Marcas do Imaginário: A Pele como Tela e Espelho da Alma
- Revista Spia

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Por Filipi Alexandre
A tatuagem, historicamente, é ligada à identidade, seja ela a do indivíduo ou a de todo o coletivo. Surgiu há milhares de anos como rito de passagem, amuleto de proteção espiritual ou para marcar posições hierárquicas e guerreiras. Feitas com ossos e pigmentos naturais, as marcas representavam a história e a ancestralidade de cada um. O simples fato de ser uma expressão que faz da pele uma tela de pintura atribui a ela um caráter de expressividade e intimidade: por muitas vezes, é possível reconhecer no que as pessoas acreditam, valorizam e amam apenas observando o que riscam eternamente em seus corpos. E, assim como os humanos de milhares de anos atrás, o homem moderno busca expressar suas raízes na pele. É uma das inúmeras formas de gritar para o mundo que sua cultura existe e que a memória daquilo que o formou como ser humano é um pilar fundamental de quem ele é.

Esse processo está profundamente ligado ao trabalho do tatuador pernambucano Marques Hudson, que transforma sua bagagem no design e seu conhecimento acerca do imaginário em combustível para seu trabalho autoral.
Do Design à Tatuagem
A relação de Marques com a arte começou muito cedo. Desde criança, ele já apresentava forte interesse por pintura, ilustração, animação e diversas áreas do mundo da arte. Esse interesse não era exclusivo dele; sua família também compartilhava essa paixão. Seus irmãos também desenhavam, faziam curtas-metragens e trabalhos com tipografia.
Após sair do ensino médio, com 17 anos, ele iniciou a graduação em Design na UFPE, onde adquiriu conhecimentos que posteriormente influenciariam muito seu trabalho no mundo da tatuagem. Mas seu primeiro passo no mercado seguiu um rumo diferente: ele decidiu, primeiramente, mergulhar na criação de marcas, ingressando na área de branding design aos 18 anos, chegando a ter dois estúdios próprios e passando por diversas agências ao longo dos oito anos em que trabalhou nesse ramo. Mas ele sentia que esse não era seu verdadeiro caminho e que era necessário se reinventar.

“A sensação era nada mais, nada menos que a vontade de mergulhar na ilustração novamente. Eu estava saturado do mundo empresarial, do atendimento a empresas e desses desdobramentos que um estrategista de marca vive. E, durante todo esse processo, houve diversas vezes em que eu olhei para o mundo da tatuagem e senti um impulso para ele. Mas acabava ignorando. Até que, finalmente, saturado da profissão que eu vinha executando nesses oito anos, decidi fazer uma transição de carreira.”
Esse processo não foi da noite para o dia. Foi uma construção longa, estruturada principalmente na busca pelo conhecimento necessário para realizar um bom trabalho, conhecimento esse que também foi acumulado ao longo de toda a trajetória.
“E eu tinha muitas ferramentas valiosas comigo. Ferramentas que aprendi no mundo do design. Então trouxe diversos saberes para alinhar com esse novo mundo no qual eu estava entrando. E foi assim que comecei a dar os primeiros passos. Diria até mesmo que os primeiros passos foram lá atrás, com as tatuagens de chiclete e a caneta em gel.”
Símbolos, Fauna e Identidade

O trabalho de Marques tem uma profunda ligação com quem ele é. Todo o aprendizado que conquistou ao longo da vida foi fundamental para a construção de sua estética única, que navega entre a bagagem teórica e afetiva que colecionou ao longo dos anos.
“Eu tento trazer uma aplicabilidade da teoria do imaginário nas narrativas que construo nos meus projetos autorais, principalmente no que diz respeito à criação de conceitos, símbolos e arquétipos, que são faculdades de que gosto de me utilizar em cada nova criação.”
A Teoria do Imaginário foi fundada por Gilbert Durand, antropólogo dedicado a entender a relação entre o homem e suas criações imagéticas, tendo como principal obra As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Mas a teoria de Gilbert Durand não foi a única influência de Marques; é importante ressaltar também o caráter afetivo presente em suas obras.
“Quando vamos olhar para outras influências, essas outras seriam justamente o meu ambiente. O ambiente em que cresci, tanto do ponto de vista da natureza regional quanto da natureza nacional. A nossa fauna e flora brasileiras me trazem forte influência porque, inclusive, eu sempre fui muito apegado à questão de gostar de estar perto dos animais, estudá-los e conhecê-los melhor.”
Todo esse conjunto de influências fica claro quando mergulhamos no processo de criação de suas artes, como, por exemplo, em seu projeto Deep Dive.
Mergulho Profundo: O Processo por Trás do Projeto "Deep Dive"
“E como eu cheguei até essa ideia é uma jornada que sempre começa em algum momento de abstração. Quase todos os meus projetos autorais refletem muito algo que estou abstraindo naquele momento em que os crio. No momento em que criei a coleção na qual o Deep Dive está inserido, foi um momento de aprofundamento na minha vida, aprofundamento sobre mim mesmo, uma retomada da aventura de me autodescobrir, aventura essa que eu havia deixado de lado há algum tempo.

E, nesse processo de voltar a me redescobrir, voltar a praticar meditação e voltar a estudar conceitos ancestrais, naquele momento, por exemplo, eu estava lendo as Upanishads védicas, principalmente o Bhagavad Gita. Então foi um momento de mergulho que eu estava dando dentro de mim mesmo.
E, quando eu sentei para criar uma nova coleção, os símbolos, os arquétipos e os conceitos em volta disso estavam muito claros na minha cabeça. A partir disso, comecei a escolher gráficos que vestissem esses símbolos e arquétipos de uma maneira um pouco mais abstrata, envolvendo também tipografia. E, como eu havia dito, eu gosto de fauna. E um animal que mergulha profundamente, mesmo com o oceano completamente escuro na profundidade em que eles mergulham, são os cetáceos, principalmente as baleias. Então, a minha abstração como signo desse momento de mergulho profundo, mesmo em águas escuras e muitas vezes sombrias, foi a baleia-azul, a maior que existe.
Porém, o enfrentamento do mergulho em si mesmo tem suas recompensas. Apesar do medo do autoconhecimento e da insegurança de fazer esse mergulho, a glória advinda desse enfrentamento é o esclarecimento sobre si e o desenvolvimento da autonomia. E isso vem representado pela estrela.
A estrela é o símbolo da direção. E ela aparece quando o dia acaba e a noite escura surge. Ou seja, é mais um símbolo que vou capturando e adicionando ao projeto para trazer a ideia de que o mergulho profundo na escuridão é o que vai fazer a jornada levar à obtenção da luz. Da direção.
E assim vão se construindo meus projetos autorais, a partir de experiências, sentimentos e conhecimentos que vão sendo convertidos, de maneira consciente, em símbolos, arquétipos e conceitos no geral.”
Quando a Arte Encontra o Público
Ao final de nossa entrevista, questionei Marques sobre como ele usa sua experiência com construção de marca para comunicar ao público seu trabalho autoral. Ele aponta que considera esse processo muito importante, mas que, no momento, prefere não expor seu processo de criação. Acredita no valor da construção que cada indivíduo faz ao contemplar seu trabalho, permitindo que quem está vendo admire, reflita, imagine e abstraia sobre a obra sem o viés do artista, apenas digerindo aquilo que está exposto. Essa é, atualmente, sua metodologia para se apresentar como artista.
“É justamente a recepção positiva. A admiração pelos projetos, a troca de ideias, o interesse em querer adquirir um daqueles projetos exclusivos. Quase como se fosse a possibilidade de um colecionador de arte adquirir mais um quadro de tal pintor. Isso é satisfatório porque você enxerga o reconhecimento do público, mas também é assustador, no sentido de que você começa a deslizar na armadilha de querer ser mais produtivo, diante de uma questão que, para mim, não se trata de performance, e sim de sutilezas e abstrações pontuais.”
Se milhares de anos atrás a tatuagem servia para registrar a história de um povo sobre a pele, hoje artistas como Marques Hudson continuam esse mesmo gesto por outros caminhos. Entre símbolos, fauna e identidade, suas tatuagens não apenas ocupam o corpo: elas contam histórias.
Siga @imaginariomarques para acompanhar mais do seu trabalho.

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