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Entrevista com Marie Salles: há 30 anos vestindo personagens que marcaram a televisão brasileira

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

Por Claudison Morais

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins



Marie Salles. Foto: Instagram (@mariesalles)
Marie Salles. Foto: Instagram (@mariesalles)

Você pode não conhecer o rosto de Marie Salles, mas com certeza conhece o trabalho dela, afinal ele já impactou a estética e o consumo de milhões de brasileiros. Há mais de três décadas trabalhando na projeção, produção e seleção de trajes para o audiovisual, e há cerca de vinte anos como figurinista titular, ela é responsável pela construção visual de vários personagens muito marcantes da dramaturgia brasileira. De Carminha, em Avenida Brasil (2012), à nova versão de Odete Roitman, em Vale Tudo (2025), seus figurinos ajudam a contar histórias, revelar personalidades e construir universos que permanecem na memória do público muito depois do último capítulo.

Formada em Indumentária pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marie iniciou sua trajetória no cinema. Ao chegar à TV Globo, ainda como estagiária, passou aproximadamente dez anos como assistente de profissionais como Emília Duncan, Beth Filipecki e Yurika Yamasaki, três dos principais nomes do figurino no audiovisual brasileiro. Em 2006, estreou como figurinista titular e, desde então, assinou novelas como Pé na Jaca (2006), Cordel Encantado (2011), Avenida Brasil (2012), Pantanal (2022), Renascer (2024) e a nova versão de Vale Tudo (2025).

Em entrevista concedida ao colunista de moda e repórter Claudison Morais, da Revista Spia, Marie falou sobre sua trajetória, explicou como nasce o figurino de uma novela, revelou curiosidades sobre os bastidores das produções e contou como a pesquisa de campo é fundamental para criar uma segunda pele convincente para os personagens.



“Amo ser figurinista!”

...diz Marie ao ser questionada sobre o que ela sente em relação à sua profissão. Após isso, ela nos conta que seu amor vai muito além das roupas, pois o que a motiva é participar da construção completa dos personagens.

“Quando recebo qualquer projeto, seja uma série, um filme ou uma novela, primeiro recebo o material da obra. Nas séries e nos filmes, recebemos todos os episódios ou o roteiro completo. Já nas novelas, recebemos uma sinopse que conta a história até, mais ou menos, o capítulo 100, além de um briefing dos personagens. Com esse material, conseguimos entender quem são esses personagens. Depois converso com o autor, para entender melhor a intenção da narrativa e a proposta dos personagens e também com o diretor. O diretor explica o gênero da obra, se é uma comédia, um romance, uma história realista ou uma fábula, e fala sobre a época e o contexto em que ela acontece. A partir disso, vou para casa, começo a pesquisar e desenvolver esses personagens junto com a minha equipe.”

Uma novela nunca está totalmente pronta. Ao contrário do cinema, ela é uma obra aberta e pode mudar conforme a resposta do público. Isso faz com que nem sempre toda a equipe conheça os rumos da história desde o início. Marie lembra de um episódio de A Favorita (2008) que ilustra bem essa dinâmica:

“Eu só descobri que a Flora era a verdadeira vilã quando começaram as gravações das cenas da revelação. O diretor ficou com medo de que, se eu soubesse antes, pudesse colocar alguma pista no figurino, mesmo de forma inconsciente. Então isso depende muito de cada produção.”


Já em Vale Tudo (2025), a situação foi diferente. Como uma reviravolta importante exigia um planejamento muito específico do figurino, Marie precisou conhecer o desfecho antecipadamente:

“Apesar de ser um remake, eu sabia que nesta versão, ela [Odete Roitman] continuaria viva, porque precisei fazer uma roupa dupla. Como isso fazia parte da produção do figurino, eu precisava saber. Mas eram pouquíssimas pessoas que tinham essa informação. Acho que apenas quatro pessoas sabiam.”

Marie afirma que quando assiste a produções das quais não participa, não consegue nunca “desligar” o olhar profissional, pois acaba pensado sobre as escolhas feitas, as relações delas com a história, com o corpo da pessoa que atua, o contexto etc.

Assim como para mim e para você – e para ela também –, sempre há um personagem que nos encanta profundamente: pela atuação, pelo figurino, pelos modos de ser, pelas paixões que sente e transmite de modo verossímil, dentre outros tantos motivos. Para nossa grande figurinista, entre todos os trabalhos e produções que realizou, Carminha (Avenida Brasil, 2012), conquistou um lugar de destaque no seu coração, estando no topo de suas preferências e a preenchendo de grande satisfação:

“Para mim, a Carminha ocupa um lugar muito especial. Ela foi uma personagem que parou o Brasil. As pessoas se vestiam de branco, faziam festas temáticas, usavam fantasias de Carnaval inspiradas nela. Muita gente queria ter a bolsa da Carminha, que era uma bolsa que eu tinha comprado em um outlet em Miami. Quando o figurino ultrapassa a novela e passa a fazer parte da vida das pessoas, isso é muito marcante, e foi isso que aconteceu com a Carminha.”


Para quem acompanha novelas apenas pela televisão, é comum imaginar que o trabalho do figurinista se resume a escolher as roupas que os personagens irão vestir. Marie, no entanto, explica que essa é apenas uma pequena parte de uma função que envolve muita pesquisa, cuidado na gestão e rigor no planejamento.

“Acho que as pessoas não conhecem o tamanho do trabalho que existe por trás das nossas atividades. Muita gente imagina que a minha vida é um glamour, que eu passo o dia andando pelo shopping escolhendo roupa, mas não é assim. Além da criação, eu gerencio uma equipe grande, que varia de acordo com o tamanho da produção. Também trabalho com orçamento, planejamento e organização. Em uma novela, principalmente, a criação é muito intensa. Estamos falando de mais de cinquenta personagens, todos com personalidades, gostos e histórias diferentes. Eu amo meu trabalho, mas ele envolve muito mais do que simplesmente escolher uma roupa.”

Grande parte da carreira de Marie foi construída em novelas de época, como Boogie Oogie (2014), Joia Rara (2013) e Cordel Encantado (2011). Para ela, a fidelidade histórica não significa reproduzir exatamente o que existia no período retratado, mas sim compreender o contexto dele para construir personagens visualmente consistentes. De acordo com sua perspectiva altamente didática sobre todo o processo, entende e aceita a necessidade de algum arranjo ter que ser realizado em função da narrativa, do corpo que veste o figurino, do material da peça etc.: “Sempre fazemos uma adaptação”, até porque a pesquisa costuma ir além do período retratado pela obra.

“Quando trabalho com uma determinada época, amplio a pesquisa. Se a novela se passa nos anos 1920, por exemplo, pesquiso um período maior, indo alguns anos antes e alguns anos depois. Isso me permite ter mais referências para a composição dos personagens, que pode variar de décadas mais antigas e outras que estão à frente do tempo. Essa variação enriquece a construção visual da novela e ajuda a diferenciar os personagens.”


Esse cuidado, que podemos entender como uma das grandes marcas de estilo de Marie, também aparece na representação das classes sociais de seus personagens. Em produções como Cordel Encantado (2011) e Novo Mundo (2017), reis, aristocratas, trabalhadores e personagens populares têm identidades visuais bastante distintas.

“Isso vem da pesquisa e da observação. A gente olha para o mundo em que vivemos e entende como cada grupo se veste. As pessoas da classe mais alta têm determinados hábitos, enquanto as classes mais baixas têm outros. É essa pesquisa, feita tanto historicamente quanto no nosso dia a dia, que ajuda a construir essas diferenças.”

Questionada sobre as diferenças entre Carminha, de Avenida Brasil (2012), uma rica emergente, e Odete Roitman, de Vale Tudo (2025), uma rica “de berço”, a resposta foi direta: “Tudo parte da personalidade. Cada personagem pede uma construção diferente.” Marie também explica que nem sempre o figurino entrega ao público as intenções do personagem logo no primeiro olhar.

“Nem sempre queremos mostrar tudo de uma vez. O figurino acompanha a personalidade do personagem e também o momento da narrativa. Muitas vezes ele ajuda a construir uma imagem que a história quer apresentar naquele momento. O figurino acompanha essa construção. Ele não entrega tudo de imediato.”


Quando a novela retrata um lugar específico do Brasil, Marie procura conhecer esse universo antes mesmo do início das gravações. A pesquisa de campo, segundo ela, é uma etapa indispensável para construir personagens convincentes.

“Eu faço a visita de locação logo no início. Fico alguns dias no lugar, tirando fotos, observando as pessoas e conhecendo aquele ambiente. Essa pesquisa é muito importante para o desenvolvimento do figurino.”

Foi esse processo que a ajudou bastante na construção estética de, por exemplo, Pantanal (2022). Tecidos, couro, outras texturas, estampas, acessórios, marcas de uso da época, locais e formas de vestir foram observados diretamente na região. Desse modo, o figurino transmitiu autenticidade daquele universo em particular e credibilidade com relação às pessoas que o vestiam.

“As pessoas se vestem de maneira diferente no Pantanal, no Pará, nas cidades do Nordeste… Cada lugar tem características próprias. Quando vou até lá, observo tudo isso para que o figurino realmente pertença àquele ambiente.”

Mais do que evitar erros de caracterização, essa vivência evita que a representação da cultura popular se transforme em mera caricatura.

“É justamente por isso que faço essa pesquisa. Eu tiro muitas fotos, observo as pessoas, passo alguns dias no lugar. A referência vem da vida real. É dessa forma que consigo construir personagens que pertencem àquele ambiente. É por isso que a pesquisa de campo faz toda a diferença. É ela que dá verdade ao figurino.”

Falar sobre figurino com Marie Salles é perceber que, para ela, os detalhes nunca são apenas detalhes. Uma curiosidade de bastidores: enquanto a entrevista acontecia, algumas pausas eram inevitáveis – uma ligação, um recado da família, um compromisso rápido. Ainda assim, ela sempre voltava ao assunto com o mesmo entusiasmo, retomando exatamente de onde havia parado e fazendo questão de responder a cada pergunta com riqueza de pormenores.



Ao detalhar mais suas pesquisas de campo, suas imersões, ela contou que uma das maiores lições que aprendeu ao longo da carreira foi observar aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. No Pantanal, por exemplo, não bastava reproduzir uma roupa bonita ou encontrar uma peça parecida. Foi preciso entender como o calor intenso, o suor, o sol e a poeira modificam as cores, o tecido e a aparência das roupas ao longo do tempo. O figurino precisa carregar as marcas de quem vive naquele lugar. “A roupa vai sendo recolorida pela vida”, resumiu ela, poeticamente.

Esse olhar atento se repete em cada pesquisa. Antes de compor o figurino de qualquer personagem, Marie percorre ruas, observa pessoas, registra fotografias, conversa com moradores locais e tenta compreender os hábitos de cada região. Para ela, o figurino só funciona quando deixa de parecer um figurino e passa a ser parte da vida do personagem.



Diante de tudo o que foi dito, Marie Salles mostra que o figurino vai muito além da estética. Cada personagem nasce de um processo que reúne pesquisa histórica, observação do cotidiano, visitas de campo e os “sentidos” atentos para a narrativa. Em uma profissão que costuma permanecer nos bastidores, seu trabalho revela que roupas também contam histórias, ajudam a construir identidades e se tornam parte da memória afetiva do público. Depois de mais de três décadas dedicadas à construção de figurinos, a carioca segue dando forma a personagens que marcaram e continuam marcando a dramaturgia brasileira.


A Revista SPIA agradece ao Prof.° Fausto a intermediação do contato que possibilitou esta entrevista tão informativa e bonita. No fim do semestre, a Marie baterá um papo com as turmas de "Tópicos Especiais em Audiovisual" (Comunicação Social) e "Moda e Cinema" (Design), da UFPE-CAA.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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