana lembra das brincadeiras com as amigas, quando criavam bandas imaginárias e distribuíam entre si funções de dançarinas, cantoras, compositoras e apresentadoras. Criavam coreografias, enredos e personagens. Outra lembrança permanece especialmente viva: o quadro “Lendas Urbanas”, do programa do Gugu, e a história da Bloody Mary. O impacto foi imediato. Mariana pegou um caderno escolar e escreveu um roteiro de ficção inspirado na história.
“Se eles conseguiram gravar essa história para contar pra gente, eu consigo gravar um filme sobre isso.”
O filme nunca saiu do papel. Mas a ideia permaneceu. E ela mesma brinca com a própria memória: “Será que aqui já estava com sinais da Mari multifacetas e só agora tô me dando conta?!”. Talvez estivesse.
Criar a partir da ferida (e também da esperança)
Hoje, quando pensa em sua produção artística, Mariana não consegue apontar uma única provocação. Ela fala em reflexão, imaginário, resiliência, resistência política, afeto e possibilidade de enxergar outros horizontes. Seu interesse está na transformação de experiências históricas, sociais e pessoais em algo capaz de produzir sentido e coragem. Mas existe uma particularidade em seu processo criativo: a dor e a raiva ocupam um lugar importante.
Mariana conta que já se comparou com artistas que diziam criar principalmente pelo prazer e pela alegria. Depois de refletir sobre seu próprio processo, percebeu que suas criações mais marcantes frequentemente nascem de lugares menos confortáveis.
“Eu construo muito mais através da dor e da raiva.”
Isso não significa, porém, abandonar a esperança. Sua arte pode ser crua e provocar choque, mas também pode assumir uma dimensão poética.
“Às vezes gosto de ser crua, causar choque de realidade. Às vezes gosto de ser poética e espalhar o esperançar no público.”
Talvez seja justamente nessa tensão que sua produção encontre força: entre confronto e acolhimento, incômodo e afeto, realidade e imaginação.
E quem é Mariana quando ninguém pergunta o que ela faz? Se todas as profissões fossem retiradas da pergunta, quem restaria?
Mariana responde começando pela origem: filha de Maria Beatriz de Andrade e Messias Oliveira de Carvalho, de uma mãe pernambucana com descendência indígena e de um pai piauiense negro. Depois, deixa de lado os títulos e fala de desejos. É alguém que busca ser cada vez mais “desejosa pela vida”, curiosa diante do desconhecido, simultaneamente corajosa e medrosa. Alguém que sonha em viajar pelo mundo e fazer tudo, mas que também imagina abandonar temporariamente tudo para viver em um “cafofo”, cercada pelo filho, plantas e bichos, e sem boletos.
É alguém que demonstra afeto pela presença e pelos atos de serviço. Que gosta de luz amarela, ambientes aconchegantes, música, dança, canto, comida que nutre o corpo e a alma, SPA caseiro e de receber pessoas em casa. A definição mais precisa, entretanto, não veio dela mesma.
Veio de uma cliente, numa frase que Mariana guarda como uma espécie de espelho:
“Na mesa da minha alma sentam-se muitas e eu sou todas elas.”

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