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Violência, trauma e masculinidade em "Os Olhos de Fernando", de Johany Medeiros

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 13 horas
  • 9 min de leitura

Por Nilton Barros

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Ela nutre uma paixão avassaladora por ele, daquelas que suam as mãos só de estar na presença do seu amado. Avistar aqueles olhos verdes é como se sentir em plena primavera, a sua estação favorita. Ela está ali por uma razão: declarar o seu amor. Nessa hora, o coração bate incerto, a boca treme ao falar, ela gagueja, se sente tola. De repente, os olhos dele mudam para um tom âmbar, como mel aquecido ao sol. Ele, ao perceber a tentativa dela a toma em seus braços e a puxa para um beijo intenso, cheio de vontade, surpreendendo-a com a sua reciprocidade. A intensidade desse romance primaveril vai longe: os dois começam a namorar, vão ao cinema juntos, dedicam músicas um para o outro, planejam o futuro; pensam até em se casar. Eles trocam votos no dia do casamento, têm dois filhos, formam uma linda família e são testemunhas de uma narrativa feliz, como deve ser.

Mas nem sempre é.


Capa do livro "Os Olhos de Fernando". Foto: Reprodução/Internet
Capa do livro "Os Olhos de Fernando". Foto: Reprodução/Internet

Sinto muito, caro leitor, mas este resumo não faz parte do livro que compõe esta crítica. Tampouco lhe tiro a razão de querer viver um amor idealizado, desses que você encontra em filmes de comédia romântica ou nos romances de época que você lê. Entretanto, como crítico, não pretendo trazer reflexões acerca de mais uma história que evoca um amor puro, singelo e convencional. Pelo contrário, irei tratar de um amor que não te beija ao mudar o tom dos olhos, mas que te devora, te machuca, corrompe o seu ser e te faz duvidar de si mesmo. Com um único olhar, ele é capaz de mudar a sua vida em questão de segundos, de maneira trágica. Estou me referindo a’Os Olhos de Fernando (Arrelique, 2025), obra de Johany Medeiros.

Johany Medeiros no lançamento do seu primeiro livro. Foto: Reprodução/Internet
Johany Medeiros no lançamento do seu primeiro livro. Foto: Reprodução/Internet

Johany é conterrânea da minha cidade, Caruaru, Pernambuco, e além de escritora, é produtora cultural, cineasta, pesquisadora, comunicóloga e apaixonada por livros. Já fomos colegas de turma na disciplina de “Direção de Fotografia Documental", ministrada por Adelina Pontual, diretora de cinema, no curso de Comunicação Social da UFPE, Centro Acadêmico do Agreste. Em um intervalo específico dessa aula, no qual sentamos no banco do pátio de nosso bloco e começamos a trocar ideias, pude conhecer Johany como escritora. Foi nesse momento que descobri que ela começou a escrever contos e poesias com apenas 16 anos, bem como começou a publicá-los na internet. E agora tive a oportunidade de contemplar o seu primeiro romance, que aborda um tema tão delicado e visceral.



“Alguma coisa está diferente. Não apenas uma desconformidade, mas um pequeno conjunto delas. A primeira que percebe é que o verde claro e intenso perderam espaço para um verde musgo amarronzado, meio sem brilho.” Os Olhos de Fernando (p. 11)

A protagonista sobre a qual o narrador comenta tem nome e se chama Juliana, uma ex-advogada que se encontra sozinha no apartamento em que mora, angustiada pela morte de seu marido, Fernando. Em meio a pensamentos inquietantes, Juliana enfrenta um pós-morte tenebroso, cujo sentimento principal é o medo de ainda estar sendo observada por ele, como se fosse uma figura onipresente acompanhando cada passo seu.

Mais tarde, com o auxílio de uma psicóloga, Juliana começa a entender que os olhos de Fernando, os quais acreditava ser o seu refúgio, representam a alegoria de um longo relacionamento abusivo e violento que a fez se tornar o que toda mulher teme ser um dia: um corpo esquecido na própria história.



Sob o ponto de vista narrativo, acompanhamos, em 3ª pessoa, um enredo não-linear que alterna entre um passado traumático e abusivo, e um presente que busca levar a protagonista a uma melhor compreensão dos fatos. O narrador nos mostra a história a partir das percepções, sensações e memórias de Juliana, as quais remetem à violência física, sexual e psicológica vividas por ela em seu relacionamento. Essa alternância temporal se classifica não apenas como um recurso de suspense, mas também como uma estratégia usada para evidenciar o modo pelo qual a memória desses abusos surgem em pequenos fragmentos e gatilhos.

Com relação ao espaço, a prosa possui poucas ambientações externas, oscilando entre ambientes domésticos (apartamento) e coletivos (consultório de psicologia). Isso tende a causar um efeito claustrofóbico ao leitor, contudo, é mais um recurso narrativo usado para enfatizar o enclausuramento psíquico — e também físico — de Juliana em um recinto de muito controle e tensão, no qual ela mesma não consegue sair e nem chamar o lugar de casa, embora tenha vivido nela por bastante tempo; ao passo que as sessões de terapia funcionam, aos poucos, como zonas de respiro e tentativas de recomeços.

A redução da presença de personagens secundários, por sua vez, inicialmente reforça o distanciamento da protagonista com pessoas próximas (amigos e sua mãe, por exemplo), intensificando o seu isolamento, em decorrência da depressão que a cerca e que a toma. Elementos como bebida alcóolica e remédios são evidenciados em pequenos trechos narrados, a fim de retratar o estado mental instável da protagonista.

É nesse momento que vemos a singularidade nas características da personagem feminina de Johany: uma mulher com traumas até então desconhecidos, com uma identidade inteiramente colapsada, que necessita de ajuda profissional, mas se demonstra relutante em expressar o seu sofrimento à psicóloga disposta a ajudá-la. Na terapia, a instabilidade de Juliana é expressada de modo mais empírico, em meio ao humor irritadiço, falas proferidas na defensiva, gritos e risos que funcionam como uma válvula de escape para equilibrar a dor que a desola. Os diálogos mostram uma paciente distante e anestesiada, que só começa a se desvencilhar de seus estados amordaçantes à medida que a relação terapêutica se estabiliza e ela consegue decifrar os seus tormentos. Com isso, a personagem não só começa a compreender a gênese da sua angústia e de todas as suas cicatrizes, como também inicia uma reaproximação com seus entes queridos, sinalizando uma mudança em suas relações e o processo subjetivo de sua reconstrução.


Movimento Red Pill. Foto: Google Imagens.
Movimento Red Pill. Foto: Google Imagens.

Em contrapartida, Fernando, que não é mostrado em presença material e sim memorial, não se configura somente como o vilão da prosa, mas também em um retrato fiel da masculinidade hegemônica, que transforma o controle e a possessividade do homem como uma forma diferente de amor, e isso faz da obra de Johany um meio de pensar sobre as múltiplas maneiras de violência dentro das relações amorosas, bem como nas consequências desastrosas que esses atos violentos podem deixar nas mulheres que se tornam vítimas.

Podemos, ainda, comparar as atitudes de Fernando, aos do movimento masculinista de nome Red Pill, desenvolvido na internet nos anos 2000, o qual defende o discurso de que homens deveriam recuperar uma posição de autoridade nas relações, ou que as mulheres seriam naturalmente manipuladoras, interesseiras ou infiéis, sendo impossível, para eles, se relacionarem com elas. Esses ideais implicam em uma série de prejuízos ao público feminino, colocando a mulher em papéis sociais inferiores ou submissos e os homens em suprema autoridade, além de normalizar qualquer tipo de violência, seja ela psicológica, sexual, moral, patrimonial, física ou verbal.



No aspecto linguístico, a autora adota uma linguagem direta e sensível para descrever, de modo elucidativo, a realização dessas violências, em suas inúmeras camadas por vezes escondidas de realização. O objetivo do livro não é, em hipótese alguma, estetizar ou romantizar a brutalidade do ato ou o sofrimento, mas sim tornar visíveis os meios de como o abuso sexual, psicológico ou físico ocorrem nos relacionamentos, assim como os seus efeitos; ajudando o leitor a reconhecer certos padrões semelhantes em experiências reais e pessoais.

Uma observação importante de se destacar é que, uma vez que a narrativa não dispõe de muitas ambientações, a trama acaba não situando o leitor sobre a localidade da história. No entanto, o uso de expressões populares nordestinas como “oxe”, “bocado de coisa” e “lonjura”, entre outras, determina o cenário onde o enredo se passa, que pode ser no estado de Pernambuco em qualquer outro estado nordestino. É nesse momento que a linguagem também atua como um meio de expressão do indivíduo personagem, bem como ajuda a construir as suas características identitárias.

O que nos faz compreender a espacialidade da história é justamente um programa de TV, quando a personagem principal assiste ao programa ABTV segunda edição, um programa da TV Asa Branca gerado diretamente na sede de Caruaru. Com isso, ao incluir um telejornal caruaruense no dia a dia de Juliana, a autora busca não somente criar uma conexão direta e cúmplice com o público local do contexto de produção da obra, que identifica prontamente o elemento cultural, mas também dá a entender que a narrativa se passa em Caruaru.


“— Juliana, algumas violências deixam marcas que a gente não consegue ver, nem enxergar como uma violência. Mas o medo existe, e continua ali.” Olhos de Fernando (p. 95)

Enquanto um leitor homem, essa frase me fez refletir sobre os desdobramentos da masculinidade, sobretudo hegemônica, e o quão significativa é a sua relação com a violência. Logo, considero impossível estudar gênero sem ao menos compreender como se dão as dinâmicas masculinas na sociedade, as quais tendem a ser bastante complexas quando se tratam da questão “o que é ser homem?”. Por isso, Raewyn Connell, em seu livro Masculinities (Polity Press, 1995), responde a essa pergunta partindo do princípio de que ser homem não está, unicamente, relacionado com o quesito biológico ou individual, mas também trata de relações de poder, bem como de uma construção social baseada em expectativas criadas previamente para ditar comportamentos tidos como “masculinos”.


Raewyn Connell. Foto: Reprodução/Internet
Raewyn Connell. Foto: Reprodução/Internet

Ou seja, a masculinidade hegemônica se configura como o modelo ideal de um homem: hétero, dominante, forte, corajoso, autoritário e emocionalmente controlado. Connell destaca que esse tipo de masculinidade não é a mais comum, mas faz parte de uma noção mais valorizada de “ser homem”. É dessa forma que o homem, cujo gênero faz parte do grupo esmagadoramente dominante, detém e usa os meios de violência perante o grupo dominado, que, nesse caso, são as mulheres.

A cientista social salienta que existem dois padrões pelos quais essa violência ocorre. Inicialmente, o grupo privilegiado usa da violência para manter seu domínio; e isso pode acontecer por meio de intimidação contra as mulheres, seja por assobios na rua, assédio sexual, estupro, agressão e até mesmo assassinatos, conhecidos como “feminicídio”. Muitos homens cometem tais atrocidades contra o público feminino e dificilmente retiram sua culpa: eles sentem que exercem um direito, o que é ainda mais preocupante – tanto quanto o fato de os homens assumirem também como pressuposto que a mulher está sempre errada e, por isso, vasculham submundos da crueldade para encontrar algum motivo para culpá-la e, numa sequência lógica, puni-la por eles mesmos. Em segunda instância, a violência também pode decorrer de uma política de gênero entre os homens, ou seja, eles usam do terror como uma forma de reivindicar ou reafirmar a masculinidade.


Igor Cabral, agressor de Juliana Garcia. Foto: Reprodução/Internet
Igor Cabral, agressor de Juliana Garcia. Foto: Reprodução/Internet

A exemplo de algumas violências, temos o caso de Igor Cabral, que desferiu 61 socos contra a sua namorada, Juliana Garcia, dentro do elevador de um condomínio em Natal, no Rio Grande do Norte, em julho de 2025. Juliana sofreu graves fraturas no rosto e o ocorrido foi investigado como tentativa de feminicídio.

Outra violência registrada no Brasil diz respeito à agente comunitária de saúde Amanda Loureiro da Silva Mendes, morta a tiros pelo ex-companheiro, Wagner Araújo, em fevereiro deste ano, ao chegar para trabalhar em uma clínica da sua família, no Rio de Janeiro. De acordo com a polícia, os dois estavam separados havia quatro meses, entretanto, Wagner não aceitava o término do relacionamento e a perseguia, mesmo com uma medida protetiva contra ele.

Wagner Araújo, assassino de Amanda Loureiro.
Wagner Araújo, assassino de Amanda Loureiro.

Juliana, nossa protagonista do livro em questão, é uma sobrevivente atormentada pelas sombras de seu passado, aqui intitulado de Fernando. Ela é um exemplo ficcional que funciona como reflexo de como a violência contra as mulheres é estrutural: trata-se de um conjunto de padrões masculinos dentro de uma cultura opressora que naturaliza esse tipo de atitude. Cabe aqui, então, um chamado para nós, homens, refletirmos sobre essas violências e mudarmos padrões comportamentais; bem como às mulheres, uma vez que elas constituem o principal grupo atingido por esse fenômeno. É importante enfatizar que a violência de gênero pode acontecer com qualquer uma e várias demoram para sair desse ciclo, se submetendo, muitas vezes, a humilhações, controle, isolamentos e entre outras situações.



O enredo não é leve e Johany, sabendo disso, dedica uma nota para alertar os seus leitores sobre possíveis gatilhos que a história pode lhes causar. Isso porque, durante a leitura, vamos lidar com temáticas associadas à violência psicológica, relacionamento abusivo, estupro, ansiedade, depressão e menção ao suicídio. Ou seja, se sua vida é marcada por algumas dessas questões, assim como a da autora foi, recomendo que, pelo bem da sua saúde mental, tenha cautela.

Por outro lado, embora trate de um tema doloroso, é uma obra que merece ser lida e apreciada. Ela contribui para que, não só nesse Agosto Lilás, mas em todos que vierem daqui em diante, o leitor, seja homem ou mulher — mas principalmente o homem — saiba como a violência contra a mulher pode ser reproduzida e/ou legitimada no nosso cotidiano, mesmo com as leis vigentes em nosso país. É um livro altamente recomendado para quem deseja entrar em contato com as relações de gênero, que são marcadas pelo poder nos relacionamentos e pela responsabilidade social.


CURIOSIDADES

O Agosto Lilás é uma campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher. O mês foi escolhido porque marca o aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. A ação busca alertar a sociedade sobre a importância de prevenir e combater o abuso de gênero.

Raewyn Connell é socióloga, educadora e cientista social australiana. Ela é mundialmente famosa por criar o conceito de “masculinidade hegemônica” e por ajudar a fundar o campo dos estudos sobre os gêneros e as masculinidades.

“Feminicídio” é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, ou seja, motivado pelo gênero, misoginia ou pelo contexto de violência doméstica e familiar. É a forma mais extrema de violência machista e estrutural contra a mulher.

Ligue 180: Para denúncias de violência, orientações sobre direitos das mulheres, localização de redes de apoio ou relatos que não sejam de risco imediato.

Ligue 190: o número de telefone de emergência da Polícia Militar no Brasil, usado para acionar socorro imediato em casos de crimes em andamento ou perigo iminente.


1 comentário


Maria Eduarda Correia de Figueiredo
Maria Eduarda Correia de Figueiredo
há 10 horas

Muito bom, amigo. Gostei muito de como você conseguiu enxergar na obra questões que vão muito além da história em si.

A relação entre violência, trauma e masculinidade ficou muito bem construída no texto. Fiquei curiosa para conhecer o trabalho depois dessa análise. Parabéns!

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