A nova etiqueta dos brechós
- Revista Spia

- há 34 minutos
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Por Laura Lima
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
De alguns anos para cá, comprar peças de segunda mão deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a representar um estilo de vida. Entre os discursos sobre sustentabilidade e consumo consciente, os brechós conquistaram um espaço que antes parecia reservado às grandes marcas, ganhando vitrines bem produzidas, perfis no Instagram, clientes fiéis e novas comunidades de consumidores interessados na moda circular. E isso, por si só, é uma ótima notícia, principalmente quando significa substituir parte das compras de roupas novas pela circulação de peças que já existem.
Quanto mais pessoas escolhem reutilizar roupas, menor tende a ser o lucro de uma indústria conhecida pelo desperdício de recursos naturais e mão de obra desvalorizada. No cenário atual dominado pelo fast fashion (modelo de produção acelerada de roupas de baixo custo), prolongar a vida útil de uma peça é um gesto ambientalmente importante. Além disso, os brechós democratizaram o acesso a roupas de boa qualidade, permitiram que pequenos empreendedores encontrassem uma fonte de renda e transformaram o garimpo em uma experiência quase afetiva. Encontrar uma peça única de fato tem um certo encanto, mas talvez seja justamente aí que more uma mistura de valores.

O encanto do garimpo dá lugar, em muitos casos, ao fascínio por exclusividade: A roupa usada deixou de valer apenas pela sua história ou pela sua durabilidade e passou a valer também pela narrativa construída ao seu redor ou contexto impulsionada pelas redes sociais. Uma camiseta comum vira "achado vintage", uma calça jeans dos anos 1990 torna-se "oportunidade raríssima" e peças de marca viram símbolo de status e sorte. Aos poucos, a sensação é de que nem toda peça está sendo vendida pelo que é, mas por seus simbolismos e pelo imaginário que conseguem despertar.
Os brechós existem há muito mais tempo do que a estética vintage das redes sociais faz parecer. No século XIX, a venda de roupas usadas atendia principalmente às populações que não podiam comprar peças novas, e depois das grandes guerras, reutilizar roupas era uma necessidade econômica. Décadas mais tarde, movimentos culturais como o hippie da década de 1960 e o grunge nos anos 1990 passaram a enxergar nesses espaços uma forma de romper com a lógica do consumo em massa, valorizando identidade acima da superficialidade.

Hoje muitos brechós ocupam o lugar oposto daquele de onde partiram, e o que nasceu como alternativa ao mercado acabou sendo absorvido por ele. Apesar da curadoria de moda continuar sendo um trabalho que exige tempo e investimento na seleção, restauração e processo de divulgação de cada peça, o problema aparece quando a palavra "curadoria" parece justificar qualquer valor alto na etiqueta de preço e passa a representar capital cultural para lojas e influencers, aonde quem tem ou sabe reconhecer uma peça “exclusiva” passa a demonstrar conhecimento, repertório e pertencimento a determinado universo da moda. Nesse momento, a discussão deixa de ser sobre sustentabilidade e passa a ser sobre valor simbólico.
Isso ajuda a entender por que os brechós vêm se tornando cada vez mais desejados. As roupas que usamos também comunicam quem somos, de onde viemos e a quais grupos queremos pertencer. Comprar uma peça de segunda mão para muitos já não significa apenas economizar ou evitar desperdícios, mas sim demonstrar bom gosto e consciência ambiental em forma de performance na internet. Além disso, o medo de perder uma oportunidade tornou-se muito presente em comunidades de garimpo, e onde há valorização excessiva, também surgem problemas.
O aumento da procura abriu espaço para vendedores responsáveis e apaixonados por moda, mas também para oportunistas. Cresceram os relatos de golpes em lojas on-line, peças falsificadas anunciadas como originais, descrições enganosas e perfis que desaparecem depois do pagamento. Um modelo de vendas construído ao longo dos anos sobre confiança, hoje em dia carece de mecanismos de proteção para quem compra e para quem vende corretamente.

Talvez o maior desafio dos brechós atualmente seja equilibrar essas duas realidades: de um lado, representam uma das alternativas mais inteligentes para reduzir desperdícios e incentivar a economia circular. Do outro, começam a transformar sustentabilidade em símbolo de status e a ideia de que consumir, mesmo de forma consciente, ainda precisa ser um marcador de distinção. Dessa forma é necessário aproveitar da visibilidade que a tendência trás para o negócio sem prejudicar o consumidor. Mas essa reflexão não diminui a importância dos brechós, apenas nos convida a olhar para eles com menos romantização e mais atenção aos aspectos do consumo não-saudável.
No fim, a essência dos brechós nunca esteve somente em vender roupas raras, mas sim em provar que uma roupa não precisa ser nova para ter valor. Preservar essa ideia talvez seja o verdadeiro desafio de um mercado que cresce rapidamente e que ainda precisa decidir se quer ser uma alternativa à indústria degradante da moda atual ou um modelo de curadoria com vitrines glamourizadas.
SAIBA MAIS |
A prática de consumir produtos para além da sua utilidade mas também exibir valor simbólico e/ou status também é chamada de Consumo Conspícuo, conceito idealizado pelo sociólogo Thorstein Veblen. |
Enquanto o fast fashion aposta na produção rápida e na renovação constante das tendências, o mercado de segunda mão trabalha com peças que já existem, embora a revenda também possa estimular novos ciclos de consumo. |
CURIOSIDADES |
“Vintage” não significa simplesmente “velho” ou “usado”. O termo costuma ser empregado para peças de décadas anteriores que possuem relevância estética, histórica ou simbólica. |
A origem da palavra “brechó” é associada a Belchior, nome pelo qual ficou conhecido um comerciante que teria mantido, no Rio de Janeiro, uma loja de objetos usados e quinquilharias no século XIX. Na época a palavra já ganhava espaço na literatura brasileira como em textos de Machado de Assis. |

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